Open-access Estádio Macedão, em Caçapava do Sul (RS/Brasil): etnografia de uma revitalização

Macedão Stadium in Caçapava do Sul (RS/Brazil): Ethnography of a Revitalization

Estadio Macedão en Caçapava do Sul (RS/Brasil): etnografía de una revitalización

Resumo

Este artigo apresenta uma etnografia realizada junto ao Estádio Macedão, em Caçapava do Sul (RS), acompanhando, entre novembro de 2020 e novembro de 2025, as linhas de vida que atravessam o processo contínuo de sua revitalização. A pesquisa voltou-se aos gestos, afetos, memórias e narrativas que fazem e desfazem o estádio no ritmo das relações citadinas. O percurso metodológico, tecido por caminhadas, observação participante e conversas situadas, permitiu seguir os modos como o espaço se atualiza na convivência cotidiana, revelando uma paisagem em devir onde práticas, tensões e expectativas crescem entrelaçadas. A partir desse acompanhamento atento, o estudo propõe compreender a revitalização não como oposição entre tradição e modernidade, conservação e inovação, mas como movimento relacional no qual o estádio se reinventa continuamente nas tramas ordinárias que o habitam.

Palavras-chave
Futebol; Torcedores; Espaço Público; Cultura

Abstract

This article presents an ethnography carried out at the Macedão Stadium, in Caçapava do Sul (RS, Brazil), tracing, from November 2020 to November 2025, the lines of life that traverse the continuous process of its revitalization. The research turned to the gestures, affects, memories, and narratives that continually make and unmake the stadium, moving to the rhythm of city life. The methodological path, woven through walks, participant observation, and situated conversations, allowed us to follow the ways in which the space is continually reconfigured in everyday life, revealing a landscape in becoming where practices, tensions, and expectations grow intertwined. From this attentive engagement, the study proposes to understand revitalization not as an opposition between tradition and modernity or conservation and innovation, but as a relational movement through which the stadium continuously reinvents itself within the ordinary webs of life that constitute it.

Keywords
Football; Fans; Public space; Culture

Resumen

Este artículo presenta una etnografía realizada en el Estadio Macedão, en Caçapava do Sul (RS, Brasil), acompañando, entre noviembre de 2020 y noviembre de 2025, las líneas de vida que atraviesan el proceso continuo de su revitalización. La investigación se centro en los gestos, afectos, memorias y narrativas que hacen y deshacen el estadio al compás de las relaciones urbanas. El recorrido metodológico, tejido mediante caminatas, observación participante y conversaciones situadas, permitió seguir los modos en que el espacio se actualiza en la convivencia cotidiana, revelando un paisaje en devenir donde prácticas, tensiones y expectativas crecen entrelazadas. A partir de este acompañamiento atento, el estudio propone comprender la revitalización no como oposición entre tradición y modernidad, conservación e innovación, sino como un movimiento relacional en el cual el estadio se reinventa continuamente en los tejidos ordinarios que lo habitan.

Palabras clave
Fútbol; Aficionados; Espacio público; Cultura

1 INTRODUÇÃO

A modernização de estádios de futebol, muitas vezes tratada como uma operação técnica ou arquitetônica, envolve transformações mais profundas nas formas de habitar a cidade, nas práticas cotidianas e nas relações sociais que se enredam em torno desses espaços. A substituição de estruturas tradicionais por arenas padronizadas não apenas redefine a materialidade urbana, como também reorganiza modos de pertencimento e memórias coletivas (Drula, 2015; Oliveira Júnior, 2017).

No caso do Estádio Municipal Aristides Dias Macedo - o Macedão - em Caçapava do Sul/RS, os projetos de revitalização mobilizam diferentes expectativas e disputas em torno de sua função, significado e uso. Embora localizado em uma cidade de pequeno porte e distante dos grandes circuitos esportivos, o Macedão ilustra dinâmicas amplas de transformação urbana, nas quais valores locais, afetos e formas de sociabilidade confrontam lógicas de mercantilização e homogeneização espacial (Soutto Mayor; Souza Neto; Silva, 2013; Fernandes, 2023).

Esse tipo de processo não se dá sem resistência. Como mostram Mattos e Oliveira (2024) em seu estudo sobre o São Januário, do Vasco da Gama/RJ, torcedores frequentemente se mobilizam contra a padronização do espetáculo esportivo, reivindicando os estádios como espaços de vida. O caso da “Geral” do Maracanã, eliminada na reforma de 2013, é um exemplo emblemático da reconfiguração do torcer, que trocou o corpo coletivo e em pé por assentos numerados e ingressos caros (Jesus, 2021). Ainda assim, há propostas que apontam para alternativas: Morais (2019) e Klusener (2023) sugerem que modernização e memória não precisam ser excludentes, desde que os projetos considerem os ritmos e histórias já existentes nos espaços.

É nesse entrelaçamento de forças que esta pesquisa se insere. Acompanhamos o Macedão não como ruína a ser corrigida nem como projeto a ser executado, mas como espaço em constante reconfiguração, onde práticas cotidianas, afetos e relações materiais participam ativamente das transformações em curso. Inspirados pela noção de obviação1 proposta por Ingold (2001), adotamos uma abordagem que se orienta menos por modelos explicativos e mais por um caminhar atento às materialidades vivas do lugar - suas rachaduras, improvisos, silêncios e usos múltiplos.

Nesse sentido, a pesquisa propõe compreender o processo de revitalização do Macedão como um acontecimento relacional e em devir, no qual estruturas e formas de vida se coengendram. Acompanhamos as linhas que se engendram no cotidiano do estádio, buscando acessar as tensões, negociações e continuidades que tecem o espaço urbano. Mais do que opor tradição e modernidade, interessa observar como o estádio se reinventa na dobra entre projetos institucionais e práticas afetivas, entre planos traçados e gestos vividos.

2 METODOLOGIA

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (CEP/UFRGS), sob o Parecer nº 5.913.595. A pesquisa etnográfica, vinculada a um doutorado sobre futebol na região central do Rio Grande do Sul, teve sua aprovação formal em fevereiro de 2023. Contudo, o envolvimento com Caçapava do Sul antecede esse trâmite desde novembro de 2020, o primeiro autor circulava pela cidade como caminhante atento, deixando-se afetar pelos ritmos, atmosferas e encontros que fazem do Macedão uma paisagem sempre em formação.

O campo, assim, não se delimitou por datas, mas por uma duração vivida que se estendeu entre 2020 e 2025. Nesse mesmo fluxo, adensou-se o momento de 12 de novembro de 2025, quando o Movimento Assistencial Caçapavano realizou a entrega oficial do gramado sintético.

As relações com os interlocutores não seguiram uma lógica de seleção, e sim de correspondência. A partir de um encontro com o professor de uma escolinha de futebol outras linhas foram se conectando. Um interlocutor levava a outro, enquanto novas vozes surgiam em bares, esquinas e caminhadas, compondo uma rede que se fazia no próprio ato de conviver. As relações, assim, não foram estabelecidas; foram crescendo na repetição dos gestos cotidianos, nas histórias contadas em circulação, na partilha do mesmo chão. Os nomes dos interlocutores foram alterados para garantir o anonimato, respeitando seus modos de aparecer no campo. Os registros foram produzidos por meio de diário de campo e fotografias.

Inspiramo-nos na noção de taskscape, desenvolvida por Tim Ingold (2011), que concebe os lugares como paisagens em contínua formação, definidas menos por suas fronteiras do que pelas ações que os habitam. O estádio, sob essa lente, emerge como um campo sensível em movimento, moldado pelos gestos rotineiros de seus frequentadores - torcedores, comerciantes, atletas, moradores - cujas práticas atualizam cotidianamente sua existência simbólica e material.

A aproximação metodológica se ancora, ainda, na etnografia da cidade proposta2, uma abordagem que investiga o mundo urbano pela apreensão das narrativas e da memória coletiva, buscando a "duração" das experiências temporais dos citadinos. Para as autoras, a cidade é composta por estruturas provisórias e relações improvisadas, marcadas por tensões e agenciamentos diversos. O Macedão, em nossa perspectiva, emana não como uma edificação isolada, todavia, como trama, trabalho e lazer que atravessam o ordinário urbano da população caçapavana.

O deslocamento pelo campo assumiu, então, a forma da flânerie benjaminiana (Benjamin, 1989), em que caminhar é também um modo de escutar os sinais difusos da cidade, de observar os ritmos e interstícios que escapam às representações oficiais. Em uma tarde de domingo, por exemplo, ao acompanhar um grupo de jovens em direção ao estádio, entre paradas em bares de esquina, trechos de caminhada em silêncio e brincadeiras entre amigos, foi possível entender o Macedão não apenas como destino final, e sim como atmosfera entrelaçada. Esse gesto ressoa com a proposta metodológica de Carmen Rial (2023), para quem a flânerie etnográfica - essa antropologia on the road - permite que o campo se apresente na travessia, no inesperado, nos pequenos acontecimentos que surgem no entremeio, não como uma mera lacuna.

Nesse processo, a observação participante seguiu os ritmos da cidade, sem rota pré-definida. Caminhou-se com os torcedores até o estádio, escutou-se as memórias dos comerciantes sobre os domingos de jogos, acompanhou-se treinos desmarcados em razão da chuva, visitou-se arquivos locais entre conversas improvisadas em calçadas. A mobilidade que nos interessa, portanto, não se restringe ao deslocamento físico, mas se aproxima da noção ingoldiana de wayfaring (Ingold, 2011, 2015), isto é, um caminhar atento que tece o campo à medida que se desloca, em que o território não é pré-existente, que é produzido pela experiência na travessia.

A etnografia aqui mobilizada, desse modo, não opera com recortes rígidos entre campo e texto, entre observação e escrita. Trata-se de um processo contínuo de escuta e composição, que incorpora hesitações, retornos e reformulações. Por essa razão, o leitor encontrará variações na voz narrativa - ora no singular, ora no plural - que refletem as diferentes posições implicadas na pesquisa. Em certos momentos, ecoam os gestos do pesquisador em campo; em outros, emergem formulações fruto do diálogo entre orientador e orientando. A escrita, aqui, é também método, torção e vínculo.

Como sugerem Eckert e Rocha (2014), na coautoria etnográfica, compartilha-se mais do que o texto final: compartilha-se o percurso. O debate prévio, as trocas durante o trabalho de campo, as revisões sucessivas, a escuta mútua - tudo isso conforma uma prática de escrita que se constrói em parceria. Mais que uma divisão técnica de tarefas, trata-se de uma aposta numa narrativa sensível às multiplicidades do campo e aos modos diversos de habitá-lo.

Por fim, é importante destacar que este texto segue uma lógica espiralada, que se distancia dos modelos eurocêntricos de ordenamento linear e argumentação sequencial. Talvez isso soe estranho a alguns leitores. Mas talvez, também, faça todo sentido àqueles que enxergam o mundo a partir de outras maneiras de conhecer, escutar e escrever.

3 PRIMEIRAS PASSAGENS NO MACEDÃO

O ingresso no estádio ocorreu durante uma tarde de inverno, em condições climáticas típicas da estação. Temperatura amena, luz solar baixa e ambiente relativamente soturno. A entrada no espaço se deu de maneira hesitante, com atenção voltada aos elementos que o compõem material e sensorialmente. A circulação pelas áreas externas permitiu observar a grama alta e irregular, com falhas visíveis, mostrando um certo abandono da manutenção cotidiana. As arquibancadas apresentavam sinais evidentes de desgaste estrutural, como fissuras, lascas e concreto exposto. Tais marcas não foram interpretadas apenas como evidência de deterioração física, mas como expressões materiais do tempo que passou e da intensidade do uso anterior.

Figura 1
Tribuna do estádio Macedão

Além da condição acadêmica, cheguei a esses espaços com outros calçados. Professor de educação física, ex-jogador de futebol, acompanhante de um jovem futebolista em formação - caminhei por dezenas de estádios no interior do Rio Grande do Sul, e por campos na Argentina e no Uruguai. Por isso, ao pisar no Macedão, o corpo reconhece antes mesmo que o olhar nomeie. É um tipo de saber encarnado. Conheço o cheiro do vestiário, o barulho de rede molhada, o vazio do campo em segunda-feira. Em muitos sentidos, o Macedão poderia se equiparar a tantos outros estádios acanhados do interior. Mas nenhum deles é este. Há uma singularidade que não se mede em estrutura, mas em uso, em compleição, em conexão.

Os trajetos diários dos que mantêm viva a arquibancada, os percursos afetivos que carregam memórias em seus corpos, os fluxos materiais da grama que cresce e do concreto que se transforma sob o sol. Como caminhantes-etnógrafos, seguimos não um mapa prévio, todavia os convites do terreno - uma conversa que começa no bar e continua nas escadas, um grafite que liga passado e presente, um degrau desgastado que conta histórias de incontáveis passos. Nesta malha viva, humanos e não-humanos coexistem sem hierarquias pré-estabelecidas, improvisando juntos o que chamamos de estádio. Aqui, o conhecimento não se extrai. Se cultiva no caminhar-junto, no ritmo compartilhado, na correspondência com os movimentos que fazem do Macedão um constante fazer-se enquanto paisagem3.

A experiência de campo enraíza-se na realização de percursos de escuta e observação atenta. É no atravessando ruas de acesso, mercados informais, espaços de encontro, visando compreender o estádio para além de seus limites arquitetônicos aparentes. Cada vestígio material, pichações, marcas de ocupação, resíduos de eventos, modificações espontâneas, é compreendido não como traço fixo ou ruína passiva, mas como signo de uma vida que persiste, ressignifica e cresce na tensão entre tradição e transformação.

A pesquisa também se apoia na realização de entrevistas abertas e conversas informais com torcedores, jogadores, gestores e moradores, não para fixar testemunhos em categorias rígidas, entretanto, para acompanhar modos de narrar, de lembrar e de projetar futuros possíveis para o Macedão. Assim, o estádio é tomado como paisagem viva. Uma composição fluida e instável de práticas, afetos e infraestruturas populares, continuamente moldada pelas relações que a habitam e excedem, e cujos sentidos se gestam no ritmo movente da vida urbana.

Este gesto inaugural de deambulação sensível, anterior ao início sistemático do trabalho de campo, não buscava ainda compor registros formais, mas permitia intuir, de maneira pré-reflexiva, a vitalidade do Macedão como feixe de práticas e afetos em movimento. A entrada efetiva no campo, com suas derivas e encontros situados, será descrita nos Primeiros Contatos, já sob o peso concreto das condições históricas que atravessavam a cidade.

4 PELAS LINHAS DE CORRESPONDÊNCIAS

O percurso que se estende desde o pórtico de entrada de Caçapava do Sul até o estádio desenha-se como um longo fio asfaltado, ritmado por sucessivos quebra-molas, precariedade e por gestos de travessia. Naquela primeira chegada, já adentrando a noite, o estádio não se anunciou como monumento ou espetáculo. Insinuou-se, antes, como uma presença discreta, que se deixava perceber nos contornos do caminho, orientando o deambular rumo ao centro da cidade.

Sua materialidade se entretecia de maneira tênue. Um muro branco, poucas portas metálicas, um portão, e, no alto de uma esquina voltada para a Rua Presidente Kennedy, a inscrição "ESTÁDIO MUNICIPAL ARISTIDES DIAS DE MACEDO4" como traço que evocava histórias e práticas ainda pulsantes e não como nome que fixasse uma identidade. A ausência de torres de iluminação e o entrelaçamento de copas de árvores que escapavam dos muros sugeriam uma intimidade silente entre o estádio e seu entorno urbano. Sua função, para quem não o conhecia, não se impunha, mas se deixava adivinhar nas dobras do espaço.

Figura 2
Portão da entrada leste do estádio

Foi nesse processo de adivinhação, de ser afetado pelas arestas do espaço, que, em uma tarde ensolarada de inverno, caminhei pelo Macedão, deixando que o lugar me impactasse com sua presença taciturna. A luz dourada filtrava-se pelas árvores que escapavam dos muros, lançando sombras tênues sobre a grama alta e esburacada. As arquibancadas, gastas pelo tempo, pareciam menos ruína e mais inscrição viva da história. O vestiário semiaberto, com tintas descascadas e o cheiro forte de mofo, falava de passagens e de ausências.

O sol aquecia não apenas a superfície, ele animava o estádio como corpo respirante. Não era a forma que me afetava; nem essência que vibrava na matéria gasta, como uma memória que ainda pulsa. Como propõe Ingold (2011), não havia separação entre forma e substância. O Macedão era seu próprio vir-a-ser.

Chegar ao Macedão foi, também, ser atravessado por uma cidade em tempos de transformação. Novembro de 2020, o atravessamento da pandemia de COVID-19 redesenhava os ritmos de presença, mas não suspendia o viver. O estádio, ainda que privado das aglomerações dos jogos seguia trançado aos movimentos cotidianos. Treinamentos controlados, cuidados com o campo, encontros furtivos de afetos que resistiam. A vitalidade do Macedão não cessava; apenas se modulava em outros ritmos, tecidos pela contingência sanitária.

Foi nesse espaço de práticas alteradas que meus percursos se adensaram. Caminhar pela cidade, frequentar espaços esportivos e de lazer, ouvir as ressonâncias do futebol em conversas de rua. Tudo isso se entrelaçava como modo de acompanhar as linhas de vida que o estádio cultivava, mesmo em tempos de retração pública.

Foi em uma dessas deambulações que cruzei o caminho do professor Vieri, responsável pela escolinha de futebol Bons de Bola. Nosso encontro, tecido na informalidade de uma conversa espontânea, constituiu linhas de futuro que se tramavam em meio às incertezas do presente. O projeto do time de futebol, a expectativa de modernização do Macedão, a instalação de iluminação e a substituição do gramado natural por sintético. A vitalidade do estádio, mais uma vez, se fazia não apenas nas práticas do agora, mas nas projeções de futuros sonhados.

As narrativas sobre verbas bloqueadas, tratativas políticas e burocracias municipais não surgiam como meras informações. Eram manifestações do modo como as linhas da cidade se tensionavam e se reconfiguravam em torno daquele espaço.

Anos mais tarde, já entrelaçado à cidade por outros caminhos, uma aula sobre políticas públicas do esporte fez emergir outra camada de sentido. Ivan, aluno do curso de Educação Física e veterano do futebol local, evocava a importância da grama natural e da continuidade afetiva nas formas de torcer, sinais de uma permanência viva em meio ao avanço da modernização técnica. Suas palavras não se alinhavam à oposição fácil entre tradição e eficiência; antes, insinuavam maneiras de habitar o estádio que escapam à lógica mercadológica, proliferando nas frestas do planejamento.

O Macedão se configurava como uma malha viva de relações, afetos e práticas que se entrecruzavam, ora em tensão, ora em convivência inventiva. A etnografia, nesse horizonte, assumia o gesto de caminhar junto com as forças que atravessam o estádio e a cidade, acompanhando os modos pelos quais suas linhas de vida crescem, resistem e se reconfiguram.

5 DEAMBULAÇÕES

Até então, minha aproximação às dinâmicas de revitalização do Estádio Municipal Aristides Dias de Macedo parecia crescer sob a suposição tácita de que a condução do projeto se orientava por consensos compartilhados e pela promoção do bem comum. Um estádio, enquanto espaço vivido e tecido nas práticas de uma comunidade, seria naturalmente objeto de confluência de desejos e esforços, assim imaginava. No entanto, foi numa das últimas aulas do semestre que ministrei, poucas semanas antes das eleições para o paço municipal, que os contornos de uma paisagem mais densa e tensionada começaram a emergir.

O debate, tecido entre estudantes, trouxe à tona percepções divergentes, gestando um campo de forças que desafiava qualquer leitura homogênea do processo de transformação do Macedão. Na tessitura dessas falas, manifestavam-se não apenas projetos técnicos, mas mundos em disputa. Modos de habitar, de lembrar e de projetar o estádio em futuros possíveis.

Na minha interpretação, o professor Vieri, interlocutor com quem estabelecera laços no campo, em articulação com segmentos da sociedade civil e com lideranças políticas ligadas ao governo estadual, sustentava uma proposta de modernização pragmática. O argumento mobilizado ancorava-se nas particularidades climáticas da região. A umidade persistente, os extremos térmicos, a dificuldade recorrente de manutenção da grama natural em condições adequadas para o jogo. Nesse contexto, a instalação de grama sintética se apresentava como solução técnica, prometendo durabilidade, redução de custos operacionais e ampliação das possibilidades de uso do estádio.

O diagnóstico de subutilização do espaço, mencionado por Vieri e reiterado por outros frequentadores, ressoava com aquilo que eu mesmo percebia ao longo dos percursos etnográficos. Embora o Macedão ainda sediasse seletivas pontuais do recém-fundado clube da cidade e atendesse às categorias de base dos times locais, sua presença estava desconectada da pulsação típica dos campeonatos amadores5. Como observa Mauro Myskiw (2012) em seus estudos sobre o futebol comunitário, tais campeonatos não se limitam à prática esportiva: operam como formas de construção de comunidade e de territorialidade. Nesse contexto, a ausência do Macedão como espaço comunitário em Caçapava não expressaria apenas sua baixa ocupação física, mas deslocaria os sentidos de pertencimento e enfraquecendo as circulações afetivas que alimentam o futebol local.

Figura 3
Vista do campo do alto da arquibancada

A proposta de reestruturação, assim desenhada, parecia prometer ganhos generalizados. Mais uso, mais atividades, mais presença comunitária. Mas as práticas sociais, como aprendemos com as antropologias do urbano e do esporte, não se alinham de modo cartesiano às lógicas da eficiência técnica. O espaço vivido, o estádio como malha de afetos e ritmos, não se traduz automaticamente nos projetos de modernização. Entre planos e vivências, crescem atritos, dobras, resistências, como podemos observar.

Foi precisamente Ivan, aluno e frequentador histórico do estádio, quem tensionou essa leitura. Sua fala, atravessada pela memória de outros tempos de Macedão, não recusava simplesmente a modernização em nome da tradição. Ela mobilizava uma experiência sensível de pertencimento, o qual a textura da grama natural não era mero detalhe técnico, mas parte constituinte dos modos de jogar, torcer, habitar o espaço. A materialidade viva do estádio, seus cheiros, texturas, irregularidades, entrava em ressonância com memórias de sociabilidades e gestos esportivos que resistiam à lógica homogeneizante do sintético.

A revitalização, portanto, não podia ser lida apenas como atualização funcional do espaço. Ela se inscrevia numa disputa de mundos, numa reconfiguração das linhas de vida que atravessam o Macedão. Não se tratava de opor modernização e tradição como blocos estanques; mas de perceber, com atenção etnográfica, os modos como práticas, memórias e projetos crescem juntos, entrelaçando tensões, desvios e acomodações provisórias.

Ao acompanhar essas falas e movimentos, fomos compreendendo que a revitalização do estádio era menos um projeto a ser implementado e mais uma travessia em aberto. Uma paisagem de práticas e afetos em contínuo devir, em que a materialidade do espaço urbano é moldada pelas disputas sensíveis sobre o que deve ser lembrado, atualizado, esquecido ou recriado.

6 PERCURSOS, PERTENCIMENTOS E INSERÇÕES

A constituição do espaço social em Caçapava do Sul, especialmente no entrelaçamento entre futebol e gestão esportiva, demonstra-se como uma trama densa de mobilidades, enraizamentos e negociações identitárias. Dois desses agentes, Vieri e Ivan, emergiram como figuras emblemáticas nas tensões que atravessam a revitalização do Estádio Municipal Aristides Dias de Macedo, inscrevendo trajetórias que, embora entrecruzadas pelo futebol, desenham percursos de pertença e inserção profundamente distintos.

Vieri, natural de São Leopoldo, formou-se em Educação Física na região metropolitana de Porto Alegre antes de constituir família em Caçapava do Sul. Sua trajetória profissional é marcada pela itinerância típica das malhas futebolísticas, atravessando clubes da região metropolitana e o Lageadense, do Vale do Taquari/RS. Esse constante deslocamento conferiu-lhe um olhar técnico e pragmático sobre o futebol, moldado por experiências que excedem os limites territoriais da cidade. Em seu modo de habitar o futebol local, Vieri parece operar uma síntese entre os regimes urbanos de alta performance e a organicidade das práticas esportivas de interior.

Na manhã de quarta-feira, o encontro com Vieri aconteceu no próprio ritmo do ginásio em funcionamento. As bolas batendo no piso, as chamadas das crianças e o deslocamento constante pelo espaço compunham o mesmo movimento em que a conversa se inscreveu. Sentado numa das cadeiras próximas à quadra, Vieri falava enquanto acompanhava os gestos dos meninos, e suas palavras cresciam junto aos sons e desvios que atravessavam o lugar:

[...] com gramado sintético, a manutenção é mais barata, e o estádio vai ter mais atenção da prefeitura e de possíveis patrocinadores. A gente tá tentando articulação com a Caixa [Federal], viabilizar um financiamento, conversar com o pessoal do gabinete municipal. Já tem gente se mexendo

(Diário de campo, 18 de setembro de 2023).

A conversa seguiu assim, entre interrupções dos treinos, olhares lançados para a quadra e retomadas breves do assunto, compondo o próprio ritmo daquele encontro. Ivan, por sua vez, representava outro modo de habitar o futebol em Caçapava. Com mais de quatro décadas de vivência local, sua trajetória imiscuía-se organicamente nas práticas esportivas da cidade. Acadêmico de Educação Física, treinador de futsal, organizador de torneios, Ivan era figura de referência nas redes informais que sustentavam o futebol amador e o futsal comunitário. Sua inserção política, consolidada por sua participação ativa na campanha da chapa vitoriosa para o Executivo municipal, garantira-lhe um cargo na Secretaria de Educação, ampliando sua influência sobre as políticas públicas voltadas ao esporte.

Durante o período eleitoral, tentei, sem sucesso, estabelecer interlocução direta com os representantes da administração pública para compreender as perspectivas oficiais sobre a revitalização do estádio. Circulavam rumores, fragmentos de narrativas transmitidas em conversas de esquina e reuniões informais, de que havia, há anos, um montante reservado para tal finalidade nos cofres da prefeitura. Entretanto, a ausência de documentos, a opacidade nas falas e a constante postergação de respostas explicitavam a complexidade de acessar informações em contextos onde a gestão pública se apresenta como um campo de poderes seletivamente acessíveis.

Inspirado na reflexão metodológica de Marco Stigger6, que aponta a rigidez dos protocolos como obstáculo em certos cenários de pesquisa, optei por trilhar caminhos mais fluídos, buscando a etnografia possível entre redes de informalidade e circulação de rumores. Ainda assim, a resistência se impunha como força viva, moldando a própria tessitura da pesquisa e impondo a necessidade de aguardar, de acompanhar com paciência os fluxos do campo.

As dificuldades, assim sendo, reiteravam uma percepção também desenvolvida por Boehl (2021), cuja etnografia entre grupos privilegiados evidencia que o campo não se restringe a territórios fixos, mas emerge no devir incerto das “janelas de oportunidade” que se abrem e se fecham. O campo não é cenário. É acontecimento processual, tramado na espera, no deslocamento e na escuta.

Foi em um desses momentos de deslocamento entre os espaços formais e informais da pesquisa que emergiu uma nova janela etnográfica. Em uma quinta-feira de agosto de 2024, em sala de aula, durante uma discussão sobre políticas públicas de lazer, Samir, jovem aluno recém-egresso do ensino fundamental, interrompeu espontaneamente o debate para expressar sua opinião sobre a revitalização do Macedão. Sem solicitar a palavra, disse, de modo direto e despretensioso: "A grama sintética não é melhor. Melhor jogar na grama mesmo, mesmo ruim." Sua fala, embora breve, condensava muito mais do que um julgamento técnico. Ela demonstrava um vínculo afetivo e corporal com o campo, uma defesa implícita de formas de experienciar o futebol que escapam aos discursos institucionalizados de eficiência e manutenção.

Dias depois, ao fim de uma aula, Samir pediu para me acompanhar no trajeto até minha casa. Enquanto caminhávamos, relatou que havia desenvolvido um problema nos ligamentos do joelho em função de jogos frequentes em campos de grama sintética. Seu posicionamento contrário à substituição do piso não era, portanto, uma opinião desinformada, mas uma reação ancorada na própria experiência física e compassiva com o jogo.

Nesse sentido, a divergência entre as falas de Vieri, Ivan e Samir não se limitava a uma disputa sobre materiais ou custos. O que se desenhava era um conflito mais profundo: a contraposição entre diferentes regimes de valor atribuídos ao estádio e às formas de habitá-lo. Para Vieri, a modernização representava uma estratégia de sobrevivência institucional. Já para Ivan, e de forma mais visceral, para Samir, a manutenção da grama natural era um gesto de lealdade a um modo de jogar e sentir o futebol que se ancora na precariedade, mas também na continuidade dos vínculos locais com o espaço. O campo, nesse embate, não era apenas um equipamento esportivo, mas um território de disputa simbólica sobre o que deve ser preservado, alterado ou deixado para trás.

Como analisa Caldas (2020), a relação entre torcedores e estádios ultrapassa a funcionalidade esportiva: trata-se de um vínculo denso, enraizado na construção de identidades coletivas, na memória afetiva e na territorialização de pertencimentos. Modificar o estádio, portanto, não significa apenas alterar sua estrutura física, mas intervir em práticas cotidianas que o instituem como espaço vivido, como lugar carregado de experiências, ritmos e histórias.

Essa leitura é aprofundada por Cruz (2023), ao investigar o processo de patrimonialização de estádios brasileiros convertidos em arenas multiuso. Em muitos desses casos, as transformações arquitetônicas não resultaram apenas em requalificação urbana, mas em rupturas sensíveis com as culturas torcedoras locais. A substituição da grama natural, nesse contexto, manifestava-se mais do que uma decisão técnica: era um gesto com implicações simbólicas e afetivas de largo alcance, capaz de reconfigurar as formas de uso, apropriação e significação do espaço.

Figura 4
Vista panorâmica do campo da entrada central do estádio

A resistência manifestada por Ivan, Samir e outros frequentadores históricos do Macedão não se inscrevia, portanto, apenas na chave da nostalgia. Ela apontava para a existência de modos de vida que persistem diante da tendência à homogeneização dos espaços urbanos, resistindo à conversão dos territórios populares em plataformas de consumo. Como propõe Lupion (2019), espaços impregnados de vínculos históricos tornam-se campos de disputa narrativa, nos quais diferentes projetos de cidade se confrontam, tensionam e se transformam mutuamente.

Nesse horizonte, a revitalização do Macedão deixava de ser compreendida como um simples projeto de engenharia ou política pública. Ela se apresentava como um campo vivo de forças em movimento, uma trama de linhas que se cruzam, se afastam e resistem. A audiência pública prevista para o início de 2025 despontava, assim, como novo ponto de condensação: um momento em que desejos, memórias e estratégias urbanas se encontrariam, desafiando qualquer tentativa de estabilização ou leitura unívoca do que significa, afinal, “revitalizar” um estádio.

7 A REVITALIZAÇÃO DO MACEDÃO EM DISPUTA

O auditório da Associação Comercial e Industrial de Caçapava (ACIC) fervilhava numa tarde abafada de verão. No dia 30 de janeiro de 2025, autoridades municipais se reuniam para anunciar os planos do programa Rumo aos 200 anos, prometendo obras e requalificações em celebração ao bicentenário da cidade. As cadeiras plásticas, dispostas em fileiras regulares, organizavam mais do que os corpos: alinhavam expectativas difusas, ansiosas por vislumbrar um futuro possível.

Sentado ao fundo, com o chimarrão em mãos, companhia que me ancorava em tantos outros momentos de campo, observava tanto o palco das falas quanto os gestos dispersos da plateia. A cada nova promessa de recapeamento, iluminação ou reforma de praças, crescia em mim a expectativa de ouvir o nome do Macedão. Talvez, para a maioria dos presentes, o estádio não fosse prioridade. Mas para quem o havia percorrido como campo de práticas, afetos e memórias, sua menção carregava peso simbólico.

Quando finalmente o secretário de planejamento mencionou o estádio, sua fala foi breve, quase protocolar: “Os recursos para sua reforma já estão alocados; aguardamos apenas a etapa de licitação. ” Sem detalhes técnicos, prazos ou esclarecimentos, o anúncio gerou mais perguntas do que respostas. Aquilo que deveria informar, opacificava. O Macedão, tão central na experiência torcedora local, parecia agora reduzido a uma rubrica orçamentária.

A ausência de clareza ressoava nos gestos contidos do público: um virar de cabeça, um suspiro mais audível, murmúrios dispersos. A “revitalização”, palavra repetida à exaustão, deslizava entre discursos e cadeiras como um significante flutuante. O que exatamente seria revitalizado? Para quem? A serviço de quais práticas? Quais continuidades seriam preservadas, e quais interrompidas?

Movido por essas lacunas, procurei o Secretário depois do evento. Externei meu interesse em compreender melhor as intervenções planejadas para o estádio. Sua receptividade inicial, no entanto, foi sucedida por uma série de adiamentos. Conflitos de agenda, urgências imprevistas, desencontros sucessivos. A entrevista prometida nunca se concretizou. E assim, mais uma vez, o campo se desenhava pelas ausências. Como na etnografia de Boehl (2021), entre grupos privilegiados, o acesso se organiza por "janelas de oportunidade" que se abrem e se fecham, moldando o que pode ou não ser visto, escutado, narrado.

Figura 5
Arquibancada (des)coberta

À medida que os discursos oficiais se encerravam sob aplausos formais, tornava-se evidente que a audiência pública era mais do que uma arena de planejamento urbano. Era, sobretudo, espaço de silêncios, de tensões latentes, de expectativas frustradas. Ali não se definia apenas a destinação de verbas. Disputava-se, simbolicamente, quem teria o direito de continuar pertencendo ao estádio que ajudou a construir com seus passos, afetos e memórias.

Figura 6
Hub Clareira

No dia 12 de novembro, no Hub Clareira, o Movimento Assistencial Caçapavano (MAC) reuniu moradores, atletas e representantes locais para compartilhar o percurso que levou à instalação do novo gramado sintético do Macedão. Entre falas e relatos, emergiam as linhas de um processo marcado por trâmites burocráticos longos, por críticas que circularam e por argumentos que ressaltavam a singularidade de um estádio público com tais características na metade sul do Rio Grande do Sul. O grupo também comparou o novo piso ao de outros estádios já consolidados, como o do Passo D’Areia, em Porto Alegre, destacando que equipes de outros municípios têm buscado informações para realizar reformas semelhantes. Ao final da apresentação, o gesto que adensou o encontro, a entrega simbólica do gramado à comunidade, acompanhada do anúncio de uma inauguração coletiva prevista para os dias 29 e 30 de novembro, com uma programação de 37 horas contínuas de jogos que convocaria diferentes gerações e grupos locais a habitar o espaço renovado.

8 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Macedão foi se constituindo, ao longo da pesquisa, como um campo vivo de relações, onde materiais, memórias e usos cotidianos fazem crescer uma paisagem sempre em movimento. Acompanhá-lo etnograficamente permitiu seguir como os gestos ordinários — circular, lembrar, improvisar — participam da contínua negociação que envolve sua revitalização, marcada por tensões que não se apresentam como rupturas, mas como parte das forças que atravessam e compõem o espaço.

Ao situar o olhar em uma cidade fora dos grandes circuitos esportivos, tornou-se possível perceber revitalizações que se adensam em ritmos menos visíveis, porém densos em formas locais de habitar e significar o estádio. O Macedão apareceu como organismo vivo, tecido por linhas de convivência e reinvenção cotidiana.

A etnografia, construída na circulação, nas pausas e nas escutas, acompanhou esse devir, evidenciando que a vitalidade do estádio não reside apenas no que foi ou no que se projeta, mas no que continuamente se atualiza no uso. Ao final, o estudo propõe compreender a revitalização como movimento relacional, que não se reduz a pares opositivos, e por meio do qual a cidade segue sendo feita nas práticas que mantêm o espaço em expansão contínua.

  • FINANCIAMENTO
    O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.
  • ÉTICA DE PESQUISA
    A pesquisa seguiu os protocolos vigentes nas Resoluções 466/12 e 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde do Brasil e foi aprovado pelo Comitê de Ética de Pesquisa (CEP) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Parecer: 65414122.1.0000.5347.
  • COMO REFERENCIAR
    BOEHL, Walter Reyes; MYSKIW, Mauro. Estádio Macedão, em Caçapava do Sul (RS/Brasil): etnografia de uma revitalização. Movimento, v. 32, p. e- …. jan./dez. 2026. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.149358.
  • 1
    Noção proposta por Ingold para descrever uma forma de atenção que se volta ao que se apresenta diretamente na experiência sensível, valorizando o envolvimento perceptivo e relacional com o mundo, em vez de abstrações ou representações prévias.
  • 2
    A expressão etnografia da cidade, conforme proposta por Rocha e Eckert (2003), enfatiza a atenção às durações, ritmos e memórias que compõem a experiência citadina, privilegiando a escuta das narrativas, das temporalidades e das formas sensíveis de habitar o urbano. Diferencia-se de certas abordagens de etnografia urbana mais centradas em estruturas, categorias analíticas ou recortes espaciais previamente definidos, ao assumir a cidade como trama viva de relações em contínua formação, acessível sobretudo pela convivência prolongada e pela observação atenta de seus gestos ordinários.
  • 3
    Ao contrário da noção comum de paisagem como "cenário" ou "pano de fundo", Tim Ingold propõe entendê-la como uma rede viva de relações em constante transformação. Paisagem não é um palco onde a vida acontece, mas o próprio tecer contínuo dos movimentos humanos e não-humanos (como os passos dos torcedores, o crescimento da grama, o desgaste dos assentos). Nesta perspectiva, o estádio não é um "lugar" fixo, mas um processo que se refaz a cada jogo, reforma ou memória compartilhada. Para Ingold, conhecer uma paisagem exige caminhar com ela – não observá-la de longe. (Ver: INGOLD, T. The Perception of the Environment, 2001, cap. 10).
  • 4
    Como no estádio está escrito em caixa alta, preferimos reproduzir desse jeito aqui.
  • 5
    Assumimos temporariamente o uso deste conceito em razão de darmos uma legibilidade ao texto, mas não queremos fixa-lo como tal.
  • 6
    Esta escolha metodológica dialoga com uma reflexão compartilhada por Marco Stigger em encontro do GESEF/UFRGS, quando relatou há muitos anos uma tentativa de pesquisa sobre práticas de lazer no Condomínio Cantegril, em Viamão (RS). Na ocasião, mesmo munido de documentação institucional da UFRGS, o acesso ao local não aconteceu, experiência que evidenciou como as vias formais e protocolares nem sempre se abrem às potências do trabalho etnográfico, e como, muitas vezes, o campo se faz por aproximações situadas, por caminhos laterais e por modos de entrada que crescem das próprias relações.

DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA

Os dados de pesquisa só estão disponíveis mediante solicitação.

REFERÊNCIAS

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  • BOEHL, Walter Reyes. Empresários de futebol em ação: etnografias multissituacionais. 2021. 257 f. Dissertação (Mestrado em Ciências do Movimento Humano) – Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2021. Disponível em: https://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/230369 Acesso em: 13 nov. 2024.
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    » https://www.redalyc.org/pdf/4459/445944242010.pdf

Editado por

  • RESPONSABILIDADE EDITORIAL
    Alex Branco Fraga*, Elisandro Schultz Wittizorecki*, Raquel da Silveira*
    * Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Porto Alegre, RS, Brasil.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    26 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    08 Ago 2025
  • Aceito
    30 Nov 2025
  • Publicado
    18 Maio 2026
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