Open-access HIPNOSE ERICKSONIANA E ESTÉTICA DE CHARLES PEIRCE: SENTIMENTO, MUSEMENT E RECONFIGURAÇÃO TERAPÊUTICA

HIPNOSIS ERICKSONIANA Y ESTÉTICA DE CHARLES PEIRCE: SENTIMIENTO, MUSEMENT Y RECONFIGURACIÓN TERAPÉUTICA

RESUMO.

O presente trabalho busca discutir as relações entre a hipnose ericksoniana e a estética de Charles S. Peirce (1839-1914) para compreender o papel do sentimento e admiração estética presente nos processos hipnoterápicos e sua relação com as reconfigurações terapêuticas. Com esse intuito, são apresentados os conceitos básicos da obra de Peirce, como signo, semiose e hábito, suas categorias fenomenológicas e como a estética se situa perante as demais Ciências Normativas. São introduzidas, brevemente, a figura de Milton H. Erickson (1901-1980) e as características de sua prática que embasam a abordagem de hipnose ericksoniana. Em seguida, são apresentados dois casos de Milton Erickson para ilustração do desenvolvimento teórico. É apresentado o modo como a comunicação hipnótica promove um contexto favorável à admiração estética e ao musement pela experiência de transe e como pode restringir a influência de processos racionais sobre as interações em andamento. Ao explorar o papel do sentimento nas reconfigurações terapêuticas dos casos, discute-se o processo de formação dos hábitos de sentimento enquanto ideais estéticas que direcionam a reconfiguração do autocontrole, que, por consequência, forma e sustenta novos hábitos de conduta. Por último, são desenvolvidos os aspectos de drama e questões existenciais que surgem em meio à análise dos casos e possíveis implicações teóricas caso consideradas dimensões constitutivas do sujeito.

Palavras-chave:
Hipnose; transe; Charles Peirce

ABSTRACT

The present work seeks to discuss the relations between ericksonian hypnosis and the esthetics of Charles S. Peirce (1839-1914) to understand the role of feelings and esthetic admiration present in hypnotherapic processes and its relations with therapeutic reconfigurations. With this in mind, the basic concepts of Peirce's work were presented such as sign, semiosis, habit, its phenomenological categories and how esthetics is placed in relation to the other Normative Sciences. Milton H. Erickson (1901-1980) and the characteristics of his practice that underpin the approach of ericksonian hypnosis were briefly introduced. Two cases of Milton Erickson are presented below to illustrate the theoretical development. The study elaborates on how hypnotic communication promotes a favorable context for esthetic admiration and Musement amidst the trance experience and how it can restrict the influence of rational processes on its ongoing interactions. By exploring the role of feeling in the therapeutic reconfigurations of the cases, the formation process of habits of feeling is discussed as esthetic ideals that direct the reconfiguration of self-control, which consequently forms and sustains new habits of conduct. Finally, it develops on the aspects of drama and existential matters that arise midst the cases’ analysis and the possible theoretical implications if they are to be considered constitutive dimensions of the subject.

Keywords:
Hypnosis; trance; Charles Peirce

RESUMEN

El presente trabajo busca discutir las relaciones entre la hipnosis ericksoniana y la estética de Charles S. Peirce (1839-1914) para comprender el papel del sentimiento y la admiración estética presentes en los procesos hipnoterapéuticos y su relación con las reconfiguraciones terapéuticas. Con esto en mente, los conceptos básicos de la obra de Peirce fueron presentados como signo, semiosis, hábito, sus categorías fenomenológicas y cómo la estética se coloca por delante de las otras Ciencias Normativas. Se introdujo brevemente la figura de Milton H. Erickson (1901-1980) y las características de su práctica que sustentan el enfoque de la hipnosis ericksoniana. A continuación se presentan dos casos de Milton Erickson para ilustrar el desarrollo teórico. Explica cómo la comunicación hipnótica promueve un contexto favorable para la admiración estética y el Musement para la experiencia del trance y cómo puede restringir la influencia de los procesos racionales en las interacciones en curso. Al explorar el papel del sentimiento en las reconfiguraciones terapéuticas de los casos, el proceso de formación de hábitos de sentimiento se discute como ideales estéticos que dirigen la reconfiguración del autocontrol, lo que consecuentemente forma y sostiene nuevos hábitos de conducta. Por último, se desarrolla sobre los aspectos de dramatismo y cuestiones existenciales que surgen en medio del análisis de los casos y las posibles implicaciones teóricas si se consideran las dimensiones constitutivas del tema.

Palabras clave:
Hipnosis; transe; Charles Peirce

Introdução

Nas últimas duas décadas, houve uma considerável retomada da hipnose enquanto proposta terapêutica, todavia, enquanto campo de pesquisa, muitos estudos visam à mensuração de eficácia das técnicas hipnóticas (Ardigo 2016), submetendo-as a uma lógica de tratamento alopático (Mckernan et al., 2018). Tal perspectiva, apesar de popularizar o campo, não contribui para questões pendentes para a compreensão da hipnose enquanto abordagem terapêutica, como o esclarecimento da natureza da experiência de transe, o modo que a comunicação hipnótica promove a emergência da experiência de transe e como se articula com processos subjetivos permitindo a evocação de fenômenos hipnóticos e qual é a constituição subjetiva implicada a partir de seu êxito. O desenvolvimento desses problemas de pesquisa exige uma perspectiva qualitativa e uma discussão teórica, a qual estudos recentes têm desenvolvido com base na semiótica de Charles Peirce, dada a sua compreensão de realidade e dos processos comunicativos (Neubern, 2021; Neubern & Gonçalves, 2019a, 2019b).

A semiótica de Charles Peirce apresenta grande valor para a pesquisa de processos hipnoterápicos por favorecer um entendimento detalhado da influência do contexto, assim como elucidar o desenvolvimento dos processos terapêuticos sem se ater a discussões enclausuradas em leituras de padrão ou significação simbólica (Neubern, 2018, 2021). Ao mesmo tempo, diferencia em termos fenomenológicos o sentimento dos processos simbólicos, clareando seu papel na tessitura do significado. Entretanto, determinados processos deliberativos de mudança humana presentes no contexto hipnoterápico demonstram um papel central do sentimento enquanto propósito de ação, situando a discussão para compreensão desses processos mais nos escritos sobre estética de Peirce do que em sua semiótica.

A proposta deste trabalho é discutir as relações entre a hipnose ericksoniana (Erickson, 1980; Erickson & Rossi, 1979; Neubern, 2018) e a Estética de Charles Peirce (Barrena, 2015; Peirce, 1934; Santaella, 1994), a partir das reconfigurações terapêuticas advindas de dois casos clínicos de Milton Erickson. Para tanto, são apresentados conceitos centrais das obras de Charles Peirce e de Milton Erickson, também situando-as em estudos contemporâneos. Em seguida, são apresentados dois casos clínicos breves de Milton Erickson (Erickson, 1980; Zeig, 1980) traduzidos da fonte pelo autor. O desenvolvimento teórico segue os casos trazendo considerações sobre os procedimentos hipnóticos utilizados enquanto construção do contexto terapêutico e elaborando sobre o papel das qualidades de sentimento e admiração estética nos processos de reconfiguração terapêutica. Por último, são apontados os aspectos de drama e questões existenciais que se apresentam nos processos terapêuticos dos casos e desenvolvidas as implicações teóricas enquanto possível dimensão constitutiva do sujeito.

Cabe aqui a ressalva de que este trabalho se situa junto de outros estudos (Neubern, 2021; Neubern & Gonçalves, 2019a) enquanto uma aproximação inicial entre campos de estudo consideravelmente distintos, com metodologia ainda em fases de consolidação. Estudos sobre processos subjetivos comumente se embasam no relato do sujeito sobre sua experiência como eixo principal de legitimação do conhecimento ali construído (Gonzalez Rey, 2020), porém, esse critério se demonstra insuficiente no campo da hipnose. Os procedimentos hipnoterápicos podem envolver a evocação ou manifestação espontânea de amnésia e dissociações entre instâncias de agenciamento (Gallagher, 2020) diferentes, como consciente e inconsciente, em que vias de comunicação distintas são estabelecidas e não se traduzem necessariamente em uma compreensão racional do processo (Erickson, 1980). Assim, o relato do sujeito sobre a experiência e os processos vivenciados pode ser parcial ou inexistente. A construção da informação, então, é feita a partir dos signos que constituem o contexto, o vínculo e as trocas na relação terapêutica. A articulação teórica envolve demonstração da pertinência entre a interpretação e os signos nas quais se embasam. A exposição do material de base, os casos, contribui para a discutibilidade (Demo, 2012) das interpretações e formulações do pesquisador. A intenção é traçar possibilidades de pesquisa, não determinações excludentes, em prol de elucidar os processos subjetivos constituintes do sujeito e as interações que compõem o fenômeno da hipnose em sua proposta terapêutica.

A Estética de Charles Peirce

Em sua vasta obra de filosofia pragmaticista, o filósofo norte-americano Charles S. Peirce (1839-1914) apresenta uma compreensão de realidade, de ser humano e de construção de significados baseada em uma sólida fenomenologia própria que resguarda uma perspectiva de continuidade entre os fenômenos em si, os sentimentos e a razão. Após treze anos de estudo, chegou a três categorias fenomenológicas que abrangem todo e qualquer fenômeno que se apresenta a uma mente (Santaella, 1994). Descritas de forma breve, a Primeiridade se refere à categoria de qualidade imediata, sentimento e evanescente (Peirce, 1934, vol. I, p.183)4; a Secundidade é a categoria de relação, existência, esforço e resistência; e a Terceiridade, mediação, representação, generalidade e sistema (Peirce, 1983).

Os signos, todo e qualquer fenômeno que represente algo para uma mente, se organizam com elementos das três categorias, podendo priorizar uma delas, e sua ação na mente se denomina semiose. Como resultado do processo de interpretação, a mente gera um novo signo chamado interpretante, que é a síntese do que a mente entende ser o objeto representado signo, seja ele real ou não (Peirce, 1934, vol. I, p. 171-172)5. Mas, apesar de Peirce ser mais estudado por sua teoria semiótica, ela compõe apenas a terceira das Ciências Normativas que se erigem de sua fenomenologia, entre elas, a Estética, a Ética e a Lógica (semiótica).

Definir o conceito de Ciências Normativas não se mostrou uma tarefa fácil (Peirce, 1905). Peirce, em alguns momentos, informa que uma “Ciência Normativa trata das leis de relação entre fenômenos e seus fins; isto é, trata de fenômenos em sua Secundidade [...]”; em outros, que se trata de uma ciência que distingue “[...] o que deve ser do que não deve ser” (Peirce, 1998, p. 259). Porém, alguns de seus estudiosos concluem que “[...] as ciências normativas são aquelas que pretendem clarificar quais são as leis gerais, universais e necessárias que regem a relação dos fenômenos a fins que não são imanentes a esses fenômenos” (Barrena, 2015, p. 122).

Nessa categorização, a Estética se situa enquanto primeira Ciência Normativa respaldada na Fenomenologia. Como se constitui enquanto a “[...] ciência dos ideais, ou daquilo que é objetivamente admirável, sem qualquer razão ulterior” (Peirce, 1934, vol. I, pp. 79-80)6, a Estética corresponde majoritariamente à dimensão da Primeiridade, pois examina qualidades e sentimentos almejando compreender suas relações com a finalidade dos fenômenos. O estudo estético, neste sentido, não se equivale à ciência do belo ou do gosto, pois seu objeto de estudo, as qualidades imediatas, são anteriores a julgamentos de valor ou preferências individuais (Peirce, 1934; Silva, 2017).

Para discutir, então, a influência das qualidades imediatas, Peirce (1934, vol. V, p. 82-84)7 se refere ao admirável, a qualidade que atrai e convida a mente a sua contemplação. Segundo Sheriff (1994, p. 72), na experiência estética, a mente percebe os signos “[...] enquanto não conectados com eventos, atualmente existentes, ou atos de razão, mas enquanto signos do imediato, inacessível, inexplicável, consciência não-intelectual que corre em um fluxo contínuo por nossas vidas”. O gosto, a preferência não são, desta forma, anteriores à admiração estética, mas formados por ela à medida que certas qualidades se tornam mais atrativas que outras (Silva, 2017).

A partir da admiração formam-se ideais admiráveis que subsidiam as outras ciências normativas, a Ética e a Lógica (Peirce, 1934, vol. II, p. 117)8. É sob essa perspectiva que Santaella (1994) se remete a Estética de Peirce enquanto uma disciplina voltada para a formação de hábitos de sentimento. Todavia, o conceito de hábito difere da noção de atividade repetitiva do senso comum; hábito, na obra peirceana, diz respeito a uma característica presente em qualquer fenômeno que o permite se organizar em sistemas inacabados, entremeados e evolutivos que regem alguma forma de tendência (Nöth, 2016). Hábitos, neste sentido, constituem leis mentais mutáveis que determinam as exerções do ser como um todo em seus potenciais contextos. Considerando a capacidade de atração dos ideais admiráveis, os hábitos de sentimento exercem influência sobre outros hábitos de conduta e pensamento, de modo que se direcionem àquele ideal.

Há um conjunto de hábitos, de faculdades reflexivas, que a mente desenvolve ao longo da experiência de vida, responsáveis pela revisão, formação e abandono de hábitos de conduta: a autoconsciência, a autocrítica e o autocontrole (Colapietro, 2014; Silva, 2017, 2018). No que diz respeito à relação do sujeito com a realidade externa, o autocontrole é de crítica importância por exercer a função de gerenciar os hábitos de conduta de forma coerente com os ideais admiráveis do sujeito e com quem ele quer se tornar (Colapietro 2016, 2017). Para tanto, o autocontrole pode atingir um nível de maturação em que se vê encarregado de sustentar seu próprio processo evolutivo e passa a cultivar ideais estéticos (Peirce, 1934, vol. V, p.82-84)9. É nessa perspectiva que Peirce compreendia ser dever das três Ciências Normativas “[...] averiguar como Sentimento, Conduta e Pensamento devem ser controlados, supondo-os sujeitos em certa medida, e apenas em certa medida, ao autocontrole, exercidos por meios de autocrítica e a formação proposital de hábitos, como o senso comum nos diz, eles são em certa medida controláveis” (Peirce, 1910)10.

No texto A neglected argument in the reality of God, de 1908, Peirce (vol. VI, p. 311)11 descreve uma forma de disposição da mente frente aos fenômenos que nomeou de Musement, um devaneio que assume diversas formas, seja de contemplação estética, ou criação imaginária despropositada, especulação de ideias sem qualquer objetivo. Uma atividade desregrada a não ser pela liberdade das instâncias do ser de exercerem suas capacidades entre os três universos fenomenológicos. O musement abrange a experiência estética como descrita por Sheriff (1994) e descreve uma relação de jogo com as qualidades que se apresentam, da qual pode emergir um ideal admirável para o sujeito (Silva, 2018).

Este trabalho relaciona o processo de musement a uma experiência de transe. As comunicações hipnóticas podem promover alterações das referências de relação eu-mundo, constituindo a experiência de transe e construindo um contexto propício para a contemplação estética. Neste campo, a hipnose ericksoniana (Erickson, 1980; Erickson & Rossi, 1979; Zeig, 1980) se destaca pelo modo que se adapta à singularidade do sujeito.

Hipnose ericksoniana

Milton Erickson (1901-1980) foi um psiquiatra americano que se destacou por suas inovações e pelo domínio da hipnose, desvencilhando-se de outros modelos teóricos mais rígidos da época (Neubern, 2018). Seu modo particular de hipnoterapia foi nomeado sob uma nova categoria como hipnose naturalista, visto que compreendia tanto o transe como um fenômeno natural do ser humano, assim como sua prática priorizava o uso de recursos próprios do sujeito para mudanças terapêuticas efetivas (Erickson, 1980, 1994; Erickson & Rossi, 1979). Seus casos envolviam uma branda gama de demandas envolvendo questões fisiológicas, subjetivas e relacionais (O’Hanlon & Hexum, 1990). Assim, Erickson foi interesse de muitos pesquisadores em razão de sua comunicação indireta, utilizando metáforas, contos de histórias e prescrição de tarefas, muitas vezes enigmáticas, em sua prática terapêutica. A hipnose ericksoniana se tornou uma escola de psicoterapia após sua morte por meio de seus discípulos, como forma de disseminar e desenvolver sobre os conhecimentos de seu mestre, no entanto, Erickson nunca teve intenção de fundar uma escola que levasse seu nome (Zeig, 1985).

Suas sugestões hipnóticas se fundamentavam no rapport, um sentimento de entendimento e interesse mútuo entre terapeuta e paciente (Erickson & Rossi, 1979), desenvolvido considerando a singularidade de cada caso. Partiam também de seu princípio de utilização, em que se observava atentamente a totalidade da presença do sujeito, seus gestos, linguagem utilizada e modos de expressão, pois estes podiam ser utilizados terapeuticamente. Desta forma, se alinhavam à lógica de funcionamento do sujeito e permitiam a emergência e a evocação de variados fenômenos hipnóticos como a dissociação, distorção temporal, amnésia, anestesia e alucinação dos sentidos físicos (Erickson, 1980).

Erickson, em vários momentos em sua obra, oferece considerações sobre como pensa o inconsciente, muitas vezes se referindo a ele enquanto uma outra forma de racionalidade poderosa e subjacente à consciência, repleta de recursos adquiridos ao longo da experiência de vida (Erickson, 1980). Tendo isso em mente, considera o estado de transe um campo em que essas potencialidades e aprendizados podem emergir ou serem evocados por comunicações indiretas, de modo a contribuir com a mudança terapêutica, desde que se considere a lógica de funcionamento do sujeito (Erickson & Rossi, 1979).

Contudo, sua compreensão de inconsciente e estado de transe nunca foi sistematizada em uma teoria precisa, nem Erickson demonstrava interesse em fazê-lo (Neubern, 2018), gerando problemas conceituais para o campo. Neubern (2021) concebe a hipnose enquanto um fenômeno composto por dois processos simultâneos: a experiência de transe e a comunicação hipnótica. A experiência de transe se refere às alterações das referências de tempo, espaço, alteridade, causa e matéria que situam a consciência na realidade. Esta alteração atenua processos conscientes dominantes e permite que outros processos comumente inibidos no estado de vigília emerjam. Já a comunicação hipnótica remete aos processos comunicativos envolvidos na evocação, condução e manutenção da experiência de transe, sejam eles internos, como as deliberações de acatamento ou rejeição de sugestões e produção de imagens, sons, sentimentos, sejam externos, como a forma de transmissão das sugestões considerando contexto e técnica.

Para uma compreensão dos processos do sujeito em uma proposta hipnoterápica, parte-se de uma perspectiva configuracional (Neubern, 2021; Neubern & Gonçalves, 2019a), em que as dimensões subjetivas, relacionais, culturais, vitais e corporais do sujeito são consideradas em sistemas dinâmicos, entremeados e inacabados. Estes sistemas se organizam em diversos níveis hierárquicos, constituindo configurações com um certo nível de autonomia e lógica de funcionamento própria, todavia, acessível a determinados processos. Consequentemente, o processo terapêutico pode ser concebido enquanto um processo de reconfiguração, articulando processos de forma a propor novas formas de organização e interação.

Considerando a organização sistêmica das configurações em relação ao pragmaticismo de Peirce, este trabalho sugere a compreensão de configuração enquanto hábito, devido a seu caráter dinâmico e de constantes trocas com a realidade pela qual desenvolve um grau de autonomia. Porventura, o processo terapêutico pode ser considerado uma reconfiguração de hábitos, em que o contexto disponibiliza diversos signos para que novos interpretantes se formem considerando os três universos de experiência.

A seguir, descrevemos dois casos de Erickson (Erickson, 1980; Zeig, 1980) nos quais os sujeitos não têm compreensão consciente das reconfigurações terapêuticas ocorridas. As sugestões hipnóticas ocorrem predominantemente em um nível de primeiridade e sentimento. A discussão teórica descreve o contexto singular de cada caso e articula a reconfiguração terapêutica como um processo de eleição de ideais estéticos afetando conduta e hábitos do sujeito.

Caso 1 - Bolas de Cristal

A paciente sofria de neurose ansiosa com severas reações depressivas e padrões de dependência. Durante as sessões, discutia intelectualmente seus problemas sem executar mudanças. Ela não tolerava suas situações de moradia e trabalho, mas recusava oportunidades de mudança. Foi se tornando mais exigente, demandando que Erickson a forçasse a fazer aquelas coisas que ela não conseguia fazer.

Após muitas sessões, ela centrou seus pensamentos na ideia de que, se ela fosse capaz de realizar uma das coisas que desejava, ela realizaria as outras. Ela foi imediatamente hipnotizada e, em estado sonambúlico, instruída para ver uma série de bolas de cristal. Em cada uma dessas, estaria uma experiência significativa em sua vida. Essas, ela estudaria, comparando e notando a continuidade de vários elementos. Deste estudo, emergiria uma constelação de ideias, formuladas sem que percebesse. Esta formulação se manifestaria em uma outra bola maior, na qual ela se veria de forma agradável, desejável e feliz em alguma atividade futura.

Ela passou aproximadamente uma hora absorvida, estudando as cenas alucinatórias e procurando outras bolas de cristal. Ela as localizava e as dava toda sua atenção, descrevendo as cenas avidamente.

Na bola grande, estava um casamento, que na realidade aconteceria em três meses. Ela descreveu a cerimônia, a recepção e a dança. Ela estava interessada no vestido que usava, mas descrevia-o apenas como ‘bonito’. Ela assistiu a dança, identificou alguns homens com quem dançava e nomeou aquele que a chamou para sair. Comentava como aparentava feliz e a diferença entre sua aparência agora e aquela no casamento.

Foi instruída a guardar tudo que viu no inconsciente e a ter uma amnésia ao acordar. Ademais, foi explicado que aquilo constituiria uma tremenda força motivacional pela qual todos seus entendimentos poderiam ser utilizados construtivamente. Ela então foi acordada e dispensada com uma sugestão pós-hipnótica para a continuação da amnésia.

Houve duas outras sessões nas quais queria apenas ser hipnotizada e lembrar em seu inconsciente a experiência do casamento e, após, encerrou a terapia.

Três meses depois, ela entrou no consultório sem marcar horário, pois sentia dever uma explicação sobre o casamento, mas não sabia por quê. Explicou que os noivos eram seus amigos de vida e que suas famílias eram íntimas. Meses antes, após uma sessão, ela sentiu necessidade de se dedicar àquele casamento. Foi convidada para ser madrinha e decidiu fazer seu próprio vestido. Então, aceitou ser promovida para ter horários melhores e pegou um apartamento na cidade para evitar trânsito.

Ao descrever o casamento, ficou assustada quando Erickson perguntou se Ed a chamou para sair. Dançou com Ed, mas o considerava abaixo de suas expectativas. Porém, aceitou o pedido de um outro homem.

Disse “Eu era uma menina muito doente quando eu vim pela primeira vez para te ver. Eu estava horrivelmente confusa e sou grata a você por me colocar em ordem a tempo para que eu pudesse me arrumar para o casamento”. Ela não percebia que as preparações para o casamento constituíam sua melhora. Ela é mãe de três filhos, feliz e casada (Erickson, 1980, Vol. IV, p. 410-412).

Caso 2 - O Tigre Faminto

Agora, um segundo caso envolvendo câncer. Um médico me ligou e disse

Eu tenho uma paciente no Hospital Bom Samaritano. Ela tem 52 anos de idade. Ela tem um diploma de mestrado. Ela é muito inteligente, lê muito e tem um senso de humor maravilhoso. Mas ela tem menos de três meses de vida e sofre de dores constantes. Eu posso dar para ela uma dose dupla de morfina e Demerol e Percodan, todos ao mesmo tempo, mais nove gramas de amial de sódio. Isso nem a deixa sonolenta, ela tem muita dor. Mas ela consegue se sentar em uma cadeira de rodas e uma ambulância pode levá-la ao seu consultório. E o motorista da ambulância pode empurrá-la para dentro. Você pode ver o que é possível fazer com a hipnose?”

O motorista a empurrou para dentro por essa porta e para o consultório por aquela porta ali (Erickson aponta para a porta lateral de seu consultório). Ela entrou no consultório. Eu tinha 70 anos de idade e meu cabelo era praticamente dessa cor - ele tem essa cor há quinze anos. Ela me olhou e disse “Jovenzinho, você realmente acha que suas palavras hipnóticas vão mesmo alterar meu corpo enquanto substâncias químicas potentes não têm efeito nele?”

Eu disse: “Madame, enquanto olho nos seus olhos, suas pupilas estão dilatando e contraindo constantemente, e seus músculos estão tremendo. Então eu sei que você está sofrendo com dor constante - dor constante, esfaqueante e pulsante. Eu consigo ver com meus olhos. Agora, diga-me, madame, se você visse um tigre magro e faminto na próxima sala, vagarosamente andando para dentro da sala e olhando-a famintamente e lambendo seus dentes, quanta dor você sentiria?”

Ela disse: “Eu não sentiria nenhuma sob essas circunstâncias. Nossa, meu Deus! Eu não sinto nenhuma dor agora. Posso levar esse tigre de volta comigo para o hospital?” Eu disse: “Certamente, mas eu vou precisar avisar o médico”. Ela disse: “Mas não conte para as enfermeiras. Eu quero me divertir com as enfermeiras. Toda vez que me perguntarem se estou com dor, eu vou dizer para elas: Olhem embaixo da cama. Se ainda tiver um tigre aí, eu não tenho nem um pouco de dor”.

Qualquer mulher de 52 anos que começa me chamando de jovenzinho tem um senso de humor. Então eu usei isso (Zeig, 1980, p. 188-189).

Discussão Teórica

A discussão teórica parte de interpretações clínicas fundamentadas na abordagem ericksoniana (Neubern, 2018, 2021; Erickson & Rossi, 1979; Zeig, 1980) e na obra de Charles Peirce (Peirce, 1934, 1998). Para elucidar os processos subjetivos que contribuíram para as reconfigurações terapêuticas, uma análise das comunicações hipnóticas deve contemplar o contexto em que ocorrem e o rapport entre sujeito e terapeuta. No primeiro caso, a paciente já se encontrava em processo hipnoterapêutico por um número indeterminado de sessões, sem apresentar questões emergenciais e expressava desejo de ser hipnotizada, porém, com intuito de contornar e evitar lidar com as falhas de seu autocontrole. No segundo, a paciente desconhecia o terapeuta, sofria de dor constante e foi encaminhada por seu médico, sem expor qualquer experiência prévia de hipnose.

O rapport, no segundo caso, ocorre de forma ágil, no momento em que a paciente se depara com um médico idoso e em cadeira de rodas, assim como ela. Porém, é no momento em que Erickson descreve os processos em andamento em seu corpo e a dor que sente que o rapport se consolida e permite a ação da sugestão que segue. Seria errôneo desconsiderar este desenvolvimento do vínculo e atribuir o alívio do quadro de dor apenas a mero desvio de atenção ou como mérito da sugestão isolada das interações que a antecederam. Isto submeteria a influência hipnótica estreitamente a uma lógica mecanicista e concreta, ignorando o imprevisto de ser recomendada a um médico enfermo, os processos despertos pela imagem de seu médico em cadeira de rodas como seu semelhante, ou o conhecimento que Erickson obteve não apenas por experiência clínica, mas por experiência própria de dores crônicas (Zeig, 1985).

Os processos de rapport viabilizam as reconfigurações de hábito que se sucedem. Para fins didáticos, o processo pode ser discutido em dimensão subjetiva e dimensão vital, no entanto, a experiência em si inevitavelmente envolve os dois, podendo priorizar uma das dimensões (Neubern, 2018; Neubern & Gonçalves, 2019a). No caso 1, a reconfiguração ocorre principalmente na dimensão subjetiva, submetendo seus hábitos de autocontrole a uma transformação necessária frente a seus objetivos. Enquanto no caso 2, a mudança mais significativa ocorre em processos da dimensão vital, a suspensão da dor constante. Porém, o caso 1 inclui processos de dimensão vital essenciais à reconfiguração, como as ações tomadas que decorreram nos eventos que vivenciou após a terapia, assim como o caso 2 é preenchido pela perspectiva futura de humor e relações simbólicas na figura do tigre.

A paciente do caso 1 já identificava racionalmente seus padrões de comportamento, seus desejos, frustrações e ciclos viciosos, no entanto, não tomava decisões nem executava mudanças consistentes, ademais, atribuía ao terapeuta a responsabilidade de iniciar movimentos importantes para seu próprio bem-estar, desprezando sua autonomia. Quando começou a demonstrar um hábito de mudança mais consolidado - se eu fizer uma coisa, conseguirei fazer as outras -, Erickson constrói um contexto hipnótico onde a paciente se encanta com um futuro possível que substanciou sentimentalmente a reconfiguração de hábitos. O processo de admiração por sua imagem futura e o jogo experiencial entre as sensações, as visualizações e as emoções podem ser considerados uma demonstração do musement de Peirce, fundamentando um hábito de sentimento que passa a guiar a reconfiguração dos hábitos de autocontrole.

Musement, enquanto a contemplação do admirável estético (Peirce, 1934; Sheriff, 1994), descreve satisfatoriamente a experiência das bolas de cristal, na qual a paciente se depara com uma cena de sua própria criação e constrói uma relação de profunda admiração e atração inarrável por aquele momento. Os sentimentos e as qualidades singulares presentes na cena constituem um ideal admirável, possibilidades latentes de um futuro que fornecem uma direção para a reconfiguração de seu autocontrole e se apresentam sem estarem acompanhadas de uma argumentação lógica e racional.

Assim, atraídas por este ideal, como parte inicial do processo de reconfiguração, as faculdades de autocrítica e autoconsciência também exercem seu papel, ilustrando ao autocontrole o quanto tem falhado em relação aos ideais do próprio sujeito e a necessidade de mudança (Colapietro, 2017). Quando a paciente se compara em termos de beleza, felicidade e sociabilidade com a sua imagem da cena hipnótica, processos inconscientes de intensa revisão de seu autocontrole estão ocorrendo, pois, como Erickson descreve, apesar da intensa autocrítica racional, nenhuma mudança se sucedia, demonstrando um autocontrole enrijecido. Segundo Colapietro (2017, p. 16), “[...] para agentes deliberativos (autocontrole, autocrítica e autoconsciência) falharem de maneira repetida e consciente com quem eles querem se tornar e […] com o que eles entendem ser inerentemente admirável, significa que falham em serem agentes deliberativos por inteiro”.

Porém, subsidiado pela experiência de transe e uma imagem clara de quem quer se tornar, os hábitos de autocontrole se reconfiguram de forma a organizar a conduta do sujeito em prol de aproximá-lo daquilo que admira e acredita que o realizará. Este processo, no entanto, não toma parte em momento algum na consciência, ele é compreendido pela paciente enquanto mera consequência de um desejo intenso de se dedicar ao casamento de sua amiga. Por este motivo, a reconfiguração ocorre sem conflitos com os hábitos de lógica racional que incapacitavam a paciente. A ação em si se fundamenta e se relaciona mais ao sentimento do que a uma racionalidade anterior do sujeito que possivelmente distorcia e suprimia seu autocontrole (Peirce, 1934).

A paciente do caso 2 não vivenciou uma experiência de transe longa como a paciente do caso 1, mas observa-se o musement no modo que interage com a figura do tigre, com possíveis reações das enfermeiras ao que poderia dizer. Uma parte considerável da reconfiguração se relaciona a um aspecto que se demonstra essencial ao sujeito que é o humor, permitindo-a exercer novamente características marcantes de sua personalidade no cotidiano. É neste sentido que o tigre, um animal exótico e perigoso, permite à paciente fantasiar as interações sociais que pode proporcionar de forma coerente com a ausência de dor que, em parte, ele representa.

Nenhuma das pacientes, no entanto, demonstra capacidade de relatar os processos que lhe facilitaram a reconfiguração terapêutica. A paciente do caso 2 viu cessar a sua dor repentinamente após escutar a fala de Erickson, sem conhecimento de que se tratava de uma sugestão hipnótica ou qualquer explicação posterior. A paciente do caso 1 apresentou amnésia completa das experiências de transe descritas e ao final de sua última visita afirma acreditar que Erickson a colocou em ordem antes de haver encerrado a terapia, sendo que a motivação para a mudança, os objetivos, planejamentos e suas execuções advieram de seus próprios recursos. Deste modo, uma proposta de estudo destes casos sob uma metodologia cuja legitimação da informação parte exclusivamente do entendimento consciente e racional do sujeito sobre sua experiência dificilmente resultaria em conhecimento fidedigno a respeito dos processos subjetivos envolvidos. No que tange a hipnoterapia, certos processos reconfigurativos de nível subjetivo e vital podem ocorrer sem suscitar determinados hábitos de autoconsciência, assim, não engajando a participação de instâncias racionais que submeteriam a experiência às suas respectivas lógicas de funcionamento.

Comunicação hipnótica

Apesar de em momentos ser diretiva, a comunicação hipnótica dos casos utiliza recursos próprios do sujeito para proporcionar experiências em que estes recursos interajam e se organizem em uma lógica de funcionamento benéfica à autonomia do sujeito. No caso 1, a paciente foi direcionada a visualizar as bolas de cristal, no entanto, elas estariam preenchidas dos eventos de sua vida que seu inconsciente apresentasse como significativos. Estes momentos de experiências passadas foram direcionados a constituir a constelação de ideias que se manifestaria posteriormente, porém, a formulação foi obra própria da paciente. Desta forma, a comunicação hipnótica parece estabelecer minimamente condições de interação entre instâncias diferentes do sujeito, lhes fornecendo um contexto adequado para a expressão e construção de hábitos de sentimento importantes considerando sua trajetória existencial e as qualidades que deseja para si. Como contramedida, a amnésia restringe a experiência ao inconsciente, evitando a interferência de hábitos autofrustrantes e autodestrutivos (Colapietro, 2000) que sustentavam os padrões de dependência mencionados no início do caso.

Em relação ao caso 2, a comunicação hipnótica estabelece o rapport e propõe a superposição de dois campos, a dor vivenciada na iminência de morte em decorrência de um câncer e a ausência de dor que se experiencia ao estar indefeso frente a um predador letal, o tigre faminto que a vê como alimento. A sugestão possui interpretabilidade perante o contexto, no entanto, a descrição rica em ícones situa os sentidos do sujeito na cena construída junto do processo de interpretação da sugestão (Neubern & Gonçalves, 2019a), neste caso, suscitando o hábito de anestesia perante o perigo. A reconfiguração destaca-se no momento em que a superposição das duas experiências é sintetizada em um hábito para que a ausência da dor prevaleça, envolvendo tanto a iminência de morte em decorrência de um câncer representada pelo tigre quanto a possibilidade de interagir com outros da forma que lhe faz sentido - através de humor e alegria. Pode-se considerar que o autocontrole, nesta perspectiva, passa a agir efetivamente em prol do papel que a paciente almeja desempenhar em vida e dos ideais os quais admira.

É possível dizer que a comunicação hipnótica, devido sua iconicidade (Neubern, 2021; Neubern & Gonçalves, 2019), permite a construção de um contexto favorável a uma experiência estética (Sheriff, 1994) com menor obstrução de instâncias racionais e conscientes. A comunicação indireta canaliza o processo interpretativo, oferecendo-lhe formas de suceder, no entanto, sem impor ao sujeito o que deve concluir daquela experiência, e sim levando-o ao encontro de possibilidades de significado. Neste cenário, torna-se viável ao sujeito uma relação de musement com a experiência, em que os sentimentos, os signos presentes e as instâncias profundas de si interagem mais por afinidade e admiração de suas qualidades do que por hábitos intelectualmente construídos. Consequentemente, podem surgir hábitos de sentimento que repercutirão em outros hábitos em um processo de reconfiguração. Mesmo experiências de transe aparentemente sem relação com o sujeito podem exercer influência sobre seus hábitos na medida em que as qualidades que emergem e se demonstram ou não admiráveis são processadas em reflexões que as elegem enquanto ideal de alguma forma de conduta.

Dois pontos interligados de discussão se sobressaem nos processos de reconfiguração ilustrados: 1) a imaginação narrativa, em que o sujeito se vê desempenhando um papel em um drama (Colapietro, 2017); e 2) as questões existenciais que se apresentam à autocrítica, autoconsciência e o autocontrole. Ambos os casos incluem, em algum momento, a projeção imaginativa do sujeito em uma cena futura em que age de acordo com seus ideais estéticos. A experiência das bolas de cristal constrói uma narrativa de momentos vividos progredindo a uma ação futura, lentamente contribuindo em termos de sentimento para uma proposta que os organiza de forma atraente e coerente entre si. Já a ausência da dor e a presença do tigre impele a paciente do segundo caso a fantasiar relações em que exerce um papel divertido e ideal sob seus próprios critérios.

Neste sentido, a cena apresenta um certo drama existencial em que o sujeito se vê desempenhando um papel nitidamente dotado de qualidades admiráveis, as quais acionam as faculdades reflexivas em um nível basal sentimental, de modo que interpretem se há ou não correspondência entre as qualidades vislumbradas e as apresentadas pelo sujeito atualmente. Esse reconhecimento entre a narrativa do sujeito ideal e a do sujeito atual ecoa em questões existenciais de propósito em vida, identidade, papel que exerce nas relações e a história que deseja para si enquanto protagonista. O sentimento resultante da ressonância com as questões existenciais e a distância entre os papéis imaginários e reais somam à formação do hábito de sentimento provendo ao ideal admirável finalidades e objetivos de realização. Porém, sua influência na tomada de decisão não é consciente, logo, não ocorre por meio de deliberações lógicas e intelectuais, mas por hábitos de sentimentos envolvendo certo e errado, fazer sentido ou não, atrair-se ou sentir repulsa, que subsidiam interpretações de diversas experiências de relação com o externo.

O autocontrole, encarregado de coordenar hábitos que conduzam o sujeito a seus fins, tanto é direcionado e influenciável por hábitos de sentimento como, quando suficientemente maduro, cultiva um ideal estético (Peirce, 1934) que o nutre, em ciclo autoevolutivo. O drama existencial, ou a narrativa de si, pode ser concebido enquanto um dos componentes do ideal estético capaz de mobilizar hábitos de sentimento por situar as qualidades admiráveis em relação à existência do sujeito no mundo. Entretanto, em estado de transe, os processos comunicativos de instâncias do sujeito ilustram de forma mais clara, em um contexto de contemplação com menor interferência de processos racionais dominantes.

Esta perspectiva pode contribuir para a compreensão do potencial terapêutico das técnicas hipnóticas de regressão e progressão (Erickson, 1980, 1994; Neubern, 2018) no que tange a suas capacidades de trabalhar processos identitários, de pertencimento e papel exercido em relações sociais. A influência dessas técnicas no processo de reconfiguração, consequentemente, não se restringe a um paralelismo de nível intelectual referente ao que o sujeito foi, é e será, ou uma tentativa de identificação de características indesejadas, mas pode promover um campo contemplativo em que o sujeito, por afinidade, elege qualidades das quais deseja partilhar e forma hábitos de sentimento em relação à sua trajetória e conduta. Assim, proporcionam condições fundamentais para a reconfiguração do autocontrole viabilizando a busca por meios de tornar o sujeito signo representante de seus ideais, sem necessariamente centrar os processos reflexivos e terapêuticos em dimensões racionais ou conscientes.

Considerações Finais

A experiência de transe pode facilitar ao sujeito uma experiência de Musement, a comunicação hipnótica é capaz de sugerir o contexto necessário e propor formas em que diferentes instâncias do sujeito possam interagir e comunicar qualidades de forma protegida. As comunicações podem assumir um teor complexo envolvendo diversos sentidos e comunicando ou exercitando ideais de conduta, permitindo a formação de novos hábitos de sentimento, assim como revisão e manutenção do autocontrole. Este processo aparenta ser beneficiado pela distorção temporal somada ao contexto terapêutico, pois concede às comunicações qualitativas e às faculdades reflexivas o tempo adequado para que trocas profundas ocorram sem possibilidades de interrupção, como acontece em ambientes do cotidiano.

O autocontrole, assim como as outras faculdades reflexivas, demonstra um aspecto de seu funcionamento que não se restringe ao pensamento, organizando tanto uma dimensão vital da experiência em trocas com hábitos de lógica fisiológica, mas no qual forma hábitos sutis, abstratos, que regem em quais qualidades admiráveis, atraentes se embasarão os hábitos de conduta. Possivelmente este processo se relaciona com a própria afinidade do sujeito com as qualidades que o atraem e faz parte do ciclo de maturação das faculdades reflexivas. Este aspecto ainda se mantém na dimensão estética, pois constrói uma coerência entre os sentimentos que embasam os hábitos de diversos sistemas do sujeito de acordo com os ideais estéticos cultivados e não envolve julgamento moral ou argumentação lógica. Da mesma forma, surgem questionamentos quanto às instâncias de agenciamento (Gallagher, 2020) e a extensão da sua relação com o autocontrole nos hábitos de conduta. Peirce (1910) descreveu a formação de hábitos do autocontrole como um exercício proposital, mas o propósito para mudança pode ser conflituoso entre diferentes instâncias de agenciamento, e em que medida essas afetam os hábitos de conduta necessita maiores esclarecimentos.

Sobre este ponto, é necessário salientar que a intenção deste trabalho se encontra longe do desprezo das instâncias conscientes e intelectuais, no entanto, a perspectiva pragmaticista de Peirce nos permite situar e discernir a influência de processos de sentimento dos processos de pensamento que constantemente são amalgamados em categorias referentes ao simbólico (Neubern & Gonçalves, 2019a). A argumentação lógica permite o crescimento e a coerência da razão, porém falha constantemente em seus objetivos ao desconsiderar os sentimentos que embasam hábitos de conduta ou pensamentos.

Peirce acrescenta que “Os homens muitas vezes imaginam que agem a partir da razão quando, na verdade, as razões que atribuem a si próprios não passam de desculpas que o instinto inconsciente […] inventa para satisfazer os 'porquês' provocadores do ego” (Peirce, 1934, vol. I, p. 346)12. A passagem trata de como determinadas construções lógicas deturpadas se demonstram convincentes para outros e para instâncias de si mesmos, contudo, tais constructos são fenômenos superficiais de sentimentos e desejos ocultos que pouco cedem a uma argumentação consciente, mas são acessíveis a processos comunicativos de uma dimensão primeira. Ter a Estética como ponto de partida envolve um ponto pouco explorado na obra de Peirce, requerendo cautela na articulação teórica para que não se contrarie o teor de sua obra como um todo. Entretanto, nos permite clarear o papel de fenômenos da primeiridade, como os sentimentos, em relação aos processos de formação de hábitos.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Set 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    28 Dez 2020
  • Aceito
    10 Ago 2022
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