Open-access A atividade econômica mineira e fluminense durante o século XVIII e sua relação de longo prazo com o mercado externo

The Economic Activity of Minas Gerais and Rio de Janeiro During the 18th Century and its Long-Term Relationship with the External Market

Resumo

O desenvolvimento da extração aurífera representou, em especial para a região fluminense, a oportunidade de servir como porta de entrada de bens para a região mineradora. Nesse sentido, o porto do Rio de Janeiro experimentou forte aumento das transações de comércio internacional a fim de abastecer o mercado doméstico. Mensurar o relacionamento da região fluminense com esses movimentos (interno e externo) é o objetivo deste artigo. De posse de indicadores econômicos internos e do exterior, empregando-se regressão cointegrante estimada pelo método dos Mínimos Quadrados Ordinários Dinâmicos, detectamos alta persistência nas séries econômicas e uma relação estável de longo prazo significativa da atividade econômica mineira e fluminense com o mercado europeu, respondendo positivamente, tanto no apogeu do ouro, como no seu declínio. Em particular, estimamos que o nível de atividade econômica na região mineira foi mais sensível à evolução do desenvolvimento econômico da Inglaterra do que de Portugal.

Palavras-chave:
Rio de Janeiro; mercado interno; dízima da Alfândega; século XVIII

Abstract

The development of gold extraction represented, especially for the Rio de Janeiro, an opportunity to serve as an entry point for goods to the mining region. In this sense, the port of Rio de Janeiro experienced a strong increase in international trade transactions in order to supply the domestic market. Measuring the relationship of the Rio de Janeiro region with these movements (internal and external) was the objective proposed in this article. Employing cointegrating regression estimated by the Dynamic Ordinary Least Squares method, we detected high persistence in the economic series and a significant stable long-term relationship of the economic activity of Minas Gerais and Rio de Janeiro with the European market, responding positively both at the peak of gold and in its decline. In particular, we estimate that the level of economic activity in the mining region was more sensitive to the evolution of economic development in England than in Portugal.

Keywords:
Rio de Janeiro; southeast region; customs tithing; eighteenth century

1 Introdução

O comportamento do nível de atividade dos países que mantinham comércio com o Brasil foi um vetor importante para a compreensão da conjuntura e das transformações que a economia brasileira passou ao longo dos séculos. Uma explicação inicial reside na importância que o setor exportador exerceu sobre a formação da renda doméstica, em especial na economia colonial1. Na ausência de metais preciosos, as exportações de produtos primários foram a saída encontrada para tomar posse “de fato” do Brasil, na medida em que seriam essas as responsáveis pelo financiamento do processo de colonização (Furtado, 1998).

A fortuna do açúcar consolidou uma maneira de produzir assentada em três pilares, os quais moldaram a economia colonial brasileira: latifúndio, monocultura e a mão de obra escrava.2 Celso Furtado, no clássico Formação econômica do Brasil, apontou as dificuldades de expansão e evolução estrutural que aquela economia escravista de agricultura tropical apresentava. Resumidamente, os recursos gerados através das exportações de açúcar eram gastos com importações, uma vez que a maior parte do consumo e dos fatores de produção empregados na produção eram importados. Assim, não existia um fluxo de renda significativo entre a unidade produtiva (engenho) e o mercado doméstico, pois a produção local se limitava a poucos produtos, todos de menor relevo na formação da renda.

O resultado dessas características era um mercado doméstico limitado ao fornecimento de alguns itens de subsistência (farinha de mandioca) e de produção (gado, madeira etc.), pouco contribuindo para a formação da renda nacional. Desse modo, o setor externo destacava-se sobremaneira para a dinâmica da economia colonial, pois, além de garantir os recursos para a colonização, as exportações colocavam em movimento os poucos canais locais. Grosso modo, Celso Furtado, Caio Prado Júnior e Fernando Novaes apresentam uma vertente interpretativa semelhante no tocante à ligação entre latifúndio, monocultura e escravidão, no sentido de que a Colônia estava submetida aos interesses das metrópoles europeias. Assim, essas análises enfatizam a impossibilidade de uma lógica interna nas sociedades coloniais, minimizando a importância do mercado interno. Sob essa ótica, portanto, as atividades de exportação eram fundamentais para a sociedade colonial (Pesavento; Almeida, 2022). Essa linha interpretativa do funcionamento da economia colonial é conhecida como Antigo Sistema Colonial (ASC).

O bom desempenho da produção açucareira foi interrompido na segunda metade do século XVII, e o crescimento da extração aurífera, por sua vez, em fins do mesmo século, representou um ponto de inflexão no desenvolvimento da economia brasileira (Wehling; Wehling, 1994). Ao contrário da principal cultura de exportação brasileira, a qual demandava vultosos recursos, a extração aurífera não exigia os investimentos em capital físico e mão de obra que a atividade açucareira demandava (Boxer, 2001; Zemella, 1990). Com baixas barreiras à entrada não demorou para que a notícia de minas no Brasil chegasse em diferentes partes da Europa e América, o que acarretou grande fluxo migratório para o atual sudeste brasileiro (Alden, 1990; Stumpf, 2017).

Além das baixas barreiras à entrada, a atividade mineradora3 apresentava elevado custo de oportunidade para deixar de procurar o metal. Abandonar o local de extração para produzir seu alimento, por exemplo, representava desistir de encontrar o ouro. Evidentemente, existiam outras particularidades envolvidas, como a dificuldade de acesso à região de extração (o que aumentava o preço de bens de uso corrente na medida em que o custo de transporte era elevado). Isso abriu oportunidade para que agricultores produzissem uma gama de produtos de subsistência, em especial alimentos, o que engendrou um mercado de abastecimento que foi sendo lentamente formado e desenvolvido conforme ocorria o crescimento da extração de ouro (Zemella, 1990; Carrara, 2007) e progressivo adensamento populacional na região mineira (Alden, 1999; Stumpf, 2017).

Essas características da atividade mineradora são diferentes da produção açucareira, o que construiu não apenas um tecido social mais complexo, mas principalmente representou a possibilidade de aumentar a produção de bens não direcionados ao mercado exterior, mas sim destinados a atender a demanda local, o mercado interno. Ao mesmo tempo, incentivou o intercâmbio de mercadorias entre regiões que - até o século XVII - pouco se articulavam com a região Sudeste, como a pecuária nordestina e sulina (Furtado, 1998).

O próprio Celso Furtado reconhece a importância desses movimentos quando afirma que as “dimensões” da economia mineira eram maiores do que a açucareira, justamente destacando a importância dos canais endógenos que a economia mineira inaugurou. Portanto, o advento do ouro estabeleceu uma nova etapa na qual o mercado interno ganha relevo na participação da formação da renda. O resultado foi o aumento significativo do fluxo de transações, pessoas, liquidez, conhecimento etc. para aquela comarca (Cavalcanti, 2004). Nesse sentido, não tardou para que a região fluminense se transformasse no centro jurídico, administrativo, cultural e econômico da principal colônia portuguesa. O fato que condensou essas alterações foi a transferência da capital do Vice-Reino de Salvador para o Rio de Janeiro, em 1763. Portanto, parecem nítidos os efeitos positivos que o crescimento da extração de ouro em Minas Gerais trouxe para a economia fluminense (Lobo, 1978).

A partir da segunda metade do século XVIII, o volume de ouro extraído inicia um longo processo de declínio. As consequências desse movimento para a economia colonial brasileira é tema de intenso debate na historiografia. De um lado, temos a vertente interpretativa intitulada Antigo Sistema Colonial (ASC) e, do outro, a corrente conhecida como Antigo Regime nos Trópicos (ART)4. De um modo geral, a interpretação da ASC é a de que a queda da produção aurífera desencadeia forte crise econômica, recuperando-se apenas no século XIX com a economia cafeeira (Pesavento; Almeida, 2022). Esses estudos, desenvolvidos até a década de 1970, seguem a lógica do papel primordial que as exportações exerciam sobre a atividade econômica colonial. Nesse sentido, quando o ouro iniciou sua decadência, a economia como um todo também reagiu negativamente. Para Furtado (1998), por exemplo, o arrefecimento do ouro levou a um processo de atrofia monetária, em função do direcionamento da população para um regime de subsistência.

A partir das décadas de 1980 e 1990, uma nova perspectiva sobre a sociedade colonial ganhou espaço, o ART. Essa corrente historiográfica destaca a importância de investigar a dinâmica econômica interna das colônias. Esses estudos indicaram que as sociedades coloniais poderiam desenvolver mercados internos significativos, capazes de reter parte do excedente produzido, mesmo que impulsionados pelas áreas exportadoras. Dois historiadores, João Fragoso e Manolo Florentino, foram fundamentais nessa nova abordagem. Eles redimensionaram a compreensão da economia colonial no sudeste do Brasil nos séculos XVIII e XIX, mostrando que a atividade mineradora criou múltiplos circuitos econômicos, articulados entre diversas regiões, especialmente a África. Por fim, destacam que essa dinâmica econômica possuía relativa autonomia em relação às flutuações dos mercados externos, isto é, o mercado interno apresentava um desempenho que não necessariamente dependia do comportamento das exportações.5 Os estudos de Antônio Carlos Jucá de Sampaio6 corroboram as observações de Fragoso sobre as transformações na dinâmica econômica e social da região ao longo da primeira metade século XVIII (Sampaio, 2003).

Ainda sobre o debate historiográfico, durante a década de 1990, Dauril Alden usou o termo “colonial tardio” para descrever o contexto econômico do Brasil entre 1750 e 1808, marcado pelo boom da produção aurífera e sua subsequente decadência. A população brasileira adaptou-se à queda da produção de ouro, retornando à agricultura com produtos que o Brasil já exportava como tabaco e açúcar, além de novas culturas como anil, algodão e arroz. Nesse particular, Arruda (2001) destaca o papel das políticas de incentivo a novas culturas agrícolas que o Marquês de Pombal implementou no Brasil durante a segunda metade do Setecentos. O resultado bem-sucedido pode ser verificado no crescimento da exportação de novos produtos, o que representou um “novo e complexo relacionamento metrópole-colônia” (Arruda, 2001, p.179). Por fim, recentemente, Marcondes; Oliveira (2022) construíram uma série inédita de exportação de açúcar do Brasil para a cidade do Porto entre os anos de 1762 a 1801. Entre os resultados encontrados, está a tendência de crescimento do desembarque de açúcar brasileiro desde a década de 1760, sugerindo que o renascimento agrícola iniciou não na década de 1780 (como sugerido pela literatura), mas duas décadas antes.

Com respeito à queda da extração aurífera, Fragoso e Florentino reformulam a interpretação de Dauril Alden sobre o “colonial tardio” na obra O Arcaísmo como projeto de 2001.7 Nela, argumentam que não houve um renascimento agrícola após o boom minerador, pois a economia do Rio de Janeiro já visava ao mercado interno antes do declínio da produção aurífera. Eles veem esse período não como recuperação econômica, mas como a consolidação de um novo tipo de acumulação, centrado no capital mercantil no lugar da agricultura agroexportadora, agora liderada não mais pela nobreza da terra, mas sim substituída gradualmente por grandes comerciantes, os homens de negócio (Florentino; Fragoso, 2001).

Um ponto intermediário nesse debate foi construído na tese de doutoramento de Pesavento (2009). Para o autor, a economia fluminense não atravessou uma depressão e tão pouco deixou de ser impactada pela queda da extração de ouro, na verdade ela passou por uma estagnação. Empregando mais de 6.500 escrituras públicas de compra e venda para o termo da cidade do Rio de Janeiro, a tese apresentou indicadores que apontaram para uma crise econômica (em especial, durante a década de 1760), recuperando-se nas décadas seguintes, sobretudo após 1770. Ao mesmo tempo, apresentou dados sobre o preço dos bens rurais, os quais tiveram um movimento de alta na década de 1760, sugerindo um revigoramento do setor, justamente no momento da aceleração da queda da extração aurífera (apoiando a ideia de que a economia do Rio de Janeiro passou por um “renascimento agrícola”). Além disso, aponta para a presença crescente de negociantes estrangeiros que atuaram naquela região através de redes de negócio transimperiais. Por fim, Pesavento (2009) aponta não para a dependência em relação ao mercado externo (como advogado pela ASC) ou ao interno (conforme sugerido pela ART). Para o autor, existiu uma interdependência da economia do Rio de Janeiro entre os mercados doméstico e internacional (Pesavento, 2013).

Recentemente, Carrara et al. (2023) trouxeram novos elementos para o debate sobre o papel que a queda da extração de ouro teve sobre a economia brasileira colonial. No referido trabalho, os autores concluíram - empregando um amplo conjunto de dados primários inéditos - que cada região brasileira apresentou um comportamento distinto ao longo do tempo durante a metade do século XVIII e o início do XIX. A região amazônica (Maranhão e Pará) exibiu crescimento ininterrupto ao passo que ocorreram oscilações no Nordeste (Bahia e Pernambuco), mas com uma tendência ao crescimento. Por sua vez, o centro-sul (Rio de Janeiro e Minas Gerais) enfrentou um cenário de estagnação, enquanto o crescimento simultâneo para todos os territórios ocorreu apenas após 1790. Portanto, a queda da extração de ouro atingiu a economia brasileira de maneira heterogênea. No caso do Rio de Janeiro, corroboram a ideia de Fragoso e Florentino de que não ocorreu uma crise generalizada. Ao mesmo tempo, concordam com Pesavento (2009), uma vez que identificaram para a região fluminense a ocorrência de uma estagnação econômica. Não obstante, Carrara et al. (2023) não analisaram as propriedades estatísticas das séries cronológicas individuais, nem empregaram métodos que permitam estimar coeficientes para o conjunto dos dados. Suas conclusões, portanto, devem ser ponderadas conforme a profundidade da análise dos dados empregada pelos autores - em termos quantitativos -, que ficou restrita à exibição de sua evolução ao longo do tempo (sem análise estatística desses dados).

O objetivo deste artigo é verificar a existência de uma relação de longo prazo entre o nível de produção das regiões mineira e fluminense e as condições de produção internacionais durante o ápice e o declínio da produção aurífera (1727-1790), condicionada pelo nível de atividade da região fluminense e demais fatores (preço do açúcar e dos escravos). A suposição adotada é a de que o nível de atividade da economia daquela região é parcialmente explicado pelo nível de atividade de Portugal, da Inglaterra e pelas demais variáveis de controle. Essa é a hipótese do estudo, que até o presente não foi testada empiricamente com dados e métodos estatísticos adequados na historiografia brasileira. Para verificar a validade dessa suposição, selecionamos variáveis que refletem a hipótese apresentada. Nesse sentido, foram selecionadas séries econômicas representativas da atividade econômica em Minas Gerais (preço dos escravos e a arrecadação com o quinto do ouro, dos dízimos e das entradas) e no Rio de Janeiro (a arrecadação da dízima da Alfândega), assim como de países que mantinham ligações comerciais com as referidas capitanias (Produto Interno Bruto per capita da Inglaterra e Portugal). Por fim, também foi selecionado o preço do açúcar em Amsterdã (como variável de controle): que representa o principal produto exportado do porto fluminense (Lobo, 1978). É importante sublinhar que o exame qualitativo sobre essas relações é extenso, porém evidências quantitativas e, principalmente, o emprego de métodos estatísticos adequados às propriedades dos dados são raros na literatura que cerca o debate.

À luz da literatura que norteia o debate, este estudo oferece duas contribuições empíricas à historiografia brasileira. A primeira contribuição delas consiste na análise das propriedades estatísticas individuais das séries econômicas, mensurando-se o grau de persistência da atividade econômica, ampliando, assim, resultados alcançados no estudo de Carrara et al. (2024). A segunda contribuição consiste no emprego de um método para estimar coeficientes que expressam o comportamento de longo prazo da atividade econômica colonial em resposta aos movimentos da produção em Portugal e Inglaterra, mantendo constante outros fatores. O método de estimação é coerente com as propriedades estatísticas individuais dos dados.

De forma análoga a este estudo, Pessôa e Kang (2024) apresentam uma análise detalhada das características individuais de duas séries de produto per capita do Brasil no período 1901 a 2022, e detectam uma mudança significativa na aceleração do crescimento econômico em data situada antes de 1930, fornecendo informações quantitativas relevantes que qualificam o debate sobre o processo de industrialização no Brasil. Apesar de abordagens quantitativas com tratamento estatístico dos dados, envolvendo tópicos da historiografia brasileira ainda serem raras, seu conteúdo empírico é muito informativo e fornece elementos substantivos para lançar luz em torno de debates e interpretações que cercam a evolução do desenvolvimento econômico no Brasil.

Com os resultados alcançados, é possível debater o papel do mercado externo sobre a economia fluminense durante o século XVIII. Como visto anteriormente, essa discussão é o tema central da historiografia colonial brasileira. Até onde foi possível averiguar, as duas contribuições são inovações em relação à historiografia brasileira para o período em análise.

Por fim, Pesavento (2012) oferece alguns elementos básicos sobre o tema, porém o autor emprega indicadores com valores nominais e limitados ao período 1750-1790. Em contraste, neste estudo foram construídas séries econômicas que iniciam em 1727 e que foram deflacionadas. Desse modo, foi possível estimar os coeficientes de longo prazo entre as economias mineira e fluminense com o mercado externo, porque os dados cobrem boa parte do Setecentos, permitindo acompanhar os efeitos tanto do auge como do declínio da extração aurífera.

O esforço aqui realizado possibilita a construção de novos argumentos para o debate colocado pela historiografia, na medida em que emprega uma metodologia de análise não convencional na literatura. Assim, o artigo foi dividido em quatro seções, além desta introdução. A seção 2 apresenta brevemente o contexto relativo ao século XVIII da economia brasileira. A seção 3 descreve os dados primários empregados no estudo e os pormenores da construção dos indicadores. A seção 4 apresenta o modelo utilizado e discute os resultados encontrados, finalizando com as conclusões.

2 O Rio de Janeiro durante o século XVIII: um resumo do contexto e do debate historiográfico

O objetivo desta seção é apresentar, de maneira sucinta, as circunstâncias que cercaram o desenvolvimento da região fluminense e situar o debate historiográfico sobre no período. Por limitação de espaço não é possível, neste estudo, aprofundar o debate historiográfico (já apresentado na introdução) presente nessa temática. Como é uma contenda conhecida, não vamos pormenorizá-lo, mas sim destacar o seu cerne e os principais autores. Isso é justificado, pois acreditamos que a principal contribuição deste estudo é o emprego de uma metodologia quantitativa original para estudar o século XVIII.

Até boa parte do século XVII, o Rio de Janeiro exerceu um papel secundário na dinâmica econômica brasileira. Isso pode ser explicado pela importância que o Nordeste desempenhava, uma vez que a principal atividade de produção (o açúcar) estava concentrada naquela região. O descobrimento do ouro em Minas Gerais,8 em fins do XVII, foi o evento que catapultou o Sudeste como principal locus da colônia. Diferentemente do açúcar, a extração aurífera apresentava baixas barreiras à entrada na medida em que não requeria a necessidade de um aporte significativo de recursos (mão de obra, bens de capital etc.), especialmente quando comparada aos investimentos exigidos pelo açúcar (Furtado, 1998). Nesse sentido, era mais fácil para os agentes ingressarem na extração de ouro, ainda mais se observando as escassas opções de atividades econômicas disponíveis naquela época (pecuária e agricultura de subsistência/abastecimento). Cabe lembrar que o investimento inicial demandado pela produção açucareira impossibilitava o ingresso da maioria da população naquela atividade. Portanto, a atividade mineradora representava uma esperança de profunda mudança na qualidade de vida dos indivíduos, constituindo um imaginário de redenção e eldorado que levou milhares a se deslocarem para Minas Gerais (Alden, 1999; Stumpf, 2017).

O forte crescimento populacional nas regiões mineradoras foi responsável pelo incremento na demanda de diferentes produtos (em especial os de subsistência). Isso é explicado por outra característica envolvida no processo de extração, a exclusividade no regime de trabalho. No momento em que iniciava a procura pelo metal, o minerador sabia que seu envolvimento seria quase que em período integral. Assim, o custo de oportunidade envolvido na operação era elevado, pois caso quisesse produzir seu alimento ou realizar outra atividade de subsistência deveria desistir de procurar o metal. Nesse sentido, ocorreu não apenas um exponencial crescimento demográfico na região, mas também a construção de um sistema de transporte e de atividades de abastecimento para atender às novas demandas. Não por acaso, o porto do Rio de Janeiro tornou-se o principal local por onde boa parte das mercadorias que estavam envolvidas com a economia mineira passavam (Lobo, 1978; Sampaio, 2003). Além disso, regiões se especializaram na produção de itens para atender à crescente demanda das Minas (Zemella, 1990; Lamas, 2008; Furtado, 1999; Carrara, 2007). Portanto, a interligação crescente, ao longo do século XVIII, entre a região da Baía da Guanabara e as Minas Gerais, não foi fruto do acaso. Muito pelo contrário, refletiu a pujança do ouro e seus impactos sobre as demais atividades econômicas desenvolvidas na região (a maioria, de abastecimento), ou que iniciaram em função do crescimento da mineração.

Por fim, o relevo da região mineira (montanhoso) obrigou ao emprego de animais em grande escala, ocasionando uma série de circunstâncias que favoreceram a criação de uma interligação inédita entre a região de extração com outras como o Sul, Centro-Oeste e Nordeste. Em função dessas características, Furtado (1998) afirma, sem dados primários, que a atividade aurífera terá renda média menor que a açucareira (em função do seu ciclo ser mais curto que o do açúcar), porém tinha uma dimensão maior (justificada pelas interligações com o mercado interno que a mineração inaugurou). Assim, o fortalecimento da economia mineira intensificou e ampliou as atividades econômicas desenvolvidas no mercado doméstico (como a pecuária), bem como o fluxo de negócio existente entre a região de extração aurífera com o Rio de Janeiro e com o mercado internacional (Pesavento, 2013).

Se o crescimento da extração aurífera trouxe prosperidade para a economia colonial, o seu declínio, ao longo da segunda metade do Setecentos, inaugurou uma nova realidade a qual restringiu a atividade econômica do Rio de Janeiro de maneira decisiva (Pesavento, 2015). Para fazer frente a esse movimento de retração da renda, o então ministro dos negócios estrangeiros (Marquês de Pombal)9 adotou uma série de medidas para estimular a economia da principal porção portuguesa. Entre elas, o incentivo à diversificação agrícola (como o anil e o arroz), em especial no Rio de Janeiro (Wehling; Wehling, 1994; Wehling, 1977; Arruda, 1973). Além do apoio da Coroa para estimular novas culturas de exportação (a qual oferecia compra e preço garantidos), Sebastião José de Carvalho e Melo empregou uma série de expedientes para contornar as dificuldades impostas pela queda das exportações de ouro (como o combate ao contrabando, a criação de companhias de comércio etc.). Apesar desses esforços, a redução da extração aurífera foi sentida em diferentes setores da economia, diminuindo o ímpeto que o ouro tinha provocado na geração de renda (Pesavento, 2013). A dimensão desse impacto sobre a atividade econômica do Rio de Janeiro é tema de um grande debate, que apresenta conclusões divergentes.

No geral, a historiografia não diverge sobre os impactos positivos (destacados anteriormente) que a extração aurífera trouxe para a região fluminense. Contudo, o debate que cerca os acontecimentos quando da queda da extração de metais, ao longo da segunda metade do XVIII, são intensos, assim como sobre qual o papel que o mercado interno exerceu na formação da renda. Como esse tema já foi amplamente explorado, podemos resumir a celeuma da seguinte maneira.10 De um lado, estão os argumentos da vertente interpretativa intitulada Antigo Sistema Colonial (ASC) e, do outro, a corrente conhecida como Antigo Regime nos Trópicos (ART). Como apresentado na introdução, os estudos da ASC destacam a importância que as exportações exerciam sobre a atividade econômica colonial. Nesse sentido, quando o ouro iniciou sua decadência, a economia como um todo também reagiu negativamente. Entre os seus principais representantes, estão Celso Furtado, Caio Prado Júnior e Fernando Novaes.

Para Celso Furtado, por exemplo, a redução da extração de ouro significou uma depressão econômica, uma vez que representou o crescimento do setor de subsistência. Sem a opção de minerar, os agentes econômicos migraram para um regime que não produz excedente (regime de subsistência). Portanto, além do choque que a redução da extração significou para vários setores da economia colonial, tivemos os impactos do crescimento de um setor deslocado dos grandes centros econômicos e que não visavam realizar trocas no mercado (Furtado, 1998). Além disso, para Dauril Alden, a economia brasileira passou por um retorno gradual para as atividades tradicionais, como a agricultura de exportação, o colonial tardio. Caio Prado Júnior denominou esse processo de renascimento agrícola.

Para esses autores, a economia brasileira só vai se recuperar no início do século XIX impulsionada pelas exportações. Essa retomada econômica só pode ser sentida em função do retorno à agricultura de exportação. Isso mostra a importância que o setor externo exerceu na formação da renda interna na medida em que quando o volume das exportações aumentou, em que se observa a recuperação da economia. Em resumo, depois do arrefecimento dos metais, observou-se forte estagnação da renda no Brasil, e a sua posterior recuperação só foi possível em função do crescimento do setor mais tradicional da economia colonial, o externo.

Em outro polo, estão os argumentos da vertente interpretativa intitulada Antigo Regime nos Trópicos (ART). Seus principais representantes são os historiadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro, João Fragoso e Manolo Florentino. Para eles, o arrefecimento da extração de ouro não representou uma crise econômica, mas um reordenamento das atividades econômicas, em especial destacam o crescimento de atividades voltadas para atender o mercado interno (as quais foram desenvolvidas durante a mineração). Assim, os referidos autores sugerem não uma crise, mas uma nova maneira de produzir na qual o mercado interno apresentava um grau de autonomia sobre o mercado externo. O livro O Arcaísmo como projeto, síntese das suas teses parte da construção de uma ampla base documental primária (em especial, o emprego de inventários post-modem e escrituras públicas de compra e venda), serve de alicerce para suas conclusões.

Tendo como base um conjunto (inédito) de indicadores da economia do Rio de Janeiro (pós 1790), os referidos autores apontam para a existência de uma estrutura de produção, a qual “gera os seus mercados de homens e alimentos, o que, por sua vez, viabiliza a aparição de circuitos internos de acumulação para além das trocas com a Europa” (Fragoso; Florentino, 2001, p.19). Por esse ponto de vista, a economia do Rio de Janeiro não atravessaria um renascimento agrícola, muito menos uma crise “pós-ciclo do ouro”, uma vez que a produção do Rio de Janeiro já estava voltada para atender o mercado interno. Esse trabalho foi ampliado para outros períodos e regiões como, por exemplo, as teses de doutoramento de Júnia Furtado e de Antônio Carlos Jucá de Sampaio (Pesavento, 2012).

Um ponto intermediário nesse debate foi construído na tese de doutoramento de Pesavento (2009). Para o autor, a economia fluminense não atravessou uma depressão e tão pouco deixou de ser impactada pela queda da extração aurífera. Empregando mais de 6.500 escrituras públicas de compra e venda para o termo da cidade do Rio de Janeiro, a tese revelou que a economia fluminense sentiu o impacto do arrefecimento do ouro (em especial, durante a década de 1760), recuperando-se nas décadas seguintes, sobretudo após 1770. Além disso, aponta para a presença crescente de negociantes estrangeiros que atuaram naquela região através de redes de negócio transimperiais (Pesavento, 2013).

Esses importantes agentes estrangeiros não limitavam suas atividades ao Rio de Janeiro e ao Brasil, mas também a outros impérios (britânico, espanhol etc.). Isso expõe uma característica importante para entender a economia fluminense da segunda metade do século XVIII, o seu caráter transimperial. Nesse sentido, as transações econômicas que aconteciam na região fluminense não se limitavam ao circuito Lisboa-Rio de Janeiro, muito menos ficavam restritas às fronteiras do império ultramarino português,11 mas sim eram pertencentes a um circuito mais amplo.

Por fim, cabe destacar que este estudo não está isolado, mas sim interligado com uma série de pesquisas, que tiveram o seu início na abertura do século XXI (Pesavento; Almeida, 2022). Essas análises basearam-se em ampla pesquisa documental, que além de diluir seu campo de análise, incorporaram muito dos chamados aspectos “extraeconômicos”. Visto o diálogo no que diz respeito à revisão historiográfica, parte-se para a análise quantitativa.

3 Os dados primários empregados

O objetivo desta seção é apresentar as fontes primárias empregadas na construção das séries econômicas elaboradas para quantificar a evolução temporal da atividade econômica das regiões fluminense e mineira, além de estimar os coeficientes de longo prazo que relacionam a economia colonial com a economia internacional no século XVIII. Para tanto, foram selecionadas variáveis que traduzem a dinâmica daqueles mercados.

A carência de séries econômicas para o período colonial é conhecida (Pesavento, 2012; Carrara et al., 2023). Assim, as variáveis selecionadas são aquelas que estavam disponíveis para o período da análise (1727-1790) e que representam uma proxy da atividade econômica da região Sudeste (mercado interno) e do mercado externo. O cenário ideal seria a construção de um amplo banco de dados com indicadores econômicos do período, contudo devemos lembrar-nos da limitação de informações quantitativas para a economia colonial brasileira. Assim, entre as séries disponíveis para o período (século XVIII), foram selecionados os seguintes indicadores:

  1. Arrecadação dos dízimos e entradas para Minas Gerais per capita (em Réis, Maxwell, 1973)

  2. PIB per capita de Portugal (US$ de 2011, Maddison Project12)

  3. PIB per capita da Inglaterra (US$ de 2011, Maddison Project)

  4. Preço do açúcar em Amsterdã (em gramas de prata, por quilo, Paiva 2016)

  5. Preço dos escravos em Minas Gerais (em Réis, Bergard, 2004)

  6. Arrecadação da dízima da Alfândega do Rio de Janeiro per capita (em Réis, série inédita)

  7. Quinto do ouro per capita (em Réis, Maxwell, 1973).

Os dados originais estão em réis ou dólares norte-americanos, exceto o preço internacional do açúcar, expresso em gramas de prata por quilo de açúcar. A justificativa para a escolha das variáveis mencionadas anteriormente está alinhada com os objetivos propostos neste estudo, pois pretende analisar empiricamente a relação de longo prazo entre as regiões fluminense e mineira, e a economia internacional. A seguir, apresentamos os pormenores de cada indicador empregado, com exceção do PIB per capita da Inglaterra e de Portugal e do preço do açúcar, pois são séries costumeiramente conhecidas pela comunidade acadêmica. Por fim, destacamos como foi o procedimento de construção da estimativa da população de Minas Gerais e do Rio de Janeiro.

Para mensurar a atividade econômica de Minas Gerais, quatro indicadores foram selecionados: (1) a arrecadação dos impostos do quinto do ouro; (2) do dízimo e; (3) das entradas; além do (4) preço dos escravos. O primeiro é uma proxy da atividade mineradora, o segundo e o terceiro (dízimo e entradas) são indicadores da atividade econômica mineira, na medida em que eram tributos cobrados sobre a produção e a circulação de mercadorias e pessoas em Minas Gerais. Assim, quanto maior a arrecadação dos referidos gravames (dízimo e entradas), maior a circulação de produtos e pessoas e, consequentemente, maior a dinâmica econômica daquela região (Lamas, 2008; Carrara, 2007, Zemella, 1990; Araújo, 2003). Os valores, em Réis, dos referidos impostos estão disponíveis em Maxwell (1973). O comportamento da arrecadação das entradas e dízimo é condizente com o contexto da região e seu desenvolvimento ao longo do XVIII, isto é, crescimento da arrecadação nas décadas de 1720 a 1750 e posterior redução na segunda metade do Setecentos, justamente quando houve a queda da extração de ouro (Lamas, 2008).

O quarto e último indicador selecionado para mensurar a atividade econômica em Minas Gerais é o preço dos escravos na região mineira (Bergad, 2004). O seu emprego é justificado pelo fato de os cativos serem peça fundamental da economia do século XVIII; não apenas por serem a principal mão de obra empregada no Brasil, mas também pelo papel que o tráfico de cativos representava na dinâmica daquela economia. Esse indicador também revela a dinâmica da principal atividade econômica do Brasil colonial, o tráfico de escravos (Florentino, 1997). O aumento no preço dos escravos revela maior procura, indicando crescimento da atividade econômica mineira. Ao longo da primeira metade do XVIII, quando do boom da mineração, os preços são maiores do que nas décadas seguintes, sugerindo um impacto da redução da extração aurífera sobre seus valores. Os preços também estão em réis e disponíveis em Bergard (2004). Os demais indicadores empregados no estudo serão apresentados a seguir.

3.1 A dízima da Alfândega

Os contratos régios configuravam uma prática recorrente da Coroa para fins arrecadatórios. Na falta de infraestrutura administrativa, capital humano, entre outros, a administração portuguesa transferia a exploração de atividades econômicas (pesca de baleias), comércio (sal), cobrança de direitos (dízimo), tributos (registro de passagens) e rendimentos reais mediante contrato para terceiros (chamados contratadores). Com a arrecadação de impostos (como a dízima da Alfândega), não foi diferente (Pesavento; Guimarães, 2013).

Como o próprio nome sugere, a dízima era o valor de 10%, cobrado sobre as fazendas que desembarcavam nos portos da colônia. O preço do contrato era definido por leilão, no Conselho Ultramarino, em Lisboa. A instituição do referido imposto foi, em um primeiro momento, feita pela Câmara do Rio de Janeiro. Depois da invasão francesa, no início do XVIII, ele passou a ser administrado pela metrópole, até 1753, quando a Fazenda Real começou a cobrar (Sá; Fernandes, 2018). Um aspecto importante sobre os contratos régios é a diferença entre a arrecadação do imposto e o preço pago pelo contrato. Aqui, os dados coletados fazem referência à arrecadação com a dízima e não ao preço que o contrato foi arrematado (o qual era determinando de acordo com o leilão e alterado a cada três anos). Os valores da dízima da Alfândega apresentam um comportamento mais ativo e, com isso, refletem a dinâmica econômica daquele momento. Isso é justificado, pois, o nível de renda do mercado doméstico acompanhava a variação das importações. Portanto, um movimento crescente na Alfândega reflete o desempenho igualmente positivo da economia do Rio de Janeiro (e o inverso é verdadeiro), no qual as exportações e o mercado interno - em boa medida - ditavam a formação da renda local. Assim, a arrecadação da dízima da Alfândega parece ser um indicador mais confiável das oscilações econômicas transcorridas durante o XVIII, quer pela sua natureza, quer por ser o principal tributo cobrado na colônia, conforme aponta a Figura 1.

Figura 1
Total da arrecadação nominal por imposto, Rio de Janeiro entre 1788-1797

A soma nominal das arrecadações dos impostos na praça do Rio de Janeiro entre 1788 e 1797 mostra a importância que a dízima da Alfândega tinha no conjunto de receitas da Coroa na sua principal porção. Sozinha representa impressionantes 61% do total, ao passo que o segundo imposto (Donativo) atinge 21% da arrecadação total. Essa proporção pode ser observada em outras décadas, como a de 1760 e 1750.13 Ao lado da dízima da Alfândega, os rendimentos da Casa da Moeda14 eram outra fonte importante de recursos para a Coroa, porém mais distante do ritmo da atividade econômica (fugindo do propósito deste estudo). Assim, a dízima apresenta, no mínimo, duas grandes qualidades para analisar a atividade econômica da região Sudeste: (a) principal imposto da colônia e (b) a arrecadação da dízima revela a variação do nível de renda da região. O mesmo raciocínio é válido para a arrecadação dos dízimos e de entradas em Minas Gerais. A Figura 2 mostra o valor anual da dízima da Alfândega do Rio de Janeiro.

Figura 2
Valor anual da arrecadação da dízima da Alfândega do Rio de Janeiro: 1727-1790

Em um cenário ideal, para avaliarmos a atividade econômica de uma região, os valores de diferentes indicadores econômicos da época deveriam ser reunidos e analisados. Infelizmente, a carência de informações quantitativas é conhecida, em especial para o século XVIII. Ainda assim, a dízima da Alfândega do Rio de Janeiro é representativa dos movimentos econômicos da região, conforme apontado anteriormente, e de acordo com o que está aqui resumido, na medida em que os valores arrecadados com a dízima representam: (a) principal imposto cobrado na colônia; (b) captura dos movimentos no principal local da vida econômica (porto), (c) que enlaça o meio de transporte e de comunicação mais importante do período (navegação); e (d) sua natureza reflete a variação da renda local (maior fluxo na Alfândega, maior ritmo da economia da região).

3.2 Estimativa da população do Rio de Janeiro e de Minas Gerais15

A fim de obtermos uma avaliação mais precisa da relação entre as variáveis, construímos uma estimativa para o tamanho da população (número de pessoas) do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. Com essas informações, podemos utilizar as variáveis em nível. Infelizmente, existem poucos registros sobre o número de pessoas das referidas regiões. Além disso, os agentes preferiam não ser registrados, pois tinham receio de “pagar mais impostos” e de serem relacionados para o recrutamento militar.

Por fim, a literatura que permeia o debate sobre o tamanho da população no Brasil colonial apresenta números díspares, em especial para o Rio de Janeiro. Por exemplo, os trabalhos de Cavalcanti (2004) e Venâncio (2013) apresentam um número de habitantes menor que a documentação empregada neste estudo. Aqui, a opção foi seguir os dados que as fontes primárias encontradas apontavam para o número de pessoas na região. A primeira estimativa analisada sobre a população foi o documento “Notícias do bispado do Rio de Janeiro”,16 datado de 1687. Naquela oportunidade, a região contava com aproximadamente 23 a 24 mil pessoas (sendo 20.000 escravos). O segundo documento empregado para fazer a estimativa foi o relatório do Lavradio17. Com base nesse documento e em diferentes estudos sobre o tamanho da população brasileira, Botelho (2015) conclui que a população do Rio de Janeiro, em 1780, é de 216.319 pessoas. A partir das informações sobre o número de indivíduos no Rio de Janeiro em 1687 e 1780, construímos uma estimativa de crescimento anual da população de 2,39%18 para o período 1727 a 1790. Já para Minas Gerais, a metodologia da taxa de crescimento anual da população foi diferente. Tendo como base os trabalhos de Alden (1963) e Botelho (2015; 2000), a taxa calculada foi de 2,35%, entre 1727 e 1776; e de 0,18%, entre 1777 e 1790. Esse procedimento é justificado pela necessidade de repercutir a redução da população que a região de Minas experimentou por conta da queda da extração aurífera. Os resultados das estimativas estão dispostos na Figura 3.

Figura 3
Estimativa do número de habitantes: Rio de Janeiro e Minas Gerais (1727-1790)

Com base nas informações quantitativas apresentadas nessa seção, podemos avançar na análise sobre a relação de longo prazo entre as regiões mineira e fluminense e a economia internacional. Isso será realizado na próxima seção do artigo.

4 Enfim, a atividade econômica fluminense: análise e cliometria

O objetivo desta seção é analisar o relacionamento de longo prazo das regiões mineira e fluminense e sua resposta às condições internacionais. A suposição é de que o nível de atividade da economia de Minas Gerais e do Rio de Janeiro é parcialmente explicado pelo nível de atividade de Portugal, da Inglaterra e demais variáveis de controle (preço do açúcar e preço dos escravos). Esta é a hipótese do trabalho. Para verificar a validade dessa suposição, conforme apresentado na seção anterior, selecionamos as seguintes variáveis para a realização das estimativas:

  1. Arrecadação dos dízimos e entradas para Minas Gerais per capita (taxmgpc)

  2. PIB per capita de Portugal (ypr)

  3. PIB per capita da Inglaterra (yuk)

  4. Preço do açúcar em Amsterdã (psugam)

  5. Preço dos escravos em Minas Gerais (pslave)

  6. Arrecadação da dízima da Alfândega do Rio de Janeiro per capita (taxriopc)

  7. Quinto do ouro per capita (quintopc)

Originalmente, os dados estavam disponíveis em réis ou dólares norte-americanos e foram convertidos para gramas de prata e posteriormente em logaritmo, portanto estão deflacionados. Todas as variáveis são do período entre 1727 a 1790, pois encampam tanto o apogeu como o declínio da extração aurífera. Assim, os dados são anuais, correspondendo a 64 anos de observações.

A variável (taxmgpc) foi a escolhida para mensurar o nível de atividade econômica de Minas Gerais. Considerando essa variável e a arrecadação da dízima da Alfândega do Rio de Janeiro como proxies capazes de indicar o relacionamento permanente entre as regiões, podemos observar na Figura 4 que ambas não conseguem retomar o patamar pré-declínio da extração do ouro, sugerindo impacto importante sobre a atividade econômica da região.

A hipótese de uma estrutura de relacionamento da atividade econômica de Minas Gerais e do Rio de Janeiro com o contexto internacional pode ser analisada mediante a estimação de uma regressão cointegrante, se houver uma relação estável de longo prazo entre as variáveis consideradas (Saikkonen; 1991; Stock; Watson, 1993). Para tanto, (1) é necessário que as variáveis sejam integradas de ordem 1 e (2) que exista uma relação de longo prazo entre as variáveis consideradas. Essas duas condições precisam ser testadas antes da estimação da regressão cointegrante.

Figura 4
Arrecadação de impostos per capita do Rio de Janeiro e de Minas Gerais: 1727-1790 (em logaritmo)

Portanto, o primeiro estágio da análise dos dados coletados é testar as variáveis quanto à ordem de integração, para determinar o nível de persistência das séries em análise. É necessário decidir se são variáveis integradas de ordem 1 ou 0. Quando as séries temporais exibem tendência estocástica (integradas de ordem 1), eventuais choques de curto prazo que ocorram sobre o nível das séries em análise geram efeitos permanentes e cumulativos sobre o sistema econômico.

Os resultados da aplicação do teste Dickey-Fuller aumentado (ADF) com o critério AIC modificado, recomendado por Ng e Perron (2001), são apresentados na Tabela 1.

Tabela 1
Resultados do teste ADF (MAIC)

Os valores em negrito na última linha da Tabela 1 deixam claro que, para todas as variáveis consideradas, a hipótese de raiz unitária é rejeitada a 5% de significância para a primeira diferença dos dados. Enquanto a segunda linha da Tabela 2 mostra que não se pode rejeitar a hipótese de raiz unitária para o nível das variáveis, a 5% de significância. Portanto, conclui-se que todas as variáveis utilizadas são integradas de ordem 1 (não estacionárias). Assim, o nível de atividade do Rio de Janeiro, de Minas Gerais, e o desenvolvimento econômico de Portugal e Inglaterra apresentam tendência estocástica, exibindo alta persistência a choques que ocorrem aleatoriamente na economia. Com esse resultado, conclui-se que pode existir pelo menos uma relação estável de longo prazo entre elas, que precisa ser testada. Ademais, os resultados apresentados na Tabela 1 indicam que o nível de atividade (doméstico e internacional) exibe flutuações ao longo do tempo que não têm caráter transitório. Como as demais variáveis, eventuais choques que ocorram sobre o nível de produto per capita da Inglaterra e Portugal geram efeitos permanentes e cumulativos sobre o sistema econômico.

Para verificar se existe uma relação estável de longo prazo entre as variáveis consideradas nas equações (1) e (2) aplicamos o teste de cointegração de Johansen (traço). Os resultados da aplicação do teste de Johansen são mostrados nas Tabelas 2 e 3. Para o conjunto de variáveis que compõem a Eq. (1), os resultados do teste para a inexistência de cointegração (r=0) são mostrados nas Tabela 2 e 3.

Tabela 2
Resultados do teste de cointegração de Johansen (traço)

Analisando-se as informações da primeira linha da Tabela 2, verifica-se que a hipótese nula de inexistência de relação de cointegração é rejeitada a 5% significância, já que a estatística de teste (76,31) é maior do que o valor crítico (70,60). Portanto, a 5% de significância, conclui-se que existe pelo menos uma relação estável de longo prazo entre as variáveis que compõem a Eq. (1).

Considerando-se a estimação da Eq. (2), que é composta por outro conjunto de variáveis, em que o preço dos escravos é substituído pela arrecadação de impostos per capita no Rio de Janeiro, aplicamos novamente o teste de cointegração de Johansen (traço) para verificar se esse novo conjunto de variáveis também apresenta pelo menos uma relação estável de longo prazo. Para o conjunto de variáveis que compõem a Eq. (2), os resultados do teste para a inexistência de cointegração (r=0) são mostrados nas Tabela 3.

Tabela 3
Resultados do teste de cointegração de Johansen (traço)

A análise das informações da primeira linha da Tabela 4 indica que a hipótese de inexistência de cointegração é rejeitada a 5% significância, já que a estatística de teste (74,52) é maior do que o valor crítico (70,60). Portanto, a 5% de significância, é possível concluir que existe pelo menos uma relação estável de longo prazo entre as variáveis consideradas para estimar a Eq. (2). Com os resultados acima indicando que a ordem de integração das variáveis é adequada (I(1)), e como existe evidência empírica de uma relação estável de longo prazo (Tabelas 2 e 3), passa-se para a estimação dos dois modelos considerados no estudo.

Neste estudo, a expectativa é de que a atividade econômica na região de mineração dependa estruturalmente do produto per capita de Portugal e do produto per capita da Inglaterra, condicional ao comportamento do preço do açúcar em Amsterdã e do preço dos escravos. Com base nessa suposição e nos resultados dos pré-testes acima, propõe-se o seguinte modelo de regressão cointegrante:

log ( t a x m g p c ) = γ + φ log ( y p r ) + α log ( y u k ) + κ log ( p s u g a m ) + δ log ( p s l a v e ) + ε (1)

em que o logaritmo natural do nível de atividade econômica de Minas Gerais (taxmgpc) depende do logaritmo do padrão de vida em Portugal (ypr), do logaritmo natural do padrão de vida na Inglaterra (yuk), do logaritmo natural do preço do açúcar em Amsterdã (psugam) e do logaritmo natural do preço dos escravos (pslave) em Minas Gerais.

A evolução da renda per capita em Portugal (ypr) e na Inglaterra (yuk) expressa o comportamento da produção per capita no contexto da economia internacional. Como as variáveis apresentam relação estável de longo prazo, espera-se que o termo de erro ε seja estacionário. O teste ADF para raiz unitária é utilizado para testar essa suposição. Com base na mesma suposição que leva à Eq. (1), visando a uma análise de sensibilidade, propõe-se o seguinte modelo de regressão cointegrante em que a explicativa preço dos escravos em Minas Gerais é substituída pela explicativa nível de atividade no Rio de Janeiro (taxriopc):

log ( t a x m g p c ) = μ + θ log ( y p r ) + π log ( y u k ) + β log ( p s u g a m ) + τ log ( t a x r i o p c ) + v . (2)

A primeira observação em relação às equações (1) e (2) é de que é muito provável que ocorra simultaneidade (recíproca influência, choques comuns) entre o nível de atividade em Minas Gerais e o nível de atividade no contexto internacional, já que a exportação de ouro tipicamente depende do nível de atividade dos países estrangeiros. Ademais, choques externos que afetem a produção da Inglaterra e de Portugal provavelmente também influenciam o comportamento da atividade econômica em Minas Gerais, pois o nível de atividade colonial dependia das flutuações das importações desses países. Além dessa característica histórica, é provável que nem todos os fatores associados ao nível de atividade em Minas Gerais estejam representados nas equações (1) e (2).

Essas duas características mencionadas (simultaneidade e provável omissão de variáveis) geram uma correlação não desprezível entre o termo de erro e a explicativa, tanto no modelo (1) quanto no modelo (2). Na presença dessa correlação a estimativa por Mínimos Quadrados Ordinários das equações (1) e (2) será viesada e inconsistente (endogeneidade) (Wooldridge, 2013; Stock; Watson, 2015).19 Diante dessas características dos dados, para obter uma estimativa consistente para os parâmetros da equação (1), utilizamos o método de estimação para regressão cointegrante, denominado Mínimos Quadrados Ordinários Dinâmicos (DOLS),20 sugerido por Saikkonen (1991) e Stock; Watson (1993).

O método de estimação DOLS para regressão cointegrante gera estimativas consistentes e eficientes porque corrige a endogeneidade adicionando ao modelo de regressão a primeira diferença da matriz de explicativas, defasagens da primeira diferença das explicativas e a própria matriz de variáveis explicativas como regressores (Stock; Watson, 2015; Stock; Watson, 1993). A eficiência da estimativa é aperfeiçoada empregando-se erros padrão HAC (heteroskedasticity-and autocorrelation-consistent). Portanto, as estimativas reportadas nas tabelas a seguir são invariantes à endogeneidade (correlação entre o termo de erro e as explicativas), à autocorrelação serial e à heterocedasticidade, que são características geralmente presentes em dados de séries temporais.21 Os resultados da estimação para a equação (1) estão dispostos na Tabela 4.

Confirmando a expectativa de que os termos de erro da regressão cointegrante podem ser considerados estacionários, os resultados do teste ADF (MAIC) aplicado sobre os resíduos da Eq. (1), tanto para o modelo estimado sem tendência, quanto para o modelo estimado com tendência, indicam que ambos os modelos estão bem ajustados: os resíduos podem ser considerados estacionários a 5% de significância, conforme se espera teoricamente.

Tabela 4
Estimativa por DOLS - Resultados. Dependente: log(taxmgpc), Eq. (1).

A hipótese de não estacionariedade dos termos de erro é rejeitada a 5% de significância, tanto para o modelo sem tendência, quanto para o modelo com tendência, pois o p-valor dos testes é 0,0003 e 0,0002, respectivamente. Os resultados da estimação para a Eq. (2) dispostos na Tabela 5 mostram se as conclusões serão alteradas quando uma medida alternativa de influência da atividade econômica do Rio de Janeiro é incluída na análise.

Tabela 5
Estimativa por DOLS - Resultados. Dependente: log(taxmgpc), Eq. (2).

Confirmando a expectativa de que os termos de erro da regressão cointegrante podem ser considerados estacionários, os resultados do teste ADF (MAIC) aplicado sobre os resíduos da Eq. (2), tanto para o modelo estimado sem tendência, quanto para o modelo estimado com tendência, indicam que ambos os modelos estão bem ajustados: os resíduos podem ser considerados estacionários a 5% de significância, conforme se espera teoricamente. A hipótese de não estacionariedade dos termos de erro é rejeitada a 5% de significância, tanto para o modelo sem tendência, quanto para o modelo com tendência, pois o p-valor dos testes é 0,0000 e 0,0000, respectivamente.

Mesmo quando a simultaneidade da atividade em Minas Gerais com a atividade do Rio de Janeiro é explicitamente reconhecida e controlada na estimação dos coeficientes de longo prazo, a economia internacional exerce efeito positivo e significativo sobre a atividade econômica da região. Antes de analisarmos o sinal e a significância dos coeficientes de longo prazo, duas observações são pertinentes. Primeiro, é importante observar que os coeficientes estimados são elasticidades, pois todas as variáveis são empregadas em logaritmo natural e refletem a influência acumulada de longo prazo; portanto não podem ser interpretadas como correlações ou como variações anuais, tal como se faz com outros métodos de estimação, como MQO/IV/GMM, que são adequados para variáveis integradas de ordem zero (fracamente estacionárias). No presente caso, as variáveis que entram na regressão são integradas de ordem 1, portanto apresentam tendência estocástica. Segundo, entre as duas especificações estimadas para cada um dos modelos especificados, o modelo com constante e tendência é o mais adequado em face da significância estatística ao nível de 5% do coeficiente da tendência.

Analisando-se a magnitude, a significância e o sinal da influência acumulada no longo prazo (Tabela 4), é possível extrair algumas conclusões. Primeiro, o impacto do produto per capita na Inglaterra é substancialmente maior do que em Portugal. Ambas as influências são positivas e significativas a 5% de significância. Mais especificamente, mantendo-se constante o preço do açúcar e o preço dos escravos, a influência acumulada de longo prazo proveniente da Inglaterra é aproximadamente quatro vezes maior do que a influência de Portugal (Tabela 4). A mesma conclusão é obtida mantendo-se constantes o preço do açúcar e o nível de atividade do Rio de Janeiro (Tabela 5).

Segundo, quanto à ligação econômica entre Minas Gerais e Rio de Janeiro, analisando-se a magnitude, significância e o sinal da influência acumulada no longo prazo, com base nos resultados apresentados na Tabela 5, é possível concluir que o efeito de longo prazo do nível de atividade no Rio de Janeiro, representado pela cobrança de impostos é positivo, e a 5% de significância. O que é notável, porém, é que o nível de atividade em Minas Gerais é mais relacionado com o preço dos escravos no longo prazo (Tabela 4) do que com a cobrança de impostos no Rio de Janeiro (Tabela 5), como demonstra a diferença de magnitude (valor absoluto) das elasticidades de longo prazo associadas às duas variáveis, 1,63 e 0,64, respectivamente. Por fim, observando os resultados da Tabela 5, verificamos que os valores absolutos estimados das economias inglesa e portuguesa são superiores ao da atividade fluminense, o que sugere um grau maior de importância do setor externo sobre a economia mineira.

Em resumo, a análise das séries temporais anuais deste estudo resultou em duas conclusões essenciais. Primeiro, constatamos que o nível de atividade do Rio de Janeiro, de Minas Gerais, e o desenvolvimento econômico de Portugal e Inglaterra apresentam tendência estocástica, exibindo alta persistência a choques. A mesma conclusão é válida para as variáveis de controle (preço do açúcar e preço dos escravos). Embora ocorram flutuações particulares em cada região (e país), eventuais choques de curto prazo provocaram efeitos permanentes e cumulativos sobre o sistema econômico. Segundo, após a constatação de que as séries econômicas analisadas apresentam dinâmica comum estatisticamente significativa, os resultados das estimações mostraram que o nível de atividade da região mineira respondeu significativamente e positivamente à evolução do desenvolvimento econômico de Portugal e Inglaterra, mantendo-se constante os demais fatores ao longo das décadas (nível de atividade fluminense, preço do açúcar e dos escravos).

É importante salientar que a magnitude da influência acumulada de longo prazo sobre o nível de atividade da colônia, proveniente da Inglaterra, é aproximadamente quatro vezes maior do que a influência de longo prazo associada a Portugal. Em síntese, os resultados encontrados indicam a existência de interdependência estatisticamente significativa entre o mercado interno e a economia internacional em consonância com uma característica importante do Rio de Janeiro do século XVIII: o seu caráter transimperial (Pesavento, 2013).

5 Conclusões

A descoberta do ouro modificou a economia colonial brasileira na medida em que, grosso modo, deslocou a atenção de Portugal para o interior de sua principal posse. Se antes a atividade econômica estava concentrada na exportação de açúcar, o advento da mineração inaugurou novas formas de produção. Um amplo mercado de abastecimento foi formado, o que ampliou a participação da produção voltada para o mercado interno. Além disso, o crescimento da extração aurífera proporcionou a interligação importante entre Nordeste, Sudeste, Sul e Centro-Oeste impulsionando o desempenho de atividades voltadas a atender o mercado doméstico.

De maneira geral, a historiografia destaca a importância desses movimentos que o ouro inaugurou para a dinâmica da economia colonial durante o século XVIII. Portanto, o debate que cerca esses acontecimentos mostra a importância que a extração aurífera representou para o desenvolvimento da América portuguesa e de Portugal. Porém, quando analisamos o impacto da queda da atividade mineradora sobre a economia do Rio de Janeiro, o tema é controverso, em especial sobre o papel que o mercado externo desempenhou naquele momento de arrefecimento da extração.

Como apontado anteriormente, para o ASC (bem como para a interpretação do “colonial tardio”), o setor externo desempenhou papel chave na medida em que ocorreu o retorno da atividade econômica colonial para as atividades exportadoras. Já para os historiadores vinculados à ART, o mercado externo não foi um vetor fundamental uma vez que o mercado interno apresentava um grau de autonomia frente aos movimentos do exterior. A contribuição que propomos realizar neste estudo foi no sentido de estabelecer uma análise quantitativa entre essas importantes regiões do Brasil colonial e o exterior, contribuindo para o debate historiográfico, em especial pela inclusão de uma metodologia pouco usual (cliometria).

O primeiro desafio foi o de construir séries econômicas que conseguissem reverberar a dinâmica econômica do século XVIII. Para esse fim, a dízima da Alfândega do Rio de Janeiro e os dízimos e entradas para Minas Gerais serviram de proxies para analisar o desempenho das regiões no referido período. A essas informações foram acrescentadas o preço dos escravos em Minas Gerais e o preço do açúcar em Amsterdã. Além disso, as séries econômicas empregadas foram deflacionadas e transformadas em nível (per capita) para uma compreensão da natureza dos dados mais próxima da realidade da época e de acordo com os métodos econométricos mais atuais e/ou recomendados pela literatura.

Quanto aos resultados encontrados, destacamos duas conclusões. Primeiro, o nível de atividade do Rio de Janeiro, de Minas Gerais, e o desenvolvimento econômico de Portugal e Inglaterra apresentam tendência estocástica, exibindo alta persistência a choques. A mesma conclusão é válida para as demais variáveis (preço do açúcar e preço dos escravos). Embora ocorram flutuações particulares em cada região (e país), eventuais choques de curto prazo que ocorreram provocaram efeitos permanentes e cumulativos sobre o sistema econômico. Segundo, após constatarmos que as séries econômicas apresentam uma dinâmica comum significativa, estimamos que o nível de atividade da região mineira respondeu significativamente e positivamente à evolução do desenvolvimento econômico de Portugal e Inglaterra, mantendo-se constantes os demais fatores (nível de atividade fluminense, preço do açúcar e dos escravos). Em particular, salientamos que a magnitude da influência acumulada de longo prazo sobre o nível de atividade da colônia, proveniente da Inglaterra, é aproximadamente quatro vezes maior do que a influência de longo prazo associada a Portugal.

Nesse sentido, os resultados encontrados indicam a existência de uma interdependência de longo prazo estatisticamente significativa entre o mercado interno e a economia internacional, sugerindo que a dinâmica econômica fluminense estava relacionada com o comportamento tanto da economia doméstica como da externa, a despeito de afastamentos de curto prazo ocasionados por variações conjunturais, entre a região mineira, a economia fluminense e o contexto internacional.

Agradecimentos

Os autores são imensamente gratos aos dois pareceristas anônimos da revista Nova Economia, cujos comentários e sugestões em muito contribuíram para aperfeiçoar vários aspectos do trabalho.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Jun 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    18 Dez 2023
  • Aceito
    12 Dez 2024
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