Open-access Evidências de Validade para o Teste de Inteligência Emojional

Validity Evidence for the Emotional Intelligence Test

Evidencia de Validez para el Test de Inteligencia Emocional

Resumo:

A inteligência emocional é um domínio cognitivo ligado ao processamento de informações emocionais, que engloba habilidades como percepção, facilitação do pensamento, compreensão e regulação de emoções. Sua avaliação como habilidade tem se concentrado no uso predominante de um único instrumento, o Mayer-Salovey-Caruso Emotional Intelligence Test (MSCEIT), destacando a necessidade de diversificação metodológica. Por isso, este estudo visa examinar as propriedades psicométricas do Teste de Inteligência Emojional, que inclui 32 itens, divididos igualmente para avaliar as habilidades de percepção e compreensão de emoções. A amostra consistiu em 205 adultos brasileiros, majoritariamente do sexo feminino (64,4%) e com nível superior de escolaridade (92%). Os participantes responderam aos testes de percepção e compreensão de emoções, além de inventário de personalidade e escala de resiliência para adultos, e forneceram dados sobre desempenho acadêmico. A análise revelou uma estrutura bifatorial alinhada aos construtos de percepção e compreensão de emoções, com índices de consistência interna superiores a 0,7. Observou-se alta correlação entre os fatores e correlações baixas e predominantemente não significativas com traços de personalidade, evidenciando validade convergente-discriminante. Correlações significativas, embora baixas, entre compreensão de emoções, desempenho acadêmico e planejamento de futuro foram identificadas, compatíveis aos achados anteriores com o MSCEIT. Os resultados suportam o uso do Teste de Inteligência Emojional para fins de pesquisa.

Palavras-chave:
Personalidade; Resiliência; Desempenho acadêmico

Abstract:

Emotional intelligence, a cognitive domain linked to processing emotional information, encompasses skills such as perception, thought facilitation, understanding, and regulation of emotions. Its assessment as a skill has predominantly relied on a single instrument—the Mayer-Salovey-Caruso Emotional Intelligence Test (MSCEIT)—, highlighting the need for methodological diversification. Hence, this study examined the psychometric properties of the Emoji Emotional Intelligence Test, which includes 32 items evenly divided to assess the skills of emotion perception and understanding. Study sample consisted of 205 Brazilian adults, predominantly female (64.4%) and with tertiary education (92%). Participants answered tests of emotion perception and understanding, as well as a personality inventory, an adult resilience scale, and provided academic performance data. Analysis revealed a bifactorial structure aligned with the constructs of emotion perception and understanding, with internal consistency indices exceeding 0.7. A high correlation between factors and low and predominantly non-significant correlations with personality traits were observed, showing convergent-discriminant validity. Significant albeit low correlations between emotion understanding, academic performance, and future planning were identified, aligning with previous findings using MSCEIT. The results support the use of the Emoji Emotional Intelligence Test for research purposes.

Keywords:
Personality; Resilience; Academic Performance

Resumen:

La inteligencia emocional es un dominio cognitivo vinculado al procesamiento de información emocional, que abarca habilidades como la percepción, la facilitación del pensamiento, la comprensión y la regulación de emociones. Su evaluación como habilidad ha dependido predominantemente de un único instrumento, el Mayer-Salovey-Caruso Emotional Intelligence Test (MSCEIT), lo cual resalta la necesidad de diversificación metodológica. Por lo tanto, este estudio tiene como objetivo examinar las propiedades psicométricas del Test de Inteligencia Emocional Emoji, que incluye 32 ítems, divididos equitativamente para evaluar las habilidades de percepción y comprensión de emociones. La muestra consistió en 205 adultos brasileños, mayoritariamente femeninos (64,4%) y con un nivel superior de educación (92%). Los participantes respondieron a pruebas de percepción y comprensión de emociones, además de un inventario de personalidad y una escala de resiliencia para adultos y proporcionaron datos sobre rendimiento académico. El análisis reveló una estructura bifactorial alineada con los constructos de percepción y comprensión de emociones, con índices de consistencia interna superiores a 0,7. Se observó una alta correlación entre los factores y bajas correlaciones y predominantemente no significativas con rasgos de personalidad, evidenciando validez convergente-discriminante. Se identificaron correlaciones significativas, aunque bajas, entre la comprensión de emociones, el rendimiento académico y la planificación futura, compatibles con hallazgos anteriores con el MSCEIT. Los resultados respaldan el uso del Test de Inteligencia Emocional Emoji para fines de investigación.

Palabras clave:
Personalidad; Resiliencia; Rendimiento Académico

Introdução

A inteligência emocional (IE) é um tipo de inteligência relacionada ao processamento cognitivo de informações emocionais. Ela foi explicada por meio de um sistema de quatro níveis: percepção de emoções; utilização da emoção para facilitação do pensamento (raciocínio emocional); compreensão de emoções; e regulação de emoções (Rivers, Handley-Miner, Mayer, & Caruso, 2019). Com base nessa proposta teórica, dois tipos de instrumentos de medida têm sido encontrados para avaliação da IE: os de desempenho, que a medem como habilidade, tal como os testes tradicionais de inteligência e outras medidas cognitivas, e os de autorrelato, que a medem como traço e que captam mais a forma como uma pessoa percebe suas capacidades para lidar com as emoções em si mesmo e em outras pessoas (Bru-Luna, Martí-Vilar, Merino-Soto, & Cervera-Santiago, 2021). Neste estudo, o foco recai sobre a avaliação das propriedades psicométricas de um instrumento para avaliação de algumas habilidades da IE por desempenho: a percepção de emoções (PE) e a compreensão de emoções (CE).

Esse tema tem sido alvo de grande interesse por parte dos pesquisadores. Bueno et al. (2017), por exemplo, em uma busca no Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), com o termo “emotional intelligence”, encontraram 23.570 referências sobre o assunto. Boa parte dessas pesquisas, no entanto, tem usado o mesmo instrumento para avaliação da inteligência emocional, o Mayer-Salovey-Caruso Emotional Intelligence Test (MSCEIT). As propriedades psicométricas desse instrumento foram estudadas a partir de sua aplicação em mais de 2 mil adultos americanos e revelaram evidências de validade para um sistema hierárquico com um fator global de IE no topo e quatro fatores na base: percepção, facilitação do pensamento, compreensão e regulação de emoções. Entre o fator global e as quatro da base há duas áreas denominadas experiencial (composição das capacidades de perceber e usar as emoções para facilitar o pensamento) e estratégica (composição das capacidades de compreender e de regular emoções) (Mayer, Salovey, Caruso, & Sitarenios, 2003). Os índices de precisão desses fatores, medidos pelo coeficiente alfa de Cronbach, foram sempre superiores a 0,79, considerados bastante satisfatórios (Mayer et al., 2003). Além disso, o MSCEIT apresenta versões para diversas outras línguas e culturas com os mesmos resultados de validade com base na estrutura interna, como a sérvia (Altaras-Dimitrijevic & Jolic-Marjanovic, 2010), a italiana (Curci, Lanciano, Soleti, Zammuner, & Salovey, 2013), a romena (Iliescu, Ilie, Ispas, & Ion, 2013), a espanhola (Sanchez-Garcia, Extremera, & Fernandez-Berrocal, 2016) e a chinesa (Mao et al., 2016).

Estudos de validade com base nas relações com variáveis externas, realizados com o MSCEIT, mostram que as quatro habilidades da inteligência emocional se relacionam moderadamente entre si (r variando de 0,4 a 0,6), apresentam correlações baixas, positivas e significativas com medidas tradicionais de inteligência (0,2 a 0,3) e se correlacionam predominantemente de forma não significativa com traços de personalidade (abaixo de 0,2) (Altaras-Dimitrijevic & Jolic-Marjanovic, 2010; Iliescu et al., 2013; Mao et al., 2016; Mayer et al., 2003; Sanchez-Garcia et al., 2016). Esse padrão de correlações é compatível com a ideia de que a inteligência emocional é um tipo de habilidade cognitiva, mais próxima de outros tipos de inteligência, e não um tipo de traço, que se aproximaria mais do campo de estudo da personalidade. Do ponto de vista psicométrico, esses estudos se constituem em evidências de validade convergente-discriminante, já que as novas medidas de inteligência emocional devem convergir com medidas de construtos semelhantes, como a própria inteligência emocional ou medidas tradicionais de inteligência; mas deve discriminar de construtos distintos, como é o caso dos traços de personalidade (MacCann & Roberts, 2008).

Outros estudos buscaram evidências de validade correlacional e encontraram relações do MSCEIT com diversas variáveis externas. Por exemplo, foram encontradas relações negativas com agressividade (Vega, Cabello, Megías-Robles, Gómez-Leal, & Fernández-Berrocal, 2022) e com depressão, e positivas com bem-estar (Fernández-Berrocal & Extremera, 2016), desempenho acadêmico (MacCann et al., 2020) e ganhos salariais (Rode, Arthaud-Day, Ramaswami, & Howes, 2017). No entanto, não foram encontrados estudos das relações entre inteligência emocional e resiliência. É plausível supor que haja relação entre esses dois construtos porque se supõe que um dos pré-requisitos para o reestabelecimento emocional após a ocorrência de um evento negativo é justamente saber lidar com as emoções que afetam uma pessoa. Por isso, a investigação dessa relação é um dos objetivos deste estudo.

Embora o MSCEIT seja amplamente aceito e utilizado, é necessário desenvolver novos instrumentos para avaliação da IE, com diferentes tipos de estímulos e formatos de itens. Isso propicia a diversificação das opções de avaliação desse construto e permite verificar se diferentes instrumentos levam aos mesmos resultados.

Nesse sentido, os emojis têm sido utilizados em mensagens de texto e se constituem em um dos motivos pelos quais as pessoas gostam de usar redes sociais para se comunicar com seus pares, especialmente a população mais jovem (Zilka, 2021). Assim, considerando a expansão do uso dos emojis em mensagens instantâneas de texto como forma pictográfica de linguagem especialmente dedicada à veiculação de informações emocionais, e a familiaridade dos usuários com esse tipo de comunicação emocional, optou-se por utilizá-los como estímulos em um novo teste de IE.

O uso desse recurso de comunicação tem sido empregado em diversos contextos, como relacionamentos de amizade, românticos e profissionais. Por exemplo, no âmbito profissional, a medicina tem se valido de emojis para melhorar a comunicação com pacientes pediátricos, melhorar o humor e a interação em avaliações psicológicas de rastreio em pacientes adultos e como meio para melhorar a adesão a medicações, entre outros (Szeto et al., 2022).

Em instrumentos de avaliação, os emojis têm sido empregados com diferentes propósitos. Massey (2022), por exemplo, empregou-os para medir a atitude de crianças em relação à matemática, enquanto Setty, Srinivasan, Radhakrishna, Melwani e Krishina (2019) empregaram emojis animados para medir a ansiedade de crianças em relação à primeira consulta com um dentista. Em ambos os casos, os emojis foram utilizados nas opções de resposta aos instrumentos. Em outro estudo, os emojis foram empregados como estímulos para avaliação da personalidade. Os autores encontraram emojis associados a três dos cinco grandes fatores de personalidade: estabilidade emocional (😔😱), extroversão (😎😉) e amabilidade (😊😙) (Marengo, Giannotta, & Settanni, 2017).

Embora esses estudos tenham apontado positivamente para utilização de emojis em instrumentos de avaliação psicológica, não foram encontrados relatos sobre o emprego desses estímulos em um instrumento de avaliação da IE na literatura científica. Por isso, desenvolveu-se o Teste de Inteligência Emojional, que contempla a avaliação de duas das habilidades relacionadas à inteligência emocional: percepção (PE) e compreensão de emoções (CE).

A construção do Teste de Inteligência Emojional partiu da premissa de que os emojis, como representações pictográficas amplamente utilizadas na comunicação digital, são especialmente eficazes para veicular informações emocionais de forma acessível e culturalmente reconhecível. A seleção dos estímulos baseou-se nas seis emoções básicas – alegria, tristeza, raiva, medo, nojo e surpresa –, amplamente reconhecidas como universais nos principais modelos teóricos sobre emoções, especialmente no modelo proposto por Ekman (1992). De acordo com revisão recente da literatura (Lee & Kim, 2023), os modelos de Ekman (1992), Plutchik (2003) e o conjunto GoEmotions (Demszky et al., 2020) constituem as abordagens mais influentes na atualidade sobre a estrutura das emoções básicas. Além disso, a análise semântica realizada por meio de um modelo de linguagem ajustado para emoções confirmou a consistência interna e a robustez do modelo de Ekman (1992), reforçando sua validade empírica e transcultural (Demszky et al., 2020). Assim, a escolha dessas seis emoções foi fundamentada tanto em sua relevância teórica quanto em sua estabilidade observada em diferentes contextos culturais e metodológicos.

Entretanto, reconhecendo a complexidade dos estados afetivos, a seleção dos emojis também considerou imagens que continham misturas de emoções (surpresa e medo, por exemplo), bem como variações nas denominações de uma mesma emoção (raiva, irritação e frustração, por exemplo). Essas estratégias buscaram ampliar a representatividade do conjunto de estímulos, preservando as categorias emocionais fundamentais ao mesmo tempo em que contemplava nuances presentes na experiência emocional cotidiana. Uma descrição mais detalhada dos instrumentos é apresentada na seção que descreve o método deste estudo.

Assim, este trabalho teve como objetivo investigar as propriedades psicométricas do Teste de Inteligência Emojional. Mais especificamente, os objetivos foram buscar evidências de validade com base na estrutura interna e com base nas relações com variáveis externas (traços de personalidade, resiliência, idade e desempenho acadêmico) para as provas de PE e CE do Teste de Inteligência Emojional, além de verificar os índices de fidedignidade dos fatores obtidos. As hipóteses formuladas foram as seguintes:

Os testes de percepção e de compreensão de emoções resultariam em fatores distintos, com bons índices de fidedignidade, atestando a validade com base na estrutura interna e a fidedignidade dessas medidas.

A correlação entre os dois testes (percepção e compreensão de emoções) seria positiva, significativa e de magnitude moderada (0,3 a 0,5), atestando a validade convergente das medidas.

As correlações desses fatores com os traços de personalidade seriam baixas e predominantemente não significativas, atestando a validade discriminante das medidas.

A variável idade foi inserida na expectativa de haver correlações negativas, baixas e significativas com as subescalas de IE, uma vez que a interpretação de emojis pode favorecer a população mais jovem, que está mais habituada ao uso desses elementos em mensagens de texto.

Com base em estudos anteriores que encontraram correlações positivas, baixas e significativas entre IE e desempenho acadêmico (MacCann et al., 2020), essa variável externa também foi inserida no estudo, esperando-se obter resultados semelhantes.

Não foram encontrados estudos correlacionais entre IE (medida por instrumentos de desempenho) e resiliência. No entanto, com base nas correlações com construtos semelhantes, como bem-estar (Fernández-Berrocal & Extremera, 2016), formulou-se a hipótese teórica de haver correlação positiva, baixa e significativa entre esses construtos (validade com base nas relações com construtos relacionados).

Método

Participantes

Foram coletadas respostas de 205 sujeitos maiores de 18 anos, sendo mais da metade do sexo feminino (64,4%), 34,6% masculino e 1% que não se identifica com a nomenclatura binária de gênero. Também houve prevalência de respostas do estado de Pernambuco (92%) com presença minoritária de participantes do Distrito Federal, de Goiás, de Minas Gerais, do Pará, do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Norte. Em termos de escolaridade, a maioria dos participantes (89%) estava cursando ou já tinha concluído um curso de nível superior.

Instrumentos

O Teste de Inteligência Emojional é composto pelo Teste de Percepção Emojional e pelo Teste de Compreensão Emojional. Para ambos os testes foram selecionados os mesmos 16 emojis, que retratavam expressões emocionais diversas, positivas e negativas. No Teste de Percepção Emojional, cada estímulo era seguido por um conjunto de cinco emoções (que variavam conforme o estímulo) e a tarefa do participante era dizer quanto de cada emoção estaria presente no estímulo usando uma escala de cinco pontos, na qual 1 significava “emoção não está presente” e 5 significava “emoção totalmente presente”. As pontuações foram atribuídas por concordância com o consenso, de forma que cada participante recebeu um ponto sempre que sua resposta coincidiu com a da maioria dos participantes desta pesquisa. Como havia cinco itens para cada estímulo (imagem), cada participante recebeu uma pontuação para cada imagem, que foi calculada pela soma dos acertos, ou seja, para cada imagem, os participantes podiam receber uma nota de 0 a 5. Veja o exemplo da Tabela 1.

Tabela 1.
Item do Teste de Percepção Emojional.

Os números que aparecem na figura acima indicam o número de participantes (N) que escolheu cada alternativa (1, 2, 3, 4 ou 5) para cada emoção (ansiedade, surpresa, prazer, medo e culpa). Supondo que um participante respondeu 2 para ansiedade, 2 para surpresa, 5 para prazer, 1 para medo e 1 para culpa, ele receberá zero para os dois primeiros itens, pois a maioria dos participantes escolheu 1 para esses itens; mas receberá 1 ponto para cada um dos três itens restantes (prazer, medo e culpa), pois sua resposta coincidiu exatamente com a da maioria nesses itens. Assim, sua pontuação referente a esse emoji será 3. De forma semelhante, foram calculadas as pontuações em todas as 16 imagens do teste. Portanto, foram obtidas 16 pontuações, correspondentes aos 16 estímulos do Teste de Percepção Emojional, para cada participante.

Por sua vez, o Teste de Compreensão Emojional apresentava um emoji como estímulo e solicitava ao participante que assinalasse a alternativa (entre cinco disponíveis) que descrevia a situação que ocorreu anteriormente e que foi a causadora da expressão apresentada pelo emoji. Nesse caso, havia uma resposta considerada correta para cada estímulo, que foi determinada pelos pesquisadores, com base na teoria evolutiva das emoções (Plutchik, 2003). Essa teoria estabelece certos padrões em que as emoções ocorrem (sequências emocionais), que envolvem um estímulo (por exemplo, algo valioso), que desperta uma cognição (pegar para si), que é seguida por um estado emocional (prazer) e uma tendência de comportamento (reter ou repetir), que tende a produzir um efeito (dispor de recursos). Nesse sentido, as respostas corretas foram atribuídas ao estímulo que desencadeou o estado emocional observado na expressão do emoji. Os participantes receberam 1 ponto quando acertavam e zero quando erravam a resposta. Um exemplo de item de compreensão de emoções segue na Tabela 2.

Tabela 2.
Item do Teste de Compreensão Emojional.

Nesse exemplo, a imagem está relacionada à sequência emocional da alegria, que é despertada por um objeto valioso. Essa ideia está representada na terceira afirmação: “viu uma comida de que gosta”; portanto, essa alternativa foi considerada correta (1 ponto) e, as demais, incorretas (0 ponto).

O Inventário de Personalidade avalia os cinco grandes fatores: extroversão, neuroticismo, amabilidade, conscienciosidade e abertura. O instrumento era composto por 45 itens de autorrelato, para serem respondidos por meio de escala Likert de cinco pontos, em que 1 significava “absolutamente não se aplica ao meu caso” e 5 significava “se aplica totalmente ao meu caso”. As pontuações foram computadas pela média de pontos atribuídos aos itens que compunham cada uma das seguintes escalas: extroversão, amabilidade, conscienciosidade, neuroticismo e abertura.

A Escala de Resiliência para Adultos (RSA) foi adaptada ao português brasileiro por (Hjemdal, Roazzi, Dias, & Friborg, 2015). É constituída por 41 itens, que são respondidos por meio de uma escala de sete pontos em formato de diferencial semântico, que se subdividem em seis fatores: RSA1) percepção de self, que que se refere ao quanto as pessoas confiam nas capacidades que possuem, a visão positiva e realista que têm de si mesmas e a percepção de autoeficácia; RSA2) planejamento do futuro, que avalia quão otimista é a visão de futuro dos participantes, o nível de segurança quanto à possibilidade de êxitos e habilidade em criar e estabelecer metas bem delineadas e alcançáveis; RSA3) competência social, que está relacionada com a habilidade de iniciar diálogos e estabelecer novas amizades, maleabilidade nas relações sociais, sentimento de bem-estar em circunstâncias de socialização e presença de um estilo de interação social; RSA4) estilo estruturado, que diz respeito à capacidade de gerenciamento do tempo, estabelecimento de metas e prazos e condução pessoal para manutenção de regras e rotinas no dia a dia; RSA5) coesão familiar, que indica a qualidade das relações com membros da família, com relação à comunhão de valores e visão de futuro, vínculo, lealdade e simpatia; e RSA6) recursos sociais, que englobam o apoio recebido por pessoas que estão fora do contexto familiar e que possibilitam incentivo e ajuda em situações de dificuldade e sentimento de pertencimento e simpatia. Essa escala apresentou bons indicadores de validade e fidedignidade no contexto cultural brasileiro (Hjemdal et al., 2015).

Finalmente, foi feita uma pergunta sobre o desempenho acadêmico dos participantes que eram estudantes universitários. Eles informaram a média aproximada de suas notas numa escala entre 0 e 10.

Procedimentos

O projeto deste estudo foi submetido e aprovado por um comitê de ética, sob o CAAE 64140322.7.0000.5208, conforme Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. A coleta foi inteiramente online por meio de formulário eletrônico, que foi disponibilizado e acessado por meio de redes sociais.

Ao acessar o formulário, o participante recebia uma mensagem de agradecimento e boas-vindas por ter vindo colaborar. A tela seguinte apresentava o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), com os objetivos e procedimentos da pesquisa, riscos e benefícios, possibilidade de retirar-se da pesquisa a qualquer momento, utilização anônima dos dados, entre outras informações. Ao final dessa página, os participantes deviam escolher uma dentre duas opções quanto a concordar ou não em participar da pesquisa. Caso não concordasse, o participante recebia uma mensagem de agradecimento e o formulário era encerrado. Mas, se concordasse em participar, ele seguia para as seções seguintes, em que respondia aos instrumentos da pesquisa. Os dados foram armazenados automaticamente em planilha eletrônica para a realização das análises subsequentes.

Análise de dados

Para a investigação da validade com base na estrutura interna foi realizada análise fatorial confirmatória, com estrutura de dois fatores correlacionados (percepção e compreensão de emoções), empregando-se o estimador Weighted Least Square Mean and Variance (WLSMV) e eliminando-se os itens que não apresentaram variabilidade e/ou que apresentaram cargas não significativas. Eram esperados os seguintes índices para bom ajuste dos dados ao modelo: normed χ² inferior a 2, Comparative Fit Index (CFI) e Tucker-Lewis Index (TLI) superiores a 0,95 (ótimo) ou a 0,90 (aceitável), Root Mean Square Error of Approximation (RMSEA) inferior a 0,05 (ótimo) ou inferior a 0,08 (aceitável) e Standardized Root Mean Square Residual (SRMR) inferiores a 0,10 (Wang & Wang, 2020). A fidedignidade dos fatores foi avaliada por meio dos coeficientes alfa de Cronbach e ômega de McDonald. O alfa é amplamente utilizado, mas pode superestimar ou subestimar a confiabilidade quando os itens não são tau-equivalentes. O ômega, por sua vez, é considerado mais robusto por não depender dessa suposição (Hayes & Coutts, 2020). Para complementar a análise, também foi calculado o coeficiente lambda de Guttman. Em todos os casos, valores superiores a 0,6 foram considerados indicadores de uma consistência interna aceitável, acima de 0,7 foram considerados adequados e acima de 0,8, excelentes.

A investigação da validade com base nas relações com variáveis externas (convergente-discriminante e correlacional) foi realizada por meio do cálculo dos coeficientes de correlação de Pearson dos fatores da inteligência emocional com os traços de personalidade e os fatores de resiliência. Coeficientes com p-valor inferior a 0,05 foram considerados estatisticamente significativos e valores de correlação até 0,29 foram considerados baixos, de 0,30 a 0,49 moderados e iguais ou superiores a 0,5, altos (Pallant, 2020). As análises foram realizadas com auxílio do pacote psych (Revelle, 2022) do R (R Core Team, 2022), e da interface RStudio (RStudio Team, 2020).

Resultados

A busca de evidências de validade com base na estrutura interna foi realizada por meio de um modelo reflexivo de análise fatorial confirmatória (AFC), em que as respostas aos itens de PE e CE eram determinadas por fatores latentes correlacionados entre si. Após eliminação dos itens 1 e 13 de CE, por apresentarem carga inferior a 0,3 (não significativa) e por um problema de registro na coleta de dados, respectivamente, a estrutura fatorial obtida foi a apresentada na Figura 1.

Figura 1.
Estrutura fatorial.

As cargas fatoriais do Teste de Percepção de Emoções variaram de 0,48 a 0,78 e as do Teste de Compreensão de Emoções variaram de 0,34 a 0,96, e os fatores latentes se correlacionaram em 0,62, enquanto o coeficiente de correlação de Pearson entre as pontuações nos fatores foi de 0,52 (p<0,001). Os índices de ajuste robustos foram os seguintes: o normed χ² (χ²/gl) foi de 1,27; o Comparative Fit Index (CFI) foi de 0,969; o Tucker-Lewis Index (TLI) foi de 0,967; o Residual Mean Square Error of Approximation (RMSEA) foi de 0,036 (com intervalo de confiança de 0,026 a 0,046) e o Standardized Root Mean Square Residual (SRMR) foi igual a 0,109. As estatísticas descritivas e os respectivos índices de consistência interna são apresentados na Tabela 3.

Tabela 3.
Estatísticas descritivas e índices de consistência interna.

Nota-se que houve boa amplitude nas pontuações dos instrumentos e boa variabilidade em relação às médias, indicando que os instrumentos foram capazes de captar diferenças individuais entre os participantes. No entanto, os índices de assimetria e curtose ficaram fora da região entre -1 e 1, com exceção do índice de curtose da medida de percepção de emoções, o que, no geral, indica que essas medidas não apresentam distribuição normal. Por fim, os índices de fidedignidade podem ser considerados aceitáveis para a medida de compreensão de emoções e excelentes para a medida de percepção de emoções.

Antes de prosseguir com as análises, foram investigadas as estatísticas descritivas das medidas de consistência interna das escalas que foram empregadas como variáveis externas neste estudo, que, neste caso, foram traços de personalidade (validade discriminante) e resiliência (validade correlacional). A Tabela 4 apresenta esses resultados.

Tabela 4.
Estatísticas descritivas das variáveis externas.

As escalas do Inventário de Personalidade apresentaram variabilidade um pouco reduzida, enquanto os fatores da Escala de Resiliência para Adultos apresentaram boa variabilidade. Ambas as escalas apresentaram índices de consistência interna predominantemente excelentes. Tendo constatado qualidades psicométricas aceitáveis para todos os instrumentos, prosseguiu-se com as análises para verificação das relações dos fatores de percepção e compreensão de emoções com variáveis externas (idade, notas acadêmicas, traços de personalidade e resiliência). Para isso, foram calculados os coeficientes de correlação de Spearman, já que as variáveis PE e CE apresentaram distribuição não normal. Os resultados são apresentados na Tabela 5.

Tabela 5.
Coeficientes de correlação de Spearman de PE e CE com variáveis externas.

Ambos os testes (PE e CE) apresentaram correlações significativas e negativas com idade e CE apresentou correlação positiva e significativa com RSA2. Como as correlações negativas com idade eram inesperadas e sugeriam uma interferência da idade, optou-se por refazer a análise com subamostras de pessoas com idades inferiores a 25 anos (N=112), de 25 a 29 anos (N=47), até 29 anos (englobando todos os participantes dos dois grupos anteriores, N=159) e com 30 anos ou mais (N=46). Os resultados são apresentados na Tabela 6.

Tabela 6.
Coeficientes de correlação de Pearson com variáveis externas por faixa etária.

Observou-se que as correlações de PE e CE com idade diminuíram em relação às reportadas na Tabela 5 e se tornaram não significativas nos grupos com idades iguais ou inferiores a 29 anos. No grupo com 30 anos ou mais, as correlações não diminuíram em magnitude, a correlação entre PE e idade permaneceu no mesmo nível, mas se tornou não significativa. Já a correlação entre CE e idade aumentou de magnitude e permaneceu estatisticamente significativa.

Além disso, no grupo com idades inferiores a 25 anos, surgiu correlação positiva e significativa entre PE e o traço de amabilidade, além de correlação negativa e significativa entre CE e o traço de neuroticismo e de correlação positiva e significativa entre CE e o fator RSA2 (planejamento do futuro) de resiliência. No grupo de participantes com idades de 25 a 29 anos, apareceu correlação positiva e significativa de CE com nota. Se considerarmos um grupo com idades iguais ou inferiores a 29 anos, PE apresenta correlação baixa, positiva e significativa com o traço de amabilidade, e CE apresenta correlações positivas, baixas e significativas com nota e com o fator RSA2 (planejamento do futuro) de resiliência, além de correlação negativa, baixa e significativa com o traço de neuroticismo. Destaca-se que, nesse grupo, as correlações foram mais baixas do que nos subgrupos de idades até 24 anos e de 25 a 29 anos, com exceção da correlação de CE com neuroticismo, que se manteve no mesmo nível. Finalmente, no grupo de participantes com idades iguais ou superiores a 30 anos, todas as demais correlações foram não significativas.

Discussão de resultados

O objetivo deste trabalho foi investigar as propriedades psicométricas dos testes de percepção de emoções e de compreensão de emoções, que compõem o Teste de Inteligência Emojional. Mais especificamente, buscaram-se evidências de validade com base na estrutura interna e nas relações com variáveis externas (traços de personalidade, resiliência, idade e desempenho acadêmico), além de investigar os índices de fidedignidade das medidas.

A hipótese 1, relacionada à obtenção de fatores distintos relacionados à percepção e à compreensão de emoções, com bons índices de fidedignidade, foi confirmada. Embora neste estudo só tenham sido incluídas duas medidas de habilidades relacionadas à inteligência emocional, a obtenção de fatores distintos foi semelhante à encontrada na versão original do MSCEIT (Mayer et al., 2003) e em suas traduções para outras culturas, como a sérvia (Altaras-Dimitrijevic & Jolic-Marjanovic, 2010), a italiana (Curci et al., 2013), a romena (Iliescu et al., 2013), a espanhola (Sanchez-Garcia et al., 2016) e a chinesa (Mao et al., 2016).

Os índices de precisão obtidos neste estudo (>0,9 para PE e >0,7 para CE) podem ser considerados muito bons e indicativos de que os instrumentos estão relativamente livres de erros de medida. Esses índices superam ligeiramente os obtidos em estudos anteriores, especialmente em PE, como com a versão original do MSCEIT (Mayer et al., 2003), que obteve 0,80 e 0,7 para PE (subteste faces) e CE (subteste mudanças), respectivamente; com a versão sérvia (0,81 e 0,69, respectivamente) (Altaras-Dimitrijevic & Jolic-Marjanovic, 2010), com a versão espanhola (0,79 e 0,69) (Sanchez-Garcia et al., 2016) e com a versão chinesa (0,87 e 0,57, respectivamente) (Mao et al., 2016). Em todos esses casos, além dos valores estarem próximos, houve um padrão em relação a uma maior magnitude da consistência interna da medida de percepção de emoções em relação à de compreensão de emoções.

Para essa comparação, foram escolhidos os subtestes faces e mudanças do MSCEIT, porque são os que mais se aproximam dos testes de PE e CE do Teste de Inteligência Emojional. No entanto, há diferenças claras entre os instrumentos. O teste de percepção de emoções em faces do MSCEIT apresenta imagens de pessoas reais, enquanto os estímulos de percepção de emoções do presente instrumento são emojis. No caso do teste de compreensão de emoções (mudanças), os estímulos do MSCEIT são vinhetas verbais, enquanto no Teste de Inteligência Emojional são emojis, estímulos pictóricos. Ainda assim, apesar das diferenças entre os instrumentos e das culturas em que suas propriedades psicométricas foram investigadas, a estrutura fatorial e os índices de fidedignidade se assemelham. Isso pode ser tomado como evidência da robustez do construto, que parece ser capaz de vencer diversidades linguísticas, culturais e de composição do próprio instrumento.

Por sua vez, as hipóteses 2 e 3 levantadas em relação às evidências de validade convergente e discriminante, respectivamente, eram de que haveria correlações moderadas e significativas entre os fatores PE e CE (validade convergente) e baixas e predominantemente não significativas (até 0,3) com traços de personalidade (validade discriminante). Essas hipóteses foram confirmadas, já que houve correlação de 0,62 entre os fatores latentes obtidos na Análise Fatorial Confirmatória e de 0,52 entre as pontuações dos fatores. Já as correlações desses fatores com os traços de personalidade foram todas baixas e não significativas (Tabela 5), ou baixas e predominantemente não significativas, quando as correlações foram calculadas por faixas etárias (Tabela 6). Esses resultados apoiam a validade convergente-discriminante do instrumento.

A correlação entre os dois fatores (PE e CE) foi superior à encontrada em estudos anteriores. Por exemplo, na versão original do MSCEIT, as correlações de Pearson entre faces (PE) e mudanças (CE) foi de apenas 0,171 (Mayer et al., 2003) e na versão italiana foi de 0,27 (Curci et al., 2013), valores bem mais baixos do que os encontrados no presente estudo. É provável que isso se deva ao fato de ambas as medidas do Teste de Inteligência Emojional empregarem emojis como estímulos iniciais, fazendo com que a medida de CE englobasse também a habilidade de perceber emoções, uma vez que era necessário responder o que ocorreu antes para que o emoji ficasse com a expressão atual. Então, era necessário um processamento relacionado à percepção para detectar a emoção expressa pelo emoji, para, em seguida, associá-la ao tipo de situação que geralmente causa aquela emoção. Isso também pode ajudar a explicar o fato de os índices da medida de CE terem sido inferiores aos de PE. Essa ocorrência pode ser investigada em outros estudos pelo índice de discriminação (parâmetro a) da teoria de resposta ao item, pois, caso haja dois fatores latentes subjacentes à realização dos itens de CE, os índices de discriminação serão mais baixos.

As baixas correlações de fatores de IE com traços de personalidade também foram encontradas em estudos anteriores com o MSCEIT. Por exemplo, com a versão italiana do MSCEIT, Cursi et al. (2013) encontraram correlações predominantemente não significativas entre as pontuações nas quatro habilidades da IE (percepção, facilitação do pensamento, compreensão e regulação de emoções) e os cinco grandes fatores. Nesse estudo, apenas o traço de amabilidade apresentou correlações baixas, positivas e significativas com as habilidades de percepção, facilitação e regulação de emoções, e o traço de neuroticismo apresentou correlação baixa, negativa e significativa com compreensão de emoções. No presente estudo, replicaram-se as correlações de PE com amabilidade e CE com neuroticismo em magnitude muito semelhante. No entanto, isso só ocorreu na subamostra de participantes com idades até 29 anos.

A hipótese 4, que previu o efeito da idade na interpretação e uso dos emojis, também foi confirmada. Tal efeito pode ser observado na variação das correlações observadas entre os fatores de IE (percepção e compreensão) com outras variáveis (idade, desempenho acadêmico, traços de personalidade e resiliência). Esse efeito pode ser explicado pela maior familiaridade e facilidade de interpretação e uso dos emojis que a população com menos de 30 anos apresenta em relação aos que têm mais de 30 anos (Herring & Dainas, 2020). De qualquer forma, as correlações significativas ocorreram em proporção ínfima às não significativas, permitindo que se conclua pela validade discriminante do instrumento em relação aos traços de personalidade.

No entanto, a idade também produziu efeito sobre a correlação entre as medidas de CE com notas acadêmicas, que foi significativa, positiva e de magnitude moderada (r=.39) na faixa dos 25 aos 29 anos de idade. Essa faixa etária parece ser a responsável pela correlação se manter significativa na subamostra com participantes de até 29 anos, mas com magnitude mais baixa (r=.19). Esses dados confirmam a hipótese 5 e são parcialmente compatíveis com os reportados em metanálise que investigou as relações entre IE e desempenho acadêmico (MacCann et al., 2020). Nesse estudo, os autores encontraram que compreensão e regulação de emoções foram as habilidades que mais se correlacionaram com desempenho acadêmico, e isso é compatível com nossos resultados, uma vez que só CE se correlacionou significativamente com notas, mas não PE. Além disso, os autores reportaram que as correlações foram mais fortes com notas em alunos do ensino básico e médio do que no superior. E, no ensino superior, foram mais fortes para os cursos de ciências humanas (humanities) em comparação com as ciências exatas (science). No presente estudo, as correlações dos participantes com 30 anos ou mais foram calculadas apenas com base em uma amostra de 22 participantes, que foram os que informaram as notas. Essa amostra é bastante pequena, o que torna o resultado desse grupo muito instável para generalizações.

Finalmente, a hipótese 6, que previa correlações baixas, positivas e significativas entre IE e resiliência, foi apenas parcialmente confirmada. Os resultados foram na direção esperada (correlação positiva e significativa), mas numericamente menos abundante (somente entre CE e RSA2) do que se esperava.

RS2 se refere ao planejamento do futuro, que avalia quão otimista é a visão de futuro dos participantes, nível de segurança quanto à possibilidade de êxitos e habilidade em criar e estabelecer metas bem delineadas e alcançáveis (Hjemdal et al., 2015). Considerando que a compreensão de emoções é uma habilidade relacionada ao conhecimento de como as emoções funcionam (como são causadas, como se misturam e qual a tendência comportamental associada), faz sentido que pessoas emocionalmente inteligentes usem seu conhecimento emocional para planejar o futuro, levando seu modo natural de lidar com as emoções em consideração.

No entanto, também era esperado que RSA1, por exemplo, fator relacionado à percepção do self, apresentasse correlação positiva e significativa com percepção de emoções, dada a possível interface entre os construtos. Uma possível explicação para a não ocorrência dessa hipótese é a de que o teste de PE avalia uma habilidade singular e a escala de RSA1 se refere a processos mais complexos como a percepção positiva e realista das próprias capacidades. Assim, diante dos resultados obtidos, pode-se inferir que a capacidade de perceber emoções não apresenta tanta interface com a medida de percepção do self empregada neste estudo. Além disso, os instrumentos são de natureza distintas e captam informações diferentes. Um é de desempenho (PE) e, outro, de autorrelato (resiliência). O primeiro capta o nível de proficiência que o participante apresenta quando utiliza a habilidade que se quer avaliar – no caso, a percepção de emoções. O segundo é um instrumento de autorrelato, que avalia a autopercepção que a pessoa tem sobre seu próprio modo de pensar, sentir e se comportar. Assim, como CE também é uma medida mais complexa do que PE, ela foi capaz de vencer essa diferença e apresentar correlações significativas com RSA2, mas PE, que é a medida de uma habilidade menos complexa, não foi.

Com base nesse conjunto de resultados, pode-se concluir que os testes de percepção e de compreensão de emoções apresentam evidências favoráveis de validade, tanto por estrutura interna quanto pelas relações com variáveis externas. Assim, a percepção de emoções pode ser interpretada como a capacidade para avaliar protótipos de expressões faciais e identificar as intensidades com que estão (ou não) representadas em emojis. Já a compreensão de emoções parece se relacionar predominantemente com a capacidade de identificar um estado emocional e relacioná-lo a um evento causador. Além disso, essas medidas são capazes de predizer notas acadêmicas e o aspecto planejamento do futuro em certas faixas etárias.

Considerações finais

Apesar dos resultados encorajadores encontrados neste estudo, algumas limitações importantes devem ser consideradas. A amostra utilizada foi composta majoritariamente por adultos com nível superior completo ou em andamento, provenientes em sua maioria do estado de Pernambuco. Essa composição restringe a variabilidade sociodemográfica dos participantes, o que limita a generalização dos achados para outras populações brasileiras com diferentes níveis de escolaridade, regiões geográficas e contextos culturais. Ademais, o delineamento transversal impede inferências causais e não permite acompanhar possíveis mudanças nas habilidades avaliadas ao longo do tempo. Outra limitação diz respeito à ausência de medidas adicionais de inteligência emocional por desempenho (como o MSCEIT), o que teria permitido uma investigação mais direta da validade convergente com instrumentos já consolidados no campo. Além disso, embora o uso de emojis como estímulos represente uma inovação metodológica, sua interpretação pode ser influenciada por fatores como idade, familiaridade com a linguagem digital e experiências culturais específicas, o que requer investigações futuras para avaliar a invariância de medida entre diferentes grupos populacionais. Recomenda-se, portanto, que pesquisas futuras busquem replicar os resultados em amostras mais diversas e ampliadas, incluam medidas de IE reconhecidas na literatura e adotem delineamentos longitudinais, a fim de consolidar as evidências de validade e utilidade do Teste de Inteligência Emojional e sua generalização para a população brasileira.

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  • Disponibilidade de dados: os dados da pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.
  • Como citar:
    Bueno, J. M. H., Cordeiro, E. D. A., Figueiroa, M. O., Menezes, M. R., Sousa, K. S., Santos, R. G. M., & Cavalcante, C. F. L. (2026). Evidências de Validade para o Teste de Inteligência Emojional. Psicologia: Ciência e Profissão, 46, e283265. https://doi.org/10.1590/1982-3703003283265
  • How to cite:
    Bueno, J. M. H., Cordeiro, E. D. A., Figueiroa, M. O., Menezes, M. R., Sousa, K. S., Santos, R. G. M., & Cavalcante, C. F. L. (2026). Validity Evidence for the Emotional Intelligence Test. Psicologia: Ciência e Profissão, 46, e283265. https://doi.org/10.1590/1982-3703003283265
  • Cómo citar:
    Bueno, J. M. H., Cordeiro, E. D. A., Figueiroa, M. O., Menezes, M. R., Sousa, K. S., Santos, R. G. M., & Cavalcante, C. F. L. (2026). Evidencia de Validez para el Test de Inteligencia Emocional. Psicologia: Ciência e Profissão, 46, e283265. https://doi.org/10.1590/1982-3703003283265

Editado por

  • Editores responsáveis:
    Miriam Cristiane Alves e Rafael Wolski de Oliveira

Disponibilidade de dados

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    14 Fev 2024
  • Aceito
    22 Maio 2025
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