Open-access UMA DESCRIÇÃO DA SUSTENTABILIDADE E O VIVER NA ECOVILA INKIRI PIRACANGA

UNA DESCRIPCIÓN DE LA SOSTENIBILIDAD Y EL VIVIR EN LA ECOALDEA INKIRI PIRACANGA

RESUMO

A preservação dos recursos ambientais e a minimização dos impactos ambientais da vida humana na terra, sustentabilidade e desenvolvimento sustentável são tópicos que se sobressaem frente ao contexto de crise ambiental experimentado. Em função disso, o fenômeno das ecovilas vem tomando destaque por ser um assentamento humano que reúne vida em comunidade e maior integração com a natureza. O objetivo desse estudo é descrever as práticas sustentáveis, a vivência comunitária e a forma de organização e funcionamento da ecovila Inkiri-Piracanga. Os procedimentos metodológicos partem de uma abordagem etnográfica, utilizando-se principalmente de entrevistas informais e observação participante. Os resultados indicam práticas e valores referentes ao autoconhecimento, à solidariedade e à comunidade, fortalecendo assim, os vínculos afetivos. Além de serem evidentes projetos e técnicas de cuidado com a natureza em formato de gestão participativa. Nota-se que ecovilas contribuem para a construção e implantação de meios sustentáveis para lidar com a crise ambiental.

Palavras-chave:
Psicologia comunitária; desenvolvimento sustentável; etnografia

ABSTRACT

In the context of the current environmental crisis, topics such as the preservation of environmental resources, minimizing the environmental impacts of human activities on Earth, and sustainability and sustainable development are particularly notable. Consequently, ecovillages have gained prominence as human settlements that combine community life with greater integration with nature. This study describes the sustainable practices, community life, and the organization and functioning of the Inkiri Piracanga Ecovillage. The study employs an ethnographic approach based on informal interviews and participant observation. The results reveal practices and values associated with self-knowledge, solidarity, and community, which strengthen emotional bonds. Furthermore, projects and techniques for nature conservation through participatory management are evident. It is noted that ecovillages contribute to the development and implementation of sustainable solutions to the environmental crisis.

Keywords:
Community psychology; sustainable development; ethnography

RESUMEN

La preservación de los recursos ambientales y la minimización de los impactos ambientales de la vida humana en la Tierra, la sostenibilidad y el desarrollo sostenible son temas que destacan en el contexto de la crisis ambiental experimentada. Por ello, el fenómeno de las ecoaldeas ha ido tomando protagonismo por ser un asentamiento humano que reúne la vida comunitaria y una mayor integración con la naturaleza. El objetivo de este estudio y describir las prácticas sostenibles, la experiencia de la comunidad y la forma en que se organiza y funciona la Ecoaldea Inkiri-Piracanga. Los procedimientos metodológicos parten de un enfoque etnográfico, utilizando principalmente entrevistas informales y la observación de los participantes. Los resultados indican prácticas y valores relacionados con el conocimiento de sí mismo, la solidaridad y la comunidad, fortaleciendo así los lazos afectivos. Además de ser evidentes los proyectos y técnicas de cuidado de la naturaleza en un formato de gestión participativa. Se observa que las ecoaldeas contribuyen a la construcción y aplicación de medios sostenibles para hacer frente a la crisis ambiental.

Palabras clave:
Psicología comunitaria; desarrollo sostenible; etnografia

Desenvolvimento sustentável, sustentabilidade e ecovilas

Intensificação das desigualdades sociais e econômicas, degradação das condições de trabalho e recursos naturais são realidades relacionadas ao crescimento do capitalismo (e.g., Suša, 2019). É observada uma relação mútua entre problemáticas ambientais e sociais de forma que problemas ambientais são criados ou intensificados por fatores sociais e econômicos atrelados ao neoliberalismo. Visto, por exemplo, na relação entre desigualdade social, exploração do trabalho e acesso a saneamento básico (Soares, 2020). Porém, essas discussões vieram adquirir destaque após iniciativas como a criação da Comissão Mundial de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Comissão Brundtland), que abriu espaço para discussão sobre o ‘desenvolvimento sustentável’ (Boff, 2013).

Desenvolvimento sustentável refere-se à utilização racional dos recursos naturais pela geração presente de forma que não comprometa o uso desses recursos para as gerações posteriores, a partir das dimensões econômica, ambiental e social (e.g., Pereira et al., 2011). Para Boff (2013), ‘sustentabilidade’ é ação de preservação à terra e seus ecossistemas visando boas condições de vida, no qual o foco não é o crescente progresso e manutenção de padrões do capitalismo.

Nesse cenário de preocupação ambiental surgiu e tomou destaque o movimento das ‘ecovilas’, pois é uma proposta de vida integrada à natureza. Não há um modelo padrão de ecovila (Santos Júnior, 2006), mas a base é ser comunidade intencional (i.e., um viver comunitário e intencional) e ser sustentável (Morais & Donaire, 2019). Além disso, em geral, estão presentes aspectos de dimensões: comunitária; (b) econômica; (c) espiritual; (d) ecológica (Santos Júnior, 2006).

São características da dimensão comunitária a perspectiva de partilha, a união, a resolução de conflitos, o respeito à diversidade, o estreitamento de laços, as atividades integrativas, como celebrações e danças circulares (Cecchetto et al., 2014); a sensação de pertencimento e a identidade comunitária (Santos Júnior, 2006). Em um estudo realizado em uma ecovila, Cavalcanti (2019) salienta a sensação de pertencimento de grupo/comunidade, idealização da convivência e aponta a existência de tensões entre liberdades individuais versus coletividade. Em uma aproximação entre aspectos comunitários e espirituais, Comunello e Carvalho (2015) citam danças circulares, desenvolvimento humano, multiplicidade cultural (várias nacionalidades e línguas). Na dimensão espiritual, Roysen (2013) menciona a ampliação da experiência espiritual, com elementos de várias religiões, conexão com a natureza, saúde, emoções, autoconhecimento e práticas holísticas, o que é verificado em parte na etnografia de Comunello e Carvalho (2015).

A dimensão econômica envolve ações para geração de renda própria e autossuficiência, como turismo, manejo de projetos socioambientais, cursos e incentivo aos projetos comunitários (Belleze et al., 2017). Cecchetto et al. (2014) destacam o incentivo à economia local, com implantação de moeda própria, trocas de objetos entre os moradores, produção local de alimentos, desapego a bens e diminuição do consumo. Indo ao encontro disso, na ‘economia solidária’ (e.g., Boff, 2013) são destacados práticas e valores contrários ao capitalismo, em que as relações humanas são enfatizadas e não o lucro. Nas relações trabalhistas envolvem solidariedade, formas democráticas de autogestão, desenvolvimento local e qualidade de vida do trabalhador. Na governança destaca-se o papel da liderança, com a criação de novas formas e ideias e coparticipantes. Borges e Sguarezi (2019) ressaltam o papel da autogestão − baseada em decisões democráticas e cooperação nas relações trabalhistas. É uma tentativa de atuação local, com iniciativas e projetos de inclusão social.

Na governança são observadas a gestão e a liderança com divisão de responsabilidades, processos de tomada de decisão, confiança, criatividade e participação dos membros (e.g., Algarvio, 2010). Muñoz-Villarreal (2018), ao caracterizar uma ecovila, mencionou a organização por meio de células temáticas de atuação, na qual os membros têm diferentes papéis e responsabilidades, tomam decisões com tema de cada célula em interação com outras células.

Na dimensão ecológica há práticas de minimização dos impactos da vida humana no ambiente, conexão com a natureza, práticas alternativas de alimentação (e.g., vegetariana), utilização de fontes de energias renováveis e biodigestores (Cecchetto et al., 2014). O objetivo é construir assentamentos compatíveis com os ecossistemas locais, utilizar os recursos naturais de forma racional, investir na recuperação ambiental e produção orgânica de alimentos (Santos Júnior, 2006). Há uso de sistemas de tratamento de resíduos sólidos e banheiros secos, reciclagem, coleta seletiva, compostagem, produção de biofertilizantes (Algarvio, 2010) e bioconstrução (Belleze et al., 2017).

Psicologia e cuidado ambiental

O ‘comportamento pró-ambiental’ (CPA) tem sido estudado em várias áreas, como na psicologia (e.g., ChiErrito-arruda et al., 2019; Corral-Verdugo & Pinheiro, 1999; Espitia-Torres & Naranjo-Montoya, 2020; Nascimento, 2019). CPA é o comportamento voltado à manutenção da vida, ao cuidado e preservação ambiental (Corral-Verdugo & Pinheiro, 1999). Na psicologia nota-se a temática da sustentabilidade, sobretudo em áreas como psicologia ambiental e psicologia social comunitária (PSC).

A psicologia ambiental estuda a relação mútua entre o comportamento humano e o ambiente. O ‘ambiente’ abrange o tangível (físico-químico), contextos e variáveis socioculturais (Corral-Verdugo, 2005; Santos et al., 2019). A PSC recebeu influências de movimentos populares e se volta para questões relacionadas à transformação social e à realidade política (Maciel & Alves, 2015). A ‘comunidade’ é o local de permanência dos moradores e de partilha. O ‘sujeito da comunidade’ é um ator social ativo que desenvolve laços afetivos, apoio mútuo, compromisso, identificação com a sua realidade e sentimento de pertença. Para a transformação da realidade é fundamental a ‘participação comunitária’, que envolve desenvolvimento social, protagonismo, controle da realidade, resgate e valorização da cultura local, visibilidade e voz a setores esquecidos e invisíveis. Deve levar à conscientização e ao desenvolvimento dos sujeitos (Góis, 2008; Wiesenfeld, 2015).

O desenvolvimento parte de dentro da comunidade, mediante fatores sócio-históricos, culturais e subjetivos, mas conta com contribuições de agentes externos (Góis, 2008). Existe impasses ao articular a atuação dos atores sociais como sujeitos ativos para promoção do desenvolvimento e sustentabilidade (e.g., Maciel & Alves, 2015). A exemplo, Favero et al. (2016), em uma pesquisa-ação em uma comunidade, investigaram a percepção de moradores sobre riscos ambientais. O estudo apontou elementos como sentimento de pertença e apoio comunitário, mas pouca mobilização comunitária.

Elvas e Moniz (2010) investigaram a relação sentimento pertença, satisfação e qualidade de vida, com 30 participantes (7 aos 15 anos) residentes em dois bairros de Lisboa, Portugal. O instrumento de coleta de dados tinha 52 questões, baseado na escala multidimensional de satisfação de vida das crianças (MSLSS) e no índice de sentimento de comunidade (ISC). Os resultados indicaram correlação moderada positiva entre sentimento de comunidade e a satisfação de vida (p < 0,001, r = 0,60), quer dizer, o aumento do sentimento de pertença está associado ao aumento da satisfação de vida. O sentimento de pertença contribuiu para os programas comunitários que, por sua vez, se relacionam ao desenvolvimento sustentável; e no bairro mais antigo (com ligações mais fortes entre as vizinhanças) foi visto maior sentimento de pertença e identidade, comparado ao bairro mais recente.

Frente ao cenário ambiental atual é notável a importância de estudar ecovilas, por envolver aspectos como equidade social, preservação da natureza e qualidade de vida, observado nos estudos empíricos de várias áreas (e.g., Cavalcanti, 2019; Flores & Trevizan, 2015; Comunello & Carvalho, 2015; Muñoz-Villarreal, 2018; Morais & Donaire, 2019; Roysen, 2013; Sales, 2017; Siqueira, 2017; Silva, 2021; Tres & Souza, 2022). Este estudo se propõe a descrever as práticas sustentáveis, vivência comunitária, organização e funcionamento da ecovila Inkiri Piracanga.

Método

Este estudo foi realizado na ecovila Inkiri Piracanga (Bahia, Brasil), durante sete dias de imersão em julho de 2017. Os dados foram coletados por dois pesquisadores, mediante a observação participante, entrevistas informais, tendo como materiais: diários de campo, gravador de áudio e fotos. Esses são procedimentos e instrumentos adotados com frequência em pesquisas etnográficas. A observação participante se deu pela interação dos pesquisadores com pessoas na ecovila (e.g., em danças circulares, ioga, circo e atividades no centro de coleta seletiva e nos jardins). As entrevistas foram conduzidas com 13 participantes (P1 − P13) maiores de 18 anos, dois do gênero masculino e 11 do feminino. A maior parte dos relatos foi coletado com 11 dos 13 participantes, por serem moradores da ecovila. Os outros dois participantes foram incluídos por participarem de programas de imersão − tais programas oferecem uma experiência de aproximação do viver na ecovila. Os principais pontos abordados nas entrevistas foram: processo de chegada a ecovila, cotidiano, crenças e valores pessoais, projetos da ecovila, funcionamento/gestão da ecovila e aspectos a serem melhorados na ecovila. Dados adicionais sobre a gestão/organização da ecovila foram coletados pelo aplicativo whatsapp.

A análise dos dados foi realizada pela leitura exaustiva do material (transcrições das entrevistas), análise de fotos, busca de categorias, triangulação (mediante a comparação entre as percepções dos pesquisadores e as diferentes técnicas de coleta de dados utilizadas) e identificação de padrões. Para a construção das categorias os relatos dos entrevistados foram agrupados em quatro temas. Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa do Centro Universitário Doutor Leão Sampaio- Juazeiro do Norte, Brasil (CAAE: 72931317.0.0000.5048). Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), que autoriza uso de áudios e fotos.

Resultados

Origens da ecovila Inkiri Piracanga

Inkiri Piracanga está situada em um local de encontro entre o mar e o rio Piracanga, que antes fazia parte de uma área degradada de uma fazenda de coco. As informações acerca das datas são inexatas, mas por volta do ano 2000, A. A. (fundadora da ecovila) comprou o terreno e iniciou o loteamento e a construção do Centro Holístico, que se estendeu por cerca de cinco anos. A maioria dos compradores do loteamento é estrangeiro, assim, muitos moradores e visitantes vêm de outros países e regiões do Brasil. Inicialmente havia poucos moradores e ainda não estava consolidada uma comunidade, apenas após alguns anos o Centro Holístico foi se fortalecendo, atrelado aos retiros de leitura de aura. Aproximadamente, em 2010, diante de um contexto de preocupação com as crianças residentes, houve a aproximação dos moradores levando ao nascimento da comunidade Inkiri. Depois, desenvolveu-se a Escola Inkiri e o Centro Holístico passou a crescer. A vida da fundadora e a origem da ecovila estão associadas a experiências místicas não discutidas neste estudo. Para mais informações, vejam outros estudos realizados na ecovila Inkiri-Piracanga (e.g., Flores & Trevizan, 2015; Sales, 2017).

Centro Holístico e espiritualidade

Na parte central da ecovila estão concentradas as atividades do Centro Holístico e seus projetos, cursos, retiros, hospedagens, terapias holísticas, entre outros. Há espaços com alimentação vegana e viva, a loja plante para venda de produtos biodegradáveis (não é permitido o consumo de carne e uso de produtos que não sejam 100% biodegradáveis), circo, ocas/cabanas de hospedagem, espaços para meditação e ioga, casas de moradores e do programa de moradias. Na parte periférica está a maior concentração de casas e uma área de mata.

A espiritualidade é o pilar base do Centro Holístico e da Comunidade Inkiri, ela está conectada à criação da ecovila, aos processos individuais e de tomada de decisão da comunidade, à busca do autoconhecimento e às atividades do Centro Holístico (e.g., ioga, meditação sonora, cursos, retiros de leitura de aura etc.). A espiritualidade está presente também no nome do local, decoração, músicas e mantras, em elementos do xamanismo, budismo, na conexão entre espiritualidade e natureza.

Dimensão comunitária e governança

No território da ecovila há entre 250 e 300 pessoas (número variável) organizadas principalmente em dois grupos. O primeiro deles, a comunidade Inkiri é formada por aproximadamente 40 adultos e 18 crianças, autodenominados como uma família de pessoas decididas a viver de forma mais próxima, respeitando-se, resgatando-se valores referentes à solidariedade, união e conexão com a natureza. É a comunidade de núcleo de moradores mais antigos e fixos, com maior nível de responsabilidades na gestão, sustentação do Centro Holístico e projetos executados. São os mais comprometidos com a realização do propósito da comunidade, o sonho Inkiri, de transformação da realidade alinhado à transformação das pessoas que passam pela ecovila, criando um laboratório de experiências de novas práticas, atrelado ao autoconhecimento por meio das práticas espirituais e outras atividades do Centro.

Além de ter sua fundadora como uma líder, a Comunidade Inkiri se organiza em forma de conselhos: (1) administrativo financeiro; (2) natureza; (3) crianças; (4) comunidade. Esses conselhos são compostos por grupos de moradores mais conectados a cada tema, no qual discutem assuntos correspondentes a cada conselho e são tomadas decisões. As decisões mais importantes são debatidas com a comunidade. Rigidez, desigualdades e tabus foram pouco observados nos relatos dos entrevistados deste estudo.

O segundo grupo de moradores denominado comunidade estendida é mais heterogêneo e composto por pessoas que não pertencem à comunidade Inkiri (núcleo), são moradores não fixos, com menor nível de dedicação e responsabilidade. São participantes do programa propósito em ação (PPA), que trabalham em algum projeto da comunidade e recebem uma bolsa auxílio pelo serviço, portanto, estão conectados com o propósito da comunidade (i.e., sonho Inkiri) por meio do trabalho. Os participantes do PPA também estão cientes e opinam em algumas decisões, as que são muito importantes, sobre o funcionamento da ecovila. Alguns dos participantes do PPA estão em um processo chamado de aproximação da comunidade, que é um primeiro passo para tornar-se membro da comunidade Inkiri. Moradores que servem voluntariamente se conectando a algum projeto também compreendem a comunidade estendida. Há ainda pessoas que não fazem parte da comunidade estendida, que moram na ecovila, mas não se conectam ao Centro Holístico e projetos (não compartilham necessariamente dos valores, crenças do grupo Inkiri) e pessoas que passam um período na ecovila, como as que alugam casas ou proprietários durantes as férias.

Dimensão econômica e projetos

A ecovila é autossuficiente e tem como principal fonte de renda o Centro Holístico (para os que trabalham em projetos), mas há também moradores que possuem outras fontes de renda. Para o grupo Inkiri, o dinheiro é visto como uma energia de troca, realização e manifestação. O serviço é pago em real e Inkiri (moeda local), mas o objetivo é chegar a usar somente o Inkiri. O design dessa moeda expressa significados e valores espirituais que são importantes para o grupo Inkiri. Dentre os benefícios do uso da moeda local estão a diminuição dos índices de furto e o estímulo à economia local. Além disso, há priorização de produtos e alimentos que são produzidos na região e adquiridos nas feiras.

As ações econômicas estão concentradas em uma ONG, o Instituto Inkiri (representação jurídica). Algumas pessoas que moram nas proximidades da ecovila, especialmente de um povoado específico, trabalham no Centro Holístico em projetos da comunidade como contratados (CLT). Conforme a ecovila foi crescendo e se desenvolvendo, esse povoado também cresceu e as condições de vida de algumas pessoas melhoraram. Um dos propósitos do Instituto Inkiri é de empoderamento de pessoas da região que estão conectadas ao instituto, para gerir suas vidas em várias frentes, como no desenvolvimento de pequenos negócios e formação.

Os ‘projetos’ são núcleos de trabalho em várias frentes: natureza, escola, comunicação, entre outros. O trabalho realizado por meio dos projetos é importante para o grupo Inkiri, pois é o meio utilizado para realização do sonho Inkiri e tem um significado espiritual, de autorrealização e autodescoberta. As funções ocupadas dentro dos projetos são hierarquizadas conforme o nível de responsabilidades do trabalho. Tal hierarquia segue um formato de árvore, na base ficam as raízes (pessoas que lideram os projetos, denominadas de guardiões), elas têm maior nível de responsabilidade e dedicam-se mais ao projeto. Após as raízes vêm outras hierarquias com menor nível de responsabilidades (e.g., tronco e galhos) até chegar às flores, que são atividades mais pontuais e com menos responsabilidades. A remuneração do trabalho varia conforme o nível de responsabilidade e dedicação. As relações trabalhistas são mais amistosas, flexíveis e a saúde (física, mental, espiritual) é importante.

Alguns dos projetos são: (1) Escola de Leitura de Aura, relacionado à organização das terapias holísticas, cursos, retiros e hospedagens; (2) Cozinha, com o restaurante e outros espaços de alimentação vegana e viva; (3) Ateliê Inkiri, que estimula a arte e criatividade; (4) Danças Circulares, um movimento de união da comunidade; (5) Música Inkiri, com experiências musicais; (6) Circo Inkiri Vagalume, com práticas de autoconhecimento e expressão por meio de atividades circense; (7) Escola Inkiri, para educação das crianças e adolescentes; (8) Aldeia Universitária, onde jovens compartilham moradia com experiências de autoconhecimento, estreitamento de laços e servem em projetos. A seguir está descrito o Natureza Inkiri, que reúne projetos e atividades de gestão ambiental.

Natureza Inkiri - é um núcleo de trabalho que reúne vertentes (eixos) de atuação e gestão ambiental. A Plante é uma vertente que se preocupa com o cuidado das águas, e, em um laboratório fabrica produtos biodegradáveis. No laboratório da Plante, há também um local reservado para o atendimento de algumas situações referentes à saúde. A visão de saúde é holística, relacionada à espiritualidade e à natureza.

Outro eixo, o Centro de Permacultura, usa saberes e técnicas oriundas da permacultura para cuidado. Em Piracanga existiam apenas coqueiros, algumas plantas nativas e um solo arenoso e pobre em nutrientes. Com o trabalho, foi possível alterar o cenário ambiental principalmente na gestão dos sistemas agroflorestais, com utilização do adubo produzido na compostagem, isto é, resíduos são transformados em um recurso útil. Para acelerar o processo de compostagem é feito o cultivo de uma receita de multiplicação de microrganismos colhidos da mata. O pátio de compostagem possui 12 baias, onde os resíduos orgânicos são compostados junto à palha de coco triturada para produzir o adubo usado nos plantios. Nas agroflorestas se busca criação de um sistema de sucessão ecológica, com incremento de espécies cada vez mais exigentes, pois o objetivo é se tornar uma comunidade colecionadora de frutas. Esse eixo de atuação também é responsável pelos jardins, criação e manutenção de sistemas de tratamento de água (círculo de bananeiras), fossas de evapotranspiração e sistemas de banheiros secos. Esses últimos são os mais utilizados e recomendados, pois além de economizar água proporcionam produção de adubos pela compostagem.

O outro eixo de atuação é o Centro de Coleta Seletiva, um espaço voltado para o gerenciamento dos resíduos sólidos. Os objetos são reaproveitados para o uso de moradores/visitantes e em outros projetos (e.g., fabricação de ecotijolos). Os resíduos não reciclados são destinados ao lixão de uma cidade próxima. Pela grande quantidade de resíduos, muitos ainda não são gerenciados na ecovila, mas o objetivo é conseguir gerenciar todos os resíduos dentro da ecovila e mais que reciclar, proporcionar a compreensão da importância de minimização dos impactos ambientais e conscientização. A maior parte das construções foi realizada com técnicas da alvenaria, mas atualmente tem-se utilizado principalmente técnicas da bioconstrução, com o uso de materiais de baixo impacto e disponíveis na região (e.g., barro, piaçava, ecotijolos). O sistema de energia é solar e cada proprietário é responsável pelo seu.

Esse núcleo verde da comunidade também se organiza em um conselho da natureza, responsável por discutir as questões sobre a natureza e regras de gestão ambiental, por exemplo, há regras de preservação de um percentual da mata em cada terreno e limitações das construções (e.g., quantidade andares e banheiros), pois as construções de casas são planejadas em função da quantidade de residentes e dos impactos ambientais. Esse núcleo verde também é uma Escola da Natureza, empenhados em aprender com a natureza do local e compartilhar seus saberes e técnicas. No Brasil não há muitas referências, por isso a necessidade de buscar inspiração em outras experiências fora do país, experimentar, inovar e fazer adaptações.

Categorias

Autoconhecimento e espiritualidade. O autoconhecimento e as práticas espirituais foram frequentemente atrelados, por isso, foram agrupados juntos. Foi entendido como autoconhecimento ações que promovem conhecimento e identificação dos próprios comportamentos, sentimentos, pensamentos e expressão, como observado nestes relatos:

[...] eu era muito fechada e eu era muito assim, de não querer acessar os meus sentimentos, não me expressava. Quando eu sentia raiva, dor, eu reprimia, fingia que estava tudo bem. Cheguei aqui e comecei a ver que não estava tudo bem, que estava tudo aqui dentro de mim formando uma bolinha [...] (P7).

[...] a gente também olha para as águas de dentro, que são nossas emoções e nossos sentimentos. Se tem uma grande questão na humanidade atualmente é essa dificuldade que as pessoas têm de olhar para o que está dentro, para o que não está resolvido. É muito mais fácil estar fora o tempo todo, conversando com outras pessoas, trabalhando ou na internet. Mas quando a gente está lá de noite em contato com o travesseiro é onde vem nossas angústias, emoções, vem tudo que não está resolvido [...] (P2).

A busca do autoconhecimento também ocorre mediante o trabalho, relação com a natureza e interação social. Autoconhecimento parece ser um pilar fundamental na edificação e manutenção de comportamentos:

[...] estar vivendo num lugar que tem um cuidado, com a questão ambiental, com a questão social, com a questão espiritual [...] Você pode se sentir ou não integrado num ciclo completo relacionado a natureza [...] Autoconhecimento é uma palavra que é muito forte aqui, eu vejo autoconhecimento como a base de tudo que é feito aqui, porque quanto mais você se conhece, mais em equilíbrio com a natureza você quer estar, mais equilíbrio com as pessoas com quem você vive você quer estar [...] (P10).

[...] a gente sabe tudo da vida um dos outros se conhecendo há pouco tempo e isso é muito legal porque é um relacionamento que para mim é totalmente inovador. É você confiar que pode se abrir, falar tudo para outra pessoa e que ela vai te respeitar e vai fazer o melhor dela para não intervir de maneira negativa no seu processo. Assim, cada um tem bastante seu processo e a gente assume isso de maneira coletiva, o que é algo que ajuda muito a superar tudo o que a gente passa com a gente mesmo [...] (P12).

Autorresponsabilidade e vida comunitária. Autorresponsabilidade envolve responsabilização própria em relação à criação da realidade. Cada pessoa sente-se implicada em agir em prol de uma mudança em sua realidade: “[...] você não faz simplesmente porque você é obrigado, faz porque faz parte do equilíbrio, daquilo que eu estava falando do ciclo. Você lavar a sua própria louça é tão simples, tão mínimo. Se está sujo, está me incomodando, eu vou limpar [...]” (P10). A autorresponsabilidade está presente em variados contextos como no trabalho, atividades domésticas e cuidado com a natureza: “[...] a gente está num lugar que a gente acredita muito na nossa autorresponsabilidade e infelizmente, assim como os resíduos, o tratamento de nossas águas e os produtos biodegradáveis não são tão respeitados [...]” (P6). Essas últimas ações descritas partem principalmente de algumas pessoas que passam temporadas no local e destacam os efeitos da falta de autorresponsabilidade na vida comunitária.

Mudanças na visão de mundo, união e o sentimento de pertença, afetividade, solidariedade e partilha das responsabilidades também são notados:

[...] funciona muito melhor quando você está junto e esse foi o sentido que me trouxe a comunidade. Fica bem mais fácil a vida, lidar com as demandas da vida cotidiana. É isso que me traz o sentimento de comunidade é bem uma irmandade. Cada um tem a sua tarefa, mas no momento que precisar resolver alguma coisa comum, a gente está junto [...] (P5).

Ressignificação da vida, trabalho e potencial. Nesta categoria estão elementos relacionados a questionamentos, à ressignificação de concepções, aos hábitos e valores, especialmente referentes ao trabalho:

[...] ressignificar a relação com o dinheiro, a relação com o trabalho se intensificou para gente, os modos de pensar, enfrentar nossas próprias crenças limitantes em relação a deter várias coisas, é dinheiro, vida social, foi um momento de ruptura mesmo [...]. Eu estou trabalhando com uma coisa que eu acredito, então isso é ressignificar meu trabalho completamente [...] (P10).

São concepções do trabalho em que as relações humanas e a qualidade de vida são importantes, há flexibilidade, identificação com o trabalho e compreensão de que seu trabalho é importante para a comunidade. Relações de trabalho com estímulo à criatividade, qualidade de vida e outros aspectos supracitados são observados:

[...] uma coisa era quando eu tinha que ir obrigada, naquela realidade, obrigada assim, porque eu me coloquei nesse papel, criei a minha segurança superficial que era o meu salário [...] Aqui é um lugar que você chega e vai como você quer, aqui você acredita em alguma coisa, a partir do momento que você deixou de acreditar no que você está fazendo, você junta suas coisinhas e vai embora [...] (P6).

No relato seguinte a pessoa entrevistada fala sobre como a experiência de serva (i.e., o servir sem remuneração) que é uma das atividades propostas pela Aldeia Universitária mudou sua visão sobre o trabalho:

[...] é um projeto que você aprende a servir sem querer nada em troca. Eu acho muito interessante, muito bacana, porque ele realmente faz ter uma visão diferente de trabalho, de serviço. Você começa a saber quem você é em um ambiente de trabalho. Se você é uma pessoa que gosta de produzir, se você é uma pessoa que gosta de enrolar [...] (P13).

Relação com a natureza. Esta categoria contempla questões como a identificação com a natureza, conscientização, consumo e alimentação vegetariana. Ser um instrumento de disseminação da preservação ambiental e identificação com a natureza é visto neste relato:

[...] a gente está sendo esse polo de disseminação desse conhecimento e de encorajamento das pessoas para finalmente mergulharem nessa experiência que é ser natureza e se responsabilizar pelo impacto que a gente gera nesse planeta enquanto a gente está aqui, isso pode acontecer com leveza. As pessoas saem daqui motivadas e confiantes, você inevitavelmente vai ter que lidar com o fato de que você é um animal nesse planeta e que importa sim seus resíduos, o que você coloca para dentro de seu corpo na sua alimentação, assim como seus pensamentos, suas ações, a forma como se lida com a natureza, com seu ambiente, com seu ecossistema [...] (P4).

Discussão

Este estudo descreveu as práticas sustentáveis, vivência comunitária, organização e funcionamento da ecovila Inkiri Piracanga. O cuidado ambiental é fundamental na ecovila e o centro holístico com seus projetos são o pilar de sustentação econômica. Foram observados elementos relacionados à ressignificação de práticas e valores da vida, por meio do autoconhecimento (i.e., identificação dos sentimentos, comportamentos, potencialidades e limitações), interação social, vida comunitária com estreitamento dos laços afetivos e responsabilização com sua realidade social.

Ser comunidade intencional e sustentável são duas características básicas marcantes de uma ecovila (Morais & Donaire, 2019). Essas características foram constadas em Inkiri-Piracanga por meio dos autorrelatos dos entrevistados, na forma de organização e governança, na estrutura física do espaço, nas práticas dos moradores, pela observação participante e percepções dos dois pesquisadores que ficaram imersos na ecovila.

Como destacado por Morais e Donaire (2019), em comunidades intencionais mais do que compartilhar um espaço físico, as pessoas que escolhem essa experiência de vida com mais proximidade social compartilham estilos de vida ou objetivos. Esse compartilhamento de vida e objetivos são presentes em Inkiri-Piracanga, visto nas práticas de autoconhecimento, espiritualidade, ações que promovem interação, proximidade social e fortalecimento de vínculos, práticas de cuidado ambiental e no trabalho exercido nos diversos projetos. Essas características que compõem Inkiri-Piracanga e a enquadram como uma comunidade intencional, compreendem as diferentes dimensões das ecovilas (e.g., Santos Júnior, 2006; Morais & Donaire, 2019).

Uma dessas dimensões é a espiritual. A espiritualidade é marcante em Inkiri-Piracanga e observados em estudos (e.g., Comunello & Carvalho, 2015; Flores & Trevizan, 2015; Morais & Donaire, 2019; Roysen, 2013; Sales, 2017). Por exemplo, Morais e Donaire (2019) reúnem práticas relacionadas à espiritualidade e cultura em uma mesma categoria e destacam características como ecumenismo, com respeito à diversidade de religiões, às práticas espirituais e culturais de variadas origens e espaços voltados para danças e eventos (e.g., retiros) e outras atividades culturais, que são elementos também destacados no estudo de Comunello e Carvalho (2015), Roysen (2013) que somado à busca do autoconhecimento por práticas espirituais são observados em Inkiri-Piracanga, por meio dos autorrelatos, nos cursos, retiros, sem a presença de religião específica (e.g., presença de elementos do budismo, xamanismo e do hinduísmo). A espiritualidade é elemento base da ecovila, e está presente desde a origem da ecovila, no design da moeda local, nas práticas de autoconhecimento até os processos de decisão relacionados à governança, aos econômicos e à vida comunitária.

Na dimensão econômica foi verificada a implantação de uma moeda local, incentivo à comercialização de produtos e alimentos locais, investimento em projetos internos e incentivo ao desenvolvimento do povoado próximo, que são exemplos de ações que promovem o desenvolvimento e cultura local (e.g., Maciel & Alves, 2015; Góis, 2008; Wiesenfeld, 2015; Belleze et al., 2017; Cecchetto et al., 2014). Isto é estímulo ao empoderamento e protagonismo na busca da transformação da realidade (Maciel & Alves, 2015; Góis, 2008; Wiesenfeld, 2015), assim como práticas de ecoturismo (Flores & Trevizan, 2015; Sales, 2017). Por outro lado, Flores e Trevizan (2015) relataram que pessoas com menor renda discordaram quanto ao apoio, às oportunidades iguais de desenvolvimento e à organização hierarquizada. Essas concepções também foram observadas neste estudo, mas em pouca proporção.

Em Inkiri-Piracanga a renda é de forma individualizada, obtida pelo trabalho no Centro Holístico, como no trabalho nos projetos ou outros meios não relacionados à ecovila. Isso se aproxima ao descrito por Morais e Donaire (2019), de formas individuais de renda dentro ou fora da ecovila. O mesmo estudo também descreveu outras formas de renda de ecovilas que não foram encontradas em Inkiri-Piracanga (ou não foram obtidas informações a respeito), como troca de alimentos com comunidade próxima, contribuição com uma parcela mensal, renda coletiva para os moradores, trabalho voltado para feiras orgânicas e realização de seminários. A organização do trabalho em projetos em Inkiri-Piracanga também se aproxima à descrição de Muñoz-Villarreal (2018), com células temáticas de atuação, diferentes papéis e responsabilidades e se alinha aos achados de Sales (2017).

A organização em forma de conselhos se aproxima do discutido por Algarvio (2010), de governança com gestão e liderança relacionadas ao compartilhamento das responsabilidades, formas participativas e criativas dos moradores nos processos de tomada de decisão e descrito por Sales (2017) sobre essa mesma ecovila. Ainda se alinha ao discutido em PSC, com espaços para processos participativos de tomadas de decisão, resolução de problemas, criação de metas ou sonhos e expressão de opiniões dos moradores sobre sua realidade (Góis, 2008). Por outro lado, Morais e Donaire (2019) descrevem uma forma de organização sem liderança definida na qual todos atuam, o que é diferente do observado na gestão da ecovila Inkiri-Piracanga, que ainda que tenha compartilhamento de responsabilidade e conselhos, por exemplo, a presença de lideranças é forte.

Promoção de aproximação dos laços sociais e busca pela transformação da realidade são aspectos observados na ecovila e que podem ser categorizados na dimensão comunitária. Esses elementos também foram observados em outras ecovilas (Cavalcanti, 2019; Flores & Trevizan, 2015; Muñoz-Villarreal, 2018; Sales, 2017) e são características importantes discutidas na PSC (Góis, 2008; Wiesenfeld, 2015). Morais e Donaire (2019) elencam características da dimensão social encontradas em ecovilas, também observadas em Inkiri-Piracanga, como integração, confiança, respeito, cooperação e amizade entre moradores.

A dimensão ecológica é importante na ecovila, com busca de uma ocupação harmônica amigável com os ecossistemas locais, experimentação de práticas, criação de técnicas e estratégias, compartilhamento e incentivo a experiências sustentáveis. Isso foi visto de variadas formas na ecovila: (a) no cuidado com as águas e produtos biodegradáveis; (b) recuperação dos ecossistemas, incremento da vegetação e conservação dos recursos naturais (Flores & Trevizan, 2015); (c) técnicas e princípios da permacultura, buscando formas de relacionamento não exploratórias, com tratamento das águas, dos resíduos, criação de sistemas de compostagem e produção de biofertilizante (e.g., Algarvio, 2010; Flores & Trevizan, 2015; Santos Júnior, 2006); (d) coleta seletiva, construção e controle para preservação das mata; (e) dietas (vegetariana, vegana, alimentação viva) e energia renovável (Cecchetto et al., 2014); (f) reciclagem e coleta seletiva (Algarvio, 2010).

As categorias permitem observar a visão de diferentes perfis de moradores, os mais antigos e fixos, aqueles que residem a pouco tempo e os que estão passando apenas uma temporada. Os relatos das categorias se aproximam das descrições da ecovila: (a) autoconhecimento como pilar base e relacionado a práticas de espiritualidade (Flores & Trevizam, 2015), na relação com a natureza, interação social e trabalho; (b) estímulo à criatividade, à capacidade de transformação e à realização, alinhados à economia solidária (Boff, 2013); (c) identificação com a natureza, conscientização, baixo consumo e alimentação alternativa (e.g., Cecchetto et al., 2014; Flores & Trevizan, 2015; Santos Júnior, 2006).

O estudo de Flores e Trevizan (2015) também, realizado em Inkiri Piracanga, sinalizou discordâncias entre grupos quanto à hierarquização organizacional, apoio às pessoas, ao desenvolvimento de talentos, à valorização a diversidade. Esses fatores neste estudo apareceram pouco nos relatos. O que poderia explicar isso? Uma hipótese é que o curto período de imersão (a limitação deste estudo) não tenha sido suficiente para observar conflitos, tensões ou desigualdades. Por isso é importante replicações, com maior período de imersão no campo para investigar também questões relacionadas à inclusão de diferentes grupos (i.e., relacionados a aspectos de renda, gênero, raça etc.,). Um estudo quantitativo com uma amostra representativa de diferentes grupos (i.e., líderes, pessoas do PPA, pessoas em aproximação, contratados da região), pode fornecer melhor descrição das relações entre variáveis econômicas, estrutura organizacional e comunitária. Um estudo com descrição das técnicas de gestão ambiental seria importante, como também pesquisas em psicologia sobre educação escolar na ecovila.

Considerações finais

Os achados deste estudo, especialmente relacionados as entrevistas, destacam relações sociais mais solidárias, próximas e afetuosas, incentivo ao desenvolvimento local, relações harmônicas com ecossistema local, compartilhamento de sentidos, valores e estilo de vida. As contribuições envolvem descrição de (a) forma de gestão mais participativa e relações de trabalho mais amistosas; (b) assentamento humano com técnicas e práticas integradas a conservação da natureza, que serve de inspiração; (c) relações sociais mais estreitas, compartilhamento de responsabilidades e gestão mais participativa; (d) práticas de autoconhecimento, compreensão dos impactos sociais e ambientais. São elementos relacionados à psicologia, nos processos de conscientização, responsabilização, empoderamento, participação comunitária, qualidade vida e autoconhecimento. Os autorrelatos permitem visualizar a conexão entre as práticas das diferentes dimensões da ecovila, como o autoconhecimento que conduz a interações sociais mais harmoniosas e as interações sociais ajudam no desenvolvimento de autoconhecimento (e.g., na identificação e descrição de sentimentos). Não quer dizer que na ecovila descrita não existem dificuldades ou que é um modelo, mas expôs a existência de habitação humana com menos impactos ambientais e estimular e contribuir para a ampliação das pesquisas sobre ecovilas e outras formas de cuidado ambiental.

Referências

  • Disponibilidade de dados:
    Os dados que fundamentam os achados deste estudo podem ser solicitados ao autor correspondente mediante uma solicitação justificada.

Disponibilidade de dados

Os dados que fundamentam os achados deste estudo podem ser solicitados ao autor correspondente mediante uma solicitação justificada.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    08 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    11 Ago 2021
  • Aceito
    27 Maio 2023
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