Resumo
A estreita relação entre a música e a esfera política são o cerne deste estudo, que tem como objeto central o Hino de Sergipe. O objetivo da investigação é analisar a correspondência entre o supracitado hino, cuja composição musical é atribuída ao Frei José de Santa Cecília, OFM (1809-1859) e a ópera L’italiana in Argel, de Gioachino Rossini (1792-1868). Aqui destacam-se dois aspectos que são a relação do Frei José de Santa Cecília com os acontecimentos políticos da independência de Sergipe e do Brasil e a composição de sua obra mais emblemática. A metodologia da pesquisa baseou-se na investigação documental, com foco nos escritos de memorialistas e nos jornais que circulavam em Sergipe e no Rio de Janeiro (por ser a capital do Brasil naquele momento). A Teoria da Recepção também norteia esta análise, especialmente sob a ótica de Robert Jauss (1976) e Mark Everist (2001). Como resultados, o estudo evidenciou a influência da ópera na sociedade sergipana oitocentista e levantou a possibilidade de uma conexão entre o pensamento liberal do franciscano e o Hino de Sergipe. Além disso, o estudo aponta para a relevância do frade como pessoa crítica de seu tempo e de sua sociedade.
Música e Política; Sergipe Oitocentista; Ópera italiana; Práticas Musicais em Sergipe
Abstract
The close relationship between music and the political sphere is at the center of this study, which focuses on the Hymn of Sergipe. The goal of the research is to explore the possible connection between the aforementioned hymn, whose musical composition is attributed to Friar José de Santa Cecília, OFM (1809–1859), and the opera L’italiana in Algeri by Gioachino Rossini (1792–1868). Two aspects stand out here: Friar José de Santa Cecília’s relationship with the political events surrounding the independence of Sergipe and Brazil, and the composition of his most emblematic work. The research methodology was based on documentary investigation, focusing on the writings of memoirists and the newspapers circulating in Sergipe and Rio de Janeiro (as it was the capital of Brazil at that time). Reception Theory also guides this analysis, particularly from the perspective of Robert Jauss (1976) and Mark Everist (2001). As a result, the study highlighted the influence of opera on nineteenth-century Sergipe society and raised the possibility of a connection between the Franciscan’s liberal thought and the Hymn of Sergipe. Furthermore, the study highlights the friar’s significance as a critical observer of his time and society.
Music and Politics; Nineteenth-century Sergipe; Italian Opera; Musical practices in Sergipe
Estudar a relação entre música e política passa pela compreensão de que o fazer musical, como ato humano, está intrinsecamente conectado a um contexto, a uma sociedade e seu tempo. Este é o ponto de partida desta investigação, cujo pano de fundo é a cidade de São Cristóvão, então capital de Sergipe, na primeira metade do século XIX. O objetivo deste artigo é trazer uma análise sobre a possível relação entre a música do Hino de Sergipe, de autoria de Frei José de Santa Cecília, OFM1, com a melodia da abertura da ópera L’Italiana in Argel, de Gioachino Rossini (1792-1868), procurando compreender a ligação dessas obras com o pensamento liberal da época, diretamente associado à emancipação política de Sergipe. Neste sentido, a investigação partiu dos questionamentos: Há correspondência entre o Hino de Sergipe e a ópera L’Italiana in Argel? E, ainda: essa possível correspondência reflete um contexto ideológico e político?
A pesquisa parte de um estudo anterior, desenvolvido no âmbito de um doutorado cuja tese2 consistiu em defender que um ato político (mudança de capital) modificou o panorama musical da cidade que perdeu seu status de sede, além de ter contribuído com o quase apagamento da memória musical oitocentista daquele núcleo. Trata-se de São Cristóvão, que em 17 de março de 1855 deixava de ser o centro administrativo da província de Sergipe para a recém fundada cidade de Aracaju. Aqui compreende-se a mudança da capital como um ato político, motivado por questões econômicas e ideológicas, a exemplo do ideal de progresso, que levou à mudança de várias outras capitais no Brasil ao longo do século XIX como Olinda (PE), Marechal Deodoro (AL), Oeiras (PI) e Ouro Preto (MG).
São múltiplos os pontos de ligação entre o fazer musical e a esfera política de uma sociedade. Para ventilar apenas alguns, destaque-se que acontecimentos políticos podem intervir no processo criativo musical, que a política partidária pode estabelecer antagonismo entre pessoas e/ou corporações, que a arte pode ser utilizada para representar ideologias. Política e economia podem decidir que artistas farão mais sucesso, quem permanece e quem sai. Essas questões são atemporais e a musicologia também tem se voltado para essas relações.
Exemplos de estudos sobre a ligação entre a música e a esfera política são as investigações acerca da produção musical de Ludwig van Beethoven (1770-1827). Autores como Daniel Chua (2017), David Dennis (1996) e John Clubbe (2019) se dedicaram ao tema e suas análises reforçam a direta associação de Beethoven e sua música com seus ideais políticos, especialmente à ideia de liberdade, ancorados no contexto histórico do compositor.
Em Sergipe oitocentista, as relações entre a música e o fazer político também encontram seus pontos de ligação. O trabalho de João Liberato (2007), a respeito de duas bandas filarmônicas da cidade de Itabaiana (SE) evidenciou as situações de tensão entre ambas as corporações ocasionadas pela política partidária local. No presente texto, porém, a relação entre música e política vai além da questão partidária. Personagem central no estudo é Frei José de Santa Cecília (1809-1859), sacerdote franciscano. Aqui, a produção musical do religioso é estudada em contraponto ao contexto político tanto no âmbito nacional quanto local. O ideal de liberdade, certo modo, atravessa a narrativa, especialmente no que tange aos processos de independência do Brasil e de Sergipe.
O desenvolvimento deste estudo se deu através da pesquisa documental. Dentre os documentos estudados destacam-se os jornais que circulavam em Sergipe em meados do século XIX, fontes musicográficas e também escritos do início do século XX, dentre os quais destacam-se Manoel dos Passos de Oliveira Telles (1859-1935), em seu livro Sergipenses – escritos diversos - 1900, Prado Sampaio (1865-1932), em Sergipe – Artístico, Litterario e Scientifico - 1908, Sílvio Romero (1851-1914), em sua obra Parnaso Sergipano, Luiz José da Costa Filho (1886-1948), em seu artigo publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe em 1920, Armindo Guaraná (1848-1924), no Dicionário Bio Bibliográfico Sergipano - 1925, e Serafim Santiago (1859-1932), em seu Annuário Christovense - 1920. Esses autores representam as raras fontes a respeito do Frei José de Santa Cecília. No entanto, é preciso destacar que a escassez de documentos primários relativos ao Frei José de Santa Cecília e ao Hino de Sergipe ocasionou a essa pesquisa vários obstáculos, que felizmente não impediram o desenvolvimento da análise.
1. Sergipe entre processos de independência
As duas primeiras décadas do século XIX foram marcantes para a província de Sergipe quanto ao processo de sua independência da Bahia. Em 1808 a família real desembarcava no Rio de Janeiro. A presença de D. João VI e sua corte representou para a colônia, mudança nos aspectos econômico, cultural, arquitetônico, mas especialmente na estrutura política do Brasil. Naquele período também se intensificaram as lutas por emancipação em algumas províncias.
Neste contexto situa-se a independência de Sergipe, que está relacionada ao processo de independência do Brasil (Dantas, 2016; Nunes, 2000; Oliva, 1991). Em 1820 D. João VI assinou a Carta Régia que concedia a Sergipe sua emancipação política da Bahia. No entanto, Sergipe representava uma parcela significativa da economia bahiana e, por isso, houve grande resistência ao decreto, por parte da Bahia e de proprietários de terras locais, pró-lusitanos na causa da Independência. Segundo Ibarê Dantas (2016, p. 34) o retorno de D. João a Portugal e as tensões políticas causadas no período de transição até a Independência do Brasil possibilitaram a resistência da Bahia, que não aceitou a emancipação de Sergipe. Ainda segundo Ibarê, “foi um momento em que os interesses de alguns proprietários portugueses e seus aliados se mostraram muito fortes, em face das grandes ligações econômicas existentes entre Sergipe e Bahia” (Dantas, 2016, p. 34).
Grande parte dos sergipanos esteve oficialmente ao lado da causa pela independência do Brasil. Por consequência, o imperador Pedro I “enviou uma esquadra comandada pelo General Labatut, [n]o sentido de debelar a resistência da Bahia sob o comando do general Madeira de Melo” (Dantas, 2016, p. 34). A posição política de Sergipe em relação à independência do Brasil provavelmente facilitou sua emancipação (Freire, 2013, p. 307). O impacto do posicionamento do Estado atraiu a atenção nacional, dado que sendo São Cristóvão a capital de Sergipe d’El Rei, foi lá que ocorreram os eventos em prol da emancipação, inclusive contando com a presença do General do Exército Pacificador Pedro Labatut, quando nomeara José Eloy Pessoa, em 14 de novembro de 1822 (Freire, 1891/2013, p. 307).
Em 1823 foi fundada a Junta Provisória, após três anos da Carta de Emancipação Sergipe teria seu primeiro governo local. Em um primeiro momento os interesses da Junta – ainda comandada por conservadores, com sede em São Cristóvão – não se afastaram dos interesses dos partidos. Apesar disso, de acordo com Freire, esse governo teve o mérito de “manter a emancipação política de Sergipe a favor da qual trabalhou, contra a ambição dos portugueses” (Freire, 1891/2013, p. 317). Essa fase inicial de emancipação conferiu alguns avanços para a província e, de modo particular, para São Cristóvão, como o “aumento no número de cadeiras de primeiras letras e latim, criação de um armazém bélico e de um batalhão de pardos em S. Christovão e S. Amaro” (Freire, 1891/2013, p. 317). Entre 1824 e 1835 ocorreu a estruturação de uma sede governativa de Sergipe, com sede na capital e a criação da Assembleia Legislativa, que substituiu a Junta Governativa (Dantas, 2016, p. 35). Naquele período moldavam-se dois partidos antagônicos: os Corcundas, partido da recolonização liderado pelo capitão-mor José Matheus, e os Liberais, liderados por José de Barros Pimentel. A busca pelo poder direcionava as ações dos partidos.
Complementando esse panorama, é preciso olhar para a conjuntura política de Sergipe na primeira metade do século XIX. Esse período, que compreende os anos de 1836 a 1842, foi classificado por Ibarê Dantas (2016) como o quarto na história política da Sergipe provincial. Para Felisbello Freire consistiu em uma época de grande “agitação, de paixões políticas, de assassinatos, de rapinagem, de desprezo da lei, de prepotencia dos mandões” (Freire, 1891/2013, p. 348). A política partidária limitava-se aos dois partidos antagônicos denominados Liberal e Corcunda. Em novembro 1836 as rixas partidárias entre os dois partidos culminaram com a Revolução de Santo Amaro3 (Dantas, 2016, p. 35), revolta ocasionada pela “tentativa de elevar a povoação de Maroim à vila, em detrimento de Santo Amaro” (Dantas, 2016, p. 36). Os interesses econômicos por trás disso advinham das disputas entre os dois partidos, que tinham interesses políticos e econômicos sobre o escoamento do açúcar. Personagem central nesse conflito foi Sebastião de Almeida Boto (1802-1884) que, em sua juventude, havia lutado nos embates em favor da independência do Brasil, e no contexto da revolta de Santo Amaro representava o partido conservador que, na ocasião, estaria tentando fraudar o resultado das eleições para a Câmara da Assembleia Geral de Sergipe.
Após a revolta de Santo Amaro, em dezembro de 1836, houve outra mudança no nome dos partidos, de modo que o “Liberal” passou a ser denominado “Camondongo” e o “Corcunda”, também já denominado “Legal”, passou a ser chamado “Rapina” (Oliva apud Diniz et al, 1991, p. 138). Assim, no período anterior, de 1820 a 1836, os partidos políticos foram transformando-se mediante interesses particulares e sob prevalência do coronelismo local. Para a historiadora Terezinha Oliva, as eleições consistiam em “momentos violentos em que o partido que ocupava o poder manipulava a seu favor os resultados” e que “a participação política cabia a poucos e assim as demais camadas da sociedade nunca tiveram seus interesses levados em conta (Oliva apud Diniz et al, 1991, p. 133).
Esse panorama politicamente conturbado foi o pano de fundo na trajetória de Frei José de Santa Cecília, OFM, de nome de batismo José Pacífico de Salles. À época das querelas pela emancipação (em 1820) era ainda um menino de aproximadamente 12 anos. Para um sancristovense que morava na antiga capital naquele período, a causa da independência – do Brasil e, sobretudo, de Sergipe – importava e impactava na realidade local. Ao passo que o jovem também ia se emancipando, a independência política da província era uma busca de ordem local e nacional.
Nasceu em 1809, na cidade de São Cristóvão. Sua origem socioeconômica não é detalhada pelas fontes que tratam sobre sua procedência, mas sabe-se que sua mãe, D. Maria de São José Salles, tinha sido deixada na roda da Misericórdia (Costa Filho, 1920, p. 79). Sobre seu pai, Manoel Cyriaco de Salles Neúma, não se obteve informações.
Em sua trajetória, Frei Santa Cecília se destacou como orador sacro (sendo um requisitado pregador), escritor, poeta e músico. A maior parte de sua produção não subsistiu ao tempo. A investigação sobre sua trajetória e produção, está pautada especialmente nos jornais da época e na historiografia local. O perfil delineado por esses autores é de uma personalidade admirada em seu tempo, uma pessoa culta, carismática, irreverente e de muita personalidade, cujos talentos apresentam-se de diversas maneiras4.
Após trabalhar cerca de um ano como funcionário público em Sergipe, José Pacífico foi para Salvador, onde estudou no Convento de São Francisco, sendo ordenado sacerdote franciscano em 1835. Não é precisa a informação sobre seu retorno definitivo à São Cristóvão, mas em 1836 Frei Santa Cecília participou ativamente dos festejos em prol da Independência de Sergipe. Aliás, as fontes destacam justamente 1836 como ano marcante para Frei José de Santa Cecília e para a província. Já em junho de 1840 foi nomeado presidente do convento de S. Cristóvão (SE) (Guaraná, 1926, p. 347).
Frei José de Santa Cecília é apontado como o compositor da música do Hino de Sergipe. Essa informação de autoria consta em fontes como o Álbum de Sergipe, lançado em 1920 por Clodomir Silva (1892-1932). Segundo o autor: “São do professor Manoel Joaquim de Campos os versos que compõem o Hymno Sergipano, versos que foram escriptos em comemoração á data de 24 de outubro [...] A música a que está ligada a letra foi escripta por Frei José de Santa Cecilia” (Silva, 1920, p. 65). Clodomir complementa ainda que o Hymno de Sergipe se tornou oficial em 1839 (Silva, 1920). No Dicionário Biobibliográfico, Armindo Guaraná expressa “a quem se attribue a musica do Hymno Sergipano” (Guaraná, 1925, p. 184). Também Prado Sampaio atribui ao Frei José a autoria do hino, destacando o hino de Sergipe como sendo um dos poucos resquícios da produção do franciscano (Sampaio, 1908).
2. A ópera L'italiana in Algeri como inspiração para o Hino de Sergipe
Não foi possível levantar nenhuma fonte contemporânea ao Frei José de Santa Cecília que apontasse para a data precisa de lançamento do Hino de Sergipe. Aliás, a escassez de fontes relativas ao Frei José já era também um problema para os autores do entresséculos. Na obra Sergipenses, Manoel Oliveira Telles inicia o texto dedicado ao franciscano com a frase “Eis ahi um nome que somente as chronicas podem reconstituir” (1900, p. 65). De acordo com Aglaé Fontes, o hino teria sido publicado no Jornal Noticiário Sergipano, em 1836. A pesquisa hemerográfica, porém, até o momento não conseguiu levantar essa edição do referido jornal5.
A fonte musicográfica mais antiga do Hino de Sergipe levantada até o momento consta no Álbum de Sergipe, de Clodomir Silva, apresentada a seguir. No entanto, sabemos que há uma versão do hino no acervo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, que não foi possível acessar por estar o prédio em prolongada reforma. Mesmo na ausência de fontes mais anteriores, que permitissem contrapor as versões e possíveis diferenças entre elas, é possível estabelecer um estudo a respeito do mesmo.
A música está escrita para voz e piano, não indica autoria da poesia ou da música, nem apresenta qualquer informação sobre edição, data ou local. No entanto, o autor do livro atribuiu a autoria da poesia a Manoel Joaquim de Campos e a música ao Frei José de Santa Cecília (Silva, 1920/2019, p. 64). Na fonte a obra está intitulada de Hino Sergipano. No entanto, se popularizou como o Hino de Sergipe.
Em outubro de 1836 foi celebrado pela primeira vez em São Cristóvão, a festa da independência de Sergipe, após o longo período de tensão com a Bahia que não lhe reconhecia a emancipação. A data da comemoração, porém, não fazia referência ao dia 08 de julho, mas adotou o dia 24 de outubro. Isso pode ter ocorrido pelo fato da Carta Régia assinada em 8 de julho ter chegado a Sergipe somente no dia 24 de outubro de 1824. Então, durante muito tempo essa data foi comemorada como a data da Independência6. Segundo Terezinha Oliva ([s.d.]), “a festa popular pela Emancipação tradicionalmente ocorria no 24 de outubro. Essa data era marcada também por comemorações cívicas, as posses de autoridades, as mudanças de Governo”7.
A história do Hino Sergipano está relacionada à Emancipação Política de Sergipe, não só pelo conteúdo de sua letra, mas também porque foi entoado na cerimônia que celebrava a consolidação da Independência de Sergipe pela primeira vez. De acordo com Aglaé Fontes, o hino teria sido publicado no jornal Noticiário Sergipano, em 1836:
Apesar da Emancipação Política da Província de Sergipe acontecer em 1820, com a Carta Régia assinada por D. João VI, as complicações políticas da época fizeram com que ela ainda fosse depois confirmada por D. Pedro I. Assim somente em 1836, é que São Cristóvão se preparou, como capital da Província, para realizar um ato comemorativo marcado para acontecer no dia 24 de outubro, data valorizada para os atos oficiais. Os organizadores da festividade, comandados pelo Padre Bernardino Sales de Campos, sentiram a necessidade da música estar presente no ato festivo, além dos discursos, fogos para enriquecer a solenidade, além do Te Deum, já programado como marco da religiosidade presente. Era preciso ter um HINO. Era preciso ter MÚSICA!!! Todos pensavam na necessidade de algo vibrante fazendo da música uma forma expressiva para unir a comunidade. A urgência do momento fez com que os olhares se voltassem para a figura do Frei José de Santa Cecília, filho da terra e com formação musical erudita, especialista em contraponto para quem, além do sermão do Te Deum, também aceitasse a incumbência de compor o Hino (Fontes, 2020, p. 16).
De acordo com Aglaé Fontes, o Hino de Sergipe foi pensado para as comemorações do dia 24 de outubro de 1836, e teria sido encomendado para aquela celebração. Naquele momento a província, independente, precisava de um hino, de um símbolo. Embora a autora afirme que o Frei José de Santa Cecília foi convidado a escrever a música do hino, não foi mencionada ou identificada qualquer fonte que ratificasse essa informação. O texto de Manoel Joaquim de Campos, anteriormente intitulado Dia Brilhante, como poema de exaltação à Sergipe com trinta e seis versos, foi então adaptado à música de Fr. Santa Cecília (FONTES, 2020, p. 16), ambos formando o Hino Sergipano. A poesia apresentada a seguir consta no Álbum de Sergipe (1920)
Hymno Sergipano
Alegrai-vos, Sergipanos,
Eis que surge a mais bela aurora
Do áureo jucundo dia
Que a Sergipe honra e decora
O dia brilhante,
Que vimos raiar,
Com canticos doces
Vamos festejar.
A bem de seus filhos todos
Quis o Brasil se lembrar
De o seu immenso terreno
Em Provincias separar.
O dia brilhante. etc.
Isto se fez, mas com tudo
Tão commodo não ficou.
Como por más consequencias
Depois se verificou.
O dia brilhante. etc.
Cançado da dependência
Com a Provincia maior.
Sergipe ardente procura
Um bem mais consolodor.
O dia brilhante. etc.
Alça a voz que o Throno sobe
Que ao Soberano excitou;
E, curvo o Throno a seus votos,
Independente ficou.
O dia brilhante. etc.
Eis, Patricios Sergipanos,
Nossa dita singular
Com doces, alegres cantos
Nós devemos festejar.
O dia brilhante. etc.
Mandemos, porem, ao longe
Essa especie de rancor,
Quem inda hoje alguém conserva
Aos da Provincia maior.
O dia brilhante. etc.
A união mais constante
Nos deverá congraçar.
Sustentando a liberdade,
De que queremos gozar.
O dia brilhante. etc.
Se vier damnosa intriga
Nossos lares habitar
Desfeitos os nossos gostos Tudo em flôr há de murchar
A letra do hino reflete a inquietação dos sergipanos diante dos embates com a antiga sede e o regozijo pela independência, transparecendo a alegria, e a ideia de luz e de celebração. Através das estrofes o poeta comunica o processo difícil de emancipação, abordando o apoio nacional à causa da Independência de Sergipe, a resistência da Bahia e a participação do Imperador Pedro I. Nele, Joaquim de Campos não se prendeu aos embates, mas, ao contrário, convidou à união e sugeriu que não se guardasse rancores da Bahia, que ele chamou de província maior. O texto sugere que a liberdade de Sergipe fosse festejada com doces e alegres cantos. Frei José de Santa Cecília procurou trazer leveza e júbilo a sua música. O motivo rítmico que inicia o hino é ligeiro, brilhante. A melodia que segue é saltitante e, escrita em escala maior, Sol Maior, em tempo de marcha, mas em compasso quaternário.
Em 1920 Luiz José da Costa Filho escreveu um artigo sobre Frei José de Santa Cecília para a edição comemorativa do Centenário da Independência de Sergipe da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Nesse artigo o Hino de Sergipe foi mencionado como sendo um arranjo de uma ópera antiga: “por essa occasião, e para os mesmos festejos, fez o arranjo, - adoptando um trecho de opera antiga, - do hymno sergipano” (Costa Filho, 1920). O uso do termo “arranjo” pode ter suscitado na atualidade um pensamento equivocado e que alimentou uma espécie de desvalorização à referida música, conferindo-lhe o status de plágio da ópera L'italiana in Algeri, que acabou contribuindo com a reivindicação (por parte de personalidades pontuais) de troca para um novo hino. A investida não obteve sucesso. Porém, destaque-se que a teoria de plágio não possui sustentação. Além disso, não se trata de um arranjo, como afirmaram algumas fontes, e nem de plágio8, mas apenas de uma obra referencial que serviu de inspiração para o compositor, como se verá adiante.
Em relação aos elementos estritamente musicais, esta pesquisa concorda que há uma correspondência entre a ópera L'italiana in Algeri e o Hino de Sergipe. Essa relação se observa em um motivo muito similar entre ambas. Ressaltamos que para esta análise está sendo utilizada como referência para o Hino de Sergipe a sua versão de 1920, para piano e voz, publicada na obra Álbum de Sergipe, já apresentada neste texto. Quanto à versão da abertura da Ópera L'italiana in Algeri de Gioacchino Rossini, trata-se de uma edição publicada pela Editora Dover em 19999.
A referência evidente à ópera de Rossini está em um motivo melódico que é apresentado em sua abertura e não volta em se repetir em outros atos da ópera, mas apenas na abertura. O motivo é formado por semicolcheia, colcheia pontuada e semicolcheia e possui uma pequena diferença rítmica em sua resolução, pois enquanto na abertura da ópera à semicolcheia se segue uma mínima ligada à semínima, no hino o motivo termina com uma semínima ligada à outra semínima. A relação intervalar é a mesma, inclusive com as mesmas notas (Ré, Si, Lá, Fá#, Sol).
A abertura de ópera L'italiana in Algeri possui 251 compassos, e o Hino de Sergipe tem 34 compassos no total. Na abertura da ópera o motivo é apresentado pela primeira vez nos compassos 82 a 84, seção F, na parte de Oboé (Fig. 4):
: Trecho extraído da partitura da abertura da ópera L'italiana in Algeri. Grade, com destaque para a parte de oboé10 (c. 82-85).
Nos compassos 86 até 88 o motivo se apresenta com o mesmo ritmo, porém com notas diferentes. A ideia musical, porém, é a mesma.
No Hino de Sergipe esse motivo aparece na melodia da Introdução da música, mais precisamente no último tempo do compasso dois (sem contar a anacruse). Assim, o motivo está no compasso 2, se repete no compasso 3 e no compasso seguinte ele é repetido ritmicamente, porém com outras notas, diferenciando-se na melodia de Rossini.
No Hino de Sergipe esse motivo também está exposto na melodia da voz (c.11-12), nos dois primeiros compassos (Fig. 6). Ou seja, pode-se dizer que o Hino de Sergipe começa com esse referencial, um motivo que na abertura de L'italiana in Algeri possui uma característica marcante.
: Recorte da partitura do Hino de Sergipe, c. 7-12. Fonte: Album de Sergipe, Clodomir Silva, 1920.
Na abertura da ópera, o motivo em questão volta a aparecer nos compassos 86 até 89. Observa-se que na ópera o motivo vai construindo uma frase de oito compassos. Embora não sejam idênticas, há uma similaridade entre a aqui destacado motivo da ópera e o motivo da Introdução do Hino de Sergipe, que possui 11 compassos no total.
Na figura 7, recorte da ópera, é possível visualizar os compassos 86 a 89, nos quais o motivo reaparece, porém com outras notas (Mi, Dó, Si, Sol#, Lá), sendo repetido por três vezes, ainda na parte de Oboé.
: Trecho extraído da partitura da abertura da ópera L'italiana in Algeri. Grade, com destaque para a parte de Oboé11 (c. 86-89).
A mesma ideia volta a ocorrer ao longo de toda a abertura da ópera L'italiana in Algeri. Na seção G, entre os compassos 94 até 101, o motivo reaparece, sendo tocado por Oboé e Clarinete em dó.
Ao longo de toda a abertura esse mesmo motivo aparece nas seções F, G, R (c. 184-191) e S (c. 192-203).
Após a análise de ambas as obras é possível constatar uma correspondência motívica entre L'italiana in Algeri e o Hino de Sergipe. A partir dessa relação compreende-se que o Frei José tenha tomado a ópera como referência para sua composição. Para tanto, utilizou um motivo melódico muito característico da abertura de Rossini, que certamente podia ser reconhecido por quem conhecia aquela abertura.
3. Reflexos do pensamento liberal oitocentista sobre o Hino de Sergipe
A hipótese a respeito da relação entre o pensamento liberal de Frei José e o Hino de Sergipe partiu da leitura do ensaio escrito pelo intelectual José da Costa Filho (1886 – 1948), publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, em número especial, dedicado ao Primeiro Centenário da Emancipação Política de Sergipe. À época Costa Filho exercia a função de 1º secretário do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe - IHGSE (1920, p. 81).
Em seu texto, o autor afirmou ter transcrito alguns tópicos do sermão proferido pelo franciscano Frei José de Santa Cecília durante a celebração da Emancipação Política de Sergipe, em 24 de outubro de 1836. Costa Filho explicou que o sermão foi publicado em um folheto produzido pela Tipografia Patriota, da então Vila de Estância, mas não especificou se o exemplar que tomou como referência fazia parte de seu acervo pessoal, ou se foi consultado em algum outro acervo.
No ensaio, Costa Filho descreve o Frei Santa Cecília com três palavras: liberal, talentoso e patriota (1920, p. 80). Um religioso que se posicionava politicamente e que, por vezes, ocupava o púlpito com pregações cujo conteúdo destoava daqueles defendidos pelos sergipanos mais conservadores.
O sermão proferido pelo franciscano ocorreu na festa da emancipação política, a 24 de outubro de 1836, e foi um discurso efusivo, considerado por Costa Filho como “seu mais famoso sermão, eivado de liberalismo, exaltando a liberdade e condenando a tirania”. A citação a seguir é referente ao sermão proferido em 1836, transcrito por Costa Filho:
No tempo, pois, em que o archote da discordia flammejava no horizonte da Bahia, e os rubros estandartes da guerra se viam levantados entre a Lusitania e o Brasil, sendo parte integrante a Metropole do Imperio, foi quando, Srs., Sergipe de novo feudataria daquella Provincia, viu muito de perto o servilismo, a ingratidão, a tyrannia de alguns de seus habitadores: como que ainda vejo, como que ainda me tocam essas imagens de dôr, e de uma indifferença tão execranda! Sim, eu vejo sahirem d’esta Capital, arrancados dos braços de suas Consortes, amigos e parentes, em fim, da doce Patria, os nossos dignos Concidadãos, Montes Valença e Bernardino, que carregando pesados ferros, e marchando entre cortadoras espadas, que sergipanos ingratos alçavam, são condusidos até Larangeiras, onde, depois de gemerem em tenebrosas masmorras, são remettidos á Bahia, entregues a todas as desgraças, que sempre acompanham tão funestos acontecimentos (Costa Filho, 1920, p. 82)12.
Na citação acima o franciscano trata a respeito do episódio da Emancipação Política de Sergipe, em 1820, que não foi aceita pela Bahia, culminando com a prisão de alguns de seus conterrâneos. Como já exposto anteriormente, há uma ligação direta entra a Independência do Brasil e a Emancipação Política de Sergipe, uma vez que Sergipe não se uniu às revoltas levantadas pelas ditas “províncias do Norte”, mas teria apoiado a Coroa.
Mais adiante, no mesmo texto, Frei Santa Cecília lamentou o fato de Sergipe ter se mantido dividido em relação à liberdade da pátria, quando já boa parte do país apoiava o príncipe regente. Porém, também criticou o grupo liberal da época, ao dizer que:
A virtude, Senhores, recommenda por si mesma, o merecimento se manifesta claro e mais perde a Provincia sem duvida, não chamando á sua representação os cidadãos pacífios, morigerados e instruidos; do que esses liberaes de exaltação, que só tendem a formar a anarchia religiosa e Política (Costa Filho, 1920, p. 84).
Fr. Santa Cecília se voltava para os eventos da Emancipação Política de Sergipe e da Independência do Brasil, ocorridos mais de quinze anos antes. É possível que a juventude do frade naquela ocasião do sermão (aproximadamente com vinte e sete anos) tenha motivado seu entusiasmo na forma direta com que se dirigiu aos interlocutores. Na época dos acontecimentos aos quais o Frei José se referia era o Brigadeiro Pedro Vieira quem governava Sergipe o (entre 1821 a 1823), e era opositor da causa da Independência. Segundo Edna Maria Antonio “Pedro Vieira era amplamente conhecido como um dos líderes e agente do grupo defensor da anexação de Sergipe à Bahia e à proposta constitucional das Cortes” (Antônio, 2012, p. 96). As palavras do franciscano teciam duras críticas à divisão de Sergipe em relação à causa da independência. Essa divisão entre aqueles que apoiavam a independência do Brasil e os que queriam a total submissão a Portugal era marcante em todo território brasileiro.
Além disso, há também em seu discurso uma menção, ainda que indireta, ao Frei Caneca (1779-1825), líder da Revolução do Equador e amplamente conhecido pela defesa do pensamento liberal aplicado à política brasileira naquele contexto.
Quando, pois, o Norte intrépido, ainda que infeliz nos planos de sua heroica liberdade, o Norte que pela federação do Equador tinha visto abrirem-se a seus olhos escuras masmorras, que sepultaram genios livres, cadafalsos, que fumegaram em sangue, e que já ouvia o feliz annuncio da paz, que o Anjo Tutelar do Brazil voando de Provincia em Provincia, dava a beber aos bons patriotas no balsamo de um porvir venturoso, quando a Liberdade enxugando os olhos mostrava o lenço de longe às Provinicas suas confinantes, quando, finalmente, os choques da politica hiam desaparecendo, e o Brazil quase inteiro milagrosamente se prendia nos laços da doçura e amizade, foi, Srs., quando Sergipe, minha Patria, ainda lutando braço a braço com as discórdias dos seus habitantes, ainda mostrou desavenças [...] (COSTA FILHO, 1920, p. 82-83).
O frade sergipano rememora em seu discurso as revoltas capitaneadas em algumas províncias (à época denominadas províncias do Norte) a partir de 1917, em especial a Confederação do Equador (1824) e lamenta o trágico desfecho de tais levantes. É importante destacar que os acontecimentos revolucionários capitaneados por Pernambuco também estavam ancorados nos ideais iluministas da Revolução Francesa e mais fortemente da Revolução Americana (MELLO, 2004, p. 46-47).
A historiadora Maria Thetis Nunes também situou o frade como liberal (no contexto de seu tempo), comparando seus sermões com os eloquentes sermões de Frei Caneca (Nunes, 1997, p. 72). Segundo Thetis Nunes, Frei José alfinetava os proprietários de terras, que permaneceram ao lado dos opressores nas lutas da Independência da pátria, presos aos seus próprios interesses (1997, p. 72). Em um contexto de forte coronelismo, as palavras do franciscano significavam ousadia e ímpeto.
Sobre esta ocasião, Thetis Nunes relatou o impacto social que a fala de frei José despertava:
O sermão escandalizou a sociedade conservadora local, sendo Frei José de Santa Cecília atacado pela imprensa como “ardiloso e virulento” conspirando “contra o trono e o altar”. Sofreu perseguições e mesmo ameaças que cercaram a vida pelas ideias revolucionárias que pregava. Sua atitude é uma demonstração de como as idéias espalhadas pelos ideólogos e revolucionários franceses transpuseram o Atlântico e chegariam também à pequena Provincia de Sergipe (Nunes, 1997, p. 72).
Ainda segundo a autora, o sermão pretendia atingir naturalmente alguns sergipanos que pudessem compactuar com a mensagem política do discurso. Para Costa Filho “a parte política do sermão foi a nota dissonante da mimosa peça oratória, no conceito da opinião de todos os credos que ouviram-na com religiosa atenção. Falando sobre a chaga social de então, perante um povo não acostumado a ouvir do pulpito tão rudes verdades” (Costa Filho, 1920, p. 84).
Frei José, em meio a um cenário de forte apreensão entre partidos, retomava a questão da independência, não somente para rememorar um ato passado, ou mesmo para incitar seus protagonistas, mas também para inquietar o presente, que continuava marcado pela discórdia e divisão pautada em interesses pessoais, em detrimento do bem comum. Os autores supracitados classificaram o Frei Santa Cecília como liberal, e é necessário ressaltar que a visão liberal do frei estava pautada na autonomia do país em relação à Portugal, à relativa autonomia das províncias, refletido nas lutas de emancipações, mas também como um defensor da monarquia (não absolutista). Esse perfil está em conformidade com o pensamento liberal de seu tempo, conforme apresentado por José Murilo de Carvalho (2008, p. 30), e que ficou explícito no discurso do frei.
O posicionamento liberal de Frei José de Santa Cecília estava também em consonância com o pensamento franciscano no Brasil oitocentista. Sabe-se da estreita relação entre frades franciscanos e os imperadores do Brasil (para além das dissonantes notas entre D. Pedro I e a condenação de Frei Caneca). Anos antes da confederação, outro importante franciscano esteve diretamente ligado à Independência do Brasil, o Frei Francisco de Santa Teresa de Jesus Sampaio, OFM. Encontros importantes de cunho político ocorreram com frequência no Convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro (Willec, OFM, 1972, p. 225)
Porém, é preciso lembrar que não foi somente através da oratória que Frei José de Santa Cecília participou do festejo de 24 de outubro de 1836, mas também por meio de sua mais emblemática composição, o Hino de Sergipe, símbolo marcante da emancipação e ápice do longo processo pela independência. Para além das questões estritamente musicais, a justaposição do discurso do Frei José de Santa Cecília nos festejos de 1836 com o Hino de Sergipe, possivelmente estreado naquela ocasião, pode ser chave para a compreensão sobre o motivo que teria levado o franciscano a se inspirar em L’italiana in Algeri.
Não é estranho que o frei tenha se utilizado de um trecho de ópera como inspiração. O estudo sobre o religioso vem intensificando sua imagem como uma personalidade culta, bem articulada e de ideias vanguardistas. A ligação entre o hino e ópera remete à atividade dos Teatros Públicos em Sergipe. A Ópera fazia parte do cotidiano dos sergipanos. A notícia em jornal mais antiga a respeito da atividade operística em Sergipe levantada até o momento data de 1841. Embora o formato dos ditos Teatros Públicos não se assemelhasse aos da ópera romântica, influências do bell canto, árias avulsas de compositores italianos, bem como aberturas de óperas italianas estavam sempre integrando a programação dos espetáculos entre 1840 e 1860 (Maciel, 2021).
No entanto, é possível ir além da questão do gosto pessoal do compositor ou da vivência daquela sociedade com a ópera. O estudo sobre o Hino de Sergipe e sobre seu compositor tem apontado para a hipótese de que a escolha do compositor pelo motivo melódico da ópera de Gioachino Antonio Rossini (1792-1868) tenha sido também uma escolha política. Para tanto, é necessário primeiramente olhar para a mensagem da ópera.
L'italiana in Algeri é uma ópera buffa e, apesar de um roteiro leve e jocoso, traz um teor político em seu enredo. Apresenta um tema sério com leveza. Dividida em dois atos (com libreto de Angelo Anelli, 1761-1820) a ópera tem como contexto geográfico Argel, capital da Argélia. Uma das personagens principais e vilão da história é Mustafá, o suposto Bei da Argélia na narrativa. A personagem de Mustafá é apresentada como um líder autoritário, arrogante e que carrega parte considerável do caráter cômico da narrativa. Do outro lado estão os italianos, prisioneiros do regime de Mustafá. A ópera traz uma mulher (a italiana Isabella) como heroína que, com inteligência e coragem consegue libertar seus conterrâneos13 ao passo que escapa das investidas amorosas e dissimuladas do Bei. A confluência de elementos das culturas berberes e italianas conferem à ópera grande riqueza de detalhes e nela, elementos do mundo islâmico do Norte da África e europeus são apresentados de forma satírica sob a perspectiva de Anelli e Rossini. Além disso, destacam-se também hinos patrióticos italianos, como Pensa alla pátria, entoado pela personagem Isabella, reforçando o teor político do drama.
Em relação ao contexto, é interessante considerar que várias tensões já vinham ocorrendo naquele período (início do século XIX) entre Europa e Argélia14. Diversas notícias sobre tensões entre França e Argélia foram levantadas em jornais que circulavam no Rio de Janeiro em meados do séc. XIX. Os discursos observados nessas fontes tendiam a um posicionamento mais favoráveis ao olhar europeu. Segundo Fabiana Crepaldi (2019)15, a mensagem central desta ópera é a crítica ao regime autoritarista, tratando-se, portanto, de uma trama atemporal e política. A questão vai além do aspecto histórico (que aliás, não é uma preocupação da ópera em questão). Entende-se que a crítica da ópera faz referência ao autoritarismo de forma ampla.
É possível conjecturar, embora não afirmar, que a escolha de Frei Santa Cecília tenha passado pela compreensão crítica do sentido político da ópera de Rossini, de modo que seu discurso inflamado na ocasião dos festejos da Emancipação em 1836 e seu hino, inspirado na ópera de Rossini, tenham uma relação direta, um mesmo fio condutor em seu pensamento liberal. A partir da Teoria da Recepção, a escolha de Frei José de Santa Cecília foi analisada, considerando as impressões que a supracitada ópera obteve no Brasil e em Sergipe. Neste trabalho, a análise está pautada especialmente nas notícias encontradas em jornais. Logo, o domínio da recepção da ópera L’italiana in Argel está baseado na literatura jornalística e numa espécie de crítica jornalística, como se verá adiante16.
Além da questão relativa ao enredo da ópera, o estudo sobre a escolha de Frei Santa Cecília para o Hino de Sergipe também pressupõe observar o alcance que a música de Rossini teve no Brasil na primeira metade do século XIX. Um levantamento em jornais que circulavam no Rio de Janeiro naquele período, evidenciou que o compositor italiano fazia sucesso na corte brasileira. Ao estudar a recepção da música de Rossini na América Latina, José Manuel Konig (2018) destaca a importância da música do italiano nesse território no século XIX, alegando como principal razão o fim do período colonial ibérico, de modo que Rossini tornou-se a primeira tendência de moda musical e cultural nos primeiros anos de independência de territórios latino-americanos (Konig, 2018, p. 413). Assim, entre 1820 e 1830 começa-se a notar uma ligação entre os ideais revolucionários e a música de Rossini que aos poucos ia se tornando símbolo de um novo tempo e de modernidade (Konig, 2018, p. 413).
A partir da pesquisa hemerográfica se observa que a música de Rossini contava com grande aceitação nos teatros da corte brasileira. Suas obras eram realizadas com frequência nos teatros São João e São Pedro de Alcântara do Rio de Janeiro. Além da montagem completa das óperas, excertos também eram interpretados como obras avulsas, exemplo de cavatinas, árias etc. A ópera La Cenerentola (estreada na Europa em 1817) foi encenada pela primeira vez no Teatro São João do Rio de Janeiro em 1820 (Gazeta do Rio de Janeiro, 06 de setembro de 1820, p. 4, Ed. 72). No ano seguinte a mesma ópera voltava ao palco daquele teatro, desta vez contando com a presença do então rei D. João VI, sua família e a guarda de honra (Gazeta do Rio de Janeiro, 28 de fevereiro de 1821, p. 2, Ed. 17).
Em 1822 a ópera Le Barbier de Seville foi encenada no Teatro S. João por uma companhia italiana, segundo registrado no Diário do Rio de Janeiro. O redator qualifica como sendo uma “ópera célebre, do expressivo Rossini” (Diário do Rio de Janeiro, 21 de maio de 1822, p. 3, Ed. 0500017, N. 17). Em agosto daquele mesmo ano aquela companhia realizada a ópera L’italiana in Argel, conforme citação a seguir:
Theatro de S. João - A Companhia Italiana novamente organizada debaixo da direcção de Maria Theresa Facioti, Paulo Rosquellas, Miguel Vaccani, e Nicola Magioranini; no fim do corrente mez de Agosto, principiará as suas representações, abrindo o Theatro com a bem aceita Opera, que tem por título A Italianna em Argel, producção do bem acreditado Rossini, na mesma Opera se meterão novamente diversas peças de Muzica da escolha da mesma Direcção, que espera agradarão ao Publico [...] (Diário do Rio de Janeiro, 22 de agosto de 1822, p. 3).
O relator qualifica a supracitada ópera como “bem aceita” e seu compositor como “bem acreditado”. Naquele momento a ópera italiana agradava muito a corte brasileira, estando também nas graças do imperador.
Em julho de 1827 L’italiana in Argel voltava a ser realizada, desta vez no Teatro São Pedro, contando com a presença do imperador Pedro I.
Artigos Nam Officiaes - A’ noite, á hora costumada, chegou S. M. o Imperador ao Theatro de S. Pedro de Alcantara (ao qual se transportará em grande estado), e a Sua Augusta Presença foi saudada com repetidos vivas a S. M. I. e á Sua Imperial Familia, a que se seguio a representação da Burla a Italiana em Argel, da composição do celebre Rossini [...] (Diario Fluminense, 2 de julho de 1827, p. 391).
Uma récita que contava com a presença da família imperial certamente estava pautada em um programa que pudesse agradar os ilustres convidados e que fossem novidade naquela corte. A informação de que era a primeira vez que se encenava L’italiana in Argel no Teatro S. Pedro é confirmada na notícia a seguir, registrada pelo O Mercantil, relatando a noite de teatro ocorrida em setembro de 1827.
Imperial Theatro de S. Pedro de Alcantara - O [ilegível] de Victor Isotta, 1º Tenor, que se anunciou para Sexta feira 28 do corrente, ficou por motivos ponderosos transferido para hoje 25, quando se representará a segunda representação da bem aceita peça de Rossini intitulada – A ITALIANA EM ARGEL – Entre o 1º 2º Acto haverá huma das melhores danças que estiverem em scena, e que será anunciada nos cartazes [...] (O Mercantil, 25 de setembro de 1827, p. 4).
Na narrativa, o redator destaca tratar-se de uma ópera bem aceita. Tem-se, portanto, uma obra cuja estreia na Itália ocorreu em 1813 e que encontrava grande respaldo na capital do Brasil na década de 1820. A escolha de Frei Santa Cecília passava pela opção de uma música já conhecida pelos brasileiros que frequentavam os teatros e consumiam ópera.
A pesquisa hemerográfica no contexto da Bahia entre 1820 e 1840 também levantou algumas menções à obra de Rossini, porém com menor ênfase, considerando que foram mínimas as ocorrências encontradas a partir do termo de busca “Rossini”, no período em questão. Dentre as menções levantadas destaca-se a ocasião de Teatro Público em setembro de 1838, que foi iniciada com a abertura da opereta Il Pirata, de Vincenzo Bellini e teve como atração principal a ópera Os Portugueses Cativos em Argel (em três atos). Além disso, foram também cantados alguns duetos de G. Rossini (Correio Mercantil, 07 de setembro de 1838, p. 4, Ed. 551 Vol. 3).
Outra menção à obra de Rossini nos teatros públicos em Salvador pode ser observada na citação a seguir.
THEATRO PUBLICO - Quinta feira 25 do corrente, depois de executar a orchestra uma famosa ouvertura nova, seguir-se-há a representação de um novo e interessante drama em 5 actos, O DESTERRADOS DE SIBERIA. Ou O PREMIO DA INNOCENCIA. No fim do 2. acto cantarão o Sr. Antonio da Silva, e a Sra. Brigida Virginia da Silva, o bello dueto – Aos Caprichos da Fortuna – da opera A Italiana em Argel. Dará fim o divertimento com a jocosa farça – A Creada Rhetorica. (Correio Mercantil, 24 de julho de 1839, p.4
No entanto, o estudo sobre a ópera na cidade de São Cristóvão (SE) entre 1840 e 1860 não levantou referência de música de Rossini nas ocasiões dos teatros públicos daquela cidade.
A partir do exposto é possível conjecturar que a inspiração na ópera L’italiana in Argel para criação do símbolo máximo de representação da sergipanidade foi também uma escolha política do franciscano naquele momento. Vislumbra-se aqui o encontro entre suas duas funções de destaque, a de orador sacro e compositor, conectadas por uma ideologia e um posicionamento crítico.
4. Música, contexto e redes de sociabilidade
As fontes estudadas indicam uma ampla aceitação do Hino de Sergipe entre os conterrâneos do Frei José de Santa Cecília. A dimensão de efeito e recepção da obra musical17 ressaltada por Mark Everist (2001, p. 379-380) pode ser chave para esse estudo ao buscar entender como o hino foi recebido pela comunidade local ao longo do tempo. No curso da história, no entanto, o Hino de Sergipe conseguiu tornar-se um símbolo de identidade sergipana.
Em 25 de março de 1849 foi realizada em São Cristóvão uma celebração em comemoração ao aniversário da Constituição Brasileira. Naquela ocasião foi entoado o Hino de Sergipe, conforme se lê: “As 6 horas foi arriada a bandeira nacional do mastro junto ao palacio, salvando nesta occasião a artilharia com 24 tiros, e tocando a musica o hymno, e outras marchas” (Correio Sergipense, 28 de março de 1849, p. 4).
Fontes memorialísticas também auxiliam o estudo no contexto da recepção da obra. Neste sentido, a narrativa de Serafim Santiago, rememorando os festejos do 24 de outubro em 1874 ou 1875 (o autor não deu precisão), o hino foi entoado pelo menos cinco vezes em uma mesma festividade:
Dadas as 8 horas no relogio, ouvia-se o sino da Matriz tocar 8 badaladas festivas do estylo e começar logo a repicar. O caboclo cantava 3 versiculos do imortal Hymno Sergipano; findo este sublime cântico, reboavam aos ares com vivas estrepitosas, as gyrandolas de foguetes, com as ovações populares. [...] No fim do último repique a musica tocava bonitas marchas. Terminadas as vésperas do estylo na porta da Matriz, seguia o caboclo, acompanhado da musica, os cavaleiros da encamisada e a multidão até o palanque. [...] O caboclo cantava todos os versos do Hymno Sergipano. Os cavaleiros que compunham as encamisadas, continuavam a percorrer as ruas da Cidade, dando vivas a S. M. Imperial, a Emancipação política da Provincia [...]. As 3 e ½ horas da madrugada, ouvia-se o subir de uma grande gyrandola de foguetes na porta do Amparo. [...] Dadas as 5 horas da manhã, ouvia-se primeiramente a corneta tocar alvorada, em seguida repicavam os sinos da Matriz e a Musica tocava o Hymno Sergipano e subiram muitas gyrandolas [...] Acto continuo, chegava o menino vestido de caboclo, acompanhado de uma comissão, e era logo por esta, colocado no Throno do mencionado carro, subindo na mesma ocasião os músicos, flautistas e violinistas que se collocaram em assentos laterais ao pé dos degraus do referido Throno, aguardando o momento de ferir o tom e acompanhar o caboclo no cântico do Hymno. [...]. Findo este sublime cântico, as autoridades competentes levantavam com enthusiasmo os vivas do estylo e eram correspondidos pela multidão [...]. Terminando o discurso do Benicio, subiram ao ar gyrandolas [...]. Descendo o carro, em procura da Matriz, ia parando em todos os arcos que encontrava, afim de satisfazer o fanatismo da população com um versículo do sublime Hymno Sergipano [...] (Santiago, 1920/2009, p. 288-291).
O evento ocorreu na cidade de São Cristóvão, que na época já não era mais a capital, teve duração aproximada de dois dias, com muita pompa, caráter cênico e música constante (Santiago, 1920/2009, p. 288).
Compare-se a narrativa das memórias de Santiago com a programação do evento, publicada no Jornal do Aracaju, referente ao ano de 1875
Programma dos festejos preparados para solemnisação do memorável dia 24 de Outubro na antiga capital desta província. / Na noite do dia 23, logo que as ruas da cidade estiverem iluminadas e que subi ao ar um balão, seguido de girandolas de fogo, os cavalleiros que se tem alistado para precorrel-as – lembrando o velho costume das encamisadas, se reunirão ao lado do palanque da praça Matriz, d’onde, incorporados, irão receber o seu companheiro que terá de conduzir o pavilhão sergipano, e continuarão o seu passeio por toda a cidade: Ao signal de outro balão e de foguetes soltos ao ar, se dirigião á arcada elevada á frente do theatro, d’onde desfillarão com a musica e o povo até a porta da [ilegível], para ser enthoado o hymno e dadas as salvas, expressões de veneração devida à Igreja;/ Isto feito, voltarão ao palanque d’aquella praça, onde subirão aos ares outros balões e girandolas de fogo e serão proferidas poesias e palavras expressivas do patriotismo e enthusiasmo de cada um; [...] (Jornal do Aracaju, 20 de outubro de 1875, p. 4).
Embora com menor ênfase, o hino também seria entoado, como símbolo cívico e ápice do festejo, reforçando a ideia de pertencimento. Ao que se pode concluir que, com o passar do tempo, a composição de Fr. Santa Cecília manteve-se atrelada aos festejos da Emancipação Política de Sergipe como elemento de destaque, apesar de algumas interpretações equivocadas sobre seu referencial. Para além de ser o símbolo patriótico de Sergipe, seu hino oficial, o Hino de Sergipe traz em sua música e em sua poesia a alegria de poder celebrar a emancipação. Ao lado de sua música, ficou também imortalizado o frade franciscano. Não é possível dissociar Fr. Santa Cecília da causa da Independência de Sergipe, e o fato não se deve especialmente aos ideais que ele próprio externou por meio da música e da oratória.
Embora o Hino de Sergipe seja a música mais emblemática de Fr. Santa Cecília, a investigação conseguiu identificar menções a outras composições do músico franciscano, tanto no âmbito da música sacra quanto num contexto mais amplos. A pesquisa em acervos musicais localizou o manuscrito de uma valsa denominada Rachel, de sua autoria. Além disso, jornais sergipanos publicaram a letra de dois hinos compostos por Fr. Santa Cecília e que tinham caído em esquecimento, possibilitando um maior conhecimento sobre sua obra. Em particular, a identificação de outros dois hinos relativos às questões políticas de sua época apontam para a postura atenta aos acontecimentos de seu tempo e também às redes de sociabilidade. Embora não sejam apresentados como hinos oficiais, são obras que reforçam o posicionamento de Frei José de Santa Cecília como religioso que se posicionava politicamente e ideologicamente.
Em 1840 D. Pedro II (1822-1891) chegava à maioridade, o fato teria motivado Frei José de Santa Cecília (naquele momento nomeado guardião do Convento São Francisco em São Cristóvão) a escrever um hino em homenagem à Coroação do monarca. A música foi oferecida ao então vice-presidente da Província, Joaquim Martins Fontes e publicada no jornal. Todavia, somente a letra foi encontrada a partir da pesquisa hemerográfica:
Santas Leis, valor, e Nome
São nosso firme Brasão;
C’roar veio nossa Gloria
Monarcha, Constituição
Faustoso Dia/Hés o Primeiro
Que feliz tornas/ O Brasileiro.
Sorrio no nosso Horizonte
O mais luzido clarão:
Ouviu-se a voz do Brasil
“Monarcha, Constituição”
Faustoso dia &
Esse grito do Ipiranga
Fez a nossa Exaltação
Hoje firmão nossa Gloria
Monarcha, Constituição.
O’ de Julho vinte e três,
Hés de Eterna duração,
Só tu deste o que faltava,
Monarcha, Constituição.
Serás sempre Glorioso
Na Brasilea geração:
Iltimárão nossos malles
Monarcha, constituição.
Troféos erguidos do Throno
Ao immenso voarão;
Foi o Céo, qu’ao Brasil deo
Monarcha, constituição.
Já provamos áureos Dons
De Liberdade, e União;
Ninguem possue como nós,
Monarcha, constituição.
Por seu muito Respeitador, Amigo e Capellão: Fr. José de Santa Cicilia, Franciscano (O Correio Sergipense, 9-12 de setembro de 1840).
A mensagem central do Hino à Coroação de D. Pedro II versa sobre a dignidade da monarquia, relaciona o sistema à existência da Constituição e reforça a suposta relação entre o monarca e o divino. O refrão – escrito como “Faustoso etc.” – sempre se articula entre as estrofes. O verso “Monarcha, constituição” sempre encerra a estrofes, fazendo referência à primeira Constituição Brasileira, outorgada por D. Pedro I em 25 de março de 1824. O referido hino é também um reflexo dos ideais monarquistas cultivados na época e tão presentes nos eventos realizados em São Cristóvão, onde as salvas ao imperador eram constantes e festejos a ele dedicados sempre ocorriam.
As redes de sociabilidade estabelecidas entre o frade e personalidades da política local foram igualmente observadas a partir de sua produção musical. Além do Hino da Coração do Imperador, que ele dedicou Presidente da Província Joaquim Fontes, Frei Santa Cecília participou da solenidade dedicada ao aniversário do Imperador Pedro II, na função de sacerdote orador. Em sua pregação expôs seu apoio ao Império brasileiro. Neste âmbito, a narrativa hemerográfica divulgou alguns traços da atividade musical que acompanhava a cerimônia, como um solene Te Deum, no qual o frade estabeleceu uma comparação entre Pedro I e o Rei Davi, atribuindo-lhes várias qualidades (O Correio Sergipense, 30 de julho de 1842, p. 1)
Esse levantamento se alinha à afirmação de Oliveira Telles (1900) de que Frei José escreveria muitos hinos: “muitos cantos patrióticos cahiram do bico de sua penna” (Telles, 2013, p. 65), ratificando sua fidelidade ao regime imperial, mas também sua articulação social e política. Destaque-se que há uma menção ao Frei Santa Cecília no Diário da Viagem Imperial à Província de Sergipe, realizada por Pedro II em 1860. No documento consta “Foi neste convento que residiu um religioso, fallecido o anno passado, que poucos minutos antes de expirar compôs uma poesia. Chamava-se Frei José de Santa Cecília” (Galvão, 1860, p. 103).
Outro hino patriótico escrito pelo franciscano foi o da mudança da capital, que ele dedicou ao então presidente da Província Ignacio Barbosa, e cuja letra foi publicada pelo Correio Sergipense (13 de junho de 1855, p. 4). O hino foi interpretado pelo próprio Frei José de Santa Cecília na ocasião em que celebrava a mudança da capital, no dia 17 de março de 1855 (Correio Sergipense, 13 de junho de 1855, p. 4).
5. Considerações Finais
A pesquisa sobre Frei José de Santa Cecília vem ampliado a compreensão sobre o religioso, para além de suas múltiplas funções naquela sociedade. A investigação sobre suas composições, especialmente do Hino de Sergipe, aponta para uma personalidade crítica, de certo modo imparcial (no sentido da política partidária), mas idealista, capaz de se posicionar em relação à conjuntura política, fazendo-o inclusive por meio da música.
A análise das fontes confirma a relação entre o Hino de Sergipe e a ópera L’italiana in Argel, de G. Rossini. A hipótese de que a escolha composicional do frei Santa Cecília teria sido ideologicamente criteriosa e não arbitrária encontrou embasamentos, embora não definitivos. Além disso, intensifica também a ligação da figura de Frei Santa Cecília com a Emancipação de Sergipe. Os acontecimentos políticos e o posicionamento exposto no sermão de 1836 dialogam com o libreto da ópera de Rossini, que converge com o pensamento liberal de Frei José de Santa Cecília, ampliando assim a compreensão em torno no hino, para além da discussão sobre plágio.
A pesquisa documental, base para este estudo, reforça a importância das fontes para a Musicologia, ao mesmo tempo em que a escassez de documentos sobre o Frei José de Santa Cecília, especialmente sobre sua produção musical e literária dificultaram nossa investigação, suscitando vários questionamentos que perpassam a autoria do hino e limitaram a análise musical. A pesquisa hemerográfica e a historiografia local foram essenciais. Essa mesma historiografia sergipana confere ao frade sergipano a qualidade de um compositor profícuo, ao passo que a pesquisa hemerográfica permitiu ampliar o escopo de obras compostas pelo Frei Santa Cecília e observar, por meio dos hinos patrióticos, alguns ideais e possíveis redes de sociabilidade.
A análise sobre Frei Santa Cecília e sua música tem colaborado com a compreensão do contexto histórico e político de Sergipe oitocentista, reforçando a importância da música e do músico para aquela sociedade, de modo que não apenas a reflete, mas interferindo na mesma. Não se trata, portanto, de uma tentativa de classificar o músico em determinada “caixa”, ou de conferir-lhe ideologias partidárias, apesar do cenário conturbado em que viveu. É possível compreender que houve um momento em que o frade se apresentou como um religioso com forte posicionamento e com postura desafiadora em meados de 1830 e outro momento, alguns anos mais tarde, em que se mostra mais articulado, escrevendo e oferecendo hinos a personalidades importantes para a cena política local. Independente disso, percebe-se o frei músico como uma pessoa que sabia se posicionar, indo além da rivalidade dos partidos.
As músicas de Frei José de Santa Cecília levantadas até o momento caminham em paralelo com a história de Sergipe, refletindo-a. O frade viria a falecer no dia sete de setembro de 1859, em meio às comemorações da independência do Brasil, em sua cidade natal. Sua obra revela sua personalidade instigante e situa Sergipe no âmbito da política nacional, reforçando a ideia de que tudo é política, inclusive a música.
Referências
- ANTÔNIO, Edna Maria Matos. A Independência do solo que habitamos: poder, autonomia e cultura política na construção do Império Brasileiro. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2012.
- BITTENCOURT, Manoel Liberato. Homens do Brasil. 2. ed. Edição organizada por Luiz Antonio Barreto. Rio de Janeiro: Typ. Gomes Pereira, 1917.
- CARVALHO, José Murilo de. A Monarquia Brasileira Editora Ao livro Técnico, 2008.
- CORREIO MERCANTIL. Theatro Publico. Correio Mercantil, 24 de julho de 1839, p.4. Anno VI. N°. 156.
- CORREIO MERCANTIL. Theatro Publico. Correio Mercantil, 07 de setembro de 1838, p. 4, Ed. 551 Vol. 3.
- CORREIO SERGIPENSE. Discripção dos Festejos do Dia 07 de Setembro. Correio Sergipense, São Cristóvão, Ano III, Ed. 218, de Setembro de 1840, p. 2-3.
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Disponibilidade de dados:
Os dados estarão disponíveis mediante solicitação.
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Modalidade de avaliação:
Duplo-cega por pares.
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1
OMF significa Ordem dos Frades Menores (Ordo Fratrum Minorum), fundada por São Francisco de Assis, em 1209.
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2
A tese é intitulada De “Itália Sergipense” a “Relicário de Saudade”: música em São Cristóvão Provincial (1820-1889) (MACIEL, 2021). Referência completa ao final deste artigo.
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3
A Revolução (1836) foi ocasionada pela “tentativa de elevar a povoação de Maroim à vila, em detrimento de Santo Amaro” (Dantas, 2016, p. 36). Os interesses econômicos por trás disso advinham das disputas entre os dois partidos, que tinham interesses políticos e econômicos sobre o escoamento do açúcar. Sebastião de Almeida Boto (1802-1884) conseguiu criar um grupo com o qual exercia forte influência política sobre a Província, em favor de seus interesses econômicos (Dantas, 2016, p. 36). Ocorreu que, mesmo após a lei provincial de 17 de janeiro de 1835, que passava a sede da vila de Santo Amaro para Maruim, os beneficiados com a ação continuaram com uma série de atentados à cidade de Santo Amaro. Sob o comando de Almeida Boto, a vila de Santo Amaro foi invadida, saqueada e vários dos habitantes não conseguiram fugir, assassinados. O povo de Santo Amaro revidou o ocorrido. Após intervenção da força do Governo, a situação se amenizou. A partir de então, os antigos partidos mudaram de nome (Freire, 1891/2013, p. 363).
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4
Um estudo de cariz biográfico sobre Frei José de Santa Cecília pode ser conferido no artigo intitulado Frei José de Santa Cecília: um estudo da atividade musical do religioso sancristovense a partir de fontes hemerográficas e documentais. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, 2020.
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5
Essa investigação passou por diferentes arquivos de Aracaju (SE), a saber: Arquivo Público do Estado de Sergipe, Biblioteca Pública de Sergipe, Arquivo do Judiciário e Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Em nenhum destes locais foi possível encontrar qualquer referência ao Hino de Sergipe, embora tenham sido consultados documentos de diferentes naturezas, entre documentos oficiais, jornais e partituras. No Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe não foi possível realizar pesquisa na hemeroteca ou no acervo de documentos gerais, pois o prédio encontra-se em reforma há mais de dois anos. O levantamento digital no site da Hemeroteca Digital Nacional, no site Center of Research Libraries (CRL), e na base de dados da Universidade Federal de Sergipe não encontrou edição alguma que trouxesse informação sobre o Hino de Sergipe, nem sobre o festejo de 24 de outubro de 1936, no qual ele supostamente teria sido lançado, nem mesmo sobre sua oficialização em 1839. A busca pelas fontes primárias mencionadas no texto de Aglaé Fontes não obteve êxito até o momento.
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6
“No ano 2000, a Mesa Diretora da Assembleia Legislativa (AL) alterou o artigo 47 da Constituição Estadual em que era estabelecido que a Emancipação Política do Estado fosse comemorada duas vezes ao ano: 8 de julho e 24 de outubro. Através da Emenda Constitucional, apenas o 8 de julho ficou como data oficial de celebração. A decisão vigorou, pois, a AL concluiu que a data que deveria permanecer seria o dia em que D. João VI assinou o decreto de emancipação”. Disponível em: <https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra;jsessionid=5E0BF8CFE4D6448E8281D55F32B14321.proposicoesWebExterno1?codteor=1731973&filename=REQ+1182/2019. Acesso em: 22 de maio de 2020.
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7
OLIVA, Terezinha In MELO, Tatianne Santos. Sergipe: um estado adormecido. Disponível em: < http://jlpolitica.com.br/reportagem-especial/sergipe-um-estado-adormecido-a-beira-dos-200-anos. Acesso em: 22 de maio de 2020.
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8
Debates a esse respeito surgiram em Sergipe em 2018. Disponível em: <https://al.se.leg.br/hino-de-sergipe-matos-se-reune-com-uchoa-para-conhecer-projeto-sobre-mudanca-na-letra/. Acesso em 05 de mar. 2020.
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9
A edição está disponível no IMSLP, pelo link: https://imslp.org/wiki/L%27italiana_in_Algeri_(Rossini,_Gioacchino). Acesso em 10 nov. 2024.
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10
Disponível em: <https://imslp.org/wiki/L'italiana_in_Algeri_(Rossini%2C_Gioacchino)>. Acesso em: 10 mar. 2020.
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11
Disponível em: <https://imslp.org/wiki/L'italiana_in_Algeri_(Rossini%2C_Gioacchino)>. Acesso em: 10 mar. 2020.
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12
O texto da pregação do frei aqui apresentado foi transcrito por Luís José da Costa Filho, a partir do discurso proferido por Fr. Santa Cecília. Segundo o autor, “a peça oratória foi dada a estampa em folhetos na ‘Typographia Patriotica da Villa Constitucional da Estancia’ sendo publicada no ‘Recopilador Sergipense’ em 1833 (Costa Filho, 1920, p. 84).
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13
De forma muito sintética, pode-se dizer que a trama gira em torno de Mustafá, um Bei turco, que deseja livrar-se de sua esposa Elvira, casando-a com seu escravo Lindoro (um italiano capturado pelos turcos). Isabella, que amava Lindoro, é uma das personagens centrais da trama, muito além de uma protagonista convencional à época, trata-se de uma mulher forte, destemida e perspicaz, que havia partido em busca de resgatar o seu amado, acaba naufragando e sendo também capturada por Mustafá, que dela se encanta. De forma inteligente Isabella consegue, ao final da ópera, livrar-se de Mustafá, escapando com Lindoro, mas também liberta seus compatriotas daquele cativeiro.
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14
Tensões estas que viriam a se intensificar no século XX com a ocupação francesa no território norte africano, findando com a independência da Argélia em 1950, após conflitos sangrentos.
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15
Disponível em: https://fabianacrepaldi.com/2019/08/04/litaliana-in-algeri/ Acesso em 17 de fevereiro de 2024.
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16
Neste estudo considera-se a distinção entre “público” e “receptor” proposta por Robert Jauss (1976). Entende-se como aspectos distintos os comentários do redator no relato jornalístico (ou seja, sua própria impressão sobre a obra) e também o panorama em que a obra aparece nas notícias, buscando observar a frequência com que foi apresentada, os períodos e todo o contexto do relato.
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17
Mark Everist diferencia Wirkung (efeito) como os aspectos textuais e musicais do processo, de Rezeption (recepção) como sendo referente ao destinatário da obra. No original: In reception theory, Wirkung (effect) focuses on the textual and musical aspects of the process, while Rezeption (reception) addresses the reader – in th broadest sense, the recipiente of the text. In: EVERIST, Mark. Reception Theories, Canonic Discourses, and Musical Value. In: In: COOK, Nicholas; EVERIST, Mark (Org.). Rethinking Music. Nova York: Oxford University Press, 2001, p. 378-402.
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Editor Responsável:
Dr. Vinícius Eufrásio.
Os dados estarão disponíveis mediante solicitação.


















