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Open-access Pedologia e Psicotécnica: Apresentação e Introdução 1

Pedology and Psychotechnics: Presentation and Introduction

Pedología y Psicotecnia: Presentación e Introducción

Resumo:

Apresentamos a primeira tradução para a língua portuguesa do texto da conferência Pedologiya i Psikhotekhnika [“Pedologia e Psicotécnica”], de Vigotski, no contexto do dossiê Vigotski e as ciências da criança: cenários pretéritos e desafios presentes . A conferência foi proferida em reunião conjunta da seção de psicotécnica da Academia Comunista e da Sociedade de Psicotécnica em 21 de novembro de 1930. Nesta primeira parte da tradução, o texto discute a juventude da pedologia e da psicotécnica como ciências, destacando que a relação delas era prática e atual. Vigotski argumenta que, para compreender essa relação, é preciso ir além das demandas imediatas e analisar teoricamente como essas ciências se conectam. Ele observa que a pedologia surgiu na Europa e nos Estados Unidos, mas rapidamente perdeu relevância nesses locais, o que muitos interpretam como sinal de inviabilidade. Porém, tal ciência teria nascido da necessidade de um novo ponto de vista científico para estudar o desenvolvimento infantil, pois outras disciplinas, ao abordar o tema, acabavam ultrapassando seus próprios limites e adotando, involuntariamente, um ponto de vista pedológico. A crise da pedologia no Ocidente, segundo Vigotski, está ligada ao seu fundamento metodológico empirista radical, sendo que uma saída da crise só pode se consolidar sobre uma base materialista dialética que: a) reconheça a integralidade do desenvolvimento infantil e a busca por regularidades internas desse processo; e b) rompa fronteiras rígidas entre as ciências, defendendo que as conexões, cooperações e inter-relações são mais importantes do que meras delimitações formais e territorialistas.

Palavras-chave:
Pedologia; Vigotski; História da Psicologia; Psicotécnica

Abstract:

We present the first Portuguese translation of the conference text Pedologiya i psikhotekhnika [“Pedology and Psychotechnics”], by Lev Vygotsky, in the context of the Dossier: “Vygotsky and the Child Sciences: Past Scenarios and Present Challenges.” The conference was given at a joint meeting of the psychotechnics section of the Communist Academy and the Psychotechnics Society on November 21, 1930. In this first part of the translation, the text discusses the youth of pedology and psychotechnics as sciences, highlighting that their relationship was practical and contemporary. Vygotsky argues that to understand this relationship we must go beyond immediate demands and theoretically analyze how these sciences connect. He observes that pedology emerged in Europe and the USA but quickly lost relevance there, which many interpret as a sign of its unfeasibility. But such a science would have arisen from the need for a new scientific perspective on child development since other disciplines, when addressing this topic, exceeded their own limits and unintentionally adopted a pedological perspective. The crisis of pedology in the West, according to Vygotsky, is linked to its radical empiricist methodological foundation. A way out of said crisis can only be consolidated on a dialectical materialist basis that: 1) recognizes the integrality of child development and the search for internal regularities in this process; 2) breaks down rigid boundaries between sciences. In his perspective, connections, cooperations, and interrelationships are more important than mere formal and territorial delimitations.

Keywords:
Pedology; Vygotsky; History of Psychology; Psychotechnics

Resumen:

Presentamos la primera traducción al portugués del texto de la conferencia Pedologiya i psikhotekhnika [“Pedología y Psicotecnia”], de Vygotsky, en el contexto del Dossier: “Vygotsky y las Ciencias de la Infancia: Escenarios Pasados y Desafíos Presentes”. La conferencia se impartió en una reunión conjunta de la sección de psicotecnia de la Academia Comunista y de la Sociedad de Psicotecnia el 21 de noviembre de 1930. En esta primera parte de la traducción, el texto aborda la juventud de la pedología y la psicotecnia como ciencias, con énfasis en su relación práctica y actual. Vygotski argumenta que, para comprender esta relación, es necesario ir más allá de las demandas inmediatas y analizar teóricamente cómo se conectan estas ciencias. Observa que la pedología surgió en Europa y en Estados Unidos, pero rápidamente perdió relevancia en ambos lugares, lo que muchos interpretan como un signo de su inviabilidad. Pero esta ciencia habría surgido de la necesidad de una nueva perspectiva científica para estudiar el desarrollo infantil, ya que otras disciplinas, al abordar este tema, terminaron por excederse y adoptaron involuntariamente un enfoque pedológico. La crisis de la pedología en Occidente, según Vygotsky, está vinculada a su fundamento metodológico empirista radical, y una salida de ella solo puede consolidarse sobre una base materialista dialéctica que: 1) reconozca la integralidad del desarrollo infantil y la búsqueda de regularidades internas en este proceso; 2) rompa las rígidas fronteras entre las ciencias, argumentando que las conexiones, cooperaciones e interrelaciones son más importantes que las meras delimitaciones formales y territoriales.

Palabras clave:
Pedología; Vygotsky; Historia de la Psicología

Apresentação

Apesar de constar na bibliografia de Vigotski compilada por Lifanova (1996), a existência da conferência Pedologiya i Psikhotekhnika [“Pedologia e Psicotécnica”] tem sido ignorada tanto na Rússia quanto fora dela, permanecendo adormecida até a execução do projeto de divulgação de textos raros de Vigotski sobre pedologia pela revista russa Kulturno-Istoricheskaya Psikhologiya (Psicologia Histórico-Cultural).

Conforme Korepanova (2010), a organizadora do material, observa com justeza, o manuscrito contém partes que se sobrepõem a outro material publicado no contexto do mesmo projeto: “K Voprosu o Psikhologii i Pedologii” [“Sobre a Questão da Psicologia e da Pedologia”] (Vigotski, 2007). A sua recente edição foi baseada em uma fotocópia de texto datilografado, guardado no Instituto Psicológico da Academia Russa de Educação (antigo Instituto Estatal de Psicologia Experimental de Moscou, onde trabalhou Vigotski). O original está no arquivo científico da Academia Russa de Educação, em Gorki. A organizadora relata, ainda, que alguns fragmentos de texto manuscrito de até três palavras não estavam claros para o datilógrafo, sendo indicados entre parêntesis no decorrer da edição; no texto, há rasuras, bem como erros tipográficos e palavras perdidas e acrescentadas com anotações na mesma caligrafia.

A pedologia2, como extinta ciência do desenvolvimento da criança, outrora espraiava-se por diferentes países, ganhando momentum na União Soviética (junto da psicotécnica e outras disciplinas aplicadas) no período da Grande Quebra stalinista (1929-1932), embora, logo depois, fosse varrida de cena pelo decreto “Sobre as Deturpações Pedológicas no Sistema do Narkompros”, de 4 de julho de 1936 (Comitê Central do Partido Comunista da URSS como citado em Prestes, 2010). Segundo Kurek (2004), a psicotécnica sobreviveu-lhe por pouco tempo. Durante seu curto período de glória, deixou marcas na ciência soviética, a exemplo da obra de Lev Semionovitch Vigotski (1896-1934), e, por vinculação a ela, nós, os seus leitores contemporâneos.

A psicotécnica teve limitado alcance na obra de Vigotski: a palavra em si aparece apenas no texto cuja tradução ora apresentamos e em capítulo publicado em 1930 em uma coletânea denominada Psikhotekhnika i Psikhofiziologiya Truda [Psicotécnica e Psicofisiologia do Trabalho]3, levando-nos a afirmar que essa importante disciplina4 não constituiu parte da chamada “rede de iniciativas” vigotskiana (Dafermos, 2018).

Ao que se saiba, não houve publicação de tradução da conferência para nenhuma outra língua, ainda que a antologia La Science du Développement de L’enfant: Textes Pédologiques (1931-1934) (Vygotskij, 2018) inclua um outro texto de teor ontoepistemológico sobre a pedologia: “K Voprosu o Pedologii i Smezhnykh s Neyu Naukakh” [“Du Problème de la Pédologie et des Sciences Voisines”] (Vygotskij, 1931/2018).

Tal como um terceiro texto também não traduzido do projeto da Kulturno-Istoricheskaya Psikhologiya, “K Voprosu o Psikhologii i Pedologii” [“Sobre a Questão da Psicologia e Pedologia”] (Vigotski, 1931/2007), o texto “Pedologia e Psicotécnica” transporta-nos ao laboratório vivo de ideias presentes no “discurso interior” de Vigotski: ele hesita, especula, tenta visualizar caminhos para o objeto, o método e as relações da pedologia com a psicologia e psicotécnica. O estilo, marcadamente oral, nos conduz ao longo de um conteúdo cujas determinações não são de fácil compreensão: questões práticas e dificuldades teórico-metodológicas nos próprios fundamentos das ciências da criança são postas por Vigotski, assim retratado por van der Veer (2020).

Cada pioneiro de uma ciência é, antes de tudo, um ser humano esforçado, inseguro e inserido socialmente. O que emerge desse esforço para compreender as contribuições de Vigotski à ciência e à prática educacional através dos olhos do autor como indivíduo é a imagem de uma pessoa profundamente apaixonada, poética e tímida, firmemente convencida da possibilidade de construir uma ciência do desenvolvimento da psicologia humana, juntamente com o aprimoramento prático dos esforços educacionais para todos – dos deficientes aos talentosos (van der Veer, 2020, p. ix, tradução nossa).

Sobre a tradução

Boa parte da obra de Vigotski consiste em transcrições de aulas e palestras, o que resulta em um material desviante com respeito ao estilo acadêmico de nosso tempo, não raramente repetitivo e de difícil adaptação ao discurso escrito. Por si sós, essas características constituem uma tentação quase irresistível para que seus editores realizem alterações estilísticas, cortes, sínteses ao longo do texto – que, não raramente, restringem seriamente as potenciais interpretações e alteram o sentido das ideias originais (ver Yasnitsky & Van der Veer, 2016). Evitando tal caminho, os tradutores de “Pedologia e Psicotécnica” optaram por realizar uma tradução tão literal quanto possível, inserindo a transliteração do original em russo ao lado de alguns termos traduzidos, de modo a buscar regularidade na apreensão do sentido dos termos cuja tradução pareceu passível de maior controvérsia.

A conferência tem passagens de difícil compreensão mesmo em russo, apresentando um estilo truncado, repleto de orações subordinadas que os tradutores buscaram, no entanto, compreender e relacionar da forma mais coerente possível – sem amplas garantias de sucesso. Quanto ao léxico, os tradutores fazem os seguintes destaques: Vigotski utiliza-se ocasionalmente do substantivo abstrato zakonomernost, que foi traduzido como “conforme à regra”, “regularidade” (comunicando a ideia de um padrão consistente, identificável pelo cientista em certo conjunto de fenômenos abordados em sua investigação. A palavra forma-se a partir do radical zakon: lei, norma, regra)5. Termos afins, mas que mostram nuances em uma perspectiva dialética, são svoistvo e osobennost, respectivamente traduzidos como “propriedade” e “particularidade/qualidade”. Outras palavras dignas de atenção foram edinstvo (totalidade, unidade de um todo), tselostnost (implicando a importante ideia de integralidade, orientação especial para descoberta de conexões em um todo).

Pedologia e psicotécnica: introdução

Tanto a pedologia quanto a psicotécnica se apresentam como disciplinas científicas consideravelmente jovens em relação à sua idade geral (e ainda mais jovens em relação à sua elaboração dialética), para que se comece a comparar os problemas metodológicos dessas ciências com o tema recíproco em cada uma das duas disciplinas. A questão sobre a interação entre a pedologia e a psicotécnica, antes de tudo, é atual e essencialmente prática.

Se nós nos guiássemos exclusivamente pela ordem interna, pelo regramento interno, pelo peso teórico específico de uns ou outros problemas, tanto para o psicotécnico quanto para o pedólogo, nós encontraríamos problemas mais atuais e importantes do ponto de vista da apropriação da influência por parte dessas disciplinas da metodologia marxista, da metodologia do materialismo dialético. Mas exatamente porque, de forma prática, nas questões de preparação de quadros pedológicos, nas questões práticas, isto é, de participação na construção social a serviço da questão de preparação de quadros – em virtude do fato de que, em todos esses campos práticos da relação entre pedologia e psicotécnica, é necessário colocar a questão à qual se dedica meu tema de hoje. Mas para resolver a questão, como digo, particularmente prática, é necessário elevar-se por sobre os temas das demandas práticas imediatas que ditam sua colocação e olhá-la inicialmente no plano teórico, pelo ponto de vista da relação existente entre as ciências.

Uma vez que, até agora, existem em meio aos psicotécnicos e psicólogos, e, parece, em meio aos pedólogos, camaradas que colocam de forma insuficientemente clara a questão sobre a natureza da pedologia, então me parece mais correto começar a análise da inter-relação entre a pedologia e a psicotécnica, com algumas posições gerais, com a conexão mais geral que caracteriza o conteúdo e as orientações da pedologia como ciência autônoma.

A ideia da pedologia como ciência única e autônoma não nasceu entre nós. As primeiras experiências de pesquisa pedológica – quer dizer, a prática pedológica –, assim como o próprio nome da pedologia, não foram inventadas em nossa União, sendo resultado da ciência americana e europeia. Mas ao mesmo tempo, ao pesquisador contemporâneo espanta o fato de que a pedologia, que nasceu na Europa e na América, de fato quase atingiu um estado terminal lá e aqui, de tal maneira que o próprio nome “pedologia” mostra-se fundamentalmente esquecido entre os especialistas que trabalham em campos contíguos, em meio aos que se destacavam na lista de membros do primeiro congresso pedológico, o qual, como eu já disse, não ocorreu entre nós.

O que, então, explica aquele estranho fato de que a pedologia, que nasceu no Ocidente, na América, efetivamente morreu por lá? Muitos se inclinam a ver nesse fato a prova direta da inviabilidade da pedologia. Eles tendem a argumentar, por exemplo, que não são poucas as ideias incongruentes e inviáveis existentes ou que emergem em seu tempo nesta ou naquela ciência, mas cujo destino é o de todos os abortos: morrer logo depois do nascimento ou até no próprio momento de seu nascimento. A isso, muitos se inclinam, particularmente os psicólogos ocidentais, para explicar a morte rápida da pedologia. Mas eles esquecem que quem quiser explicar esse fato deve responder também a uma segunda questão: por que a pedologia surgiu? Apenas os tolos (e, pelo visto, não são aqueles que enxergam longe em seu campo científico) decidiram inventar essa ciência?

Seria agora, de minha parte, um desvio direto com relação ao tema se eu tentasse, com a seriedade que fosse, dar uma resposta a uma e outra questão. Mas eu considero necessário explicar tal ponto de vista para que tudo que está mais adiante seja relacionado ao entendimento teórico mais profundo, para que aqueles camaradas que comigo não concordam, em todo caso, não tenham fundamentos para se queixar da incoerência lógica de meu pensamento; e possam, em todo caso, me compreender. Assim, me parece que também uma pesquisa mais atenta do que aquela que eu podia realizar nos conduziria a uma conclusão inevitável: a de que o fato de a pedologia ter nascido no Ocidente, e na América, e o fato da sua morte demandam, acima de tudo, uma explicação muito mais complexa do que aquela que as pessoas efetuam de supetão, não refletindo mais profundamente sobre essa questão.

Primeiramente, em relação ao nascimento da pedologia. Que a pedologia morreu, todos sabem. A pedologia como ciência autônoma recém-unificada no Ocidente e na América quase não se representa por quaisquer pesquisas que, por si só, se reconheçam como pedológicas. Entretanto, há toda uma série de disciplinas distintas que espontaneamente exploram problemas fronteiriços com os da pedologia, as quais, por si próprias, não tomaram consciência de que seriam pedológicas, mostrando a cada vez que a ideia de construção da pedologia não nasceu casualmente, mas que todo o caminho de desenvolvimento da psicologia infantil, da psicologia e anatomia da idade infantil e também daquele campo determinado de pesquisa que os americanos chamam de “ciências sobre a criança”, “ciência que estuda a criança”; que todos esses diferentes campos que obrigatoriamente empurraram os pesquisadores, os melhores dentre eles, para a formulação da questão sobre a necessidade de um ponto de vista científico próprio, da própria parte da pesquisa científica, que, em sua época, foi chamada de pedológica.

Se nós, por exemplo, tomarmos toda a psicologia burguesa contemporânea dos adolescentes, tal como ela se desenvolve a partir dos psicólogos de disposição mais idealista, que se situam no ponto de vista do paralelismo psicofísico, encontraremos fatos extremamente interessantes sobre todos esses psicólogos idealistas, com exceção do extremado grupo dos metafísicos, dos psicólogos da idade juvenil – monstruosa, elementar e inconscientemente, mas todos têm a tendência de ultrapassar as fronteiras naturais e legítimas da pesquisa psicológica.

Questões da vida anímica dos adolescentes, como expressam esses autores, estão tão clara, estreita e ininterruptamente relacionadas com as questões da maturação sexual, com os problemas de formação na idade de transição, que o pesquisador se depara com um beco sem saída, situando-se ante uma tarefa insolúvel se ele desejar permanecer apenas um psicólogo rigoroso e se ele atrair para sua pesquisa capítulos inteiros, repletos de material psicológico. Esses capítulos são, em sua maioria, mal-feitos, é preciso admitir. Em sua maioria, esses capítulos estão recheados de material de baixa qualidade. Tal, por assim dizer, pedologia espontânea, que é simplesmente pedologia de baixa qualidade, puramente inconsciente, mas mais ou menos pelo mesmo fato mostra-se extremamente interessante. Poderíamos mostrar como toda uma série dos problemas críticos daquela mesma psicologia dos adolescentes apoia-se nos problemas que vão além dos limites da psicologia no sentido próprio da palavra. Simplificando, a psicologia dos adolescentes, apesar de pouco refletir sobre isso, factualmente revela as tendências da transformação em pedologia. Outra vez repito que, com exceção de um pequeno grupo de psicólogos que pertencem à ala extremamente metafísica, nós não encontramos nenhuma grande pesquisa, nenhum trajeto sério, nenhuma profunda exposição sistemática da psicologia dos adolescentes de idade juvenil surgida nos últimos 15 anos que, de fato, espontaneamente não se situasse em um ponto de vista mais amplo do que a própria psicologia.

Se nós analisarmos esse fato e o correlacionarmos com as tendências que essas ciências revelavam às vésperas da construção da pedologia, nós vemos que a pedologia foi construída pelos inventores das novas ciências em suas horas de lazer, mas na tentativa de reivindicar a pedologia também falava toda a impotência, toda a profundidade daquela crise que cada ciência passou a vivenciar quando foi anexada ao problema da idade infantil.

Parece-me, agora tentarei explicar, que, na própria realidade objetiva daqueles fatos que estudamos, se encontra a necessidade de sua abordagem pedológica. Parece-me, também, do meu ponto de vista, que é um importante motivo, um motivo decisivo de explicação da pedologia como ciência autônoma, do ponto de vista do materialismo dialético, que a realidade objetiva do objeto que o psicólogo pesquisa e, consequentemente, a impossibilidade de estudar e apresentar o objeto adequadamente de outro modo que não com ajuda da pesquisa pedológica – é a razão interna que empurrou diferentes disciplinas que estudavam a criança para a ideia da pedologia, tão desafortunadamente implementada no Ocidente e na América.

Resta-me dizer como entendo a segunda parte da questão por mim colocada: por que, se disciplinas separadas foram empurradas pelo próprio caminho das coisas à colocação do problema da pedologia, por que então a própria pedologia morreu tão rápido, e sua própria existência mostrou-se tão pouco fecunda no Ocidente e na América? Ocorre-me que isso se vincula ao fundamento metodológico geral no qual tentaram construir essa pedologia. Se vocês lançarem um olhar atento aos primeiros dados históricos da pedologia, então verão que a base metodológica sobre a qual os primeiros criadores da pedologia tentaram construi-la era o então na moda empirismo radical, ou seja, a crença em que o empirismo – o fato da observação empírica e, particularmente, da observação quantitativa – se constituiria na instância mais elevada do conhecimento científico, que não necessitaria de qualquer verificação metodológica. E vocês sabem muito bem, a partir dos destinos de outras ciências empíricas, em particular da psicologia empírica, que de fato não há possibilidade de construir conhecimento científico sobre essa base de empirismo radical. E foi essa ausência de fundamento metodológico, a meu ver, também a razão pela qual a demanda da pedologia, que se apresenta diariamente em novas manifestações, até agora não se satisfez, conforme minhas observações, e tampouco pode se satisfazer no Ocidente e na América.

Penso que a pedologia como ciência única e autônoma sobre o desenvolvimento infantil pode formar-se metodológica e praticamente apenas sobre o fundamento da compreensão materialista dialética de seu objeto.

Dois indícios, parece-me, mostram-se essenciais para determinação desse objeto:

  1. Sua integralidade [tselostnost], isto é, orientação especial para descoberta de conexões, o estudo daquelas novas qualidades, daquelas particularidades [osobennostei] singulares que emergem da unificação de uma série de aspectos do desenvolvimento em um único processo integral, descoberta da estrutura interna do processo que subjaz no fundamento da ontogênese, no fundamento do desenvolvimento infantil tomado em seu todo. É o estudo dessas novas qualidades e suas correspondentes novas regularidades mostradas na síntese de diferentes aspectos e processos de desenvolvimento. Parece-me ser este o primeiro indício a se manifestar da pedologia como um todo, e também de cada pesquisa pedológica em separado. Lá, onde não há essa orientação, me parece, não há pesquisa pedológica no sentido próprio, não importa qual seja o problema particular a que se dedique.

  2. Este é um desenvolvimento não no sentido em que o desenvolvimento se mostra uma ideia comum de toda uma série de ciências, desenvolvimento não no sentido do ponto de vista genético que deve permear o autodesenvolvimento, mas sim no sentido de princípio explicativo que deve percorrer como um fio condutor através de todo o edifício teórico da ciência, desenvolvimento como objeto direto de pesquisa. O objeto de pesquisa é o desenvolvimento e sua regularidade interna. Lá, onde qualquer problema particular, não importa o quão estreito, coloca-se de outro modo no plano do desenvolvimento; lá, onde a cada minuto dois momentos mudam no foco de pesquisa e o desenvolvimento se torna simplesmente ponto de vista do pesquisador, mas não o objeto da própria pesquisa; lá, onde o objeto da pesquisa se estabiliza, me parece, nós também não temos pesquisa pedológica no sentido próprio da palavra.

Agora, uma ideia que eu temo dizer – e a qual, me parece, é insuficientemente sublinhada na pedologia marxista –, mas que deve ser, como me parece, fundamento metodológico de partida da pedologia marxista. Vocês sabem que os pedólogos ocidentais e americanos, idealistas na sua essência, embora se autodenominassem empiristas radicais, como Stanley Hall, viram o fundamento metodológico para construção da pedologia como ciência separada em um ponto de vista singular. Stanley Hall falou sobre como nenhuma ciência até agora conhecia aquele ponto de vista que unificasse a abordagem do médico, do fisiólogo, do historiador, do psicólogo, do biólogo e do anatomista diante do mesmo objeto: a criança. E eis que, em sua singularidade de ponto de vista, os autores da pedologia viram a possibilidade de fundamentá-la como uma ciência única. O destino da ciência se decide, no final das contas, pela possibilidade de encontrar tal ponto de vista, tal orientação subjetiva, tal forma kantiana, na qual a razão atribui, como expressou Kant, a lei da realidade a um aspecto dado, e então tornar objeto daquela ciência aquelas leis [ilegível, folha dobrada].

Parece-me que uma das grandes razões para a morte rápida da pedologia no Ocidente foi esse ponto de vista, e me parece que, em contraponto a ele, para a pedologia marxista deve ser formulada a tese de caráter oposto. Eu me esforçarei para formulá-la assim: o fundamento para a construção da pedologia como ciência autônoma consiste na realidade objetiva daquele processo único de desenvolvimento que se manifesta como objeto de seu estudo, isto é, falando mais simplesmente, parece-me que aqueles fatos que a pedologia estuda, aquelas conexões, aquela dependência dos fenômenos, aquele encadeamento desses fenômenos, no seu estado interno, na sua interdependência, aquelas regularidades que surgem e dirigem as interdependências deles, tudo é parte da realidade objetiva, que existe independentemente de nós. Se nós, agora com vocês, por exemplo, votássemos aqui que a pedologia como ciência independente não poderia existir, proibíssemos quaisquer pesquisas pedológicas, então não poderíamos apagar da realidade o corte daquele tipo de vínculo que sem a pedologia nunca nenhuma outra ciência poderia estudar. E se outra ciência fosse estudá-las, então ela seria a mesma pedologia, embora com outro nome. Eis a realidade objetiva do objeto estudado pela pedologia que, parece-me, é o fundamento da construção da pedologia.

E aqui, parece-me, encontramos sólido ponto de apoio metodológico que permite à pedologia desenvolver-se tal qual cada saber científico. Se o objeto estudado pela pedologia, das conexões dos fenômenos, pertence ao objeto da realidade, então a pedologia, revelando-o, revela parte dessa realidade objetiva, o que significa que revelando essas leis, ela [ilegível, riscado], isto é, ela pode praticamente provar a veracidade do pensamento pedológico. A possibilidade de tal prática pedológica e a possibilidade de agir na conexão de tal tipo, sobre a qual eu falo, é que é no fim das contas o critério único e fundamental de veracidade metodológica, e não de fantasmagoria, de arbitrariedade ou de invencionice, das construções pedológicas.

Parece-me que basta justapor esse ponto de vista àquele de Stanley Hall e ficará absolutamente claro que a pedologia, entendendo-se assim, não podia desenvolver-se nem no solo dos olhares metafísicos e lógico-formais sobre o desenvolvimento infantil, que admitem apenas a unificação mecânica de diferentes aspectos do desenvolvimento, nem no solo da opinião dualista sobre a natureza humana, que fechasse o caminho para o estudo daquela totalidade [edinstvo] real que é o processo de desenvolvimento infantil na realidade. Falando mais simplesmente, nem o dualista, que separa corpo e alma e que observa processos físicos e psicológicos como duas séries de ações paralelas, mas originalmente independentes, nem o metafísico que se mantenha no ponto de vista da lógica formal e que saiba apenas sobre partes separadas, reunidas mecanicamente e relacionadas umas com as outras – nem um nem outro podem estar com os pedólogos no verdadeiro sentido da palavra, mesmo que suas demandas de pesquisa próprias os empurrassem para um ponto de vista pedológico, mesmo que eles se detivessem nesse ponto de vista espontaneamente, ainda assim eles não poderiam conduzi-la de forma consequente e até o fim. Exatamente por isso a pedologia de fato morreu no Ocidente e na América como ciência autônoma, não obstante o fato, como eu já falei, de que espontaneamente muitas ciências estudiosas da criança se colocam em um ponto de vista pedológico, ultrapassam os limites de sua competência sem que o percebam.

No presente momento do desenvolvimento da pedologia, apresenta extraordinário interesse a questão à qual se dedica minha apresentação de hoje, como já falei, sobretudo de um ponto de vista prático, mas que devemos tornar teórico para nos elevarmos um pouco que seja por sobre sua solução puramente casual, e para que se encontre uma fundamentação para a solução correta dessa questão prática. Essa é uma questão que diz respeito às relações recíprocas entre a pedologia e uma série de ciências afins, em particular relativamente à pedologia e psicotécnica. Mas me parece que, ao resolver essa questão, tanto a maioria dos pedólogos quanto a dos psicotécnicos e psicólogos que escreveram sobre ela se colocam no ponto de vista formalmente lógico, buscando fronteiras metafísicas, firmes e indestrutíveis entre dois campos de conhecimento. Eu até ouvi de um dos oradores que assim se expressou: mostre-me aquele ponto onde termina a pedologia e começa a psicotécnica. Parece-me que aquele que fala assim, que assim formula seu pensamento, imagina para si que as fronteiras entre ciências congêneres lembram as fronteiras entre estados, e que, se esse ponto de vista não pode mostrar-se como um marco fronteiriço, então no papel pode se traçar uma linha muito tênue. Esse ponto de vista de que entre as disciplinas científicas distintas que estudam campos fundamentais ligados entre si, que frequentemente se entrelaçam, campos de fenômenos da realidade efetiva, existem fronteiras rígidas e indestrutíveis. Em todo caso, devo reconhecer que, em todas as questões que até agora se fizeram e em uma série de outras questões relacionando a pedologia e ciências afins, não ouvi outro ponto de vista, outras questões que não questões sobre delimitação, delimitação por meio da indicação de onde termina uma e começa a outra.

E quando, em resposta a essas questões, vocês tentam falar que tal ponto de vista em geral não existe na natureza e, consequentemente, tampouco na ciência, e que as ciências muito mais maduras e que são claramente conscientes de si, que acumularam muito mais materiais do que, digamos, pedologia e psicotécnica, também não podem mostrar os pontos que separam uma ciência da outra, além do mais que na natureza não existem fronteiras rígidas que dividissem, por exemplo, plantas de animais etc., então em resposta a isso vocês ouvirão que a tarefa das conexões entre as ciências deve, assim, ser colocada, mas é posterior à tarefa anterior que deve ser colocada: a de delimitação. Parece-me que, com o ponto de vista não da lógica formal, mas sim da dialética, a tarefa contrária deve ser colocada. Se nós primeiro encontrarmos a conexão e as relações entre a pedologia e uma série de ciências limítrofes, se encontrarmos a forma fidedigna que, ainda que no aspecto esquemático, nos mostre como estão ligadas a própria pesquisa psicológica e a psicotécnica, parece-me que então fica claro até um certo grau conhecido também as fronteiras entre um e outro campo do saber. Não endosso o lado segundo o qual lançar todas as ciências em um mesmo saco, como dizem os alemães, isto é, sem seleção, sem correlação da metodologia especial concreta de cada uma dessas ciências, e agrupar as diferentes disciplinas se relacionam desordenadamente, independentemente desta ou daquela tarefa prática concreta ou da chegada do pesquisador. Mas penso que, com o ponto de vista da lógica dialética, devemos colocar a questão referente ao fato de que não se deve ignorar infinitamente conexões complexas, interligações e relações entre os diferentes campos dos fenômenos e, consequentemente, entre disciplinas científicas. Penso que uma nova colocação da questão permite apartar essa orientação falsa e resolver o problema da interação da pedologia com outras ciências congêneres no plano não apenas da delimitação e diferenciação entre diferentes ciências no campo da pesquisa, mas também da orientação da cooperação de correlações e disciplinas próximas.

Assim como esses momentos condicionam a interação entre a psicologia e aqueles fenômenos que se estudam com diferentes disciplinas, por isso mesmo, de novo, parece-me que os fundamentos para a conexão entre diferentes ciências estão na realidade objetiva da conexão daqueles fenômenos que são estudados com cada ciência. E se apenas essa conexão, sua existência objetiva estiver perante nós suficientemente clara, então fica claro também o reflexo dessa conexão em conhecida dependência, em certa cooperação das diferentes ciências, no contato entre elas.

De todo modo, penso que algumas dessas posições que desenvolverei mais adiante e as quais, essencialmente, mostram-se apenas colocações banais do ponto de vista daquilo que nos cabe falar frequentemente, podem mostrar-se paradoxais – penso que de agora em diante nós devemos estar preparados para uma coisa: que tal colocação da questão demanda de nós não apenas resolver de uma nova forma a questão sobre as interligações de diferentes ciências, mas também rever algumas dessas orientações de diferentes disciplinas, isto é, levantar algumas questões não apenas sobre a interação da pedologia e psicotécnica, mas também sobre as orientações fundamentais da própria psicotécnica e da própria pedologia.

Para passar imediatamente ao que interessa na minha questão, eu devo fazer aqui ainda uma pequena digressão. Parece-me que a questão da relação entre pedologia e psicotécnica não pode ser resolvida prontamente e sem mediação. Para mim, para responder corretamente à questão sobre as relações entre pedologia e psicotécnica, demanda-se elucidar previamente uma questão mais geral, colocar entre os dois extremos da corrente por nós buscada um elo intermediário, a saber, a psicologia. Parece-me que para elucidar por completo a questão sobre as inter-relações entre pedologia e psicotécnica, demanda-se elucidar previamente a questão mais geral da relação entre pedologia e psicologia. A própria psicotécnica constitui-se em disciplina psicológica tanto pelo caráter de seu desenvolvimento histórico quanto pelo seu conteúdo teórico. Estou falando que, mais corretamente, a própria psicotécnica é todo um campo dos saberes psicológicos. De acordo com o ponto de vista que Shpilrein desenvolveu reiteradamente, do qual todos nós compartilhamos, por psicotécnica se pressupõe um campo da psicologia em toda a sua extensão. E, portanto, falando sobre a inter-relação entre psicotécnica e pedologia, queiramos ou não, o fato é que nós sempre vamos discutir mais uma questão, a saber, a questão da relação entre psicologia e pedologia. Parece-me correto escolher esse caminho um tanto ziguezagueante e começar, a partir desse elo intermediário, a analisar a interação entre psicologia e pedologia, e com isso preparar o solo para a resolução de muitos momentos importantes daquela questão, que denominamos interação entre pedologia e psicotécnica.

Parece-me que as relações entre psicologia e pedologia, se as olharmos não apenas o plano da delimitação, mas dos vínculos e colaborações, como falei antes, se o tempo todo tivermos em mente, me parece, como é obrigatório para a perspectiva marxista, exatamente que o critério final para determinação da autonomia e totalidade [edinstvo] de qualquer ciência e de suas correlações com as outras é a realidade objetiva, realidade do objeto e relações objetivas reais desse objeto com os de outras ciências. Se assumirmos tudo isso, penso eu que duas posições principais podem nos explicar a relação entre pedologia e psicologia como ciências autônomas, que possuem, cada qual, seus objetos e métodos de pesquisa, embora sejam estreita e mutuamente relacionadas em termos metodológicos e práticos.

A primeira dessas posições decidi formular do seguinte modo: me parece que a psicologia infantil – para começar, vamos falar sobre psicologia infantil, isto é, sobre aquela disciplina psicológica que mais diz respeito à pedologia, a qual muitos pedólogos tendem a identificar com a pedologia, mas que muitos pedólogos, contrariamente, querem imitar e dissolver na pedologia, negando sua própria essência –, me parece que a psicologia infantil até no sistema de ciências marxistas desenvolve-se como uma das disciplinas pedológicas. O que significa? Quero dizer que a relação entre a pedologia e a psicologia infantil no sistema de conhecimentos marxista, me parece, deve lembrar a relação entre a biologia e outras disciplinas biológicas, quer dizer, com a embriologia, a zoologia e a botânica. Obviamente, como qualquer comparação, essa comparação não constitui prova, mas se mostra exemplo que permite explicar aquilo que tenho em mente. Similarmente, aquilo como qualquer ciência biológica particular – por exemplo, embriologia, ciência sobre o desenvolvimento embrionário, ou zoologia, ciência sobre animais – similarmente, aquilo com que cada ciência, cada disciplina biológica particular ou que se constitui em disciplina biológica relacionada, no sentido que deriva das representações sobre as leis do desenvolvimento e existência dos organismos vivos – isto é, da biologia, da psicologia infantil, do estudo do comportamento infantil e seu desenvolvimento –, pode e deve desenvolver-se não de outra forma como uma das disciplinas pedológicas, isto é, deve derivar, nas suas construções fundamentais, do todo, isto é, representações pedológicas sobre aquele lugar que a evolução psicológica ocupa no sistema geral da ontogênese. O psicólogo que constrói sua pesquisa particular no campo da idade infantil deve levar em conta que tal idade infantil deve ser considerada com as leis gerais da vida da criança e seu desenvolvimento. Fora disso, ele não pode organizar cientificamente nenhuma pesquisa no campo da psicologia infantil.

Permita-me novamente explicar com um exemplo concreto. Vocês sabem que a psicologia tem toda uma série de campos de conhecimentos separados, por exemplo, a psicologia étnica, psicologia do homem primitivo, até temos, digamos, a psicologia de outros campos, a psicologia zoológica – pergunta-se: o que pode a psicologia dos animais, que estuda o comportamento dos animais e o desenvolvimento de tal comportamento, ela pode estruturar-se de maneira diferente do que como disciplina biológica? Penso que, após Darwin e até após Lamarck, colocar tal questão significa dar-lhe resposta negativa. E a psicologia não pode situar essas pesquisas senão como disciplinas biológicas.

A psicologia dos povos não pode estruturar-se de outro modo que como disciplina sociológica, isto é, derivando das representações gerais sobre as leis de desenvolvimento da sociedade e seus fenômenos, que se encontram na sociedade humana. Tão pontualmente a psicologia infantil não pode derivar das suas pesquisas de outro lugar que não o conhecimento geral daquilo que é a criança geral, com a qual o psicólogo tem a ver, em sua pesquisa do comportamento. Exatamente nisto reside, me parece, o ponto de vista materialista no comportamento: no psiquismo. O psiquismo não se apresenta autonomamente desde o início; não se desenvolve em absoluta independência dos materiais de seu portador, como representam para si próprios os realistas. E, por conseguinte, se pesquisarmos o psiquismo também no comportamento dos animais, então devemos pesquisá-lo no contexto geral da evolução do mundo animal, e isso só a biologia nos ensina. Se nós pesquisarmos o comportamento animal na sociedade, então, pesquisando conhecidos fenômenos sociais, nascidos na vida social, não podemos organizar a pesquisa psicológica senão apoiando-nos em algumas representações sociais relacionadas a alguns fenômenos sociais, em sua natureza ou dinâmica. E assim, pontualmente, pesquisando qualquer questão do comportamento infantil, a psicologia científica infantil não pode situar-se de forma que não seja pedológica.

Somando tudo isso, queria sintetizar assim: a psicologia infantil pode e deve desenvolver-se como uma das disciplinas pedológicas, derivando sua investigação e construção a partir do geral e integral, isto é, do lugar da determinação pedológica e da relação do processo de desenvolvimento psicológico rumo ao conjunto do processo ontogenético em seu todo e da teoria geral sobre o desenvolvimento infantil.

Na pedologia há o ponto de vista, sobre o desenvolvimento infantil, de que no fundamento do desenvolvimento infantil residem os fenômenos de crescimento, em que o crescimento, aumento, incremento de massa corporal se mostra um fato fundamental com o qual a pedologia lida como o fenômeno nuclear que se coloca na base de todo o processo de desenvolvimento. Se nós assumirmos esse ponto de vista, então também as questões da pesquisa da psicologia infantil deverão ser passíveis de solução sob um ângulo conhecido, pois temos à nossa frente o pedológico, isto é, a representação geral relativamente à natureza do processo de desenvolvimento, no caso dado, à tentativa de analisar os processos de desenvolvimento com algo produzido a partir do processo de crescimento. Imaginem que extraiamos outro entendimento do desenvolvimento da pedologia; em decorrência disto, mudará também a representação sobre o desenvolvimento psicológico, mudará também o que poderemos buscar no desenvolvimento psicológico da criança.

Se não tivesse que ocupar muito tempo, se não temesse mostrar-me paradoxal, eu afirmaria que é possível mostrar que há, em cada pesquisa psicológica concreta no campo da psicologia infantil, uma teoria pedológica qualquer, isto é, uma representação geral sobre o desenvolvimento infantil da parte deste ou daquele autor. Em relação à teoria de Bühler, exposta por ele na História do desenvolvimento espiritual da criança, eu tentei fazer também em forma literária, e parece-me que o autor nunca refletiu sobre o que é a pedologia, espontaneamente derivando (em seu curso de psicologia infantil), de forma não reconhecida para si próprio – o que é muito ruim, mas de todo modo pedológico por natureza –, seu entendimento do desenvolvimento infantil. Isso pode ser mostrado decisivamente em cada pesquisa de psicologia infantil. Significa que, querendo ou não, o psicólogo infantil, ele parte invariavelmente de uma percepção inconsciente da pesquisa pedológica. Ele não pode, em geral, colocar a questão sobre psicologia infantil de outro modo que derivando de alguma representação geral sobre o que é a criança, a infância, o desenvolvimento do qual ele trata. Se a psicologia infantil, desse modo, adquire pela primeira vez na pedologia realmente a base científica confiável para seu desenvolvimento, como a zoologia adquiriu a sua da biologia, como a psicologia étnica adquiriu-a da sociologia marxista ou da teoria do materialismo histórico, tão exatamente me parece que também a pedologia pode, de fato, emprestar muito da psicologia, e particularmente, da psicologia infantil. Essa é minha segunda posição.

Penso, antes de tudo, que a pedologia deve encontrar para si um campo particularmente amplo de aplicação do método de pesquisa psicológica. Parece-me que essa questão é muito corretamente iluminada por Münsterberg em seus Fundamentos da psicotécnica (eu devo referir-me a ela, quando falar sobre psicotécnica). Ele diz que a aplicação de qualquer ciência, o uso dos dados de qualquer ciência em objetivos práticos é possível em duas formas diferentes: de um lado – a possibilidade de uso dos dados de qualquer ciência para aplicação na prática, no sentido particular dessa palavra. O uso do método psicológico na pedologia se enquadra nessa primeira rubrica, notada por Münsterberg – o uso dos dados de uma ciência por outra. Já eu diria que tal uso dos métodos de outras ciências mostra-se antes regra que exceção. E quando estava preparando as teses para esta comunicação, não pude encontrar nenhum exemplo, nenhuma ciência que não usasse de forma ampla, e não acidentalmente, métodos e dados de outras ciências. Penso que tal ciência não existe, e sim, falando a priori, não pode existir.

(Continua na Parte 2)

Referências

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  • 1
    Tradução de Gisele Toassa e Pedro Augusto Pinto. Revisão: João Batista Martins e Carolina Figueiredo de Sá.
  • 2
    O termo tem origem no latim paedo-, derivado do grego paido, de pâis paidós – “criança” e logia (ciência). O radical apresenta-se em muitos vocábulos da linguagem científica internacional, como pedagogia, pediatria e a própria pedologia, definida como estudo sistemático da vida e do desenvolvimento das crianças (Cunha, 2010). Essa ciência extinta é homônima da (ainda viva), pedologia – ciência cujo objeto é a morfologia, gênese e classificação do solo (Houaiss et al., 2009).
  • 3
    Problema vysshikh intellektual’nykh funktsiy v sisteme psikhotekhnicheskogo issledovaniya // Psikhotekhnika i psikhofiziologiya truda. 1930. T. III. № 5. S. 374 — 384; To zhe // Istoriya sovetskoy psikhologii truda. M.: Izd-vo MGU, 1983. S. 50 — 58 (in Lifanova, 1996).
  • 4
    Similar ao que hoje chamaríamos de psicologia industrial/psicologia do trabalho (Yasnitsky, 2009).
  • 5
    Voinova et al. (1989) indica tradução ao português como “conformidade às leis”.
  • Disponibilidade de dados: os dados da pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.
  • Como citar:
    Vigotski, L. S. (2026). Pedologia e Psicotécnica: Apresentação e Introdução. Psicologia: Ciência e Profissão, 46, e303407. https://doi.org/10.1590/1982-3703003303407
  • How to cite:
    Vigotski, L. S. (2026). Pedology and Psychotechnics: Presentation and Introduction. Psicologia: Ciência e Profissão, 46, e303407. https://doi.org/10.1590/1982-3703003303407
  • Cómo citar:
    Vigotski, L. S. (2026). Pedología y Psicotecnia: Presentación e Introducción. Psicologia: Ciência e Profissão, 46, e303407. https://doi.org/10.1590/1982-3703003303407

Editado por

  • Editores responsáveis:
    Miriam Cristiane Alves e Rafael Wolski de Oliveira

Disponibilidade de dados

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    03 Dez 2025
  • Aceito
    08 Dez 2025
  • Corrigido
    03 Mar 2026
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