Resumo
O objetivo do estudo é indicar constatações e aplicações práticas para o ensino-treino do basquete em longo prazo, especificamente nas etapas de iniciação, formação e especialização, a partir das diretrizes de manuais internacionais da modalidade. Nesta pesquisa documental, buscamos os manuais dos países do top 10 do ranking da Federação Internacional de Basquete e estabelecemos sete constatações: 1) a etapa de iniciação se intersecciona com a formação; 2) os modelos sugerem o desenvolvimento holístico, mas propõem um desenvolvimento unilateral; 3) é consenso a não especialização por posições e funções; 4) a defesa por zona não é indicada para a iniciação e formação; 5) até o sub-14 o foco deve ser nas ações individuais, com treinos globais; 6) do sub-15 ao sub-19 deve haver uma progressão dos conteúdos individuais para os coletivos; 7) o bloqueio direto é sugerido a partir do sub-15. Essas constatações podem direcionar programas esportivos, incluindo a formação de treinadores/as.
Palavras-chave
Pedagogia do esporte; Desenvolvimento de atletas em longo prazo; Programas esportivos
Abstract
The aim of this study is to indicate findings and practical applications for long-term basketball teaching and training, specifically for the youth basketball and specialization stages, based on guidelines from international manuals. In this documentary research, we searched for manuals from the top 10 countries in the International Basketball Federation ranking and established seven findings: 1) the initiation stage intersects with training; 2) the models suggest holistic development, but propose unilateral development; 3) there is a consensus that specialization by positions and functions is not recommended; 4) zone defense is not recommended for initiation; 5) up to the under-14 age group, the focus should be on individual actions, with global development; 6) from the under-15 to the under-19 age group, there should be a progression from individual to collective content; 7) the screen is suggested from the under-15 age group onwards. These findings can guide sports programs, including coach education.
Keywords
Sports pedagogy; Long-term athlete development; Sports programs
Resumen
El objetivo del estudio es indicar hallazgos y aplicaciones prácticas para la enseñanza y el entrenamiento del baloncesto a largo plazo, específicamente en las etapas de iniciación, entrenamiento y especialización, basándose en las directrices de los manuales internacionales sobre este deporte. En esta investigación documental, buscamos manuales de los 10 primeros países del ranking de la Federación Internacional de Baloncesto y establecimos siete hallazgos: 1) la etapa de iniciación se cruza con la de formación; 2) los modelos sugieren un desarrollo holístico, pero proponen un desarrollo unilateral; 3) existe consenso en que no hay especialización por cargos y funciones; 4) la defensa en zona no se recomienda para la iniciación y formación; 5) hasta los 14 años el foco debe estar en acciones individuales, con un entrenamiento global; 6) desde menores de 15 años hasta menores de 19 años debe haber una progresión de contenidos individuales a colectivos; 7) se sugiere bloqueo directo a partir de menores de 15 años. Estos hallazgos pueden orientar los programas deportivos, incluida la formación de entrenadores.
Palabras clave
Pedagogía del deporte; Desarrollo del deportista a largo plazo; Programas deportivos
1 INTRODUÇÃO
O desenvolvimento de atletas em longo prazo é compreendido como um processo dinâmico, em que ocorrem mudanças constantes influenciadas por aspectos do ambiente, da pessoa e da tarefa de treino, e não linear, já que cada pessoa percorrerá o caminho de desenvolvimento de uma forma única, com experiências particulares (Côté; Turnnidge; Evans, 2014; Galatti et al., 2017; Machado et al., 2019; Faria et al., 2021; Lima et al., 2023). Estudos mostram que atletas de elite, em sua maioria e sobretudo nos esportes coletivos, tiveram a iniciação em diferentes esportes e contextos antes de se especializarem, bem como tiveram a entrada no esporte profissional e pico de desempenho em diferentes idades, evidenciando a diversidade como possibilidade mais confiável para o engajamento na trajetória esportiva (Galatti et al., 2021; Güllich; Macnamara; Hambrick, 2022; Güllich; Barth, 2024; Lima et al., 2023; Subijana et al., 2020). Ainda, estudos indicam que os resultados nas categorias de formação - sobretudo júnior - pouco predizem o desempenho na categoria adulta (Barth et al., 2024).
No basquete brasileiro o mesmo fenômeno foi observado, pois tanto jogadores profissionais do Novo Basquete Brasil, quanto as jogadoras da Liga Nacional de Basquete, iniciaram no basquete em contextos variados, como clubes e organizações não governamentais - especialmente os homens -, e escolas e prefeituras - sobretudo as mulheres (Beneli; Galatti; Montagner, 2017; Cunha et al., 2017). As atletas brasileiras da geração campeã do mundo em 1994 também tiveram práticas diversificadas na iniciação esportiva, bem como variaram em tempo para se tornarem atletas profissionais, alcançando o título mundial entre oito e 21 anos de carreira (Galatti et al., 2019).
Neste processo em longo prazo, há diferentes etapas de desenvolvimento que são baseadas, principalmente, a partir das faixas etárias. Côté, Baker e Albernethy (2007), em investigação da trajetória de milhares de atletas de diferentes modalidades, descreveram para o caminho de desempenho esportivo as etapas de 1) experimentação (até os 12 anos); 2) especialização (a partir dos 13 anos); e 3) investimento (a partir dos 15 anos). Modelos mais recentes de Comitês Olímpicos também possuem a idade como referência. O Comitê do Canadá1, por exemplo, estabelece as etapas de 1) fundamentos (fundamentals – meninos de 6 a 9 anos e meninas de 6 a 8 anos; 2) aprendendo a treinar (learn to train – meninos de 9 a 12 anos e meninas de 8 a 11 anos); 3) treinar para treinar (train to train - meninos de 12 a 16 anos e meninas de 11 a 15 anos); 4) treinar para competir (train to compete – meninos de 16 a 23 anos+ e meninas de 15 a 21 anos+). O Comitê Olímpico do Brasil (COB), após a etapa de “experimentar e brincar”, entende a entrada na prática sistematizada a partir das etapas de 1) brincar e aprender (6 a 12 anos); 2) aprender e treinar (10 a 16 anos); 3) treinar e competir (14 a 23 anos) (Comitê Olímpico do Brasil, 2022).
Observamos, portanto, que não há um consenso das etapas de desenvolvimento de atletas em longo prazo, nem mesmo em modalidades específicas, como no basquete. Também não há um consenso quanto aos conteúdos de desenvolvimento esportivo a serem ensinados, visto que cada país possui características contextuais e referenciais diferentes (Galatti et al., 2016a; Santos et al., 2024). Por exemplo, o Canadá desenvolveu o Modelo de Desenvolvimento de Atletas de Basquete com base no modelo nacional, Canadian Sport for Life, e considera conteúdos de desenvolvimento físico, emocional, mental e cognitivo, e de habilidades gerais e específicas de basquete (CANADIAN BASKETBALL ASSOCIATION, 2008). Já a Austrália, descreve conteúdos que nomeiam de desenvolvimento atlético e específicos de basquete, mas não há referência ao emocional e mental como o Canadense (Basketball Australia, 2012).
Diante da diversidade dos modelos internacionais, e da importância de se estabelecer diretrizes para as diferentes etapas de desenvolvimento de atletas de basquete em longo prazo, o objetivo deste estudo é indicar constatações e aplicações práticas para o ensino-treino do basquete na iniciação, formação e especialização, a partir de manuais internacionais e da literatura pautada na pedagogia do esporte para o desenvolvimento esportivo em longo prazo. Esperamos que essas constatações orientem diretrizes para processos pedagógicos como na proposição de programas de desenvolvimento esportivo, programas de formação de treinadores/as e educação de famílias, assim como no delineamento de futuras pesquisas no basquetebol e em modalidades coletivas.
2 METODOLOGIA
2.1 CARACTERIZAÇÃO E DESENHO DO ESTUDO
Esta pesquisa documental e bibliográfica (Marconi; Lakatos, 2003) teve como fonte de dados primários os documentos oficiais de Confederações de países top 10 no ranking da Federação Internacional de Basquete (FIBA)2 nas categorias de base masculinas e femininas. Realizamos as buscas dos documentos entre março e maio de 2024, nos sites oficiais das Confederações e FIBA.
Para fins de organização do estudo, diante das diferentes nomenclaturas dos modelos, consideramos as diretrizes da Escola Nacional de Treinadores(as), regida pelo Instituto Basquete Brasil (IBB), que entende a entrada no basquete como a etapa de iniciação esportiva (minibasquete – 6 a 11 anos), o envolvimento com o basquete como a etapa de formação (categorias sub-12 ao sub-14), e o próximo estágio como a etapa de especialização (sub-15 ao sub-19). Quanto aos conteúdos de desenvolvimento esportivo, com base no IBB e no COB, consideramos os aspectos estratégico-tático-técnicos, psicológicos e sociais, em alinhamento com a perspectiva holística de desenvolvimento de atletas em longo prazo (Stambulova; Ryba; Henriksen, 2021).
2.2 CRITÉRIOS DE INCLUSÃO DE DADOS
A exemplo dos procedimentos adotados por Santos et al. (2024), os critérios de inclusão para os documentos foram: a Confederação possuir um documento com diretrizes para o desenvolvimento de atletas em longo prazo; disponibilizar o documento gratuitamente em site oficial; documento em língua portuguesa, inglesa e/ou espanhola. Os documentos dos países incluídos foram: Argentina, Austrália, Canadá, Espanha e Estados Unidos. Também incluímos os manuais da FIBA (por meio da World Association of Basketball Coaches – WABC3), por ser o órgão internacional regulamentador da modalidade.
2.3 ANÁLISE DOS DADOS
Nos documentos incluídos investigamos os conteúdos relacionados aos aspectos estratégico-tático-técnicos, psicológicos e sociais, para as categorias de formação (sub-12 ao sub-14) e especialização esportiva (sub-15 ao sub-19). A partir de Galatti et al. (2017) e Santos et al. (2021), definimos como aspectos estratégico-tático-técnicos todos os conteúdos de: a) estratégia, compreendida como o plano de jogo estabelecido previamente, o que inclui os sistemas de defesa, transições e ataque; b) tática, entendida como a tomada de decisão que se dá de forma instantânea, durante os processos de percepção e análise da situação de jogo, o que inclui as ações individuais, grupais e coletivas frente à oposição – por exemplo, o “passar e cortar”, um conceito de ação grupal, em que um/a jogador/a com bola passa para um/a companheiro/a e corta sem bola, tentando se desmarcar, em direção à cesta (Maricone et al., 2016); e c) técnica, manifestação da tática em gestos motores. Os aspectos psicológicos que se evidenciam em padrões específicos de engajamento e relação com o esporte (Comitê Olímpico do Brasil, 2022, p. 29), relacionados à confiança, estabelecimento de metas e saúde mental. Por fim, os sociais tratam das competências de relações do/a atleta com outras pessoas no ambiente esportivo e como isso influencia no seu desenvolvimento desportivo (Comitê Olímpico do Brasil, 2022; Bronfenbrenner; Morris, 2007).
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Para cada categoria de competição das etapas de iniciação, formação e especialização, descrevemos os objetivos de desenvolvimento esportivo geral constatados nos manuais internacionais (Quadro 1).
Objetivos de desenvolvimento esportivo geral constatados nos manuais internacionais revisados
Também estabelecemos constatações acerca do processo de iniciação e formação, bem como de especialização no basquete, a partir dos manuais consultados (Quadro 2).
Constatações elaboradas a partir da revisão dos manuais selecionados para as etapas de iniciação e formação e especialização no basquete
Em seguida, para cada constatação, apresentamos as diretrizes dos manuais e discutimos possibilidades de aplicações práticas.
3.1 A INICIAÇÃO E A FORMAÇÃO NO BASQUETE
3.1.1 Constatação 1: a etapa de iniciação se intersecciona com a formação
A primeira constatação demarca que os modelos internacionais não são unânimes quanto às categorias de idade nas etapas de iniciação e formação. Por exemplo, na Argentina o minibasquete é considerado até os 12 anos e a próxima categoria é o sub-13 (CABB, 2017). Já na Federação Andaluza da Espanha há as categorias benjamín de oito a 10 anos, alevín correspondente ao sub-12, infantil correspondente ao sub-13 e sub-14, e cadete ao sub-15 e sub-16 (FAB, 2016).
Essa falta de consenso entre os modelos para as idades nas categorias pode ser atribuída a diversas questões, como parâmetros fisiológicos e de maturação, sociais ou nível de jogo. Do ponto de vista fisiológico, a etapa de iniciação e formação é o período de maior variabilidade no crescimento e desenvolvimento maturacional e, por consequência, maiores diferenças entre a idade cronológica e a biológica de crianças e adolescentes (Ribeiro Junior et al., 2020). Isso se dá devido ao pico de velocidade do crescimento em estatura (PVC), maturação biológica dos órgãos sexuais e das funções musculares, e alterações na composição corporal. Esses eventos acontecem de formas diferentes e em períodos variados durante a puberdade, tendo que o PVC tende a ocorrer no gênero feminino entre os 10 e 14 anos, e no masculino entre os 12 e 16 anos (Andrade, 2017; Ribeiro Junior et al., 2020). Assim, torna-se difícil estabelecer uma padronização de idades para categorias, se o desenvolvimento, nesse caso, biológico não é linear.
Considerando o aspecto social, é possível que cada país tenha uma compreensão distinta entre quais as idades mais adequadas para apresentar o basquete de forma sistematizada (iniciar) e se aprofundar na modalidade (formação), levando os documentos a sugerirem idades de referência diferentes para cata etapa. Além dessa sugestão mais global dos modelos, é necessário considerar a trajetória individual de cada jovem atleta: é comum que haja na mesma equipe crianças ou adolescentes de diferentes níveis, com e sem experiências no basquete (Santos et al., 2021; Faria et al., 2021). Por isso, o documento da FIBA, por exemplo, sugere que treinadores(as) devem a) enfatizar o desenvolvimento de ações estratégico-técnico-táticas individuais (em situações de 1x1, 2x2, 3x3, etc.); b) considerar o desenvolvimento de forma individualizada, dando tempo para os(as) jogadores(as) menos desenvolvidos de “assimilar o que estão aprendendo e se sentir seguros com a gratificação da sensação de ter a situação sob controle.” (WABC, 2020, p. 87, tradução nossa); c) desafiar os(as) jogadores(as) mais desenvolvidos para mantê-los(as) engajados(as) (WABC, 2020).
Ainda, as meninas tendem a terem menos oportunidades de iniciarem e praticarem esportes em geral, incluindo o basquete, devido a questões sociais históricas que distanciaram as mulheres do esporte ao longo do tempo (Beneli; Galatti; Montagner, 2017; Passero et al., 2019; Barreira, 2021; Leonardi et al., 2021; Korsakas et al., 2021, 2024). Curiosamente, fazendo um paralelo com aspectos fisiológicos, até os 10 anos de idade, etapa de iniciação, não há diferenças no desempenho motor entre meninos e meninas, pois há uma estabilidade na taxa de crescimento em estatura, favorecendo a consolidação das habilidades motoras (Ribeiro Junior et al., 2020). Nesse sentido, meninos e meninas podem iniciar a prática do basquete juntos, evidenciando ainda mais que a falta de oportunidades para as meninas não é uma questão fisiológica, mas social.
Uma possibilidade importante para incluir meninas na prática do basquete é a iniciação com turmas mistas. Aqui é importante compreender que não se trata de um espaço em que meninos cedem o direito às meninas, mas um lugar que é, por direito, de ambos (Korsakas et al., 2021). Além disso, é importante engajar estas meninas, para se sentirem pertencentes ao grupo e competentes na prática e, consequentemente, permanecerem (Comitê Olímpico do Brasil, 2022). Por isso, treinadores/as devem criar um ambiente seguro e de acolhimento para elas. Ainda, é preciso considerar se a participação das meninas é plena nessas turmas e, em havendo desconforto por parte delas ou preterimento destas por parte de treinadoras/es, é preciso considerar a oferta de turmas exclusivas para meninas (Silva; Martins, 2023; Korsakas et al., 2014).
3.1.2 Constatação 2: os modelos sugerem o desenvolvimento holístico, mas propõem um desenvolvimento unilateral
Considerando que os modelos internacionais divergem em suas diretrizes para o desenvolvimento de atletas de basquete, fizemos uma análise para as etapas de iniciação e formação quanto aos conteúdos estratégico-tático-técnicos, psicológicos e sociais.
Os conteúdos estratégico-tático-técnicos são o conjunto de ações, individuais e coletivas, que ocorrem em situações de conflitualidade frente à oposição de adversário(s) no espaço de jogo. Nesse contexto, a tática acontece de forma indissociável da técnica no jogo, sendo influenciada pela estratégia, que é o plano de jogo - como os sistemas defensivos e ofensivos (Galatti et al., 2017; Santos et al., 2022). Os conteúdos psicológicos englobam as funções cognitivas, como percepção e pensamento concreto, e habilidades socioemocionais, como confiança e autonomia (Comitê Olímpico do Brasil, 2022; Contreira et al., 2019). Por fim, os conteúdos sociais incluem habilidades para o estabelecimento de relações interpessoais e engajamento do contexto social (Uhle et al., 2024; Bettega et al., 2023; Maciel et al., 2024).
Para a análise identificamos todos os conteúdos de desenvolvimento de atletas de basquete na iniciação e formação, e contabilizamos a proporção percentual dos conteúdos estratégico-tático-técnico, psicológicos e sociais, em relação ao documento completo. A nossa constatação foi que os conteúdos estratégico-tático-técnicos são majoritários, sendo mais descritos e detalhados nos modelos (Tabela 1).
Percentual de conteúdos estratégico-tático-técnicos, psicológicos e sociais presentes nos modelos internacionais para o desenvolvimento de atletas de basquete nas categorias de iniciação e formação
Embora os modelos enfatizem a importância do desenvolvimento holístico, pouco descrevem como desenvolver os aspectos psicológicos e sociais, principalmente de forma conjunta ao estratégico-tático-técnico. O modelo da Confederação Argentina, por exemplo, destaca a importância do desenvolvimento de atletas em longo prazo nos âmbitos físico, técnico, tático e psicológico (CABB, 2017). Contudo, o desenvolvimento psicológico é compreendido como um processo intrínseco ao treinamento técnico, como destacado no manual da Argentina (CABB, 2017, p., 147, tradução nossa):
O desenvolvimento técnico que permitirá indiretamente o fortalecimento de competências psicológicas: gestão da ansiedade (controlando o controlável); ampliar as faixas de tolerância pessoal à frustração; maior capacidade de distribuir atenção; a capacidade de manter o foco – processo de concentração (a mente no presente); e sobretudo o aumento dos níveis de autoconfiança e empenho individual.
O modelo da Austrália possui o que é chamado de “Valores do Basquete Australiano” que incluem habilidades socioemocionais e cognitivas desejadas nos jogadores(as), como capacidade de lidar com a adversidade: “em situações difíceis ou quando as coisas não estão indo do nosso jeito, queremos jogadores que consigam manter o foco [...]. Queremos jogadores que tratem uma situação de pressão como um desafio e não como uma ameaça” (Basketball Australia, 2012, p. 39, tradução nossa). Contudo, ao descrever o currículo de desenvolvimento de atletas em longo prazo, não há diretrizes de como desenvolver esses valores, tão pouco os conteúdos psicológicos específicos.
O desenvolvimento psicológico e social parece não só ficar em segundo plano, como, por vezes, é dado como garantido no processo. Estudos demonstram que ambientes esportivos podem ter carga psicológica altamente negativa, levando praticantes ao estresse e saturação, consequentemente ao abando da prática e traumas, sobretudo na iniciação e formação (Menezes; Marques; Nunomura, 2014; DiFiori et al., 2018). Em estudo, realizado por Urizzi e colaboradoras (2024), com mulheres que não seguiram a carreira como atletas de basquete, foi identificado que um dos motivos que as levaram a desistir foi o ambiente de treino hostil, aliado à relação negativa com o/a treinador/a. Por isso, o ambiente esportivo deve ser intencionalmente desenhado para ser positivo, a partir de atitudes acolhedoras e seguras psicologicamente (Comitê Olímpico do Brasil, 2022), e os treinos explicitamente planejados para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, funções cognitivas e sociais (Machado, Galatti, Paes, 2015; Galatti et al., 2018; Lima et al., 2023; Bettega et al., 2023), sobretudo de forma conjunta com os conteúdos estratégico-tático-técnico, com um olhar de fato holístico.
3.1.3 - Constatação 3: é consenso a não especialização por posições e funções
Dentre os conteúdos estratégico-tático-técnicos, também observamos que os modelos se aproximam em alguns aspectos (Figura 1).
Diretrizes de modelos internacionais para o desenvolvimento de conteúdos estratégico-tático-técnicos de basquete para as categorias de iniciação e formação.
Os manuais são unânimes ao relatarem que na iniciação e formação, especialmente até os 15 anos, não se deve especializar as posições no basquete. Ou seja, todos(as) devem aprender a jogar em todas as regiões da quadra e executarem as diferentes funções, jogando de frente e evoluindo para jogar também de costas para a cesta. Há décadas que estudos vêm mostrando a importância da diversificação de experiências esportivas na iniciação, tanto em termos de manutenção da prática, quanto de resultados de desempenho em longo prazo (Côté; Baker; Abernethy, 2007; Galatti et al., 2014; Galatti et al., 2016a). Além disso, há evidências consolidadas sobre os malefícios da especialização precoce, como maior predisposição a lesões e estresse psicológico, que podem gerar traumas e esgotamento (Waldron et al., 2020; DiFiori et al., 2017). Em estudo recente com 772 jovens atletas de basquete nos Estados Unidos, entre 13 e 18 anos, foi verificado que 58% foram especializados no basquete antes dos 14 anos e 35% antes dos 11 anos, e dentre todos(as) 55% relataram sentir-se fisicamente exaustos e 45% relataram sentir-se mentalmente exaustos por causa do basquete (Meisel et al., 2021).
Revisões recentes, que investigaram estudos com milhares de atletas, também revelaram que: 1) atletas adultos campeões de nível mundial se envolveram mais em práticas multiesportivas na infância/adolescência, começaram seu esporte principal mais tarde, acumularam menos prática no esporte principal e inicialmente progrediram mais lentamente do que atletas de nível nacional; 2) atletas jovens de alto desempenho começaram a praticar seu esporte principal mais cedo, se envolveram em mais práticas no esporte principal, mas menos práticas em outros esportes, e tiveram um progresso inicial mais rápido do que atletas jovens de baixo desempenho; e, ainda, que 3) atletas campeões juniores tendem a não ser os mesmo que se tornam campões adultos (Barth et al., 2022; Güllich et al., 2023). Todos esses achados reforçam os benefícios da diversificação esportiva no desenvolvimento de atletas em longo prazo.
Por fim, no basquete, a diversificação de funções antes da especialização pode facilitar o aprendizado da lógica do jogo, contribuindo para o desenvolvimento de atletas mais versáteis e capazes de tomarem decisões eficazes (DiFiori et al., 2017, 2018; Maricone et al., 2016; Santos et al., 2021). Um dos aspectos que contribui para este processo é o aprendizado de conceitos de jogo, que todos os modelos enfatizam em suas diretrizes. Conceitos de jogo são ações aplicadas às situações de jogo, de forma que os/as jogadores/as possam decidir sobre o que e como fazer uma ação, em função dos adversários e dos companheiros, e na gestão do espaço de jogo, com o objetivo de criar algum tipo de vantagem sob os/as adversários/as (Maricone et al., 2016; Santos et al., 2021). Por exemplo, na etapa “introdutória” do modelo Americano, correspondente à categoria minibasquete, um conceito defensivo a ser aprendido é “impedir que um adversário pontue” (USA BASKETBALL, 2014, p. 97), desenvolvendo a consciência de se posicionar entre o/a adversário/a e a cesta; na sequência para a próxima etapa “fundamental”, sub-12, uma das formas de criar vantagem é partir das transições ofensivas (USA BASKETBALL, 2014, p. 195, tradução nossa):
Neste nível, os/as jogadores/as estão prontos para táticas ofensivas mais organizadas, como oportunidades de criar vantagem, com funções em linhas de transição, espaçamento no meio da quadra, bloqueio fora da bola (bloqueio indireto), ataque e movimentação sem a bola. Conceitos de movimento agora são introduzidos com os/as jogadores/as atuando em todas as posições, em vez de serem rotulados como pivô, armador ou ala.
3.1.4 Constatação 4 - a defesa por zona não é indicada para a etapa de iniciação e formação
Os modelos da FIBA, Argentina, Austrália e Espanha não indicam a introdução das defesas por zona nas etapas de iniciação e formação. Especificamente, a Argentina e a Espanha indicam a introdução a partir do sub-15; a FIBA a partir do sub-16; já a Austrália indica na etapa “perform”, correspondente ao sub-17. Importante destacar que os manuais sugerem que a introdução às defesas por zona ocorra a partir da categoria sub-15, mas indicam serem utilizadas e aprimoradas a partir da sub-17.
Há quatro principais razões descritas nos modelos citados:
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as situações de um contra um (1x1) com e sem bola são mais presentes na defesa individual, pois há menos defensores em posição diretamente perto da cesta. Isso favorece as tomadas de decisão, por conter mais ações a serem resolvidas em pouco tempo e espaço, tanto para atacar como para defender (CABB, 2017). Além disso, as ações defensivas aprendidas nas situações de 1x1 em sistema individual serão base para todos os sistemas defensivos a serem ensinados posteriormente (CABB, 2017; WABC, 2020).
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“as defesas por zona com jogadores/as jovens podem limitar o desenvolvimento de habilidades individuais e coletivas” (WABC, 2020, p. 297, tradução nossa), pois há menor exigência motora e esforço físico do que numa defesa individual, já que nessa idade os/as jogadores/as ainda têm menor capacidade de atacar contra a zona – ou seja, menos capacidade de superar o/a defensor/a direto e os/as de ajudas nas zonas próximas à cesta, menos visão periférica e menos força para realizar passes mais longos. Além disso, a eficiência nos arremessos de longas distâncias é menor, portanto, o erro pode ser mais atribuído à ineficiência do ataque do que ao trabalho defensivo eficaz (FAB, 2016; CABB, 2017);
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as defesas por zona protegem mais o garrafão (perímetro), dificultando as finalizações próximas e, por consequência, induzindo o ataque a explorar distâncias maiores. Entretanto, na iniciação e formação a eficácia de arremessos é baixa, sobretudo das crianças que ainda não têm força, o que reflete em desajuste técnico e num menor número de cestas, o que pode ser desmotivante (WABC, 2020; FAB, 2016);
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para além da capacidade física, a eficiência em arremessos de longa distância “depende das habilidades psicológicas como concentração, autoestima e controle de ansiedade competitiva [...], que são alcançadas com anos de prática e muitas experiências competitivas” (FAB, 2016, p. 65, tradução nossa);
Ações básicas da defesa individual vão favorecer o desempenho em outros sistemas defensivos, como perceber o(a) atacante direto para atrasar a progressão da bola, manter a bola longe da cesta ou a recuperar. Estas são melhor desenvolvidas a partir da a) visão contínua das referências de jogo (atacante direto, bola e cesta); b) regulação do uso legal das mãos e braços, dificultando as ações do(a) atacante direto; c) redução do espaço de jogo do(a) atacante, induzindo-o(a) para as zonas de menor risco para a finalização e/ou tirando as linhas de passe (CABB, 2017; FAB, 2016). Assim, na iniciação e formação se faz necessário introduzir e aprimorar essas ações.
3.1.5 Constatação 5: na iniciação e formação, o foco deve ser no desenvolvimento estratégico-tático-técnico individual, com treinos globais
Apesar de certa variabilidade, as diretrizes dos modelos focam no desenvolvimento individual dos aspectos estratégico-tático-técnicos. Realizamos um levantamento de conteúdos estratégico-tático-técnicos individuais e coletivos, e identificamos a predominância dos individuais, em termos de proporção em percentual, para as categorias do minibasquete ao sub-14 (Quadro 3).
Diretrizes de modelos internacionais em relação ao percentual de conteúdos estratégico-tático-técnicos individuais e coletivos de basquete a serem desenvolvidos na iniciação e formação
No minibasquete, EUA e Canadá indicam 90% e 70% de conteúdos individuais. Vale destacar que os conteúdos individuais dos modelos são relativos às ações que ocorrem em 1x1, mas também em situações sem oposição, de 1x0. No jogo de basquete em bola viva sempre há oposição, assim, situações sem oposição perdem a relação com a lógica do jogo (Santos et al., 2021, 2022). O que podem ocorrer são situações de vantagem espaço-temporal, ou seja, quando um/a atacante supera um/a defensor e cria uma vantagem de espaço, mas que durará por pouco tempo, até que o/a defensor/a recupere na defesa ou venha uma ajuda de um/a companheiro/a. Assim, exercícios que envolvem ações sem oposição devem ser evitados em treino (WABC, 2020), podendo ser substituídos por situações com vantagens temporárias de espaço, por exemplo.
A FIBA afirma que “o treinamento analítico deve ser evitado a todo custo na iniciação” (WABC, 2020, p.3, tradução nossa), sendo que as situações sem oposição, sobretudo no minibasquete, podem ser utilizadas, desde que seja com o intuito de criar um ambiente de confiança para a criança (WABC, 2020). Há possibilidades de criar exercícios com situações de 1x1 que favoreçam o desenvolvimento da autoconfiança e percepção de competência. Por exemplo, numa situação com enfoque em progredir à cesta, um/a defensor/a pode ter regras para limitar sua movimentação ou roubo de bola, como defender segurando uma bola, garantindo que o/a atacante tenha mais sucesso de progredir e fazer a cesta. Sugerimos a leitura do documento do Instituto Basquete Brasil, chancelado pela Confederação Brasileira de Basquete para o conhecimento de sequências didáticas nessa perspectiva.
Nas categorias de formação ainda há predominância de conteúdos individuais, mas já se observa uma progressão para os coletivos. No manual da Andaluzia/Espanha, apesar de não ter diretrizes de percentuais em relação aos conteúdos individuais e coletivos, há descrições para a progressão de ações que envolvem o jogo individual com e sem bola simples e complexo na iniciação (1x1), para o jogo grupal e coletivo simples na formação (ações que envolvem 2x2 e 3x3) (FAB, 2016). A progressão nos níveis se faz importante, dado que o jogo de basquete é complexo e os níveis de proficiência são atingidos após anos de prática (Galatti et al., 2016a; Galatti et al., 2019), assim como em outros esportes coletivos Subijana et al., 2020). Um dos alertas dos modelos é que, numa equipe, também é importante observar o desenvolvimento de forma individualizada, pois a aprendizagem não é linear mesmo entre praticantes de uma mesma faixa etária (Côté et al., 2017).
3.2 A ESPECIALIZAÇÃO NO BASQUETE
3.2.1 Constatação 6: do sub-15 ao sub-19 deve haver uma progressão dos conteúdos individuais para os coletivos
Também realizamos um levantamento de conteúdos estratégico-tático-técnicos individuais e coletivos para a etapa de especialização que podem ser observados no Quadro 4.
Diretrizes de modelos internacionais em relação ao percentual de conteúdos tático-técnicos individuais e coletivos de basquete a serem desenvolvidos nas categorias especialização
No sub-15 os manuais ainda indicam uma proporção de igualdade entre conteúdos individuais e coletivos. O modelo Argentino, que agora traz diretrizes em termos percentuais para a etapa de especialização, diferente da iniciação, indica pequena predominância em conteúdos individuais (60%). No sub-17 os EUA se diferenciam, já indicando maior proporção de conteúdos coletivos, enquanto os demais indicam proporção igualada. No sub-19 todos indicam um enfoque em conteúdos coletivos.
Estabelecer uma progressão de conteúdos de basquete a serem desenvolvidos em longo prazo se faz importante, pois ainda que o jogo seja imprevisível, é possível sistematizar conteúdos vinculados à certa previsibilidade relativa à lógica do jogo, conferidas por referenciais estruturais e funcionais do jogo (Bettega et al., 2015). Ou seja, sabemos, por exemplo, que o jogo de basquete possui um alvo a atacar e outro a defender, companheiros/as de time e adversários, uma bola, um espaço específico, tempo, além de regras que conferem a dinâmica. Esses são invariantes. Nesse sentido, podemos observar cadeias de acontecimentos relacionados aos acontecimentos prévios e com certa probabilidade de ocorrência de eventos futuros (Garganta, 1995), possibilitando, então, a sistematização de conteúdos.
3.2.2 Constatação 7: o ensino do bloqueio direto é sugerido a partir do sub-15
O bloqueio direto é uma das ações mais utilizadas por equipes profissionais adultas (Nunes et al., 2022), masculinas e femininas (Morillo-Baro et al., 2021). Esta é uma ação em que um/a atacante sem bola bloqueia a trajetória do/a defensor/a do/a jogador/a com bola, a fim de criar uma vantagem de espaço (Maricone et al., 2016), neste sentido, há uma ajuda para o/a jogador/a com bola superar o/a adversário/a. Embora seja uma ação comum no jogo de adultos/as, é importante entender esta ação como mais um recurso de criação de espaço, e não o único. Utilizar os bloqueios diretos nas categorias iniciais pode gerar dependência desta ação e centralizar o jogo em poucos/as jogadores/as. É importante que os/as jogadores/as aprendam outras ações prévias, de desmarque e criação de espaços sem depender de um/a companheiro/a, ampliando o repertório de possibilidades de ações (CABB, 2017).
Pensando que especialização é uma etapa de avanço no foco dos conteúdos individuais para coletivos, como discutido na “constatação 6”, a partir do sub-15 o bloqueio direto pode ser introduzido. É função dos/as treinadores/as fazê-lo de forma progressiva e não como parte proeminente do processo de ensino (CABB, 2017; FAB, 2016). Sobretudo, em consideração à não especialização de funções até, pelo menos, esta categoria (DiFiori et al., 2017, 2018), o bloqueio direto deve ser aprendido por todos/as, tanto na função do/a jogador/a com bola que recebe a ajuda, quanto na função de bloqueador/a. Vale reforçar que, para além da sugestão da categoria, é importante considerar as experiências prévias dos/as praticantes e isso pode implicar em ensinar esta ação em idades mais avançadas.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste estudo discutimos o desenvolvimento de atletas de basquete da iniciação à especialização esportiva, estabelecendo sete constatações de tendências sobre o processo de ensino-aprendizagem-treinamento em basquete em longo prazo, a partir de documentos com diretrizes de Federações e Confederações Internacionais de Basquete. Buscamos manuais internacionais com diretrizes para este processo, fazendo uma relação com estudos empíricos para discutir e sustentar as constatações, sendo: 1) a etapa de iniciação se intersecciona com a formação; 2) os modelos sugerem o desenvolvimento holístico, mas propõem um desenvolvimento unilateral; 3) é consenso a não especialização por posições e funções; 4) a defesa por zona não é indicada para a etapa de iniciação e formação, somente na especialização; 5) na iniciação e formação, o foco deve ser no desenvolvimento estratégico-tático-técnico individual; 6) do sub-15 ao sub-19 deve haver uma progressão dos conteúdos individuais para os coletivos; 7) o bloqueio direto é sugerido a partir do sub-15.
A partir destas constatações, nossa intenção é informar sobre diretrizes para o processo pedagógico de desenvolvimento de atletas, importantes a serem considerados na prática de treinadores/as, o que ainda é pouco abordado na literatura especializada (Galatti et al., 2016b). Algumas delas rompem com paradigmas ou crenças tradicionais do processo de ensino no basquete na iniciação, formação e especialização. Entretanto, a mudança na concepção filosófica e ação prática de treinadores/as é um processo complexo. Nesse sentido, é também importante que Confederações de Basquete invistam em ações de formação de treinadores/as para reverter as diretrizes em ação prática, em quadra, a fim de estabelecer um processo adequado e positivo de desenvolvimento de atletas de basquete em longo prazo.
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FINANCIAMENTO
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.
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COMO REFERENCIAR
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DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA
Os dados de pesquisa só estão disponíveis mediante solicitação.
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RESPONSABILIDADE EDITORIAL
Alex Branco Fraga*, Elisandro Schultz Wittizorecki*, Guy Ginciene*, Mauro Myskiw*, Raquel da Silveira** Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Porto Alegre, RS, Brasil.


Fonte: os autores.