RESUMO
Esta pesquisa tem por objetivo contribuir com o tema da formação de psicólogos para atuar no âmbito educacional na América Latina. Para tanto, foram analisados artigos acadêmicos publicados em revistas latino-americanas em acesso aberto no período de 2000 a 2020. Identificaram-se 54 revistas e, destas, 32 publicaram artigos sobre a formação de psicólogos (N=238). Deste conjunto, 15 revistas publicaram artigos sobre a atuação de psicólogos no âmbito educacional (N=39), analisados a partir dos seguintes eixos: contexto político, social e cultural latino-americanos; propostas de formação, bem como os desafios a serem enfrentados para a melhoria da qualidade desta formação. Considera-se que o modelo de formação em voga centra-se na articulação entre ciência e profissão, acrescido, no caso da Psicologia Escolar e Educacional, do compromisso ético-político da formação com a educação, com a inclusão social e com o enfrentamento das desigualdades sociais na América Latina.
Palavras-Chave:
formação em psicologia; currículo; psicologia escolar
ABSTRACT
This research aims to contribute to the topic of psychologists training to work in the educational field in Latin America. To this end, academic articles published in open access Latin American journals from 2000 to 2020 were analyzed. In this way, 54 journals were identified and, of these, 32 published articles about the psychologists’ training (N=238). Of this set, 15 magazines published articles about the psychologists’ work in the educational field (N=39), analyzed based on the following axes: Latin American political, social and cultural context; training proposals, as well as the challenges to be faced to improve the quality of this training. It is considered that the current training model focuses on the articulation between science and profession, as well as, in the case of School and Educational Psychology, the ethical-political commitment of training to education, social inclusion and confronting social inequalities in Latin America.
Keywords:
undergraduate education in psychology; curriculum; school psychology
RESUMEN
En esta investigación se tiene por objetivo contribuir con el tema de la formación de psicólogos para actuar en el ámbito educacional en América Latina. Para tanto, se analizaron artículos académicos publicados en revistas latinoamericanas en acceso abierto en el período de 2000 a 2020. Se identificaron 54 revistas y, de estas, 32 publicaron artículos sobre la formación de psicólogos (N=238). De este conjunto, 15 revistas publicaron artículos sobre la actuación de psicólogos en el ámbito educacional (N=39), analizados a partir de los siguientes ejes: contexto político, social y cultural latinoamericanos; propuestas de formación, así como los desafíos a ser enfrentados para la mejora de la calidad de esta formación. Se considera que el modelo de formación en boga se centra en la articulación entre ciencia y profesión, acrecido, en el caso de la Psicología Escolar y Educacional, del compromiso ético-político de la formación con la educación, con la inclusión social y con el enfrentamiento de las desigualdades sociales en América Latina.
Palabras clave:
formación en psicología; currículo; psicología escolar
INTRODUÇÃO
A educação na América Latina se constitui como um campo de importância e de caráter desafiador ao analisarmos os dados educacionais. O desenvolvimento de um sistema formativo das novas gerações, emancipador, acessível e inclusivo requer a instituição de investimentos financeiros e humanos para a elaboração de políticas abrangentes de combate à exclusão escolar e à má qualidade do ensino que afeta milhões de crianças, adolescentes e adultos. A educação, enquanto um direito humano e instrumento de justiça social, é reconhecida internacionalmente desde a Declaração Universal de Direitos Humanos, em 1948 (ONU, 1948).
A educação na América Latina é objeto de estudo de órgãos internacionais, dissertações e teses há décadas; (Bittelbrunn, 2013). A Organización para la Cooperación y Desarrollo Económicos - OCDE, a Comisión Económica de las Naciones Unidas para América Latina y el Caribe - CEPAL, o Banco Mundial e outras organizações, produzem relatórios regulares sobre as áreas de educação e inovação, com dados comparativos que evidenciam o tamanho dos desafios enfrentados para o desenvolvimento de uma Educação Básica de excelência nos países latino-americanos. Em 2014, CEPAL, ONU e OCDE elaboraram um documento intitulado “Perspectivas Económicas de América Latina. Educación, Competencias y Innovación para el Desarrollo” que evidencia problemáticas relativas ao acesso à educação e à permanência estudantil. O relatório enuncia que o acesso à escola primária (1º ao 9º anos do Ensino Fundamental, no Brasil) alcança taxa de matrícula de 94%. No nível secundário, entretanto a taxa cai para 72%, e 50% dos matriculados não concluíram essa fase por motivo de repetência. Por ouro lado, apesar da ampliação considerável do acesso à educação, há também graves consequências de um ensino de baixa qualidade: 48% dos estudantes que acessam a escola primária são considerados analfabetos funcionais, não alcançando os critérios mínimos de alfabetização plena, estabelecidos pela CEPAL (Souza, 2020; Costa & Souza, 2020).
Nesse contexto, o fracasso escolar configura-se como importante objeto de estudo da Psicologia Escolar e Educacional, analisando-o como um processo complexo que se faz fortemente presente nos relatórios sobre permanência estudantil e qualidade do ensino. Estudos brasileiros demonstram que o processo de escolarização é constituído por dimensões culturais, políticas, sociais, pedagógicas, institucionais, relacionais e econômicas que afetam, direta ou indiretamente, a vida no ambiente escolar, a prática pedagógica e os processos de escolarização (Patto, 2015; Souza, 2016).
Considerando o compromisso ético-político da Psicologia com os Direitos Humanos, com o Desenvolvimento Humano e com a Justiça Social, compreendemos que o psicólogo figura como ator importante na implementação e desenvolvimento de um ensino básico de qualidade. Nesse sentido, reconhecer a importância da formação de psicólogos bem como seus princípios para atuar no campo da educação é condição fundamental para a melhoria da qualidade das relações escolares, na constituição de programas que venham a enfrentar as questões de discriminação étnico-raciais, de gênero, religiosa ou de classe social, nas ações que promovam a aprendizagem e o desenvolvimento humano. Recentemente, o Brasil tem desenvolvido discussões relevantes sobre a atuação do profissional escolar na Educação Básica, em um esforço de caracterizar a escola como um espaço concreto que é perpassado por políticas educacionais, formação docente e práticas pedagógicas (CFP, 2019).
Tendo em vista esse cenário, esta pesquisa busca conhecer como a formação profissional de psicólogos é afetada por tais desafios e que propostas são elaboradas para que psicólogos melhor compreendam e atuem sobre esta realidade educacional latino-americana, considerando que as políticas públicas avançaram quanto ao acesso mas ainda não são suficientes quanto à qualidade social do ensino oferecido em todas as faixas etárias (De Sordi et al., 2021).
Para melhor compreendermos o papel da formação em psicologia no enfrentamento de questões pertinentes à realidade da educação latino-americana, é importante considerar a sua história. É indiscutível que a formação do psicólogo latino-americano se estabelece como dimensão fundamental para a atuação profissional, desde que a profissão começou a ser regulamentada na América Latina, ganhando maior visibilidade, a partir da década de 1960.
A primeira Conferência Latino-Americana sobre Formação em Psicologia, foi realizada em 1974, em Bogotá, por Rubén Ardila, estabelecendo um modelo para a formação do psicólogo latino-americano, como descrito a seguir:
Modelo Latino-americano de Formação em Psicologia Apresentado na Conferência Latino-Americana sobre Formação em Psicologia, realizada em 1974, em Bogotá.
Essa Conferência apresentou um diagnóstico da situação da formação e ensino de Psicologia na América-Latina, realizando críticas à ênfase na formação clínica e adotando o que se denominou como “modelo latino-americano” de formação, centrado em dois eixos inseparáveis: ciência e profissão (Gallegos, 2010).
A preocupação com as questões que envolvem a formação e ensino foram responsáveis pela criação de diversas instituições, como o Consejo Nacional para la Enseñanza e Investigación en Psicología (CNEIP: México, 1971), Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (ANPEPP: Brasil, 1983), Comissão de Especialistas em Ensino de Psicologia (CEEP: Brasil, 1997), Associação Brasileira de Ensino de Psicologia (ABEP: Brasil, 1998), Asociación Colombiana de Facultades de Psicología (ASCOFAPSI: Colombia, 1986), Asociación de Unidades Académicas de Psicología (AUAPsi: Argentina, 1991), Red Nacional de Unidades Académicas de la Psicología Chilena (RNUAPSICH: Chile, 1994), Asociación Chilena para la Formación Académica y Profesional en Psicología (ACHIFAPs: Chile, 2006) (Gallegos, 2010). Esse modelo, aventado desde os anos 1970, estruturou a formação de psicólogos no Brasil, bem como o sistema Conselhos de Psicologia, autarquia que regula, orienta e fiscaliza a profissão no país.
No caso da atuação de psicólogos na educação, a formação centra-se nesse modelo, mas apresenta as suas especificidades. Considerando esse percurso entre a instauração de um modelo de formação e os dias atuais, indaga-se quais as principais questões explicitadas por aqueles que pesquisam e atuam no ensino de Psicologia Escolar e Educacional. Assim, esta pesquisa apresenta um levantamento e análise da produção acadêmica do início do século XXI, de forma a favorecer a compreensão do atual cenário dessa discussão.
Conhecer as propostas de formação de psicólogos na América Latina é de interesse da área de Psicologia Escolar e Educacional, pois poderemos compreender, a partir dos dados levantados, influências das diretrizes de órgãos de cooperação internacional nos modelos formativos que se fazem presentes nos cursos superiores em Psicologia; estruturas curriculares e projetos pedagógicos atualmente em desenvolvimento; desafios e necessidades enfrentadas para a formação profissional no âmbito educacional e escolar; tendências teóricas e metodológicas que aparecem nos cursos de Psicologia e sobre a Psicologia Escolar e Educacional; possibilidades de atuação no campo da educação para enfrentamentos de dificuldades de escolarização; inserção profissional no campo da educação; docência no Ensino Médio, dentre outros aspectos relevantes à discussão. Em que pese que todos esses aspectos sejam fundamentais para a compreensão da formação profissional, nesse artigo, delimita-se a apresentação de dados e a discussão em torno dos artigos científicos que discutem a formação em Psicologia Escolar e Educacional, referente à compreensão das influências do contexto político e social latino-americano, bem como sobre os desafios e propostas para a formação.
MÉTODO
A concepção teórico-metodológica adotada baseia-se nas discussões oriundas da perspectiva crítica em Psicologia Escolar e Educacional brasileira que considera a formação em psicologia como centrada em três pilares: compromisso da Psicologia com a luta por uma escola democrática e com qualidade social; ruptura epistemológica relativa à visão adaptacionista de Psicologia; e a construção de uma práxis psicológica frente à queixa escolar (Checchia & Souza, 2003).
O objetivo geral desta pesquisa é conhecer como se apresenta a formação de psicólogos para atuar no campo da educação na América Latina e construir uma base de dados de revistas digitais de Psicologia, editadas na América Latina, em acesso aberto. Para tanto, utiliza como fonte de dados as bases digitais de periódicos disponíveis em acesso aberto: SciELO, Pepsic, Redalyc, Lilacs, páginas virtuais e os sites das revistas científicas de toda a América Latina, tomando como marcador temporal o período de 2000 a 2020.
A pesquisa é uma revisão de literatura sistemática e foi desenvolvida por meio dos seguintes procedimentos metodológicos: a) levantamento de periódicos latino-americanos de Psicologia disponível em acesso aberto; b) identificação de artigos que tomem como tema a formação de psicólogos, publicados nos últimos 20 anos; c) identificação de artigos que, embora não se reportem diretamente à formação de psicólogos, mencionam a formação como fundamental para a atuação profissional; d) identificação e análise de artigos que mencionam a formação de psicólogos para atuar no campo da educação; e) elaboração de uma planilha que identifica e organiza os artigos selecionados.
Para a identificação dos artigos que tematizam a formação de psicólogos, utilizam-se as palavras-chave assim definidas em espanhol e português: Currículo, Psicología Escolar, Psicología Educativa; Ensino de Psicologia, Enseñanza de Psicología; Ensino Superior, Enseñanza Superior; Diretrizes Curriculares, Planes de Estudios, Planos de Estudo; Educação Superior, Educación Superior; e Disciplinas, Asignaturas.
Os artigos elencados, a partir da metodologia descrita acima, foram compilados em planilha Excel própria, em que constam as informações obtidas e caracterizadas da seguinte forma: Título da revista em que se encontra o artigo, Título do artigo, Referência APA do artigo, Resumo, Link de acesso e Temas a que pertence cada um dos artigos selecionados, assim identificados: Currículo; Formação Geral; Intervenção; Metodologia de Ensino; Desempenho; Inclusão; Ensaio; Aprendizagem Escolar; Relação entre Pares na Escola; Relação Escola Comunidade; Saúde Psicológica; Validação de Instrumento. Tais temas foram agrupados nos seguintes Eixos Temáticos: formação geral; currículo, práticas formativas e políticas de inclusão.
RESULTADOS
Neste item, apresenta-se o conjunto de informações obtidas por meio do levantamento de periódicos científicos em Psicologia que se encontram publicados em acesso aberto nas seguintes plataformas SciELO, Pepsic, Redalyc, Lilacs, páginas virtuais e os sites das revistas científicas de toda a América Latina, no período de 2000 a 2020 e que se referem à formação de psicólogos, bem como de psicólogos para atuar na área da educação. Inicia-se com a apresentação do conjunto de periódicos analisados, bem como os artigos neles identificados segundo: nacionalidade, relevância e eixos temáticos.
Foram identificados 54 periódicos científicos em acesso aberto, distribuídos da seguinte forma de acordo com sua nacionalidade: Brasil (N=27, 50%), Colômbia (N=10, 18,5% ), Peru (N=03, 5,5%), Argentina (N=03, 5,5%), Uruguai (N=03, 5,5%), Chile (N=2, 3,7%), México (N=2, 3,7%), Latino-americanos (abrangendo vários países) (N=1, 1,85%), Porto Rico (N=1, 1,85%), Costa Rica (N=1, 1,85%) e Cuba (N=1, 1,85%).
Desse conjunto de publicações, 32 revistas científicas tiveram em seu conjunto de artigos publicados aqueles que se referem a aspectos que constituem: a formação de psicólogos; a formação de psicólogos para atuar no campo da educação ou ainda que mencionam a formação enquanto uma dimensão importante a ser explicitada sobre o tema estudado.
O conjunto de artigos selecionados sobre formação de psicólogos foi organizado em quatro grupos, a saber: GRUPO I (GI, com 108 itens): artigos que se reportam claramente à formação de psicólogos expressando diversas questões, lacunas, ou descrevendo modelos formativos; GRUPO I-B (GIB, com 39 artigos): grupo de artigos que se reportam à formação de psicólogos escolares e educacionais, expressando diversas questões, lacunas, ou descrevendo modelos formativos. GRUPO II (GII, com 130 itens): artigos que não explicitam como objetivo central a formação em psicologia, mas mencionam a importância dessa formação para a atuação profissional. O total de itens incluídos nos grupos I, I-B, II soma 238 artigos.
Os 39 artigos, identificados com a formação de psicólogos para atuar no âmbito educacional e escolar (GI-B), encontram-se em periódicos com as seguintes nacionalidades: 29 artigos brasileiros (74,3%), três artigos chilenos (7,6%), três artigos (7,6%) cubanos, três artigos latino-americanos (7,6%) e um artigo mexicano (2,5%).
Quanto aos eixos temáticas, encontram-se agrupados da seguinte forma, segundo Gráfico 1:
Nesse gráfico, os 39 artigos compilados encontram-se assim agrupados: 22 (56,4%) dedicam-se à formação em geral; sete (17,9%) relacionam-se a discussões sobre o currículo; seis (15,3%) sobre práticas desenvolvidas por meio de estágios e atividades de extensão e quatro (10,2%) artigos sobre políticas de inclusão.
A seguir, analisaremos os dados apresentados em termos de concepções teóricas, desafios e tendências para a área na atuação de psicólogos na área de Psicologia Escolar e Educacional.
DISCUSSÃO
Um dos pontos de destaque dessa pesquisa refere-se ao número de revistas em acesso aberto na área de Psicologia, na América Latina. Identificamos 54 revistas científicas, distribuídas pelos seguintes países: Brasil, Colômbia, Peru, Argentina, Uruguai, Chile, México, Porto Rico, Costa Rica e Cuba, acrescidos dos que constituem a União Latino-americana de Psicología - ULAPSI, composta por entidades da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, México, Paraguai, Perú, Porto Rico, Uruguai e Continental. Considera-se, portanto, que a política de acesso aberto seja fundamental para a pesquisa, disponibilizando a produção científica, democratizando o acesso ao conhecimento e constituindo-se como fundamental para as análises de temáticas referentes à área da Psicologia.
Outro aspecto a destacar, refere-se ao fato de que a temática da formação de psicólogos, que se apresenta desde os anos 1970, mantém-se relevante no conjunto de pesquisas em Psicologia. A forte presença dessa discussão - 238 artigos -, soma-se à organização de duas entidades voltadas especificamente à formação de psicólogos na América Latina: a ABEP1 - Associação Brasileira de Ensino de Psicologia (1999) e a ALFEPSI2, Associação Latino-americana para a Formação e Ensino de Psicologia, 2011 (ALFEPSI, 2020), impulsionando eventos específicos, publicações e atividades voltadas para a formação profissional como revelam seus websites. Quanto à ABEP, entidade nacional, foi fundada em 28 de maio de 1999, na cidade de Brasília e objetiva o desenvolvimento e o aprimoramento do ensino da Psicologia, congregando associações institucionais e individuais. No caso da ALFEPSI (2011), a entidade foi constituída na cidade de Cajamarca, Perú, em 20 de maio de 2011, enquanto uma rede de articulação acadêmica entre instituições formadoras de psicólogos, tanto em nível de licenciatura como de pós-graduação, que tenham suas sedes em países da América Latina e expressa seu compromisso com os princípios que as invocam.
Dentre os dados levantados, é possível observar uma preponderância das publicações brasileiras presentes nos periódicos analisados, liderando, numericamente, todos os dados apresentados. Expressam, muito provavelmente, duas políticas implementadas pela área de ciência e tecnologia no Brasil, cujos resultados são positivos para a organização e divulgação do conhecimento científico: a) a constituição de um Sistema Nacional de Pós-Graduação, realizado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES do Ministério da Educação por meio do Parecer Sucupira de Conselho Federal de Educação no. 977/65; b) política nacional de acesso aberto às revistas científicas, implementada pela SciELO, mantida pela FAPESP - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e pelo Conselho Federal de Psicologia por meio da Biblioteca Virtual de Psicologia - BVS-Psi, em parceria com a BIREME, constituindo a base de dados PEPSIC, com metodologia SciELO.
Quanto aos artigos analisados, destacam-se, a seguir os seguintes aspectos: a) os principais eixos temáticos; b) a compreensão de como o contexto político, social e cultural latino-americano interfere nesta área de conhecimento; e c) propostas e desafios postos para a formação de psicólogos em países latino-americanos.
Analisando os eixos temáticos preponderantes na discussão sobre a formação de psicólogos para atuar na educação, observa-se um conjunto de artigos que abarca três grandes dimensões desta formação: a) dimensão de desenvolvimento pessoal do estudante de psicologia em termos de competências, habilidades, questões ético-políticas, dimensão social dessa formação e propostas para a melhoria do desempenho acadêmico; b) a dimensão curricular e as práticas profissionais, em que ressaltam os conteúdos a serem aprendidos, as experiências curriculares na América Latina e propostas de intervenção que se referem a questões sociais na formação, representadas pelos estágios supervisionados e experiências de extensão universitária; c) a dimensão das políticas públicas de inclusão e de saúde mental que, embora em menor número, revelam a importância dessa tendência na formação de psicólogos escolares e educacionais.
No caso específico desse artigo, a análise principal recairá sobre a compreensão das influências do contexto político e social latino-americano, bem como sobre os desafios e propostas para a formação.
A importância do contexto político, social e cultural latino-americano para a formação dos psicólogos do campo da educação foi um dos pontos mais ressaltados nos artigos analisados. Os pesquisadores centram suas principais críticas em concepções formativas que desconsideram o contexto histórico e social, a dicotomia entre teoria e prática e ressaltam o papel ético do conhecimento científico. Nesta perspectiva, destaca-se o artigo de Asbahr, Martins e Mazzolini (2011), que aponta para a necessidade da compreensão da realidade educacional latino-americana, sob pena de reduzir fenômenos escolares a questões meramente psicológicas e, sobretudo, patológicas. Esse reducionismo produz a culpabilização do aluno, desconsiderando os altos índices de reprovação e abandono escolar na América Latina, ignorando a realidade na qual este aluno está inserido.
No que tange à dicotomia entre teoria e prática, as principais críticas são exploradas no artigo de Neves, Almeida, Chaperman e Batista (2002), que aponta para o fato de que os alunos de graduação em Psicologia têm pouco ou nenhum contato com a realidade escolar de seus países, contribuindo para uma patologização de problemas relacionados à queixa escolar, em detrimento das determinações históricas e sociais que agem no contexto educacional na América Latina.
O questionamento de uma lógica formativa utilitarista e empresarial que dificulta a predominância de debates éticos essenciais a uma Psicologia menos autorreferente, que olhe para a realidade de cada país de forma crítica e leve em consideração a função social da educação figura no artigo de Catalán (2006).
Dessa forma, a defesa apresentada pelas discussões da área centra-se na relevância da dimensão do contexto social, histórico e cultural, tanto na produção de conhecimento, nas intervenções, como também nos currículos. Busca-se assim, uma compreensão da formação mais adequada à realidade dos países em um movimento de superação propositivo e de busca de ações formativas, que possibilitam uma compreensão crítica da realidade educacional, embasada teoricamente, como analisa Javier Peña Sánchez (2014).
Para vários autores, é fundamental a presença de temáticas como a desigualdade social e a violência, que aparecem em diversos artigos, praticamente constituindo-se como constante, com implicações profundas nas teorias e práticas desenvolvidas na região. Um artigo que explora bem a questão apresentada, no contexto chileno, é o de Andrade e Aguilar (2013). Assim, é importante ressaltar que, majoritariamente, a emancipação aparece como uma tendência, induzida por uma análise crítica da realidade vivida na América Latina, sendo que essas temáticas encontram-se quase sempre interligadas ao se tratar da atuação no campo educacional.
A formação de psicólogos da área da educação dentro do contexto latino-americano é um tema complexo, que pode ser abordado de inúmeras formas, com diversos vieses. Justamente devido à diversidade do tema, e da extensão e complexidade da América Latina, não são poucos os desafios enfrentados na busca de um processo formativo: questões sociopolíticas, heranças históricas, extensão geográfica e diversidade epistemológica da Psicologia são alguns dos inúmeros fatores que instigam a formação do psicólogo na área da educação.
A diversidade epistemológica da psicologia e suas implicações sobre a elaboração de currículos é um fator desafiador, que figura direta ou indiretamente em diversos artigos da base estudada (Bock, 2014; Neves, Almeida, Chaperman, & Batista, 2002; Sánchez, 2014; Santos, Menezes, Borba, Ramos, & Costa, 2017; Silva et al., 2016). As diversas concepções de sujeito e objeto, a variedade de abordagens e a produção de conhecimentos múltiplos e, ocasionalmente contraditórios, enriquece, complexifica e dificulta o estudo da psicologia, bem como a formação de um programa universitário. Neves et al., (2002) explicitam e discutem algumas das implicações desta epistemologia plural, evidenciando uma “falta de consenso sobre a formação do psicólogo escolar devido à diversidade de curriculum e modelos teórico-práticos nos cursos de psicologia” (Neves et al., 2002, p. 13). Segundo as autoras, há uma grande distância entre as exigências do cotidiano escolar e o papel teórico do psicólogo e, para elas, foi impossível “traçar um perfil deste profissional de acordo com as diversas escolas teóricas” (Neves et al., 2002, p. 13). Ambos os fatores estariam relacionados à mencionada variedade de curriculum e modelos teórico-práticos. Tais questões são aprofundadas devido a uma contradição entre um modelo de cursos ancorado na priorização do atendimento às necessidades do país” e um “modelo de arquitetura acadêmica institucional ancorado na valorização da internacionalização do ensino superior, espelhado na proposta do governo federal de reforma (Cf. seção de Introdução, MEC/CNE, 2003; art. 44 do Projeto de Lei 7200, Brasil, 2006)”, tal como exposto no artigo de Feitosa (2007, p. 102).
No que tange à formação para docência em Psicologia, a diversidade epistemológica também se torna um desafio. O grande número de áreas de conhecimento relacionadas ou contempladas pela Psicologia ou pela prática psicológica exige do professor, simultaneamente, uma visão abrangente das epistemologias existentes e seus conceitos, um conhecimento mínimo de seus percursos históricos, e uma percepção crítica que permite a discussão geral de seus aspectos; - além de, é claro, conhecimentos aprofundados em uma área de atuação específica. Todas essas competências são pré-requisitos, e devem, necessariamente, ser acompanhadas por uma formação pedagógica que facilite a transmissão de todos esses conhecimentos plurais da maneira mais eficiente, instigante, e horizontal possível (Sekkel & Machado, 2007). Nota-se também, uma preocupação específica com a melhoria do ensino básico, visando maior democratização do acesso à universidade pública.
Em diversos artigos é debatido o lugar educacional da Psicologia, destacando-se que a formação de psicólogos se dá diante da necessidade de inclusão social e democratização do ensino dentro das escolas, sendo que ainda existem, segundo alguns autores, sobreposições de funções entre os profissionais que atuam nesta área. Um artigo que se debruça sobre tal questão é de Dazzani (2010), em que são levantados os seguintes desafios: a) o problema da democracia, dos direitos humanos e da inclusão social nas sociedades atuais; b) a tarefa da educação e da escola formal na consolidação da democracia e na defesa dos direitos humanos e c) a importância do debate sobre o lugar da Psicologia na consecução de uma educação para a democracia.
A atividade de ensino para a formação do psicólogo escolar crítica, por meio de uma educação inclusiva, destacando a importância dos estágios supervisionados e a formação continuada é objeto de discussão nos artigos de Dazzani (2010) e Asbahr (2014), visto que são presentes nos textos a respeito da natureza social do processo de individuação, bem como dos desafios de aprendizagem.
Os artigos de Andrade e Aguilar (2013), Nasciutti e Silva (2014) e Scrivano e Bicalho (2017) apontam como grande desafio nos currículos a preponderância de objetivos supostamente técnicos, que privilegiam o desenvolvimento de funções cognitivas em detrimento de uma formação ética, ou mesmo, crítica. Essa modalidade formativa prioriza o ensino como instituição conservadora, com menor ênfase nos processos e saberes que permitem mudança social. Assim, fica preterido a educação como elemento dinâmico da tessitura sociopolítica, e sua dimensão criativa dá lugar aos aspectos que priorizam a continuidade dos sistemas estabelecidos.
Dentre os artigos levantados há uma percepção de que a formação de um psicólogo voltado para a atuação profissional em ambientes escolares não figura como uma prioridade dentro da graduação em Psicologia. A pesquisa de Santos, Menezes, Borba, Ramos e Costa (2017), ao analisar 19 trabalhos de 1988 a 2011 constatou a necessidade de se “desenvolver pesquisas e aprimorar os conhecimentos da área de psicologia escolar, principalmente no que tange aos currículos e à metodologia pela qual os conteúdos são ministrados aos alunos’’. (p.1); bem como a ausência de especializações voltadas para a área. Há uma forte preocupação com a ausência de cursos de pós-graduação ou mesmo de formação continuada direcionados à Psicologia Escolar.
O papel transformador da educação é compreendido como parte fundamental, complementando seu aspecto de perpetuação da cultura, e agindo como catalisador de mudanças sociais; de modo a enfrentar desigualdades sociais. Nessa chave, um estudo crítico e detalhado sobre a queixa escolar, bem como sobre a produção do fracasso escolar, figura como elemento essencial para a compreensão dos desafios enfrentados dentro da realidade do contexto educacional latino-americano, chamando atenção sobre as noções estabelecidas de saúde, qualidade de vida, e cidadania. Dessa forma, um trabalho de formação para a construção do olhar a respeito de contextos sociais, econômicos e políticos da sociedade torna-se um desafio fundamental. Nessa mesma direção, observa-se a sintonia com o Documento do CFP sobre a Formação de Psicólogas e Psicólogos (2012), questionando em que direção deve ser a formação profissional de modo a compreender a complexidade das problemáticas sociais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Finalizamos este artigo retomando as discussões estabelecidas pela psicologia latino-americana nos anos 1970. O modelo de consenso apresentado na I Conferência Latino-Americana sobre Formação em Psicologia, por Rubén Ardila (Gallegos, 2010), destacou a necessidade de uma formação que articule ciência - entendida enquanto as bases teóricas e metodológicas do conhecimento que fundamenta a Psicologia - juntamente com as práticas profissionais, a serem desenvolvidas por meio das suas áreas de aplicação, sendo a educação, uma delas. Assim, passados 50 anos dessa Conferência, pudemos considerar, por meio dos artigos dedicados à formação de psicólogos na área da educação, a continuidade desse modelo.
Mas, de que ciência nos falam os pesquisadores da área da Psicologia Escolar e Educacional? Essa é uma questão importante que pudemos encontrar nos artigos analisados: uma ciência baseada no compromisso com o desenvolvimento humano, que promova a inclusão social e o enfrentamento às desigualdades sociais, inserida nas políticas públicas, por meio de um pensamento crítico e de uma prática ético-política.
Quanto à dimensão profissional, os artigos expressam experiências no campo da formação de psicólogos para atuar na educação e na docência, com práticas qualificadas e baseadas nos princípios da inclusão social, reconhecendo os contextos sociais, políticos e econômicos latino-americanos.
Não são poucos os desafios a serem enfrentados na América Latina. Cada vez mais o aprofundamento das desigualdades sociais, o autoritarismo, a violência e o racismo nos conduzem a questionar os saberes instituídos. No caso brasileiro, a aprovação da Lei nº.13.935 (2019), constitui uma nova política pública educacional que demandará da formação em Psicologia: a) a compreensão da realidade social e política da rede pública de Educação Básica; b) as estratégias do trabalho em equipes multiprofissionais e c) a compreensão do trabalho em rede de proteção social em ações intersetoriais. Destaca-se, também, todo o processo democrático de discussão, no Brasil, de implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Psicologia, nas edições de 2004, 2011 e 2018, revelando a busca de consensos e de um projeto ético-político-social para a formação nas suas diversas áreas e processos, incluindo os processos educativos, conforme analisam Souza, Checchia, Ramos, Toassa, Silva e Brasileiro (2020). Portanto, a formação de psicólogos para atuar no campo da educação precisará se apropriar da realidade social, utilizando as ferramentas da psicologia que possibilitem compreender os processos históricos, as relações de poder e o desenvolvimento humano.
REFERÊNCIAS
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Nota. (