Open-access Esporte, mídia e violência sexual: uma revisão integrativa

Sport, media and sexual violence: an integrative review

Deporte, medios de comunicación y violencia sexual: una revisión integrativa

Resumo

Esta revisão integrativa aborda a articulação entre esporte, mídia e violência sexual. A partir de buscas nas bases Scopus e Web of Science, foram selecionados 37 trabalhos que tematizaram como diferentes mídias retrataram casos envolvendo atletas. Os resultados apontam que o discurso circulante nos diferentes tipos de mídias frequentemente relativiza a responsabilidade dos agressores e culpabiliza as vítimas. Porém o papel positivo da mídia também foi destacado, por servir como um veículo de denúncia e um espaço para reivindicações. O consumo de mídia esportiva também apareceu como um tema emergente, e os estudos indicaram que este hábito possui relações com o nível de aceitação à violência sexual. Conclui-se que esporte e mídia constituem espaços centrais na reprodução e contestação destes problemas.

Palavras-chave
Violência Sexual; Meios de Comunicação de Massa; Esporte

Abstract

This integrative review addresses the relationship between sport, media, and sexual violence. Based on searches in Scopus and Web of Science, 37studies were selected that examined how different media portrayed cases involving athletes. The findings indicate that discourses circulating across different types of media often relativize the responsibility of perpetrators and blame the victims. However, the positive role of the media was also highlighted, as it serves as a vehicle for reporting and a space for claims. Sports media consumption also emerged as a theme, with studies indicating that this habit is related to the level of acceptance of sexual violence. It is concluded that sport and media constitute central spaces for both the reproduction and contestation of these problems..

Keywords
Sexual Violence; Mass Media; Sports

Resumen

Esta revisión integrativa aborda la articulación entre deporte, medios de comunicación y violencia sexual. A partir de búsquedas en Scopus y Web of Science, se seleccionaron 37 estudios que analizaron cómo diferentes medios retrataron casos que involucraban a atletas. Los resultados muestran que los discursos presentes en los distintos tipos de medios suelen relativizar la responsabilidad de los agresores y culpabilizar a las víctimas. Sin embargo, también se destacó el papel positivo de los medios, al servir como vehículo de denuncia y espacio de reivindicación. El consumo de medios deportivos también apareció como un tema emergente, y los estudios indicaron que este hábito guarda relación con el nivel de aceptación de la violencia sexual. Se concluye que el deporte y los medios constituyen espacios centrales en la reproducción y la contestación de estos problemas.

Palabras clave
Violência Sexual; Medios de Comunicación de Masas; Deporte

1 INTRODUÇÃO

Existe uma cultura de desrespeito no futebol? Por que tanto sexo grupal? Há algo de errado nisso? Por que os atletas são tão raramente condenados? Essas são as perguntas que muitos na mídia, e alguns acadêmicos, têm tentado abordar. Alguns tentaram culpar o álcool, ou até mesmo mulheres que dormem com atletas de elite, pelo alto número de estupros supostamente cometidos por atletas. Outros, principalmente nas redes sociais e na grande mídia, afirmam que todas as alegações são falsas

(Watson, 2013, p.1).

É com estas questões que Watson (2013) inicia seu livro Athletes, Sexual Assault, and Trials by Media: Narrative Immunity, sobre as representações na mídia de casos de violência sexual no esporte. Apesar da autora ter como foco o contexto do rúgbi na Austrália e o futebol americano nos Estados Unidos da América (EUA), não é difícil perceber que há outros exemplos de casos a nível global. Basta relembrar alguns que vieram à tona atualmente como os dos ex-jogadores brasileiros de futebol Robinho e Daniel Alves - o primeiro ainda cumprindo pena e o segundo absolvido por falta de provas – e do também ex – jogador e atualmente treinador de futebol Alexi Stival, mais conhecido como Cuca. Estes são apenas alguns exemplos para ilustrar o quadro apresentado, também restritos ao futebol e ao contexto brasileiro. Porém, enumerar os casos de todas as modalidades ao redor do mundo seria tarefa bastante extensa para este trabalho.

Compreende-se que a violência sexual não é um problema exclusivo do campo esportivo. Contudo, conforme exposto por Messner (1992, 2007), existe de fato uma ligação entre o engajamento em esportes coletivos, principalmente por homens, e a construção de masculinidades, na qual a homossocialização cumpre papel fundamental (Flood, 2008). E, neste processo, torna-se inevitável deparar-se com questões ligadas à violência sexual.

Este artigo tem por objetivo, portanto, apresentar uma revisão integrativa de pesquisas que articulam os temas: esporte, mídia e violência sexual. Entende-se que a temática se faz relevante, dada à escassez de revisões que tratam desta relação e ao grande número de casos de atletas de alto rendimento envolvidos em escândalos sexuais, confirmado pelos achados de Watson (2013) e perceptível pela repercussão na grande mídia.

Em uma busca nas bases de dados Scopus e Web of Science (WoS), foram localizados apenas dois artigos de revisão que se aproximaram dos temas abordados nesta pesquisa. Bohra et al. (2015), formularam um panorama da violência contra a mulher na Índia por meio de uma revisão de trabalhos apresentados na 38ª Conferência Nacional Anual da Sociedade Psiquiátrica Indiana, realizada em Nova Déli em 2013. Já Gaedicke et. al (2021), analisaram 25 artigos publicados em inglês e alemão, entre os anos de 2000 e 2009, sobre o problema da violência sexual cometida por treinadores esportivos contra seus atletas. Notou-se que estas revisões trataram de contextos e aspectos bastante específicos e não tiveram como foco sintetizar ou problematizar o conhecimento produzido a respeito do trabalho da mídia de forma geral, com relação a casos de violência sexual ligados ao esporte.

Para melhor entendimento dos elementos que serão abordados nesta revisão, faz-se necessária uma breve contextualização. Primeiramente, a violência sexual é considerada uma forma de violência de gênero, que pode acontecer de diferentes formas dentro de relações marcadas por assimetria de poder, baseada estritamente em características biológicas (Njaine et. al, 2014). A OMS define a violência sexual como:

qualquer ato sexual, tentativa de obter um ato sexual, comentários ou investidas sexuais indesejados, ou atos de tráfico ou de outra forma direcionados contra a sexualidade de uma pessoa por meio de coerção, por qualquer pessoa, independentemente de sua relação com a vítima, em qualquer ambiente

(Krug et al., 2002, p. 2).

Apesar da recorrência do tema nos noticiários, ele ainda pode gerar dúvidas no público leigo sobre os tipos de violência sexual e seus enquadramentos legais. Cada país possui legislação própria, mas a título de exemplo, apresenta-se a seguir a tipificação segundo a legislação brasileira.

Estupro: “Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso (Brasil, 2009, p. 1)”; importunação sexual: “Praticar contra alguém e sem a sua anuência ato libidinoso com o objetivo de satisfazer a própria lascívia ou a de terceiro (Brasil, 2018, p. 2)”; assédio sexual: “Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função (Brasil, 2001, p.1)” e abuso sexual: “[...]... entendido como toda ação que se utiliza da criança ou do adolescente para fins sexuais, seja conjunção carnal ou outro ato libidinoso, realizado de modo presencial ou por meio eletrônico, para estimulação sexual do agente ou de terceiro (Brasil, 2017, p.1)”.

Entende-se que a violência sexual e de gênero são questões inerentes à lógica do sistema patriarcal, que compreende o gênero apenas na sua forma dicotômica - masculino e feminino - e que se funda na ideia de que os homens são superiores às mulheres e sobre elas podem exercer sua dominação (Hooks, 2025). Uma das formas de imposição desta dominação, porém não a única, é a violência (Connell; Messerschmidt, 2013) nas suas mais variadas formas, incluindo a simbólica (Bourdieu, 2012).

Nesta relação entre atletas e casos de violência a mídia é um elemento crucial, ao tornar públicos esses episódios e ampliar sua repercussão. A ampla cobertura midiática faz com que transgressões envolvendo atletas assumam o status de escândalos, muitas vezes com alcance global. Isso se deve a características do esporte contemporâneo, como sua escala industrial no nível profissional, o envolvimento emocional do público e a presença constante na mídia, o que potencializa a visibilidade desses casos (Rowe, 2020).

Esclarece-se que o conceito de mídia adotado será o proposto por Thompson (1998), que a entende como um elemento de mediação de trocas simbólicas a nível cultural entre seres humanos, e que pode operar através de diferentes suportes tecnológicos. Será adotada também a diferenciação entre “mídias antigas” ou “tradicionais” e “novas mídias” ou “mídias sociais”, incorporada por Jenkins (2013). As primeiras se referem basicamente a formatos anteriores ao advento da internet como a televisão, o rádio, jornal, vídeo cassete, entre outros. Já as subsequentes correspondem às mídias sociais, blogs e streamings, originadas com o aprimoramento e ampliação do acesso à internet.

2 METODOLOGIA

Uma revisão integrativa tem por objetivo investigar o estado do conhecimento na atualidade sobre um tema específico, e possibilita impulsionar o desenvolvimento de procedimentos, protocolos, políticas públicas, tomadas de decisões e, contribuir para a reflexão crítica acerca de um determinado problema, através da síntese e análise do conhecimento produzido a respeito (Souza; Silva; Carvalho, 2010).

Para a elaboração desta revisão integrativa foram seguidas as etapas propostas por Souza, Silva e Carvalho (2010): definição da questão norteadora; definição das bases de dados para as buscas juntamente com os critérios de inclusão e exclusão dos estudos a serem levantados; busca nas bases de dados; categorização e análise dos estudos; discussão dos resultados e apresentação da revisão.

Na primeira etapa, a questão norteadora se concentrou na busca sobre a forma como a produção científica abordou a relação entre mídia, esporte e violência sexual. Para tanto, definiram-se as bases de dados Scopus e WoS para realização do levantamento. A escolha por estas bases se deu devido a sua relevância, à variedade de conteúdos disponíveis e à extensão histórica de cobertura. A Scopus prioriza a busca por autor e tema, com extensa cobertura nas áreas de Ciências, Artes e Ciências Sociais a partir de 1996 (Mongeon; Paul-Hus, 2016). A WoS é uma base de dados de citações que, além de possibilitar buscas por palavras-chave, permite localizar artigos relacionados e mapear as conexões entre publicações que citam ou são citadas por outras. A WoS indexa periódicos com predominância de textos em inglês, e apresenta uma longa cobertura temporal, iniciando-se em 1945 (Mongeon; Paul-Hus, 2016).

Para a definição dos descritores de pesquisa, optou-se por utilizar a grafia em inglês pois as duas plataformas indexam artigos que contêm ao menos o título, resumo e palavras - chave neste idioma. Os termos utilizados para busca foram os seguintes: (“sexual harassment” OR “sexual violence” OR “sexual assault” OR “rape”) AND (“sports”) AND (“media”)1 e foram incluídos então os artigos originais que continham ao menos um desses termos no título, resumo ou palavras - chave.

A não delimitação de um recorte temporal se deu pela intenção de verificar a temporalidade da produção como um todo. Na plataforma Scopus foram identificados 48 artigos e, na WoS, três, totalizando 51 artigos. Como critérios de exclusão foram adotados: a) artigos duplicados, o que resultou em 48 artigos restantes; b) artigos que não tratavam diretamente do tema, identificados após leitura dos mesmos, o que resultou numa amostra final de 37 artigos, que estão listados no quadro 1. Após a leitura na íntegra, os artigos foram agrupados conforme a temática para síntese e apresentação na sessão de resultados e discussão.

Quadro 1
Lista de artigos levantados na revisão

Pontua-se aqui que, apesar da violência de gênero não constar nos descritores de busca, a temática se fez presente em alguns dos trabalhos levantados que, inclusive, não trataram da violência sexual em específico. No entanto, optou-se por mantê-los na revisão no intuito de analisar as suas contribuições para a compreensão da temática e por entender que a violência sexual é uma forma de violência de gênero, conforme já citado.

As categorias temáticas definidas para a síntese e apresentação dos resultados foram as seguintes: a) Esporte, mídia e violência sexual: representações negativas das vítimas; b) Outras faces da mídia: neutralidade e contestação; c) Impressões do público sobre os casos nas mídias sociais; d) O consumo de mídia esportiva e a tolerância à violência sexual e de gênero.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

3.1 ESPORTE, MÍDIA E VIOLÊNCIA SEXUAL: REPRESENTAÇÕES NEGATIVAS DAS VÍTIMAS

Franiuk et al. (2008), Garraio (2023), Hossain (2019); Marks (2019); O’Boyle e Jo-Yun Li (2019), Toffoletti (2007) e Watson (2018) utilizaram como principal fonte a mídia tradicional, como a escrita e televisiva, sendo que o primeiro também utilizou-se de entrevistas com estudantes universitários, o segundo e o terceiro de comentários em redes sociais como o Facebook e Instagram e o quarto também de comentários em redes sociais e de uma pesquisa etnográfica para complementar suas análises. O foco de Franiuk et al. (2008) foi sobre a presença de mitos sobre estupro nas notícias da acusação contra Kobe Bryant em 2003; Garraio (2023) sobre uma acusação de estupro contra Cristiano Ronaldo em 2009; Hossain sobre um caso de estupro cometido por Rubel Hossain, jogador de críquete de Bangladesh, em 2015; Marks (2019) sobre as representações objetificadas das esposas e namoradas de jogadores de rúgbi na Austrália; O’Boyle e Jo-Yun Li (2019) sobre casos de violência sexual em campi universitários dos EUA; Tofolleti (2007) sobre o caso de violência sexual envolvendo dois jogadores do St. Kilda, da Liga de Futebol Australiana em 2004 e Watson (2018) sobre o caso de Blake Ferguson, jogador de rúgbi australiano, preso por atentado ao pudor em 2013 por ter tocado o órgão sexual de uma mulher em uma casa noturna.

Os autores identificaram nas matérias uma retórica semelhante, que culpabilizou ou descredibilizou o relato das vítimas e minimizou ou desviou o foco da responsabilidade dos agressores sobre seus atos ao retratá-los como ingênuos e confusos. Além disso, Watson (2018) destaca a constante referência ao uso excessivo de álcool como suposta justificativa para o ato violento e o foco nas consequências para a carreira do atleta, em detrimento do sofrimento da vítima. Isto confirma o apontado por Messner (2007) e Watson (2013) de que a mídia, principalmente na sua forma tradicional, se utiliza de subterfúgios para elaborar tais narrativas que costumam contar os fatos sob uma perspectiva que pretende, de certa forma, proteger a imagem dos atletas ou não os responsabilizar integralmente.

Um dos principais recursos utilizados é o que Messner (2007) identificou como roteiros pré - organizados pela imprensa que tendem a relativizar as ações de astros esportivos. Já Watson (2013) aponta para estratégias que correspondem inclusive à forma gramatical utilizada nos textos jornalísticos. Uma delas se refere ao uso de orações que não imputam um sujeito à ação como por exemplo: “ocorreu um caso” ao invés de “ele fez”. Outra estratégia é direcionar o foco para outros elementos como o consumo de álcool e drogas, o possível descontrole temporário que leva a ações impulsivas, além da representação das vítimas - majoritariamente mulheres - enquanto prostitutas, chantagistas ou como alguém que possa estar agindo para gerar ciúmes ou por vingança.

Hartill (2013) analisou a narrativa presente em portais de notícias sobre o caso do treinador Jerry Sandusky, condenado a 30 anos de prisão por abuso sexual de jovens atletas da Universidade de Penn State nos EUA. A principal crítica do autor foi sobre o fato de que as matérias individualizaram a responsabilidade pelos abusos como algo que estava unicamente ligado à personalidade e a estruturas psicológicas internas do treinador. A consequência disso seria a propagação no senso comum de uma ideia errônea, apontada por Hooks (2025), de que a violência sexual ou de gênero é cometida apenas por homens de personalidade explosiva, e que seria impensável imaginar sua prática por homens aparentemente amigáveis e não violentos.

Este tipo de entendimento, de um suposto perfil ideal de homens agressores, também tem vinculação com questões raciais, como apresentado no trabalho de Leonard (2004), sobre a cobertura midiática do caso de Kobe Bryant. O autor aponta que a mídia reproduziu de forma sutil o racismo estrutural ao posicionar a raça em segundo plano quando se trata do sucesso esportivo do jogador, e ao coloca-la em evidência ao retratar a acusação de violência.

Outro trabalho do autor comparou a abordagem midiática de dois casos de violência sexual: um envolvendo atletas universitários negros da universidade de Fresno e outro envolvendo atletas brancos da Universidade Duke Lacrosse, ambas nos EUA. No primeiro caso, os atletas negros são retratados como agressores inatos, como se violentar alguém já fosse um comportamento esperado da parte deles. Já o segundo caso foi tratado com estranheza, com a culpa dos atletas brancos sendo relativizada (Leonard, 2007).

Observa-se aqui a questão levantada por Hooks (2019, 2025) de que a mídia tende a contribuir para a difusão de discursos patriarcais, que privilegiam homens de cor branca, membros da elite, e retratam homens negros como violentos e irracionais numa forma de manter a lógica de dominação não só sobre as mulheres, mas sobre homens de raça, classe e orientações sexuais diferentes.

Maas et al. (2021) investigou o fenômeno das slutpages, páginas em redes sociais e aplicativos de mensagens destinados ao compartilhamento não consensual de imagens íntimas de mulheres, muitas vezes, do círculo social próximo. Os principais usuários e idealizadores eram atletas universitários de uma instituição do oeste dos Estados Unidos. Esse achado dialoga com as análises de Messner (1992, 2007), que reconheceu que as conversas de vestiário entre os atletas, operam como mecanismos de construção de vínculo e identificação entre atletas. Nestas conversas, assim como nas slutpages, as mulheres são constantemente objetificadas, no intuito de afirmar um tipo de masculinidade heterossexual e viril.

O tema da objetificação feminina na imprensa também foi abordado por İnce-Yenilmez (2021) e Li et al. (2024). A primeira entrevistou 142 atletas mulheres na Turquia e a segunda realizou uma revisão bibliográfica para identificar quais fatores representam empecilhos para a participação de mulheres chinesas em esportes de combate. As autoras identificaram que dentre os vários fatores de desincentivo, relacionados à mídia, estão a representação sexualizada das mulheres atletas na imprensa e o pouco espaço destinado aos esportes femininos nos programas esportivos.

Essas representações integram estratégias de banalização dos esportes femininos, mesmo quando mulheres alcançam sucesso e visibilidade midiática. Nesses casos, reforçam-se posições de subordinação sexual feminina em relação aos homens. A baixa valorização, portanto, não é ocasional, mas parte de um projeto sócio histórico de manutenção da hegemonia masculina, que encontra no esporte um de seus principais espaços de produção e legitimação (Bryson, 1987).

Willing (2022) discutiu o esporte como prática masculinizada a partir do filme Kids lançado em 1995, de Larry Clark, apontando que a obra reforça o estereótipo do skate como atividade masculina. Contudo, tal leitura é questionável, pois o skate não é o tema central do filme. Além disso, no contexto brasileiro, trata-se da modalidade com maior crescimento de interesse entre mulheres nos últimos cinco anos (IBOPE Repucom, 2025).

Watson (2016) tematizou a construção de ideais de masculinidade associados a ídolos esportivos a partir do caso de Andrew Lovett, jogador australiano de rúgbi acusado de estupro em 2009. Ao examinar matérias de dois grandes jornais do país, a autora identificou a supervalorização do trabalho do atleta, apresentado como acima de qualquer outro tipo de trabalho. Essa narrativa, então, contribui para o entendimento de que atletas de elite estariam acima da lei, inclusive podendo ser absolvidos facilmente em casos de violência sexual (Watson, 2013).

3.2 OUTRAS FACES DA MÍDIA: NEUTRALIDADE E CONTESTAÇÃO

Chroni e Kavoura (2022) analisaram textos jornalísticos sobre episódios envolvendo atletas gregas, enquanto Murphy (2019) investigou casos de violência sexual nas artes marciais. As pesquisas indicaram que a violência sexual e de gênero constitui uma das principais barreiras à participação feminina no esporte. A atuação da imprensa foi relevante ao tornar visível esse problema, contrastando com a negligência de instituições esportivas e as dificuldades de denúncia. Tal dinâmica revela estratégias institucionais de manutenção do sistema patriarcal, que silenciam e naturalizam relações de dominação e contribuem para sua perpetuação (Hooks, 2025).

Nota-se também, que o entendimento da subordinação sexual enquanto papel feminino (Bryson, 1987) pode justificar o quadro encontrado nos contextos estudados pelas autoras. Ao levar em conta o caso dos esportes de combate, que envolvem constante imposição de força, entende-se que esta prática funciona como um espaço renovador dos símbolos de masculinidade (Connell; Messerschmidt, 2013). Isto, combinado com um ambiente de hierarquia exacerbada, pode culminar em danos físicos e mentais em seus participantes e à naturalização da violência em outros âmbitos da vida (Messner, 1992, 2007).

Ehrlén (2024) entrevistou 16 jornalistas da Finlândia e Pedersen et al. (2009) aplicou um questionário a 263 jornalistas norte-americanas. As duas autoras concluíram que a mídia esportiva dos seus países teve papel relevante ao tratar de temas como equidade de gênero e violência no esporte. Porém, as profissionais da imprensa ainda enfrentam barreiras para o seu bem-estar e crescimento profissional, sendo as principais o assédio e a desconfiança em seu trabalho.

Estas barreiras correspondem às enfrentadas pelas mulheres no mundo do trabalho, historicamente estruturado por e para homens, o que limita o reconhecimento de suas competências. No esporte, concebido em sua gênese como um espaço masculino, as mulheres também foram vistas como incapazes de atuar em suas áreas correlatas. Porém, a abordagem midiática ao tema evidencia a relevância da reivindicação e da ocupação desses espaços pelas mulheres (Bryson, 1987).

Utilizando-se de questionários Daignault, Varin e Parent (2023), coletaram respostas de 1.057 atletas com idade entre 14 e 17 anos a respeito de situações de violência na sua trajetória esportiva. O trabalho da mídia foi um elemento complementar para o estudo. Os resultados indicaram que, diferentemente das representações midiáticas, que apontam os treinadores como principais agressores, a maior parte dos casos de violência é cometida por parentes e colegas de equipe, o que reforça o apontado por Hooks (2025) sobre a inexistência de um tipo ideal de agressor e que ele pode ser mais familiar do que se imagina.

Por outro caminho, os trabalhos que apresentaram certa neutralidade ou aspectos positivos do trabalho da imprensa e dos debates nas mídias sociais foram os de Alston (2021), Fowler (2025), Kelly (2024) e Markovitz (2006). Alston (2021) também tematizou o caso de Kobe Bryant e teve como foco a ação de empreendedores reputacionais, conceito que se refere a grupos de pessoas ligadas à determinada figura pública - familiares, fãs, colegas de profissão - que realizam um trabalho de disputa de memória sobre o indivíduo. Aqui, percebe-se os efeitos do que Jenkins (2013) chama de cultura da convergência2. Pode-se dizer que a convergência de mídias, que possibilita a produção e reprodução de conteúdo pelos próprios fãs, possibilita também a criação de formas de conhecimento a respeito de um ídolo, que são validados pela inteligência coletiva. E o conhecimento preponderante, a respeito de Bryant, foi o da imagem de um pai de menina, incapaz de ser violento, na contramão do que é comumente retratado sobre a paternidade negra na mídia (Alston, 2021).

Em outra pesquisa sobre o caso de Bryant, Markovitz (2006) analisou matérias de sites de notícias para verificar quais os discursos circulantes sobre o caso. Os achados foram de que a mídia trouxe à tona visões contrastantes sobre masculinidades, gênero e raça que balizaram a opinião pública em uma ou outra direção - tanto às que apontavam para a culpa ou inocência de Bryant.

Os trabalhos de Fowler (2025) e Crabill (2025) analisaram o beijo não consensual de Luis Rubiales em Jenni Hermoso na premiação da Copa do Mundo de 2023. Fowler, a partir de registros audiovisuais, considerou o ato como coerção e expressão de relações abusivas entre a federação e as atletas. Já Crabill concluiu que a cobertura da imprensa tradicional expôs dinâmicas de poder e contribuiu para a renúncia de Rubiales e a demissão de Jorge Vilda, o que confirma o papel da mídia na denúncia de injustiças sociais (Freire Filho, 2004).

Kelly (2024), também utilizou-se do material midiático apenas como fonte para suas investigações. Ao realizar uma análise temática comparativa entre casos de violência sexual institucional na Igreja Católica e na Liga Nacional de Futebol Feminino dos EUA (NWSL), a autora concluiu que, graças à repercussão midiática, as investigações tiveram andamento e o tema entrou na ordem do dia. Ou seja, a mídia comprova nesses casos a sua capacidade de deslocar e reinserir questões sociais na pauta das discussões vigentes na sociedade, influenciando o seu grau de urgência e importância (Hjarvard, 2012).

3.3 AS IMPRESSÕES DO PÚBLICO SOBRE OS CASOS NAS MÍDIAS SOCIAIS

Johnson et al. (2023), utilizaram comentários do Twitter como fonte para sua análise quanto às opiniões direcionadas ao trabalho de repórteres esportivos de grandes emissoras norte-americanas. MacPherson e Kerr (2020) analisaram 7.700 comentários no Facebook, Twitter e Instagram, entre 2015 e 2016, sobre atletas norte-americanos envolvidos em diferentes tipos de transgressões, incluindo casos de violência sexual. Nason (2024), analisou os comentários do Reddit, sobre o indiciamento do jogador de futebol americano Deshaun Watson em 2022, por ter abusado sexualmente de 26 mulheres. Nurka (2013) analisou comentários de fãs de rúgbi em blogs, YouTube e Facebook sobre denúncias de estupro contra Matthew Johns, jogador da Liga Australiana, em 2009. Watson (2019), analisou as postagens e comentários no Twitter sobre a acusação de estupro contra dois jogadores de rúgbi do time australiano Hawthorn Football Club.

Os autores identificaram que o discurso predominante na maior parte dos comentários nas redes sociais relativizou, e em alguns casos até apoiou a atitude dos atletas agressores, além de se referirem às vítimas de forma objetificada ou sexualizada, duvidando de seus relatos. Faz-se necessário destacar que Johnson et al. (2023) não trabalharam especificamente com violência sexual, mas com violência de gênero. Os autores concluíram que os comentários negativos são direcionados majoritariamente à repórteres mulheres e têm como foco sua sexualidade e gênero, além de questionarem sua autoridade no ambiente esportivo - algo não identificado com repórteres homens.

Esta legitimação do ato sexual violento e da objetificação feminina estão relacionados ao destacado por Hooks (2025) de que a agressividade e a violência são naturalizadas pelo pensamento patriarcal, no que diz respeito às relações íntimas. A autora também aponta que a sexualidade é o campo onde os homens terão sua masculinidade patriarcal testada e, o bônus que recebem ao serem coniventes com o patriarcado é o direito que ele lhes confere de dominar as mulheres (e outros homens) no ato sexual.

Em contrapartida, mesmo com os comentários negativos sobre o caso que analisou, Watson (2019) aponta que vários outros comentários, vindos principalmente de ativistas feministas, questionaram e expressaram sua militância contra a violência masculina. Na mesma linha, Romero e Puente (2025) analisam a hashtag #SeAcabó (“Acabou”), que viralizou no Twitter após o caso do beijo de Rubiales em Jenni Hermoso. Jeon (2020) analisou os comentários em blogs das plataformas de busca da Coréia do Sul, Naver and Daum, sobre violência sexual no esporte e Dimitrov (2008) tematizou o caso do Footy Fans Against Sexual Assault um site criado por fãs de rúgbi na Austrália para denunciar e discutir casos de violência sexual no esporte.

Nestes casos, em consonância com o conceito de cultura da convergência (Jenkins, 2013), as mídias sociais funcionaram como redes de identificação e espaços confiáveis para o ativismo e a realização de denúncias, o que reforça as possibilidades geradas por esses meios de darem voz e poder de participação coletiva em pautas sociais (Freire Filho, 2004).

3.4 O CONSUMO DE MÍDIA ESPORTIVA E A TOLERÂNCIA À VIOLÊNCIA SEXUAL E DE GÊNERO

Hust et al. (2013), aplicaram um questionário a 111 estudantes do sexo masculino e 241 do sexo feminino de uma universidade do noroeste dos EUA sobre consumo de mídia esportiva na forma de programas de tv e portais de notícias; Hust (2023) entrevistou 318 homens membros de fraternidades atléticas e 183 não membros, de universidades dos EUA e Seabrook, Ward e Giaccardi (2019) também aplicaram questionários a 283 estudantes universitários homens, sobre o consumo de programas de tv e pornografia. Os autores concluíram que o consumo de mídia esportiva e pornografia possui associações com a aceitação de mitos sobre estupro e a intenção de não intervir em casos de violência sexual.

Messner (2007) define essa relação como uma fórmula pronta, voltada à audiência masculina de programas esportivos, orientada por interesses mercadológicos. Os discursos, especialmente publicitários, exploram inseguranças masculinas e reforçam um padrão de masculinidade hegemônica, apresentado como norma, embora inalcançável para a maioria (Connell; Messerschmidt, 2013). Esse modelo associa consumo à construção da segurança masculina, ao vincular produtos à imagem de ídolos esportivos e à promessa de conquista de uma mulher desejável, que é, portanto, também tratada como uma mercadoria.

Abeza et al. (2020), a partir de questionários com fãs de esporte, identificaram que o acompanhamento de equipes ou modalidades, mensurado pela presença em jogos, consumo de mídia e engajamento nas redes sociais tende a se reduzir após a exposição de casos de violência sexual envolvendo atletas. Esse efeito é significativamente maior entre mulheres, podendo ser interpretado como expressão de sororidade e resultado da atuação da mídia na visibilização da violência (Freire Filho, 2004). Entre homens, o impacto menor pode relacionar-se à naturalização das relações de dominação associadas à posição de gênero dominante (Bourdieu, 2012).

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por meio da revisão foi possível concluir que tanto as mídias tradicionais quanto as novas mídias, em grande parte, contribuem para a propagação de discursos alinhados a valores patriarcais, relativizando ou minimizando a violência cometida por atletas homens e estigmatizando as vítimas, ao invalidar seus relatos. Para isso, são acionados diferentes recursos narrativos e discursos que reforçam preconceitos de gênero e mitos sobre estupro que influenciam o público. Este, por sua vez, pode se mostrar mais tolerante à violência sexual e de gênero.

Questões raciais também se fizeram presentes e moldaram os discursos a respeito dos agressores ou supostos agressores, sendo os homens negros muito mais estigmatizados e expostos como violentadores natos. Basicamente, questões interseccionais como o tom de pele e a classe social determinam o grau de discriminação e vulnerabilidade a ser enfrentada (Crenshaw, 1991).

Por outro lado, a mídia em geral também serviu como um importante veículo de denúncia. Talvez sem essa atuação alguns casos poderiam não vir à tona, ou mesmo não seriam esclarecidos para o público leigo que teria então um entendimento parcial dos acontecimentos. No caso das mídias sociais, elas representaram um espaço confiável para pessoas em posição de vulnerabilidade ou até mesmo para vítimas de violência realizarem suas reivindicações.

Ao se falar do esporte enquanto espaço de construções de gênero, faz-se necessário atentar-se para o fato de que o próprio esporte e a masculinidade se transformaram ao longo do tempo, podendo-se falar hoje em múltiplas e inúmeras masculinidades. Antes visto como um campo estritamente masculino, o esporte agora permite cada vez mais o tensionamento de questões de gênero e dos padrões de masculinidade (Spalacci, 2020). E, este tensionamento pode ser impulsionado através do trabalho de uma imprensa que trate de problemas como a violência sexual com seriedade e que se comprometa em dar voz à grupos vulneráveis, conferindo-lhes credibilidade (Watson, 2013).

Reconhece-se também que este trabalho, como qualquer outro, possui limitações. Aponta-se a não inclusão de livros, teses e dissertações e trabalhos em outros idiomas, algo que pode ser considerado na elaboração de novas revisões sobre a temática.

O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.

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    O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.
  • COMO REFERENCIAR
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  • 1
    (“assédio sexual” OU “violência sexual” OU “agressão sexual” OU “estupro”) E (“esportes”) E (“mídia”)
  • 2
    Segundo Jenkins (2013), a cultura da convergência é definida pela colisão inevitável entre velhas e novas mídias. Porém, isso não leva à anulação de uma ou outra, pelo contrário. Elas se complementam e criam novas formas de interação entre indivíduos sobre diversos tipos de conteúdo e ressignificam a relação entre produtores e consumidores.

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Editado por

  • RESPONSABILIDADE EDITORIAL
    Alex Branco Fraga*, André Luiz dos Santos Silva*, Elisandro Schultz Wittizorecki*, Mauro Myskiw*, Raquel da Silveira*
    * Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Porto Alegre, RS, Brasil.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    01 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    16 Set 2025
  • Aceito
    04 Jan 2026
  • Publicado
    02 Abr 2026
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