Open-access DEVE-SE QUEIMAR A NOÇÃO DE SUBLIMAÇÃO? 1

HAY QUE QUEMAR LA NOCIÓN DE SUBLIMACIÓN?

RESUMO.

O presente artigo trabalha a noção de sublimação dentro da obra de Freud, a fim de extrair as consequências que sua definição tem para a metapsicologia e para a clínica psicanalítica. De modo a alcançar esse objetivo, traçamos a evolução da noção ao longo da obra freudiana bem como os usos que o autor faz desta em seus casos clínicos. Reinserindo questões levantadas por Laplanche tenciona-se em que implicaria a ideia de objetos socialmente valorizados, bem como, a tese da dessexualização da pulsão e sua diferenciação com o recalque, em vias de indagar o estatuto metapsicológico da sublimação em Freud. Concluímos que a repetição do uso do conceito está ligado diretamente à produção artística e intelectual, tal como aparece em publicações recentes, não se sustenta ao levarmos em consideração as implicações metapsicológicas de sua definição e de seus usos. Por fim, propomos pensar a noção de sublimação sempre referida a uma dinâmica psíquica específica, de maneira a sobressair elementos clínicos que nos permitam diferenciá-la de outros destinos possíveis da pulsão.

Palavras-chave:
Sublimação; arte; clínica psicanalítica

ABSTRACT.

This study delves into the notion of sublimation within Freud’s works, seeking to extract the consequences of its definition for metapsychology and for the clinic. Aiming to achieve this objective we trace the evolution of such notion throughout Freud’s work, as well as how the author uses it in his clinical cases. Thus, reinserting issues raised by Laplanche, we wonder what are the possible implications of the drive’s dessexualization thesis, the idea of socially valued objects and its differentiation with repression. We conclude that the repetition of the use of the concept, when linked directly to artistic production, as it appears on recente publications, cannot be sustained once we take into account the implications of its definition and uses. Lastly, we propose to think about the notion of sublimation, always referring to a specific psychic dynamic, in order to highlight clinical elements that allow us to differentiate it from other possible destinations of the drive.

Keywords:
Sublimation; art; psychoanalytic clinic

RESUMEN.

Este artículo trabaja la noción de sublimación dentro de la obra de Freud, buscando extraer las consecuencias que su definición tiene para la metapsicología y para la clínica psicoanalitica. Para lograr este objetivo, trazamos la evolución de la noción a lo largo de la obra de Freud, así como los usos que el autor hace de ella en sus casos clínicos. Así, reinsertando cuestiones planteadas por Laplanche se pretende que implique la idea de objetos socialmente valorados, así como la tesis de la desexualización de la pulsión y su diferenciación con la represión, en el proceso de indagación del estatus de sublimación en Freud. Concluimos que la repetición del uso del concepto directamente ligado a la producción artística no puede sostenerse si tenemos en cuenta las implicaciones de su definición y sus usos. Por fin, proponemos reflexionar sobre la noción de sublimación, siempre refiriéndonos a una dinámica psíquica específica, con el fin de resaltar elementos clínicos que nos permitan diferenciarla de otros posibles destinos de la pulsión.

Palabras clave:
Sublimacion; arte; Clinica psicoanalítica

Introdução

A palavra sublimação origina-se do latim sublimare, que podemos traduzir como elevar ao alto (França Neto, 2007). No campo da alquimia, a sublimação se refere a um processo de purificação ou transformação do metal em ouro puro, e na química, nomeia a passagem de uma substância do estado sólido para o estado gasoso sem que essa substância passe pelo estado líquido (Lage, 2008). Na definição freudiana de sublimação encontramos algumas ressonâncias tributárias desses usos: tal como na alquimia, é um processo de transformação que está em jogo, só que dessa vez se referindo à pulsão, do sexual ao não sexual, e tal como na química, a uma passagem direta de um estado a outro, que não passa pelo intermédio do recalque. Aquilo que Freud descreve como uma atividade de sublimação estará ligado, sobretudo, à criação artística e à investigação científica. (Laplanche & Pontalis, 1999). Apesar da extensão da obra de Freud e das várias aparições do termo, não temos nenhum ensaio do autor dedicado exclusivamente à noção de sublimação. O manuscrito a respeito do assunto, se é que existiu, foi queimado ou perdido (Laplanche, 1999). Nesse sentido, por mais que tenhamos certa homogeneidade nas indicações de Freud sobre o tema, elas carecem de uma sistematização, de uma metapsicologia (Laplanche, 2016). É o que nos demonstra o próprio Freud em um texto tardio como Mal-estar na civilização, afirmando que a sublimação teria uma “[...] qualidade especial, que um dia poderemos caracterizar metapsicologicamente” (Freud, 1930, p. 24).

Porquanto, há diversas produções na literatura que fazem o empenho de preencher a lacuna teórica da sublimação em Freud, esforçando-se para encontrar as continuidades nas suas indicações sobre essa noção (como França Neto, 2007; Lage, 2008), e outras que exploram as articulações entre o processo analítico e a sublimação (Castiel, 2006). No presente artigo tomamos a noção de sublimação em Freud como fio condutor e nos perguntamos: a “[...] sublimação ainda é útil, utilizável, utilizada?” (Laplanche, 2016, p. 35). Para respondermos a essa pergunta estruturamos o trabalho em quatro diferentes seções.

Na primeira seção, buscaremos retomar a noção de sublimação ao longo de distintos momentos da obra de Freud, com intuito de definir o que o autor entenderia por sublimação bem como compreendermos as variações que a noção sofreu ao longo da obra. Em um segundo momento, tencionamos a relação entre a sublimação e a prática clínica, retomando as menções à sublimação nos casos de Freud. Na terceira seção abordamos o problema envolvendo a definição do que seriam os objetos visados pela sublimação. Por fim, tentamos compreender as especificidades metapsicológicas da sublimação, por que ela se diferenciaria do recalque e em que implica a dessexualização envolvida no processo.

A sublimação em Freud

A primeira utilização do termo sublimação por parte de Freud se dá na correspondência com Fliess, em 1897. Na carta, Freud afirma que a histeria remonta a reprodução de cenas do passado e que essas surgiriam na análise sob a forma de fantasias que operariam como “[...] sublimações dos fatos, embelezamento deles [...]” (Masson, 1986, p. 240). Elas teriam, portanto, o caráter defensivo de evitar o surgimento de cenas com conteúdos sexuais. Mesmo que Freud utilize apenas o termo, não designando a sublimação como uma noção, podemos entrever o caráter de dessexualização que persistirá, ainda que com diferentes tonalidades, ao longo de toda sua obra (Campos & Loffredo, 2019).

No texto ‘Três ensaios sobre a teoria da sexualidade’ (Freud, 1905a), Freud trará a sublimação, dessa vez, enquanto uma noção igualmente marcada como uma defesa contra o sexual. A dessexualização das moções pulsionais perverso polimorfas seria peça fundamental para as realizações culturais, sendo a noção de sublimação atrelada a esse processo. Quer dizer, a sublimação lida com elementos disruptivos para, senão pacificá-los, ao menos fornecer-lhes modos de expressão compatíveis com a cultura. Nesse momento, Freud não chega a diferenciar a sublimação da formação reativa, tendo essa, portanto uma relação direta com o recalque.

O processo de sublimação toma contornos mais nítidos somente em 1908 com a publicação de ‘Moral sexual ‘civilizada’ e doença nervosa moderna’ (Freud, 1908). Seguindo a mesma linha de raciocínio, Freud afirma que o processo civilizatório impõe certas restrições à satisfação sexual direta, sendo necessário trocá-la por satisfações indiretas. Assim, “[...] essa capacidade de trocar a meta originalmente sexual por outra, não mais sexual, mas àquela aparentada psiquicamente, chama-se capacidade de sublimação” (Freud, 1908, p. 369). Ou seja, temos uma troca do objeto e da meta da pulsão, ainda que nesse texto não fique clara a diferença entre o recalque e a sublimação.

No texto sobre Leonardo Da Vinci (Freud, 1910), o autor articula a atrofia da vida sexual de Leonardo à sua intensa produção enquanto cientista e pesquisador, tomando Leonardo como exemplo paradigmático de sublimação. A distinção entre o recalque e a sublimação fica mais nítida na teorização sobre as origens da pulsão de saber. Freud propõe que a pulsão de saber é um sucedâneo da investigação sexual infantil que teria três destinos possíveis com a irrupção do recalque. Sendo o primeiro a inibição neurótica, uma forma de impedimento do pensar suspendendo a atividade intelectual ao longo do desenvolvimento pela via da religião. O segundo seria a sexualização do pensamento que possui um caráter de ruminação interminável, como observamos nas neuroses obsessivas. E o terceiro tipo, ao qual Leonardo é associado, em que a “[...] libido se furta ao destino da repressão, ao sublimar-se em ânsia de saber desde o início e juntar-se ao vigoroso instinto de pesquisa, reforçando-o” (Freud, 1910, p. 140). Distinguem-se, então, recalque e sublimação, movimento que continuará no texto ‘As pulsões e seus destinos’ (Freud, 1915a) com a delimitação da sublimação como um dos destinos possíveis da pulsão em contraposição ao recalque. Apesar de serem textualmente apontados como diferentes destinos da pulsão, perguntamo-nos em que medida podemos diferenciar a sublimação dos produtos do recalque, sobretudo se levarmos em conta a dessexualização da pulsão.

No mesmo período de elaboração dos artigos sobre a metapsicologia, temos formulações pertinentes sobre o tema da sublimação no texto ‘Introdução ao narcisismo’ (Freud, 1914). Sobretudo a diferenciação entre os processos de idealização e sublimação. Cabe ressaltar que nesse texto estamos em um período intermediário entre os desenvolvimentos da primeira e segunda teoria das pulsões na qual Freud deixará de se referir ao conflito entre pulsões de autoconservação e pulsões sexuais, para trazer as noções de libido objetal e libido do eu. Aqui, o processo de sublimação é descrito da seguinte maneira: “[...] o instinto se lança a outra meta, distante da satisfação sexual; a ênfase recai no afastamento ante ao que é sexual” (Freud, 1914, p. 40) enquanto a idealização se refere a uma “[...] superestimação sexual do objeto” (Freud, 1914, p. 41). Então a sublimação se refere à pulsão, uma inibição da meta que é sempre a satisfação sexual por meio da troca do objeto que passa a ser socialmente valorizado, ao passo em que a idealização se refere ao objeto sem que tenhamos uma dessexualização da libido. Essa última pode favorecer o recalque; já a sublimação é um destino possível para a exigência de trabalho da pulsão que não passa pelo recalque (Freud, 1914).

Após a virada de 1920, com o novo dualismo pulsional, o conflito passa a ser entre as pulsões sexuais e pulsões de morte. A sublimação é descrita como um processo que ocorre por intermediação do eu e que teria um caráter de dessexualização, conversão de libido objetal sexual para libido narcísica (Freud, 1923). O eu se apodera da libido do isso, dessexualizando-a e a unificando em único objeto de amor, trabalhando a favor de Eros (Freud, 1923). Porém, esse trabalho de sublimação acarreta em uma defusão pulsional, liberando os componentes agressivos da pulsão de morte que podem subjugar o eu. Essa indicação para pensarmos uma dimensão mortífera da sublimação foi pouco trabalhada depois de Freud, ainda que tenhamos pesquisas recentes que se debruçaram sobre esses efeitos (Metzger & Silva Júnior, 2010; Lage, 2008; Carvalho, 2006).

Os últimos desenvolvimentos da noção de sublimação estão presentes no texto ‘O mal-estar na civilização’ (Freud, 1930). Ao assinalar as possíveis saídas encontradas pela pulsão para contornar os sofrimentos impostos pela civilização, o autor elenca a sublimação como uma maneira de deslocar a meta das pulsões, obtendo-se prazer a partir do trabalho intelectual e psíquico, e cita como exemplos a alegria do artista na criação e a do pesquisador na resolução de problemas (Freud, 1930). No entanto, relaciona um problema a esse tipo “[...] mais fino e elevado” (Freud, 1930, p. 24) de satisfação da pulsão, que seria a falta de intensidade em comparação às satisfações mais grosseiras, uma vez que “[...] ela não nos abala fisicamente” (Freud, 1930, p. 24). Denota também uma dependência do mecanismo de sublimação de certo talento ou disposição especial. Porém, em uma interessante nota de rodapé, o autor fala da possibilidade de incluir o trabalho nessa esteira de deslocamento de componentes libidinais, isso apenas quando o trabalho é escolhido livremente e não por força da necessidade (Freud, 1930). Compreendemos essa falta de intensidade da satisfação presente na sublimação como relacionada à dessexualização que está presente no processo, no entanto, temos diversas modalidades de criação artística que têm relação direta com a corporeidade, como a dança, o teatro e a performance. Além disso, perguntamo-nos como ficaria essa separação entre satisfações grosseiras e finas, se levarmos em consideração toda a dinâmica de prazer envolvendo voyeurismo/exibicionismo.

Então, congregando os diversos momentos de definição do termo em Freud, podemos afirmar que a sublimação é um processo em que a pulsão sexual se desvia para uma meta não sexual e passa a visar objetos socialmente valorizados (Freud, 1905a, 1908, 1914), sendo um destino da pulsão que não passa pelo recalque (Freud, 1910, 1915a). Partindo desta definição, podemos nos remeter à anedota da faca de Jeannot (Laplanche, 1980): trocamos um a um os componentes de uma faca, troca-se a lâmina, continua sendo a faca de Jeannot, troca-se o cabo e, por fim, troca-se a bainha, continuamos falando da faca de Jeannot? Ou seja, como continua a pulsão sendo sublimada? Quando falamos de dessexualização da pulsão, separamos a pulsão de sua fonte, sua meta (inibida) e modificamos seu objeto (socialmente valorizado). O que restou da pulsão?

A sublimação nos casos clínicos de Freud

Compartilharmos da impressão de Jean Laplanche de que raramente mencionamos a sublimação em nossas discussões clínicas e supervisões (Laplanche, 2016). O motivo elencado pelo autor como explicação para isso seria a ‘razão da cruz vermelha’: se em uma guerra estabelecermos o acordo de que não se deve atacar as ambulâncias, é muito provável que o inimigo se utilize delas como camuflagem. Nesse sentido, em uma análise tudo seria material de interpretação para o analista, não havendo uma separação entre sublimações respeitáveis que não devem ser tocadas. “Essa escolha de analisar tudo, sem respeito nem reserva, seria a transposição da famosa frase de Montfort ‘matem todos; Deus reconhecerá os seus’ - num ‘analise tudo, a sublimação reconhecerá os seus’” (Laplanche, 2016, p. 36, grifos do autor). Optamos, no entanto, por tencionarmos a relação entre sublimação e clínica, retomando as menções a noção de sublimação nos casos clínicos de Freud e em trabalhos recentes.

No caso Dora (Freud, 1905b), temos quatro passagens distintas que se referem à noção de sublimação. A primeira menção afirma que a náusea sentida por Dora ocorreria por “[...] deslocamento da sensação” (Freud, 1905b, p. 201) e que nesse sentido faltaria a sublimação genital que seria comum “[...] numa garota saudável em tais circunstâncias” (Freud, 1905b, pp. 201-202). Na segunda, Freud aponta que quando alguém se torna perverso manifestamente, na verdade apenas permaneceu assim. Haveria nesses casos uma inibição presente no desenvolvimento que barrou a sublimação ou recalque das pulsões sexuais (Freud, 1905b). Em ambas as menções, a sublimação é tomada como uma espécie de índice do desenvolvimento normal que, quando inibido, geraria o sintoma ou a perversão. As próximas duas alusões à sublimação se referem a transferência, que poderia ocorrer de forma sublimada, atenuada ou como “[...] simples reimpressões” (Freud, 1905b, p. 312), isto é, transposição completa de seu conteúdo, com exceção da substituição pela figura do médico (Freud, 1905b). Notamos que o uso da noção nesses trechos é consonante com a primeira aparição do termo nas correspondências com Fliess. A sublimação aparece como uma atenuação das cenas vividas, agora transposta para a análise sob a forma de fantasias. Nesse sentido, a sublimação é de difícil diferenciação à capacidade de deslocamento da pulsão.

Tanto no caso do Pequeno Hans (Freud, 1909a) quanto no Homem dos Ratos (Freud, 1909b), publicados no mesmo ano, temos apenas uma menção à sublimação. Em Hans, o termo aparece em nota de rodapé, quando o paciente se distancia de seus componentes sexuais, por conta de uma “[...] forte onda de repressão” (Freud, 1909a, p. 273), e desperta interesse pela música. No caso do Homem dos Ratos, a sublimação é citada como um dos destinos dos componentes sexuais ao longo do desenvolvimento, sendo o adoecimento por conta da sexualidade uma espécie de transtorno no desenvolvimento, pois alguns indivíduos “[...] não conseguem atingir a supressão e sublimação dos componentes sexuais sem que haja inibições e formações substitutivas” (Freud, 1909b, p. 65). Percebemos a persistência do tom desenvolvimentista presente nos ‘Três ensaios’, em que a sublimação é associada a um estágio de supressão da sexualidade infantil ao longo do desenvolvimento, que ocorreria concomitante ao recalque com a diferença de não gerar inibições ou formações reativas. Como podemos pensar essa supressão da sexualidade infantil, sem associá-la ao recalque? E em que medida os destinos sublimatórios se diferenciam de fato de inibições ou formações reativas?

Na análise da autobiografia de Schreber, a noção de sublimação aparece timidamente para se referir ao sol do delírio de Schreber como um “[...] símbolo sublimado do pai” (Freud, 1911, p. 48), borrando as fronteiras entre simbolização e sublimação. E em outro trecho, a riqueza da construção delirante de Schreber e sua relação com a religião faz Freud perceber retrospectivamente a riqueza das sublimações destruídas (Freud, 1911). Por fim, Freud reitera o vínculo entre a rejeição das práticas sensuais, por parte de homossexuais manifestos, e a “[...] intensa participação nos interesses gerais da humanidade, surgidos mediante a sublimação do erotismo” (Freud, 1911, p. 53).

Aqui, uma breve consideração se faz válida: entendemos que a sexualidade na psicanálise se refere à sexualidade infantil perverso polimorfa tal como descrito nos ‘Três ensaios’ (Freud, 1905a). Trechos como esse nos dão a impressão que a dessexualização das pulsões presente no processo de sublimação se refere exclusivamente à genitalidade, tal como na vida sexual empobrecida de Leonardo, paradigma da sublimação. Se admitirmos essa hipótese, sempre encontraríamos uma relação inversamente proporcional entre a atividade sexual genital e a sublimação, o que não nos parece ser o caso, visto que mesmo Leonardo não tinha uma vida sexual tão empobrecida como queria Freud (Laplanche, 1980).

No caso do Homem dos Lobos (Freud 1918), encontramos o maior número de referências à noção dentro dos casos clínicos de Freud. A sublimação do Homem dos Lobos se dá pela “[...] religião domando as tendências sexuais, ao lhe proporcionar uma sublimação” (Freud, 1918, p. 101) e pelo entusiasmo por coisas militares, que seria “[...] uma nova e melhor sublimação do seu sadismo” (Freud, 1918, p. 101). Tendo um viés de defesa contra angústia, “[...] ele primeiramente se havia protegido pela sublimação religiosa e da qual logo deveria se proteger, de modo ainda mais eficaz, pela sublimação militar” (Freud, 1918, p. 63). É interessante notar que a religião que no texto sobre Leonardo aparece atrelada à inibição do pensamento (Freud, 1910) agora é tomada como sublimação no caso do Homem dos Lobos.

Há duas formas de se interpretar essa contradição. A primeira é apontar para a dificuldade de Freud em distinguir a sublimação do recalcamento. Lembremos que a religião equivale, em outros textos do autor (Freud, 1927), à neurose obsessiva, portanto, fruto do recalcamento. Uma segunda maneira de se interpretar, sobre a qual voltaremos adiante, é que o próprio objeto da sublimação varia dentro de cada dinâmica psíquica, isto é, a religião pode ser via sublimatória num caso, mas ser consequência de recalcamento em outro. Uma vez mais, questionamos quais seriam as diferenças práticas entre esses casos.

Então, retomando as menções à sublimação nos casos clínicos de Freud, percebemos que a sublimação é tomada como um índice de normalidade, por assim dizer. Se há neurose, se há sintoma, retrospectivamente não houve sublimação da pulsão, que geraria um destino sem conflito e sem formações reativas. Também notamos que Freud se refere à sublimação ora como uma dessexualização na esfera genital, como na vida sexual de Leonardo, ora como ligação dos componentes agressivos da pulsão, na sublimação do sadismo pelo entusiasmo por coisas militares que ocorre no homem dos lobos. Talvez seja por isso que raramente mencionamos a sublimação em nossas discussões clínicas. No entanto, o pudor relativo ao uso da noção desaparece ao deitarmos personagens históricos e artistas em nossos divãs, como a pintora mexicana Frida Kahlo (Becker, 2016), a artista francesa Orlan (Falbo & Freire, 2009), o escritor David Foster Wallace (Carvalho, 2010). Será, então, que a noção de sublimação seria reservada à psicanálise aplicada? Não por acaso, a referência principal permanece sendo o Leonardo de Freud (1910). Acreditamos, porém que essa desvinculação da sublimação e clínica se deva mais à ideia de dessexualização, presente na noção. Podemos dizer que na clínica o que nos interessa é o sexual, no sentido de que nunca reduziremos um atraso à sessão a uma simples discussão sobre os horários de trem (Laplanche, 1987).

Sobre objetos socialmente valorizados

Os artistas não sublimam. Crer que eles não satisfazem nem reprimem seus desejos, mas transformam-nos em realizações socialmente desejáveis, suas obras, é uma ilusão psicanalítica; aliás nos dias de hoje, obras de arte legítimas são, sem exceção, socialmente indesejadas (Adorno, 1951, p. 186).

Para além da turbulenta, a relação entre sublimação e clínica, outro importante ponto de tensão que está associado à noção de sublimação se refere à troca do objeto da pulsão. Entendemos que o objeto é o componente mais variável da pulsão (Freud, 1915a), quer dizer, os objetos pelos quais a pulsão vai alcançar sua satisfação não têm nenhum tipo de marcador instintivo. No entanto, o que seriam esses objetos ‘socialmente valorizados’ pelos quais a pulsão vai alcançar a satisfação na sublimação? Como podemos delimitar esses objetos socialmente valorizados, sendo que a psicanálise não comporta uma teoria dos valores? (Laplanche, 1980)

A ideia de que existem objetos socialmente valorizados pressupõe certa norma social que a própria psicanálise recusa. Parece ser um consenso afirmarmos que o artista e o pesquisador sublimam (Freud, 1930), isto é, as produções artísticas e científicas são socialmente valorizadas pelos psicanalistas, mas o mesmo consenso desaparece se tomamos como objeto elementos cotidianos. “Por que sempre o pintor e o pesquisador, e não o torneiro, o jogador de golfe ou quem cultiva seu jardim? E o que dizer de quem se fascina ao navegar pela internet?” (Laplanche, 2016, p. 36).

A premiada peça O evangelho segundo Jesus Rainha do Céu, de Jo Clifford, que retrata Jesus na atualidade como uma mulher transgênero, pode ser entendida como uma sublimação, o que não a impediu de ser alvo de diversos ataques por parte de políticos e religiosos, chegando inclusive a ser censurada. No mesmo momento, a peça recebeu suporte de campanhas de visibilidade e de companhias de teatro, o que demonstra como os objetos e valores visados pela sublimação nem sempre participam de um consenso conformista e variam dentro de diferentes grupos sociais (Laplanche, 2016).

Ainda sobre os objetos da sublimação, não podemos esquecer que além dos valores se referirem a grupos sociais específicos - um objeto socialmente valorizado dentro de um grupo pode ser desvalorizado em outro grupo - eles também estão inseridos em circuitos pulsionais singulares. Isto é, o estatuto de um objeto está intimamente relacionado com a dinâmica psíquica de um sujeito. Não faz sentido então nos perguntarmos se a criação artística, por exemplo, teria sempre um caráter de sublimação, senão que essa criação dentro de um caso específico o tenha - assim como no caso do Homem dos Lobos, onde a religião, que em linhas gerais pode ter o caráter de uma inibição do pensamento, assume a função de uma sublimação (Freud, 1918). Portanto, entendemos que os objetos da sublimação devem ser referenciados dentro de cada caso, não sendo possível dar à arte ou a qualquer outro objeto um estatuto de sublimação a priori.

Posto isso, permanecem as questões: quais são as diferenças clínicas a serem apontadas na relação entre o sujeito e objeto nos casos de sublimação e de recalcamento? Para ficar na contradição anteriormente apontada, o que faz a relação com a religião do Homem dos Lobos ser sublimação e não fruto do recalque? No que ela se distingue da relação dos religiosos apontada tantas vezes por Freud como uma relação neurótica, fruto do recalcamento, se o que estamos falando nesse caso é justamente de uma dominação, do sadismo infantil?

Dessexualização

Quais são as especificidades metapsicológicas da sublimação? Como podemos diferenciá-la de uma inibição ou formação reativa? Procuramos demonstrar que os objetos da sublimação não podem ser definidos a priori, assim, não podemos simplesmente evocá-los de maneira a distinguir a sublimação de outros conceitos, como se ela fosse um destino especial da pulsão que tem como resultado a criação artística e intelectual. Descartando então uma definição de sublimação que passe por uma exemplificação dos objetos, nos resta outros dois elementos elencados por Freud como específicos, o primeiro se refere à sublimação ser um destino da pulsão que não passa pelo recalque (Freud, 1915a), tal como a transformação da matéria em estado sólido para o gasoso que não passa pelo líquido, e o segundo se refere à dessexualização da pulsão (Freud, 1905a, 1908, 1914). O que seria uma relação de objeto dessexualizada? Como podemos pensar uma relação dessexualizada que não passe pelo recalque? E mesmo se admitirmos essa hipótese, será que essa dessexualização se daria sem restos?

Como assinalado na seção sobre os casos clínicos, em alguns momentos, Freud parece atrelar a dessexualização, presente na sublimação, a um afastamento da sexualidade genital (Freud, 1910, 1911). Para além dessa interpretação erigir uma espécie de ‘artista assexual’ como figura privilegiada da sublimação - o que poderia ter resultados cômicos, como psicanalistas pesquisando a vida sexual de artistas - nos perguntamos se “[...] quando Freud diz que na sublimação a meta sexual se torna não sexual não estaria ele mesmo reduzindo seu próprio conceito do que é sexual?” (Castiel, 2006, p. 93). Insistimos aqui no entendimento do sexual no sentido ampliado, afinal a relação de uma mãe com seu recém-nascido nos mostra que por mais afastada que uma relação seja da genitalidade, isso não implica numa ausência da sexualidade infantil, pelo contrário, essa relação está impregnada pelo sexual. Ainda na contramão dessa aproximação entre dessexualização e genitalidade, Kameniak (2009) nos conta como Freud teria proposto o conceito de sublimação por meio das lembranças de Richard Sterba, psicanalista que frequentava a Sociedade Psicanalítica de Viena.

Freud abriu a discussão nos contando como ele tinha chegado ao conceito de sublimação. Ele tinha lido no Harzreise de Heine a história de um jovem que, por maldade sádica própria da juventude, cortava a cauda de todos os cães que conseguia apanhar, sobre grande protesto da população das montanhas de Hartz. Esse mesmo jovem tornou-se mais tarde o famoso cirurgião Johann Friedrich Dienffenbach (1795-1847). Freud fez, então, o seguinte comentário: ‘Temos aqui alguém que fez a mesma coisa durante toda a sua vida, inicialmente por maldade sádica, em seguida para fazer o bem à humanidade. Eu pensei que seria correto chamar de sublimação essa mudança de sentido em uma determinada ação’ (Sterba, 1982 apud Kameniak, 2009, p. 505, grifos do autor).

Neste exemplo, assim como no homem dos lobos, a tese da dessexualização parece se referir a uma sexualidade ampliada, um destino do sadismo como que afastado da meta, cortar caudas de cachorros transforma-se em cortar humanos durante uma cirurgia. Soares e Coelho (2014) afirmam que podemos interpretar esse exemplo do cirurgião, tanto como erotização, quanto como dessexualização, quer dizer, eles situam a dessexualização diante dos dois dualismos pulsionais - o que nos parece ser outra via de compreensão do problema. Se o sexual do primeiro dualismo parece ter a ver com uma vertente mais demoníaca da pulsão, a sexualidade infantil perversa polimorfa que entra em conflito com a autoconservação, no segundo dualismo, as pulsões sexuais de vida, entram em conflito com a pulsão de morte, ou seja, o campo do não sexual passa a ser a pulsão de morte. Essa relação dessexualizada seria regida pela autoconservação ou pela agressividade/destrutividade? É nesse sentido que Soares e Coelho (2014) parecem interpretar o exemplo do cirurgião, dessexualização na primeira teoria das pulsões (renúncia ao sadismo sublimada na medicina) e erotização no segundo dualismo “(ligação da pulsão sádica, fazendo-a expressar-se no talento para medicina)” (Soares & Coelho , 2014, p. 597). Essa aparente mudança de estatuto da dessexualização quando situada diante dos dualismos pulsionais pode ser solucionada se compreendermos que “[...] a primeira teoria das pulsões continua virtualmente presente na segunda” (Laplanche, 2016, p. 40). No conflito entre pulsões de vida e pulsões de morte, a autoconservação subsiste nas pulsões sexuais, o ser humano não luta pela sobrevivência da espécie, mas por amor ao seu eu. A pulsão de morte estaria mais do lado da pulsão sexual sem amarras, o sexual freudiano antigo (Laplanche, 1980). Freud se recusa a propor uma energia específica para a pulsão de morte, um destrudo, trata-se de uma única e mesma libido com modos de circulação diferentes, de um lado sexualidade em estase, ligada a representações, pulsão de vida e do outro lado sexualidade livre, desligada, pulsão de morte (Laplanche, 1980).

Nessa linha de interpretação, não vemos sentido em falar da sublimação enquanto uma dessexualização da pulsão, mas sim como “[...] a vitória do amor em estase, investido em objetos estáveis, sobre a instabilidade e a tendência para a descarga absoluta que caracteriza a libido ao nível das fantasias inconscientes” (Laplanche, 1980, p. 116). E também como “[...] transferência ou transposição da energia sexual de morte em energia sexual de vida, como a domesticação ou ligação de uma pulsão em suas origens anárquica e destrutiva” (Laplanche, 2016, p. 40). Essa mudança de foco, falar em ligação da energia livre ao invés de dessexualização da pulsão, parece estar em sintonia com o uso que Freud faz da noção de sublimação em seus casos clínicos. Pensarmos nessa transposição, como acarretando uma perda energética, talvez explique o porquê de a intensidade de satisfação na sublimação ser amortecida (Freud, 1930). Além de manter algo da sexualidade livre, que resiste a ligação.

Porém, esse entendimento implica numa compreensão muito específica da teoria das pulsões freudiana feita por Laplanche, o que nos faz perguntar em que medida não estamos apenas multiplicando soluções verbais, em vias de manter o conceito de sublimação. Não é nosso objetivo tencionar a definição freudiana de sublimação para desembocarmos numa definição de outro autor, mas trabalharmos o conceito de sublimação em Freud. Isso nos leva a um ponto que é sempre evocado para diferenciar a sublimação do sintoma ou formação reativa, que se refere à sublimação ser um destino da pulsão que não passa pelo recalque (Freud, 1910, 1915a).

Ao mesmo tempo em que o recalque tem uma faceta constitutiva, de separação tópica, ela também exige dispêndio de energia constante para se manter o representante pulsional recalcado (Freud, 1915b). Antes de se efetuar essa separação tópica entre consciente e inconsciente, as defesas frente aos impulsos são efetuadas pela transformação no contrário e a reversão contra a própria pessoa (Freud, 1915b). Nota-se que apesar da sublimação se diferenciar do recalque, ela surge enquanto destino possível concomitante a esse5. A representação pulsional é recalcada, pois apesar de sua realização direta produzir prazer, isso se tornaria inconciliável com outras exigências e as formações substitutivas seriam fruto do retorno do recalcado - exemplos desse retorno se encontram nos sintomas e nas formações reativas presentes nas neuroses de transferência (Freud, 1915b).

De saída, podemos nos perguntar qual a diferença das formações substitutivas e das sublimações? Por que a sublimação do sadismo pelo interesse militar, ou a transformação do sadismo em talento para medicina, deveria ser lido como sublimação, escapando ao recalque, e não como formação substitutiva, fruto do retorno do recalcado? Retomando a citação “[...] ele primeiramente se havia protegido pela sublimação religiosa e da qual logo deveria se proteger, de modo ainda mais eficaz, pela sublimação militar” (Freud, 1918, p. 63), o que parece estar em jogo seria certo grau de sucesso da defesa contra a angústia. A sublimação funcionaria como que gerando menos sofrimento e conflito. É certo que temos sublimações profundamente apaziguadoras, como nos dá testemunho a escultora parisiense Louise Josephine Bourgeois, “As ansiedades desaparecem para sempre. Nunca voltarão. Eu sei. Funciona” (Bourgeois apud Rivera, 2005, p. 62). Mas suspeitamos que ela também possa ter efeitos mortíferos para o sujeito, como nos demonstra Lage (2008) ao analisar os efeitos das oficinas terapêuticas no contexto da saúde mental: “[...] a própria atividade parece ser responsável pela intensificação da angústia, podendo favorecer o desencadeamento de uma crise” (p. 14). Além disso, podemos lembrar do trágico destino de diversos artistas que cometeram autoextermínio - como Sylvia Plath, David Foster Wallace, Virginia Woolf e Alexander McQueen - ou mesmo da angústia que pós-graduandos enfrentam na escrita de suas teses e dissertações, para termos alguns indícios de como a sublimação poderia também incrementar essa angústia. Deste modo, por mais que Freud aponte que a sublimação é um mecanismo que se diferencia do recalque, não se confundindo com seus derivados, temos certa dificuldade em conceber como podemos diferenciá-la em nossa prática clínica.

Considerações finais

“Faço esculturas para me livrar delas” (Giacometti apud Laplanche, 2016, p. 48).

Procuramos defender que a sublimação não pode ser definida pelos seus objetos, como que num esquema tautológico: criação artística equivale à sublimação e a sublimação é o mecanismo responsável pela criação artística; ou por um critério de valorização social externo à psicanálise, o que implicaria num campo normativo. Faltam também critérios metapsicológicos, a tese da dessexualização nos parece antifreudiana e a diferenciação com os produtos do recalque não é verificável na clínica. Retomamos a pergunta: a “[...] sublimação ainda é útil, utilizável, utilizada?” (Laplanche, 1999, p. 35). Se a sublimação não nos parece útil, a noção certamente se faz presente, é utilizada, em trabalhos de psicanálise aplicada, que versem sobre algum artista (Falbo & Freire, 2009; Carvalho, 2010; Becker, 2016). Porém, sua presença não é tão proeminente em publicações que se refiram a casos clínicos, tivemos dificuldade em encontrar artigos que abordassem casos clínicos e a sublimação em nossa pesquisa6. Cabe indagar se a referência à noção não se tornou uma reverência, vaga, obrigatória, sem uma concepção metapsicológica clara e, portanto, não utilizável.

Ademais, é curioso que seguindo a pista de Freud, os psicanalistas se esforcem para articular a criação artística à sublimação das pulsões, sobretudo se levarmos em consideração a dessexualização presente no processo sublimatório. Seguindo esse raciocínio podemos considerar a sublimação ao lado da monotonia, como uma sobreadaptação do sujeito à cultura, repetição de formas burocráticas de simbolização que se impõe por ideais culturais. Ao passo que a criação artística guarda uma relação com o excesso, com o inédito, que rompe com as possibilidades sublimatórias oferecidas pela cultura (Adorno, 1951). O sexual não pode ser inteiramente domesticado, dessexualizado, sempre há um resto rebelde à sublimação, que não se submete a ela e talvez seja esse resto que coloque em marcha a criação artística. Portanto, se considerarmos a criação como aquilo que resiste ao movimento de dessexualização, e a contrapormos à sublimação, teremos um terreno fecundo para pensarmos justamente um destino da pulsão que escape ao recalque, sem se confundir com seus derivados, e que permita simbolizações profundamente renovadas.

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    » https://doi.org/10.1590/1984-0292/1321
  • 1
    Esse título remete ao texto de Laplanche (1988). É preciso queimar Melanie Klein? Consultamos também as traduções em inglês e espanhol do texto de Laplanche de maneira a manter a referência ao título.
  • 5
    O fato de se diferenciar do recalque, ao mesmo tempo em que surge concomitante a esse favorece o entendimento de Freud da sublimação como dependente de certo talento ou disposições especiais (Freud, 1930). Isso pode ser interpretado por uma via essencialista, mas também, como uma vertente constitutiva da sublimação. No entanto, sabemos da possibilidade de uma sublimação tardia, que poderia ser produzida inclusive na clínica (Laplanche, 1980).
  • 6
    No único artigo encontrado, Lowenfeld (1941) discorre sobre a análise de uma artista e formula interessantes hipóteses a respeito da relação entre trauma e sublimação.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Jun 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    19 Ago 2021
  • Aceito
    13 Dez 2023
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