RESUMO
Há importantes fenômenos que influenciam os processos educacionais e de desenvolvimento de adolescentes na atualidade. Destacam-se os de cunho político-social, como a capilarização de valores de extrema-direita, e os impactos pedagógicos-psicológicos da pandemia de COVID-19. A partir do posicionamento ético-profissional de se trabalhar pedagogicamente essas problemáticas foi desenvolvido o projeto "Atividades Educativas Interdisciplinares! com turmas do Ensino Médio. O presente texto caracteriza-se por um relato de experiência desse projeto, composto pelos serviços de psicologia-escolar, enfermagem-escolar e professoras de Geografia, Português e Sociologia. Ele objetivou desenvolver um processo de ensino-aprendizagem de conteúdos relacionados às dificuldades sociais e conflitos interpessoais apresentados pelos adolescentes, por meio de conhecimentos interdisciplinares, bem como a promoção de saúde mental, através da compreensão e enfrentamento coletivo dessas questões. O projeto é embasado pelos conceitos de "periodização do desenvolvimento" e "formação de conceitos"de Vigotski e de "atividades educativas emancipadoras" de Tonet. Constatou-se que o projeto, ao possibilitar o compartilhamento de diferentes realidades, potencializou a comunicação íntima-pessoal e o aprendizado de conceitos abordados nas disciplinas. Isso coaduna com as formulações de Vigotski acerca da mediação escolar por conceitos científicos, apoiando-se nos conceitos cotidianos, que possibilitam maior compreensão e atuação na realidade. Considerou-se, ainda, que a falta de espaços de diálogo nas escolas pode acarretar frustração perante a educação e irromper em processos mais complexos de violência. Releva-se, por fim, a potência de projetos interdisciplinares para fortalecer a comunidade escolar frente às dificuldades individuais e coletivas, estabelecendo redes de cuidado e saberes.
Palavras-chave:
atividade pedagógica; psicologia escolar; saúde mental; adolescência; ensino médio
ABSTRACT
There are important phenomena that influence the adolescents’ educational processes and development nowadays. Particularly noteworthy are those of a political and social nature, such as the widespread dissemination of far-right values, and the pedagogical and psychological impacts of the COVID-19 pandemic. Based on the ethical and professional stance of addressing these issues pedagogically, the “Interdisciplinary Educational Activities” project was developed with high school classes. This text presents an experience report of this project, which involved school psychology, school nursing, and Geography, Portuguese, and Sociology teachers. The project aimed to develop a teaching-learning process for content related to the social difficulties and interpersonal conflicts experienced by adolescents, using interdisciplinary knowledge, while also promoting mental health through the collective understanding and confrontation of these issues. The project is based on the concepts of “periodization of development” and “concept formation” from Vygotsky and “emancipatory educational activities”, from Tonet. It was found that the project, by enabling the sharing of different realities, enhanced intimate-personal communication and the learning of concepts addressed in the disciplines. This is consistent with Vygotsky’s formulations regarding school mediation through scientific concepts, supported by everyday concepts, which enables greater understanding and action in reality. It was also considered that the lack of spaces for dialogue in schools can lead to frustration with education and erupt into more complex processes of violence. Finally, it is highlighted the potential of interdisciplinary projects to strengthen the school community in the face of individual and collective difficulties, establishing networks of care and knowledge.
Key words:
educational activity; school psychology; mental health; adolescence; high-school
RESUMEN
Hay importantes fenómenos que influencian los procesos educacionales y de desarrollo de adolescentes en la actualidad. Se subraya los de cuño político-social, como la capilarización de valores de extrema-derecha, y los impactos pedagógicos-psicológicos de la pandemia de COVID-19. A partir del posicionamiento ético-profesional de trabajar pedagógicamente esas problemáticas se desarrolló el proyecto “Actividades Educativas Interdisciplinares” con grupos de la enseñanza secundaria. El presente texto se caracteriza por un relato de experiencia de este proyecto, que se compuesto por los servicios de psicología-escolar, enfermería-escolar y profesoras de Geografía, Portugués y Sociología. Él tuvo por objeto desarrollar un proceso de enseñanza-aprendizaje de contenidos relacionados a las dificultades sociales y conflictos interpersonales presentados por los adolescentes, por intermedio de conocimientos interdisciplinares, al mismo tiempo que la promoción de salud mental, por intermedio de la comprensión y enfrentamiento colectivo de estas cuestiones. El proyecto está basado por los conceptos de “periodización del desarrollo” y “formación de conceptos” de Vygotsky y de “actividades educativas emancipadoras” de Tonet. Se constató que el proyecto, al posibilitar el intercambio de diferentes realidades, potencializó la comunicación íntima-personal y el aprendizaje de conceptos abordados en las asignaturas. Eso coaduna con las formulaciones de Vygotsky acerca de la mediación escolar por conceptos científicos, apoyándose en los conceptos cotidianos, que posibilita mayor comprensión y actuación en la realidad. Se consideró, aún, que la falta de espacios de diálogo en las escuelas puede acarretar en frustraciones delante a la educación y resultar en procesos más complexos de violencia. Se muestra, por fin, la potencia de proyectos interdisciplinares para fortalecer la comunidad escolar frente a las dificultades individuales y colectivas, estableciendo redes de cuidado y saberes.
Palabras clave:
Actividad pedagógica; Psicología escolar; Salud mental; Adolescencia; Enseñanza secundaria
INTRODUÇÃO
Há atualmente importantes fenômenos que influenciam sobremaneira os processos educacionais e de desenvolvimento de adolescentes no Brasil. Dentre eles destacam-se os de cunho político - que conformam valores e ações dentre a juventude - e os impactos pedagógicos e de saúde provenientes do período pandêmico.
Em relação à dimensão político-social, houve nos últimos anos a intensificação e capilarização de valores de extrema-direita, inflamando princípios individualistas e contrários à coletividade (Nunes, 2022; Cara et al., 2022), asseverando a intolerância às diferenças e a inferiorização de grupos minoritários num país já demarcado historicamente pelo racismo, classismo e misoginia (Bento, 2002; González, 2020). Como aponta o relatório “O ultraconservadorismo e extremismo de direita entre adolescentes no Brasil”, jovens vêm sendo cooptados por círculos de extrema direita em fóruns online e redes sociais, que disseminam ódio a determinados grupos, propagam concepções antidemocráticas e exaltam atos de violência (Cara et al., 2022).
Essa conjuntura é evidenciada pelas diversas violências das quais as escolas têm sido alvo. São vários exemplos de professoras sendo ameaçadas ou agredidas por familiares que não respeitam os preceitos de uma educação democrática e que acusam o corpo docente de doutrinação. Ao mesmo tempo, o índice de atentados às escolas aumentou sobremaneira nos últimos dois anos (Langeani, 2023); na maioria dos casos os perpetradores das violências eram alunos ou ex-alunos, os quais haviam passado por situações de violência ou frustração durante a vida escolar (Cara et al., 2022). Tal cenário coaduna com a pesquisa da rede de educação de São Paulo, que aponta que 48% dos estudantes sofreram violência nas escolas em 2022 (Apeoesp, 2023).
O contexto supracitado se reflete, ainda, nos dados do anuário brasileiro de segurança pública, que aponta que o Brasil se tornou ainda mais inseguro para crianças, adolescentes e mulheres em 2022. Aumentaram os casos de estupro, principalmente contra menores de idade, bem como a violência doméstica e o feminicídio (FBSP, 2023). A mesma pesquisa expõe que 85% das mortes violentas, na faixa etária de 12 a 17 anos, foram de adolescentes negros - com parte considerável dessas provindo das forças policiais, o que escancara o racismo e a violência de Estado brasileira. Cabe salientar que enquanto esse texto era redigido três grandes chacinas policiais estavam em curso no país, vitimizando corpos jovens e negros periféricos.
As consequências da pandemia de Covid-19 também têm impactado nos processos de ensino e desenvolvimento de adolescentes. Dados da Secretaria de Educação de São Paulo expressam que 70% dos estudantes relataram sentir variados sintomas de ansiedade e depressão em 2022 (IAS, 2022). Isto detém influência do período de isolamento social e retorno ao ensino presencial, que exigiu a readaptação após longo período de mediação pelas telas (Wang et al., 2021); os estudantes também manifestam menos motivação, interesse e autonomia (Instituto Península, 2022).
Esse conjunto demonstra a necessária preocupação com o processo educacional e a saúde mental de adolescentes nas escolas, pois são fatores que podem ocasionar o sofrimento psíquico e gerar barreiras nos processos de escolarização. Nesse sentido, a partir dessa fundamentação o projeto “Atividades educativas interdisciplinares” foi desenvolvido com turmas do Ensino Médio de uma escola da rede federal de ensino. O relato objetiva apresentar a realização e as considerações acerca do projeto.
METODOLOGIA: RELATO DE EXPERIÊNCIA
Este texto se caracteriza por um relato de experiência do projeto “Atividades educativas interdisciplinares - personalidade, violências e saúde mental”, desenvolvido com turmas do primeiro ano do Ensino Médio. Contém o relato de elaboração das etapas do projeto, a síntese de sua aplicação e as considerações acerca do processo.
O projeto parte de um posicionamento ético-profissional e de uma necessidade constatada pela equipe, que é a de se trabalhar pedagogicamente conteúdos que se apresentam como conflitos para o processo de escolarização dos adolescentes. Neste sentido, foi elaborado com os objetivos de realizar um processo interdisciplinar de ensino-aprendizagem, que ao mesmo tempo fomentasse a motivação dos estudantes nos seus processos de estudo a partir da abordagem de contradições sociais presentes em seus contextos de vida, bem como proporcionar a reflexão crítica acerca dessas realidades; e desenvolver estratégias de compreensão e enfrentamento das opressões e contradições sociais, por meio de conceitos científicos e do diálogo coletivo, promovendo assim saúde mental e redes de compartilhamento.
O projeto foi elaborado pela equipe composta pela Psicologia Escolar, Enfermagem Escolar e professoras de Português, Geografia e Sociologia. Ele detém base no conceito de “atividades educativas emancipadoras” (Tonet, 2014); na “periodização do desenvolvimento” e “formação de conceitos” (Vygotsky, 1996; Vigotski, 2009; Tuleski & Eidt, 2020) e nas Referências Técnicas do CFP (2020). Apresentam-se a seguir o planejamento, aplicação e relato dos encontros.
Planejamento: para o planejamento foi considerada a vinculação entre três fontes: 1) A base teórica acerca da periodização do desenvolvimento e da formação de conceitos, 2) O diálogo com as turmas do projeto e 3) O plano de ensino das disciplinas participantes, pois assim os conteúdos curriculares poderiam ser trabalhados considerando, também, a realidade dos estudantes. O que foi destacado dessas fontes:
Quanto à adolescência (1), compreende-se que é um momento de transformação, de outra situação social de desenvolvimento, na qual há o estabelecimento de uma nova maneira de pensar, devido ao predomínio do pensamento por conceitos. Essa modalidade possibilita a complexificação da compreensão da realidade, fazendo com que os adolescentes passem a deter interesses distintos dos da infância (Vygotsky, 1996). Dentre esses, está a relação com o outro, a compreensão da realidade e de si mesmo. A atividade-guia nesse período, comunicação íntima pessoal e a atividade de estudo, possibilita a formação da visão de mundo e a conformação da personalidade (Tuleski & Eidt, 2020). Nesse momento podem se desenvolver novas motivações e maior domínio sobre o pensamento e a conduta, sobretudo se há a mediação por conceitos científicos na educação formal.
Do diálogo com as turmas (2) emergiram como necessidades e interesses as dificuldades na comunicação interpessoal, como afastamento de amigos e conflitos nos vínculos afetivos; o sofrimento psicológico, autoconhecimento e o planejamento do futuro; dificuldades de estudo na passagem ao ensino médio; conflitos familiares; problemas sociais, como desemprego, violência policial e a polarização política; a falta de investimento na escola e as dificuldades de acesso por conta da mobilidade urbana.
Os destaques dos planos de ensino (3) foram - Geografia: características socioculturais, geopolíticas e econômicas da cidade, com destaque ao plano diretor e suas consequências; Sociologia: mundo do trabalho, imaginação sociológica na compreensão da realidade e sistemas econômicos; Português: linguagens e consciência social, relato biográfico e interpretação de texto através de mídias diversas.
Conteúdo das etapas/encontros: Foi realizada uma interlocução entre as três fontes acima, para a elaboração das temáticas e das etapas, por meio de uma reunião entre a equipe. Definiram-se as temáticas, que dão nome ao projeto - personalidade, violências e saúde mental. Nesses conceitos, subentende-se o que a equipe definiu como objetivos do semestre, que é abordar “o que os constitui” (com foco na história de vida e nas influências do território), “o que eles querem constituir” (planos em relação a si e à sociedade) e a relação desses conteúdos com o contexto social atual.
Quanto à metodologia, foi definido que para cada encontro haveria um conjunto de conceitos a serem trabalhados, com organização prévia do processo pedagógico e de mediação grupal; que seriam utilizados materiais como vídeos, textos informativos e produção textual, além do diálogo coletivo. Todo encontro aconteceria no horário de alguma das disciplinas, e seria mediado pelo profissional da Psicologia, da Enfermagem e pela professora, com a presença dos demais membros quando possível.
Quanto às etapas, foram organizadas quatro, a serem desenvolvidas com cada uma das três turmas do primeiro ano do Ensino Médio, totalizando 12 encontros no semestre. Os encontros com seus conteúdos são apresentados a seguir:
Síntese do relato dos encontros.
1º encontro - O objetivo do primeiro encontro foi abordar a influência do território e da cidade para a história de vida e conformação da personalidade de cada sujeito; como as características geopolíticas, econômicas e culturais influenciam na maneira das pessoas viverem, se relacionarem e se desenvolverem. Para começar, a equipe solicitou, dias antes, que os estudantes tirassem algumas fotos do bairro de moradia. Assim, foi abordado com as fotos como cada região é estruturada, se tem serviços de saúde, áreas de lazer, a influência do mercado imobiliário etc. Os estudantes destacaram áreas de pobreza e discriminações vividas por conta de choques socioculturais, como discriminação pela cor da pele, o preconceito de classe, o racismo religioso, a violência contra as mulheres e outras. Foram discutidas, ainda, as características das comunidades tradicionais e das relações de cada bairro, como as famílias de pescadores, comunidades indígenas, terreiros de umbanda, a existência ou ausência das redes comunitárias e o quanto isso influencia na qualidade de vida e na força política. Foi possível relacionar diferentes conceitos e iniciar a discussão de maneiras de compreender e transformar a realidade - dialogando assim com a geografia, psicologia, sociologia e outros. Destacou-se o papel que a escola detém nesse processo, ao possibilitar a preparação e discussão quanto aos problemas sociais.
2º encontro - O segundo encontro buscou desenvolver a reflexão acerca dos projetos dos estudantes, a médio e longo prazo; o quanto o contexto sociopolítico favoreceria ou dificultaria esses planos e o que seria possível perante tal realidade. Conceitos importantes foram trabalhados: trabalho, universidade, vida adulta e projeto de vida. O encontro foi desenvolvido a partir de perguntas reflexivas, com o objetivo de se encaminhar para as contradições e possibilidades do mundo do trabalho na sociedade capitalista. Os estudantes trouxeram como conteúdo a problematização acerca da desigualdade e as classes sociais; a lógica do lucro como base das relações, as dificuldades familiares e condições de saúde. Por fim, foi exibido o curta “El Empleo” (Sotelo & Tacher, 2008) para se relacionar com o conteúdo previamente discutido. Cabe destacar que os estudantes trouxeram os conceitos da matéria do encontro (Sociologia), como Alienação, Fetichismo da Mercadoria e divisão sexual-racial do trabalho.
3º encontro - Este encontro teve como objetivo a preparação para a última etapa do projeto. Buscou-se a reflexão acerca dos conceitos de opressões e preconceitos, para no último encontro ser abordado como os estudantes podem se portar frente às contradições sociais em suas próprias vidas. Foi exibido o vídeo “O Perigo de uma História Única” (Adichie, 2009) e posteriormente solicitado que eles redigissem uma resenha, com elementos biográficos, expressando como eles percebiam as histórias únicas em suas vidas. Apesar de eles saberem expressar sobre preconceitos e violências sociais, foi notado que alguns detinham dificuldade em produzirem sobre suas vivências. Nas resenhas apareceram temáticas como violências e preconceitos vivenciados no período escolar, como racismo, homofobia, além de violências familiares. Cabe salientar como muitas vivências que ocorreram nos primeiros anos de escolarização continuaram reverberando no Ensino Médio. Foi um momento relevante de relacionar autorreflexão e as condições culturais, bem como de expressão escrita.
4º encontro - O último encontro buscou discutir proposições acerca dos problemas previamente abordados. Inicialmente foram levantadas quais dificuldades a geração dos jovens de hoje enfrenta e quais as perspectivas possíveis. A partir de perguntas disparadoras, foram levantadas as dificuldades da passagem entre a adolescência e a vida adulta, sendo que os estudantes elencaram o alto custo de vida, as condições de trabalho e as dificuldades em estabelecer qualidade de vida, com destaque aos processos de adoecimento mental. Após algumas reflexões iniciais, foi exibido o vídeo “Eu quero a periferia na USP” (Torres, 2021), após o qual a maioria dos estudantes expressou que o caminho da educação e da ciência é importante para a promoção coletiva de uma sociedade igualitária e como um meio de alcançar conhecimento e um trabalho, além da necessária participação em movimentos sociais que lutam por igualdade - ainda que não tenha sido uma opinião unânime. O coletivo sintetizou a importância dessas reflexões para conseguir estabelecer projetos de vida sem estarem deslocados ou subjugados pelos problemas da sociedade.
DISCUSSÃO E CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente projeto ganhou alento a partir do momento em que a equipe se questionou em como abordar um conjunto de dificuldades pedagógicas, que estavam aliadas ao sofrimento psicológico do corpo estudantil. Prontamente denotou-se que seria propício o desenvolvimento de uma atividade coletiva interdisciplinar, com a equipe pedagógica e docente. A conversa prévia com as turmas, numa circunstância de retorno ao ensino presencial e num momento de entrada no Ensino Médio, demonstrou a necessidade da aproximação entre a equipe e os adolescentes, por meio da mediação por conceitos que se vinculavam às aflições e conflitos apresentados.
Desta maneira, o projeto foi constituído pelos conhecimentos curriculares das disciplinas, pelos arcabouços teórico-práticos da Psicologia e da Enfermagem no campo escolar e pelas contribuições e saberes dos estudantes. Assim, foi possível que a escola e a equipe exercessem sua função social, do ensino do conhecimento científico-cultural, ao mesmo tempo em que realizaram um processo de promoção de saúde mental e elaboração de violências presentes nos contextos de vida. Essa abordagem corroborou para a construção dos vínculos, fortalecendo a comunidade escolar e favorecendo os processos de acolhimento pela Psicologia, Enfermagem, Pedagogia e demais membros da equipe pedagógica.
Destaca-se que a proposta potencializa o aprendizado, pois possibilita o compartilhamento de diferentes contextos de vida, incentivando a atividade de comunicação íntima pessoal - que foi um dos problemas relatados no pós-pandemia, e que é notado devido ao distanciamento social de um conjunto de sujeitos. Foi constatado, assim, que a abordagem dessas situações sociais fez com que se materializassem conceitos trabalhados nas disciplinas. Isso coaduna com as formulações de Vigotski (2009), que aponta que a mediação escolar por conceitos científicos, dialogando com os conceitos cotidianos, possibilita reestruturações da consciência, promovendo maior compreensão e atuação na realidade - o que foi percebido pelos estudantes e pela equipe. Isso realça que é oportuno um processo de ensino-aprendizagem que transcorra considerando as unidades razão-emoção, conhecimentos cotidianos e científicos, sociedade e sujeitos.
Considera-se, ainda, que a falta de espaços mediados de escuta e diálogo coletivo na escola, elaborados junto a profissionais da Psicologia Escolar por exemplo, dificulta o processo de enfrentamento dos paradigmas éticos da sociedade contemporânea e podem acarretar processos de sofrimento, frustração em relação à educação e irromper socialmente em processos mais complexos de violência. Releva-se, por fim, a potência do encontro entre estudantes e equipe, por meio de uma proposta dialógica, para se construir as dimensões do ensino e da afetividade, frente aos problemas individuais e coletivos, estabelecendo redes de cuidado e saberes.
REFERÊNCIAS
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As autoras e autores declaram que o conjunto de dados do estudo não está disponível publicamente, pois contém informações pessoais e sobre instituições de ensino que permitem identificar os estudantes.
