Resumo
As mídias digitais estão sendo utilizadas por movimentos sociais como ferramenta de ação política. No Brasil, o Fridays for Future (FFF) recorreu às affordances do Instagram para reconstruir as práticas do Norte Global, já que as greves climáticas não foram bem-sucedidas no país. Este artigo propõe uma tipologia para as ações contenciosas adotadas pelo FFF-Brasil. Investigamos 177 postagens, entre junho de 2020 e abril de 2022, não relacionadas às greves. Com base na análise de conteúdo e na teoria dos atos pragmáticos, capaz de investigar a linguagem a partir dos efeitos que se pretende imprimir no interlocutor, mostramos que as ações predominantes são aquelas que nomeamos de Protestos sem Participação Popular Prévia (PsPPP). Compreendemos que esse formato foi empregado para realizar denúncias e reivindicações online, sem, no entanto, ter como objetivo principal provocar opositores, mas sim conquistar apoiadores e representatividade.
Palavras-chave
mídias sociais; comunicação política; ativismo climático; repertório digital de ações; Fridays for Future
Abstract
Social movements use digital media as a tool for political action. In Brazil, the Fridays for Future (FFF) movement resorted to the affordances of Instagram to reconstruct the practices from the Global North, since climate strikes had not been successful in the country. This article proposes a typology for the contentious actions adopted by FFF-Brazil. We investigated 177 posts, between June 2020 and April 2022, unrelated to the student strikes. Based on content analysis and the theory of pragmatic acts, which is capable of investigating language based on the effects it intends to have on the interlocutor, we show that the predominant actions are those we call Protests without Prior Popular Participation (PwPPP). This format was used to make online denunciations and demands; however, its main objective was not to provoke opponents, but to gain supporters and representation.
Keywords
social media; political communication; climate activism; digital repertoire of actions; Fridays for Future
Resumen
Los movimientos sociales utilizan los medios digitales como herramienta de acción política. En Brasil, Fridays for Future (FFF) recurrió a las posibilidades de Instagram para recrear las prácticas del Norte Global, dado que las huelgas climáticas no tuvieron éxito en el país. Este artículo propone una tipología para las acciones contenciosas adoptadas por FFF-Brasil. Analizamos 177 publicaciones, entre junio de 2020 y abril de 2022, no relacionadas con las huelgas. Con base en el análisis de contenido y la teoría de los actos pragmáticos, capaces de investigar el lenguaje en función de los efectos que pretende tener en el interlocutor, demostramos que las acciones se concentran en lo que llamamos Protestas sin Participación Popular Previa (PsPPP). Este formato se utilizó para realizar denuncias y demandas en línea, sin que su objetivo principal fuera provocar a los opositores sino ganar apoyo y representación.
Palabras clave
redes sociales; comunicación política; activismo climático; repertorio digital de acciones; Fridays for Future
Résumé
Les médias numériques sont utilisés par les mouvements sociaux comme outil d'action politique. Au Brésil, Fridays for Future (FFF) a exploité les potentialités proposées par Instagram pour s'inspirer des pratiques des pays du Nord, face à l'échec des grèves pour le climat dans le pays. Cet article propose une typologie des actions contestataires menées par FFF-Brésil. Nous avons analysé 177 publications, entre juin 2020 et avril 2022, sans lien avec les grèves. À partir d'une analyse de contenu et de la théorie des actes pragmatiques, qui permet d'étudier le langage en fonction des effets qu'il vise à produire sur l'interlocuteur, nous montrons que les actions se concentrent sur ce que nous appelons les « Protestations sans participation populaire préalable » (PsPPP). Ce format a servi à formuler des dénonciations et des revendications en ligne ; toutefois, son principal objectif n'était pas de provoquer l'opposition, mais de gagner des soutiens et d'obtenir une représentation.
Mots-clés
médias sociaux; communication politique; activisme climatique; répertoire numérique d'actions; Fridays for Future
Introdução
Nas últimas décadas, vários estudos apontam para o impacto das tecnologias de informação e comunicação (TICs) na habilidade dos movimentos sociais em organizar, recrutar, coordenar ações, inclusive transnacionalmente, e disseminar contraestruturas, independente da mídia de massa (Chadwick, 2007; Sorce; Dumitrica, 2023; Van Dijck; Poell, 2018; Van Laer; Van Aelst, 2010). No crescente complexo da ecologia das ações políticas, que agora conecta espaços físicos e digitais, jovens ativistas estão explorando, das mais variadas maneiras, as affordances — isto é, as possibilidades de ação que um objeto ou ambiente oferece a um indivíduo (Oliveira; Rodrigues, 2014) — de plataformas como o X (antigo Twitter) e o Instagram para se manifestarem.
O Fridays for Future (FFF) também tem feito uso desses novos meios de comunicação. Foi com o suporte de postagens no Twitter que a sueca Greta Thunberg, em agosto de 2018, encontrou aliados para transformar uma greve solitária num movimento que começou a reunir milhares de outros jovens estudantes nas ruas do mundo inteiro (Fridays for Future, 2025).
No Brasil, apesar de um quarto da população, quase 50 milhões de indivíduos, ser composto por jovens entre 15 e 29 anos (Atlas das Juventudes, [2025]), as greves climáticas estudantis não repercutiram de modo significativo. A despeito disso, o Instagram do FFF no país computa mais de 28 mil seguidores, número bem superior a muitas contas nessa e em outras plataformas digitais dos grupos do FFF do Norte Global. É relevante, portanto, investigar como vem se configurando o repertório de ações de jovens num país do Sul Global, com características próprias e, portanto, um modo singular de fazer política. Com isso, esperamos contribuir para um debate mais profícuo e diverso em torno da mediação e deliberação das questões socioambientais, que exigem governança ampla e combinada entre os vários pontos do planeta.
Começamos apresentando o conceito de repertório de ações coletivas, advindo da teoria do processo político, a fim de refletirmos sobre a escolha das greves climáticas estudantis como principal tática do Fridays for Future no Norte Global, demonstrando a tendência para ações contenciosas com grande adesão de aliados nas ruas. Na sequência, destacamos o conceito de Estruturas de Oportunidades em Rede (Cammaerts, 2012) adicionado às Estruturas de Oportunidades Políticas (Giugni, 2009; Tarrow, 1996; Tilly, 2004). Além disso, apontamos as diferenças entre ação coletiva e ação conectiva (Bennett; Segerberg, 2012).
Na seção dedicada aos pressupostos da teoria dos atos pragmáticos, defendemos que a linguagem não é apenas um recurso descritivo, mas também uma forma de agir no mundo. Sendo assim, observamos as postagens do Instagram do FFF-Brasil, com vistas a definir como o coletivo, que não conseguiu reunir grandes multidões nas ruas, vem se mobilizando dentro da rede e clamando por justiça climática. Identificamos o repertório de ações digitais desse movimento, considerando os aspectos multimodais da comunicação e as intenções do emissor da mensagem.
Por fim, na discussão e conclusão, apresentamos as peculiaridades da automediação dos jovens ativistas. Mostramos que o FFF-Brasil utilizou, em maior escala, o que nomeamos de Protestos sem Participação Popular Prévia (PsPPP), tanto no formato digital quanto físico-digital, investindo esforços para incrementar o poder interno do movimento, de modo a, provavelmente, angariar aliados antes do confronto direto com oponentes e construir um nível intermediário entre o que a literatura nomeia de ações coletivas (Alonso, 2012; Tarrow, 1996; Tilly, 2004) e ações conectivas (Bennett; Segerberg, 2012).
O repertório de ações do Fridays for Future
O repertório de ações é a estrutura como uma organização ou movimento social se constitui e as táticas que utiliza para agir coletivamente, a maneira como toma decisões, o que faz para atrair apoiadores e como realiza suas campanhas. Isso surge a partir das afinidades com seus objetivos mais amplos (Chadwick, 2007). O repertório de ações coletivas, em geral, obedece a padrões relativamente conhecidos por determinado grupo. Por isso, “nem a tentativa de encontrar modelos universais [...], nem a suposição de uma infinidade de meios de organizar objetivos coletivos são eficazes. Assim, ao analisar as ações coletivas, é importante considerar os contextos em que elas acontecem” (Tilly, 1978, p. 143, tradução nossa4).
As ações coletivas podem acontecer de maneira breve ou prolongada, institucionalizada ou disruptiva, monótona ou dramática. A maior parte delas ocorre rotineiramente dentro de espaços institucionalizados por grupos que agem em nome de objetivos triviais, no entanto, a base dos movimentos sociais são as ações coletivas contenciosas. Elas acontecem quando pessoas que não têm acesso regular a organizações representativas agem em nome de uma nova ou improvável reivindicação e se comportam de uma maneira que desafia os outros ou as autoridades. Essas ações são fundamentais para os movimentos sociais, não porque sejam sempre violentos ou extremos, mas porque quase sempre elas são o único recurso de que as pessoas comuns dispõem contra oponentes poderosos e muito bem equipados (Tarrow, 2022).
Em outras palavras, o engajamento mais óbvio ocorre entre os movimentos sociais e seus oponentes, mas há também interações entre os aliados potenciais ou recrutados, a mídia e outros atores governamentais (Jasper; Moran; Tramontano, 2017). A cooperação é, às vezes, a estratégia utilizada ao invés do conflito.
No caso do Fridays for Future, o movimento começou por decisão automotivada da sueca Greta Thunberg. A ativista, porém, não agiu sozinha por muito tempo: logo depois de ganhar visibilidade na imprensa e nas mídias sociais, milhares de outros jovens se uniram a ela durante as greves climáticas estudantis. O ato de não comparecer às aulas para reivindicar dos governantes ações urgentes contra a crise climática criou uma ruptura na rotina e chamou atenção para as reivindicações daqueles que ainda não estão dentro dos processos formais de participação democrática (Haßler et al., 2023). Essa foi uma das maneiras que os jovens do FFF encontraram para expressar suas expectativas com relação à definição e execução de políticas públicas, já que antes dos 18 anos, em muitos países, sequer podem votar.
Della Porta e Diani (2006) afirmam que os ativistas levam em conta pelo menos três lógicas quando decidem por uma ação: a dos números, a do testemunho e a do dano. No caso das greves climáticas estudantis, a primeira lógica vem associada à manifestação de massa nas ruas, resultado da reunião de uma enorme quantidade de pessoas nos protestos, o que empodera e legitima as reivindicações dos jovens diante de tantas restrições que enfrentam para ter sua voz validada.
Muito embora o FFF também utilize as redes sociais dentro do seu repertório de ações, Sorce e Dumitrica (2023b) advertem que elas não consistem no principal meio de interlocução do movimento internacional com os oponentes. Tanto é que as autoras destacam que, durante a pandemia de covid-19, os coletivos precisaram se adaptar à forçada digitalização por conta da impossibilidade de realizar as greves climáticas nas ruas. Por isso mesmo, uma significativa parte dos trabalhos sobre o Fridays for Future estuda o fenômeno das greves estudantis a partir de múltiplas perspectivas.
Boulianne, Lalancette e Ilkiw (2020) investigaram as hashtags sobre o movimento e as greves: #schoolstrikeforclimate e #fridaysforfuture, em março de 2019 durante a primeira greve global, a fim de compreenderem como as mídias sociais estavam sendo usadas por jovens para o engajamento político e de que maneira era negociada a tensão entre os níveis global e local na governança da crise climática. Concluíram que, por um lado, dentro do material analisado, havia uma tendência para inserir hashtags com os nomes das cidades onde eram realizadas as greves, contemplando o nível local. Por outro lado, os tweets mais frequentes eram os de registro dos protestos e os menos comuns eram os relacionados à mobilização. No entanto, a coleta dos dados da investigação contemplou apenas os tweets postados após os protestos nas ruas.
Haßler et al. (2023) buscaram descobrir como os ativistas do FFF na Alemanha adaptaram suas táticas para as plataformas online, devido à ausência das greves presenciais durante o período da covid-19 e, especialmente, como a hashtag #fridaysforfuture foi afetada. O estudo identificou que o número de tweets caiu consideravelmente, passando a se concentrar em discursos temáticos e debates sobre a legitimidade do FFF, além disso, os tweets sobre protestos diminuíram, bem como os de convocação para mobilizações.
Sorce e Dumitrica (2023a) observaram as estratégias discursivas utilizadas pelo movimento FFF no Facebook para manter o engajamento dos ativistas durante o lockdown da covid-19. As autoras também investigaram, em um segundo artigo, o repertório digital dos coletivos do FFF na Europa naquele período, com o objetivo de entender como o movimento se adaptou à ausência das greves nas ruas (Sorce; Dumitrica, 2023b). O primeiro estudo concluiu que o FFF utilizou as redes sociais para manter o movimento ativo no contexto da pandemia. Na tentativa de evitar a desmobilização, o movimento fez uma apropriação do discurso da crise sanitária para incluir o discurso da crise climática como decorrente das questões que envolvem os problemas socioambientais. No segundo artigo, as autoras sublinharam que o movimento recombinou formatos já existentes do repertório de ações físicas, como as greves e os eventos educativos. Essa adaptação, no entanto, foi acompanhada da perda de valor simbólico, porque as greves digitais não implicavam a retirada de recursos, ou seja, o fato de os estudantes faltarem às aulas como forma de resistência política.
No caso do Brasil, uma das mais recentes e emblemáticas manifestações de rua, que envolveu majoritariamente estudantes, aconteceu em junho de 2013. A princípio, para contestar o aumento das tarifas de transporte público e, posteriormente, para expressar uma insatisfação geral com o Estado (Alonso; Mische, 2017). De acordo com Iamamoto, Teles e Pita (2025), as jornadas de junho foram interpretadas como uma oportunidade política por contramovimentos conservadores, que renovaram seu repertório de ações, até então restrito à lógica eleitoral e ao lobby. O que levou multidões a reivindicar (a favor e contra) o impeachment da presidenta Dilma Rousseff em 2016 e impulsionou a eleição de Jair Bolsonaro, candidato da extrema direita em 2018. A eleição e a posse do presidente Bolsonaro tiveram como consequência, inclusive, um amplo e desastroso retrocesso nas medidas adotadas no país para mitigação e controle do aumento da temperatura do planeta.
Além disso, vale salientar que a midiatização da agenda das mudanças climáticas e sua relação com os movimentos sociais foram parcamente investigadas por sociólogos no Brasil, pelo menos até 2016 (Torres; Jacobi; Leonel, 2020). Esses autores analisaram, no mesmo artigo, a adesão dos jovens brasileiros às greves estudantis climáticas globais em 2019, concluindo que tanto a baixa produção acadêmica quanto a exígua participação dos estudantes nos protestos do FFF-Brasil indicavam o diminuto envolvimento dessas esferas com a pauta socioambiental. De outra perspectiva, Börner, Kraftl e Giatti (2021) consideram a realidade dos jovens no Brasil, sobretudo os da periferia, bem distinta do Norte Global. Presos à luta diária pela sobrevivência, muitos não conseguem pensar além de suas necessidades básicas imediatas. De acordo com os pesquisadores, alguns jovens demonstram um baixo senso de agência política e uma falta de confiança na possibilidade de mudança.
Não por acaso, nossa pesquisa aponta que o FFF-Brasil abandonou, quase que completamente, os protestos nas ruas logo após o primeiro ano de atuação e mesmo antes da covid-19. A despeito disso, a partir de 2020, o coletivo manteve um discurso bastante ativo no Instagram. Portanto, julgamos importante entender que tipos de ações contenciosas as postagens nessa rede social suscitavam num país do Sul Global em meio ao contexto da crise climática.
Mídias sociais e ação política
Na teoria do processo político, um dos fundamentos encorajadores para a participação em ações coletivas são as Estruturas de Oportunidades Políticas, indicando fatores que afetam a capacidade de mobilização e recrutamento de grupos sociais. Segundo McAdam (1996), há quatro dimensões que influenciam o aparecimento das ações coletivas, levando em conta o arcabouço institucional: (i) abertura do sistema político; (ii) estabilidade das elites no poder; (iii) mudanças no apoio a movimentos sociais por parte das elites no poder; (iv) tendência do Estado para a repressão. Além da janela de oportunidades para a ação política coletiva se consubstanciar, os desafiantes teriam de criar estruturas de mobilização preexistentes, como associações e redes de relacionamento, ou se apropriar delas, de modo a dispor das bases organizacionais para a movimentação (Alonso, 2012).
Cammaerts (2011) postula que, para compreender as atuais inclinações na mediação dos protestos e nas práticas dos ativistas, além das Estruturas de Oportunidades Políticas, é fundamental para os estudos dos movimentos sociais incluir debates sobre mídia e comunicação. Isso porque a mídia e o seu significado social estão em rápida transição, assim como as características da democracia. O avanço da internet e o surgimento das redes digitais no início do século XXI são fatores determinantes na expansão de amplas teias de comunicação e, por conseguinte, na criação de novas formas do exercício da cidadania (Dahlgren; Álvares, 2013). A internet transformou radicalmente dois elementos da mobilização tradicional de protestos: os custos de participação e a necessidade de presença física. Dimensões online de participação foram desenvolvidas e novos repertórios de ações introduzidos (Theocharis et al., 2015).
Cammaerts (2011, 2012) afirma que as mídias digitais permitem aos ativistas mobilizarem e organizarem ações diretas, bem como práticas de comunicação que constituem resistência mediada por elas mesmas. O autor sugere incluir nos estudos dos movimentos sociais uma Estrutura de Oportunidades de Mediação, composta por três eixos: (i) Estruturas de Oportunidades de Mídia, que é a extensão pela qual os movimentos são capazes de criar performances e transmitir suas mensagens através da mídia de massa; (ii) Estruturas de Oportunidades Discursivas, que são as estratégias de automediação voltadas à produção de contranarrativas e sua disseminação independente da grande mídia e (iii) Estruturas de Oportunidades em Rede, que são as práticas de resistência mediada através da tecnologia — foco deste artigo.
Ação coletiva e ação conectiva
A ação coletiva sustentável e eficaz, em uma perspectiva mais ampla, normalmente requer níveis variados de mobilização de recursos organizacionais, liderança, desenvolvimento de estruturas de ação comuns e negociação para superar diferenças e fazer coalizões. A abertura ou fechamento de oportunidades políticas afeta esse cálculo de recursos (Bennett; Segerberg, 2012). Contudo, os autores advertem que, na sociedade contemporânea, sob a lógica crescente do individualismo, as pessoas, em sua maioria, não estão dispostas a despender energia num empreendimento coletivo, elas esperam que outros o façam a fim de aproveitarem os benefícios sem esforço. Diante disso, Bennett e Segerberg introduzem o conceito da ação conectiva, a partir do uso das mídias digitais. Para eles, nesses casos, tomar medidas públicas ou contribuir para o bem comum se transforma em um ato de expressão pessoal e reconhecimento ou de autovalidação, alcançado através da partilha de ideias e ações dentro da rede. Às vezes, as pessoas podem estar do outro lado do mundo, mas não precisam de um sindicato, um partido ou uma estrutura ideológica compartilhada para que possam fazer a conexão, é a tecnologia que intermedeia os contatos.
De uma perspectiva crítica, essas ações dentro da rede são consideradas ativismo preguiçoso ou slacktivism. No entanto, Dennis (2019) postula que o viés negativo que incide sobre o microativismo online coloca ênfase em ações observáveis do comportamento político, ignorando o papel que as redes sociais desempenham em relação à troca de informações, ao engajamento discursivo e ao estímulo à mobilização. Em essência, a crítica ao slacktivism reflete a ideia de evitar o ativismo que exige esforço em favor dos benefícios cívicos e reputacionais do microativismo online e fácil.
Sorce e Dumitrica (2023b) afirmam que a ação conectiva nas mídias sociais é facilitadora para que indivíduos se unam e realizem um movimento em rede sem necessariamente compartilhar uma identidade coletiva. Tal argumento, contudo, não está isento de limitações, pois os movimentos sociais requerem ações sustentadas, coletivas e controversas que reúnam vários tipos de atores sociais em diferentes arenas.
Linguagem também é ação
A fim de entender o comportamento dos ativistas do FFF-Brasil frente à crise climática, a partir da análise do repertório de ações contenciosas no Instagram do coletivo, partimos do princípio de que a linguagem não é apenas um sistema de signos e regras formais capaz de transmitir somente informação factual, mas é prática e mediação necessária entre os humanos e a realidade natural e social (Austin, 1962).
Tendo em conta a perspectiva da pragmática, é preciso considerar aspectos concernentes à situação de uso, ao papel dos locutores e às motivações provenientes do contexto em que a produção de significados é analisada, não só à luz de recursos linguísticos, mas também em função de contingências extralinguísticas (Albarelli; Santana, 2022). É preciso considerar, especialmente, que a linguagem é uma forma de ação e de intervenção sobre o outro e sobre o mundo. Enquanto atividade humana, a linguagem é um jogo na medida em que o seu uso implica a existência de regras não apenas gramaticais, mas também sociais (Lopes, 2018).
Austin (1962) postula que não existem apenas atos constativos que descrevem o mundo através de um julgamento de verdadeiro ou falso. Em contraste com os atos constativos, há os atos performativos, que podem ser divididos em três aspectos: (i) locutório, que é o ato físico que põe o sistema linguístico em uso; (ii) ilocutório, que busca levar o interlocutor a praticar uma ação — informar, ordenar, jurar etc.; (iii) perlocutório, que são os efeitos causados no interlocutor a partir de um ato ilocutório (Austin, 1962; Jucker, 2024). Este artigo irá definir e buscar compreender os atos ilocutórios realizados pelos jovens ativistas dentro da plataforma Instagram.
Xie e Yus (2018) afirmam que a internet e a vida mediada pela rede online apresentam novas questões e desafios para a pesquisa em pragmática, que precisam ser considerados. Os discursos na internet exibem padrões semelhantes aos de gêneros orais e escritos mais tradicionais, mas é preciso atenção quanto ao grau de similaridade entre eles, a fim de contemplar as especificidades do discurso digital.
Diante dessas considerações, vamos utilizar, para a análise das postagens do Instagram do FFF-Brasil, a teoria dos atos pragmáticos (Arielli, 2018; Jucker, 2024; Scott, 2022), na sua vertente online, tendo como base a teoria dos atos de fala (Austin, 1962). O novo termo vem sendo usado a fim de chamar a atenção para aspectos multimodais da comunicação. As plataformas de mídias sociais permitem aos usuários realizar atos de fala de diferentes maneiras e, segundo Arielli (2018), desde que Austin afirmou que podemos fazer coisas com palavras, é possível dizer que podemos efetuar ações a partir do uso de diferentes ferramentas que as plataformas digitais tornam possíveis por meio de suas affordances.
Metodologia
Com mais de 28 mil seguidores, o Instagram é a principal plataforma do FFF-Brasil — número esse muito superior ao das suas contas do Facebook, do YouTube e do X — e, por isso, é objeto deste artigo.
Na primeira etapa, a fim de separar as postagens que se referiam às greves estudantis daquelas que não abordavam os protestos nas ruas, foi realizada uma análise de conteúdo quantitativa (Bryman, 2012). O período definido para essa fase vai de 10 de março de 2019 a 22 de março de 2023, o que corresponde aos quatro primeiros anos do coletivo no país. Os dados foram recolhidos pelo Crowdtangle, ferramenta que coleta informações públicas das mídias digitais da empresa Meta. Todo o material extraído foi exportado para o MAXQDA Software (2024), totalizando 691 postagens.
Durante a leitura de cada post, foi verificado: (i) se a palavra “greve” estava presente em cards, textos-legendas, áudios e/ou letterings dos vídeos; (ii) se havia expressões como “venham para as ruas”, “levem seus cartazes” ou “postem uma foto com seus cartazes e marquem a gente”, esta última, nos casos das greves digitais; (iii) se havia menção a data, hora e local da manifestação e, em caso de dúvida, foi observado se a postagem havia sido publicada em uma sexta-feira (dia em que ocorrem as greves no calendário do FFF) ou em data imediatamente anterior ou posterior a esse dia da semana; e (iv) se havia imagens (fotos ou vídeos) com jovens nas ruas com cartazes de protestos. A combinação de dois ou mais desses itens identificava um post na categoria “greve”. Nos casos em que essas premissas não eram associadas, o post seguia para a categoria “não greve”.
Para a análise do repertório de ações digitais, o corpus foi composto pelos picos de postagens que não se referiam às greves detectadas na primeira etapa. Com esse fim, foram incluídos apenas os meses em que as postagens de greves eram muito inferiores às postagens que não se referiam às greves. O ponto de corte ficou em n ≧ 12 postagens por mês, totalizando n = 177 postagens distribuídas em doze meses, entre junho de 2020 e abril de 2022.
Na segunda etapa, foi utilizada a análise de conteúdo quantitativa (Bryman, 2012) e a análise pragmática digital (Jucker, 2024) de caráter qualitativo-interpretativo (Patias; Von Hohendorff, 2019). Realizamos a leitura multimodal das 177 postagens, seguindo proposta de Tseronis, Younis e Üzelgün (2024), para identificar segmentos em que o locutor realizava uma ação com a intenção de provocar uma determinada reação por parte do interlocutor, ou seja, o que Austin (1962) nomeia de ato ilocutório. Isso será identificado, primeiro, a partir de signos linguísticos — verbos ou locuções verbais —, a fim de apontar a ação contenciosa realizada pelos ativistas, cobrando providências em relação a um evento ou fenômeno socioambiental alvo do protesto. Foram também incluídos na análise signos imagéticos — foto, ilustração e/ou vídeo —, transcritos como texto e analisados segundo os critérios pragmáticos já mencionados anteriormente. Além disso, os pronomes de tratamento ou expressões nominais foram sublinhados para indicar o destinatário da postagem. Também identificamos marcas digitais como o uso de hashtags (#), que possibilita a criação de conjuntos capazes de agregarem determinados temas e criarem trending topics sobre acontecimentos que tratam de uma mesma questão, ou o sinal de arroba (@), que direciona a mensagem online para um interlocutor também online.
Foi gerado um codebook com o auxílio da ferramenta MAXQDA Software (2024) visando agrupar categorias semelhantes dos atos ilocutórios, ou seja, os diversos tipos de ações contenciosas, que utilizam os mais variados recursos do Instagram para reivindicar, denunciar, cobrar ou protestar. Algumas dessas ações contenciosas são advindas da revisão da literatura e outras criadas ao longo da leitura, observando a repetição dos padrões, já que se referiam a formatos menos tradicionais.
Vale salientar ainda que não se constituiu como objetivo deste estudo definir a intensidade de uma única categoria de ações em uma mesma postagem. Ou seja, não foi uma preocupação determinar a extensão dos argumentos no texto que cobriam uma dada ação por parte dos ativistas. Em vez disso, decidimos trabalhar, pontualmente, com o conceito de presença/ausência, identificando se havia ou não menção à ação. Em caso afirmativo, um pequeno trecho do texto era destacado, apenas para apontar o(s) tipo(s) de ação (ou ações) presente(s) na postagem.
Dentro do repertório de ações contenciosas definimos também aquilo que Van Laer e Van Aelst (2010) classificam como (i) Ações Suportadas pela Internet, quando as ações facilitam e dão apoio aos protestos offline e (ii) Ações Baseadas na Internet, criando modos de ações digitais, o que Bennett e Segerberg (2012) nomeiam de ações conectivas. Para dar mais clareza à tipologia, decidimos classificar como Repertório de Ações Físico-digitais e Repertório de Ações Digitais, respectivamente.
Por último, durante a leitura das postagens, notamos a ocorrência de muitas ações direcionadas aos aliados, ou seja, outros jovens ou movimentos sociais. Há repertórios de ações específicos para isso com o objetivo de consolidar a identidade coletiva, justificar ações específicas e estabelecer adversários (Alimi, 2017). No entanto, como excediam o objetivo da investigação, essas ações não foram categorizadas neste artigo. Destacamos que em algumas das 177 postagens não detectamos nenhuma das tipologias de ações contenciosas definidas em nosso codebook, ou seja, eram postagens completamente direcionadas para os aliados e, que, portanto, foram desconsideradas para as finalidades do estudo.
Resultados — O repertório de ações contenciosas digitais do FFF-Brasil
A fim de delimitar o repertório de ações contenciosas digitais do FFF-Brasil no Instagram, analisamos 177 postagens nos meses em que as greves, principal tática do FFF internacional, foram substituídas por outros tipos de protestos. O período em que essas ações contenciosas digitais prevalecem está concentrado em doze meses não consecutivos (de junho de 2020 a abril de 2022) em um corpus que contempla os primeiros quatro anos do movimento (de março de 2019 a março de 2023).
Na análise aqui apresentada, diversas categorias de ações contenciosas digitais foram definidas, muitas delas estavam presentes numa mesma postagem. Ou seja, um único enunciado continha, em inúmeros casos, múltiplas ações e destinatários. É o que Lewinski (2021) nomeia de pluralismo de atos de fala, porque não se trata simplesmente de um diálogo no sentido estrito da participação de apenas dois interlocutores: existem vários alvos potenciais no discurso, como diferentes autoridades políticas (locais, nacionais, internacionais), outros ativistas, jornalistas, cientistas ou organizações parceiras.
Além disso, é necessário pontuar que as ações contenciosas, sobretudo no seu formato digital, também são uma forma de criar conscientização entre os seguidores ou simpatizantes e incentivar o engajamento político. A utilização de uma hashtag, por exemplo, mesmo que seja uma hashtag associada a denúncias, como muitas das que aparecem no material de análise, classificadas como repertório contencioso, é também, adicionalmente, uma forma de lutar por suporte e aliados em torno da causa.
No caso do uso de hashtag, a ação não apenas promove atenção pública, mas conecta membros com o mesmo interesse, cria consciência, estimula o debate via mídia social e capacita as pessoas a agirem coletivamente.
O repertório de ações contenciosas é o que tradicionalmente vem sendo utilizado pelos movimentos sociais, já que se trata de grupos em luta contra opositores em uma dada ordem. É dirigido sobretudo às autoridades políticas, e, na pesquisa que empreendemos, também se refere, em algumas postagens, à iniciativa privada.
Em muitas ações o coletivo age sem que a população precise estar envolvida de forma direta, o que denominamos Protestos sem Participação Popular Prévia5 (PsPPP), tanto em ações físico-digitais, quanto em ações digitais, e são em número muito superior ao dos Protestos com Participação Popular Prévia (PPPP), como demonstra a tabela 1.
Vamos, a seguir, discutir brevemente e exemplificar as categorias da tabela 1, começando pelas mais prevalentes, que se encontram dentro dos Protestos sem Participação Popular Prévia (PsPPP), e finalizando com as menos recorrentes, contidas nos Protestos com Participação Popular Prévia (PPPP).
Protestos sem Participação Popular Prévia (PsPPP) — Digitais
Essa é a tipologia que apresentou o maior número de ações entre todos os formatos de protestos aqui definidos. A ação com maior frequência (n=37) é Denunciar com hashtags. A discordância por parte dos ativistas em relação aos eventos alvo da denúncia fica evidente na escolha de palavras para a construção das hashtags, como: o advérbio de negação (não), verbos no imperativo (fora ou fica), siglas que indicam pedido de socorro (SOS) entre outros recursos linguísticos que sinalizam, por exemplo, ação ilegal (invasão, destruição):
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Subtração dos direitos indígenas:
#PldaInvasão, #VidasIndígenasImportam, #PL490NÃO, #TerraIndígenaFica, #SOSCearáMirim, #ForaGarimpoForaCovid, #ATL2022, #MarcoTemporalNão, #LutaPelaVida, #Acampamentoterralivre, #AbrilIndígena, #DemarcaçãoJá, #AldearPolítica.
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Oposição ao bolsonarismo:
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#ForaBolsonaro, #Donottrustbolsonaro, #AmazonOrBolsonaro, #ForaSalles, #ClimateBomb, #ClimasemPedalada, #Nãoconfieembolsonaro.
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Legislação sobre agronegócio:
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#atopelaterra, #Pacotedadestruição.
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Dados da crise climática:
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#AR6, #UprootTheSystem, #DescolonizeOSistema.
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Denúncias contra a iniciativa privada:
#JustiçaParaAurizona, #DeLivreDePlástico, #LeilãoFóssilNão.
O recurso à hashtag foi utilizado para nomear e agrupar acontecimentos em um conjunto de postagens que os ativistas julgavam necessitar de uma gestão pública urgente ou mais adequada. Isso permite aglutinar postagens semelhantes, indexadas também por outros usuários, através do uso da mesma hashtag, ajudando a aumentar a força ilocutória a partir da reunião de uma grande quantidade de publicações. Essa tipologia, na maior parte dos casos, também é combinada com outras, tanto dentro das categorias PsPPP, como das PPPP. Temos o exemplo da figura 1, a seguir, em que o uso de hashtag aparece no título da imagem e ao final do extenso texto-legenda, além de diferentes formas de protesto ou cobrança de responsabilidade, tais como Marcar autoridades com @ (arroba) e Denunciar no texto da postagem.
Apesar de múltiplas ações numa mesma postagem ou reunidas no cluster de uma hashtag serem capazes de ajudar na força ilocutória, notamos que existem outras categorias como, por exemplo, Denunciar com foto-flagrante ou vídeo-depoimento. Este tipo de ação pode provocar maior impacto na audiência e, possivelmente, mais pressão nas autoridades políticas, porque oferece materialidade e maior credibilidade ao fato. Esta categoria, contudo, não foi empregada no caso da postagem sobre o incêndio mostrado na figura 1, sendo substituída por uma animação de fogo em chamas, diferente do exemplo da figura 2, que trata de outro incêndio e apresenta imagens concretas do desastre. Apesar das vantagens que este recurso pode oferecer na apresentação de provas e, consequentemente, na pressão política, apenas 18 das 177 postagens analisadas seguem o formato de Denunciar com foto-flagrante ou vídeo-depoimento. Em uma mídia tão imagética e multimodal como o Instagram, isso tem implicações na perda de oportunidades em oferecer um testemunho visual dos danos e fundamentar a acusação.
No caso da figura 2, o recurso de Denunciar com foto-flagrante não só é utilizado como é reforçado, já que a postagem traz mais de uma imagem em diferentes ângulos e momentos da tragédia, que acometeu parte de um dos biomas mais importantes do país, o Pantanal. Além disso, um vídeo caseiro, apenas com som ambiente do barulho do fogo queimando árvores e folhas, também faz parte da publicação, que mostra o incêndio se alastrando. Se por um lado isso colabora para imprimir um senso de veracidade e urgência à denúncia, por outro lado, esse é o único recurso de protesto utilizado na postagem da figura 2, deixando de aproveitar outros formatos dentro dos PsPPP digitais para aumentar a força ilocutória.
Ainda em relação aos PsPPP digitais, notamos que três categorias têm baixo número de ocorrências. A primeira delas é Denunciar com vídeo temático (n=9). Neste caso, todas se referiam à campanha “SOS Amazônia”, que abordava a situação de calamidade naquela região durante a covid-19 e a necessidade de arrecadação de fundos para proteger a população, principalmente os indígenas. A pouca incidência dessa categoria talvez encontre justificativa no fato de que a produção de um vídeo exige, além da realização de um roteiro, recursos humanos, materiais e financeiros, muitas vezes escassos para jovens ativistas. No caso específico do “SOS Amazônia”, por se tratar da maior floresta tropical do planeta e seus povos originários, conhecidos internacionalmente pela relevância na regulação do clima da Terra, a produção contou com o apoio de muitas personalidades, inclusive da própria Greta Thunberg, que participou de alguns vídeos e fez doações em dinheiro. O gesto talvez represente um forte apoio simbólico da fundadora do FFF aos ativistas brasileiros, além do recurso material para a consolidação das ações do movimento no país.
Outra categoria que aparece pouco dentro das PsPPP digitais é Listar reivindicações no texto da postagem (n=7). Nesses casos, os próprios ativistas especificam, de maneira explícita, o que deve ser feito para mitigar os efeitos das alterações climáticas no país. Em uma postagem desse tipo, há o pedido para que o prefeito de uma cidade na Bahia “assine o decreto” para a criação de uma área de proteção ambiental; em outra, é solicitada a “isenção da tarifa de energia elétrica” para os atingidos por um apagão na região do Amapá, e há também algumas demandas mais vagas, como, por exemplo, “queremos ar limpo”, numa postagem que trata sobre a poluição do ar.
A categoria Denunciar com links surge em apenas uma postagem, como recurso utilizado para oferecer mais informações e argumentos sobre o tema que é alvo da queixa dos ativistas. Neste caso específico, o link era direcionado para uma matéria publicada no jornal O Globo acerca de um derramamento de óleo provocado por um navio cargueiro no litoral do Nordeste, desastre alvo de investigação por uma Comissão Parlamentar de Inquérito, que, todavia, não foi concluída. Os ativistas adotam também o recurso Denunciar no texto da postagem, delatando a interferência nominal do presidente Jair Bolsonaro e da sua equipe para que o processo fosse encerrado, usando, em grande parte do texto-legenda, as informações contidas na matéria do jornal. A inclusão do link ao final do texto-legenda é, possivelmente, uma estratégia para adicionar maior credibilidade à denúncia, sinalizando que não foi iniciativa direta dos ativistas, mas de um grande veículo de comunicação de massa que detém maior expertise e talvez imparcialidade e competência para cobrir e apurar o fato.
Protestos sem Participação Popular Prévia (PsPPP) — Físico-digitais
Entre os protestos que usam o Instagram apenas como apoio para divulgar as ações físicas, a categoria predominante é Realizar protesto físico (n=25), correspondente a manifestações que aconteceram em espaços públicos, com jovens fazendo discursos, segurando faixas e cartazes com frases inquisitivas. Incluímos esse tipo de ação na categoria PsPPP, ou seja, sem participação popular prévia, porque notamos que não havia convocação para mobilizar seguidores a estarem presentes no evento, com postagens em dias anteriores, como costumava acontecer no caso das greves climáticas estudantis.
Grande parte destes protestos eram relacionados à insatisfação dos ativistas com a gestão do presidente Jair Bolsonaro, conforme ilustrado pela figura 3.
É possível observar, na imagem do post, a diminuta quantidade de pessoas presentes na manifestação. Além disso, não foi encontrada nenhuma outra categoria de ações contenciosas, nem mesmo o uso da hashtag ao final do texto-legenda, embora haja uma hashtag impressa em letras verdes na faixa branca ao fundo da imagem. Essas ausências acabam por produzir uma baixa força ilocutória da mensagem, pois não dispõe nem da força da representatividade popular durante o ato público, nem da força que outras postagens semelhantes reunidas em um cluster poderiam proporcionar a partir do uso da hashtag.
A segunda categoria com maior número de ocorrências nas ações físico-digitais é Comparecer a eventos sociopolíticos (n=11), o que inclui conferências, fóruns, audiências públicas. Grande parte das postagens estão relacionadas à participação dos ativistas do FFF-Brasil na Conferência das Partes (COP-26), que aconteceu na Escócia em 2021, onde os jovens buscavam inserir suas demandas nas pautas dos debates e das negociações, mas também realizavam manifestações públicas de protesto nas áreas externas do evento.
As outras duas categorias da tipologia são Elaborar e/ou Entregar carta pública (n=4) e Impetrar ação judicial (n=2). Nesta última, uma das ações foi realizada por iniciativa de ativistas do FFF-Brasil acusando o descumprimento de metas climáticas pelo governo Bolsonaro; a outra era em apoio a uma ONG, o Instituto Arayara, que entrou na justiça contra a exploração de combustível fóssil no litoral brasileiro. Destacamos, portanto, que as reivindicações ou propostas de soluções para mitigar os efeitos da crise climática acontecem em outros formatos, além dos sete mencionados, que são feitos nas postagens dos PsPPP digitais, através do recurso Listar reivindicações. Algumas são elencadas em faixas e cartazes nos protestos físicos ou digitais, outras em meio aos discursos ou nas cartas entregues fisicamente a políticos e autoridades e umas poucas, de forma mais efetiva e direta, usando as vias judiciais.
Protestos com Participação Popular Prévia (PPPP) — Digitais
Essa tipologia é a única que não prescinde da participação ativa do público para que a ação seja realizada, resultando em força ilocutória. Isso porque conta com pressão popular direta e, em alguns casos, formalização das denúncias para além das redes sociais, o que corrobora a intenção de pressionar os responsáveis. Porém, o número total de postagens em que esse recurso aparece é muito inferior ao das PsPPP e tem apenas duas categorias: Assinar petição ou manifesto (n=7), com questões muito diversificadas: (1) petição para expulsar garimpeiros de terras indígenas; (2) manifesto para entregas livres de plástico contra a Uber Eats e o Ifood; (3) petição para o cumprimento de metas climáticas durante a Cúpula dos Líderes; (4) petição para suspensão da Lei Geral de Licenciamento Ambiental; (5) abaixo-assinado para criação de área de preservação ambiental na Bahia; (6) duas postagens com um manifesto sobre implementação de Educação Climática nas escolas.
A segunda categoria de ação, Promover protesto digital (n=6), foi utilizada para interpelar autoridades com relação à criação de uma área de proteção ambiental na Bahia, solicitando aos seguidores postarem fotos nas suas redes segurando um cartaz e utilizando a hashtag #SOSValeEncantado, como mostra a figura 4, a seguir. Esse tema mereceu atenção em três postagens distintas, e foi combinado com outro recurso de uma categoria presente na PsPPP digitais: Marcar autoridades com @ (arroba).
O protesto contra a Cúpula Mundial de Líderes pelo Clima, evento organizado pelo presidente dos Estados Unidos da América, Joe Biden, em abril de 2020, também foi alvo da categoria Promover protesto digital, porém, em apenas duas postagens. O evento foi uma iniciativa pessoal do presidente Biden que convidou quarenta líderes das maiores economias do planeta para discutir propostas em relação ao clima. Os ativistas se mostraram reticentes àquilo que nomearam “promessas vazias” e solicitaram que os seguidores gravassem vídeos com discursos e postassem fotos segurando cartazes em suas contas pessoais no Instagram, marcando o FFF.
Vale destacar, no entanto, que enquanto a criação de uma área de preservação na Bahia mereceu três postagens com esse tipo de ação digital, a Cúpula dos Líderes mobilizou os seguidores em apenas duas postagens com o uso do mesmo recurso. Isso parece significar que a criação do refúgio de vida silvestre no Vale Encantado teria maior apelo para o engajamento dos seguidores no Brasil do que a Cúpula dos Líderes nos EUA.
Por último, há nessa categoria uma postagem sobre os resultados do 6º relatório do IPCC, com um pedido para que os seguidores postem uma foto virada de cabeça para baixo a fim de exigir providências contra os efeitos já evidentes da crise climática apresentados no documento.
Discussão — Os PsPPP e o FFF-Brasil
Os estudos dos movimentos sociais, por várias décadas, foram centrados na relação entre ativistas e detentores de poder. A partir de uma visão estrutural, o Estado é ao mesmo tempo adversário e juiz dos protestos. O engajamento mais óbvio acontece entre os movimentos sociais e seus oponentes, centrados em ações contenciosas, mas também com interações estratégicas entre os aliados potenciais ou recrutados, a mídia e muitos outros atores (Jasper; Moran; Tramontino, 2017).
A fim de compreender como jovens ativistas do FFF-Brasil utilizavam o Instagram para clamar por justiça climática, este artigo analisou os quatro anos iniciais do movimento no país, concentrando esforços em 177 postagens que não se referiam às greves estudantis, principal tática de protesto do coletivo internacional.
Uma das características das ações contenciosas digitais do FFF-Brasil é que grande parte delas, os PsPPP, não dependiam de uma participação popular prévia, ou seja, o coletivo não mobilizava apoiadores para compor os protestos a fim de obter maior representatividade e força política. A lógica dos números, referida por Della Porta e Diani (2006) como sendo a significativa presença de aliados durante as ações de confronto, é acionada de uma outra maneira pelos ativistas do FFF-Brasil. Nesse sentido, notamos que a categoria mais prevalente dentro dos PsPPP foi Denunciar com hashtag. O objetivo era aglutinar um grande número de postagens em um mesmo espaço virtual, em vez de recorrer ao modelo usual, que busca agrupar uma determinada quantidade de indivíduos em espaços físicos, como avenidas ou edifícios públicos. Rauschnabel, Sheldon e Herzfeldt (2019) explicam que a hashtag ajuda na promoção de tópicos online, já que, ao tocar em uma palavra com esse recurso, o conteúdo é direcionado para outras postagens semelhantes. Destacamos, portanto, que é a força do conjunto de mensagens associada a uma hashtag que contribui para visibilizar e/ou credibilizar um tema, e não a quantidade de pessoas nas manifestações offline.
O formato associado historicamente aos protestos de rua, aqueles nomeados de Protestos com Participação Popular Prévia (PPPP), só aconteceu na esfera digital e com baixo número de ocorrências em relação ao total de postagens. Isso pode significar, mais uma vez, que o apoio popular para o confronto direto não existe por falta de consciência da necessidade de participação política e que, portanto, ele precisa ser construído através da disponibilização de informação acessível sobre a gravidade da crise climática e da relevância do ativismo nessa área. Contudo, também pode indicar outras motivações, como a preocupação com represálias ou violência policial em confrontos públicos diretos. Ou, como afirmam Santos, Üzelgün e Carvalho (2024), uma tentativa de se distanciar de uma percepção pública negativa, que associa essas formas de ativismo a perturbações e transtornos gerados por ações mais disruptivas. Ou ainda por aquilo que Bennett e Segerberg (2012) consideram a lógica do individualismo, quando as pessoas não estão dispostas a empregar esforços consistentes em ações coletivas e esperam que outros o façam.
Apesar disso, não podemos dizer que os ativistas no Brasil estão protestando há pelo menos quatro anos de maneira solitária, assim como Thunberg nos primórdios do movimento. Destacamos que eles são acompanhados por mais de 28 mil seguidores no Instagram, que podem estar sendo impactados pelas postagens do coletivo de diferentes maneiras, sem necessariamente se associar às ações do FFF-Brasil de forma direta. É provável que as ações contenciosas sejam uma tentativa de elucidar seguidores sobre os problemas socioambientais no país e reforçar a necessidade de maior engajamento, em vez de ter por objetivo confrontar adversários. Visto que o recurso do @ (arroba) é pouco utilizado para marcar políticos, os protestos em espaços públicos ainda são escassos e ações mais formais como petições ou processos judiciais são esporádicas. No entanto, não podemos classificar esses esforços dentro da rede como simples ações conectivas, no sentido estrito sugerido por Bennett e Segerberg (2012). Apesar de, em grande medida, estarem concentradas no Instagram e não exigirem a participação direta dos cidadãos, aquilo que classificamos de PsPPP parece ter o objetivo de estabelecer o discurso e as posição do movimento FFF-Brasil, adaptando as práticas do Norte Global ao contexto nacional. Consideramos que essas ações estejam em uma categoria intermediária entre o que a literatura classifica de ações coletivas e, no extremo oposto, ações conectivas.
Vale salientar ainda que, durante a leitura das postagens contidas no corpus da pesquisa, encontramos ações dirigidas completamente aos aliados, as quais, todavia, não foram incluídas no codebook por estarem fora do escopo deste artigo. Conforme afirmam Bosi e Zamponi (2015), as táticas online podem se tornar ações sociais diretas que contornam os repertórios tradicionais direcionados para o Estado e se concentram, em vez disso, em uma sociedade que transforma a si mesma como parte da política do dia a dia.
Por fim, é importante levar em consideração algumas peculiaridades do discurso digital e seus efeitos pragmáticos como destacam Xie e Yus (2018). Primeiro, acentuamos que o locutor da mensagem não se encontra face a face com o alvo dos protestos, o que, por um lado, protege os ativistas de ataques ou violências físicas, mas, por outro, não constrange o suficiente para provocar uma resposta imediata, ou seja, um ato perlocutório. Além disso, marcas digitais, como o uso do @ (arroba), cuja função é direcionar o conteúdo para determinado interlocutor, foram pouco utilizadas, como já mencionado antes, reduzindo as chances de respostas. Apesar disso, apenas sugerimos as possíveis funções e implicações dessas postagens, enquanto a medição dos efeitos reais permanece aberta para exame.
Propomos que a análise de outras mídias e a recolha de dados sobre o ativismo do FFF-Brasil sejam consideradas e realizadas a partir de métodos distintos dos utilizados neste artigo, a fim de termos uma noção mais abrangente sobre a atuação dos jovens ativistas no contexto do Sul Global. Estamos de acordo com Dennis (2019) quando aponta que o debate popular atual entre mídia social e política revela uma série de deficiências fundamentais. Entre as críticas ao ativismo online, por exemplo, há a tendência de se estudar as redes sociais isoladamente, sem contemplar uma heterogeneidade discursiva que inclua a análise de múltiplos meios de comunicação e ação. Outros estudos poderão ampliar estes resultados com métodos etnográficos e participativos, como a realização de entrevistas ou grupos focais com ativistas, autoridades governamentais e/ou jovens cidadãos a fim de compreender o impacto das postagens nesses públicos e a efetividade dos Protestos sem Participação Popular Prévia.
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Xie, C.; Yus, F. Introducing internet pragmatics. Internet Pragmatics, [ s. l. ], v. 1, n. 1, p. 1-12, 2018. DOI: https://doi.org/10.1075/ip.00001.xie
» https://doi.org/10.1075/ip.00001.xie
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Todo o conjunto de dados de apoio aos resultados deste artigo foi publicado no próprio artigo.
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No original: “Because of that, neither the search for universal forms (such as those sometimes proposed for crowds or revolutions) nor the assumption of an infinity of means to group ends will take us very far. Because of that, the study of the concrete forms of collective action immediately draws us into thinking about the cultural settings in which more forms appear”.
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O termo “protesto” foi utilizado neste artigo de maneira intercambiável com a expressão “ações contenciosas”, significando, conforme explicam Ribeiro e Borba (2015), práticas contestatórias de participação política.
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Editora Associada:
Fabíola Brigante Del Porto https://orcid.org/0000-0002-0672-1859
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Editora-Chefe:
Rachel Meneguello https://orcid.org/0000-0001-8288-0280
Todo o conjunto de dados de apoio aos resultados deste artigo foi publicado no próprio artigo.





Fonte: Instagram FFF-Brasil, publicado em 1 dez. 2020.
Fonte: Instagram FFF-Brasil, publicado em 23 ago. 2021.
Fonte: Instagram FFF-Brasil, publicado em 7 set. 2020.
Fonte: Instagram FFF-Brasil, publicado em 5 nov. 2020.