RESUMO.
Abordam-se resultados de uma pesquisa concluída que mapeou, em periódicos de língua inglesa, a produção internacional de pesquisa em Psicologia do Desenvolvimento Moral, no período de 1982 a 2019, que tem gênero como tema. Esse mapeamento levantou 52 artigos que relacionam gênero e desenvolvimento moral como tema de pesquisa, os quais foram analisados buscando-se identificar a presença e o tipo de perspectiva epistêmica feminista sobre o gênero. Como percurso metodológico, utilizou-se da técnica de meta-pesquisa para analisar o conteúdo dos materiais anteriormente mapeados pela técnica de estado da arte. A análise, baseada na classificação de Sandra Harding sobre os diferentes posicionamentos epistêmicos feministas, desvelou que a produção investigada não progrediu em relação às epistêmicos pós-modernas, que aparentam inexistência entre as pesquisas do campo, o qual ainda é dominado pelas epistêmicos feministas empiricista e de standpoint, embora a investigação partindo delas não tenha sido tão continuada desde a década de 1990. Inferiu-se, também, que sua descontinuidade se deve ao debate Kohlberg-Gilligan, sobre as diferenças de gênero no desenvolvimento moral, permanece inconcluso, o que alude à insuficiência, e a percepção dela, de perspectivas feministas como a de standpoint de Gilligan. A Psicologia do Desenvolvimento Moral parece resistir a revisões epistêmicas que rompam com suas origens epistemológicas, como ressaltam algumas autoras e como o artigo traz em dados que atestam essa inferência.
Palavras-chave:
Psicologia do desenvolvimento moral; gênero; epistêmicos feministas
ABSTRACT
This study addresses the results of a study that examined the international research output in the Psychology of Moral Development with a focus on gender in English-language journals from 1982 to 2019. This review identified 52 articles that relate gender and moral development as research topics. These articles were analyzed to identify the presence and type of feminist epistemic perspective on gender. The study employed meta-research to analyze the content of the previously mapped materials using a state-of-the-art approach. Based on Sandra Harding's classification of different feminist epistemic positions, the analysis revealed that research in this field has not progressed with regard to postmodern epistemic positions. These positions appear to be nonexistent in the field, which is still dominated by empiricist feminist episteme and the standpoint feminist episteme. However, research based on these positions has not been continuous since the 1990s. The discontinuity was inferred to be due to the inconclusive Kohlberg-Gilligan debate on gender differences in moral development, which alludes to the insufficiency and the perception thereof of feminist perspectives, such as Gilligan's standpoint. The Psychology of Moral Development appears to resist epistemic revisions, as some authors emphasize, and the article presents data attesting to this.
Keywords:
psychology of moral development; gender; feminist epistemologies
RESUMEN
Se discuten los resultados de una investigación completa que mapeó, en revistas en idioma inglés, la producción de investigación internacional en Psicología del Desarrollo Moral, de 1982 a 2019, que tiene el género como tema. Este mapeo planteó 52 artículos que relacionan género y desarrollo moral como tema de investigación, los cuales fueron analizados en un intento por identificar la presencia y tipo de perspectiva epistémica feminista sobre género. Como abordaje metodológico, se utilizó la técnica de metainvestigación para analizar el contenido de materiales previamente mapeados por la técnica de última generación. El análisis, basado en la clasificación de Sandra Harding de las diferentes posiciones epistémicas feministas, reveló que la producción investigada no ha progresado en relación a las epistêmicos posmodernas, que parecen no existir entre las investigaciones en el campo, que aún está dominado por epistêmicos empiristas y feministas. Desde el punto de vista, aunque la investigación basada en ellos no ha sido tan continuada desde la década de 1990. alude a la insuficiencia, y percepción de la misma, de perspectivas feministas como la de Gilligan. La Psicología del Desarrollo Moral parece resistir las revisiones epistémicas que rompen con sus orígenes epistemológicos, como destacan algunos autores y como el artículo aporta datos que dan fe de esta inferencia.
Palabras clave:
Psicología del desarrollo moral; género; epistêmicos feministas
Introdução
Este artigo é resultado de uma pesquisa concluída, desenvolvida entre os anos de 2019 e 2020, que contou com o financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP)6. Parte de um programa de investigação maior, que tem como objetivo mapear o modo como os epistêmicos feministas, enquanto crítica do conhecimento, interrogaram a pesquisa em Psicologia do Desenvolvimento. Assim, a pesquisa da qual este artigo é resultante erige desse atual programa de reconhecimento, organização e inteligibilidade da produção da Psicologia do Desenvolvimento no que se refere a questões feministas emergentes, particularmente no tocante à temática de gênero.
A Psicologia do Desenvolvimento é tradicionalmente compreendida como uma ramificação da Psicologia que tem como objeto de estudo a aquisição de capacidades, mudanças e transformações psicológicas ocorridas ao longo da vida, porém, por dispor de um objeto tão amplo, torna-se “[...] uma divisão extremamente arbitrária da Psicologia, pois toda a Psicologia diz respeito à compreensão de processos de mudança de comportamentos” (Biaggio, 2007, p. 22), sendo difícil sua delimitação em relação às demais ramificações do estudo dos fenômenos e processos psicológicos. Assim, a Psicologia do Desenvolvimento engloba outras ramificações da Psicologia, isto é, relaciona-se com outros campos de estudos, dentre os quais destaca-se a ‘Psicologia moral’.
Segundo La Taille (2007, p. 11-12), a Psicologia Moral é um campo “[...] em que se estudam os processos psíquicos por meio dos quais se legitimam regras, princípios e valores morais, entendendo-se por moral aquilo que é da ordem do dever”. Dada a ambiguidade de se delimitar a abrangência dos campos da Psicologia, algumas das teorias trabalhadas na Psicologia Moral também são compartilhadas pela Psicologia do Desenvolvimento. Assim, a nomenclatura ‘Psicologia do desenvolvimento moral’ é adotada neste artigo para denominar esse campo bipartido que as teorias aqui pertinentes ambientam, sendo elas as teorias morais do epistemólogo suíço Jean Piaget (1896-1980) e do psicólogo estadunidense Lawrence Kohlberg (1927-1987).
É Piaget (1994, p. 23) quem inaugura a abordagem cognitivo-evolutiva no estudo psicológico da moralidade, com a publicação do livro O juízo moral na criança, de 1932, ao investigar o juízo moral com crianças em busca de sua gênese e desenvolvimento: “[...] toda moral consiste num sistema de regras, e a essência de toda moralidade deve ser procurada no respeito que o indivíduo adquire por essas regras”. Piaget (1994) identificou duas tendências morais distintas vivenciadas pelas pessoas: a ‘heteronomia’, em que seus juízos são intermediados por fatores externos, sucedida pela ‘autonomia’, em que, com o desenvolvimento cognitivo e das relações interpessoais, constrói-se o respeito às regras baseado na reciprocidade e respeito mútuo.
Sendo a teoria moral piagetiana considerada um projeto seminal, mas inacabado (Freitas, 2003), décadas depois, Kohlberg (2017) deu continuidade aos estudos de Piaget no campo da moralidade, “[...] e, vale destacar, que foi por meio dos trabalhos de Kohlberg que o campo da Psicologia Moral consolidou-se” (Franzi & Araújo, 2013, p. 55), assim como tornou a abordagem cognitivo-evolutiva a mais influente no estudo psicológico da moralidade. Para Kohlberg (2017), o desenvolvimento da moralidade é mais longo e complexo do que o traçado por Piaget (1994), apresentando-se, da mesma forma que os estágios cognitivos piagetianos, em estágios hierárquicos e progressivos, percorrendo ‘três níveis’ e ‘seis estágios’, sendo dois estágios respectivos a cada nível. Como nas tendências em Piaget, esses estágios vão de uma perspectiva individualista para uma de reciprocidade e respeito mútuo, caracterizando-se por uma estrutura racional de justiça.
Essas teorias, no entanto, foram alvo de diversas críticas e, dentre elas, a de viés de gênero, que acabou por envolver críticas feministas (Gilligan, 1982; Miller & Scholnick, 2000; Montenegro, 2003; Nogueira, 2017; Burman, 2019).
Para atender aos critérios daquela época que a legitimariam como uma Ciência moderna, a Psicologia fundamentou-se, desde o final do século XIX, em referenciais e metodologias positivistas e experimentalistas, importados das Ciências Biológicas (Nogueira, 2001, 2012, 2017), Saavedra e Nogueira (2006); Saavedra & Nogueira, 2006; Prehn & Hüning, 2005; Souza, 2017). No entanto, a partir da pesquisa sobre as diferenças entre homens e mulheres, com base nas diferenciações produzidas por seus achados, despontaram discursos que tentam naturalizar a inferioridade da mulher, reforçando papéis sexuais normativos, patologizando determinadas identidades e desejos e, assim, justificando desigualdades culturais e históricas. A partir da década de 1970, contudo, essa configuração androcêntrica, sexista e heteronormativa da Psicologia seria continuamente interrogada pela crítica feminista.
Diversas autoras e autores, tais como Nogueira (2001, 2012, 2017), Saavedra e Nogueira (2006), e Prehn e Hüning (2005, p. 65), argumentam sobre “[...] o impacto que os pressupostos do Movimento Feminista têm causado na produção teórica da psicologia, provocando uma revisão de suas metodologias e conceitos e levando a uma nova abordagem científica [...] de análise das relações entre as mulheres e os homens”. Embora não seja consenso na literatura, o Movimento Feminista pode ser dividido temporalmente em ‘ondas’ contínuas para sua apreensão histórica7, sendo possível a identificação e distinção de pelo menos três ondas: a primeira, situada no final do século XIX até os anos de 1960; a segunda, até meados dos anos de 1980; e a terceira onda, a partir da década de 1990, onda que se encontra atualmente em curso e, por vezes, referenciada como ‘pós-feminismo’.
Aos poucos ‘invadindo’ as várias áreas do conhecimento científico, as críticas feministas geraram uma perspectiva epistemológica alternativa às Ciências que atendesse aos seus pressupostos, isto é, que não fosse androcêntrica, sexista ou heteronormativa: a ‘epistemologia feminista’ (Harding, 1986; Nogueira, 2001, 2012, 2017; Narvaz & Koller, 2006, p. 139), ainda que mais “[...] apropriado seria falar em epistemologias e metodologias, no plural, uma vez que [na perspectiva feminista] não há uma só forma de produção do conhecimento, mas várias, a partir de diferentes teorias”.
Contudo, neste artigo, adere-se ao termo ‘epistêmico’ no lugar de ‘epistemologia’ feminista, pois epistemologia alude ao processo de construção de critérios e bases do conhecimento científico (Harding, 1986; Souza, 2017), enquanto epistêmico se volta mais para a problematização que os Feminismos podem causar às Ciências e, no caso, à Ciência psicológica, interrogando-a, fazendo-a rever-se e procurar por alternativas metodológicas e conceituais.
As críticas feministas à Ciência surgem apenas em meados dos anos de 1970, em meio ao curso da segunda onda do Movimento Feminista, em que, na Ciência em geral, “[...] assim como nas ciências sociais, e mais tarde na psicologia, as reivindicações feministas e as críticas à família, à opressão feminina e ao estatuto de subalternização das mulheres tiveram repercussões importantes, quer no nível da pesquisa, quer no das diferentes teorias” (Nogueira, 2012, p. 48). Para a filósofa estadunidense Sandra Harding (1986), as críticas feministas à Ciência moderna podem ser classificadas a partir de três posicionamentos epistêmicos: o ‘empiricismo feminista’, as teorias de ‘standpoint feminista’ e o ‘feminismo pós-modernista’ (Nogueira, 2001, 2012, 2017), classificação que, permanecendo atual, é continuamente citada na produção feminista8.
Em concomitância ao surgimento das críticas feministas à Ciência durante a segunda onda, estabelecia-se conceitualmente a categoria social de gênero - num primeiro momento, apenas para distinção entre sexo (biológico) e gênero (social) -, aderida pelas feministas em suas investigações sobre as opressões enfrentadas pelas mulheres e, posteriormente, expandida para também contemplação da diversidade sexual e de gênero. Incorporado por teorias feministas e autoras(es) com diversas afiliações teóricas, gênero passaria a ser manipulado em uma pluralidade de perspectivas, propondo-se a ele diversas roupagens e, portanto, diversos conceitos de gênero, o que o fez dispor de diferentes orientações teóricas, de acordo com a teoria que o tem como ‘pano de fundo’. Com a classificação mencionada das críticas feministas à Ciência (Harding, 1986; Nogueira, 2012, 2017), oriundas das várias teorias feministas produzidas, pode-se ressaltar que gênero pode ser orientado a partir das epistêmicos feministas empiristas, das de standpoint ou das pós-modernistas.
Voltando-se à classificação fornecida por Harding (1986), a primeira categoria refere-se ao feminismo empirista, que identifica e denuncia o sexismo, o androcentrismo e a heteronormatividade presentes na ciência moderna, porém não questiona seus pressupostos ou metodologias. No feminismo standpoint, questionam-se tanto essas iniquidades como sua decorrência pelo uso dos métodos e princípios da Ciência moderna, assumindo uma “[...] perspectiva diferenciada e específica de gênero: as mulheres são encaradas como a base primordial de toda a pesquisa. Pensam que um conhecimento verdadeiramente feminista, centrado nas experiências únicas das mulheres, pode produzir melhores facetas da realidade” (Nogueira, 2012, p. 49). Harding (1986), no entanto, argumenta que apesar desse potencial crítico, o feminismo standpoint partilha de um conhecimento universal e generalizável ao grupo ‘mulher’, assumindo uma postura ‘essencializadora’. O gênero, segundo as perspectivas empirista e standpoint, é tido como permanente e estável, por isso essencialista. Já as teorias pós-modernistas têm críticas à Ciência mais radicais que as duas anteriores, visto que recusam discursos universalizantes ou adquiridos a partir de quaisquer pressupostos modernos. O gênero, com essa perspectiva, não se refere a um fenômeno inato, mas que é construído cultural, histórica e socialmente.
As teorias de Piaget e Kohlberg, oriundas da Psicologia do Desenvolvimento Moral, campo demarcado pelo projeto moderno de Ciência, também geraram interpretações androcêntricas e sexistas sobre o desenvolvimento humano. Essas teorias, e o projeto de Ciência que representam, foram rebatidas pelas críticas feministas em seus três posicionamentos epistêmicos (Gilligan, 1982; Miller & Scholnick, 2000; Montenegro, 2003; Nogueira, 2017; Burman, 2019), auxiliando-as a repensarem suas fundamentações e metodologias, sendo a advinda da psicóloga estadunidense Carol Gilligan (1936-atualmente), colaboradora de Kohlberg nos estudos que ele desenvolveu na década de 1970, a crítica mais difundida e de vanguarda.
Gilligan (1982) foi a primeira a identificar o androcentrismo e sexismo presente nas teorias de Piaget e Kohlberg, assim como em diversas outras teorias psicológicas do desenvolvimento. Em seu referido livro, enquanto o ‘desenvolvimento da criança’ universal que relata é construído sobre a experiência masculina, Piaget (1994, p. 69) dedicou dois verbetes para tratar das meninas participantes de seu estudo, nos quais enfatiza que elas “[...] têm o espírito jurídico muito menos desenvolvido que os meninos [...]” e que são “[...] mais tolerantes e mais facilmente satisfeitas com as inovações [...] e é nisso que podemos considerá-las como menos preocupadas com a elaboração jurídica” (Piaget, 1994, p. 73).
Já Kohlberg (2017) fundamentou sua teoria numa amostra restrita ao público masculino para validá-la como universal - composta por 84 meninos brancos de classe média e idade entre 10, 13 e 16 anos moradores de Chicago, Estados Unidos - e, na aplicabilidade da teoria, nos estudos que desenvolveu nas décadas de 1960 e 1970, concluiu que as mulheres apresentam um desempenho deficitário em relação aos homens, com juízos morais oriundos de níveis e estágios inferiores.
Em seu livro Uma voz diferente, publicado em 1982, Gilligan apresenta essas críticas a Piaget e Kohlberg sobre o uso da experiência masculina como regra e, ainda, relata uma investigação feita apenas com mulheres, cujos resultados contrapõem-se à compreensão de que as mulheres não atingem níveis ou estágios superiores do desenvolvimento moral. Para Gilligan (1982), com base nos resultados que encontrou, as mulheres partem de uma estrutura de raciocínio moral distinta dos homens, a qual prioriza o cuidado e bem-estar do outro, que nomeia de ‘Ética do cuidado’, logo, o problema estaria na teoria de Kohlberg, então centrada apenas na racionalidade e na justiça, e não nas mulheres.
A partir da crítica de Gilligan, erige-se um programa de que deu continuidade às suas proposições e, ao mesmo tempo, abertura para novas críticas e em outras abordagens, como explanado por Harding (1986) sobre o desenvolvimento dos vários posicionamentos epistêmicos da crítica feminista à Ciência. Ademais, a resposta de Kohlberg às críticas de Gilligan, e suas respectivas réplicas e tréplicas, geraram um dos grandes debates científicos da segunda metade do século XX, que ficou conhecido como ‘debate Kohlberg-Gilligan’, o qual reconstituímos em trabalho anterior (Silva, 2021).
Contemporâneas de Kohlberg (2017), as críticas de Gilligan (1982) fizeram com que o autor admitisse limites de abrangência da teoria, revisitasse alguns de seus aspectos e metodologia, ainda que tenha continuado a rejeitar a trajetória de desenvolvimento moral pela Ética do Cuidado de Gilligan (Silva, 2021). E embora de inegável contribuição, a crítica de Gilligan (1982) e sua proposta de Ética do Cuidado possibilitaram a difusão de ideias essencialistas sobre a moralidade, das quais se tira a interpretação, por exemplo, de que o cuidado é natural às mulheres (Montenegro, 2003; Nogueira, 2012, 2017; Silva & Souza, 2022).
Para Nogueira (2017, p. 81, grifo do autor), “[...] a postura de Gilligan é essencialmente de epistemologia standpoint feminista, centrada nas mulheres e também por isso essencialista”. Aponta-se, também, para críticas mais contemporâneas provindas de outros programas de pesquisa e perspectiva epistêmica, como a epistêmico pós-moderna da psicóloga inglesa Erica Burman (2019, p. 275, tradução nossa), ainda que ela mesma admita que, no âmbito da Psicologia do Desenvolvimento Moral, “[...] o debate de Gilligan permanece amplamente influente”. Segundo Nogueira (2012, 2017), os conflitos que as críticas feministas causaram, sejam de quaisquer posicionamentos epistêmicos, podem ser considerados benéficos e libertadores para a Ciência, possibilitando descolamentos e revisões, inclusive para a Psicologia em seus diversos campos de estudo.
Logo, interessa-nos, aqui, os descolamentos e revisões provocados pelas epistemologias feministas, se e quando eles acontecem, no campo da Psicologia do Desenvolvimento Moral, no momento em que as pesquisas desse campo tratam do conceito de gênero. Também não se sabe se essas pesquisas, ao abordarem o gênero, interrogam as teorias morais das quais fazem uso pelas epistêmicas feministas, nem se elas são interrogadas para além da epistêmica de Gilligan. Portanto, foi com relação ao reconhecimento, organização e inteligibilidade dessa produção, sobretudo nesses aspectos de abordagem do gênero e de revisão epistêmica, que a pesquisa da qual o presente artigo decorre se atentou.
Seu objetivo foi reunir, mapear e analisar a produção internacional de pesquisa em Psicologia do Desenvolvimento Moral em periódicos de língua inglesa, que tem o gênero como tema no período de 1982 a 2019. Para alcançá-lo, a metodologia foi criteriosamente definida e planejada, utilizando-se das técnicas metodológicas de ‘estado da arte’ (Ferreira, 2002) para reunir e mapear a produção pertinente, e ‘meta-pesquisa’ (Tello & Mainardes, 2015), para analisar o conteúdo dos materiais reunidos e mapeados pelo estado da arte.
Para este artigo, tendo em vista a impossibilidade de produzir uma discussão que abrangesse todos os resultados alcançados, decidiu-se apresentar os resultados obtidos com a análise do conteúdo dos artigos mapeados quanto à perspectiva feminista do gênero e seu respectivo posicionamento epistêmico. Os demais resultados encontrados com a pesquisa foram reservados a outras produções, já publicadas (Silva, 2020, 2021) e em fase de publicação. Dessa forma, delimitada sua abrangência, este artigo tem como objetivo identificar, nessa produção mapeada, a presença e o tipo de perspectiva epistêmica feminista sobre o gênero. A seguir, descrevem-se o processo de reunião e mapeamento da produção investigada, que gerou um instrumento de pesquisa contendo 52 referências de materiais (artigos) que interseccionam gênero e desenvolvimento moral como tema de pesquisa, e os caminhos seguidos para a análise do conteúdo dos artigos.
Metodologia
O percurso metodológico adotado para o mapeamento desejado foi aquele possibilitado pela técnica de estado da arte, porque se quis investigar a produção em si, levantar os materiais (no caso, artigos) que a constituem e organizá-los de modo a saber sua progressão ao longo do período temporal delimitado e de outras variáveis consideradas.
Segundo Ferreira (2002, p. 258), as pesquisas denominadas de estado da arte têm, em comum, “[...] o desafio de mapear e de discutir uma certa produção acadêmica em diferentes campos do conhecimento, tentando responder que aspectos e dimensões vêm sendo destacados e privilegiados em diferentes épocas e lugares, de que formas e em que condições”. Na metodologia do estado da arte, entra-se em contato com o conteúdo da produção levantada e busca-se saber o estado da produção em determinado período. A relação entre os materiais, principalmente acerca da variável ‘tempo’, é a principal preocupação do estado da arte. Por isso, consideramos mais apropriado utilizar o estado da arte para o mapeamento da produção e, quanto à análise de seu conteúdo, eleger outra técnica metodológica.
Para a implementação do estado da arte, o período delimitado escolhido para essa investigação foi o de 1982 a 2019, referente ao ano de publicação do livro de Gilligan (1982), Uma voz diferente, e ao ano anterior à conclusão da pesquisa. Além disso, a partir desse livro, gênero passou a ser tratado como tema nessas pesquisas, antes abordado apenas como variável. Em razão disso, Gilligan é reconhecida como pioneira em trazer o debate de gênero, não mais como uma mera variável à Psicologia do desenvolvimento moral e por inaugurar todo um programa de pesquisa que o intersecciona como tema de investigação. Abordar gênero como tema é tê-lo como objeto central na investigação realizada, enquanto tê-lo como variável e considerá-lo em determinado momento ao longo da pesquisa, geralmente no cruzamento de resultados empíricos com o perfil da amostra participante, não sendo, porém, o objeto central da investigação.
Para o levantamento dos artigos, foram consultadas quatro bases de dados: Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Journal Storage (JSTOR), Portal de Periódicos da CAPES e Scientific Electronic Library Online (SciELO). As estratégias de busca aplicadas nessas bases, onze estratégias no total, foram definidas com a junção de descritores concernentes ao tema de desenvolvimento moral com o descritor ‘gênero’, utilizando-se para isso o operador booleano ‘AND’. O levantamento se deu com o esgotamento das buscas em cada uma das bases consultadas. O quadro 1 a seguir apresenta o registro de todos os resultados, com quais estratégias de busca e em cada base de dados que foram encontrados, bem como mostra os descritores que constituíram cada estratégia de busca.
Resultados das buscas nas bases de dados Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Journal Storage (JSTOR), Portal de Periódicos da CAPES e Scientific Electronic Library Online (SciELO) segundo as estratégias de busca definidas.
Embora tenham sido encontrados 77 resultados em todas as buscas, muitos desses resultados se repetiram, além dos que não interseccionam gênero e moralidade terem sido descartados, o que se fez a partir da leitura dos resumos dos artigos. Ao final dessa seleção, foram 52 artigos diferentes encontrados (N = 52). Depois de localizados, recuperados e reunidos, os 52 artigos foram organizados em um instrumento de pesquisa (Silva, 2019 - Apêndice I deste artigo), sendo mapeados segundo autoria, ano e periódico de publicação e outras variáveis pertinentes. Em síntese, não sendo o foco deste artigo relatar esse mapeamento, constataram-se a escassez dessa produção e a predominância de autorias e periódicos estadunidenses.
A relação de trabalhos encontrados é apresentada no quadro 2.
Finalmente, para a análise do conteúdo dos artigos, recorreu-se a outra técnica metodológica que guiasse essa análise. A técnica adotada dessa vez foi a meta-pesquisa, que consiste em “[...] observar analiticamente o processo de pesquisa presente em artigos, livros, teses, dissertações, etc., em termos de análise de conteúdo” (Tello & Mainardes, 2015, p. 166). Sendo indicada para ‘pesquisas que avaliam pesquisas’, essa técnica tem sua potencialidade em desvelar “[...] características, tendências, fragilidades e obstáculos para o desenvolvimento de um campo ou temática de pesquisa. Em geral, abrange a análise de aspectos teórico-epistemológicos, metodologias, estilos de argumentação, nível de coerência interna, reflexividade ética etc.” (Mainardes, 2018, p. 306).
Esse autor (2018) também considera que a meta-pesquisa pode abarcar três dos aspectos que compõem uma pesquisa, dependendo do foco que for delineado: a teoria, o método e os dados/resultados, o que a configuraria, respectivamente, como uma ‘meta-teoria’, ‘meta-método’ ou ‘meta-análise’. Visto que a proposta deste artigo é analisar a incorporação do gênero na produção mapeada, se dispõe de uma perspectiva feminista e, caso a tenha, qual seu posicionamento epistêmico, isso o evidencia principalmente com uma proposta e abrangência de análise de meta-teoria.
Assim, na realização da meta-pesquisa, realizaram-se análises individuais dos materiais, a partir da ‘leitura sistemática’ (Tello & Mainardes, 2015) de todo seu conteúdo sob um olhar fundamentado na literatura consultada. Então, após a sua leitura, produziu-se um relatório textual com a descrição do conteúdo de cada artigo, junto às constatações possibilitadas pela análise empregada durante a leitura. Na análise, primeiro buscou-se identificar se o gênero é abordado sob uma perspectiva feminista crítica e, quando fosse, identificar qual posicionamento epistêmico essa abordagem se referia, assim como quando não dispunha dessa perspectiva, qual era a sua perspectiva teórica, se por uma perspectiva normatizadora ou qualquer outra.
Além disso, como apresentado na introdução do artigo, consideramos, por perspectiva feminista, qualquer posicionamento epistêmico feminista que os artigos trazem ao abordar gênero e, por perspectiva feminista ‘crítica’, o posicionamento feminista de epistêmico pós-moderna, por este ser mais radical que as demais epistemologias, e ao qual nos filiamos teoricamente (Souza, 2017; Silva & Souza, 2022).
Feito isso, os resultados obtidos com essa análise individual foram reunidos em categorias respectivas às suas perspectivas e epistêmicos feministas, categorias que se apresentam a seguir.
Resultados e discussão
Ainda que os resultados obtidos com o estado da arte não sejam o foco deste artigo, cabe pontuar a escassez, em termos de volume de produção, revelada pelo mapeamento. Distribuindo os 52 artigos segundo seu ano de publicação, a produção teve uma média de quase 2 artigos por ano, com seu ápice em meados da década de 1990, chegando a 4 artigos por ano, mas sem relação ascendente ou descendente a longo prazo. Em revisão de somente estudos empíricos sobre Psicologia e moralidade, Ellemers et al. (2019) encontraram 1.278 artigos em inglês no período de 1940 a 2017. Dessa forma, inferiu-se que a produção de pesquisa sobre moralidade, quando aborda gênero como tema, é periférica no campo da Psicologia do Desenvolvimento Moral, em termos de volume de produção.
Adentrando nos resultados obtidos com a meta-pesquisa, primeiro, verificou-se a forma como o gênero é incorporado nas pesquisas desse campo, de modo a saber como está relacionado com o desenvolvimento moral. Quase na sua totalidade, as investigações veiculadas nos artigos abordavam o gênero a partir da questão das diferenças de gênero no desenvolvimento moral. Essas diferenças referiram-se, sobretudo, ao desempenho de homens e mulheres, resgatando o debate Kohlberg-Gilligan para verificação empírica, utilizando instrumentos para avaliação do desenvolvimento moral ou discussão teórica dessa questão. Dos artigos que abordavam gênero de outra maneira, sendo esses 3 do total (N = 52), gênero não foi relacionado diretamente às teorias morais de Piaget e Kohlberg.
A partir disso, procurou-se saber se o gênero, quando foi abordado nos artigos, dispôs de uma perspectiva feminista crítica ou não, dividindo a produção em dois principais agrupamentos: gênero fundamentado em perspectivas feministas e em não-feministas. Quando gênero dispôs de perspectiva feminista, para saber qual seu posicionamento epistêmico segundo a classificação fornecida por Harding (1986), analisaram-se a discussão produzida nos artigos e as teorias e autoras(es) feministas que referenciam, que se associam a alguma das epistêmicos feministas.
Os 52 artigos analisados foram, então, classificados nos referidos dois agrupamentos, o primeiro de artigos que não apresentam uma perspectiva feminista, que se denominou ‘Não há perspectiva explícita ou declarada’, e o segundo de artigos que a apresentam. Esse segundo agrupamento se dividiu em três subgrupos, que concerne à classificação de Harding (1986): ‘Perspectiva epistêmica empiricista’, ‘Perspectiva epistêmica standpoint’ e ‘Perspectiva epistêmica pós-moderna’.
Dos artigos do primeiro grupo, o que se percebeu, e contrariamente ao que se esperava, é que as investigações, mesmo abordando o gênero, não apresentam qualquer fundamentação teórica mais consistente para a manipulação que fazem de seu conceito. Foram 27 artigos, que corresponderam a 52% do total da produção (N = 52). O que se esperava era que, caso os artigos não atribuíssem uma fundamentação feminista ao gênero, fundamentassem-no, pelo menos, com alguma perspectiva normatizadora ou, até mesmo, patologizante, por meio de teorias de gênero não feministas, sendo que perspectivas desse tipo se afirmaram historicamente na Psicologia e em outras áreas, como Biologia, Neurociência, Psiquiatria e outras (Scott, 1995).
Quanto ao segundo grupo, distinguindo os artigos em subgrupos relativos às três epistêmicas descritas por Harding (1986), 11 artigos corresponderam à perspectiva epistêmica empirista, sendo 21% do montante total de artigos (N = 52). Em 06 desses artigos, gênero foi fundamentado a partir da teoria do Esquema de Gênero (Gender Schema Theory) da psicóloga estadunidense Sandra Bem (1974), sendo eles Pratt, Golding e Hunter (1984), Sayers (1987), Glover (2001), Kracher, Chatterjee e Lundquist (2002), Nunner-Winkler, Meyer-Nikele, e Wohlrab (2007), e Kracher e Marble (2008). Já o artigo de Nunner-Winkler, Meyer-Nikele e Wohlrab (2007) também se fundamentou na teoria do Papel Social (Social Role Theory) da psicóloga estadunidense Alice Eagly (1997), enquanto Kracher, Chatterjee e Lundquist (2002) referenciam a psicóloga estadunidense Rhoda Kesler Unger. Em contrapartida, Keefer e Olson (1995), Wark e Krebs (1996), Mcgillicuddy-De Lisi, Sullivan e Hughes (2003), Bouhnik e Mor (2014) e Wang e Calvano (2015) não citam alguma autora ou teoria que pudesse fundamentar a perspectiva epistêmica empiricista que dão ao gênero em seus artigos. Assim, discerniu-se que o conceito de gênero que fazem uso se enquadra nessa perspectiva feminista pelas características de suas investigações e pela maneira como se referiram ao gênero. Nesses artigos se citou a discussão de Gilligan sobre as diferenças de gênero, mas que serviu apenas de ‘pano de fundo’ para a investigação empírica que retratam, que seguiu o empiricismo feminista.
Sobre a teoria de Bem (1974, p. 155, tradução nossa, grifo nosso)9, ela foi elaborada pela autora no final da década de 1960, que popularizou essa perspectiva epistêmica, e propôs a “androginia” como nova identidade: “[...] masculinidade e feminilidade como duas dimensões independentes, possibilitando assim caracterizar uma pessoa como masculina, feminina ou ‘andrógena’ em função da diferença entre seu endosso de características de personalidade masculina e feminina”. Apesar de seu aparente potencial crítico, que propõe uma integração da dualidade psicológica e cultural, as críticas à teoria desvelam insuficiências, pois também reconhece estereótipos cultural e historicamente construídos de feminilidade e masculinidade, retendo o clássico binarismo de gênero e reafirmando as diferenças de gênero em traços de personalidade.
Já a teoria de Eagly (1997), de mesma epistêmica, surge ainda na década de 1970 e propõe que as diferenças de gênero são resultado da assunção de papéis sociais que regulam o comportamento das pessoas e que são aprendidos ao longo do processo de socialização. Também alvo de várias críticas, essa teoria e suas proposições “em relação ao gênero trouxeram novas visões, mas também implicaram outros e os mesmos problemas, além de não resolverem os já existentes [...]. Em termos práticos, o gênero continua a ser visto como interno e imutável” (Nogueira, 2001, p. 141).
Para Harding (1986, p. 26, tradução nossa, grifo nosso)10, essas críticas à Bem (1974) e Eagly (1997) desvelam incongruências características da epistêmico que representam: “[...] as tentativas feministas de repensar o que é percebido como ‘má ciência’ trazem à nossa atenção profundas incoerências lógicas e o que, paradoxalmente, podemos chamar de inadequações empíricas nas epistemologias empiristas”. Sendo a epistêmico mais referenciada nos artigos junto a epistêmico de standpoint, esse é um resultado coerente, pois, como ressalta Nogueira (2012, p. 50), o feminismo empirista é, ainda hoje, o mais predominante na Psicologia, surgido quando mulheres, com suas pautas feministas, adentraram nessa Ciência e, “[...] para serem aceitas, a maioria escolheu imitar as abordagens da psicologia que foram defendidas por seus pares masculinos”. Assim, essa epistêmico é a única das três que não questiona o paradigma tradicional de produção do conhecimento científico.
No subgrupo seguinte, a perspectiva epistêmica caracterizada foi a de standpoint feminista. Assim como na epistêmica anterior, foram 11 artigos atribuídos a esse subgrupo, o que correspondeu a 21% do total de artigos (N = 52). Nele, a teoria de Gilligan (1982) apareceu referenciada em todos os artigos: Flanagan (1982), Broughton (1983), Reimer (1983), Reimer (1984), Flanagan e Jackson (1987), Donenberg e Hoffman (1988), Daniels, D’andrea e Heck (1995), Levenson (2009), Burgos-Saelzer (2013), Capraro e Sippel (2017), Hodson (2018). Também foram referenciadas autoras que deram continuidade à teoria gilliganiana, a psicóloga estadunidense Nona Lyons (1983) e a filósofa estadunidense Nel Noddings (2013), ambas de perspectiva standpoint, sendo Lyons citada em 3 artigos, em Flanagan e Jackson (1987), Daniels, D’andrea e Heck (1995) e Donenberg e Hoffman (1988), e Noddings citada apenas em Flanagan e Jackson (1987). A socióloga e psicanalista estadunidense Nancy Chodorow (1991), também de perspectiva standpoint, que foi referência para Gilligan no desenvolvimento de sua teoria, é citada em 3 artigos: Broughton (1983), Reimer (1983) e Flanagan e Jackson (1987). Em alguns artigos, a fundamentação de gênero aparece mais explícita, enquanto em outros se verifica apenas a referência à teoria de Gilligan, muitas vezes descontextualizada, em que só se pôde discernir a perspectiva epistêmica que atribuem ao conceito de gênero, além da citação de uma teoria que a representa, pelas características das investigações retratadas nos artigos e maneira como se referiram ao gênero.
Lyons (1983) é uma autora que foi colaboradora de Gilligan na década de 1980, e hoje encontra-se afastada do campo da moralidade. Noddings (2013) deu continuidade à Ética do Cuidado de Gilligan, mas propôs adaptações à proposta original gilliganiana: “Noddings defende a proposta de uma ética do cuidado em detrimento de uma ética de princípios, ao contrário do que é sugerido por Gilligan por meio da noção de complementaridade” (Kuhnen (2010, p. 155), e acentua ainda mais o essencialismo de gênero, assumindo uma perspectiva moral tipicamente feminina e uma outra masculina.
As leituras de Chodorow (1991) na psicanálise sobre as relações parentais na infância e seus efeitos sobre a identidade de gênero é acionada por Gilligan (1982). Tanto para Freud como para Chodorow (1991), as relações parentais na infância implicam em como homens e mulheres se desenvolverão. Para Chodorow, porém, em razão do relacionamento da criança com sua principal cuidadora - que defende ser, ‘naturalmente’, a mãe ou outra figura feminina -, pelo menos até seus primeiros três anos de vida, desencadeiam-se consequências diferentes ao psiquismo do menino e da menina, o que, no entendimento de Gilligan, levaria as mulheres a apresentarem uma perspectiva moral própria, que preza o bem-estar alheio, e aos homens a apresentarem a moralidade fundada na racionalidade e justiça, defendida por Kohlberg (2017). As críticas à essa teoria de Chodorow remontam as críticas à perspectiva epistêmica que ela representa.
Como salienta Nogueira (2001, p. 114), o standpoint feminista é uma alternativa importante à epistêmico empiricista, pois questiona princípios fundamentais do modelo moderno de Ciência, “[...] esta abordagem distancia-se da ênfase de procura de objetividade e neutralidade característica da abordagem empiricista. Os estudos centram-se nas próprias mulheres, produzindo conhecimento [...] centrado nas experiências particulares [...]” e a teoria de Gilligan é o “[...] expoente máximo característico desta posição [epistêmica]”. Contudo, muitas(os) autoras(es) associadas(os) a essa epistêmico feminista, “[...] pretendiam indiretamente desafiar a validade tradicional dos métodos científicos [...]”, só que acabaram, frequentemente, “[...] por celebrar a natureza especial das mulheres e, por isso, enfatizar mais do que negar importantes diferenças entre os sexos” (p. 144). Assim, mesmo que, no caso de Gilligan, haja a crítica à inexistência das mulheres nas amostras de pesquisa iniciais de Kohlberg e o baixo desempenho delas no desenvolvimento moral, o que Gilligan e demais autoras de standpoint feminista fazem é apenas inverter a lógica essencialista, só que agora em benefício das mulheres (Montenegro, 2003).
O último subgrupo se referiu à perspectiva epistêmica pós-moderna. Foram 03 artigos atribuídos a esse subgrupo, correspondendo a 6% da produção (N = 52). Talvez em razão da diversidade de teorias feministas que compartilham desse posicionamento epistêmico, foram várias as teorias citadas nesses artigos. Como já se esperava, a teoria de Gilligan foi referenciada nos três artigos, enquanto suas continuadoras Joan Tronto (1999) e a já mencionada Noddings (2013) foi citada no artigo de Raghuram (2019), e Virginia Held, também continuadora de Gilligan, foi citada tanto em Raghuram (2019) quanto em Sharpe (1992). Sandra Harding (1986) e Catharine MacKinnon são citadas em Sharpe (1992) e Wertz (1994). Das demais autoras feministas citadas, Judith Butler, Patricia Hill Collins, Linda McDowell e Carol Thomas, são mencionadas em Raghuram (2019). Já Sharpe (1992) cita um número maior de autoras, sendo elas Annette Baier, Cass R. Sunstein, Julia A. Sherman, Evelyn Torton Beck, Joyce McCarl, Nielsen Deborah Tannen, Seyla Benhabib. E, por último, Wertz (1994) cita as autoras Susan Sherwin, Rachel T. Hare-Mustin, Jeanne Marecek, Zella Luria, e Martha T. Mednick. Dada a impossibilidade de debruçarmo-nos em todas elas, ressalta-se que a maioria dessas autoras, sobretudo com exceção de Gilligan e continuadoras, são autoras de teorias ou apresentam afiliações teóricas de epistêmico pós-moderna, que os três artigos se fundamentam ao abordarem o gênero.
O feminismo pós-moderno nasce a partir da chamada crise da segunda onda do Movimento Feminista, ocorrida na década de 1980, que deu origem à terceira onda do movimento. Essa crise foi desencadeada por diferentes frentes e as teorizações feministas com base no paradigma pós-moderno logo dominaram os estudos feministas e de gênero, como ressalta Souza (2017).
O paradigma pós-moderno traz, como principal premissa, a incerteza para o conhecimento científico, bem como a desconfiança sobre os modos de como produzi-lo: “[...] talvez a ideia mais importante das perspectivas pós-modernas seja a negação da procura da verdade universal e absoluta” (Nogueira, 2001, p. 144). E é nessa premissa que se baseia a diferenciação terminológica, que adotamos neste artigo, de epistemologia para epistêmico. Ao contrário dos feminismos empiricista e de standpoint, o feminismo pós-moderno não busca o status de melhor modo de pensar feminista ou mesmo uma epistemologia mais adequada às mulheres, pois querer a hegemonia é controlar o pensamento, é ocupar o lugar do dominador (Harding, 1986; Souza, 2017).
O gênero, pensado a partir da terceira onda do Movimento Feminista e, portanto, por teorias de epistêmico pós-moderna, tem seu conceito desconstruído em relação a como era conceituado pelos Feminismos das ondas anteriores. Antes, o gênero “[...] era definido a partir do sexo enquanto categoria natural, binária e hierárquica, como se existisse uma essência naturalmente masculina ou feminina inscrita na subjetividade [...]”, desse modo, “[...] revisada a ideia binária de dois sexos e dois gêneros, o gênero passou a ser entendido como relação, primordialmente política, que ocorre em um campo discursivo e histórico de relações de poder” (Narvaz & Koller, 2006, p. 650).
A perspectiva epistêmica feminista pós-moderna, segundo Nogueira (2012, p. 49), “[...] vai mais longe no que diz respeito ao desafio aos pressupostos do empiricismo feminista e das teorias de standpoint feminista [...]”, pois recusa quaisquer discursos universalizantes e generalizáveis acerca da mulher, e ainda argumenta que: “[...] em vez de se optar pelo caráter do conhecimento como um resultado final e uma lei universal [...]”, sem que seja possível “[...] descortinar o processo nem a sua localização no mundo, os conhecimentos situados são uma proposta epistemológica de localização e de consideração da contextualidade do conhecimento, no quadro da sua própria produção”.
Vale enfatizar que, nessa organização dos artigos em categorias, atentou-se aos aspectos teóricos desses artigos, especificamente quanto à incorporação do gênero, quais as teorias de gênero recorridas para sustentá-lo e quais as epistêmicas feministas que essas teorias representam. Com essa análise, percebe-se que, ao abordarem o desenvolvimento moral e o gênero simultaneamente, foram pouquíssimos os artigos que fundamentaram o gênero com outra perspectiva que não empiricista ou de standpoint. Não foram encontrados artigos que compartilhem perspectivas epistêmicas feministas críticas pós-modernas, que desconstruíssem, ou ao menos interrogassem, as bases epistemológicas nas quais as teorias morais foram construídas.
Na verdade, o que se viu, majoritariamente, foi a interrogação das implicações do constructo de desenvolvimento moral kohlbergiano sobre diferenças de gênero - desempenho de homens e mulheres - pelas ideias de Gilligan (1982). Ora interrogando a teoria kohlberguiana a partir da epistêmico feminista standpoint representada por Gilligan, ora partindo das ideias de Gilligan apenas como ‘pano de fundo’ e se fundamentando na epistêmico empiricista. Embora a perspectiva epistêmica do trabalho de Gilligan seja de standpoint, contemporânea a ela, a perspectiva empirista também "invadiu" as pesquisas que procuravam esclarecer o debate Kohlberg-Gilligan.
Considerações finais
A pesquisa da qual este artigo decorre pôde reunir, mapear e analisar artigos internacionais de língua inglesa que abordam gênero e moralidade como tema. O mapeamento, pelo estado da arte, demonstrou que, sendo periférica, essa produção carece de mais investigações que realizem essa intersecção. Considerado o período de 1982-2019, a produção desponta desde a publicação do livro Uma voz diferente de Gilligan (1982), com seu pico na década de 1990, mas declínio nos anos seguintes.
Quanto à análise do conteúdo dos artigos pela meta-pesquisa, observou-se que, quase em sua totalidade, as investigações veiculadas nos artigos abordam o gênero a partir da questão das diferenças de gênero no desenvolvimento moral, resgatando o debate Kohlberg-Gilligan tanto para verificação empírica quanto para discussão teórica. Foram poucas as exceções que abordaram o gênero de outra forma. A fundamentação do gênero, por sua vez, dividiu-se em dois principais grupos: gênero fundamentado a partir de perspectivas feministas e não feministas.
O primeiro grupo, constituído por 27 artigos, correspondeu a 52% do total da produção (N = 52), enquanto o segundo grupo foi dividido em subgrupos de acordo com as epistêmicos das teorias nas quais os artigos se fundamentam. 11 artigos corresponderam à perspectiva epistêmica empiricista e outros 11 artigos à perspectiva epistêmica de standpoint, sendo cada subgrupo representando 21% do montante total. Apenas três artigos compreenderam a perspectiva epistêmica pós-moderna, 6% dessa produção.
Não foram encontrados artigos em que a perspectiva epistêmica feminista pós-moderna desconstruísse, ou ao menos interrogasse, as bases epistemológicas nas quais as teorias morais de Piaget e Kohlberg foram construídas, a não ser pela de Gilligan, que se mostra limitada para isso. Aponta-se, desse modo, para a consolidação, passados quase 40 anos da publicação de seu livro, da ruptura epistêmica provocada por Gilligan (1982), então pioneira e vanguardista no campo.
E essas investigações, que abordam o gênero a partir das epistêmicos feministas empiricista e standpoint, prolongaram-se por toda a década de 1980 até a década de 1990, mesmo em meio à eclosão e consolidação da terceira onda do Movimento Feminista, em que as teorizações pós-modernas dominaram a produção feminista e renovaram a literatura sobre gênero. Até mesmo a partir da década de 2000, não há muitas referências a teorias feministas pós-modernas ou a outro modo de se interrogar as teorias morais que não pelo debate das diferenças de gênero. Ainda assim, com o declínio dessas pesquisas de 2000 em diante, infere-se que essa descontinuidade pode ter relação tanto pela superação de perspectivas feministas como a de standpoint de Gilligan quanto pelo fato do debate Kohlberg-Gilligan permanecer inconcluso, como pontua Silva (2021), aludindo à essa sua insuficiência.
Ao longo dos 37 anos do período temporal delimitado, não se viu, portanto, a progressão desse debate do ponto de vista do potencial crítico das teorizações feministas pós-modernas e das rupturas epistêmicas que poderiam trazer ao campo.
De todos os resultados alcançados com a pesquisa, talvez este seja o resultado que mereça mais destaque. Enquanto, no campo da Psicologia Social, por exemplo, autoras e autores indicam que houve esse tipo de avanço, a Psicologia do Desenvolvimento Moral parece resistir a revisões epistêmicas que rompam com suas origens epistemológicas, como ressaltam Oliveira e Madureira (2014), Souza (2017), Burman (2019) e como nossa pesquisa trouxe dados que atestam essa inferência.
Num movimento de perspectivas críticas feministas que se aliam à revisões amplas sobre os modos de fazer Ciência, que ressaltam perspectivas situadas e superação de dicotomias e reducionismos sobre os processos de investigação dos objetos de pesquisa, parece que a produção reunida, mapeada e analisada indicou que o debate Kohlberg-Gilligan, que se arrasta inconclusivo à androginia contemporânea, não se sustenta mais, apesar do reconhecimento da importância crucial do seu trabalho como crítica à dominação masculinista da Psicologia do Desenvolvimento Moral. As diferenças encontradas na moralidade a partir de perspectivas de gênero fundamentadas na binaridade (homem-mulher) e na essencialidade (corporal-cisgênera) não são suficientes para dar conta da complexidade das relações e dos processos psicológicos envolvidos que dão vazão ao desenvolvimento moral.
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6
A pesquisa teve como título O gênero na produção de pesquisa em psicologia do desenvolvimento moral: mapeamento e análise em periódicos internacionais de língua inglesa (1982-2018), com vigência de 01/08/2019 a 29/02/2020 e vinculando-se à FAPESP pelo processo de nº 2019/08942-1. Disponível em: https://bv.fapesp.br/pt/bolsas/187806/o-genero-na-producao-de-pesquisa-em-psicologia-do-desenvolvimento-moral-mapeamento-e-analise-em-per/. Acesso em: 01 fev. 2022.
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7
A apresentação do Movimento Feminista em ondas é uma escolha narrativa, visto que não há consenso na literatura sobre a organização do movimento dessa forma e a qual é questionada por outras narrativas (Prehn & Hüning, 2005; Nogueira, 2017).
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8
A classificação de Harding (1986) acerca das epistemes feministas, que fundamenta e é retomada ao longo deste artigo, é uma escolha epistemológica e teórica nossa. Porém, cabe evidenciar que existem outras maneiras de realizar essa leitura no âmbito da epistemologia feminista, as quais, inclusive, produzem interlocução dentro da leitura que Harding apresenta, desde feminismos marxistas, decoloniais, negros, queers e outros. Tais alternativas podem ser consultadas, por exemplo, em Schiebinger (2001) e Sardenberg (2007).
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9
“[...] masculinity and femininity as two independent dimensions, thereby making it possible to characterize a person as masculine, feminine, or ‘androgynous’ as a function of the difference between his or her endorsement of masculine and feminine personality characteristics”.
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10
“[...] feminist attempts to reform what is perceived as bad science bring to our attention deep logical incoherences and what, paradoxically, we can call empirical inadequacies in empiricist epistemologies”.
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Disponibilidade de dados:
O conjunto de dados de apoio aos resultados deste estudo está publicado no próprio artigo.
O conjunto de dados de apoio aos resultados deste estudo está publicado no próprio artigo.


