Open-access PRÁTICAS ALIMENTARES DE PESSOAS EM SOFRIMENTO PSÍQUICO: ANÁLISE COM BASE EM BOURDIEU 1

PRÁCTICAS ALIMENTARIAS DE PERSONAS CON SUFRIMIENTO PSÍQUICO: ANÁLISIS BASADO EN BOURDIEU

RESUMO

A alimentação e a nutrição adequadas têm um papel importante na saúde das pessoas em sofrimento psíquico, por se constituírem como instrumentos de promoção de qualidade de vida. Logo, o objetivo deste estudo foi compreender a constituição das práticas alimentares de usuários/as de um Centro de Atenção Psicossocial II a partir do referencial teórico e metodológico de Pierre Bourdieu. A seleção dos participantes foi realizada através da técnica bola de neve, por meio de informantes-chave os/as quais auxiliaram na localização das pessoas com o perfil necessário para a pesquisa. A coleta de dados ocorreu entre 2018 e 2019 utilizando-se de entrevista semiestruturada. A análise deu-se a partir da reconstrução da trajetória social dos agentes e dos fatores que influenciam nas práticas, sendo eles: habitus, capital e campo. O gosto e as necessidades de vida são algumas questões que compõem o habitus dos usuários/as, os quais têm um volume de capital, que difere dos profissionais. Tais fatos fazem com que as práticas alimentares dos usuários/as difiram das orientações dos profissionais.

Palavras-chave:
Pierre Bourdieu; alimentação; saúde mental

ABSTRACT

Adequate food and nutrition plays an important role in the health of people in psychological distress, as they are instruments to promote quality of life. Therefore, the objective of this study was to understand the constitution of eating practices of users of a Psychosocial Care Center II from the theoretical and methodological framework of Pierre Bourdieu. The selection of participants was carried out through the snowball technique, through key informants who helped in locating people with the necessary profile for the research. Data collection took place between 2018 and 2019 through a semi-structured interview. The analysis was based on the reconstruction of the agents' social trajectory and the factors that influence the practices, namely: habitus, capital and field. Taste and life needs are some of the issues that make up the habitus of users, who have a volume of capital that differs from professionals. Such facts make the dietary practices of users differ from the guidelines of professionals.

Keywords:
Pierre Bourdieu; food; mental health

RESUMEN

La alimentación y nutrición adecuadas juegan un papel importante en la salud de las personas con sufrimiento psíquico, ya que son instrumentos para promover la calidad de vida. Por lo tanto, el objetivo de este estudio fue comprender la constitución de las prácticas alimentarias de los usuarios de un Centro de Atención Psicosocial II a partir del marco teórico y metodológico de Pierre Bourdieu. La selección de los participantes se realizó mediante la técnica de bola de nieve, a través de informantes clave que ayudaron a localizar personas con el perfil necesario para la investigación. La recolección de datos ocurrió entre 2018 y 2019 a través de una entrevista semiestructurada. El análisis se basó en la reconstrucción de la trayectoria social de los agentes y los factores que influyen en las prácticas, a saber: habitus, capital y campo. El gusto y las necesidades de la vida son algunos de los temas que configuran el habitus de los usuarios, quienes cuentan con un volumen de capital diferente al de los profesionales. Tales hechos hacen que las prácticas dietéticas de los usuarios difieran de las pautas de los profesionales.

Palabras clave:
Pierre Bourdieu; alimentación; salud mental

Introdução

A saúde e a alimentação são direitos humanos e garantias fundamentais de cidadania no Brasil. Por isso, devem ser garantidos pelo Estado, por meio de políticas públicas. Como direito social, a alimentação foi amparada e acrescentada à Constituição Brasileira apenas em 2010. Anteriormente, em 2006, ocorreu a aprovação da Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional (LOSAN) e a constituição do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN). A Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN) reforça a importância da alimentação e da atenção nutricional na composição do cuidado em saúde (Jaime et al., 2018).

As pessoas em sofrimento psíquico têm, devido ao seu tratamento medicamentoso, por meio dos psicofármacos, uma série de questões que influenciam na alimentação e na nutrição. Com base nos preceitos da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) e da PNAN, as ações de alimentação e nutrição precisam perpassar aspectos relacionados ao acesso e disponibilidade de alimentos até o consumo e o aproveitamento pelo organismo dos nutrientes. Muitos medicamentos utilizados para tratar os sintomas dos transtornos mentais interagem com os nutrientes, em função disso, podem causar modificações no peso, no paladar e no apetite, assim como ocasionar tremores, polidipsia, poliúria, gosto metálico, dispepsia, fatores que podem atrapalhar a aquisição, preparo e consumo dos alimentos (Brazil & Menezes, 2013; Branquinho et al., 2014; Bocardi et al., 2015; Ramos et al., 2020).

A promoção da saúde das pessoas em sofrimento psíquico deve passar por uma alimentação e nutrição adequadas, as quais precisam ser entendidas como determinantes de saúde. Para que, com isso, as ações da área passem a ser transversais às de saúde e não pontuais e paralelas (Brasil, 2013). A tomada desse posicionamento é de suma importância na compreensão das orientações e práticas alimentares, uma vez que, as práticas desenvolvidas pelas pessoas são intermediadas pelas condições econômicas e sociais dos mesmos. Marca de distinção, as práticas, mesmo as mais ‘livres’ e básicas, como as pertinentes à alimentação, estão relacionadas às posições dos agentes no espaço social e no campo, ao habitus, ao volume total de capital, bem como ao capital específico do campo, e, consequentemente, às diferentes classes e frações de classe (Bourdieu, 2017).

Ao analisar as práticas alimentares dos agentes usuários é preciso ultrapassar as barreiras do gosto enquanto ‘uma escolha’ e da ‘escolha’ como algo real para os agentes das classes populares; como se fosse uma dentre várias possibilidades. Além disso, é preciso ponderar o quanto o sofrimento psíquico influencia nestas práticas. Logo, o objetivo deste estudo é compreender a constituição das práticas alimentares de usuários/as de um Centro de Atenção Psicossocial II a partir do referencial teórico e metodológico de Pierre Bourdieu.

Método

Este estudo utilizou-se da abordagem qualitativa, que trabalha com representações, valores, crenças, atitudes, percepções e os processos e fenômenos sociais (Minayo, 2014).

Participaram do estudo usuários e usuárias de um Centro de Atenção Psicossocial II. A seleção dos participantes iniciou-se pelos/as informantes-chave os/as quais auxiliaram na localização das pessoas com o perfil necessário para a pesquisa. Estes foram selecionados a partir de um evento relacionado ao tema saúde, alimentação e nutrição (consulta com nutricionista, doença relacionada à alimentação ou à nutrição, momento feliz, de prazer com alimentos...), iniciando o processo denominado de ‘bola de neve’. Assim, a partir deles, começou a indicação dos demais participantes (Handcock & Gile, 2011; Vinuto, 2014).

A técnica da bola de neve foi fechada com a saturação das indicações, ou seja, quando os sujeitos indicados começaram a se repetir, indicando-se mutuamente e não havendo mais novos participantes (Handcock & Gile, 2011; Vinuto, 2014). Dessa forma, a amostragem do estudo totalizou 14 usuários/as.

A coleta dos dados ocorreu entre junho de 2018 e junho de 2019, por meio de entrevista semiestruturada, com questões do tipo: Fale-me sobre a sua saúde. Tópicos norteadores para a pesquisadora: como o usuário sente que está a sua saúde; como gostaria que estivesse a sua saúde; o que o usuário faz para manter ou melhorar a sua saúde; fale-me da sua alimentação e nutrição. Tópicos norteadores para a pesquisadora: o que o usuário recebeu de orientações sobre alimentação e nutrição no CAPS e na UBS; qual o sentido da alimentação na vida, na saúde e no tratamento do usuário; o que mudaria/melhoraria na sua alimentação. As entrevistas foram gravadas, com a concordância dos participantes, transcritas e analisadas, a partir do referencial teórico e metodológico de Pierre Bourdieu, que possibilitou a construção dos fatores que compõem as práticas, sendo eles: habitus, capital e campo, a partir da reconstrução da trajetória social dos agentes e da sociogênese dos campos.

Para fins de análise este estudo adotou como categoria-chave o conceito de habitus, estrutura estruturante e estruturada, gerador de práticas estruturadas pelo contexto social que estruturam ações cotidianas e futuras, e que é estruturada por não ser aleatória ou sem padrão (Bourdieu, 2017). Pois considera-se que a alimentação, as práticas alimentares, são a representação de um habitus e não de um hábito.

Este estudo integrou uma pesquisa maior denominada: Uma análise bourdiense sobre as práticas de alimentação e nutrição em um Centro de Atenção Psicossocial, aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), sob o parecer número 2.919.644. Para manter o anonimato serão utilizados nomes de plantas e de flores.

Resultados e discussão

Dos 14 participantes, 10 eram mulheres e quatro homens. As idades variavam de 37 a 64 anos. Grande parte estava aposentado/a por invalidez, devido ao transtorno mental, ou recebia um benefício do governo. A escolaridade da maioria era o ensino fundamental incompleto (até a 5ª série do 1º grau). As mulheres em geral ocupavam-se dos cuidados com a casa e consigo ao frequentarem o CAPS. A rede social dos participantes ficava em torno do companheiro/a, muitas vezes também usuário/a do serviço de saúde mental, dos filhos e da mãe. Os usuários e usuárias não costumavam frequentar a Unidade Básica de Saúde.

As práticas alimentares dos agentes usuários perpassam uma série de fatores, como a compra dos gêneros alimentícios, a organização dos mesmos, o preparo e o gosto. Conforme foi possível observar no presente estudo, a agente Violeta, bem como a maioria dos(as) agentes usuários/as, relatou que compra os alimentos em forma de ‘rancho’; ou seja, uma vez ao mês realiza a aquisição do número suficiente de alimentos, não perecíveis, necessários para abastecer a família durante esse período.

Ao falar das suas práticas de alimentação, a agente Rosa contou que:

[...] nunca consegui seguir à risca a dieta. Tem épocas que consegue, faço direitinho, mas, em outras, [...] quando tenho dificuldade financeira não consigo e como o que tem.

Portadora de diabetes tipo 2, a agente Rosa declarou “[...] não consigo seguir à risca uma dieta de diabético, tomo refri e como doce, porque eu gosto de doce”.

Suas lembranças a respeito da alimentação a levaram para a sua infância rural, quando residia em uma zona afastada da cidade. Nessa época, ela comia arroz e feijão; carne, geralmente, era de casa, como também os ovos. A família possuía horta e eles colhiam couve e cenoura: “[...] era só sair comendo, só passava uma água do poço e comia”. Rosa ainda trouxe que nunca foi muito de cozinhar e se envolvia mais na higiene da casa.

Já a agente Papoula relatou que, na sua rotina alimentar: ‘compra o básico, o que dá para comprar com um salário mínimo [arroz, feijão, massa, legumes e frutas]’.

Disse não acreditar que o seu transtorno mental interfira na sua alimentação, mas já deixou de comer, e já esteve internada três vezes, porque “[...] não queria fazer nada [...] não fazia nada [...] só chorava e se deitava”.

Emagreceu muito nesta época, e conta que seu marido contou para ela que:

[...] quando eu estava fazendo comida, chorava e gritava e ele me tirava da cozinha e terminava a comida, enquanto eu me deitava. Eu lembro disso e digo pra ele que essa história deve ser mentira (agente Papoula).

A agente Tulipa, por sua vez, relatou que passou muita fome na infância. Refere que em relação à alimentação: ‘não é muito de comer’ e tem que ‘brigar para ela comer’; às vezes não almoça, não sente necessidade de ‘ficar pensando em comida’. Neste ponto da entrevista, ela disse que é exatamente isso que ‘vê que as irmãs fazem, quando vai visitar elas’ (o que vão fazer de almoço, de janta e de café). Em sua declaração, disse também que, se vai ao supermercado, ‘é para comprar arroz e feijão, o básico’. Explicou acreditar que ‘não tem muito interesse, na alimentação, porque não comia na infância, e, quando adulta, passou dias somente à base de água’.

Assim como a agente Tulipa, a agente Lírio contou que, em sua vida, já teve momentos em que faltou comida; no momento da entrevista, ela contou:

Ando tomando café, chimarrão e comendo ovo cozido, tô comendo muito mais depois que deixei de fumar [...] eu gosto de comida de sal, com sazon, eu sei que faz mal, mas na pressa uso ele... eu sou muito boa de garfo, como porque tenho que comer (agente Lírio).

Ela falou, ainda, que: ‘gosta de tudo que é comida e experimenta o que lhe oferecem’. Sobre a falta de dinheiro para comer, disse que, ‘agora mesmo [no momento da entrevista] precisava fazer ultrassom e comprar remédios, mas ficou ‘apertada’ de dinheiro’.

A técnica (agente profissional) responsável por ela, no CAPS, a encaminhou para o Centro de Referência em Assistência Social (CRAS), com o objetivo de que recebesse uma cesta de alimentos. Em seu relato, explicou que:

[...] o custo da alimentação é alto, eu pago empréstimo da construção da casa, além de água, luz e remédio. Às vezes não sobra nada, nem para o gás; daí tem que pedir fiado, no bar; não me sinto bem com isso (Agente Lírio).

Similar ao relato da agente Lírio, a agente Orquídea disse que se alimenta para saciar a fome. Contou que a filha tem uma sala no centro da cidade, onde presta o atendimento de massagem, e, às vezes, troca o serviço por alimento. Ela disse que tem dias em que falta açúcar; em outros, o café. Em sua vida, revelou ter tido ‘altos e baixos’. Passou fome na infância (quando havia falta de alimentos); teve um momento de fartura/abundância de alimentos, quando era casada; e, agora (momento da entrevista), estaria vivenciando, novamente, a escassez de gêneros alimentícios.

Ao falar de suas recordações, no que tange à alimentação, o agente Antúrio também relatou que passou por diferentes situações; desde a escassez até a fartura de alimentos. Ele contou que a banana era contada, uma para cada um da sua família, e que, certa vez, quando vendeu uma propriedade sua, com parte do dinheiro recebido comprou e comeu, sozinho, 2 kg de banana; “[...] de tanta vontade que eu tava de comer banana, que, antes, era só uma vez por mês”.

A experiência da privação alimentar e da fome produz significados psicológicos subjetivos e particulares. O livro clássico de Maria Carolina de Jesus: ‘Quarto de Despejo: diário de uma favelada’ é um relato autobiográfico que revela sua percepção social, enquanto mulher, negra e pobre, na luta cotidiana pela sobrevivência e enfrentamento da fome. Os símbolos imagéticos que são construídos se incorporam ao viver daqueles que vivenciaram a experiência da escassez. “Casa que não tem lume no fogo fica tão triste! As panelas fervendo no fogo também serve de adorno. Enfeita um lar [sic]” (Jesus, 2014, p. 106).

Numa perspectiva antropológica, o gosto alimentar é socialmente construído, mas sua determinação depende das condições materiais disponíveis. Uma manifestação cultural específica pode estar expressando, ocultamente, uma adaptação, ainda que o grupo que a vivencia não perceba ou compreenda. Isso significa que os comportamentos se definem, muitas vezes, pelas ‘vantagens’ que podem ser geradas entre as relações e interesses que permeiam as escolhas alimentares (Harris, 2016; Rizzolo, 2021).

Segundo Bourdieu (2017) os gostos têm valor distintivo, revelando as diferentes posições no espaço social, e, consequentemente, nos diferentes campos. Todos os tipos de gostos unem e separam os agentes; unificam aqueles que, sendo de uma mesma classe, foram submetidos a condicionantes semelhantes (produtos da classe), e distinguem esses agentes de todos os outros. Assim, compreende-se que

[...] o gosto é o princípio de tudo o que se tem, pessoas e coisas, e de tudo o que se é para os outros, daquilo que serve de base para se classificar a si mesmo e pelo qual se é classificado (Bourdieu, 2017, p. 56).

Percebe-se, com isso, que as práticas estruturam a organização social, econômica e as relações interpessoais dos agentes, ou classes de agentes, além do espaço simbólico conformado pelo conjunto de tais práticas; são, portanto, “[...] estilos de vida distintos e distintivos que se definem sempre objetivamente - e, às vezes, subjetivamente - nas e pelas relações mútuas” (Bourdieu, 2017, p. 97). É possível verificar, ainda, nos extratos das entrevistas dos agentes usuários, que todos compartilham de um habitus de classe, princípio unificador e gerador das práticas, que é a forma incorporada da condição e dos condicionantes que a classe impõe aos agentes. A classe social infunde sobre a organização social, às práticas e às relações entre o conjunto de propriedades, é, consequentemente, o que as determinam. O efeito atribuído à classe social indica o valor da dimensão coletiva, e não uma única propriedade (como a renda), ou da soma de propriedades (renda, escolaridade, sexo, etc.).

De acordo com Bourdieu (2017), na conformação das práticas há que se levar em consideração o efeito de inculcação, o qual é exercido pela família, origem social (determinada, segundo o autor, pela posição do pai no espaço social) e trajetória individual do agente. Diante desse quadro, ao se estudar as práticas alimentares dos agentes usuários participantes desta pesquisa, torna-se possível visualizar que eles têm volume e estrutura de capitais, bem como trajetórias passadas semelhantes. Tal volume e estrutura constituíram, nestes agentes, um habitus de classe - um habitus alimentar desta classe -, o qual foi estruturado pelos seguintes fatores: fome e escassez de alimentos; e aquisição de alimentos ‘básicos’, em que os alimentos e a alimentação eram analisados, pelos agentes usuários, por meio da necessidade.

Esse habitus ‘alimentar de classe popular’ estruturou, em conjunto com o volume de capital destes agentes, aquilo que constitui suas práticas alimentares, as quais, em relação às agentes usuárias Rosa, Tulipa, Papoula, Orquídea visam o ato de ‘comer o que tem’, ‘o básico’, ‘saciar a fome’; ou seja, um ‘gosto de necessidade’, ou ainda, um consumo alimentar baseado no que é permitido pela classe e, em grande parte, pela posse de renda, que é determinada, desde a infância, e que, portanto, ajusta e modela os gostos. Em contraponto ao ‘gosto de necessidade’, expresso pelos ajustes às necessidades de que é produto, o ‘gosto de luxo (ou de liberdade)’ faz parte daqueles que têm uma posse de capital que os possibilita ‘facilidades’, ‘liberdades’ e os distancia do que ‘é necessário’, como no caso dos agentes profissionais da saúde (Bourdieu, 2017).

Sendo assim, os agentes usuários/as não dispõem de uma escolha sobre quais alimentos consumir, ou não. Do mesmo modo, não estão condicionados apenas pela questão econômica; isto é, de não comerem outro alimento mais saudável por não terem dinheiro para comprá-lo. É importante ressaltar que os agentes usuários só ‘satisfazem a sua necessidade’ porque estão propensos a agir assim, já que possuem o gosto daquilo que, de certa forma, para eles já está traçado (Bourdieu, 2017).

Pode-se observar nas expressões dos agentes usuários sobre suas práticas alimentares, o mundo social representado ou os espaços de estilos de vida, que foi construído pelo habitus, o qual é, ao mesmo tempo, gerador e classificador das práticas. É por meio dele, da relação desta dupla capacidade de produzir práticas e de diferenciar e apreciá-las, da mesma forma que os seus produtos (gosto), que se conformam os estilos de vida (Bourdieu, 2017). “O gosto é o operador prático da transmutação das coisas em sinais distintos e distintivos [...] ele faz com que as diferenças inscritas na ordem física dos corpos tenham acesso à ordem simbólica das distinções significantes” (Bourdieu, 2017, p. 166).

Além disso, a maneira como as pessoas se alimentam e os alimentos que compõem os cardápios diários revelam, também, as disposições mais profundas e antigas. O gosto alimentar carrega a marca daquilo que os agentes carregam de mais primitivo, e que sobreviveu ao tempo, trazendo à tona aquilo que eles transportam do mundo de origem - o qual é, antes de tudo, o mundo materno -; ou seja, dos primeiros alimentos e gostos (Bourdieu, 2017).

As normas culturais de classificação e combinação podem constituir uma verdadeira ‘gramática’ porque estas regras reúnem os alimentos em um sistema, formando as cozinhas ou sistemas culinários do seu povo, assim como as regras gramaticais ordenam palavras para formar orações próprias de cada idioma e, assim, demarcam os povos, os sujeitos e lhes dão um sentido de identidade e pertencimento social (Fischler, 1995). Estas dimensões socioculturais da alimentação, unidas a uma dimensão subjetiva, articulam os grupos sociais com sua própria história e as dinâmicas da sociedade em seu tempo, da mesma forma que este ato que nos parecia tão simples e repetitivo, deve ser visto como um fato complexo, como um evento que não é exclusivamente biológico, nem tampouco totalmente social, que une o biológico e o cultural de uma maneira tão indissolúvel que dificilmente será́ possível separá-los (Aguirre, 2004).

A agente Azaleia revelou muito de sua infância, ao falar das suas práticas alimentares. Desde muito cedo tinha restrições alimentares, por conta da nefrite, e ficou muito tempo se alimentando, praticamente, sem sal. Ela disse que não conseguia se alimentar e que relatou o seu problema para a sua técnica (agente profissional), no CAPS. A referida agente usuária toma sete medicamentos, pela manhã, e, segundo ela, não consegue tomar café, nem comer um pedaço de pão. Ao falar sobre o assunto relatou: “[...] eu sou gorda, acho que da medicação, há 12 anos pesava 52kg”. Desde criança ela relatou não ter muito apetite, e que “[...] nunca foi de comer besteira”. Também disse que come frutas, mas ‘não todas’; a banana, de acordo com o seu relato, ‘faz mal’. Disse que, se come um pedaço, ‘parece que comeu 15kg e vomita’. Não sabe por que perdeu o paladar e o olfato. Explicou, ainda, que falou isso para a médica do CAPS e a profissional que a atendeu diminuiu duas medicações.

Mesmo diante desse quadro, confirmou que é ela que cozinha em casa, e ‘não se vê atrapalhada por essas questões’, mas disse acreditar que as questões psicológicas atrapalhem no preparo dos alimentos, pois já queimou a comida e esqueceu o fogão ligado. Hoje (momento da entrevista), disse comer muito pouco; relatou que faz canja, ou sopa de legumes, e bate no liquidificador. À noite, afirmou não jantar e comer apenas uma fruta. Disse, também, que existem alimentos que ela não come desde criança; é o caso do arroz, que, segundo ela, só é preparado integral, porque o marido é ‘operado do coração’. Também não consome ‘carne vermelha’, só ‘carne branca’. O leite foi mais um alimento que ela disse não consumir, porque, conforme o seu relato, lhe causa diarreia.

Das lembranças da comida, a agente Lírio remeteu à sua mãe, ao fogão à lenha e à batata doce com leite. Segundo ela, a mãe assava batata doce no fogão à lenha, e as crianças pegavam, com colher, a batata, colocando-a no leite, que era entregue, de garrafa, na porta. Disse que também gostava da farofa de amendoim torrado, que comiam tomando chimarrão. Já o Antúrio, ao contar sobre a alimentação, disse que ‘comia bem’, às vezes, conforme explicou, ‘come muito pão’, mas afirmou ‘compensar’ em ‘outras coisas’. Informou, ainda, que, ‘em casa, quem manda na comida é a esposa, e ele só obedece’. Antes de casar, cozinhava bastante; depois, segundo ele, ‘virou tarefa da esposa’, mas disse ‘ajudar em outras tarefas de casa’.

Conforme elucidado, os gostos alimentares refazem experiências corporais primitivas. Tais experiências estão intimamente ligadas ao corpo, o qual, por sua vez, é construído pelo mundo social, como realidade sexuada. Houve - e há - um trabalho histórico e coletivo de socialização do biológico e da biologização do social sobre as aparências biológicas do corpo, produzindo, nos corpos e nas mentes, uma construção naturalizada dos gêneros e da divisão ente os sexos, que é vista como normal, natural e quase inevitável. Esta divisão, por sexo, está objetivada nas coisas; como, por exemplo, na casa, onde a cozinha é considerada ‘o local da mulher’, sendo incorporada nos corpos, e nos habitus, dos agentes, estruturando seus pensamentos e práticas. Existe, consequentemente, uma dominação masculina alicerçada e legitimada, simbolicamente, pela ordem social. Esta dominação produz uma violência simbólica, algo invisível às suas vítimas, já que é exercida por vias simbólicas de comunicação e por meio do sentimento (Bourdieu, 2019).

A violência simbólica imposta pela divisão sexual do trabalho doméstico também está presente nas práticas alimentares, pois, em geral, são as mulheres que cozinham, cabendo aos esposos a função de ‘auxiliarem’. A figura masculina geralmente se reconhece em momentos especiais, como o churrasco de domingo, ou o preparo de um prato diferente, em que o homem tem o papel de destaque, não por imposição, mas por escolha e reprodução de uma estrutura patriarcal da sociedade. Cenário semelhante se observa na imagem do chef de cozinha, reconhecido internacionalmente, que está à frente de restaurantes renomados. Bernardes et al. (2016) em seu estudo sobre percepções de saúde e alimentação com homens e mulheres moradores de uma região vulnerável identificaram essa ‘naturalização’ do trabalho feminino e a clara divisão dos espaços e momentos ocupados por homens e mulheres, no que diz respeito à alimentação.

Além disso, os alimentos selecionados para consumo, em geral, são aqueles que os homens da casa preferem. Tais aspectos são possíveis de serem verificados no relato da agente Violeta, que disse gostar de cozinhar torta de frango, lasanha e bolo, quando está bem; no entanto, quando fica desanimada (o que relatou ocorrer seguidamente), seria o marido quem ficaria responsável por preparar os alimentos. Com relação às preferências alimentares, ela disse ‘não gostar de verduras’, e ‘ser seletiva em relação a frutas’; por outro lado, informou gostar de doces, sucos e refrigerante. Relatou que utiliza temperos naturais, mas, também, industrializados porque ‘o esposo gosta’.

A exemplo desta última, a agente Papoula trouxe a questão do gosto alimentar para a entrevista, quando disse que ‘gosta de comer, tendo boa lembrança de batata frita, arroz e ovo frito, em função do sabor’.

Ao analisar as práticas alimentares destas duas agentes usuárias (Violeta e Papoula), alguns pontos são importantes de serem evidenciados. Os alimentos que elas ‘gostam’ de comer estão relacionados ao prazer, ao sabor e às lembranças da infância. Diante disso, é preciso compreender que: “[...] o gosto, enquanto ‘faculdade de julgar valores estéticos de maneira imediata e intuitiva’ é indissociável do gosto no sentido de capacidade de discernir os sabores próprios dos alimentos que implica a preferência por alguns deles” (Bourdieu, 2017, p. 95, grifo do autor).

O gosto alimentar perpassa, ainda, a ideia de ‘corpo’ e das ‘consequências da alimentação, no corpo’, que cada classe faz. As classes populares se atentam mais à força do corpo (principalmente masculino) para o trabalho do que à sua forma; desta maneira, têm uma propensão em buscar alimentos mais baratos e que atendam a essa expectativa. Já as classes burguesas irão buscar alimentos saborosos, ‘bons para a saúde’ e que ‘não engordem’. Assim, pode-se afirmar que o gosto contribui para formar o ‘corpo de classe’. Isso porque o corpo torna algo abstrato/subjetivo em objetivo/concreto, trazendo para a realidade o gosto de classe. Para além das questões e pontos levantados, até aqui, sobre as práticas alimentares, é preciso problematizar os usos sociais dos alimentos e da alimentação. Isto é, a maneira como os alimentos são utilizados e a finalidade com a qual os mesmos são consumidos, ou seja, como eles são percebidos, apreciados e utilizados, transformando a ação em prática e a utilidade objetiva em uso prático (Bourdieu, 2017).

Para os femininos, o corpo é significado e percebido quando incomoda ou quando, ao ser comparado com o ‘padrão’, parece ser diferente, quando dói, quando o espelho aponta alguma imperfeição, e a sociedade impõe e/ou ‘cobra’ algo. O prazer se apresenta ao comer, mas dificilmente é reconhecido no corpo. Comer e sentir prazer, assim como a descoberta da sexualidade na adolescência, pode ser um tabu vivenciado ou uma forma de interiorização de afetos, principalmente em mulheres. O controle social do corpo feminino gera discursos normativos que se sobrepõem. Tanto os livros de dietas, como de receitas, quanto os manuais de nutrição clínica e os guias gastronômicos disseminam proibições e prescrições, como regras, suplementos, modelos de consumo e advertências.

As classes populares se permitem comer tipos de alimentos - sem formalidades - que a classe burguesa não admite no seu mundo social. Os agentes usuários consomem alimentos vistos pelos agentes profissionais da saúde como gordurosos, não saudáveis e nocivos à saúde. Tal prática alimentar dos agentes usuários ocorre, simplesmente, por terem o sentimento de não se privarem de um refúgio de liberdade que a alimentação ocasiona, pois, no restante do tempo, e de sua vida, eles estarão submetidos às necessidades. É possível identificar, também, que, desde o tipo de alimentos até o consumo dos mesmos, conformam-se duas maneiras distintas de abordar a alimentação. Os agentes usuários primam pela substância (o que há de real nos alimentos) e os nutrientes, que dão energia e sustentam o corpo; privilegiando, desta maneira, alimentos mais gordurosos e fortes. Já os agentes profissionais da saúde priorizam a forma (como a do corpo) que os faz colocar em segundo plano a substância (Bourdieu, 2017).

Os primeiros, agentes usuários ocupantes das classes populares, estão ligados à matéria, à substância e ao real; no entanto, quando se remete aos agentes profissionais da saúde, fração dominada da classe burguesa, com o simbólico, verifica-se que alguns estão preocupados em ‘ser’ e outros em ‘aparecer’. A relação que as classes fazem com o corpo, portanto, se expressa em todas as práticas em que o corpo é objeto; como nas práticas alimentares. Assim, diferentes dimensões do mundo social/estilos de vida podem ser percebidas nos alimentos, na comensalidade e no corpo (Bourdieu, 2017).

Comensalidade é um conceito que revela, entre outras coisas, a função social da alimentação, considerando que o preparo e o compartilhamento das comidas podem promover o convívio social, fortalecer laços, expressar afetos e despertar sensações, mas também tensões, rupturas e conflitos, permitindo a expressão dos aspectos simbólicos que marcam as subjetividades e identidades culturais. É no compartilhar cotidiano que os conflitos e emoções emergem e permeiam as relações sociais. Comer junto nem sempre é bom, e pode se tornar um momento de tensão ou conflito, provocado ou provocando situações de violência, assédio ou desagregação (Carneiro, 2003; Poulain, 2004; Moreira, 2010).

Nesse sentido, “[...] fica claro que o gosto em matéria alimentar não pode ser completamente autonomizado das outras dimensões da relação com o mundo, com os outros e com o próprio corpo, em que se realiza a filosofia prática característica de cada classe” (Bourdieu, 2017, p. 184). É preciso, então, apreender e entender todas as partes da equação que Bourdieu propõe, as quais compõem as práticas [(habitus + capital) campo], para, assim, compreender as práticas alimentares dos agentes usuários/as. Este, inclusive, é o primeiro passo para que os agentes profissionais possam orientar os agentes usuários. A dinâmica dos campos onde as práticas alimentares se conformam é um ponto essencial a ser entendido, neste estudo, já que se entende que é na intersecção dos campos alimentação e saúde que os agentes usuários constroem e desenvolvem suas práticas alimentares.

Sob tal angulação teórica, é preciso dizer que, no campo saúde, há o capital saúde, e, no campo alimentação, o capital alimentação. Ambos estão objetivados (medicamento, insumos da área da saúde/alimento que é comercializado), ou incorporados (conhecimento científico sobre saúde/doença e nutrição/marketing), nos agentes, e só existem, do ponto de vista material e simbólico, devido à luta de classes, na qual, segundo Bourdieu, os agentes detentores desses capitais obtêm vantagens sobre os demais agentes; definindo, assim, a legitimação do que é saúde/saudável e a marca da distinção. É o volume do capital específico que tende a organizar o campo. De um lado, os mais ricos de capital, e, de outro, os menos ricos (dominantes e dominados), subdividindo-se, ainda, dentro do campo da classe dominante, entre a fração dominante e a fração dominada (Bourdieu, 2017).

É importante destacar que, dentro desses campos, existe uma semelhança, nas estruturas da produção e do consumo, que define o ‘gosto’, e que ajusta o produto (medicamento/alimento) à expectativa dos agentes. Ademais, há uma identificação daquilo que é produzido e que será consumido pelo agente, segundo a adequação à sua posição no campo, mantendo, desta forma, a distinção e a diferenciação entre as classes. A busca da distinção nem sempre tem a intenção de distinguir, de mostrar-se como tal, já que, na maioria das vezes, são lutas simbólicas motivadas pela imposição de um estilo de vida (legítimo), da classe burguesa/dominante, sobre o outro (classe popular/dominados); é, portanto, a luta simbólica sobre o ser e o aparecer (Bourdieu, 2017).

A ideia de que as práticas alimentares, dos agentes usuários, são constituídas na intersecção dos campos saúde e alimentação, e, além disso, de que os agentes usuários não estão fixados a um só campo, mas, sim, circulando por eles faz com que aumente a complexidade das orientações alimentares. Em se tratando das práticas alimentares dos agentes usuários do CAPS analisado, conforme já mencionado, foram estudados os campos saúde e alimentação, no entanto, pode-se perceber que estas práticas são fortemente influenciadas por outros campos; a saber: econômico, burocrático, científico, além dos campos do poder e do Estado.

No campo saúde, o habitus saúde (anteriormente estruturado) e o capital saúde (conhecimento biomédico, saberes sobre o corpo físico e sobre a mente), junto aos demais capitais, direcionam a estruturação da prática dos agentes usuários voltada para o que é orientado pelos profissionais da saúde (o que deveria ser feito para manter uma boa saúde). Do mesmo modo, o habitus alimentar estruturado, no campo alimentação, em que o capital específico é o alimento (seu papel simbólico na distinção), estrutura as práticas alimentares.

Evidencia-se, por fim, que as diretrizes e os protocolos sobre saúde e alimentação são pensados e elaborados por agentes dos campos científico, político e do Estado, com volume total de capital elevado; diferente daqueles agentes que recebem as orientações e devem incorporá-las, em seus habitus, de maneira a transformar suas práticas.

Considerações finais

Por se tratar de um estudo qualitativo que se utilizou de um referencial teórico voltado para questões sociais, não se trata de um estudo generalizável, mas que, no entanto, gera pistas e indagações para ampliar a visão sobre os estudos a respeito da alimentação, em especial de pessoas em sofrimento psíquico.

Para compreender a constituição das práticas alimentares das pessoas em sofrimento psíquico é preciso conhecer a constituição do seu habitus. As memórias e os gostos compõem essas práticas, são e estão nos corpos. Desta maneira, as práticas alimentares dos agentes usuários acabam não indo ao encontro do que é comumente orientado pelos agentes profissionais, em consonância com as diretrizes e os protocolos sobre saúde e alimentação (consumir frutas, legumes e verduras, pouco sal, pouco açúcar, carnes magras, por exemplo), pois, apesar de compartilharem dos mesmos habitus dos campos saúde e alimentação, a formação destes ocorreu de forma diferente, uma vez que os agentes ocupam posições diferentes, no campo, bem como volume de capitais, origem social e trajetória individual distintas, fatores que determinam a disposição dos agentes em classes opostas, da mesma forma que a estruturação do habitus.

Sendo assim, para orientar a alimentação dos usuários e usuárias dos CAPS é preciso mais que guias e protocolos. A trajetória de vida das pessoas, suas histórias, suas preferências, suas necessidades, fazem parte do que se quer comer e de como se come.

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    Editor de seção: Letícia Cavalieri Beiser de Melo

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    27 Jul 2022
  • Aceito
    20 Mar 2024
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