RESUMO
Este relato de experiência é produto de um trabalho desenvolvido por duas psicólogas escolares da Secretaria Municipal de Educação de Diadema durante o período de suspensão das aulas presenciais no contexto da pandemia de Covid-19. A partir do referencial teórico da psicologia histórico-cultural, o projeto denominado Tecendo Sentidos, Juntando Nós consistiu na realização de quatro encontros remotos em grupo com diretores e vice-diretores da educação básica. O trabalho teve como objetivos (a) oferecer espaço para expressão e identificação de sentimentos e emoções vivenciadas durante a pandemia, (b) refletir sobre temas relacionados ao luto concreto e simbólico, às reações esperadas em situação de emergências e desastres, à crítica à medicalização da vida bem como os desafios ao funcionamento da escola na pandemia, (c) estimular e promover o compartilhamento das experiências profissionais desenvolvidas nesse período. De modo geral, o trabalho proporcionou identificação e acolhimento mútuos, contribuindo para reforçar o sentimento de pertença.
Palavras-chave:
Psicologia histórico-cultural; Psicologia escolar; Pandemia
ABSTRACT
This experience report is the product of work developed by two school psychologists from the Diadema Municipal Education Department during the period of face-to-face suspension classes in the context of the Covid-19 pandemic. Based on the theoretical framework of historical-cultural psychology, the project called Weaving Senses, Gathering Knots consisted of holding four remote group meetings with directors and vice-directors of Basic Education. The objectives of the work were (a) to offer space for the expression and identification of feelings and emotions experienced during the pandemic, (b) to reflect about themes related to concrete and symbolic mourning, expected reactions in emergencies and disasters, and criticism of medicalization of life as well as the challenges to school functioning during the pandemic, (c) encourage and promote the sharing of professional experiences developed during this period. In general, the work provided mutual identification and acceptance, helping to reinforce the feeling of belonging.
Keywords:
historical-cultural psychology; school psychology; pandemic
RESUMEN
Este relato de experiencia es producto de un estudio desarrollado por dos psicólogas escolares de la secretaria Municipal de Educación de Diadema durante el período de suspensión de las clases presenciales en el contexto de la pandemia de Covid-19. A partir del referencial teórico de la psicología histórico-cultural, el proyecto denominado Tejiendo Sentidos, Juntando Nudos se consistió en la realización de cuatro encuentros remotos en grupo con directores y vice directores de la educación básica. El estudio tuvo como objetivos (a) ofrecer espacio para expresión e identificación de sentimientos y emociones vivenciadas durante la pandemia, (b) reflexionar sobre temas relacionados al luto concreto y simbólico, a las reacciones esperadas en situación de emergencias y desastres, a la crítica a la medicalización de la vida así como los desafíos al funcionamiento de la escuela en la pandemia, (c) estimular y promover el compartimiento de las experiencias profesionales desarrolladas en ese período. De modo general, el estudio proporcionó identificación y acogimiento mutuos, contribuyendo para reforzar el sentimiento de pertenencia.
Palabras clave:
Psicología histórico-cultural; Psicología escolar; Pandemia
INTRODUÇÃO
O projeto Tecendo Sentidos, Juntando Nós foi desenvolvido a partir das solicitações dos dirigentes da Secretaria de Educação por um trabalho de acolhimento aos diretores escolares da Rede Municipal de Educação Básica do município de Diadema no primeiro semestre de 2021. Considerando o contexto da pandemia de Covid-19, a rotina antes supostamente “controlada e conhecida” foi transformada subitamente, amplificando suas contradições: mudanças no tempo e no espaço, excesso de informações e desinformações, incertezas quanto ao futuro profissional e à própria vida, além de combinações e oscilações de sentimentos e emoções.
O distanciamento social iniciado no Brasil em março de 2020 - medida adotada para a redução do avanço da pandemia - demandou ressignificações do cotidiano e das rotinas pessoais e profissionais. Nas escolas do país as aulas presenciais foram suspensas e na Rede Municipal de Diadema, assim como em outras redes, foram adotadas atividades escolares na modalidade remota, tal qual o contato entre professores, pais e alunos e as reuniões entre diretores, professores, coordenadores pedagógicos e dirigentes da Secretaria de Educação.
O projeto foi elaborado a partir do referencial teórico da psicologia histórico-cultural, que concebe o ser-humano como ativo, histórico e social, estabelecendo relações com o mundo e outros seres, não somente determinado pela realidade, como também determinando-a (Cheptulin, 1982). De acordo com Vigotski (2000), seu principal teórico, a linguagem é entendida como instrumento mediador das e nas relações entre os homens e, por meio dela, operam-se o pensamento e o sentimento e, consequentemente, a constituição de significados. A partir deste arcabouço teórico, o projeto teve como objetivos criar um espaço coletivo para favorecer a expressão, a escuta e a identificação de sentimentos e emoções vivenciadas durante a pandemia, bem como propiciar a discussão de alguns temas relevantes nesse contexto. Na primeira parte, foi proposta a reflexão crítica sobre os processos de medicalização da vida, que tomam questões coletivas, relacionadas a aspectos sociais, políticos, econômicos, culturais e relacionais como problemas individuais, que se manifestariam nos sujeitos sob as formas de “doenças”, “transtornos” ou “distúrbios” (Fórum Sobre Medicalização da Educação e da Sociedade, 2015). Dentro desse contexto, abordamos as reações esperadas em situações de emergências e desastres, enfatizando que determinados sentimentos e emoções remetem ao cenário pandêmico e não necessariamente a indícios de patologias (Noal, 2020). Abordamos, ainda, os conceitos e características de luto concreto e simbólico (Kovács, 1992), processos saudáveis e necessários que, de alguma forma, todos experimentamos a partir de diferentes rompimentos impostos pela pandemia, além da perda de pessoas próximas ou conhecidas, diferenciando-os de outros tipos de luto, que demandam ajuda profissional e configuram exceção e não regra. Na segunda parte do trabalho propusemos a discussão a respeito dos desafios ao funcionamento escolar durante a pandemia, visando o compartilhamento de experiências desenvolvidas por profissionais das escolas nesse período.
De acordo com as Referências Técnicas para Atuação de Psicólogas(os) na Educação Básica,
[...] quando dizemos que a (o) psicóloga(o) quer trabalhar a favor da saúde mental, da formação e da melhoria de condições de trabalho, isso diz respeito ao acolhimento das imprevisibilidades, às tentativas de colocar em análise coletiva o que é produzido no cotidiano, favorecendo a experimentação de outro tempo menos acelerado, mas talvez mais inventivo [...] (CFP, 2019, pp. 33-34).
Para nomear o projeto, utilizamos o verbo tecer, que significa “entrelaçar, juntar uma coisa à outra ou entre si” e o substantivo sentidos, que remete a direções, significados e sentimentos. “Tecendo sentidos” dá nome à primeira parte do projeto - realizada em dois encontros - e expressa a possibilidade de juntar as narrativas a partir dos sentimentos e das emoções vivenciadas no período de pandemia, buscando compartilhar e construir significados. Conforme pontua Lion (2017), na narrativa a [...] “pessoa deixa de estar sozinha em sua experiência e começa a conhecer o que há de comum na diversidade” (p.28). A expressão “Juntando nós” nomeia a segunda parte do projeto - também realizada em dois encontros - utilizando a palavra nós ora como substantivo, em alegoria às dificuldades, ora como pronome, referindo-se à reunião de pessoas, remetendo-se à possibilidade dos participantes, por meio do compartilhamento de experiências, reforçarem ou construírem identificações e sentimentos de pertença ao grupo. O presente relato concentra-se na primeira parte do projeto.
RELATO DE EXPERIÊNCIA
Os 127 diretores e vice-diretores das 61 escolas da rede municipal foram organizados em seis grupos de 12 a 26 integrantes, de acordo com a disponibilidade de horário e as etapas da educação básica em que atuavam: Educação Infantil (creche, de 0 a 3 anos, e pré-escola, de 4 a 5) e Ensino Fundamental I (1º ao 5º ano). Os encontros foram realizados entre maio e junho de 2021, por intermédio de um serviço de videoconferência remota. A proposta foi formalizada por meio de circular da Secretaria de Educação e integrou o cronograma de atividades de formação direcionada aos diretores escolares.
No primeiro encontro, os diretores foram convidados a representar um sentimento vivenciado na pandemia por meio de um desenho ou palavra e, em seguida, apresentar sua produção ao grupo - as apresentações prosseguiram ao longo do segundo encontro, permeadas pelo diálogo entre os participantes e pelas reflexões trazidas pelas psicólogas. Os temas abordados pelos diretores e vice-diretores foram assim categorizados: a) sentimentos e afetos vivenciados na pandemia, b) luto, c) condições de trabalho e uso da tecnologia e d) apoio mútuo e acolhimento entre pares. Destacamos, a seguir, algumas falas e desenhos representativos.
As duas primeiras categorias predominaram, sendo a oscilação, a combinação ou a confusão de sentimentos citados em sua maioria. “Eu me sinto aprisionada, acorrentada. Sentimento de insegurança, instabilidade e conflito o tempo todo, um abre e fecha de sentimentos”. “Desenhei um barco, tem momentos em que ele está no porto, seguro, e momentos em que ele está no mar, à deriva. Pior coisa é não saber o que seguir”. O cenário de dúvidas, incertezas e falta de perspectiva abordados por estas falas foram acompanhados de desenhos como montanha russa, tempestades, caminho árido, estradas sem fim, pontos de interrogação. Tristeza, medo, raiva, insegurança, apreensão, angústia, desespero e preocupação foram sentimentos trazidos com grande intensidade e corroboraram a instabilidade vivenciada no contexto da pandemia. Por outro lado, a esperança também esteve presente, sendo atribuída, ora a um futuro próximo, ora ao presente momento, revelando a contradição do contexto vivenciado: “A sensação que tenho é de que a gente vai para um lado e para outro, sem perspectiva, mas na esperança de que melhore”. “Esperança de dias melhores, a gente tem que acreditar, o que passou não volta mais”. Outro destaque foi a utilização de figuras geralmente presentes na comunicação em redes sociais: os “emojis’’. “Desenhei várias carinhas de emojis rindo, chorando, com muita raiva, indignada”. “Fiz vários emojis: gratidão, medo, dúvida, esperança, alegria, turbilhão de sentimentos”. Os lutos concreto e simbólico estiveram presentes nas narrativas expressando as diversas perdas ocorridas: do espaço físico da escola, da demarcação do tempo a partir dos compromissos presenciais e deslocamentos, das referências anteriormente estabelecidas. “Luto não é só perda da vida, mas de espaços e referências que a gente tinha”. “Perdemos aluno da EJA semana passada”.
As mudanças advindas da situação de teletrabalho também estiveram presentes nos relatos, sendo apontados a sobrecarga e o esgotamento, além das dificuldades na conciliação da vida profissional e pessoal. O desenho de um camaleão simboliza as constantes mudanças de rotina que, segundo depoimento de uma participante, traz inquietações: “Eu me vejo tendo que me adaptar a várias realidades. Só não mudamos de cor porque não tem jeito”. Desenhos de computadores, celulares e de cabeças com seu interior emaranhado ou em confusão compuseram boa parte das produções e, associados a eles, as palavras: sufocamento, cansaço e esgotamento mental. “Estou me sentindo esgotada, mensagens 12 horas por dia, conexão exagerada.” “Sete horas da manhã: 50 e-mails, 80 ligações perdidas, 1200 mensagens de WhatsApp para responder”. Se o uso da tecnologia possibilita o trabalho à distância, também favorece a prontidão e a realização de ações para além da jornada. “Celular não é mais meu, é da escola e não consigo mais falar com meus amigos”. “A tecnologia roubou a nossa privacidade”.
Nesse cenário de incertezas, o apoio mútuo entre colegas de equipe foi reconhecido como fonte de incentivo ou essencial para a continuidade do trabalho. “Só não surtei porque temos uma à outra e, por isso, sou privilegiada”. “Em casa está tudo muito louco e se não fosse a parceria dos colegas ficaria mais difícil”.
A percepção dos participantes de que os sentimentos vivenciados por eles são comuns e a confiança mútua em compartilhá-los proporcionaram a sensação de acolhimento: “Eu me senti acolhida, pois não estou passando por isso sozinha”. Segundo Rosa e Andriani (2008) “a intersubjetividade é um espaço de construção do sujeito e é este espaço que permite a produção de sentidos” (p. 275). Importante ressaltar que o chat (mensagens e/ou comentários por escrito do serviço de videoconferência) foi pouco utilizado, sugerindo que o espaço oferecido para comunicação oral foi percebido como suficiente.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
De modo geral, observamos que o espaço para a expressão e o compartilhamento dos sentimentos, além de revelar as contradições da realidade vivenciada, proporcionou o acolhimento, a identificação e a aproximação entre os pares, reforçando o sentimento de pertença. Os retalhos de histórias trazidas pelos participantes, ao mesmo tempo singulares e comuns, puderam ser alinhavados entre si e conectados com o contexto histórico e social, contribuindo para a (res)significação do trabalho e da vida. Assim, como seres sociais que somos, que tenhamos condições e oportunidades de prosseguir, especialmente no contexto de trabalho, tecendo sentidos e juntando nós.
REFERÊNCIAS
- Cheptulin, A. (1982). A dialética materialista São Paulo: Alfa-Omega.
- Conselho Federal de Psicologia(2019). Referências Técnicas para a atuação de psicólogas(os) na Educação Básica Brasília: CFP.
- Fórum Sobre Medicalização da Educação e da Sociedade(2015). Recomendações de práticas não-medicalizantes para profissionais e serviços de educação e saúde 2. ed. Brasília: CFP .
- Kovács, M. J. (1992). Morte e desenvolvimento humano São Paulo: Casa do Psicólogo.
-
Lion, C. M. (2017). Caminhando no contexto das práticas colaborativas e narrativas: experiências profissionais transformadas. Nova perspect . sist., 26 (57), 21-36. Recuperado de: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-78412017000100003&lng=pt&nrm=iso
» http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-78412017000100003&lng=pt&nrm=iso - Noal, D. (2020, setembro). Saúde Mental e Atenção Psicossocial em Desastres e Pandemias Curso remoto promovido pelo Laboratório de Pesquisa “Psicanálise, Saúde e Instituição” do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. São Paulo - SP.
- Rosa, E. Z., & Andriani, A G. (2008). Psicologia Sócio-Histórica: uma tentativa de sistematização epistemológica e metodológica (pp. 259-288). In: E. M. P. Kahhale(Ed.), A diversidade da psicologia: uma construção teórica. 3. Ed. São Paulo: Cortez
- Vigotski, L. S. (2000). A construção do pensamento e da linguagem Tradução: Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes.
