Open-access As bases ideológicas do apoio a atos antidemocráticos entre os eleitores de Bolsonaro em 20231

The ideological foundations of support for antidemocratic acts among Bolsonaro voters in 2023

Las bases ideológicas del apoyo a actos antidemocráticos entre los votantes de Bolsonaro en 2023

Les fondements idéologiques du soutien aux actes antidémocratiques parmi les électeurs de Bolsonaro en 2023

Resumo

Este artigo investiga a relação entre posicionamentos ideológicos de direita e o apoio a manifestações antidemocráticas, tais como aquelas contrárias ao resultado das eleições de 2022 e que culminaram na invasão e depredação das sedes dos três poderes em Brasília, em 8 de janeiro de 2023. A partir de dados de surveys, analisamos se eleitores de Bolsonaro com preferências políticas mais extremas têm maior propensão a apoiar essas mobilizações ou participar delas do que eleitores com preferências mais moderadas. Os resultados indicam que o apoio foi significativamente maior entre eleitores mais à direita, sugerindo, assim, que, atualmente, o apoio a manifestações dessa natureza bem como o engajamento nelas não decorre apenas da lealdade a Bolsonaro, mas também de um alinhamento programático, o que revela o crescente papel da ideologia na formação do comportamento político do eleitor brasileiro.

Palavras-chave
ideologia; atos antidemocráticos; bolsonarismo; Brasil


Abstract

This article investigates the relationship between right-wing ideological positions and support for antidemocratic demonstrations, such as those opposing the results of the 2022 elections that culminated in the invasion and vandalization of the national congress, supreme court and presidential palace in Brasília on January 8, 2023. Based on survey data, we analyze whether Bolsonaro voters with more extreme political preferences were more likely to support or participate in these mobilizations than voters with more moderate preferences. The results indicate that support was significantly higher among voters with more right-wing preferences, suggesting that support for the demonstrations and participation in them were not solely driven by loyalty to Bolsonaro but also by a programmatic alignment. This finding highlights the growing role of ideology in shaping Brazilian voters’ political behavior.

Keywords
ideology; antidemocratic acts; Bolsonarism; Brazil

Resumen

Este artículo investiga la relación entre las posiciones ideológicas de derecha y el apoyo a manifestaciones antidemocráticas, tales como aquellas contrarias al resultado de las elecciones de 2022 que culminaron en la invasión y depredación de las sedes de los tres poderes en Brasilia en enero de 2023. A partir de datos de encuestas, analizamos si los votantes de Bolsonaro con preferencias políticas más extremas tienen una mayor propensión a apoyar o participar en estas movilizaciones en comparación con aquellos con preferencias más moderadas. Los resultados indican que el apoyo fue significativamente mayor entre los votantes con preferencias más derechistas, lo que sugiere que las manifestaciones no fueron únicamente una expresión de lealtad a Bolsonaro, sino también de un alineamiento programático. Esto revela el papel creciente de la ideología en la formación del comportamiento político del electorado brasileño.

Palabras clave
ideologia; actos antidemocráticos; bolsonarismo; Brasil

Résumé

Cet article examine la relation entre les positions idéologiques de droite et le soutien aux manifestations antidémocratiques, notamment celles contestant les résultats des élections de 2022 et qui ont abouti à l’invasion et au saccage des sièges des trois pouvoirs à Brasília en janvier 2023. À partir de données d’enquêtes, nous analysons si les électeurs de Bolsonaro ayant des préférences politiques plus extrêmes sont davantage enclins à soutenir ou à participer à ces mobilisations que ceux ayant des préférences plus modérées. Les résultats indiquent que le soutien était significativement plus élevé parmi les électeurs ayant des préférences plus à droite, suggérant ainsi que ces manifestations ne résultaient pas uniquement de la loyauté envers Bolsonaro, mais aussi d’un alignement programmatique. Ce constat met en évidence le rôle croissant de l’idéologie dans la formation du comportement politique des électeurs brésiliens.

Mots-clés
idéologie; actes antidémocratiques; bolsonarisme; Brésil

Introdução

Muito se tem falado sobre a extrema direita e o retrocesso democrático. Exemplos abundam em todas as regiões do mundo, incluindo os casos emblemáticos da Hungria, Polônia, Turquia e Rússia e mesmo de democracias consolidadas, como os Estados Unidos da América (EUA). Em todos eles, governantes tentaram e, com diferentes graus de sucesso, conseguiram subverter a democracia por dentro, ao restringir as liberdades democráticas da oposição e concentrar mais poder (Bermeo, 2016; Levitsky; Ziblatt, 2018). Nos últimos anos, porém, o apoio do eleitor a essas lideranças não se limitou ao voto, manifestando-se no endosso a atos com o objetivo de impedir o processo democrático de alternância do poder ou mesmo na participação em tais atos.

Assim aconteceu nos EUA, onde a derrota eleitoral de Donald Trump nas eleições presidenciais de 2020 foi seguida pelo ataque ao Capitólio por seus apoiadores, em 6 de janeiro de 2021. Da mesma forma, no Brasil, a derrota do candidato Jair Bolsonaro nas eleições de 2022 levou parte dos seus eleitores a manifestações que culminaram com o ataque às sedes dos três poderes, em 8 de janeiro de 2023. Em ambos os países, eleitores do candidato derrotado se negaram a aceitar o resultado das urnas, lançaram dúvidas sobre a integridade eleitoral e invadiram e depredaram as instituições democráticas mais importantes do país a fim de impedir a posse do candidato adversário.

Enquanto nos EUA há evidências da relação entre ideologia e apoio à invasão do Capitólio (Jacobson, 2024), no Brasil os estudos quantitativos sobre manifestações antidemocráticas ainda são escassos. Embora a literatura recente tenha apresentado evidências de um aumento da orientação ideológica no comportamento eleitoral do brasileiro, sabemos muito pouco ou quase nada sobre a relação entre ideologia e participação em atos dessa natureza.

Compreender a conexão entre ideologia e apoio às manifestações antidemocráticas no Brasil é de extrema relevância. Caso os eleitores que apoiaram os atos contra o resultado das eleições presidenciais de 2022 ou que aderiram a eles tenham reagido predominantemente de forma emocional ou movidos apenas pela afeição a Bolsonaro, o movimento antidemocrático no Brasil recente se configuraria como um fenômeno circunstancial, que tende a desaparecer com saída do ex-presidente da cena política. Todavia, se esse movimento apresenta um conteúdo ideológico, ele expressa um alinhamento programático, o que lhe confere maior consistência e favorece sua sobrevivência política.

Buscamos, neste artigo, contribuir para o entendimento do apoio a manifestações antidemocráticas e da participação nelas, como as que começaram logo após o segundo turno das eleições presidenciais de 2022, pedindo intervenção militar, e a que ocorreu em 8 de janeiro de 2023. Com base na crescente saliência ideológica do eleitorado, apontada pela literatura brasileira, perguntamos se o apoio às manifestações de 2023 foi apenas uma reação à derrota, motivadas pelo vínculo afetivo com Bolsonaro, ou se também expressaram um alinhamento programático entre eleitores de direita.

Os resultados mostram que, de fato, os eleitores de Bolsonaro que participariam de atos antidemocráticos ou os apoiam são orientados por um conjunto de atitudes conservadoras relativas à política de segurança pública, à economia e aos costumes. Quanto mais ideologicamente conservadores, maior a propensão a apoiarem ou participarem de manifestações antidemocráticas. Isso indica que, mais do que uma simples reação emocional ou afetiva, as manifestações expressam também o antagonismo ideológico dos eleitores de Bolsonaro em relação ao grupo que venceu as eleições, e, possivelmente, se explicam pelo objetivo de impedir a implementação de políticas públicas que se opõem às suas preferências.

Este artigo se divide em cinco seções, além desta. Na seção “Ideologia e comportamento político no Brasil”, discutimos, teoricamente, a relação entre posições extremistas de direita, apoio a atos antidemocráticos e participação neles. Na seção “Evidências do aumento da organização ideológica dos brasileiros”, apresentamos um conjunto de evidências empíricas que mostram o aprofundamento do alinhamento entre as posições ideológicas dos eleitores e as opções eleitorais no país. A seção “Dados e método” apresenta os dados, as variáveis e os testes que empregamos a fim de avaliar a relação entre preferências políticas da direita e o apoio a manifestações antidemocráticas. Na seção “Resultados e discussão”, apresentamos e discutimos os resultados do nosso artigo. Por fim, na seção “Considerações finais”, retomamos o argumento do artigo e apontamos algumas limitações, implicações práticas e caminhos para pesquisas futuras.

Ideologia e comportamento político no Brasil

À primeira vista, pode parecer pouco provável que posições ideológicas expliquem o maior ou menor apoio dos eleitores de Bolsonaro a manifestações antidemocráticas. Antes de 2018, os estudos sobre voto e partidarismo no Brasil indicavam a ausência de consistência ideológica entre os eleitores (Reis, 1978, 1988, 2000; Oliveira; Turgeon, 2015; Borges; Vidigal, 2018; Samuels; Zucco, 2018). Alguns autores argumentavam até mesmo que, desde a chegada do Partido dos Trabalhadores (PT) à presidência, em função das políticas econômicas ortodoxas e de alianças com partidos de direita, a associação entre ideologia e voto estaria declinando (Carreirão, 2007; Bonifácio; Casalecchi; Sandes-Freitas, 2014).

Poucos autores defendiam a tese de que a ideologia era relevante para explicar o comportamento político dos brasileiros. Mesmo Singer (2000), o principal defensor dessa posição, argumentou que os eleitores eram capazes apenas de reconhecer, de forma intuitiva, os rótulos ideológicos dos partidos, mas não de explicar conceitualmente suas diferenças. Carreirão (2002) mostrou que, de forma geral, a ideologia não explicava o voto dos brasileiros, tendo relação apenas com a escolha dos eleitores mais escolarizados. O estudo de Samuels e Zucco (2013) também apontou um baixo alinhamento ideológico entre partidários e partidos, embora houvesse aumento quando os eleitores tinham informação sobre a posição de seu partido ou dos partidos rivais (Samuels; Zucco, 2013). Seguindo na mesma direção, Samuels e Zucco (2018) não encontraram diferença entre eleitores petistas e peessedebistas em relação aos costumes, ao papel do Estado e à redistribuição. Segundo os autores, a diferença estaria restrita apenas à visão mais ou menos participativa de democracia.

Diante desse cenário e com a polarização afetiva sem precedentes na história recente do Brasil (Fuks; Marques, 2022; Nunes; Traumann, 2023), ganha força a tese de que vínculos afetivos com Bolsonaro explicam a adesão de extremistas de direita às manifestações antidemocráticas de 2022.

A literatura internacional mostra que eleitores fortemente vinculados a um grupo político tendem a internalizar vitórias e derrotas eleitorais como sucesso ou fracasso pessoal, aumentando a propensão a comportamentos antidemocráticos (Ward; Tavits, 2019). Além disso, em contextos de polarização afetiva, os eleitores são mais tolerantes com práticas antidemocráticas vindas do seu grupo político quando este está no poder, ou a aderir a práticas insurrecionais quando na oposição (McCoy; Rahman; Somer, 2018; McCoy; Somer, 2021; Kingzette et al., 2021).

Existem, no entanto, dois argumentos que fundamentam nossa expectativa de que haja um elemento ideológico e não apenas afetivo no apoio de brasileiros a atos antidemocráticos e em sua intenção de participar desses atos. O primeiro argumento se fundamenta na literatura brasileira recente que aponta uma maior organização ideológica do eleitorado e da política nacional. Nos últimos anos, a direita passou a se reorganizar e se assumir cada vez mais enquanto tal. Na crise do petismo, a direita “saiu do armário”, não só no plano institucional, como em outras áreas da sociedade e espaços tradicionalmente ocupados pela esquerda, inclusive as ruas (Avritzer, 2017; Alonso, 2017; Rocha, 2018). A tendência centrípeta do sistema partidário foi interrompida e pesquisas recentes mostram um aumento do extremismo ideológico no Congresso Nacional (Zucco; Power, 2021; Bolognesi; Ribeiro; Codato, 2023).

Nesse novo cenário, observa-se, no eleitorado, um aumento expressivo da correlação entre voto e identificação ideológica no Brasil a partir de 2018 (Fuks; Marques, 2020). Além disso, estudos indicam que o bolsonarismo está associado a posições claramente definidas em relação a diversos assuntos, tais como privatização e redistribuição (Rennó, 2020, 2022), costumes e segurança pública (Fuks; Marques, 2020). Há, até mesmo, pesquisadores que indicam alguma polarização ideológica entre os eleitores brasileiros, embora afirmem que essa polarização seja restrita ao autoposicionamento ideológico e à dimensão dos costumes (Ortellado; Ribeiro; Zeine, 2022).

Essas tendências estão em sintonia com o que mostram estudos internacionais a respeito dos efeitos da polarização política. Já nos anos 1970, pesquisadores notaram que o diagnóstico da escola de Michigan, segundo o qual a maioria dos eleitores não compreendia a natureza ideológica da política (Converse, 1964), não tinha validade universal. Descobriu-se, então, que momentos de intenso debate ideológico favorecem a emergência de pensamento e comportamento ideologicamente estruturados, mesmo entre eleitores que não são politicamente sofisticados (Nie; Andersen, 1974).

Estudos comparados têm revelado, ademais, que, em contextos de polarização ideológica, os eleitores se posicionam com mais facilidade na escala esquerda-direita, compreendem melhor a diferença entre os partidos e associam de forma mais precisa o voto às suas posições ideológicas (Lachat, 2008; Dalton, 2011; Zechmeister; Corral, 2013; Singer, 2016; Zingher; Flynn, 2019; Hare, 2021; Gonthier; Guerra, 2022). Zingher e Flynn (2019) mostraram que, com a crescente polarização das elites políticas, os eleitores estadunidenses estão mais propensos a se identificar e votar no partido que melhor corresponda às suas orientações políticas. Lachat (2008) identificou fenômeno semelhante nos países europeus, enquanto Dalton (2011) e Gonthier e Guerra (2022) mostraram que essa influência da ideologia sobre o voto ocorre mesmo entre os eleitores sem identificação partidária. Já Singer (2016) e Zechmeister e Corral (2013) apresentam evidências de que o fenômeno acontece inclusive em novas democracias, com a polarização aumentando a consistência ideológica dos latinoamericanos.

O segundo argumento que sustenta a nossa expectativa fundamenta-se em resultados de estudos da área, segundo os quais o extremismo ideológico está associado a menores níveis de compromisso democrático entre os eleitores. Análises recentes mostraram relação entre, de um lado, o extremismo ideológico e, de outro, menor apoio à democracia (Torcal; Magalhães, 2022), desconfiança política (Kutiyski; Krouwel; Van Prooijen, 2021), preferência por formas não democráticas de governo (Wojcieszak, 2014), crença em teorias da conspiração envolvendo a integridade eleitoral (Norris; Garnett; Grömping, 2020) e, principalmente, contestação do resultado eleitoral (Anderson et al., 2005). Segundo Graham e Svolik (2020; e Svolik, 2019, 2020), eleitores extremistas são mais propensos a abrir mão de sua lealdade à democracia, apoiando lideranças autoritárias com as quais concordam programaticamente. Eleitores moderados ou com preferências menos consolidadas, alternativamente, são os primeiros a retirar seu apoio a líderes antidemocráticos e votar em candidatos que sustentam posições contrárias às suas, mas que são democráticos.

Ademais, parte da literatura aponta que o extremismo de direita é particularmente associado ao menor compromisso democrático. Embora esse ainda não seja um debate encerrado na psicologia política (Greenberg; Jonas, 2003), estudos apontam uma afinidade eletiva entre traços de personalidade mais autoritários e preferência por políticas direitistas (Nilsson; Jost, 2020; Jost, 2017), inclusive no Brasil (Vidigal, 2022). A pesquisa de Borba, Ribeiro e Fuks (2024) confirma essa tese ao mostrar que o extremismo ideológico só conduz ao declínio do compromisso democrático entre eleitores de direita, principalmente quando o governo é de esquerda.

Além disso, abordagens alternativas de natureza contextualista argumentam que a relação entre ideologia e atitudes antidemocráticas depende, em grande medida, do perfil ideológico do legado autoritário do país (De Leeuw et al., 2020). No caso do contexto brasileiro, com um legado autoritário de direita, espera-se que os eleitores de Bolsonaro que se situam mais à direita rejeitem mais os princípios democráticos que os moderados.

Em resumo, embora a afeição por Bolsonaro possa contribuir para explicar a adesão a atos antidemocráticos, a literatura sugere que posições ideológicas também podem ter influência significativa. Nossa hipótese, portanto, é de que quanto mais à direita forem as posições programáticas dos eleitores de Bolsonaro, maiores tendem a ser os níveis de apoio a manifestações antidemocráticas e de propensão a participar delas.

Na próxima seção, apresentaremos evidências que reforçam nossa expectativa teórica ao mostrar que o sistema de crenças dos brasileiros ficou mais coeso ideologicamente após o governo de Jair Bolsonaro, aprofundando a tendência já identificada em outros estudos (Fuks; Marques, 2020).

Evidências do aumento da organização ideológica dos brasileiros

Contextos de polarização ideológica, em que as diferenças entre os campos políticos ficam mais evidentes para o eleitorado, ajudam os eleitores a terem uma visão ideologicamente estruturada da política. Mobilizando essa teoria, Fuks e Marques (2020) caracterizam a eleição de 2018 como o ápice da reideologização do eleitorado brasileiro. Segundo os autores, com a reorganização da direita e o início da polarização ideológica no Brasil, os eleitores passaram a se identificar mais na escala ideológica e, ao mesmo tempo, a vincular o voto às suas atitudes políticas.

Nesta seção, trazemos evidências de que o movimento de maior organização ideológica do eleitorado brasileiro se acentuou ainda mais durante o período em que Bolsonaro esteve na presidência. Utilizando dados do Latin American Public Opinion Project da Vanderbilt University (Lapop Lab, 2007, 2008, 2010, 2012, 2014, 2017, 2019, 2023) e do Estudo Eleitoral Brasileiro - Eseb (Cesop-FGV, 2002; Cesop-Ipsos Opinion, 2006; Cesop-Vox Populi, 2010; Cesop-Ibope, 2014; Cesop-Ibope, 2018; Cesop-Quaest, 2022), que permitem analisar mais de 20 anos de evolução da opinião pública brasileira4, mostramos que, ao contrário do passado, os eleitores brasileiros percebem, hoje, uma expressiva polarização ideológico-partidária, tendem a se localizar nos extremos da escala ideológica e se diferenciam mais em termos de opiniões sobre temas econômicos e morais.

O gráfico da figura 1 apresenta a média da diferença ideológica percebida pelos brasileiros entre o PT e seus concorrentes nas disputas presidenciais brasileiras desde 2002. Essa média pode variar de zero, caso em que, na média, os eleitores atribuíram o mesmo posicionamento ideológico aos dois partidos, a dez, caso em que a percepção de polarização foi máxima. O aumento da percepção de polarização ideológica no nível das elites é nítido: enquanto, em 2002, a média da distância percebida era de cinco pontos, hoje essa distância é de 6,8 pontos. Atualmente, PT e seu concorrente, no caso o Partido Liberal (PL), são, na percepção dos brasileiros, partidos com ideologias não apenas distintas, mas antagônicas, em grau superior a períodos anteriores.

Figura 1
Percepção da polarização ideológica entre PT e PSDB (2002-2014), PSL (2018)[5] e PL (2022)

Mas será que a polarização vai além da percepção do comportamento das elites políticas e afeta também como o eleitor se posiciona na escala ideológica? O gráfico da figura 26 mostra a evolução do autoposicionamento ideológico médio dos eleitores de acordo com o voto para presidente no segundo turno das eleições presidenciais entre 2002 e 2022. Ele mostra claramente que os brasileiros não apenas veem os partidos como antagônicos, mas também se posicionam de forma cada vez mais distinta. Na média, os eleitores que votaram na direita em 2022 se posicionam muito próximos do ponto nove da escala, um posicionamento bastante extremado quando comparamos com a tendência anterior, antes do surgimento do bolsonarismo como um fenômeno de massas no país. Já os eleitores do PT que, mesmo em 2018, ainda se situavam na centro-direita, se deslocaram em direção à esquerda.

Figura 2
Evolução do autoposicionamento ideológico, por voto para presidente no 2° turno (2002-2022)[7]

Sabe-se, porém, que o autoposicionamento ideológico não necessariamente reflete posições programáticas no Brasil (Oliveira; Turgeon, 2015). Os gráficos seguintes mostram que, mesmo quando se considera o posicionamento em relação a temas controversos, há diferenças de magnitude até então inéditas.

O gráfico da figura 3 mostra a distribuição, por voto no primeiro turno, da média das atitudes dos eleitores em relação ao casamento homoafetivo, cuja escala varia de um a dez, caso de concordância máxima. A partir dele fica clara a diferença sobre o assunto: se, em 2002, os eleitores do PT eram até mesmo mais conservadores que os eleitores do PSDB, atualmente os eleitores que votam no principal partido de esquerda do país assumiram posições mais progressistas e congruentes com aquela defendida pelo partido. Desde 2019, eles estão mais à esquerda do que os eleitores de partidos de direita, distância que aumentou ainda mais em 2023.

Figura 3
Evolução das atitudes dos brasileiros em relação ao casamento homoafetivo, por voto para presidente no 1° turno (2010-2023)

O gráfico da figura 4 mostra o percentual de eleitores, por voto no primeiro turno, que são contrários à pena de morte no Brasil. Quando o assunto são estratégias para a política de segurança pública, os eleitores da esquerda e da direita, que antes se posicionavam de forma parecida, assumem também posições distintas e ideologicamente mais coerentes. Hoje, nitidamente, os eleitores da esquerda são mais contrários à pena de morte que os da direita. Os eleitores da direita assumem, portanto, uma posição mais compatível com a linha-dura defendida por Bolsonaro e seus aliados políticos.

Figura 4
Evolução das atitudes dos brasileiros em relação à pena de morte, por voto para presidente no 1° turno (2002-2022)

A distância entre os dois grupos de eleitores é encontrada até mesmo na questão que, no passado recente, não dividia o eleitorado brasileiro: o combate à desigualdade de renda entre ricos e pobres. O gráfico da figura 5 apresenta a distribuição da variável que mede a atitude dos brasileiros sobre o assunto, uma medida cuja escala varia de um, a opção de quem discorda muito, a sete, resposta de quem concorda muito com a adoção de políticas firmes de combate à desigualdade de renda. Ele permite constatar que, ao contrário do padrão quase consensual do período que vai de 2008 a 2019, os eleitores da esquerda e da direita têm visões distintas hoje sobre o papel do Estado na distribuição de renda. Embora a diferença seja pequena, ela é estatisticamente significativa. Os eleitores do PT assumem posições que historicamente são mais congruentes com a agenda redistributiva da esquerda, enquanto os eleitores da direita passaram a assumir posições mais conservadoras sobre o assunto.

Figura 5
Evolução das atitudes dos brasileiros em relação à adoção de políticas firmes de combate à desigualdade, por voto para presidente no 1° turno (2008-2023)

Isso se contrapõe ao cenário recente da década de 2010, em que prevalecia um consenso favorável à redistribuição entre os eleitores brasileiros, sem diferenças entre petistas, tucanos ou antipetistas (Samuels; Zucco, 2018; Borges; Vidigal, 2018). Mesmo os estudos sobre o voto em 2018 não encontram, em geral, diferença entre os eleitores da direita e da esquerda em relação aos temas econômicos clássicos, como o estatismo e a desigualdade (Fuks; Marques, 2020; Nunes; Traumann, 2023)8.

Tomados em conjunto, os dados apresentam fortes evidências de que o eleitor brasileiro está, em 2022, mais ideologicamente orientado do que em qualquer outro momento das últimas duas décadas. Passados mais quatro anos de disputa ideológica aguda, a percepção de polarização ideológica aumentou, assim como aumentou a distância na autolocalização ideológica entre os eleitores do PT e dos seus principais adversários. De forma semelhante, as diferenças entre eleitores em questões programáticas se expandiram para áreas até então consensuais, como o combate à desigualdade, e se intensificaram ainda mais em relação a questões divisivas, como o casamento homoafetivo.

Nesse contexto, em que diferenças ideológicas se acentuam e se associam cada vez mais com o voto, a nossa expectativa é de que a ideologia também explique outros fenômenos comportamentais, como, no caso do nosso objeto de estudo, o apoio a atos antidemocráticos e o engajamento neles. Na próxima seção, apresentamos os dados e o método que utilizamos para averiguar essa hipótese.

Dados e método

Para investigar a relação entre a ideologia de direita e a adesão a manifestações antidemocráticas e propensão a participar delas, utilizamos o survey “As Bases das Clivagens Políticas no Brasil”9 aplicado, entre os dias 17 de janeiro e 14 de fevereiro de 2023, a 1500 eleitores (dos quais 504 votaram em Bolsonaro10), utilizando uma amostra representativa do eleitorado brasileiro, com margem de erro de 2,5 pontos percentuais a um intervalo de confiança de 95%. Uma das vantagens desse survey é que foi conduzido em data próxima à da invasão às sedes dos três poderes em Brasília, antes que pudesse ser estabelecida qualquer organização das opiniões segundo linhas partidárias e políticas, como ocorreu nos EUA, onde, com o passar do tempo, grande parte dos eleitores republicanos passaram a adotar atitudes favoráveis às manifestações (Jacobson, 2024). Outra vantagem é que, como o questionário foi aplicado por telefone, os entrevistados tiveram maior liberdade para dizer o que realmente pensam sobre as manifestações antidemocráticas. Esse formato contribuiu para mitigar o constrangimento associado a entrevistas presenciais e, assim, reduzir o viés de desejabilidade social, que poderia diminuir artificialmente as taxas de apoio a um episódio socialmente sensível.

No survey, perguntamos aos entrevistados se eles apoiam e participariam de manifestações contrárias ao resultado das eleições 11. Entre os respondentes, 83,7% não apoiam, 8,9% apoiam, mas não participariam e 4,7% apoiam e participariam. Já entre os eleitores de Bolsonaro, 65,7% não apoiam e 19,2% apoiam, enquanto 11,2% responderam que apoiam e participariam. Usando essa pergunta como variável dependente, estimamos uma série de modelos de regressão tendo como base os eleitores que declararam voto em Jair Bolsonaro12 no primeiro turno das eleições de 2022. Usamos modelos logísticos binários, agregando aqueles que apoiam e participariam e aqueles que só apoiam, mas não participariam. Nos modelos multinomiais, mantivemos as três categorias originais e utilizamos, em ambos os modelos, a resposta “não apoia” como categoria de referência.

Quanto à ideologia dos eleitores, nossa abordagem é multidimensional, representada por três dimensões: economia, costumes e segurança pública13, o que permite identificar a associação de cada uma separadamente com o apoio e participação em manifestações antidemocráticas. Para medi-las, utilizamos um conjunto de itens sobre concordância ou discordância com determinadas posições em relação a assuntos públicos.

Em uma escala de zero a dez, os entrevistados deveriam responder se concordam com as seguintes proposições ou discordam delas: “O Estado brasileiro deve implementar políticas firmes para reduzir a desigualdade de renda entre ricos e pobres”; “Casamento civil de pessoas do mesmo sexo”; “A pena de morte”. Esses posicionamentos em relação a temas do debate público permitem medir o que a literatura tem entendido como ideologia operacional (Ellis; Stimson, 2012), um aspecto da ideologia que expressa preferências sobre organização social e políticas públicas. As escalas de concordância com o casamento homoafetivo e redistribuição de renda foram invertidas para que quanto maiores os valores, maior o conservadorismo. Se nossa hipótese estiver correta, devemos observar que, quanto mais conservadores, maior a probabilidade de os eleitores que declararam voto em Bolsonaro apoiarem manifestações antidemocráticas ou se considerarem dispostos a participar delas14.

Como controles, incluímos, nos nossos modelos, sexo, idade, escolaridade, renda e religião. Além disso, incluímos a afeição ao PL, mencionado, no questionário, como o partido do Bolsonaro15. Essa é uma variável de controle importante a ser considerada por dois motivos. O primeiro é que eleitores com fortes vínculos afetivos com grupos políticos percebem a derrota eleitoral como uma derrota pessoal e, sendo assim, são mais propensos a questionarem os resultados das eleições em que são derrotados (Ward; Tavistis, 2019; McCoy; Rahman; Somer, 2018; McCoy; Somer, 2021). Desse modo, sua inclusão permite controlar pela lealdade a Bolsonaro, que, como vimos, é um fator relevante para a análise do fenômeno estudado.

O segundo motivo é que se trata de uma variável confundidora clássica, já que pode influenciar tanto o apoio a essas manifestações como o posicionamento ideológico dos eleitores bolsonaristas. Segundo Russo, Junior e Avelino (2022), por exemplo, o posicionamento ideológico dos eleitores de Bolsonaro é causado, em parte, pela informação de que ele é de direita, de tal forma que aqueles que gostam dele passam a se identificar com a direita. Segundo esse raciocínio, os eleitores de Bolsonaro se posicionam à direita devido ao vínculo afetivo com ele e não à sua própria posição ideológica.

Resultados e discussão

O conservadorismo dos eleitores de Jair Bolsonaro é um bom preditor do seu apoio a manifestações antidemocráticas como a de 8 de janeiro de 2023 e de sua consideração em participar delas? Segundo os resultados apresentados na tabela 1, abaixo, a resposta é positiva. Mesmo quando controlados pelo nível de afeição pelo PL e Bolsonaro, os coeficientes das nossas variáveis de ideologia são, com exceção de um único caso, estatisticamente significativos. Como se pode observar nos coeficientes de discordância com o casamento homossexual, combate à desigualdade de renda pelo Estado e concordância com a pena de morte, quanto mais conservadoras as posições apresentadas pelos eleitores de Bolsonaro, maior o apoio a atos antidemocráticos e a propensão a participar deles.

Tabela 1
Apoio e propensão a participar de atos antidemocráticos entre os eleitores de Bolsonaro[16]

Importa destacar a relevância da posição sobre a desigualdade econômica. Na seção anterior, “Dados e método”, já havíamos mostrado que esse tema opõe, ainda que de forma moderada, os eleitores de Lula e Bolsonaro. Agora sabemos que o posicionamento quanto à redistribuição não apenas é um bom preditor do apoio a manifestações antidemocráticas como também apresenta efeitos mais robustos do que os demais fatores ideológicos. Além disso, o impacto das variáveis que operacionalizam o conservadorismo na explicação do apoio a manifestações antidemocráticas e na predisposição em participar delas supera com folga a capacidade explicativa das variáveis socioeconômicas e demográficas, que não apresentaram coeficientes estatisticamente significativos na maioria dos casos. Apenas a renda apresentou significância estatística e, mesmo assim, somente em relação à participação.

Para se ter uma ideia da magnitude dos efeitos das variáveis ideológicas, a figura 6 mostra as probabilidades preditas, estimadas a partir do modelo logístico binário, de apoiar manifestações e/ou participar delas segundo os valores das três variáveis que retratam posições ideológicas17. No caso do primeiro gráfico, à esquerda, observamos o impacto do conservadorismo sobre as chances de endossar manifestações antidemocráticas: as probabilidades de apoio e/ou participação são de 40% para os eleitores de Bolsonaro que adotam a posição mais extrema, ou seja, que discordam totalmente do casamento gay, e de 25% para quem concorda totalmente. No gráfico do meio, vemos que os liberais radicais, que discordam totalmente de que o Estado deve combater a desigualdade, têm 47% de probabilidade de apoiar manifestações antidemocráticas e/ou se engajar nelas, contra apenas 26% dos que concordam totalmente com a redistribuição. No caso da pena de morte (no gráfico da direita), observa-se que os que adotam uma posição punitivista extrema têm 43% de probabilidade de apoiar/participar, contra 26% de probabilidade estimada para aqueles que discordam totalmente da pena de morte.

Figura 6
Probabilidades preditas de apoiar atos antidemocráticos e/ou participar deles, segundo a concordância com o casamento homoafetivo, o combate à desigualdade e a pena de morte entre eleitores de Bolsonaro.

Esse conjunto de evidências indica que, em linha com a nossa expectativa teórica, a ideologia desempenha papel relevante na explicação da participação e do apoio a manifestações antidemocráticas. Quanto mais conservadores, e, portanto, ideologicamente distantes do partido vencedor, maior a probabilidade de um eleitor de Bolsonaro apoiar manifestações como a que ocorreu em 8 de janeiro de 2023 ou mesmo de participar delas. Em alguns casos, os eleitores bolsonaristas que manifestam posições mais extremas têm quase duas vezes mais chances de apoiar manifestação desse tipo e de participar delas do que aqueles que adotam posições mais progressistas.

Esse resultado se mantém mesmo quando controlado pela afeição ao PL de Bolsonaro, o que sugere que não se trata apenas de uma reação emocional motivada pelo vínculo afetivo com o candidato derrotado. A ideologia, representada pelo conservadorismo e pela distância em relação ao governo de esquerda, desempenha um papel igualmente decisivo.

Os resultados aqui apresentados, portanto, se ajustam à teoria (Rennó, 2020, 2022; Fuks; Marques, 2020) e aos dados apresentados na seção descritiva “Evidências do aumento da organização ideológica dos brasileiros”, segundo os quais, em 2023, a ideologia é mais consistente e orienta mais o comportamento dos eleitores brasileiros do que anteriormente. Além disso, eles também se ajustam à linha de raciocínio segundo a qual eleitores cujas preferências políticas são mais extremas têm menor compromisso democrático (Torcal; Magalhães, 2022; De Leeuw et al., 2020), são mais propensos a contestar o resultado eleitoral quando derrotados (Anderson et al., 2005; Norris; Garnett; Grömping, 2020) e a retirar a sua lealdade à democracia (Svolik, 2019, 2020; Graham; Svolik, 2020).

Ademais, embora não possamos mostrar empiricamente essa relação, acreditamos que, como sugere a teoria, a polarização ideológica dos últimos anos criou condições favoráveis para esse aumento de consistência ideológica do eleitor brasileiro, assim como para a sua maior propensão a rejeitar a vitória eleitoral do campo adversário. Como a literatura tem revelado sistematicamente, a polarização cria condições favoráveis para que os eleitores se orientem e se comportem de acordo com orientações ideológicas (Lachat, 2008; Dalton, 2011; Zechmeister; Corral, 2013; Singer, 2016; Zingher; Flynn, 2019; Hare, 2021; Gonthier; Guerra, 2022) e aumenta o custo de aceitarem a vitória eleitoral de um candidato que defenda políticas contrárias às suas inclinações ideológicas.

Considerações finais

O que explicaria a participação de eleitores de Bolsonaro nas manifestações antidemocráticas que culminaram com a invasão e depredação das sedes dos três poderes em Brasília no dia 8 de janeiro de 2023 ou seu apoio a elas? Os dados que utilizamos neste artigo indicam que esse engajamento não decorre apenas da afeição por Bolsonaro, sendo também explicado pelas posições mais conservadoras de parcela de seus eleitores. Nosso estudo também mostra que a crescente orientação ideológica do eleitorado brasileiro não se restringe ao ambiente eleitoral e ao voto, como outros estudos têm apontado (Fuks; Marques, 2020; Rennó, 2020, 2022), mas retrata um fenômeno mais abrangente.

As evidências apresentadas neste artigo reforçam a tese da crescente relevância das orientações ideológicas na formação das atitudes políticas dos brasileiros e indica que, quando derrotados nas urnas, os eleitores brasileiros com posições mais conservadoras sobre economia, costumes e segurança pública manifestam disposição de acompanhar a sua liderança na contestação do resultado eleitoral. Esse fenômeno está em sintonia com uma tendência mais ampla, observada em diversas democracias contemporâneas, como os EUA, onde o apoio à invasão do Capitólio, em 2021, também foi ideológica e partidariamente orientado. Além disso, os resultados do nosso artigo corroboram a teoria de que eleitores mais extremistas são menos leais à democracia, especialmente quando confrontados com a escolha entre apoiar seu candidato preferido ou sustentar os princípios democráticos (Svolik, 2019, 2020; Graham; Svolik, 2020).

Por fim, nossos resultados são consistentes com a teoria de que eleitores de direita são mais propensos a ter atitudes antidemocráticas. Reconhecemos, no entanto, que não é possível saber como os apoiadores de Lula teriam reagido em um cenário hipotético no qual ele os incentivasse a resistir à sua prisão ou a participar de atos visando derrubar o governo de Bolsonaro por ter sido impedido de participar das eleições em 2018.

Uma implicação política dos resultados do artigo reside no fato de as conexões entre ideologia e adesão às manifestações antidemocráticas existirem independente do afeto pelo PL e por Bolsonaro. Se esse comportamento fosse apenas orientado pelo vínculo com lideranças políticas e pelos apelos das mídias sociais, esse grupo de extrema direita seria mais instável. Mas a presença de traços ideológicos consistentes indica que esse grupo apresenta maior resiliência, com capacidade de se manter ativo mesmo na ausência da liderança de Bolsonaro.

Alguns caminhos interessantes se apresentam para pesquisas posteriores. Um deles consiste em investigar se a percepção desses eventos se mantém à medida que as eleições de 2022 se distanciam no tempo. Nosso survey foi conduzido muito próximo aos ataques em Brasília, podendo ter sido influenciado pelo calor do momento. Investigações futuras podem também explorar o impacto de fatores institucionais e midiáticos na ampliação desses padrões de comportamento, assim como de outros fatores contextuais e psicológicos.

Em um momento em que as investigações policiais e inquéritos revelam indícios de associação entre os atos de 8 janeiro de 2023 e um plano para derrubar o governo Lula, cabe aos pesquisadores do comportamento político a tarefa de avançar na pesquisa sobre as motivações que levam eleitores a apoiar manifestações antidemocráticas e a se engajar nelas.

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    » https://www.jstor.org/stable/27090037
  • 1
    O conjunto de dados de apoio aos resultados deste artigo não está disponível ao público.
  • 4
    Como critério para escolha dos bancos, priorizamos surveys acadêmicos, com perguntas comparáveis entre si e realizados de forma recorrente ao longo dos anos.
  • 5
    Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e Partido Social Liberal (PSL).
  • 6
    No anexo, incluímos os gráficos descritivos sem cruzamentos da distribuição das variáveis analisadas nesta seção.
  • 7
    Neste gráfico, optamos por reportar o cruzamento por voto no segundo turno, que é um teste mais exigente que o voto no primeiro turno, em geral, mais ideológico. No entanto, os próximos gráficos são elaborados a partir dos dados do LAPOP, que não têm a pergunta sobre voto no segundo turno, casos em que a alternativa foi usar o primeiro turno.
  • 8
    Exceções a esse diagnóstico podem ser encontradas nos poucos estudos que encontram evidências de correlação do voto com temas redistributivos em algumas eleições específicas (por exemplo, Silva, 2019; Rennó, 2020; Bello, 2023).
  • 9
    O survey foi realizado no âmbito da pesquisa “As Bases das Clivagens Políticas no Brasil”, coordenada pelo professor Julian Borba, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e realizada pelo Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (IPESPE).
  • 10
    No anexo deste artigo, as tabelas A1 e A2 contêm dados descritivos dos dois grupos.
  • 11
    A pergunta exata era: “Em muitos países, os resultados das eleições têm sido questionados pelos candidatos derrotados. No dia 8 de janeiro, em Brasília, um grupo de pessoas invadiu os prédios dos três poderes em protesto contra o resultado das eleições e pedindo a intervenção militar. Em relação a manifestações como essa, o(a) Sr.(a): 1. Apoia e participaria; 2. Apoia, mas não participaria; ou 3. Não apoia?”
  • 12
    No anexo deste artigo, na tabela A3, incluímos um modelo com a amostra inteira e adicionamos como controle também o voto em Bolsonaro.
  • 13
    A escolha dessas dimensões segue o trabalho de Fuks e Marques (2020), que indica associações entre algumas dessas dimensões e o voto. Silva (2017), seguindo o debate estadunidense (Carmines; D’Amico, 2015), já havia mostrado que a ideologia dos brasileiros assume uma forma multidimensional próxima da que propomos aqui. Estudos sobre elites parlamentares brasileiras de direita também mostram a defesa de uma agenda conservadora nas dimensões que utilizamos (Faganello, 2015; Quadros; Madeira, 2018).
  • 14
    Adicionalmente, mostramos, também no anexo deste artigo, na tabela A4, outros modelos com especificação igual, mas utilizando uma versão categórica dessas variáveis de ideologia. No caso, para medir de forma mais precisa o extremismo, nós estabelecemos o ponto dez como indicativo de posição extremista naquela dimensão, aqueles que deram respostas de um a nove como moderados e aqueles que tiveram a posição mais de esquerda, que é o ponto zero, como categoria de referência.
  • 15
    A redação da pergunta foi a seguinte: “Agora o(a) Sr.(a) poderia informar o quanto gosta ou não gosta dos partidos políticos a seguir? Com base numa escala que vai de zero a dez, na qual zero significa ‘não gosto de jeito nenhum’ e dez significa ‘gosto muito’. Quando eu falar o nome de um partido que o(a) Sr.(a) não conhece, apenas diga que não conhece. Vamos lá: de zero a dez, o quanto o(a) Sr.(a) gosta do(a) PL, partido do Bolsonaro?” A menção ao nome de Bolsonaro no item do questionário teve como objetivo minimizar o grau de desconhecimento do PL junto ao eleitorado brasileiro. Assim, enquanto, na pergunta semelhante do Eseb de 2022 (que não menciona Bolsonaro), 24% dos entrevistados não conheciam o partido, no survey Clivagens esse valor foi de apenas 4%.
  • 16
    Na segunda e terceira coluna, estão os coeficientes da regressão multinomial, onde se compara a escolha de “Apoia, mas não participaria” e “Apoia e participaria” contra a opção de resposta “Não apoia”, como categoria de referência. Na quarta coluna, a categoria de referência se mantém, mas as duas categorias de apoio foram agrupadas, e os coeficientes são de um modelo logístico binário.
  • 17
    A figura A5, no anexo, traz as probabilidades preditas segundo o modelo multinomial. Fica claro que, quando se adota posições mais conservadoras, a probabilidade de os eleitores brasileiros não apoiarem atos antidemocráticos declina, enquanto aumenta a probabilidade de apoio ou participação.
  • 18
    Os três primeiros gráficos, na parte de cima da figura A5, mostram as probabilidades preditas segundo os valores de concordância com o casamento homoafetivo, os três do meio, segundo a concordância com o Estado implementar políticas de combate à desigualdade e os três últimos, na parte de baixo da figura, segundo a concordância com a pena de morte. Analisando apenas as probabilidades preditas pelos coeficientes estatisticamente significativos a 95% de confiança, aqueles que discordam totalmente do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo têm 24% de probabilidade de apoiar as manifestações, enquanto aqueles que concordam totalmente têm apenas 13%. O mesmo padrão ocorre com as posições em relação a políticas públicas de combate à desigualdade: aqueles que discordam totalmente do combate à desigualdade pelo Estado possuem 28% de chance de apoiar esse tipo de manifestação, contra 14% daqueles que concordam totalmente, e 18% de participar, contra 11% para os mais redistributivistas. Por fim, aqueles que são mais favoráveis à pena de morte também têm mais chances de participarem de atos antidemocráticos: como podemos ver nos três últimos gráficos, os que concordam totalmente com a pena de morte têm 20% de probabilidade de participarem, contra 9% entre aqueles que discordam totalmente.

Figura A1 Evolução do autoposicionamento ideológico dos brasileiros (2002-2022)

Fonte: Elaborado pelos autores com base em dados do Eseb, de 2002 a 2022.

Figura A2 Evolução das atitudes dos brasileiros em relação ao casamento homoafetivo (2010-2023)

Fonte: Elaborado pelos autores com base em dados do LAPOP, de 2010 a 2023.

Figura A3 Evolução das atitudes dos brasileiros em relação à pena de morte (2002-2022)

Fonte: Elaborado pelos autores com base em dados do Eseb, de 2002 a 2022.

Figura A4 Evolução das atitudes dos brasileiros em relação às políticas firmes de combate à desigualdade (2008-2023)

Fonte: Elaborado pelos autores com base em dados do LAPOP, de 2008 a 2023.

Figura A5 Probabilidades preditas de não apoiar, de apoiar atos antidemocráticos e de participar deles, segundo a concordância com o casamento homoafetivo, o combate à desigualdade e a pena de morte, entre eleitores de Bolsonaro[18]

Fonte: Elaborado pelos autores com base na pesquisa “As Bases das Clivagens Políticas no Brasil” (Borba, 2023).

Tabela A1


Variáveis demográficas dos eleitores de Bolsonaro e do total do Brasil

Tabela A2


Posição ideológica dos eleitores de Bolsonaro e o total do Brasil (%)

Tabela A3


Coeficientes de regressão para o apoio e participação em atos antidemocráticos, estimados com a amostra completa

Tabela A4


Coeficientes de regressão para apoio e intenção de participar de atos antidemocráticos, estimados com as variáveis categóricas de ideologia

Disponibilidade de dados

O conjunto de dados de apoio aos resultados deste artigo não está disponível ao público.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    08 Ago 2024
  • Aceito
    05 Set 2025
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