Open-access Junho e anti-Junho: efeitos das narrativas de protestos nas trajetórias de jovens ativistas em Salvador1

June and Anti-June: effects of narratives of protests on the trajectories of young activists in Salvador

Junio y anti junio: efectos de las narrativas de protestas en las trayectorias de jóvenes activistas en Salvador

Juin et anti-Juin : effets des récits sur les manifestations auprès des jeunes militants à Salvador

Resumo

Este artigo analisa as consequências das narrativas sobre os protestos de junho de 2013 em trajetórias militantes, a partir de 20 entrevistas em profundidade com jovens ativistas de esquerda, de direita e do movimento negro da área da cultura na cidade de Salvador. Identificamos que as interpretações das Jornadas de Junho consolidaram o que chamamos de “anti-Junho”, uma imagem que guiou esses jovens nos protestos entre 2015 e 2018 apontando outras formas de ativismo, como a adoção de atos de rua menos contenciosos por parte da direita, a institucionalização das pautas da esquerda militante e o afastamento do movimento negro das disputas políticas nacionais. O caso analisado demonstra como as narrativas de protestos informam cadeias de causalidade que explicam efeitos não intencionais nas trajetórias militantes.

narrativas em movimentos sociais; consequências de protestos; trajetórias militantes; jovens ativistas; junho de 2013 no Brasil


Abstract

This article analyzes the consequences of narratives about the June 2013 protests in Brazil on trajectories of activists. It is based on twenty in-depth interviews with young left-wing, right-wing, and Black cultural activists in the city of Salvador. We found that the interpretations of the June protests consolidated what we call “anti-June”, an image that guided these young people in protests between 2015 and 2018. This led to other forms of activism, such as the adoption of less contentious street protests by the right, the institutionalization of the agendas of the militant left, and the distancing of the Black movement from national political disputes. The case analyzed demonstrates how narratives of protests informed chains of causality that explain unintended effects on the trajectories of activists.

narratives in social movements; consequences of protests; trajectories of activists; young activists; June 2013 in Brazil

Resumen

Este artículo analiza las consecuencias de las narrativas sobre las protestas de junio de 2013 en las trayectorias militantes a partir de veinte entrevistas en profundidad con jóvenes activistas de izquierda, derecha y movimiento negro en el área de la cultura en la ciudad de Salvador. Identificamos que las interpretaciones de las jornadas de junio consolidaron lo que llamamos “antijunio”, imagen que guio a estos jóvenes en las protestas entre 2015 y 2018, señalando otras formas de activismo, como la adopción de actos callejeros menos conflictivos por la derecha, la institucionalización de las agendas de la izquierda militante y el alejamiento del movimiento negro de las disputas políticas nacionales. El caso analizado demuestra cómo las narrativas de las protestas informan cadenas de causalidad que explican efectos no deseados en las trayectorias militantes.

narrativas en movimientos sociales; consecuencias de las protestas; trayectorias militantes; jóvenes activistas; junio de 2013 en Brasil

Résumé

Cet article analyse les conséquences des récits concernant les manifestations de juin 2013 sur les trajectoires militantes à partir de vingt entretiens approfondis avec de jeunes militants de gauche, de droite et du mouvement noir dans le domaine de la culture de la ville de Salvador. Nous avons identifié que les interprétations des journées de juin ont consolidé ce que nous appelons « anti-Juin », une image qui a guidé ces jeunes dans les manifestations entre 2015 et 2018, en soulignant d'autres formes d'activisme, comme l'adoption d'actes de rue moins contestataires par la droite, l’institutionnalisation des agendas de la gauche militante et le retrait du mouvement noir des conflits politiques nationaux. Le cas analysé démontre comment les récits sur les protestations éclairent les chaînes de causalité qui expliquent les effets involontaires sur les trajectoires militantes.

les récits dans les mouvements sociaux; les conséquences des manifestations; trajectoires militantes; jeunes militants; Juin 2013 au Brésil

Introdução

Por quê? Como? O quê? Onde? Quem? Para quê? Após 11 anos das Jornadas de Junho de 2013, cada um desses interrogantes ainda rende minuciosos debates e, aparentemente, ainda está longe de ser respondido de maneira conclusiva tanto pela literatura acadêmica especializada quanto pelos comentadores políticos de mais amplo alcance. O evento “esfinge” (Carlotto, 2013; Quadros et al., 2017) segue devorando tempos e páginas, consumindo seminários universitários, conversas informais, colunas de jornais e artigos acadêmicos.

Ano após ano, voltamos a junho para buscar entender o que pode ser resumido da seguinte forma: como um evento impulsionado por setores progressistas, com demandas democratizantes de ampliação de direitos e protagonizado por movimentos autonomistas horizontais, pôde marcar o início de uma era política de ascensão da extrema direita e do conservadorismo, com uma atuação cada vez mais institucionalizada dos setores da esquerda? As respostas têm sido múltiplas e variam desde a constatação de que esses dois fenômenos (Junho e o contexto político posterior, sobretudo a ascensão da direita) não têm relação necessária (Medeiros, 2023; Ribeiro; Montero, 2023; Rocha, 2023) até a defesa de que tudo não passou de um episódio de guerra híbrida imperialista (Mendes, 2023). Nesse debate, posicionamo-nos no campo intermediário de comentadores: aqueles que defendem que eles estão relacionados não por uma causalidade simples, com intencionalidades nítidas, mas sim por um processo complexo que combina fatores conjunturais, estruturais e agências políticas (Bringel, 2022; Mendonça; Domingues, 2022). É na investigação de uma dessas cadeias de causalidade, localizada nas narrativas de diversos ativistas sobre Junho e como elas moldaram a conduta política posterior desses ativistas, que se encontra a principal contribuição deste artigo.

Analisamos aqui os efeitos dos protestos ocorridos em 2013 nas trajetórias militantes de 20 jovens na cidade de Salvador durante os cinco anos seguintes. O período é marcado inicialmente pelas Jornadas de Junho de 2013, passa pelos protestos a favor e contra o impeachment de Dilma Rousseff em 2015 e 2016, e termina com a eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República em 2018, evento também acompanhado por manifestações de rua consideráveis.

Sem ter a pretensão de oferecer uma perspectiva encerrada sobre as Jornadas de Junho, este artigo defende que as interpretações desse evento nos anos seguintes consolidaram uma imagem que chamamos de “anti-Junho”. Essa imagem guiou jovens ativistas de diversas perspectivas ideológicas e pautas, que, mesmo quando se sentiam orgulhosos por terem participado das jornadas, buscaram evitar os seus “erros”, apontando para formas alternativas de militância que superariam suas limitações5.

Metodologicamente, este artigo aborda a atuação política de jovens ativistas da cidade de Salvador (BA) que participaram de protestos entre 2013 e 2018, fruto de uma pesquisa mais ampla sobre juventude e memória6, em que foram entrevistados jovens de três perfis: 1) participantes de grupos de esquerda mais tradicional, com militância concentrada no movimento estudantil; 2) militantes do movimento negro vinculados à cultura, atuantes em coletivos de poesia, teatro marginal, e iniciativas de educação popular e comunitária; e 3) ativistas que se identificam com posições socialmente conservadoras e economicamente liberais, organizados em partidos, como o Democratas (DEM)7, movimentos da nova direita ou independentes8. Ao todo, foram realizadas entrevistas com 20 ativistas (sete do primeiro perfil, seis do segundo e sete do terceiro), que duraram em média uma hora e meia. As entrevistas foram realizadas entre dezembro de 2017 e março de 2020.

Como a intenção da pesquisa era avaliar o impacto dos protestos nas trajetórias de militantes jovens e assim, indiretamente, contribuir para uma análise dos movimentos políticos como um todo nos últimos anos no Brasil, era importante entrevistar ativistas que se identificassem com os dois polos ideológicos predominantes no país a partir de 2013: a esquerda e a direita, respectivamente guiadas pelo petismo e pelo bolsonarismo, mas não inteiramente contidas nesses. Com a limitação do tempo e do escopo da pesquisa, escolheu-se um terceiro grupo que é pouco investigado em estudos de protestos políticos: o movimento negro. Apesar de se encontrar no espectro da esquerda, o movimento negro em Salvador possui uma particularidade: a denúncia constante da política de segurança pública da Bahia, governada há quase duas décadas pelo PT, que, ao invés de diminuir, aumentou a violência estatal contra jovens negros (Santana, 2023). Assim, esses jovens possuem uma perspectiva mais crítica da esquerda institucional e, com isso, do sistema político como um todo, aproximando-os dos jovens de posições autonomistas estudados por outros trabalhos sobre protestos.

O recorte da cidade de Salvador também traz novidades para os estudos de protestos recentes. Primeiro, como o terceiro grupo de militantes selecionado já aponta, a cidade também oferece um recorte racial mais nítido à análise: com 80% da sua população autodeclarada negra (pretos e pardos), questões raciais marcam inequivocadamente as relações da sociedade civil com o Estado. Segundo, a cidade é considerada tanto um eixo da esquerda tradicional brasileira nos últimos anos, especificamente do petismo que governa o estado da Bahia, quanto da direita tradicional por meio do DEM (Democratas), hoje União Brasil, herdeira política de Antônio Carlos Magalhães (ACM), que administra a prefeitura desde 2012. Ou seja, as manifestações políticas da cidade, apesar de trazerem especifidades, são bastante pautadas pelos humores nacionais. Por fim, trata-se de um estudo de caso fora do eixo Rio-São Paulo, o que evita o que alguns chamaram de viés “sudestecêntrico” (Tavares; Roriz; Oliveira, 2016) dos estudos sobre protestos no país.

Após esta introdução, o artigo se desdobrará em quatro seções. Primeiramente, abordaremos as interpretações correntes sobre Junho e como a academia brasileira tem tratado do tema até o momento. Em seguida, discutiremos como as consequências de protestos têm sido pensadas pelos teóricos de movimentos sociais e como podem ser combinadas com uma crescente literatura voltada a investigar a importância das narrativas no estudo da ação coletiva. Por fim, apresentaremos as narrativas dos nossos entrevistados sobre as manifestações de junho de 2013 e analisaremos como elas impactam os entendimentos das manifestações mais polarizadas dos anos seguintes (impeachment de Dilma em 2015 e 2016 e eleições de 2018), em que se expressou o que chamamos de “anti-Junho”.

As interpretações de Junho

Mais de dez anos após a efervescência das Jornadas de Junho de 2013, suas origens, características e, sobretudo, consequências ainda são objeto de intenso debate tanto na academia quanto fora dela. Acompanhando Pérez (2021), é possível analisar as abordagens acadêmicas sobre as jornadas de junho a partir das suas causas, caracterizações e impactos.

Com relação às suas causas mais profundas, alguns autores enfatizam como as jornadas expressaram uma mudança de expectativas da população jovem no país, que passaram a almejar mudanças “pós-materialistas” (Singer, 2013, p. 38) que visariam uma melhoria na qualidade de vida. Com um argumento mais estrutural, Purdy (2019) identificou nas jornadas a emergência de um novo proletariado formado sob os anos lulistas, com alto nível de escolarização, mas empregos precários. As jornadas também foram descritas como resultado da abertura de oportunidades políticas criadas pela onda de protestos globais a partir de 2010, pela realização da Copa do Mundo no Brasil em 2014, que abriu a discussão sobre prioridades de gastos públicos, e pelo enfraquecimento do Partido dos Trabalhadores (PT) (Bringel; Pleyers, 2015; Alonso; Mische, 2017). Para outros autores, as jornadas representariam também a expressão de uma longa cadeia de lutas pelo direito à cidade, em especial a luta pelo transporte público, que compõem as tensões do desenvolvimento da cidadania urbana no Brasil (Monteiro, 2023; Rolnik; Andrés, 2023). Por fim, outras análises apontam as jornadas como a expressão de uma crise da representação do sistema político brasileiro (Nobre, 2013; Silva, D. P., 2018; Devos; Walker; Porciúncula, 2021), já que trazem de maneira mais ou menos implícita uma consequência profunda das jornadas no período político posterior: a reorganização da política no país em novas bases.

Com relação à caracterização das Jornadas de Junho, do ponto de vista ideológico, prevalece a perspectiva de que houve uma divisão em dois principais campos de ação estratégica, que apresentam respostas opostas a frustrações parecidas: um à esquerda do governo do PT, apontando para a ampliação de direitos sociais, e outro, à direita, propondo a diminuição do Estado (Alonso; Mische, 2017). Mais recentemente, essa perspectiva se desenvolveu para o entendimento de Junho de 2013 como um mosaico de lutas diferentes, expressão de diferentes “zonas de conflito” (Alonso, 2023) ou “lutas de fronteira” (Rolnik; Andrés, 2023; Medeiros, 2023). Para além dessas divisões, as jornadas também foram descritas como um momento de “abertura societária”, com o surgimento de novos ativismos e o questionamento de formas de militância tradicionais, como sindicatos e partidos políticos (Bringel; Pleyers, 2015). De maneira análoga, alguns autores sugerem a emergência de “novíssimos movimentos sociais”, distantes das instituições e marcados por autonomia e horizontalidade (Augusto; Rosa; Resende, 2016; Gohn, 2017).

Com relação aos impactos, Junho de 2013 foi visto como um divisor de águas, uma movimentação de “placa tectônica” (Singer, 2013, p. 24), que deixou “a sensação permanente de que algumas coisas estão fora de lugar no nosso sistema político” (Nicolau, 2018, p.7). Após as jornadas, houve uma ampliação de reivindicações voltadas para o “governo e o sistema político” (Tatagiba; Galvão, 2019, p. 85) e, ainda que a pluralização de atores e pautas possa ser entendida como positiva para a democracia, muitos vincularam as jornadas a um ressentimento da classe média, que causou o avanço do conservadorismo e do autoritarismo (Haddad, 2017). Para Marcelo Kunrath Silva (2018), as Jornadas de Junho foram interpretadas como uma oportunidade política por contramovimentos conservadores, já que as direitas, nas palavras de Tatagiba (2018, p. 114), “souberam ler o ‘espírito de junho’ e renovaram o seu repertório de ação, até então restrito à lógica eleitoral e ao lobby, para incluir o confronto político”. Enquanto os movimentos de juventude mais autonomistas, setores que também emergiram com força em 2013, perderam força no espaço público, o campo da direita cresceu e protagonizou, em 2015 e 2016, os maiores protestos desde a redemocratização do país (Tatagiba, 2018). Mais recentemente, tornou-se lugar-comum o entendimento de junho de 2013 como o “ovo da serpente” (Dieguez, 2022), que teria aberto as porteiras para a reorganização da direita a partir da pauta anticorrupção, com trabalhos que chegam a entender o evento como uma “guerra híbrida” ou “revolução colorida” orquestrada por forças imperialistas para desestabilizar um governo de corte progressista (Mendes, 2023). Sem afirmar uma causalidade simplista, outros trabalhos mais recentes têm examinado como protestos democratizantes, como os de junho no Brasil, abriram espaço para uma política mais autoritária quando combinados com outros fatores políticos e sociais (Mendonça; Domingues, 2022) e reorganizaram os campos de ação e confronto político no país, tornando a esquerda mais defensiva e a direita mais ativa (Bringel, 2022, p. 166).

É com base nesse pano de fundo que desenvolvemos o argumento deste artigo. Acompanhamos as análises que apontam que a conjuntura recente de avanço do autoritarismo no Brasil pode ser parcialmente explicada a partir dos desdobramentos de junho, mas elas revelam pouco sobre como isso ocorreu. Assim, o objetivo geral é investigar como preferências e entendimentos políticos sobre o Brasil foram afetados pelas narrativas sobre os protestos, ou seja, analisar o efeito indireto dos protestos na construção das subjetividades políticas. A investigação dessas questões corresponde à virada cultural dos estudos de movimentos sociais, na qual emoções, narrativas e percepções dos atores têm sido enfatizadas (Goodwin; Jasper; Polletta, 2001). Assim, as entrevistas em profundidade, que abordam as narrativas dos ativistas acerca de suas trajetórias e posições ideológicas, são essenciais para entender processos de construção de subjetividade e identidade política. Seguindo as já consagradas proposições de Melucci (1988), ao entendermos a ação coletiva como algo além dos eventos de protesto, precisamos investigar formas de interação e de construção de sentidos que estão por trás da ação visível.

Muitos estudos sobre protestos recentes têm como fonte empírica principal dados de jornais ou dados secundários de outras fontes publicadas (Alonso; Mische, 2017; Tatagiba; Galvão, 2019; Singer, 2013), que permitem uma importante combinação de dados quantitativos e qualitativos e revelam tanto o número dos eventos de protestos como suas principais pautas e organizadores. Contudo, notícias jornalísticas são limitadas para entender processos mais subjetivos de formação de identidades militantes e afiliações políticas. Por outro lado, os trabalhos existentes voltados à formação de subjetividades têm se focado em grupos ideológicos específicos, sobretudo o Movimento Passe Livre (MPL) (Judensnaider et al., 2013; Lopes, 2019; Santos, 2018), mas também grupos da nova direita (Rocha, 2019). Isso torna esses trabalhos limitados para se efetuar uma análise relacional desses processos políticos, central para entender o contexto do surgimento e a força de determinados atores (Bringel, 2022; Silva; Pereira, 2020). A contribuição deste artigo, portanto, é apresentar um cruzamento de trajetórias individuais em perspectiva relacional, analisando como suas pautas e subjetividades se transformaram em reação aos outros grupos e acontecimentos que se estenderam de 2013 a 2018.

Os efeitos dos protestos por meio das narrativas dos participantes

Apesar de o estudo das consequências dos movimentos sociais já ser uma agenda de pesquisa internacional consolidada (Giugni; McAdam; Tilly, 1999; Earl, 2000), só muito recentemente essa reflexão passou a ser mobilizada para entender o contexto brasileiro (Lima; Pannain; Martins, 2023; Carlos; Dowbor; Albuquerque, 2017, 2021). Trata-se, portanto, de um campo ainda pouco explorado, com potencial para iluminar processos políticos e refletir sobre o papel do ativismo nas mudanças sociais ocorridas historicamente no país.

Neste artigo, mobilizamos sobretudo a noção de efeitos de eventos de protestos, que têm especificidades se comparados aos efeitos de movimentos sociais de maneira mais ampla (McAdam, 1989; Fillieule, 2012). Em um trabalho seminal, Doug McAdam (1989) discute as consequências biográficas de longo alcance da participação de ativistas no projeto Freedom Summer, em 1964, no Mississipi, mapeando a forma como esse evento marcou suas escolhas políticas, pessoais e profissionais nas décadas seguintes. Mais recentemente, Olivier Fillieule (2012) se debruçou sobre os efeitos psicológicos de manifestações de rua (demonstrations), e enfatizou seus impactos socializantes sobretudo nas gerações mais jovens. No Brasil, a pesquisa de Gustavo Coelho (2020) sobre uma ocupação de escola de ensino médio em Porto Alegre faz um mapeamento da forma como esse evento (a ocupação) marcou quatro trajetórias ativistas e suas subjetividades políticas subsequentes. Neste artigo, essa literatura é relevante porque enfatiza a forma como eventos específicos, que muitas vezes podem durar apenas algumas horas, ou podem ser experiências de dias ou semanas, têm capacidade de mudar trajetórias individuais de maneira muito profunda.

Contudo, aqui não é nosso objetivo, inclusive pelo curto período de tempo que nos separa de junho de 2013, identificar seus impactos biográficos nas trajetórias pessoais de nossos entrevistados, mas sim entender como Junho informou sua militância política posterior para assim compreender melhor as disputas que se estabeleceram no país nos anos subsequentes às jornadas. Investigamos, portanto, um dos eixos apontados por Fillieule como promissores para pesquisas futuras: a avaliação do grau em que “a participação efetiva em manifestações transforma padrões individuais de pensamento e comportamento políticos” e a descrição das formas em que isso ocorre (Fillieule, 2012, p. 245). Assim, no vocabulário cunhado por Jennifer Earl (2000), são mais interessantes para este artigo os impactos extramovimento relacionados aos efeitos políticos e culturais mais amplos e os impactos intramovimento mais relacionados ao próprio movimento (mudanças em identidades coletiva e padrões organizacionais) ou ao campo movimentista (continuidade temporal do movimento, influência em outros movimentos, criação de contramovimentos), do que os efeitos biográficos e pessoais nos ativistas.

Como discutido na seção introdutória, contudo, há divergências na caracterização das consequências de Junho. Isso nos leva a outro campo pouco explorado pela literatura: as consequências não intencionais de movimentos sociais (Deng, 2011; Giugni, 2008), que poderiam emergir no decorrer do processo político e ter conteúdo contrário ao desejado pelos ativistas9. Neste artigo, concordamos com o diagnóstico de que os protestos de junho levaram a consequências não intencionais, mas, para entender melhor como isso ocorreu, é necessário explorar com mais detalhe os nexos causais entre os protestos e seus efeitos. Em nosso caso, são as narrativas sobre os protestos que permitem traçar essas cadeias de causalidade: as mudanças políticas geradas a partir de junho advêm sobretudo dessas narrativas, que, muitas vezes, como veremos, se contrapõem até mesmo às experiências efetivas das jornadas.

Construídas posteriormente aos protestos, essas narrativas carregam os julgamentos e as costuras de sentido por trás das ações visíveis desses ativistas, conformando identidades políticas. As “narrativas fazem referência à sequência ou ao curso de acontecimentos concretos” que se relacionam entre si “temporalmente ou dentro de contextos causais” (Rosenthal, 2014, p. 186). Ao transformar eventos reais em imagens dotadas de “coerência, integridade, plenitude” (White, 1987, p. 24), o processo de reconstrução daquilo que as pessoas vivenciaram viabiliza a compreensão das referências para suas ações e em qual medida o que foi vivido constitui suas perspectivas atuais (Rosenthal, 2014).

No estudo de movimentos sociais, foram exploradas sobretudo pelo trabalho de Francesca Polletta (1998, 2006), que abordou o uso de narrativas em contextos de movimentos emergentes, nos quais elas ajudam no recrutamento de novos ativistas ao tornar familiar situações novas de risco e ambiguidade; em momentos em que movimentos enfrentam crises ou retrocessos, quando as histórias contadas ajudam a manter a coesão do grupo, normalmente confiando em repertórios culturais já arraigados; ou em processos de institucionalização de movimentos sociais, em que representantes políticos usam histórias desses movimentos para se legitimarem. No trabalho de Polletta (1998), as narrativas enfrentam uma tensão entre o uso de formas culturais dominantes e a busca por mudança social, mostrando-se, às vezes, limitadas para transmitirem conteúdos inovadores.

Polletta (1998) distingue narrativas de enquadramentos (frames), já que estes últimos normalmente são concebidos como resultados de ações intencionais de lideranças, que privilegiam mensagens claras de injustiça, agência e definição de identidades coletivas baseadas na distinção entre “nós” e “eles”. Narrativas, por outro lado, são mais abertas, podem informar ambiguidades e acobertar agências, enfatizando a espontaneidade dos protestos. As identidades coletivas não são somente definidas pelo grupo opositor, mas também pela história vivida em comum. Dentre as várias características das narrativas em contraposição a enquadramentos que a autora enumera, destacamos o enredo (plot), que se torna particularmente relevante para justificar a ação, já que “nós não atuamos com base na categorização do conhecimento (no exemplo de Polkinghorne [1988], ‘eu tenho 40 anos; eu deveria adquirir um seguro de vida’), mas sim pela localização de eventos no desenrolar de uma história de vida (‘eu fiquei sem fôlego semana passada, eu realmente deveria começar a pensar em seguros de vida’)” (Polletta, 1998, p. 421). Em um trabalho mais recente, que revisa a aplicação de metodologias de memória coletiva para os estudos de movimentos sociais, Iamamoto (2022) também dá destaque à análise das narrativas dos ativistas, que podem oferecer justamente uma dimensão diacrônica da sua ação coletiva e contribuir para entender como suas ações e suas percepções interagem no tempo.

No caso das narrativas sobre Junho, os enredos são particularmente importantes porque as jornadas são ordenadas em uma sequência lógica a partir dos eventos que as sucederam e raramente são julgadas somente pelo que ocorreu naqueles dias especificamente. Além disso, a ambiguidade e a abertura das narrativas, que são menos maleáveis e intencionais que os enquadramentos, conforme descrito por Polletta, as tornam campos mais férteis para a investigação das cadeias de causalidade que resultam nas consequências não desejadas dos protestos.

Assim, nas próximas seções, iremos abordar como os jovens ativistas narram sua participação nos eventos de protesto em Salvador, salientando suas motivações, caracterizações e seus entendimentos sobre os efeitos desses protestos no seu ativismo. Veremos como suas narrativas, que reconstroem as Jornadas de Junho, constroem a seguir uma imagem “anti-Junho”, informando novas normatividades, fazeres políticos e tarefas. Elas ainda apresentam ruídos e não estão completamente fechadas, dado que as interpretações de Junho ainda se encontram em disputa, mas em sua forma temporária já trazem consequências nesses cinco anos em que esta pesquisa se concentra.

Salvador, junho de 2013

Em Salvador, o primeiro ato das jornadas foi convocado para o dia 17 de junho, em solidariedade aos atos de São Paulo, que haviam sofrido forte repressão policial alguns dias antes, e contou com a participação de cerca de 10 mil pessoas (Movimento..., 2013). Ele foi convocado pelo movimento pela mobilidade urbana, que já havia protagonizado uma intensa mobilização, em 2003, pelo passe livre estudantil, a chamada Revolta do Buzú. Em seguida, assim como em outras localidades, os protestos na cidade passaram a enfatizar a insatisfação com os altos gastos com a Copa do Mundo. Especificamente, a construção da Arena Fonte Nova encareceu os preços dos ingressos e ameaçou comerciantes tradicionais do estádio, como as Baianas de Acarajé (Araujo, 2015). Realizado nas proximidades do novo estádio durante a Copa das Confederações, o segundo ato, de 20 de junho, que trouxe a crítica à Copa do Mundo de maneira central, foi reprimido intensamente pela polícia. Por fim, a terceira grande mobilização ocorreu no dia 22 de junho, na região da Avenida Antônio Carlos Magalhães, quando houve repressão policial novamente (Em 3º dia..., 2013).

Vários integrantes de coletivos de juventude e de partidos políticos de esquerda fizeram parte da composição dos atos de 2013, embora houvesse também muitos jovens de perfil apartidário. Dos grupos entrevistados, participaram das Jornadas de Junho a grande maioria dos ativistas da esquerda (6 entre 7), metade dos representantes do movimento negro e da cultura (3 de 6) e um pouco mais da metade dos ativistas de direita (4 de 7).

Os militantes da esquerda relatam uma participação bastante orgânica nos atos. Marcos Musse, militante do coletivo Pajeú e do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) – mas também ativista da mobilidade urbana de longa data –, participou desde a convocatória do primeiro ato, em 17 de junho. Ele, assim como outros manifestantes da esquerda organizada, relata uma convocatória inicial baseada na solidariedade às manifestações de São Paulo, denunciando sobretudo a violência policial10. A pauta do transporte urbano era interpretada de maneira mais ampla pelos grupos de esquerda: “A gente tentava fazer um debate com relação ao direito à cidade. Ou seja, tem que ir além da mobilidade, (...) aí tem a ver com direito à cultura, direito a ir e vir, essas coisas”, afirma Rafaela Cardoso, também militante do Pajeú e do PSOL11. Militantes da União da Juventude Socialista (UJS), organização vinculada ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Caio e Juliana Campos também se manifestaram mais favoráveis às pautas relacionadas ao transporte urbano e atuaram nas Jornadas de Junho de 2013 em Salvador para amplificar essa pauta12. Ou seja, esses militantes identificaram pautas claramente progressistas em junho e se mobilizaram para estar lá.

Por outro lado, as tensões relacionadas às críticas ao governo de Dilma Rousseff (PT) que emergiam nas manifestações já apareciam naquele momento. Juliana criticou os manifestantes que questionavam os altos investimentos na Copa, um tema que se tornou muito popular nas manifestações de Salvador: “Tinha muito o ataque ao governo Dilma. (...) A questão da saúde ter ‘padrão FIFA’, existia muito esse discurso de uma turma. Mas a gente entendia, (...) a organização que eu participava entendia, que o esporte também é importante, que a cultura também é importante”. Em um contexto em que a Copa era promovida por um governo federal da esquerda e por um Ministro do Esporte que era do próprio PCdoB, é compreensível que os ativistas desse partido tivessem essa avaliação.

Essas tensões também emergiram retrospectivamente, na análise posterior que se fez de Junho, e chegam a expressar certo arrependimento acerca das manifestações. Camila Nunes, hoje militante do coletivo Quilombo, próximo da juventude do PT, mas na época não organizada, relata que participou dos protestos carregando uma placa “não são só 20 centavos”. Para além da questão do transporte e das obras da Copa de maneira mais pontual, ela identificava uma insatisfação com os rumos do país: “era a ideia de que a gente precisava se mobilizar para que o Brasil não fosse por um caminho de corrupção e que ricos ficariam mais ricos e que pobres ficariam mais pobres e não acabariam desfrutando da riqueza que a nação tem”. Hoje, contudo, ela confessa ter mudado sua percepção, julgando que o país estava indo por um caminho “correto”, mas que não percebia isso na época13.

Para além da relação ambígua com o governo, expressada mais por ativistas vinculados ao PT ou ao PCdoB, jovens de esquerda demonstram de maneira geral certo estranhamento e espanto gerados pela imprevisibilidade ideológica dos protestos. O paradoxo vivido pelos ativistas da esquerda, de ter promovido protestos massivos, que representaram uma democratização das ruas e da política, mas sem conseguir dirigi-los, é refletido em suas falas. Para Rafaela Cardoso, “2013 foi um grande momento de volta às ruas, de disputar a rua como um espaço da política para qualquer pauta”. Caio expressa sentimentos de fascínio: “Quando eu cheguei na frente do [shopping center] Iguatemi não era uma movimentaçãozinha tradicional, pequena, era uma movimentação gigantesca, monstruosa”. Embora não houvesse “uma organização para poder coordenar as pautas”, “era uma coisa linda de se ver”, relata.

Apesar de o crescimento da direita não ter sido algo perceptível naquele momento, já que ativistas de esquerda eram a maioria nas ruas, esses jovens lamentam os desdobramentos políticos dos protestos. Juliana aponta que os setores da direita não estavam nos atos diretamente, mas disputavam seus rumos discursivos com a posição de “não tem que ter bandeira”, sobretudo na “grande mídia”. Rafaela concorda que era majoritariamente uma manifestação progressista: “como era um movimento de direita, se todos nós [da esquerda] estávamos nas ruas reivindicando coisas?”. Já Danielle Ferreira, do coletivo Quilombo e militante do PT, que na época era vice-presidente da UNE e estava em São Paulo, relata esse sentimento de incógnita e assombramento com o afloramento do conservadorismo:

Até hoje não é para mim uma leitura encerrada (...). [Junho] foi um divisor de águas no sentido do questionamento que precisava ser colocado na noção de direitos, (...) mas também nós tivemos um acesso a pensamentos muito conservadores e de uma relação talvez de violência (...). Eu acho que começamos muito mais a praticar a violência interpessoal a partir daquele momento, por conta dessa polarização14.

Caio sintetiza, por fim, os sentimentos da esquerda com relação a Junho: “tinha tudo para ser tudo e ao mesmo tempo ela não foi nada, entendeu? Porque, para frente disso, o que ficou foi um caldo político bizarro”.

A maioria dos jovens que hoje atua nos grupos de cultura com recorte antirracista também mencionou pautas progressistas para a atuação deles nos protestos, como a falta de investimentos em políticas sociais e a violência causada pelos grandes eventos. Vanessa Coelho15, do coletivo de poesia Zeferinas, lembra que se indignava com as verbas para a Copa e reclamava maiores investimentos públicos para a educação. Hugo Oliveira, que hoje dedica sua militância à Biblioteca Zeferina e Beirú, reclama também da ingerência da FIFA, que incentivou a gentrificação da cidade:

Na época, eu achava injusto a questão dos investimentos para a Copa do Mundo e toda a necessidade que a cidade teve de infraestrutura, de transporte, de condições de vida mesmo (…). Você estava vendendo a cidade pra FIFA. A FIFA estava mudando o perímetro que você podia passar, (...) com a retirada dos moradores de rua, o desaparecimento de muitos deles16.

Contudo, em comparação com os ativistas da esquerda, esses jovens manifestaram menos engajamento com as jornadas. Davi Mariston17, do coletivo de teatro Apombagem, confessa ter ido aos atos somente por curiosidade, enquanto Vanessa relata ter participado por influência de grupos de juventude da Igreja Católica de seu bairro. Ela ficou com uma impressão caótica dos atos, com uma “disputa de partido”, “muita desorganização, várias bandeiras” e uma carência de “liderança na manifestação”.

Hugo também concorda com esse diagnóstico e aponta que parte dos que estavam ali não tinha “pauta nenhuma”, que se “sentiram livres na rua pra expressar o próprio ódio, as coisas que são silenciadas no dia a dia”. “Eu percebi que aquele [foi] o momento meio que da revanche, [d]as pessoas liberarem várias coisas que estavam guardadas”, relata. Ele também lembra da atuação de grupos black blocs e das torcidas organizadas confrontando mais diretamente com a polícia, que atuava de maneira “truculenta”. Essa experiência combinada de indefinição de pautas e de enfrentamento direto da polícia fez com que ele se afastasse de manifestações políticas depois de 2013: “depois de tudo, percebi que não estava entendendo muito o que estava acontecendo. Perdi as energias. Também eu percebi que poderia ser perigoso esse caminho, perigoso no sentido de você apanhar, você ir preso, causar um transtorno”. Diferentemente dos jovens da esquerda mais tradicional, a frustração de Hugo com as manifestações vai além da ausência de pautas unificadas, mas se dá justamente pelo seu caráter massificado e imprevisível, que poderia levar a um embate desigual com as forças da ordem.

Já ativistas da direita apontaram a pauta da corrupção, sobretudo nas obras da Copa, como um elemento importante de mobilização. Uendell Nogueira, na época com cerca de 30 anos, não tinha uma identidade política definida em 2013. Ex-apoiador de Lula e dono de uma lan house, ele se beneficiou com a legislação do Microempreendedor Individual (MEI) e com a ampliação de créditos. Em 2013, chegou a participar brevemente do protesto nos arredores da Arena Fonte Nova: “Eu fui de uma forma muito sucinta, [...] não me envolvi muito porque eu não tinha muito conhecimento do que se tratava. Foi aí que eu fui para casa e comecei a fazer pesquisa”. Considera que sua principal motivação foi “a revolta com relação ao gasto público com relação à Copa do Mundo”, com valores “superfaturados”18.

Os militantes do DEM convergem em identificar a “corrupção” e a pouca “eficiência no uso do dinheiro público” como motivadores centrais para participar nos protestos, mesmo que a pauta desfavorecesse os partidos tradicionais: “A gente tinha uma pulverização de pautas e o que me levou naquele momento foi a pauta da corrupção, [...] a pauta realmente de tolerância zero com a corrupção, mesmo que fosse necessário cortar na carne”19. Eduardo20, também do DEM, relata que era crítico às manifestações no início, mas que percebeu, “no decorrer do processo”, a emergência de “discussões que nós temos no partido em torno de melhor eficiência no gasto público, um questionamento a uma postura autoritária do Estado, já que nós somos uma juventude principalmente com um viés mais liberal”.

Contudo, outros militantes da direita, que não participaram das manifestações, expressaram mais críticas com relação a Junho. Para Priscila Chammas21, hoje do Partido Novo, mas que na época não atuava de maneira organizada, Junho foi “meio bobeira, porque era uma manifestação por nada”. Izaque de Sena22, um jovem conservador sem filiação partidária, expressou opinião parecida, mas identificou nas manifestações uma certa rebeldia destrutiva característica da esquerda, que gosta de “incomodar”, “revolução pela revolução, o conjunto de nada pra fazer nada”.

Por outro lado, muitos militantes da direita viram nas manifestações uma oportunidade de reorganização. Membro do Movimento Brasil Livre e assessor parlamentar em São Paulo na época da entrevista, Ricardo Almeida não era organizado em 2013, apesar de já ser de direita, e participou das jornadas em Salvador como observador. Para ele, as manifestações marcaram a perda de hegemonia da esquerda das ruas:

O que me parecia mais interessante era o ponto da clivagem histórica da manifestação. Eu vi aquela manifestação que foi feita pela esquerda, e vi que a esquerda estava perdendo o controle. […] Claro, eu não imaginava que isso ia dar nas manifestações de 2015, não tinha a menor ideia23.

André, do DEM, tem uma avaliação positiva de 2013, como um momento em que as pautas da direita tomaram as ruas e se massificaram, marcando o início da reorganização da direita: “Nesse momento você acabou unindo grupos que estavam isolados, que não se conheciam, e, através dessa mobilização, passaram a se conhecer. Passaram a se encontrar através das redes sociais”.

O caso de Uendell Nogueira é ilustrativo desse processo de conversão política à direita após Junho, porque o jovem passou de uma posição simpática à esquerda para uma posição abertamente conservadora:

Antes de 2013, inclusive, eu não entendia por que eu tinha tanto ódio dos EUA (...) Eu comecei a fazer pesquisa. Nessas pesquisas eu tentava ponderar de qual fonte eu estava extraindo aqui, se era uma fonte de algum blog com viés ou de um lado ou de outro (...). Por exemplo, kit gay que se falava muito. Eu procurava conhecer o projeto, ver de quem foi, o que ele falava (...). O que eu acreditava antes era o que a gente sempre ouve até hoje, a questão do socialismo, “o socialismo é a divisão igualitária de renda, capitalismo é concentração de renda” (...). Eu fui vendo que a minha característica mesmo de essência era de direita liberal e eu fui começando a mudar a partir de 2013, vendo que as pautas que a esquerda lançava eram contra o que eu acreditava. Quando eu comecei a ver isso, foi que eu comecei a dizer “não, não quero isso pra mim”. Comecei a abrir os olhos.

Diferentes representações emergiram a partir da experiência dos ativistas de Salvador em junho de 2013. Enquanto a esquerda manifestou encantamento, mas também espanto e frustração com as manifestações, a juventude do movimento negro se sentiu apartada do espaço, identificando perigo, e ativistas da direita viram no evento caótico uma oportunidade para se organizarem. Essas representações se expressaram também na forma como esses jovens atuaram politicamente no período seguinte de mobilizações, construído na contra imagem de Junho.

O anti-Junho: as manifestações de 2015 a 2018

O ano de 2015 foi marcado pela cobertura midiática de grandes escândalos de corrupção, levantados sobretudo pela Operação Lava Jato, mobilizando protestos contra o governo Dilma em todo território nacional. Em 2015, dois grandes protestos foram organizados a favor do impeachment em Salvador, em 15 de março de 2015 e em 16 de agosto, na região do Farol da Barra. Uma pesquisa realizada sobre o perfil dos manifestantes nesses protestos apontou um forte sentimento de rechaço ao PT e um evidente apelo a soluções autoritárias: 52,6% dos entrevistados expressaram apoio a uma intervenção militar (Souza, 2016). Em resposta, setores da esquerda saíram em defesa do governo Dilma em 16 de dezembro de 2015, indo do Campo Grande até a Praça Castro Alves, percurso tradicional da esquerda na cidade. O protesto foi organizado por centrais sindicais, movimentos sociais e partidos de esquerda (Aguiar, 2015).

Em 2016, com o avanço do processo de impeachment de Dilma, Salvador seguiu a agenda de protestos nacionais polarizados (Bülow; Dias, 2019). Em 13 de março, milhares de manifestantes (20 mil de acordo com a polícia, 50 mil de acordo com os organizadores) se reuniram no Farol da Barra para exigir o impeachment e demonstrar apoio à Lava Jato (Mendes, 2016). Em 18 de março, no espectro político oposto, outro ato percorreu novamente o caminho do Campo Grande à Praça Castro Alves, com outros milhares de ativistas (60 mil de acordo com a polícia, 100 mil de acordo com os organizadores) se pronunciando contrários ao golpe contra Rousseff (Belo, 2016).

Já em 2018, ano das eleições presidenciais, Salvador vivenciou dois grandes atos contrários à candidatura de Jair Bolsonaro, as manifestações denominadas “Ele Não”, em 29 de setembro e 20 de outubro. A capital baiana também foi palco do último ato de campanha de Fernando Haddad, em 26 de outubro de 2018, com 100 mil pessoas segundo os organizadores (Evento..., 2018). Nesse contexto, também ocorreram alguns pequenos comícios com a presença de centenas de pessoas em apoio à candidatura de Bolsonaro nas proximidades do Farol da Barra, como o de 23 de setembro (Gibson; Arraz, 2018).

Em meio à polarização que o Brasil viveu entre 2015 e 2018, é possível notar que Salvador seguiu o padrão nacional de divisão política, mas – ao contrário de outras capitais do país – manteve um padrão de mobilização mais acentuado do campo da esquerda. Isso também é visível na expressiva votação que Haddad (PT) obteve no segundo turno das eleições presidenciais na cidade em 2018, com 68,6% dos votos válidos (Em Salvador..., 2018).

Nesse contexto, a militância de esquerda optou pela defesa nítida do governo de Dilma e da institucionalidade, o que causou incômodo para alguns setores. À esquerda do PT, havia a dificuldade de defender um governo federal que fora objeto de críticas profundas em 2013, o que se combinava com uma gestão estadual do PT considerada conservadora. Para Rafaela, do PSOL, sua principal motivação para participar dos protestos foi a defesa das instituições brasileiras, porque o impeachment representava um “golpe à democracia”, não porque o governo Dilma “foi maravilhoso”. Rafaela relata que, em razão dessa insatisfação com o governo, houve maior demora do seu grupo político em aderir às manifestações, já que boa parte da sua militância era de universidades estaduais, que tiveram muitos conflitos com o governo estadual.

Assim, se, em junho, a militância de esquerda tematizava a ampliação de direitos na cidade e questionava as instituições do Estado locais, como a polícia, no período seguinte ganham destaque a defesa das instituições e da legalidade no âmbito federal. Os temas dos protestos passam a se localizar cada vez mais na política nacional e longe do cotidiano das cidades. Igor Reis24, militante do coletivo Quilombo, comenta que havia uma revolta com relação aos “articuladores do golpe no Legislativo”, já que eles estavam “implicados na Operação Lava Jato” e “se colocavam agora como os grandes baluartes da justiça”.

Mas essa “nacionalização” das pautas dos protestos encontrou limitações, identificadas pelos próprios militantes. Danielle relata que os setores que organizaram os atos contra o impeachment enfrentaram dificuldades de mobilização. Para a ativista, era necessário que os protestos tivessem maior regularidade e fossem mais numerosos, avaliando que o esvaziamento foi fruto da priorização dada à política “mais institucionalizada” por parte de setores do PT. Ela via a necessidade de valorizar “a relação com os movimentos sociais”, já que essa “articulação mais no miúdo” havia sido deixada de lado.

Já os jovens do movimento negro não se sentiram representados nos protestos de 2015 a 2018 e não se motivaram a participar dos atos mais voltados para a política nacional. Vanessa Coelho, Rol Cerqueira e Amanda Conceição, do Zeferinas, disseram ter acompanhado os atos contra Dilma pela imprensa, mas que ficaram indiferentes ao debate político da época. A polarização política acentuada no período as afastou: “essa questão do impeachment me incomodou muito [pelo] enfoque novamente para essa questão político-partidária e esse esquecimento de buscar realmente alguém ou algum movimento que realmente [nos] representasse”, comentou Vanessa. Indemar Reis, que participou das atividades do grupo Reaja ou Será Morta/o, de denúncia contra o genocídio da população negra, chega a identificar uma preferência pelo PT nas eleições de 2018, mas reitera essa posição de afastamento da política partidária e de indiferenciação entre esquerda e direita:

[Entre] um professor ou um nazista, eu pensava no professor. Mas ao mesmo tempo você pega a marcha da democracia aqui [Salvador] estava Haddad acenando junto com Rui Costa e Rui Costa derrubou 13 no Cabula. São coisas que eu não quero fazer parte, a política governamental não funciona pra mim25.

Hugo foi o único ativista desse grupo que participou dos atos políticos desse período, mas descreve sua participação em um ato contra o impeachment de Dilma, em 2016, como “uma questão antropológica”. Para ele, a disputa era uma disputa de elite política, “não mudaria muita coisa assim, se era PT, se era PSDB, se era DEM, se era Rui Costa ou se era ACM Neto. Eu não via mudanças efetivas quanto a isso”. Para ele, uma das heranças que ficou dos protestos ocorridos em 2013 foi a percepção de que manifestações de rua com pautas eleitorais não acarretam mudanças concretas: “minha postura sempre foi um pouco de descrédito com a coisa da democracia representativa pra rua, porque eu sei que são coisas que não vão acontecer, eu não acredito muito na mudança”.

As ativistas do Zeferinas concordam. Seu coletivo, que foi fundado em 2017, aparece como uma alternativa de militância aos atos mais polarizados e partidários do período, como explica Vanessa:

Eu acho que o que a gente faz não deixa de ser político, eu acho que a gente olha de outro viés, porque não necessariamente a gente precisa estar engajado nesse jogo de direita e esquerda (...) A gente tem o interesse de ocupar esses espaços [políticos], a gente precisa ocupar esses espaços, mas é com outra perspectiva. É trazer uma perspectiva que seja de comunidade, que seja aquilombada e não com esse olhar totalmente eurocêntrico e distante da nossa realidade. Acho que é pensar política, só que na prática como ela deveria ser, essa ação direta que vá implicar diretamente na nossa realidade, modificando-a. Eu acho que pensar genocídio negro é uma questão importante e é uma questão de política que ambos os lados [direita e esquerda] (...) deveriam se preocupar (...). Só que a gente sabe que o Estado tem maquinário que ao invés de agir a favor [da população negra], eles assinam embaixo [do seu genocídio]”.

Também do coletivo Zeferinas, Rol concorda com Vanessa e afirma que há necessidade de se pensar sobre os processos políticos nacionais, mas que há necessidade também de uma inversão do processo de mobilização: ao invés de estar “em cima falando” para a população, seria necessário “conhecer e falar para essa comunidade antes como que funciona isso, para depois ir para cima”. Essa mentalidade orienta o trabalho do grupo: “é o que a gente faz aqui, que é o trabalho de base, falar de poesia marginal, é ter uma linguagem de acesso e é usar de recursos que a população vá se aproximar e ela vá entender e querer se envolver nesse processo”26.

Já os ativistas da direita encararam os protestos de 2015 a 2018 sem ambiguidades. Com exceção dos militantes do DEM e de Uendell, que haviam participado das manifestações em 2013, a maioria dos nossos entrevistados do campo da direita iniciou o seu engajamento político a partir de 2015. Priscila relata que a discussão sobre o impeachment foi crucial para despertar seu interesse por atuar politicamente: “aí eu virei uma opositora, porque eu percebi que, se ela continuasse, o Brasil ia para o buraco. Eu resolvi me engajar, eu comecei a participar das manifestações”. Segundo Ricardo, a bandeira que unificava todos era a ideia de “derrubar o PT”, reunindo “um sentimento antipetista [...] que eu nem imaginava que era tão forte na sociedade”. Mas outros slogans, “muito popularizados pelo Olavo [de Carvalho]”, contra o Foro de São Paulo e o comunismo, também davam o tom dos protestos.

A massificação das manifestações organizadas pela direita foi percebida com grande surpresa por Ricardo, quando participou do primeiro ato em março de 2015: “Quando cheguei, eu tomei um susto colossal, a ponto da estupefação mesmo, sabe? [...] Porque eram milhares de pessoas, muita gente, lá, com aquelas roupas verde e amarelo e gritando”. Esse entusiasmo com a presença da direita nas ruas, agora com uma roupagem moderna, é também expressado por Marcelo, que participou dos atos em Porto Alegre enquanto ainda era estudante por lá. Ele lembra da La Banda Loka Liberal, grupo que animava os protestos com canções antipetistas, “eles tinham cantos engraçadíssimos, muito criativos, como por exemplo ‘nós somos a banda mais loca, a banda loka liberal, a banda que desestatiza a estatal’”27. Priscila recorda que a banda gaúcha também era tocada nos protestos em Salvador, em especial a música “Chora Petista”.

Se o encantamento e o espanto dos militantes da direita com relação às manifestações de 2015 e 2016 parecem análogos ao que a esquerda teve em 2013, há certamente nas falas de seus ativistas mais organizados, um orgulho por ter conseguido organizar e dirigir esses novos atos massivos. Ao comentar a organização do ato de 2016, o maior de Salvador contra Dilma, Ricardo deixa explícito esse orgulho:

Primeiro, tem um outro detalhe. Até hoje a esquerda não aprendeu a fazer isso, é impressionante. (...) É o seguinte: manifestação grande se faz com o tempo, tempo é essencial. A esquerda fez uma grande manifestação em prol da educação, muito boa, muito grande, orgânica. Aí, o que ela fez? Marca uma outra para menos de um mês; isso é um erro clássico. Tanto que a manifestação nossa que foi um mês e pouquinho depois da do dia 15, eu estou falando de 2015, foi a menor de todas e sempre será. Se você faz sua manifestação agora e faz uma daqui a um mês, uma daqui a 20 dias, ela vai ser pequena, porque as pessoas ficam saturadas, não tem tempo de você divulgar. O ideal é três, quatro meses. (...) A preparação para manifestação era contínua, porque era uma e a gente migrava para uma daqui a quatro meses, então começava a preparar daqui e ia até ela explodir. Como a gente fazia isso? Evento no Facebook, convite em massa, convidando pessoa a pessoa, então a gente colocava um pequeno exército de pessoas com computadores para isso, ficar seis horas fazendo isso, convidando as pessoas, um trabalho bem mecânico.

Izaque compara os protestos de 2013 e os do período seguinte, nos quais se engajou. Ele sentia mais confiança em manifestações com pautas mais nítidas, como o “pacote anticrime” e a “reforma da previdência”, e expressa mais tranquilidade com os protestos que não enfrentam as forças policiais:

Todos que eu fui, vi presença da polícia, inclusive com muita referência e muito respeito dos organizadores dos eventos. Eu via, por exemplo, as pessoas passarem pelos policiais e cumprimentá-los, na mão deles, agradecer pelo serviço. (...) Mas você sentia, você via ali o sentimento que ele [o policial] sabia que não ia ter necessidade assim de (...) atuar, porque era um movimento que tinha as bandeiras bem claras, um movimento cívico. (...) Por isso que eu te falei que aquele período de 2013 (...) aquilo não tinha uma base, sabe? Dizendo “isso aqui é um movimento com defesa de tais valores e tal”. Aquilo era uma revolta, uma revolta generalizada, sabe? (...) Essa é a diferença, não existia pauta ali, era a revolução pela revolução, o conjunto de nada pra fazer nada, era tipo (...) “vamos incomodar”. A base era os 20 centavos, mas não era isso, tinha um furor dentro das pessoas por vários motivos.

A experiência dos três grupos de ativistas entre 2015 e 2018 foi bastante variada, mas, de maneira geral, ela foi marcada por um balanço constante do que foram as Jornadas de Junho de 2013. Para a esquerda, a análise de Junho, somada à nova conjuntura que se abriu com a reeleição de Dilma e ataques mais sérios ao seu governo, levou à necessidade de unificação em torno de pautas nacionais e em defesa da institucionalidade. Essa mudança para pautas que se afastavam da concretude do cotidiano urbano e da violência sofrida pela população negra, somada a um balanço das manifestações de Junho que apontava para uma maior criminalização dessa população, contribuiu também para o não engajamento dos militantes do movimento negro nas manifestações do período. Por fim, militantes da direita tiveram em Junho o contraexemplo para sua organização, com um planejamento cuidadoso das manifestações, pautas nítidas e uma postura amigável perante as forças policiais.

Conclusão

Como apresentado nas seções iniciais, este artigo tem como objetivo estudar os efeitos de Junho de 2013 nos protestos dos cinco anos subsequentes, por meio da análise das narrativas dos ativistas que participaram de manifestações no período, que informam a formação de subjetividades e identidades políticas, investigando o que ocorre por detrás do protesto, quem eram as pessoas que estavam nas manifestações, que expectativas tinham e como elas se organizaram após os protestos. Nosso estudo relata três tipos de trajetórias diferentes, com efeitos internos e externos aos movimentos (Earl, 2000), mas que partem de narrativas críticas a Junho para se assentarem, o que aqui chamamos de “anti-Junho”.

Após Junho e, sobretudo, após o processo de impeachment, os ativistas de esquerda se sentiram arrebatados pelo crescimento da direita – nas ruas e na opinião pública. Internamente, apesar das suas organizações terem crescido após as jornadas, eles relataram desorientação sobre Junho e seus efeitos, revisando posições anteriores e reelaborando táticas políticas para lidar com um país crescentemente conservador. Como consequência externa, suas pautas de mobilização mudaram, voltando-se para temáticas nacionais e em defesa de instituições políticas. Há uma certa metamorfose que vai da defesa de direitos e da denúncia da violência policial ao apelo a uma democracia formal, eleitoral, cujas instituições precisam ser preservadas. Essa mudança se torna mais perceptível quando os ativistas falam do impeachment de Dilma ou da eleição de Bolsonaro. Esse achado coincide com outras análises desse período, que reiteram a crescente institucionalização da esquerda após junho de 2013 (Bringel, 2022; Monteiro, 2023).

Já os militantes do movimento negro decidiram se afastar das manifestações político-partidárias nos anos posteriores a Junho e concentrar sua militância em esferas mais locais e vinculadas à cultura. Esse afastamento ocorreu devido à natureza polarizada e limitada – já que não atendia de maneira satisfatória as pautas dessa juventude – da disputa política a partir das manifestações pelo impeachment, mas também em razão da crescente criminalização sofrida nos atos de viés progressista. Como consequência externa, suas pautas de denúncia acerca da limitação da democracia formal e das instituições vigentes, sobretudo a polícia, ficaram mais isoladas no período e não caminharam juntas nas ruas com as pautas da esquerda tradicional. Ainda que também seja possível identificar uma maior organização desses setores a partir de junho de 2013, como aponta Nunes (2023), essa militância se sentiu crescentemente apartada das disputas políticas nacionais, ao menos no caso de Salvador. A postura dessa militância no período tem convergência com a emergência de “coletivos” ou “novíssimos movimentos sociais”, com atuações na área da cultura, do transporte, da defesa dos direitos LGBTQIA+ e das mulheres, que se pautam por uma atuação menos institucionalizada marcada pela horizontalidade (Thibes et al., 2020; Augusto; Rosa; Resende, 2016; Gohn, 2017).

Por fim, as jornadas tiveram consequências amplas para os grupos da direita, que passaram a ocupar mais o espaço público nos anos posteriores. Enquanto partidos tradicionais, como o DEM, vislumbraram mais possibilidades de coalizões no campo da direita, novas organizações se formaram reunindo preferências políticas antes dispersas. Alguns relataram que os protestos moldaram sua preferência política, já que passaram a se definir como de direita a partir deles. Os anos posteriores às jornadas foram de definição política, de construção de uma coalizão ideológica baseada no conservadorismo moral e no neoliberalismo. Essa síntese é operada durante esse ciclo de mobilizações e oferece sustentação ao governo Bolsonaro, que ainda reúne setores pró-intervenção militar28. A partir dos dados apresentados aqui, não é possível mensurar o quanto as jornadas foram importantes para a emergência da direita que levou à eleição de Bolsonaro29, mas sem dúvida elas marcaram seus ativistas e moldaram, a partir de seu contraexemplo, a sua estratégia de mobilização.

Uma das principais causas identificadas pela literatura para os protestos de junho de 2013 foi o déficit de representação do sistema político brasileiro (Nobre 2013; Devos; Walker; Porciúncula, 2021; Silva, D. P., 2018), alvo transversal de manifestantes de todo o espectro ideológico. No período entre 2015 e 2018, a esquerda se voltou a uma defesa maior do sistema, enquanto a denúncia militante da falta de representação ficou mais restrita aos setores da direita. Setores mais radicais e críticos às instituições brasileiras no campo da esquerda, como os militantes do movimento negro, acabaram se afastando da militância política, dando prioridade à atuação nas esferas comunitárias. Assim, um dos efeitos não intencionais mais relevantes desses protestos, nos últimos anos, é uma inversão da relação da militância política de esquerda e de direita com o status quo político, o que se refletiu de maneira bastante contundente nos eventos pós-eleitorais de 2022 e 2023.

Após dez anos daquele junho, acadêmicos militantes (Medeiros, 2023; Carlotto, 2023) passaram a reiterar a necessidade de disputa das narrativas sobre as jornadas, recuperando-as da noção lugar comum de que elas seriam um “ovo de serpente” que teriam aberto as porteiras para a reorganização da direita. Ainda que o objetivo deste artigo não seja contribuir diretamente para essa disputa, aqui analisamos como as narrativas negativas sobre Junho (chamadas de “anti-Junho”) tiveram efeitos concretos na organização e nas pautas da militância política e social brasileira no período posterior, entre 2015 e 2018. Não se defende aqui que essas narrativas estejam deslocadas da materialidade do que foram as jornadas – elas relatam percepções de experiências vividas –, mas sua conjugação com os eventos posteriores (impeachment, eleição de Bolsonaro, aprovação de medidas de austeridade no Legislativo) alterou o entendimento de junho de 2013. Nada garante, contudo, que o anti-Junho prevaleça nos próximos anos e que a imagem militante apreendida das experiências de 2013 não possa ser transformada a partir de novos desdobramentos políticos. Assim, ao oferecer uma contribuição teórica aos estudos de movimentos sociais – enfatizar o papel das narrativas nas cadeias de causalidade que geram consequências não intencionais de movimentos sociais – este artigo também contribui para um melhor entendimento dos dilemas e das disputas que rondam nossas enigmáticas jornadas.

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  • White, H. The Content of Form. Narrative Discourse and Historical Representation. Baltimore, MD: The Johns Hopkins University Press, 1987.
  • 1
    Uma versão inicial deste artigo foi apresentada no 12º Encontro da Associação Brasileira de Ciência Política, entre 19 e 23 de outubro de 2020, na Área Temática 08 - Participação Política, e foi publicada em seus anais. Agradecemos os comentários dos participantes do encontro, em especial da debatedora Monika Dowbor, que orientaram a reescrita e a revisão deste artigo para publicação. Também agradecemos os pareceres anônimos que recebemos no processo de avaliação do artigo, que contribuíram consideravelmente para o aprimoramento dos argumentos apresentados aqui.
  • 5
    O termo anti-Junho foi utilizado anteriormente para se referir a duas situações: para denominar setores da esquerda críticos às Jornadas de Junho (Jean Tible em Fachin, 2018) e para fazer referência a uma pauta de mobilização conservadora contrária às pautas de Junho (Bentes, 2018). Aqui, o termo se refere a um espectro ideológico mais amplo e com conteúdo diverso.
  • 6
    A pesquisa “Jovens ativistas e a memória da ditadura em Salvador” obteve financiamento, na forma de bolsas de iniciação científica, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb). Para além deste artigo, esta pesquisa resultou em uma publicação mais específica que relaciona o ativismo destes jovens com a memória da ditadura (Iamamoto; Teles; Silva, 2023).
  • 7
    A partir de 2022, o DEM uniu-se ao Partido Social Liberal (PSL), fundando o União Brasil.
  • 8
    Com relação à raça, 80% (16 ativistas) dos entrevistados se declararam não-brancos. Todos os ativistas do movimento negro se identificaram como negros (ou pretos). Dentre os ativistas de esquerda, dois se autodeclararam brancos, dois negros, dois pretos e uma preferiu não responder. Já dentre os ativistas de direita, dois se autodeclararam negros, um preto, três pardos e um luzitano. Com relação ao gênero, foram entrevistadas oito mulheres (40%) e 12 homens (60%). Apesar de a maioria dos ativistas ser jovem (ter até 29 anos), a pesquisa também envolveu alguns ativistas com idades de 30 até 40 anos.
  • 9
    Para um debate de consequências não intencionais em movimentos sociais no Brasil, ver Pannain (2023) e Carlos (2023).
  • 10
    Marcos Musse, entrevista realizada em Salvador, em 12 de dezembro de 2017.
  • 11
    Rafaela Cardoso, entrevista realizada em Salvador, em 25 de maio de 2018.
  • 12
    Caio (pseudônimo), entrevista realizada em Salvador, em 15 de fevereiro de 2019. Juliana Campos, entrevista realizada em Salvador, em 06 de julho de 2019.
  • 13
    Camila Nunes, entrevista realizada em Salvador, em 06 de dezembro de 2018.
  • 14
    Danielle Ferreira, entrevista realizada em Salvador, em 26 de maio de 2018.
  • 15
    Vanessa Coelho, entrevista realizada em Salvador, em 23 de março de 2018.
  • 16
    Hugo Oliveira, entrevista realizada em Salvador, em 20 de setembro de 2019.
  • 17
    Davi Mariston, entrevista realizada em Salvador, em 04 de julho de 2019.
  • 18
    Uendell Nogueira, entrevista realizada em Salvador, em 28 de fevereiro de 2019.
  • 19
    André (pseudônimo), entrevista on-line, em 24 de março de 2020.
  • 20
    Eduardo (pseudônimo), entrevista realizada em Salvador, em 21 de março de 2018.
  • 21
    Priscila Chammas, entrevista realizada em Salvador, em 03 de fevereiro de 2019.
  • 22
    Izaque de Sena, entrevista realizada em Salvador, em 02 de setembro de 2019.
  • 23
    Ricardo Almeida, entrevista realizada em São Paulo, em 20 de julho de 2019.
  • 24
    Igor Reis, entrevista em Salvador, em 30 de novembro de 2018.
  • 25
    Indemar Reis, entrevista realizada em Salvador, em 31 de janeiro de 2019.
  • 26
    Rol Cerqueira, entrevista realizada em Salvador, em 23 de março de 2018.
  • 27
    Marcelo (pseudônimo), entrevista realizada em Salvador, em 13 de março de 2018.
  • 28
    Essa síntese foi definida como um “nacionalismo neoliberal de extrema-direita” por Iamamoto, Mano e Summa (2023).
  • 29
    Rocha (2023) defende que as jornadas não foram necessárias para a organização da direita no período, apontando a eleição de Dilma, em 2014, como o evento primordial para isso.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Jul 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    25 Jan 2024
  • Aceito
    29 Nov 2024
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