Open-access Adesão ao Bolsonarismo: Dilemas, Contradições e Retórica em Argumentos de seus Militantes

Adherence to Bolsonarismo: Dilemmas, Contradictions, and Rhetoric in Arguments of its Militants

Adhesión al Bolsonarismo: Dilemas, Contradicciones y Retórica en los Argumentos de sus Militantes

Resumo:

Nos últimos anos, o Brasil foi palco de irrupções de movimentos de direita e ultradireita que culminaram nas eleições presidenciais de 2018 com a vitória de Jair Messias Bolsonaro. Este estudo analisa as contradições e inconsistências presentes em argumentos que justificam a adesão ao bolsonarismo formulados pelos militantes desse movimento; os dilemas ideológicos que conformam esses argumentos; e a organização retórica utilizada para torná-los convincentes e verossímeis. O estudo entrevistou 15 militantes bolsonaristas e, com o uso do método de análise de discurso desenvolvido pela psicologia social discursiva, analisa quatro argumentos mobilizados para justificar a adesão ao bolsonarismo: a defesa da liberdade, da moralidade cristã, a transparência e a simplicidade de Jair Bolsonaro, e a perspectiva de ruptura com o sistema político. Diversos dilemas ideológicos (entre tolerância e preconceito, entre liberdade e ordem etc.) se revelaram nas contradições e ambiguidades presentes nesses argumentos. Diferentes estratégias retóricas foram utilizadas pelos militantes para apresentar tais argumentos como factuais e eles próprios como pessoas preocupadas com a racionalidade e a verdade.

Palavras-chave:
Argumentação; Dilemas; Ultradireita; Militância

Abstract:

The Brazilian political scene in recent years has been the scene of outbreaks of right and ultra-right movements that culminated in the 2018 elections, which ended with the victory of Jair Messias Bolsonaro. This study identifies and analyzes arguments that justify adherence to Bolsonarism as formulated by militants of that movement. It specificallyidentifies and analyzes the content of these arguments, the rhetorical strategies that are mobilized to make them persuasive, and the ideological dilemmas that condition them. Using the discourse analysis method developed by discursive social psychology, this study analyzes transcripts of 15 interviews in which these activists justify their adherence to Bolsonarism. The defense of freedom, Christian morality, the transparency and simplicity of Jair Bolsonaro, the fight against crime and corruption, the prospect of rupture with the political system, and patriotism were the arguments used to justify adherence to Bolsonarism. Moreover, three ideological dilemmas stood out: between libertarianism and order, authoritarianism, control; between conservatism and revolution; and between tolerance and prejudice.

Keywords:
Argumentation; Dilemmas; Ultra-Right; Militancy

Resumen:

En los últimos años, el escenario político brasileño ha sido marcado por estallidos de movimientos de derecha y ultraderecha que culminaron en las elecciones de 2018 con la victoria de Jair Messias Bolsonaro. Este estudio analiza las contradicciones e incoherencias en los argumentos que justifican la adhesión al bolsonarismo formulada por sus militantes; los dilemas ideológicos que los condicionan; y las estrategias retóricas movilizadas para hacerlos persuasivos. Este estudio examina las transcripciones de quince entrevistas y, utilizando el método de análisis del discurso desarrollado por la psicología social discursiva, analiza cuatro argumentos en que estos activistas justifican su adhesión al bolsonarismo: la defensa de la libertad, la moral cristiana, la transparencia y sencillez de Jair Bolsonaro, y la perspectiva de ruptura con el sistema político. Destacan varios dilemas ideológicos (la tolerancia y el prejuicio, la libertad y el orden, etc.) como contradictorios y ambiguos en sus argumentos. Los militantes utilizaron diversas estrategias retóricas para justificar sus argumentos como hechos y a sí mismos como personas preocupadas por la racionalidad y la verdad.

Palabras clave:
Argumentación; Dilemas; Ultraderecha; Militancia

Introdução

Nos últimos anos, uma nova direita ocupou o centro da cena política nacional, num contexto de avanço da direita e da ultradireita em diferentes partes do mundo, de crises econômicas e de ações anticorrupção que abalaram fortemente a imagem do Partido dos Trabalhadores (PT), principal partido de esquerda do país. As manifestações de junho de 2013, iniciadas pelo Movimento Passe Livre, movimento social de esquerda, e logo utilizadas por grupos de direita para seus próprios fins, foram fundamentais nesse processo (Safatle, 2017 ). Entre 2013 e 2016, grupos de direita como Revoltados Online, Vem pra Rua e Movimento Brasil Livre (MBL) mobilizaram-se nas redes sociais e tiveram papel determinante nas manifestações pró impeachment ocorridas entre 2015 e 2016 (Solano et al., 2019 ). Essas manifestações levaram milhares de pessoas às ruas nas grandes cidades brasileiras, e nelas notava-se a presença de grupos de direita, que, não obstante suas diferenças internas e clivagens ideológicas, formulavam um discurso francamente autoritário (Messenberg, 2019 ).

Nas páginas desses atores políticos na internet, havia um discurso fortemente antipetista, religioso e agressivo, que canalizou toda a insatisfação das manifestações de 2013, organizado agora em torno do tema do combate à corrupção (C. R. J. Pinto, 2019b ).

A fração mais radical dessa nova direita chegou ao poder em 2018 com Jair Bolsonaro. Ex-capitão do exército brasileiro e deputado federal desde 1991, Bolsonaro capitalizou essa insatisfação e se elegeu presidente da república nas eleições presidenciais de 2018. O bolsonarismo chegou ao poder ameaçando os inimigos políticos de eliminação física, atacando agressivamente minorias sociais e defendendo abertamente regimes ditatoriais (Lessa, 2020 ; Reis, 2020 ; Solano & Rocha, 2020 ).

A defesa de um ideário extremista, a violência discursiva e a devoção ao líder do movimento pode facilmente obliterar as contradições no interior do movimento e na subjetividade seus militantes, produzir representações nas quais essas pessoas são apresentadas como desprovidas de dúvidas e conflitos internos, pessoas cujos valores são diametralmente opostos aos da modernidade ocidental. Enfim, um retrato no qual os bolsonaristas são sempre os mesmos em todos os contextos e muito semelhantes entre si na obediência ao líder, na intensidade da crença e na violência discursiva.

É verdade, como afirma Cesarino ( 2020 ), que, principalmente no contexto digital, as franjas mais radicais do bolsonarismo ficam muito parecidas com essa imagem, porque o universo digital tende a produzir subjetividades individuais e coletivas pouco dialógicas e isoladas do contraditório. A autora, estudando grupos bolsonaristas no WhatsApp, constatou que os militantes e simpatizantes do bolsonarismo são mobilizados por um populismo digital autoritário e agressivo, que produz obsessivamente inimigos internos que devem ser eliminados, usa fartamente a retórica pós-verdade e difunde a crença de que esses militantes estabelecem uma relação não mediada com o líder. Esses grupos seriam bolhas digitais cujo contato com o restante da web seria mediado por um conjunto de dispositivos de produção e disseminação de conteúdos que reproduzem uma representação de mundo característica do bolsonarismo e atacam representações alternativas.

Uma descrição das bolhas digitais bolsonaristas muito semelhante à de Cesarino é produzida por Lynch e Cassimiro ( 2021 , p. 237): “[…] o ‘gabinete do ódio’ mantém o público reacionário encapsulado em uma realidade paralela, marcada pela paranoia, pelo ódio e pelo medo, alimentada diariamente pela difusão de boatos, notícias falsas e teorias da conspiração”.

A imagem do movimento bolsonarista construída por esses autores, com abundante evidência empírica, descreve traços, processos e dinâmicas desse movimento extremista que podem ser observados sem muita dificuldade por qualquer um que tenha interesse por processos políticos e que tenha observado, nesses anos de governo Bolsonaro, a relação entre o líder populista de extrema direita e seus seguidores. Porém, uma imagem mais complexa dos militantes do bolsonarismo, mesmo daqueles que com mais frequência produzem discursos extremistas e reacionários, deve considerar com mais atenção aqueles momentos em que eles produzem discursos que estão em desacordo com essa imagem, discursos contraditórios, ambíguos, que consideram os argumentos dos adversários.

Este estudo interessa-se pelas tensões, dúvidas, hesitações, ambiguidades e contradições presentes em seus argumentos. Pelos momentos em que contradizem estilos argumentativos tidos como característicos do bolsonarismo, em que endossam, implicitamente ou explicitamente, valores e práticas daqueles que lhes são antagônicos no campo político. Esses discursos estão presentes no universo digital porque as bolhas digitais bolsonaristas não conseguem isolar completamente estes e quaisquer indivíduos do contraditório, mas certamente se tornam mais visíveis fora do universo digital.

Este estudo, portanto, analisa as contradições e inconsistências presentes em argumentos que justificam a adesão ao bolsonarismo formulados pelos militantes desse movimento; os dilemas ideológicos que conformam esses argumentos; e a organização retórica utilizada para torná-los convincentes e verossímeis.

A análise dos argumentos foi orientada pelo método de análise de discurso desenvolvido por psicólogos sociais ( Billig, 2008 ; Billig et al., 1988 ; Billig, 1991 ; Wetherell & Potter, 1992 ; Potter, 1998 ; Wetherell, 2007 ), que construíram, a partir dos anos 1980 do século passado, uma psicologia social discursivamente orientada. Trata-se de uma perspectiva teórica construcionista que salienta em suas análises os diferentes tipos de ações realizadas pelo discurso, as estratégias retóricas que ele utiliza para construir versões convincentes, verossímeis e factuais da realidade social, e a variabilidade discursiva, ou seja, o caráter inconsistente e contraditório das produções discursivas de indivíduos e grupos.

Trata-se de uma perspectiva teórico-metodológica cuja abordagem de fenômenos como o preconceito ou ações políticas extremistas é marcadamente não essencialista. Exemplos desse modo de abordar esses fenômenos em Billig et al. ( 1988 ) e Billig ( 1991 ) são particularmente importantes para a argumentação desenvolvida neste estudo. Essas obras destacam que, em seus posicionamentos políticos, militantes de partidos de extrema direita são também envolvidos por dilemas do senso comum que envolvem cidadãos de tendências políticas moderadas, dilemas que produzem contradição, inconsistência e ambiguidade em seus argumentos.

Atividade de natureza psicossocial, a argumentação não é puramente lógica (Perelman & Olbrechts-Tyteca, 1996). É uma atividade essencialmente conflituosa, que mobiliza a forma e o conteúdo da linguagem para combater determinadas versões da realidade social, e, por isso, é também uma atividade retórica (Billig, 2008 ).

Para Billig et al. ( 1988 ), versões em conflito sobre a natureza da realidade social possibilitam o caráter dilemático do pensamento humano. Dilemas decorrem de valores e representações em conflito na sociedade; sem o conflito de valores na sociedade os dilemas não existiriam. Um soldado que deve decidir entre desertar ou permanecer na frente de batalha está diante do conflito entre interesses individuais e interesses sociais. Sua decisão e a de qualquer outro na mesma situação levará em conta valores sociais mais amplos, tais como justiça e injustiça, covardia e coragem etc.

Billig et al. ( 1988 ) assinalam que esses valores em conflito são ideológicos por excelência. Mas as ideologias, ressaltam eles, não têm unidade interna; no interior da ideologia do capitalismo, por exemplo, um valor tão central como a liberdade conflita frequentemente com a lealdade às leis do Estado e com a responsabilidade para com os semelhantes. Liberdade individual sem limites pode gerar a anarquia, e a ordem também é um valor importante para o capitalismo liberal. Mesmo no interior do liberalismo, que fornece as bases filosóficas para o individualismo capitalista, e não somente em teorias concorrentes, temas contrários ao individualismo são detectados. E esse conflito não é exclusivo da deliberação dos filósofos liberais, ele é reproduzido na argumentação cotidiana das pessoas comuns. Assim, as ideologias podem produzir conformidade, mas, como elas contêm dentro de si temas em conflito, diferentes valores, representações de mundo, elas produzem elementos dilemáticos que tornam possível a deliberação. As pessoas que pensam no interior das ideologias não precisam ser compreendidas como máquinas que seguem comandos de maneira irrefletida (Billig, et al., 1988 ).

Afirmar a ausência de unidade interna nas ideologias é um alerta para a irrazoabilidade de esperar ausência de contradições, tensões e ambiguidades em argumentos produzidos por militantes de qualquer movimento social ou político, não importa o grau de identificação com o líder ou de extremismo político desses militantes. E isso é mais verdadeiro quando um movimento político é composto por mais de uma ideologia. Como ressaltam estudiosos do movimento bolsonarista (Reis, 2020 ; Lynch & Cassimiro, 2021 ), trata-se de um movimento ideologicamente heterogêneo, constituído pelo libertarianismo de direita, por um conservadorismo assustado com o avanço das pautas identitárias e por uma corrente abertamente reacionária, inimiga da modernidade liberal que deseja substituir por uma sociedade patriarcal regida pelo cristianismo.

No interior mesmo do movimento, portanto, há mais de uma ideologia, e a relação entre elas é potencialmente conflituosa. A corrente reacionária no interior do bolsonarismo, inspirada no tradicionalismo defendido por Olavo de Carvalho e Steve Bannon, é inimiga do liberalismo, que é uma das bases do libertarianismo de direita.

Embora o libertarianismo de direita que integra o bolsonarismo, representado por Guedes e todos os neoliberais que ainda integram o governo, não seja propriamente democrático e defensor incondicional das liberdades democráticas, e seja, como afirmam Lynch e Cassimiro ( 2021 ), um híbrido de liberalismo e conservadorismo, dificilmente se poderia acusá-los de conspirar para a implantação no Brasil do tipo de sociedade sonhada pelos tradicionalistas reacionários.

Essa diversidade ideológica nos altos escalões do governo e no movimento bolsonarista está presente entre os simpatizantes e militantes do bolsonarismo. Como revela Kalil ( 2018 ), o perfil dos eleitores de Bolsonaro em 2018 era bastante heterogêneo. Na campanha, ele foi votado por pessoas de todas as classes sociais, embora tenha tido mais adesão de homens de alta renda. Entre seus eleitores, ela identificou gays de direita, eleitores de direita pertencentes a minorias raciais, mulheres insatisfeitas com as pautas do movimento feminista, pessoas identificadas com o neoliberalismo, pessoas sem qualquer ojeriza ao Estado e às políticas públicas etc.

Método

Participantes, instrumento e procedimentos

Foram realizadas 15 entrevistas individuais com militantes bolsonaristas de uma cidade média nordestina, todos maiores de 18 anos, aqui identificados com nomes fictícios para preservar suas identidades. Militantes do bolsonarismo, neste estudo, são indivíduos que votaram em Jair Bolsonaro e que participam de grupos dedicados a defender o seu governo e o bolsonarismo como movimento político.

As entrevistas foram realizadas por videoconferência na plataforma gratuita Zoom Meetings em razão da pandemia do novo coronavírus. Todas as entrevistas foram gravadas em áudio com a permissão dos participantes, sendo algumas gravadas em vídeo e posteriormente transcritas. Para delimitar a quantidade de participantes, utilizou-se o critério do ponto de saturação, assim, a coleta de dados foi concluída quando as entrevistas passaram a não trazer nenhuma informação nova. Como se trata de uma pesquisa qualitativa, o propósito aqui é identificar os argumentos existentes no universo discursivo desses militantes e como são acionados retoricamente, e não fazer inferências estatísticas sobre a distribuição desses argumentos no universo da militância bolsonarista.

As entrevistas foram realizadas em formato de história oral temática ou relato oral de vida (Souza, 2006 ). Neste estudo, são analisadas especificamente as passagens das entrevistas em que eles discorrem sobre os motivos ou as razões que os levaram a aderir ao bolsonarismo.

No que diz respeito às características dos 15 participantes, nove são do gênero masculino e seis do gênero feminino, todos heterossexuais. As idades variam de 18 a 60 anos. Oito participantes são casados, seis são solteiros e um é divorciado. A renda familiar mensal varia de menos de um salário mínimo a mais de dez salários mínimos. Em termos ocupacionais, os participantes distribuem-se da seguinte maneira: um aposentado, um bancário, um autônomo, um empresário, um garçom, um seminarista, um estudante, um vereador, um porteiro, um administrador, dois professores e três profissionais liberais. A escolaridade dos participantes varia do ensino fundamental incompleto à pós-graduação. Um dos participantes possui ensino fundamental incompleto, outro ensino médio completo, sete deles possuem ensino superior completo e cinco possuem o ensino superior incompleto, e somente um deles possui ensino superior com pós-graduação. No que diz respeito à filiação religiosa, 12 são evangélicos, dois são católicos e um participante é da religião judaica. Por fim, no que se refere à cor/raça, dois denominaram-se pretos, seis denominaram-se pardos e sete brancos.

Análise

Na análise, utilizou-se o método de análise de discurso desenvolvido pelos teóricos da Psicologia Social Discursiva (Billig, 2008 ; Billig et al., 1988 ; Billig, 1991 ; Potter, 1998 ). Depois de transcritas, as entrevistas foram lidas cuidadosamente, várias vezes, e todas as passagens em que os militantes justificavam sua adesão ao bolsonarismo foram separadas e codificadas, organizadas em categorias. Em seguida, passou-se a análise propriamente dita, com atenção especial às tensões, ambiguidades e contradições que constituíam esses argumentos e à organização retórica utilizada para torná-los convincentes.

A presente pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal da Paraíba (CAAE nº 28126719.8.0000.5188) e respeitou todos os princípios éticos que envolvem as pesquisas com seres humanos, conforme determina a Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde (Brasil, 2016 ).

Resultados

Nem todos os argumentos acionados pelos militantes bolsonaristas para justificar a adesão ao movimento bolsonarista foram analisados aqui. Além da defesa da liberdade, transparência e simplicidade de Jair Bolsonaro, perspectiva de mudança e ruptura e moralidade cristã, os militantes mencionaram o combate à corrupção e o patriotismo como razões para a sua adesão. Optou-se por analisar somente os quatro primeiros, porque os fenômenos discursivos em foco neste estudo estavam mais evidentes nesses argumentos.

Defesa da liberdade

O argumento dos militantes segundo o qual Jair Bolsonaro e o movimento bolsonarista seriam defensores da liberdade, acionado para justificar a adesão ao movimento bolsonarista, é inequivocamente uma resposta ao argumento segundo o qual eles seriam autoritários, intransigentes e intolerantes, uma maneira de se constituírem como defensores ardorosos da liberdade, indivíduos tolerantes que lutam contra a tirania estatal e as tendências autoritárias dos seus adversários políticos.

Garantir a liberdade! Você vê, disseram que Bolsonaro seria um ditador, mas é hoje quem mais briga pela liberdade do povo. Governadores aí restringindo direito de ir e vir, botando rodízio de placa sem noção, que isso só vai aumentar os casos de covid, tá obrigando o povo a pegar transporte público e aglomerando todo mundo ali...

(Abel)

Uma delas é a diminuição da maioridade penal e logo, logo mesmo, rápido, a posse de armas, porque o Brasil é muito fácil de qualquer um impor ditadura. E isso não pode ocorrer mais.

(Ramirez)

Eu acho que ele chegou lá por isso, prometendo liberdade ao povo em todos os aspectos: liberdade religiosa, liberdade econômica, liberdade de poderes. Ter a sua legítima defesa assistida.

(Felipa)

. . . Eu vejo que quando falamos de liberalismo, deve ter uma facilitação maior para as pessoas poderem ter renda, gerar empregos, gerar economia para a cidade, economia para o estado, economia para o Brasil. A gente precisa disso, não podemos depender só do governo do Estado, não! A gente tem que depender das nossas forças próprias e o Estado chegar num momento de dificuldade que foi que nem esse. O Estado deve chegar, sim, mas em momentos de dificuldade que nem um caso como esse [pandemia] .

(Gustavo)

Descrevendo os atributos do homo bolsonarus , Lessa ( 2020 , p. 62 ) afirma que nele a “palavra não é convite à pausa, ao pensamento e à internalização da experiência, mas vocalização de uma vontade de agir: é o caso do urro ‘acabou p*!’”. Lessa não está descrevendo as características psicossociais dos militantes bolsonaristas, está descrevendo o “modelo de natureza humana” (Lessa, 2020 , p. 49) que o experimento bolsonarista pretende disseminar, modelo personificado na figura do próprio Jair Bolsonaro. De qualquer forma, as falas acima diferenciam inequivocamente os militantes do modelo descrito por Lessa. Algumas formulam uma versão inverossímil e até mesmo insólita da realidade política brasileira, constróem um notório apologista de tiranias de direita como um amante da liberdade. Mas até mesmo essas não podem ser acusadas de serem simplesmente uma “vocalização de uma vontade de agir”. As falas acima procuram dar razões para aquilo que afirmam, são organizadas retoricamente para convencer o interlocutor mobilizando diferentes recursos retóricos, como a formulação de casos extremos (Pomerantz, 1986 ; Potter, 1998 ) – “ Bolsonaro […] é hoje quem mais briga pela liberdade do povo ” (Ramirez) – e a lista tríplice (Potter, 1998 ) – “ liberdade religiosa, liberdade econômica, liberdade de poderes ” (Felipa).

São relatos influenciados pela propagação crescente do discurso liberal no Brasil (Rocha, 2019 ) e também pelo peculiar libertarismo propagandeado por Jair Bolsonaro em suas falas e ações. Um libertarismo que, segundo Lessa ( 2020 ), parece ter como meta a volta da sociedade ao estado de natureza, que “deseja dar curso livre e inculpado a seus preconceitos e às ações que eles autorizam”, “odeia pagar impostos e obrigações trabalhistas” e exige “andar sem máscara em plena pandemia” (Lessa, 2020 , p. 64), e que está bem representado pela defesa de Abel do “direito de ir e vir”, ainda que com um grave risco de se contaminar e contaminar outras pessoas. É uma clara incoerência em relação ao liberalismo de um autor como Mill ( 1859–2011 /2011), que não aceita a interferência da sociedade ou do Estado na vida dos indivíduos, mas reconhece que eles devem ser coagidos naqueles casos em que a ação dos indivíduos coloca em risco a vida e a liberdade de outros indivíduos.

Nesses relatos, os militantes mencionam recorrentemente exemplos de liberdade negativa, central para o liberalismo ocidental (Merquior, 1991 ), mas excluem sistematicamente alguns tipos de liberdade negativa, como a liberdade das mulheres para dispor sobre seu próprio corpo, no caso de aborto, e a liberdade para usar drogas, práticas demonizadas pelas correntes conservadora e reacionária do bolsonarismo.

Mas há também um exemplo de liberdade positiva em uma dessas intervenções, que um de seus inimigos, o neoliberal Hayek ( 1983 ), denomina de liberdade enquanto poder. Em sua intervenção, Gustavo, ao enaltecer os benefícios da liberdade econômica, afirma que “ O Estado deve chegar, sim, mas em momentos de dificuldade que nem um caso como esse [pandemia]”. Há aí um inequívoco reconhecimento da razoabilidade do ponto de vista dos adversários das formas mais extremas de liberalismo econômico. Um reconhecimento de que o Estado deve, sob certas condições, fornecer os meios para que os indivíduos possam executar certas ações, comprar alimentos, por exemplo, como no caso do auxílio emergencial do ano de 2021, mencionado por ele.

Transparência e simplicidade

Um segundo tipo de argumento formulado para justificar a adesão ao bolsonarismo é a transparência e a simplicidade, características que os militantes apresentam como atributos essenciais da pessoa do presidente.

A forma também de falar de Jair Bolsonaro, que é a forma do povo escutar, foi que fez isso crescer. Não é à toa que as pessoas que estavam perto de mim, quando passaram a escutar mais Bolsonaro aderiram juntos também aqui na minha família, né? E nem sabiam o que era direita, hoje sabem o que é direita.

(Abel)

Então, conhecer é uma coisa, saber é outra, quando você passou saber quem é Jair, você vê a sinceridade no olho, você vai ver sinceridade na palavra, você não vê mentira, você não vê querendo agradar, aquilo é autêntico. Se eu perguntasse aqui sobre você… certa vez a gente estava no Garden e aqueles bombeiros civis disseram: “olha, quando o senhor for presidente quero que o senhor regularize a nossa profissão”, ele disse: “não, eu não posso lhe prometer isso”. Então como é que você está em plena campanha para um auditório de várias pessoas numa cidade, no interior do Nordeste, o quintal da casa dos seus opositores, você dizer: “não, eu não vou lhe prometer isso não, isso não cabe a mim, isso cabe ao congresso, criar leis para regulamentar…”. Então se você perguntasse a mesma coisa no outro dia, não existia variação de pensamento, não existe, então chama a atenção!... Então quando você passou a conviver com Jair, como eu convivi poucas vezes, mas a gente vê uma autenticidade nas suas palavras…

(Gabriel)

Eu acho que outra coisa muito principal é a questão da lisura, ou pelo menos da tentativa de idoneidade que o presidente mostra. Eu sou gente como qualquer um e não o que reclamam muito dele, “olha, ele é o presidente da república, não pode agir assim”, ele tá quebrando isso e o povo se enxerga muito nele, uma pessoa normal, que erra? Erra! Que fala coisa errada? Fala! Mas que tá tentando acertar.… Eu falo de transparência porque vai abranger nos vários aspectos. Na personalidade dele, é uma pessoa muito clara, o que nós vemos dele numa entrevista, nós vemos na reunião ministerial sigilosa e isso eu chamo de transparência.

(Alan)

Então porque que ele é bruto? Como diz as palavras, por que é que ele é grosso? Porque ele não consegue não dizer a verdade, então ele diz aquilo que tá dentro do coração, você fala aquilo que o coração tá cheio, entendeu?

(Rafaela)

A retórica agressiva e chula de Jair Bolsonaro contra minorias sociais e contra as esquerdas de uma forma geral tem sido objeto de análise e crítica por parte de diferentes estudiosos do bolsonarismo (Lessa, 2020 , Reis, 2020 , Solano & Rocha, 2020 ), que a interpretam como sinal inequívoco de degradação e rebaixamento da democracia brasileira.

Mas, como se pode observar nas falas acima, o que para muitos seria interpretado como grosseria, intransigência, autoritarismo e incitação à violência é ressignificado pelos militantes como signo de verdade, transparência, autenticidade, clareza e simplicidade. Solano e Rocha ( 2020 ) encontraram resultados semelhantes em entrevistas com apoiadores fiéis do presidente.

Os militantes mobilizam diferentes estratégias retóricas para dar verossimilhança ao argumento segundo o qual Jair Bolsonaro seria um político autêntico e verdadeiro. A formulação de casos extremos se faz presente por meio da maximização (Pomerantz, 1986 ; Potter, 1998 ): “ você não vê mentira, você não vê querendo agradar ” (Gabriel); “ porque ele não consegue não dizer a verdade ” (Rafaela); “ então se você perguntasse a mesma coisa no outro dia, não existia variação de pensamento, não existe ”(Gabriel).

Gabriel narra um encontro com Jair Bolsonaro para se apresentar como testemunha de um conjunto de afirmações do então candidato à presidência da república. A categoria de testemunha, segundo Potter ( 1998 ), é construída por meio de relatos que convencem que aquele que relata estava presente na cena e que é bom observador, o que torna o conteúdo relatado mais credível, verossímil, provável. O discurso direto ou a citação direta, tal como usado por Gabriel — “ olha, quando o senhor for presidente quero que o senhor regularize a nossa profissão ”; “ não, eu não posso lhe prometer isso ” — é uma maneira eficaz de realizar essa ação. Afinal, somente alguém que esteve presente em uma determinada cena poderia fazer uma citação direta do que foi dito por outrem.

Observa-se também o uso do lugar comum de quantidade na fala de Alan para defender as virtudes da transparência e sinceridade de Bolsonaro. O argumento de quantidade, segundo Perelman e Olbrechts-Tyteca ( 2005 ), apresenta-se frequentemente por meio do elogio daquilo que é normal, comum, aquilo que está presente na maior parte das pessoas. É, portanto, a ele que Alan recorre quando afirma que criticam muito o presidente por tomar a posição de ser “gente como qualquer um”, “uma pessoa normal”, que “erra”, que fala “coisa errada”.

Mudança e ruptura

Os militantes bolsonaristas advogam uma ruptura com o modelo político-institucional predominante no Brasil, e a adesão ao bolsonarismo se apresenta em suas falas como um caminho para alcançar esse objetivo. Essa disjunção entre o bolsonarismo e o modelo político-institucional brasileiro é muito clara na fala dos militantes.

Então, dos candidatos foi o único que apresentou uma proposta dentro do que eu acredito e da possibilidade de fazer algo novo, diferente do que a gente já vem tendo há muitos anos... E me identifiquei com as propostas e fui seguindo e fui concordando, fui vendo que era a opção de mudança que a gente estava precisando.

(Vitória)

A questão de ser bolsonarista me veio como a única opção plausível naquele momento para gente se livrar do esquerdismo... Então, de tudo que Bolsonaro tem feito, a quebra de paradigmas e a quebra desse sistema nefasto de poder eu acho que é o mais importante, é uma mudança estrutural.

(Adriana)

Bolsonaro chegou no momento certo e outra coisa, é o que eu digo, precisava do radicalismo de Bolsonaro para a gente fazer isso, prudência e sofisticação não iria adiantar, a gente não teria tirado uma presidente incapaz, desonesta, um fantoche de Lula como ela foi se a gente não tivesse realmente exorbitado. Então a questão é, toda revolução, toda mudança de paradigma, toda mudança social precisa de radicalismo.

(Adriana)

Ele foi eleito para romper com um modus politicus mesmo, assim a gente acredita num discurso mais de rompimento e como diz, quem tiver devendo que pague. Ele foi eleito com essa pauta né, a partir do momento que ele se afasta dessa pauta, ainda não se caracteriza, mas a gente já percebe movimentos nesse sentido, como a saída do ministro da educação agora, o Abraham Weintraub, que representa bem isso…

(Lucas)

Há nessas falas uma quantidade notável de categorias com o significado de ruptura com a ordem existente, mudança abrupta: “quebra de paradigmas”, “revolução”, “mudança estrutural”, “rompimento”, “radicalismo”. Trata-se, segundo Lynch e Cassimiro ( 2021 ), da retórica antissistema, característica dos populismos radicais, que prega a destruição do Estado de direito sob a alegação de que ele trabalharia contra os verdadeiros interesses do povo em benefício de uma minoria. O bolsonarismo, segundo esses autores, é um populismo radical de direita, um populismo reacionário.

Há uma clara contradição entre essa retórica revolucionária e o vocabulário típico do conservadorismo que eles mobilizam em vários momentos, e que será foco do item seguinte, conservadorismo que eles, em vários momentos das entrevistas, dizem abraçar. De fato, a defesa da mudança disruptiva, abrupta e violenta excluiria esses militantes da tradição conservadora de um autor como Burke ( 1790–1997 /1997).

Esses militantes constroem Bolsonaro como o agente capaz de realizar a ruptura com o paradigma vigente. Em alguns momentos, usa-se o lugar comum de qualidade para produzir esse efeito. Segundo Perelman e Olbrechts-Tyteca ( 2005 ), o lugar de qualidade ressalta o valor do único, do singular, diferentemente do lugar de quantidade que ressalta o que está presente em muitos, o comum, o banal, como se viu anteriormente quando Bolsonaro é descrito como alguém que pensa como o povo, que fala como o povo.

Como afirmam dois militantes: “ dos candidatos foi o único que apresentou uma proposta dentro do que eu acredito ” (Vitória); “ a questão de ser bolsonarista me veio como a única opção plausível naquele momento para a gente se livrar do esquerdismo ” (Adriana).

Moralidade cristã

Como já foi dito, uma das correntes do bolsonarismo é um tradicionalismo reacionário que têm como utopia uma sociedade inspirada no mundo medieval, uma sociedade patriarcal e regida pelo cristianismo, inimiga do pluralismo, tolerância e laicidade (Lynch & Cassimiro, 2021 ). Mas em nenhum momento esse tradicionalismo reacionário é defendido abertamente. Em algumas narrativas, observa-se o uso de uma retórica típica do discurso conservador, um discurso que posiciona os seus autores como pessoas que somente procuram conservar algo que está sendo ameaçado. Nessas narrativas, o cristianismo e a moralidade cristã estão sob grave ameaça e o bolsonarismo é um movimento de defesa.

Frequentando a igreja eu percebia que existia uma desconstrução cultural em vigor, eu percebia mudanças de arranjo familiar, discussão de gênero dentro das escolas e aquilo ali, eu sentia a minha fé aviltada né, aquilo que eu acreditava estava sendo ferido por pautas que… vou citar um exemplo, um promotor tá preocupado em retirar da cédula de real a expressão “Deus seja louvado”, um promotor tá preocupado em retirar do preâmbulo constitucional “sob as bênçãos de Deus promulgamos a Constituição Federal”. E eu disse “pô, por que é que o cara está preocupado com isso?”, porque o cara tá preocupado em legalizar a poligamia né, o poliamor, são uma modalidade de casamento que já foi reconhecida no Estado do Rio de Janeiro e alguns cartórios já estavam reconhecendo isso como união civil né, como união estável, união civil, entre um homem e duas mulheres.… Eu disse “pô cara tem algum interesse, tem alguém tramando contra aquilo que eu acredito, tem alguém trabalhando…”eu fui me aprofundar, fui ler. Aí tive acesso, isso em 2006, bem antes, há muito tempo sobre aquele livro “A origem da propriedade privada e da família”, não é?... Então eu percebi que existia um embate ideológico por trás da política, né, e existe uma guerra cultural muito forte, essa desconstrução cultural e o cristianismo é o alvo de tudo isso.

(Lucas)

Eu sou fã da postura do presidente, ele defende os princípios que eu defendo, eu defendo família, eu defendo a religião, eu defendo a liberdade.… Eu comecei a entender a implantação do Decálogo de Lenin, o gramscismo cultural dentro das universidades, dentro das escolas, os critérios de escolha de professores, não é nada que eu tenho nada contra homossexual, lésbicas, conheço pessoas que têm a sua opção sexual, que a opção sexual de cada um não me diz respeito, a gente tinha professores homossexuais, mas que se davam o respeito, tá entendendo? É tanto que eu digo que existe, me desculpa, me desculpa assim, existe o “viado” e o homossexual, que o homossexual ele se dá o respeito, ele tem a postura dele, a sexualidade é dele, é problema dele. Agora aqueles todos “espanaviado”, como diz o ditado, eu discordo!.… O PT começou implantar essas ideologias, jogar o que é? É como o Decálogo de Lenin diz, você joga o homossexual … você dá todos os poderes a ele e eles começaram o quê? O hétero ficou sem o espaço de defender a sua heterossexualidade, né? Que eu discordo… ah, o preto começou a ter todos os direitos, ah, morre um preto… aí é aquele “auê”, mas morre um branco não é nada, para mim não tem morte de preto nem branco, tem de ser humano, se morrer um preto, um branco assassinado, a pena tem que ser igual.…. Então a gente começa a ver o quê? Essas distorções que é para o quê? Jogar a sociedade uns contra os outros, jogar empregado contra patrão, é jogar preto contra branco, é fazer essa divisão que o PT fez muito bem feita na nação, tá entendendo? […]

(Luiza)

Os inimigos que querem destruir o cristianismo são o “socialismo”, agentes do Estado brasileiro (“ um promotor tá preocupado em retirar da cédula de real a expressão ’Deus seja louvado ’ [Lucas]”), as escolas, as universidades, o Partido dos Trabalhadores, os grupos identitários ligados a minorias sexuais e raciais. Como cristãos, esses bolsonaristas se posicionam como vítimas de um inimigo implacável, perverso e astucioso, posição identitária de reconhecida eficácia, especialmente quando se pretende justificar o ataque a esse inimigo (ver Tenório, 2004 ).

Em seu avanço, os inimigos do cristianismo promovem a “desconstrução cultural”, “uma guerra cultural” contra o cristianismo. Mas não se trata de uma guerra aberta, declarada. As narrativas de Lucas e Luiza formulam tacitamente o argumento de que há uma conspiração astuciosa contra os valores cristãos. Uma conspiração invisível para a maioria das pessoas e que lhes foi revelada por meio de alguns sinais. Ao perceber “ mudanças de arranjo familiar, discussão de gênero dentro das escolas ” etc., Lucas se deu conta de que tinha algum “ interesse ”, que tinha “ alguém tramando ” contra aquilo em que ele acreditava, “ alguém trabalhando ”, então ele resolveu se aprofundar.

Luiza é mais explícita na afirmação de uma conspiração invisível ao mencionar o seu entendimento acerca da “ implantação do Decálogo de Lenin ” e do modo como ele operava: organizando “ o gramscismo cultural dentro das universidades, dentro das escolas ”, determinando “ os critérios de escolha de professores ”, jogando “ a sociedade uns contra os outros ”, “ empregado contra patrão ”, “ preto contra branco ”. Nesses relatos, há mais descrição das ações dos inimigos de uma forma que apareçam como astuciosas e perversas do que afirmações diretas de perversidade e astúcia, recurso eficaz, como ressaltam vários estudiosos (van Dijk, 1987 ; Potter, 1998 ), quando se trata de produzir factualidade e de proteger aquele que narra da acusação de ser interessado, parcial, preconceituoso etc.

Nesse contexto de ataque aos grupos identitários, observa-se a preocupação de se apresentar como uma pessoa sem preconceitos. Assim, Luiza afirma que não tem “ nada contra ” o “ homossexual ”, as “ lésbicas ”, mas logo em seguida passa a atacar aqueles que não se dão o “ respeito ”. Trata-se de um movimento retórico, tão bem descrito por Van Dijk ( 1987 ) em seu célebre estudo sobre o discurso racista, que consiste em negar hostilidade ou preconceito contra um grupo étnico específico e, imediatamente, manifestar hostilidade em relação a ele. Idealmente, têm a forma de uma oração adversativa: eu não sou racista, mas…, eu não tenho nada contra eles, mas…

Há que se destacar também o uso da particularização (Billig, 2008 ) como estratégia retórica no discurso de Luiza. Ela opera uma distinção no interior da categoria “homossexual”. Segundo ela, existe, no interior dessa categoria, o “ homossexual ” que “ se dá o respeito ” e existe o “ viado ”. A particularização, que em alguns contextos pode ser entendida como indicação de resistência ao pensamento estereotipado, na medida em que os sujeitos não generalizam um atributo para toda uma categoria (ver Billig, 2008 ), em outros pode se apresentar, como aqui, enquanto uma estratégia retórica involuntariamente cômica e malsucedida na tentativa de apresentar a pessoa que a aciona como uma pessoa tolerante.

Luiza, simultaneamente, nega e expressa preconceito contra homossexuais. Analisando casos semelhantes a esse, Billig et al. ( 1988 ) afirmam, corretamente, que seria um equívoco acreditar que a expressão de tolerância faz parte de uma estratégia de gerenciamento de identidade e que a expressão de preconceito é genuinamente ideológica. Segundo eles, contradições discursivas como essa tipo indicam a presença de um dilema ideológico. Pode-se afirmar, portanto, que há de fato um comprometimento com os valores da tolerância no relato de Luiza, embora suas expressões de hostilidade contra os homossexuais indiquem os limites desse comprometimento.

Discussão

Este estudo identificou diferentes argumentos formulados por militantes bolsonaristas para justificar o apoio ao presidente da república Jair Bolsonaro, antes das eleições e durante o governo. Ao apresentar esses argumentos, alguns dilemas ideológicos (Billig et al., 1988 ) se apresentaram com muita saliência, produzindo contradições e inconsistências em suas falas: entre liberdade econômica e responsabilidade para com o sofrimento dos semelhantes; entre liberdade e ordem; entre conservadorismo e revolução; e entre tolerância e preconceito.

O dilema entre liberdade econômica e responsabilidade para com o sofrimento dos semelhantes se apresenta até mesmo na intervenção de um militante, Gustavo, que parece ser um daqueles bolsonaristas que aderiram ao movimento atraídos principalmente pelas promessas de instauração de um ultraliberalismo econômico no Brasil. No discurso de Gustavo, há diálogo e negociação com o argumento dos adversários ideológicos; ele pede que os adversários ideológicos lhe concedam que a liberdade econômica gera desenvolvimento, e concede aos adversários que o Estado não pode ser radicalmente mínimo, que deve socorrer os cidadãos em momentos em que eles não conseguiriam com suas próprias forças.

O dilema entre liberdade e ordem está presente até mesmo em liberais autênticos, como mostram Billig et al. ( 1988 ). Portanto, não surpreende que em um movimento composto por ultraconservadores e até mesmo reacionários, como é o caso do bolsonarismo, ele seja tão central.

Alguns militantes advogam o direito de ir e vir numa situação de pandemia e o direito de portar armas de fogo, por vezes usando uma retórica com forte tonalidade antiestatal e libertária. Analisando o libertarismo disseminado na retórica do bolsonarismo, Lessa ( 2020 ) afirma que se trata de um libertarismo que prega a volta da sociedade ao estado de natureza, um estado no qual as interações sociais sejam governadas pelas pulsões com um mínimo de mediação de dispositivos artificiais como o Estado, no qual a vida social seria conformada pelas assimetrias de poder tidas como naturais.

Uma sociedade em estado de natureza, governada pelas pulsões, poderia ser interpretada como uma sociedade anárquica, ameaçada pela desordem. Mas certamente seria um equívoco interpretar esses apelos libertários dos militantes como argumentos a favor de algum tipo de desordem anárquica se espraiando por toda a sociedade. Nem afirmam, também, que todas as liberdades devem ser permitidas.

Da liberdade negativa, central no liberalismo de autores como como Mill ( 1859–2011 /2011) e Hayek ( 1983 ), são subtraídas, nos relatos dos militantes, liberdades fundamentais. Em diferentes momentos eles defendem, em contradição com outros momentos em que afirmam as liberdades individuais contra a tirania estatal, algum tipo de intervenção estatal para proibir práticas que eles consideram pecaminosas, como o aborto, ou práticas interpretadas como causadoras de desordem, como é o caso do uso de drogas.

Essas contradições não se devem somente à aliança com os ultraliberais. No interior da própria vertente de ultradireita norte-americana que inspira a família Bolsonaro, a alt-right , (L. C. Pinto, 2019a ), é saliente essa inconsistência entre o apoio à liberação do porte de armas, por exemplo, e a vontade de controlar e impedir outras liberdades, como o uso de drogas e a prática do aborto.

O dilema entre conservadorismo e revolução parece estar presente no uso em alguns momentos de um vocabulário próprio do conservadorismo e, em outros, de uma retórica repleta de termos que remetem à disrupção, ruptura, revolução. Certamente para Burke ( 1790–1997 /1997), um dos pais fundadores do conservadorismo ocidental, essa defesa da mudança abrupta soaria como insofismavelmente revolucionária. Não é por outro motivo que estudiosos como Lessa ( 2020 ) definem o bolsonarismo como um movimento com traços revolucionários. Os bolsonaristas situam-se entre a estabilidade e segurança tão afirmada pelo discurso conservador e o desejo por uma revolução que garanta a preservação dos valores que eles afirmam estar ameaçados ou a volta de alguns valores que supostamente teriam sido abolidos.

Por fim, o dilema entre preconceito e tolerância se apresenta nas intervenções em que os militantes atacam grupos identitários, como se viu na intervenção de Luiza, anteriormente analisada. Nela, um preconceito indiscutível em relação aos homossexuais e negros é acompanhada de uma preocupação de se apresentar como uma pessoa sem preconceitos, ligada aos valores do Iluminismo, uma preocupação presente, no Ocidente, não somente em liberais e em grupos de direita moderada, mas também em membros de grupos de extrema direita, como se pode ver em Billig et al. ( 1988 ).

Os argumentos aqui analisados foram acompanhados recorrentemente por estratégias de produção de factualidade. Dito de outra forma, os bolsonaristas, insistentemente, procuravam se apresentar como pessoas que preocupam-se com o discurso verdadeiro, que repudiam a mentira, que procuram dar evidências para aquilo que afirmam.

Essa insistência em se apresentarem como pessoas preocupadas com a verdade pode causar estranhamento. Afinal, os novos movimentos de ultradireita se sustentam numa política da pós-verdade (Silveirinha, 2018 ), uma atitude de ironia, desprezo e até deboche em relação à verdade. Além disso, Jair Bolsonaro como político tem se notabilizado nos últimos anos pela produção intensiva de fake news nos meios digitais (Cesarino, 2020 ; Reis, 2020 ). Mas Jair Bolsonaro em suas intervenções públicas está longe de fazer um discurso irônico em relação à verdade. Na verdade, sempre que possível ele se apresenta como alguém que personifica a verdade e combate às mentiras dos seus inimigos. O conservadorismo do Bolsonarismo é heterodoxo, para dizer o mínimo, mas tem certamente elementos do conservadorismo tradicional, e um deles é a ojeriza às diferentes formas de relativismo. Nas falas dos militantes, tudo que é dito pelos inimigos do bolsonarismo é falso e tudo que é dito pelos representantes do bolsonarismo é verdadeiro, resultado semelhante aos encontrados em outros estudos (Sousa et al., 2022 ; Cesarino, 2020 ; Lynch & Cassimiro, 2021 ).

Os militantes também se representaram como pessoas preocupadas com a verdade quando descreveram Jair Bolsonaro como um homem simples, que pensa como o povo e fala como o povo, um homem transparente e verdadeiro, e o compararam com a mentira e a corrupção de instituições como parlamento e judiciário.

Essa retórica que contrapõe a liderança autêntica e verdadeira às instituições corruptas e marcadas pela mentira é uma das facetas do populismo, e as lideranças populistas que desafiam as instituições tornam-se atraentes para amplos setores do eleitorado (Laclau, 2013 ). Como Jair Bolsonaro construiu sua carreira política com uma agressiva retórica anti-institucional, não surpreende que seja representado tão frequentemente pelos militantes como o político que combate as instituições apodrecidas e a corrupta lógica política brasileira.

Considerações finais

Este estudo aborda argumentos construídos por militantes do bolsonarismo para justificar sua adesão ao movimento. Eles justificam sua adesão mobilizando variados recursos retóricos que revelam a preocupação desses atores políticos em se mostrarem racionais, coerentes e verdadeiros dentro do debate político. Ambiguidades e inconsistências presentes nesses argumentos têm relação inequívoca com dilemas ideológicos presentes em grupos sociais mais próximos do centro político, dilemas como tolerância e preconceito ou liberdade e ordem, por exemplo. Esses dilemas não são tematizados explicitamente pelos militantes. Estudos futuros mais confrontativos, que explicitem nas entrevistas esses dilemas para os militantes, permitirão compreender de maneira mais aprofundada a lógica argumentativa e a natureza dos dilemas que caracterizam o universo da ultradireita brasileira.

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  • Como citar:
    Sousa, R. S., Oliveira Filho, P., & Camino, L. (2024). Adesão ao Bolsonarismo: Dilemas, Contradições e Retórica em Argumentos de seus Militantes. Psicologia: Ciência e Profissão , 44 , 1-14. https://doi.org/10.1590/1982-3703003270308
  • How to cite:
    Sousa, R. S., Oliveira Filho, P., & Camino, L. (2024). Adherence to Bolsonarismo: Dilemmas, Contradictions, and Rhetoric in Arguments of its Militants. Psicologia: Ciência e Profissão , 44 , 1-14. https://doi.org/10.1590/1982-3703003270308
  • Cómo citar:
    Sousa, R. S., Oliveira Filho, P., & Camino, L. (2024). Adhesión al Bolsonarismo: Dilemas, Contradicciones y Retórica en los Argumentos de sus Militantes. Psicologia: Ciência e Profissão , 44 , 1-14. https://doi.org/10.1590/1982-3703003270308

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Out 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    10 Dez 2022
  • Aceito
    19 Set 2023
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