RESUMO:
Objetivou-se identificar percepções e atitudes acerca da violência no namoro de adolescentes escolares. Estudo descritivo, exploratório e qualitativo desenvolvido com 502 participantes que preencheram questionário sobre relações afetivas e violência no namoro. Realizou-se a análise do material através do software NVivo. Os resultados indicam que os adolescentes reconhecem situações de violência, contudo toleram a prática de comportamentos abusivos nas relações afetivas. Dessa maneira, apenas a detenção de conhecimento acerca das manifestações violentas e o reconhecimento dessas práticas abusivas são insuficientes para contribuir na cessação do ciclo de violência. Os dados incitam a necessidade de novos estudos para maior compreensão do fenômeno, bem como para estimular a resolução positiva de conflitos e a manutenção de relacionamentos saudáveis em uma perspectiva harmônica entre o casal
Palavras-chave:
Atitudes de adolescentes; percepção da violência; relacionamento abusivo
ABSTRACT:
This study aimed to identify perceptions and attitudes of school-aged adolescents regarding dating violence. It was a descriptive, exploratory, qualitative study in which 502 participants completed a questionnaire about affectionate relationships and dating violence. The data were analyzed using NVivo software. The results indicate that, while adolescents recognize situations of violence, they tolerate abusive behaviors in romantic relationships. Therefore, simply possessing knowledge of violent manifestations and recognizing these abusive practices alone is insufficient to end the cycle of violence. Further studies are needed to better understand this phenomenon and encourage the positive resolution of conflicts and the maintenance of healthy relationships in a harmonious context between couples.
Keywords:
Attitudes of teenagers; perception of violence; abusive relationship
RESUMEN:
El objetivo fue identificar percepciones y actitudes sobre la violencia en el noviazgo de adolescentes escolares. Estudio descriptivo-exploratorio y cualitativo desarrollado con 502 participantes que completaron un cuestionario sobre relaciones afectivas y violencia en el noviazgo. O material foi analisado utilizando o software NVivo. Los resultados indican que los adolescentes reconocen situaciones de violencia, sin embargo toleran la práctica de conductas abusivas en las relaciones afectivas. De esta forma, solo la posesión de conocimientos sobre manifestaciones violentas y el reconocimiento de estas prácticas abusivas son insuficientes para contribuir al cese del ciclo de violencia. Los datos incitan a la necesidad de realizar más estudios para comprender mejor el fenómeno, así como para estimular la resolución positiva de conflictos y el mantenimiento de relaciones saludables en una perspectiva armoniosa entre la pareja.
Palabras clave:
Actitudes de los adolescentes; percepción de la violencia; relación abusiva
Introdução
Os relacionamentos afetivos caracterizam-se como relações saudáveis em que ocorre a descoberta de interesses em comum e proximidade física, havendo respeito e confiança mútua. Contudo, esse tipo de relacionamento pode se tornar abusivo mediante a prática de violência, quando surgem comportamentos controladores (Ataíde, 2015).
Efetivamente, a manifestação de ciúmes tem sido percebida como força instigadora de violência no namoro, sendo compreendido como essencial para manter um vínculo (Caridade, 2011). A idealização do amor romântico, em que os apaixonados criam uma realidade aparentemente perfeita, a compreensão de que apenas a agressão física é considerada violência e o entendimento de certos atos agressivos como proteção da relação contribuem para a tolerância e invisibilidade da violência no relacionamento, até então, amoroso (Nascimento & Cordeiro, 2011).
Os adolescentes, em sua maioria, não se reconhecem como vítimas de um relacionamento abusivo, permanecendo nele, e só percebem a vivência da violência quando ocorre o rompimento da relação (Nascimento & Cordeiro, 2011). A saída e subsequente pedido de ajuda implica uma tomada de decisão complexa e multifatorial, ancorada nas percepções e atitudes sobre as vivências íntimas abusivas (Caridade et al., 2019).
No entanto, prospecta-se que namoros com histórico de agressividade perpetrarão esse comportamento na consolidação do matrimônio (Fernandes, 2013). Este risco, das dinâmicas abusivas se perpetuarem na idade adulta, fundamenta-se por este tipo de abuso íntimo ter início numa fase da vida em que os adolescentes despertam o interesse no estabelecimento de relações afetivas, que aprendem e desenvolvem os padrões interacionais (Caridade, 2018).
Nessa perspectiva, esse estudo pretende dar uma contribuição importante, propondo-se a identificar percepções e atitudes acerca da violência no namoro de adolescentes escolares.
Método
Estudo descritivo-exploratório e qualitativo desenvolvido em quatro instituições de ensino na zona urbana de dois municípios no interior do Rio Grande do Norte, região nordeste do Brasil. As instituições contemplavam ensino médio em suas grades curriculares.
Os critérios adotados para selecionar a amostra foram: ser regularmente matriculado, ter idade entre 10 e 19 anos (definida pela Organização Mundial da Saúde) e ter/estar vivenciado/vivenciando um relacionamento afetivo. Adolescentes com estado civil de união estável e/ou casamento não compuseram a amostra.
A coleta de dados ocorreu na sala de aula no segundo semestre de 2018. O instrumento captou dados sociodemográficos, afetivos e relacionados à violência no namoro. O material foi digitado e a análise dos dados realizada por meio do software Qualitative Solution Research Nvivo, versão 10, que gera uma nuvem com as palavras mais frequentes nos relatos.
Cada nuvem denomina-se ‘nó’ e representa a forma de interpretação dos dados. No tratamento dos dados foram valorizadas as falas que respondiam ao questionamento, antes da inserção no software. Foram incluídas palavras a partir de três letras.
O estudo foi submetido para apreciação ao Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte e aprovado em julho de 2018, pelo Parecer nº 2.716.885 sob Certificação de Apresentação para Apreciação Ética nº 83186818.3.0000.5294.
Os participantes foram identificados através da letra A (adolescente) seguida de algarismos arábicos que representam a ordem dos questionários. Exemplo: A1.
Resultados Caracterização da amostra
Participaram 502 escolares com idade média de 16,31 anos, sendo 77,3% da rede pública de ensino. Predominaram alunos que cursavam o 1º ano (45,5%), do sexo feminino (59,4%), que se autodeclararam de cor branca (44,5%) e parda (44,3%), mantinham convivência harmônica com familiares (74,3%) e possuíam renda familiar superior a R$ 954,00 (63,9%), valor do salário mínimo brasileiro na época da pesquisa.
Dados relacionados aos vínculos afetivos apontaram que 47,9% estavam comprometidos com alguém, fosse na condição de namorando ou assumindo o status de ‘ficar’. Para 84,9%, o relacionamento atual ou o último que tiveram dura/durou até 12 meses, sendo para 79,4% de convivência harmônica com o par; 65,9% começaram a se relacionar afetivamente entre 13 e 19 anos; 64,6% relataram a quantidade de relacionamentos, de curta e longa duração, entre um e cinco envolvimentos.
Codificações dos nós
As respostas discursivas foram codificadas em cinco nós, a partir do agrupamento de questionamentos semelhantes, a saber: Percepções de namoro; Namoro ideal versus real; Percepções de violência no namoro; Vivências no namoro e testemunho de violência; e Atitudes. Das nuvens de palavras, foram destacadas as 10 mais frequentes nos discursos dos escolares em cada nó.
Percepção de namoro
Esse nó busca captar percepções de jovens sobre o namoro e seus desdobramentos. Os questionamentos que geraram a nuvem de palavras foram: “O que pensa sobre o seu namoro atual ou o último que teve?” e “Quais as expectativas de futuro com seu/sua namorado/a? Caso não tenha, quais expectativas para um futuro relacionamento?”.
Esses pensamentos, relacionados a vínculos passados, atuais e pretendidos, estão apresentados na nuvem de palavras sobre percepções de namoro (Figura 01):
As palavras que apareceram em destaque foram: bom, juntos, casar, saudável, bem, boa, respeito, família, amor e futuro. Elas associam-se à forma de avaliar o relacionamento afetivo demonstrando que são/foram relações de convivência harmônica com o par e veiculando expectativas relacionais futuras positivas:
Penso que é maravilhoso, convivemos muito bem apesar da distância. Minha expectativa é casar com meu namorado atual, montar uma família e realizar nossos sonhos (A190).
Viver bem em todos os sentidos, casar, construir família e vencer juntos na vida (A355).
Namoro saudável, com respeito, companheirismo, admiração e muito amor! (A437).
Seja bom! Que dure bastante, que haja respeito sempre e que sejamos felizes (A394).
Alguns apontaram ideias contrárias, refletindo sobre relacionamentos anteriores como intermediários ou ruins. Nesse sentido, apresentaram relatos de violências sofridas, justificando o rompimento do vínculo, negando experiências futuras e/ou sendo mais criteriosos na escolha do próximo par:
Decepção. Não penso em namorar agora (A12).
Bom, mas não tínhamos sintonia. No futuro quero algo mais firme e maduro (A99).
Bom no começo, mas com o tempo ficou muito ruim. Ela não me deixava sair com amigos e queria me manipular (A150).
Apesar de algumas brigas e o término a gente viveu muitas coisas boas. Desejo que a gente saiba lidar um com o outro e acima de tudo respeito e amor (A168).
Perdi muito tempo em uma coisa que não era saudável. Pretendo encontrar a pessoa certa e não ser nada forçado (A174).
Namoro ideal versus real
O nó se constitui pelos questionamentos: “O que considera um namoro ideal?” e “Existem/existiu proibições e permissões no seu namoro? Quais? O que sentiu?”.
A nuvem de palavras sobre namoro ideal versus real mostra o pensamento dos participantes adentrando no campo das crenças e buscando o reconhecimento de atitudes violentas no namoro (Figura 02):
As palavras mais frequentes foram: não, respeito, confiança, sim, amor, amigos, sair, brigas, companheirismo e nunca. Os termos relacionados à idealização do par são características desejadas no vínculo afetivo, as quais podem proporcionar durabilidade ao casal considerando que a relação seja agradável e saudável para ambos.
Não tem tantas brigas, um confia no outro e acima de tudo se respeitam (A14).
Sem brigas, desavenças. Onde amor, carinho e confiança reinem (A48).
Respeito, confiança e amor. Onde as pessoas saibam conversar e tomem atitudes em conjunto, e não por impulso (A84).
Amor, confiança, companheirismo, onde o casal seja muito amigo (A149).
Entretanto, também houve reconhecimento de situações abusivas, mesmo que em evidência a negativa desse evento, através da palavra ‘não’ que aparece destacada na nuvem. As principais proibições consistiram em impedir o par de fazer algo ou se comportar de alguma maneira. Os sentimentos gerados por essas imposições, em geral, foram ruins embora a vítima acatasse as solicitações:
Proibições como parar de falar com algumas pessoas, usar certas roupas, entre outras coisas. Me senti presa e sem coragem para terminar, uma das vezes que tentei ele usou manipulação psicológica para que eu não terminasse (A164).
Sim. Amizades, ir a certos lugares eram controlados. Desconfortável, mas eu sei que é normal (A401).
Sim. Sair de casa sem ele, usar roupas curtas, entre outras e sempre tinha que ver o meu celular. Reagi de forma normal, pois gostava dele e não percebia (A407).
Sim. Eu não podia sair com meus amigos sem ele e tive de perder contato. Senti-me horrível, mas cedi (A443).
Há casos que apesar de reconhecerem as atitudes violentas, consideraram natural a imposição de proibições e permissões:
Sim, achei normal para o começo de um relacionamento. Hoje já estamos bastante livres (A16).
Sim. Porém eu acho que todo namoro deve haver, pois você estará abrindo mão da sua vida de solteiro e automaticamente as coisas mudam (A125).
Percepção de violência no namoro
Essa categoria buscou identificar se os adolescentes escolares tinham conhecimento sobre a temática, bem como se eram capazes de reconhecer (tipos de) violações praticadas.
O nó foi construído pelas perguntas norteadoras: “Você já ouviu a expressão ‘Violência no Namoro’? O que você acredita que seja?” A nuvem de palavras sobre percepções de violência no namoro, pretende captar o conhecimento dos adolescentes sobre violência na vivência de um relacionamento afetivo (Figura 03):
As palavras mais frequentes nos discursos foram: sim, não, física, violência, agressão, verbal, abusivo, relacionamento, psicológica e brigas. A alta frequência da palavra ‘sim’ indica que os escolares conheciam a expressão, reconhecendo o termo como referente às violações praticadas pelo par abusivo e elencando brigas com agressão de natureza física, psicológica e verbal como consequências desse fenômeno:
Sim. A pior situação é quando ocorre violência física, mas a verbal também machuca, sem contar a privação do companheiro (A4).
Sim, algo abusivo e sem confiança. Acha que é dono do outro e pode mandar nos atos, roupas e sempre em uma briga coloca culpa na outra pessoa, inferiorizando o outro (A222).
Sim. Violência partindo do companheiro a partir de gestos incomodam gerando grandes conflitos causando até morte, afetando principalmente as mulheres (A268).
Já. Muitas brigas e conflitos que interferem no psicológico de quem tá sendo abusado, além da violência sexual (A462).
Os que reconheceram não ter escutado a expressão demonstraram entendimento sobre o tema descrevendo situações e pontos importantes sobre relacionamentos abusivos, tais como manipulação e controle:
Não. Impedida de fazer coisas que goste e quando faz pode ser até espancada (A65).
Não. Agredir a outra pessoa tanto com palavras quanto com forma física (A88). Acredito que não é um namoro saudável (A161).
Não. Desconfiança, brigas, agressão (A245).
Não. Não deixa uma mulher usar uma coisa porque é curto, brigas e abaixar a moral do parceiro (A315).
Não. Violentada dentro de seu próprio namoro pelo seu parceiro (A363).
Vivências no namoro e testemunho de violência
O nó se constitui pelos questionamentos: “Tendo em vista o que sabe sobre violência no namoro, considera que é, atualmente, ou que já foi vítima/agressor(a) em algum relacionamento de namoro?” e “Você já presenciou, em algum momento da sua vida, alguma situação de violência entre pessoas conhecidas?”.
A nuvem de palavras sobre vivências no namoro e testemunho da violência apresenta discursos dos participantes na ótica tanto de personagens como de testemunhas e almeja que sejam capazes de (se) reconhecer vítimas/agressores nos relacionamentos, bem como descrever atos violentos (Figura 04):
Destacam-se na figura as palavras: não, pessoas, amigos, vizinhos, pais, família, nunca, sim, namorado e brigas. Os relatos enquanto personagens de relacionamentos abusivos compreendem tanto o reconhecimento como vítima quanto a autoavaliação como agressor. Descrevem comportamentos e situações violentas, bem como a dificuldade de romper o vínculo afetivo com o abusador:
Sim. Meu ex-namorado era machista, não me deixava usar batom ou esmalte vermelho, shorts muito curtos. Falava que era coisa de vagabunda (A179).
Sim. Já deixei meu namoro se tornar abusivo, onde eu apanhava e não me importava porque para mim se eu o perdesse iria sofrer mais (A286).
Sim. Na hora da raiva aconteceu uma cena de ciúmes da minha parte [...] e acabei batendo nele (A458).
Queria controlar minha vida. Ele podia sair sempre, mas implicava com qualquer saída minha. Acariciava sem minha permissão, segurou com força meu braço e elevou o tom de voz por causa de ciúmes [...] Uma das vezes que tentei terminar ele ficou desesperado e falou que ia se matar, apelou para o psicológico (A477).
Na posição de testemunhar comportamentos e atos abusivos em situações cotidianas, os participantes relataram presenciar violações, principalmente entre pessoas próximas, notadamente com vínculo de parentesco:
Pai dando na minha mãe, xingando ela e também me batia. Ele era bastante agressivo. E com minha irmã o namorado dela não deixava ela se vestir do jeito que queria, proibia de falar com amigos (A157).
Outras pessoas da família, amigos e vizinhos. Pessoas abusivas que tentam controlar roupa, deixar a pessoa pra baixo, proibir de fazer algo que gostar de humilhar em público com gritos e falando da aparência do parceiro (A180).
Pais, outras pessoas da família, amigos, vizinhos e desconhecidos. Jogar objetos, proibir de andar em lugares públicos e/ou sair com amigos, brigas físicas e verbais (A372).
Atitudes
Esse nó buscou compreender como os protagonistas de uma relação abusiva reagem para a cessação desses atos, tanto contando a alguém no intuito de procurar ajuda quanto conversando com o parceiro para que os atos não sejam mais praticados.
Constituído pelas perguntas: “Se sofreu violência, contou a alguém? Como reagiram ao seu relato?” e “Alguma vez você e seu/sua namorado/a conversaram sobre a prática desses comportamentos no namoro de vocês?” A nuvem de palavras sobre atitudes representa as respostas referentes às atitudes diante de situações de violência (Figura 05):
Na nuvem destacam-se as palavras: não, sim, nunca, conversamos, sempre, contei, nós, gente, relacionamento e violência.
Quando ocorrem situações de abuso as vítimas entram em conflito psicológico sobre contar ou não a alguém. As circunstâncias mais comuns foram contar a outras pessoas sobre a experiência negativa buscando apoio para sair da relação e conforto após deixar o relacionamento tóxico:
Sim. As pessoas ficaram surpresas e mandaram ter mais cuidado no próximo relacionamento e não deixar de amar por medo (A180).
Contei depois do término para algumas amigas e elas quase não acreditavam. Ele era ‘bom’ demais pra fazer o que fazia (A241).
Sim, a uma amiga. Me ajudou a superar e sair do relacionamento (A370).
Outros revelaram desconforto em relatar os acontecimentos. As justificativas foram receio de julgamento, medo do próprio agressor e o acontecimento ter sido casual:
Nem precisava contar. As marcas apareciam logo de cara, só que eu mentia dizendo que tinha batido em algo. Tinha medo (A192).
Acho que, se tivesse sofrido, não contaria de primeira, apenas se voltasse a acontecer (A411).
A atitude de não conversar com o par sobre comportamentos abusivos pode significar que estes não existem, como uma espécie de negação do evento na relação, bem como pode ser considerado brincadeira dependendo da gravidade. Contudo, a vítima permanece no desconforto da relação enquanto o abusador intensifica e perpetua seus atos:
Nunca houve conversas sobre isso (A143).
Não, porque tudo que fizemos foi na brincadeira. Nada com intenção de machucar ou magoar (A333). Não, era brincadeira. Não uma ameaça real (A451).
Seguindo a lógica de que conversar sobre as atitudes abusivas no namoro implica a existência de vítima e perpetrador, às vezes quem pratica a violência se recusa a ter a conversa, tanto por não se reconhecer como tal quanto pelo peso social que ser abusivo tem. Entretanto, percebeu-se que os participantes reconhecem que a violência no relacionamento deve tentar ser resolvida, primeiramente, entre o casal:
Sim, mas sempre terminava em brigas e o jeito era dizer que alguém estava errado, gerando mágoas (A77).
Sim, tudo se resolveu numa boa depois de uma discussão e nunca mais aconteceu (A250).
Sim. Eu sempre queria conversar, mas ele não queria saber (A337).
Discussão
O namoro, simbolicamente, deve ser cercado de romantismo. Essa idealização parte da imagem socialmente construída de que essas relações necessitam ser monogâmicas e sem conflitos (Oliveira & Fonseca, 2019). No estudo observaram-se percepções de namoro com predominância de escolares considerando seus relacionamentos positivos e idealizando um futuro promissor com o par atual/desejado.
A expectativa futura remete à consolidação dos laços afetivos, na espera de passar mais tempo na companhia do par, ansiando pelo aumento da intimidade e compartilhamento de sonhos. Nessa projeção manifesta-se o interesse em constituir família, dedicando-se à edificação de um lar e vislumbrando filhos, sendo o casamento considerado sinônimo de felicidade (Fonseca & Duarte, 2014).
Em contrapartida, alguns participantes revelaram violência em relacionamentos anteriores e por tal razão a construção do namoro ideal foi modificada pela experiência negativa. Dessa forma, o desenvolvimento de vínculos afetivos foi deixado de lado e, consequentemente, imaginam um futuro promissor sozinhos, realizando primeiramente planos pessoais para depois envolver-se afetuosamente.
A manutenção de vínculos afetivos com parceiros aparentemente perfeitos torna-se frustrante em detrimento de condutas consideradas desagradáveis na consolidação da relação, tais como ciúme excessivo, traição, desrespeito, falta de confiança, irresponsabilidade, perda da individualidade, esforço unilateral e priorização da vida pessoal (Smeha & Oliveira, 2013).
A identificação de violência no âmbito dessas relações inclui comportamentos julgados como adequados ao novo status, com ares de seriedade que não agradam, e o ‘ficar’ passa a ser valorizado pela prática de envolvimento sem cobranças. Bittar e Nakano, 2017). Dessa maneira, subentende-se que o desejo pelo namoro seja retomado apenas em idade mais avançada, após desfrutar da liberdade e estabilidade profissional (Smeha & Oliveira, 2013).
Considerações sobre namoro ideal versaram a respeito da romantização desse vínculo afetivo revelando o interesse de envolvimento com pessoas de características agradáveis. Esse anseio, principalmente feminino, parte da projeção de uma companhia com os mesmos ideais, numa relação com sentimentos correspondidos. As qualidades desejáveis são respeito, confiança, sinceridade, fidelidade, responsabilidade e diálogo (Smeha & Oliveira, 2013).
Entretanto, a crença de um parceiro ideal se torna perigosa pela naturalização de atitudes abusivas para manter uma relação que não deve mais ser considerada saudável. No estudo, os pares revelaram haver proibições/permissões para manter seus relacionamentos. Assim, entende-se que os adolescentes reconhecem as atitudes violentas no namoro, mas toleram esses atos e permanecem no vínculo, bem como essas práticas abusivas passam a ser recíprocas entre o casal.
Um estudo (Bittar & Nakano, 2017) esclareceu que embora os adolescentes reconheçam a existência de imposições no namoro, às vezes esse tipo de violência não é entendido como tal, fato que se concretiza na banalização desse evento. Essas atitudes, consideradas aceitáveis, são marcadas por disputas desiguais de poder em que o abusador detém da confiança da vítima, que se submete a situações que aparentemente são de proteção.
Os relacionamentos juvenis são influenciados pelo contexto das normas de gênero. Dessa forma emerge o ciúme, que motiva o domínio de comportamentos, tornando-se inerente às relações afetivas especialmente para garantir durabilidade (Cecchetto et al., 2016) assim como principal justificativa para a violência nas relações afetivas, muitas vezes tolerada por ambos (Carvalho et al., 2018).
Os vínculos com essas características são antagônicos à crença de que essa etapa do ciclo vital é a melhor para se relacionar afetivamente. A violência no namoro se associa ao comportamento agressivo durante o casamento, uma vez que os abusos não surgem espontaneamente, mas se consolidam ainda na adolescência (Ataíde, 2015).
Dessa maneira, o conhecimento dos jovens a respeito da violência no contexto dos relacionamentos afetivos configura-se como relevante para a elaboração de propostas de intervenção com a finalidade de promover o desenvolvimento de relações saudáveis (Ventura et al., 2013). Porém, faz-se necessário atentar a linguagem utilizada para descrever certos termos, para relatar situações abusivas.
No estudo, observou-se que os participantes, em geral, referiam-se à noção sobre violência, tanto os que afirmaram conhecer a expressão ‘violência no namoro’ como os que fizeram dedução sobre esse fenômeno. Destacaram com certa clareza a natureza das violações e indicaram comportamentos de alerta para o abuso. Distinguiram que atitudes violentas podem ocorrer por ambos os parceiros, entretanto ainda apontaram a mulher como principal vítima, inclusive de crimes fatais.
A violência no namoro se refere às violações praticadas no âmbito das relações afetivas e tende a se manifestar de formas distintas. A expressão Dating Violence se tornou mais conhecida em nível mundial (Pérez, 2015). No cenário científico, é descrita como violência interpessoal presente nos relacionamentos, heterossexuais e homossexuais, e que essas práticas nocivas fazem parte de um ciclo que precisa ser quebrado (Martins, 2017).
Um estudo (Campeiz et al., 2017.) destacou que a violência nas relações afetivas foi considerada de ocorrência comum e se apresentava através das naturezas física e psicológica/verbal, sendo essa última a mais frequente, assim como relataram a reciprocidade dos atos no relacionamento. Os abusos sexuais, relacionados à coação, foram pouco mencionados. Entretanto, o cerceamento da liberdade no uso de redes sociais e o controle de amizades foram reconhecidos como tal.
As representações de violência reportadas em estudo português (Capelo et al., 2019.) elencaram agressões físicas, psicológicas/verbais, sexuais, controle, maus tratos e desrespeito, contudo, uma parcela considerável daqueles participantes (31,30%) não expressou a compreensão que possuía desse fenômeno. Esses achados sugerem que as condutas violentas de natureza psíquica são as mais comuns.
As violações psicológicas são exercidas como ferramenta para controlar o par, com o intuito de evitar supostas traições. Os comportamentos de controle, tão nocivos quanto agressões físicas, são frequentemente praticados por homens para impor autoridade (Souza et al., 2018).
Na esfera social, as violações, especialmente nos vínculos afetivos, surgem ancoradas na perspectiva de gênero, em que o sexo feminino é considerado frágil e o masculino naturalizado apenas na posição de agressor (Cecchetto et al., 2016). Ainda que nos discursos sociais as mulheres sejam as principais vítimas, há que se considerar homens que não são exclusivamente agressores, dada a bidirecionalidade das violações no namoro.
Quanto às vivências da violência no relacionamento afetivo, há afirmação e negação de ser personagem, bem como relatos e testemunhos de cenas violentas. As situações que remetem a brigas de casais, incluindo agressões físicas e verbais, foram as circunstâncias mais presenciadas, especialmente entre pessoas do círculo afetivo, social e familiar, relatando presenciar mais de uma situação de violência, fosse no interior do lar e/ou em via pública.
Um estudo (Barreira et al., 2013) demonstrou que casais de namorados expostos à violência comunitária apresentam elevadas chances de perpetrar esses atos em seus relacionamentos, assim como a durabilidade do vínculo também aumenta a possibilidade de comportamentos abusivos. Observou-se, ainda, que a ocorrência de agressões físicas e psicológicas é simultânea, uma vez que, dos 60 participantes que admitiram perpetrar agressão física, 57 exerciam violência psicológica.
A violência psicológica sobressai como a agressão mais praticada no cotidiano dos vínculos afetivos juvenis (Bittar & Nakano, 2017). As atitudes mais prevalentes nesse contexto de relacionamento abusivo dizem respeito a elevar o tom de voz, fazer ameaças, perseguir, reprimir a vida do par, entre outros comportamentos condenáveis e de efeitos devastadores (Bittar & Nakano, 2017).
Destaca-se que as agressões de natureza sexual, geralmente, são pouco relatadas nos estudos, o que parece estar associado ao receio da exposição pessoal de ter sofrido/exercido esse abuso, bem como pelo não reconhecimento dessa prática vivenciada dentro do relacionamento afetivo (Costa et al., 2018).
Os relatos de testemunhar situações de violência incluem relação assimétrica de poder entre pessoas de sexo oposto, violação presenciada especialmente entre familiares, decorrente da resolução ineficaz de conflitos com sobressaltos emocionais, tal como impulsividade e forçar relações sexuais (Valdivia-Peralta et al., 2018). O tipo de violência mais presenciada é a verbal, abrangendo humilhação, insultos e elevação de voz (ReyAnacona, 2015) majoritariamente do sexo masculino contra o feminino (Cecchetto et al., 2016).
Corroborando com os achados, adolescentes de dez cidades brasileiras demonstraram diferentes representações de violência elencando desde motivações (ciúmes e consumo de bebida alcoólica) a consequências observadas no momento das agressões. Entre os protagonistas das violações testemunhadas se encontravam pessoas próximas, classificadas como parentes, amigos e vizinhos (Cecchetto et al., 2016).
A experiência violenta interfere diretamente na construção do perfil relacional de agressor. As situações abusivas entre pais, familiares, amigos e vizinhos é tão prejudicial quanto a própria vivência afetiva violenta em namoros anteriores, favorecendo a continuidade desses atos (Carvalho et al., 2018). Efetivamente, estudo de Faias et al. (2016) demonstrou que os jovens que experimentaram violência no namoro, testemunharam e vivenciaram violência no contexto familiar.
Sobre atitudes em situações abusivas, o ato de revelar a alguém as violações sofridas em relacionamentos afetivos configura a construção de uma espécie de rede de apoio à vítima, tanto para conseguir sair da relação quanto para superar os traumas. Pessoas próximas como amigos e familiares foram os ouvintes.
O pedido de ajuda revela-se crucial para mitigar riscos associados à saúde mental dos adolescentes, gerindo problemas de ansiedade e depressão, promovendo competências de gestão e resolução de conflitos, estratégias de autoproteção e prevenção da violência futura (Caridade, 2018). Um estudo (Santos et al., 2019) com vítimas de relações abusivas demonstrou que os adolescentes reagiram de diferentes formas às violências sofridas, sendo a atitude mais frequente tentar conversar com o par, além de ficar tristes e chorar, sair do ambiente deixando o agressor sozinho e/ou ficar sozinho, revidar para defender-se e/ou recorrer a familiares e amigos após violação padecida.
Em outro estudo (Fonseca et al., 2018) o enfrentamento imediato por parte de adolescentes permeou dois extremos: dialogar ou revidar os comportamentos violentos, fosse de forma física e/ou verbal. Contudo, destacaram ainda a importância de buscar ajuda profissional bem como fortalecer a rede de apoio, geralmente composta por amigos e pais.
No que tange ao reconhecimento de práticas abusivas, adolescentes elencaram raiva e ciúme como desencadeadores desses comportamentos nos relacionamentos, ao mesmo tempo em que destacaram a importância de procurar manter a calma, regular as emoções, evitar agir precipitadamente, bem como socializar com pessoas de confiança (Murta et al., 2016).
Referente à atitude de conversar com o parceiro, sobressaiu a necessidade de dialogar sobre as situações abusivas, contudo parte deles destacou o pouco interesse do par em tentar resolver a situação. O receio de se reconhecer como vítima e/ou agressor no relacionamento interfere negativamente na redução gradativa desses comportamentos e torna o relacionamento ainda mais perigoso pela manifestação do desejo de permanecer no vínculo.
A banalização da violência no âmbito dos relacionamentos afetivos ocorre pela idealização do romantismo, uma vez que desentendimentos provocados por ciúme são considerados não só aceitáveis, mas saudáveis (Cecchetto et al., 2016). Embora diferentes violações apareçam com frequência no discurso dos adolescentes, eles acabam por minimizar como atos corriqueiros e/ou brincadeiras no contexto afetivo, não sendo, portanto, considerados violência e, quando são, há culpabilização feminina (Oliveira & Fonseca, 2019).
Entretanto, essas práticas violentas se configuram como um grave problema social que precisa ser desnaturalizado, visto que esses atos hostis também são violações de direitos. Os casais necessitam dispor de atitudes menos coercitivas e mais igualitárias na manutenção do relacionamento (Souza et al., 2018).
Em um programa de prevenção desenvolvido com adolescentes escolares de Brasília destacou-se o impacto da ação através da demonstração de empatia, em que os participantes decidiram mudar atitudes como a intenção de evitar conflitos no relacionamento e interesse em desenvolver habilidades positivas para enfrentamento da violência (Murta et al., 2016).
Considerações finais
Ao identificar as percepções e atitudes de adolescentes acerca da violência no namoro, destaca-se um dado preocupante: a naturalização/tolerância da violência nas relações afetivas. Os participantes conhecem a expressão e se reconhecem nas situações, mas as atitudes contrárias às mesmas ainda são escassas, sendo comum permanecer no vínculo tóxico.
Dessa maneira, apenas a detenção de conhecimento acerca das manifestações violentas no vínculo afetivo e o reconhecimento dessas práticas/atitudes/comportamentos abusivos, são insuficientes para contribuir na cessação do ciclo de violações, que tende a se perpetuar ao longo do vínculo e/ou em relações afetivas futuras.
Diante do exposto, considera-se que as crenças sobre como devem ser os relacionamentos amorosos dificultam a abordagem sobre a violência no namoro, mesmo com o histórico e indicativo de violência em relacionamentos anteriores. Há que se pensar estratégias para romper e/ou enfrentar a violência no namoro, tais como escuta qualificada e conscientização sobre esse acontecimento, especialmente na adolescência.
Os dados incitam a necessidade de novos estudos para maior compreensão do fenômeno e de subsídio para a criação e fortalecimento das redes de apoio tanto à vítima quanto ao agressor. Parte-se do interesse de ambos em continuar no relacionamento e que o par precisa de intervenção para restaurar o equilíbrio da relação e a eliminação dos sinais de violência, assim como estimular a resolução positiva de conflitos e a manutenção de relacionamentos saudáveis numa perspectiva harmônica entre o casal.
Referências
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O conjunto de dados de apoio aos resultados deste estudo está publicado no próprio artigo.






Fonte: Os autores.
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