Resumo
O artigo propõe o caminhar como prática corporal investigativa e operador metodológico para pesquisas sobre práticas corporais em espaços urbanos no campo da Educação Física. Argumenta-se que o caminhar como método investigativo, ao incorporar errância, perda de controle e atenção ao imprevisto, promove deslocamentos metodológicos capazes de tensionar lacunas persistentes na produção em Educação Física que consideram a relação entre práticas corporais e espaços urbanos.
Palavras-chave
Caminhar; Práticas corporais; Espaço urbano; Metodologia qualitativa
Abstract
The article proposes walking as an investigative bodily practice and methodological operator for research on bodily practices in urban spaces in the field of Physical Education. It argues that walking as an investigative method, by incorporating wandering, loss of control, and attention to the unexpected, promotes methodological shifts capable of highlighting persistent gaps in Physical Education research that consider the relationship between bodily practices and urban spaces.
Keywords
Walking; Embodied practices; Urban space; Qualitative methodology
Resumen
El artículo propone el caminar como práctica corporal investigativa y operador metodológico para investigaciones sobre prácticas corporales en espacios urbanos en el campo de la Educación Física. Se argumenta que caminar como método de investigación, al incorporar el vagabundeo, la pérdida de control y la atención a lo imprevisto, promueve desplazamientos metodológicos capaces de tensar las lagunas persistentes en la producción en Educación Física que consideran la relación entre las prácticas corporales y los espacios urbanos.
Palabras clave
Caminar; Prácticas corporales; Espacio urbano; Metodología cualitativa
1 INTRODUÇÃO1
A partir dos levantamentos recentes do estado da arte realizados por Guidetti (2024) acerca da relação entre práticas corporais e cidade em periódicos da Educação Física, destacamos duas lacunas persistentes no campo com as quais pretendemos dialogar: (1) a concentração geográfica e institucional das pesquisas, que tende a reproduzir olhares centrípetos sobre a cidade; e (2) a baixa incidência de investigações situadas, como cartografias e etnografias.
A dificuldade de sustentar, na produção contemporânea da Educação Física, uma reflexão robusta sobre a relação entre práticas corporais e cidade tem sido diagnosticada por Guidetti como um efeito histórico da esportivização das práticas corporais. Ao observar que, no processo de modernização inicial do Brasil, corpo e cidade constituíam um problema central (o que explica a expressiva presença dessa relação na literatura do período) o autor chama atenção para o contraste com a segunda metade do século XX, quando, apesar das transformações radicais da forma urbana, essa relação perde densidade analítica. Se, na modernização do Brasil, a relação entre práticas corporais e cidade era tão significativa, como demonstram as pesquisas no campo, justificando a entrada da Educação Física nos espaços de socialização, então:
[...] o que explica a diminuição expressiva no volume de trabalhos que deveriam tematizar a atualidade daquela relação? Ou, dito de outro modo: se consideramos que a forma urbana se alterou radicalmente desde o início do século XX, como podemos entender que isso não se traduziu em uma nova configuração da cultura física? Isso se expressa principalmente quanto ao baixo volume de publicações que refletem sobre a segunda metade do século XX, um período em que a EF foi esportivizada. Nossa hipótese é que a dificuldade de escrever um próximo capítulo tão robusto como o capítulo sobre a relação cidade-práticas corporais na modernização inicial se deve ao êxito do processo de esportivização das práticas corporais
(Guidetti, 2024, p. 63).
O fato de o esporte ter se tornado a forma hegemônica das práticas corporais (Bracht, 1997), teria, por sua vez, produzido o progressivo desinteresse pelo urbano na formulação teórica do campo, dada a especificidade dos diferentes fenômenos. A hipótese proposta por Guidetti é que o êxito do processo de esportivização, entendido como padronização técnica e abstração do contexto, produziu um empobrecimento da capacidade da área de elaborar novos modos de pensar a cultura corporal em relação à cidade. Ao operar por regras universais e gestos normalizados, o esporte moderno tende a neutralizar as particularidades do espaço urbano, deslocando a atenção da Educação Física para práticas que prescindem do território como operador analítico. Nesse sentido, a escassez de investigações sobre corpo e cidade não indica que a produção das cidades na atualidade prescinda do investimento sobre os corpos individuais, algo que foi tão caro na primeira metade do século XX (como demonstram GOMES et al., 2014 ao referirem-se ao contexto capixaba), mas revela um limite epistemológico produzido pela hegemonia de um modelo de prática corporal que vai na contramão da própria lógica urbana, fundada na diferença, no conflito e na acomodação das singularidades. Podemos descrever essa inflexão teórica na seguinte máxima: quanto mais a Educação Física se organiza em torno do esporte, menos ela precisa pensar a cidade.
Embora o diagnóstico de Guidetti seja preciso ao identificar o apagamento da relação entre práticas corporais e cidade como efeito do êxito da esportivização, é necessário reconhecer que tal apagamento não se explica apenas por uma escolha epistêmica da área (um problema de seu objeto e especificidade), mas por um processo político-institucional mais amplo de organização da produção do conhecimento em Educação Física. Como argumenta Bracht (2013, 2015) ao analisar o “casamento infeliz” entre Educação Física e ciência, a consolidação da área no interior da universidade se deu sob a hegemonia de um modelo de racionalidade científica orientado pela quantificação, pelo controle e pela eficácia, o que acaba por produzir um regime de legitimidade que define quais objetos são investigáveis e quais não.
Nesse contexto, podemos dizer que a cidade torna-se um objeto epistemologicamente incômodo, menos por sua irrelevância do que por sua resistência aos modelos quantificadores dominantes. Além disso, a própria semântica das práticas corporais passa se modificar nos anos finais do século XX e início do XXI. Fensterseifer et al. (2020) argumentam que, no campo cultural, vivemos um processo de estetização das práticas corporais, significando a passagem da normatividade produtivista para a sedução consumista.
A passagem da ética da produção (esta que sustentou a fulcral relação entre práticas corporais e cidades na primeira metade do século XX) para a estética do consumo que apresentam os autores acima, inspirados em Bauman e Lipovetsky, não se trata apenas de um deslocamento moral, mas de uma reorganização espacial e corporal, uma vez que o esporte e as práticas corporais deixam de operar como mediadores de pertencimento público e passam a funcionar como signos narcísicos de autoaperfeiçoamento, prazer e gestão de si. Isso converge diretamente com a crítica à “qualidade de vida” como ideologia urbana, elaborada por Raquel Rolnik (2000), vista não como um bem coletivo, mas como um critério seletivo que legitima o fracionamento da cidade em oásis protegidos e fluxos rápidos entre propriedades privadas. Nesse contexto, a tensão sobre o modo como a diversificação no campo das práticas corporais pode mobilizar resistências micropolíticas ou reforçar o consumo, representa um prolífico campo de investigação para a área. Esse diagnóstico deveria nos impulsionar à análise dos mecanismos espaciais, corporais e políticos deste novo momento.
É nesse ponto que o caminhar pode operar um deslocamento decisivo (e é isso que desejamos articular aqui). O caminhar pode operar esse deslocamento precisamente porque tensiona tanto a hegemonia da esportivização quanto os sentidos contemporâneos da estetização das práticas corporais, reinscrevendo a experiência corporal em sua dimensão situada, errante e relacional. Ao fazê-lo, responde às lacunas apontadas por Guidetti, tanto ao deslocar o olhar para além dos centros urbanos consolidados quanto ao produzir investigações ancoradas em experiências corporais situadas, recolocando a cidade como operador epistemológico e metodológico da pesquisa em Educação Física.
Significa reconhecer que o espaço urbano interfere diretamente nas formas de perceber, deslocar-se, perguntar e interpretar. Como propõe Paola Berenstein Jacques (2008), a cidade não é um objeto passivo, mas um conjunto de condições interativas que o corpo lida em movimento. Nessa perspectiva, o caminhar produz uma corpografia urbana, uma cartografia realizada pelo e no corpo, na qual a memória da cidade vivida se inscreve e configura a própria corporalidade do sujeito. A errância, definida pela autora como uma ferramenta subjetiva que prioriza a experiência sensório-motora em detrimento da visão panorâmica, constitui uma micro-resistência à espetacularização das cidades. Caminhar, assim, é uma prática investigativa moldada no encontro entre corpo, percurso e espaço urbano.
Diante desse cenário, este artigo propõe discutir o caminhar como prática corporal investigativa, compreendendo-o simultaneamente como gesto ético-epistemológico e procedimental. Trata-se de um ensaio teórico-metodológico, de natureza qualitativa, que articula revisão crítica da literatura com reflexão conceitual, buscando sistematizar princípios para o uso do caminhar na investigação de práticas corporais em espaços urbanos sem reduzi-lo a instrumento funcional. Estamos cientes de que a incorporação do caminhar como prática investigativa não está isenta de riscos epistemológicos, o que demanda um exercício rigoroso de reflexividade metodológica, como buscaremos expor adiante.
Nos orientamos aqui pela seguinte pergunta: como investigar práticas corporais urbanas a partir do caminhar, preservando seu caráter errante e situado, sem abrir mão da reflexividade metodológica? Para a exploração deste tema, nos colocamos outras três perguntas chaves, que acabam por estruturar o artigo: O que aprende o investigador caminhante? Que tipo de dados caminhar produz? A que podemos dedicar esses dados ao investigarmos a relação entre práticas corporais e cidade?
2 O QUE O INVESTIGADOR CAMINHANTE APRENDE?
[...] Caminhar é uma modalidade do pensamento. É um pensamento prático. [...] Porque sempre se caminha em um contexto, e esse fato nos provoca, nos leva a fazer perguntas a nós mesmos e nos obriga a fazer outras
(Labucci, 2013, p. 9-10).
Ao afirmar o caminhar como uma modalidade do pensamento, Labucci está deslocando o pensamento do campo representacional para o processual. Caminhar, nos termos do autor, produz pensamento porque coloca o sujeito em um estado cognitivo específico, marcado pela atenção, pela abertura ao acaso e pela suspensão momentânea da finalidade. É evidente que esta maneira de pensar opõe-se àquela em que pensar exige imobilidade, interioridade e controle. Assim, Labucci está sustentando que o caminhar instaura uma racionalidade não instrumental. O pensamento que emerge do caminhar é fragmentário, errante e muitas vezes “improdutivo” do ponto de vista utilitarista, mas é precisamente por isso que se torna capaz de perceber o que o pensamento sedentário ignora: descontinuidades, restos, desvios, afetos.
Essa racionalidade não instrumental, contudo, não autoriza uma celebração ingênua da errância como gesto crítico em si. Pelo contrário, o rigor da proposta exige que o investigador caminhante submeta sua própria experiência a um exercício permanente de reflexividade sociológica — tal como proposto por Bourdieu (2001, 2024) —, interrogando as condições sociais que tornam possível seu deslocamento, os privilégios corporais e simbólicos que mobiliza, bem como os limites de sua própria percepção. Diferentemente de uma mera explicitação da experiência (uma "reflexividade narcísica"), trata-se de uma exigência epistemológica rigorosa: submeter o pesquisador, seus esquemas perceptivos, suas disposições corporais e sua posição no espaço social ao mesmo escrutínio analítico aplicado ao objeto investigado. Sem essa vigilância epistemológica, o caminhar arrisca-se a naturalizar o olhar do pesquisador e a reproduzir, sob a aparência de abertura sensível, formas sutis de invisibilização das desigualdades que estruturam o espaço urbano.
É nesse mesmo horizonte que a noção de um pesquisador ou pesquisadora caminhante pode ser colocada em diálogo com a crítica de Paulo Evaldo Fensterseifer aos fundamentos do paradigma moderno de conhecimento, esta “paisagem epistemológica” que pavimentou o caminho da Educação Física enquanto disciplina acadêmica (Bracht, 2013).
O caminhar, quando assumido como estratégia investigativa, por sua vez, torna explícito o caráter processual, relacional e provisório do conhecimento, aproximando-se do que Fensterseifer (2010) vem chamando de “atividade epistemológica”, ao reconhecer que não há uma verdade a ser simplesmente revelada, mas sentidos a serem construídos na tensão entre experiência, linguagem e mundo. Essa posição radicaliza a crítica de Fensterseifer ao assumir a perda de universalidade, a instabilidade do objeto e a impossibilidade de neutralidade não como falhas do processo investigativo, mas como condições constitutivas da produção de conhecimento, muito mais adequadas, diga-se de passagem, às preocupações temáticas da Educação Física (como corpo, práticas corporais, saúde, qualidade de vida) as quais são impossíveis de serem representadas através da lógica matematizante que constitui o paradigma científico moderno. Como afirma o autor, citando Heidegger2, “[...] claro está que ‘A inexatidão das ciências históricas do espírito não é uma falta, mas o cumprimento de uma exigência essencial para esse modo de investigação’” (Fensterseifer, 2020, p. 9). Na subseção seguinte, queremos abordar dois aspectos do caminhar que se tornam condição essencial para a produção de conhecimento, na forma aqui proposta: aprender a desacelerar e a se perder.
2.1 APRENDER A DESACELERAR
O desenvolvimento urbano vem fazendo desaparecer o chão sob os pés dos caminhantes, material e simbolicamente. Em sua história do caminhar, Rebecca Solnit (2016) reflete sobre como o contexto técnico e urbano contemporâneo tem tornado o caminhar um gesto raro e com tons de anacronia:
[...] Se o caminhar tiver uma história, então esta também chegou a um ponto onde a estrada despenca, um ponto onde não há espaço público algum e a paisagem vem sendo asfaltada, onde o lazer se encolhe e é esmagado pela ansiedade de produzir, onde os corpos não se encontram mais no mundo, tão somente confinados em carros e edifícios, e uma apoteose da velocidade faz esses corpos parecerem anacrônicos ou fracos. Nesse contexto, caminhar é um desvio subversivo, uma rota panorâmica que cruza uma paisagem semiabandonada de ideias e experiências
(Sonlit, 2016, p. 32).
O caminhar, na medida em que o assumimos como recusa à aceleração, torna-se um gesto ético, uma recusa à lógica que nos quer confinados em carros, edifícios e smartphones. Ao devolver o corpo aos seus limites sensíveis e vulneráveis, o caminhar reabre o horizonte do encontro com o espaço, com desconhecidos, consigo mesmo e com o acaso. É gesto de oposição ao imperativo da velocidade, esta “forma de êxtase que a revolução técnica deu de presente ao homem” (Kundera, 2011, p. 7). Adriano Labucci aponta o desafio que:
[...] temos diante de nós: a de não sermos capazes de prever e de calcular as consequências do extraordinário potencial técnico que está em nossas mãos. Se os antigos tinham um déficit de conhecimento, a nós coube um déficit das consequências. Por isso, volta a ser central a pergunta sobre ética, ou seja: de qual ética estamos falando quando falamos do caminhar? De uma ética que parte de si mesma, mas para se abrir para o mundo; de uma ética que não levanta barreiras e não separa, mas restabelece relações e conexões entre os próprios passos e o contexto humano e natural [...].
(Labucci, 2013, p. 20).
Nessa tessitura de passos, vínculos e espaços, esboça-se uma ética que parte de si para “se abrir ao outro e ao mundo”, recompondo relações fragmentadas e oferecendo, no ritmo do corpo, uma visão alternativa de comunidade e de futuro. Dessa maneira, afirmamos que o caminhar recoloca corpo, tempo, espaço e relação em jogo contra a lógica hegemônica da velocidade, do acúmulo, da eficiência e do isolamento.
Aqui, a desaceleração assume contornos de condição metodológica que permite ao investigador ou investigadora “tornar-se safo” no espaço urbano, tal como formulada por Richard Sennett (2021, p. 197-208). Para o sociólogo, esse tipo de conhecimento designa situações de tensão sustentada nas quais o sujeito não se evade do problema, mas é obrigado a permanecer nele, ajustando corpo, atenção e prática diante das resistências do material e do contexto3. No espaço urbano, a aceleração funciona como estratégia de fuga das fricções sociais, atravessa-se a cidade para reduzi-las, evitar contatos e neutralizar a imprevisibilidade. Desacelerar, ao contrário, expõe o corpo às pressões do território, suas irregularidades, conflitos de uso, encontros indesejados e barreiras simbólicas, e, assim, cria as condições para que essas tensões se tornem produtivas, do ponto de vista cognitivo. A desaceleração opera assim como dispositivo de retenção, que impede a resolução rápida do percurso e força o investigador a assimilar os limites impostos pela cidade.
Enquanto operador metodológico, desacelerar reinscreve o caminhar em um regime artesanal de produção de conhecimento, no qual o saber emerge do enfrentamento prolongado com a situação, e não de sua superação técnica. Tal como o artífice descrito por Sennett aprende ao sustentar a dificuldade do fazer, o investigador caminhante aprende ao permanecer sob pressão, permitindo que a experiência urbana reconfigure perguntas, hipóteses e categorias analíticas.
2.2 APRENDER A SE PERDER
[...] Aquilo que a gente não sabe absolutamente o que é costuma ser o que a gente precisa encontrar, e encontrá-lo é uma questão de se perder. A palavra “lost” [“perdido”] vem do nórdico “los”, que significa a debandada de um exército, e essa origem sugere soldados saindo de formação e voltando para casa, uma trégua com este vasto mundo. Hoje me preocupa o fato de muitas pessoas não debandarem mais seus exércitos, de nunca ultrapassarem aquilo que conhecem
(Solnit, 2022, p. 12).
A captura da racionalidade científica pelo paradigma matematizante, que discutimos acima, criou um ethos científico que pode ser expresso na figura do “sonâmbulo que não se deve acordar” (Stengers, 2023, p. 64-65), imagem do “verdadeiro pesquisador” fundado naquele paradigma, como Isabelle Stengers define. Este, sonambulando sobre os telhados, “sem sentir vertigem, medo ou hesitação”, possui uma fé inabalável em sua capacidade de mover todos os obstáculos (a opinião, o senso comum, o que não é quantificável, a dúvida) em sua busca por inteligibilidade. Stengers (2023) ressalta que:
[...] o ethos do cientista sonâmbulo, [...], está mais para a fobia: ele rejeita as perguntas que considera “não científicas” de maneira um tanto análoga à misoginia fóbica dos padres, o que significa que ele atribui a essas perguntas um poder perigoso e sedutor, capaz de levar o cientista aos caminhos irreversíveis da perdição.
Pensar o caminhar como prática investigativa implica deslocá-lo de sua lógica funcional, da busca pelo trajeto mais curto entre dois pontos, do deslocamento para o trabalho e de volta para casa, do ritmo dos semáforos, para inscrevê-lo em uma economia da perda, no sentido atribuído por Rebecca Solnit (2022), uma perda de controle. Em diálogo com Edgar Allan Poe, Solnit reflete sobre a diferença entre o “contar”, como um cômputo “desapaixonado de fatos ou medidas” (como sonham os abstêmios cientistas sonâmbulos) e o “imprevisto”, que se pode apenas “prenunciar”.
[...] Como se conta com o imprevisto? Parece ser a arte de reconhecer o papel do inesperado, de não perder o pé diante das surpresas, de colaborar com o acaso, reconhecer que existem mistérios essenciais no mundo e, portanto, que o cálculo, o planejamento e o controle têm limite. Contar com o imprevisto talvez seja exatamente a operação paradoxal que a vida exige de nós
(Solnit, 2022, p. 11).
É com o imprevisto que conta o caminhante (embora as possibilidades de contar com o imprevisto seja um privilégio social em nossas cidades). A máxima de Francesco Careri e o seu grupo Stalkers, ao propor a exploração urbana, reverbera aqui: “É preciso perder tempo para ganhar espaço”, aprender a:
[...] não buscar o caminho mais curto, a deixar-se conduzir pelos eventos, a dirigir-se a estradas impraticáveis onde seja possível “topar”, talvez encalhar-se para falar com as pessoas que se encontram ou saber deter-se, esquecendo que se deve agir. Saber chegar ao caminhar não intencional, ao caminhar indeterminado
(Careri, 2013, p. 171).
Perder-se dessa maneira é condição para acessar camadas de sentido que o planejamento, os mapas oficiais e os usos normativos tendem a apagar, como nos ensinam os situacionistas4. A deambulação surrealista é descrita por Careri como uma “desorientadora perda do controle”, um estado de quase hipnose que funciona como “medium através do qual se entra em contato com a parte inconsciente do território” (Careri, 2013, p. 80).
Ao investigador urbano que caminha, perder o controle significa suspender, ainda que provisoriamente, a pretensão de dominar o território por categorias prévias. Trata-se de admitir zonas de desconhecimento (e pôr-se intencionalmente em sua direção) e permitir que o percurso e o método permaneçam indeterminados e se desenvolvam ao longo do caminho. Seria possível dizer que o caráter centrípeto de nossas investigações sobre práticas corporais e cidade carreguem essa tendência mais ampla a ir sempre aos mesmos lugares, “nunca ultrapassando aquilo que conhecem”?
Caminhar, nesses termos, deve produzir uma forma de apreensão (em seu sentido duplo de temer e assimilar), expondo-nos a algo que nosso conhecimento atual não é capaz de enfrentar, e que exige reformulação, rupturas epistemológicas e novas formas de apreender o espaço a partir da experiência. Nas palavras de Solnit: “O vento joga seu cabelo para trás, e você é saudada por aquilo que ainda não tinha visto” (2022, p. 27).
3 QUAIS DADOS O CAMINHAR PRODUZ?
Os dados produzidos pelo caminhar não se confundem com registros etnográficos sistemáticos, nem pretendem substituí-los. Tratam-se de materiais situados que operam como indícios dos regimes urbanos de circulação, visibilidade e legitimidade. Aderem ao corpo e à memória. São cheiros, variações de luz, conversas partilhadas, medos, desvios, pequenas alegrias e desconfortos que se acumulam ao longo do percurso e passam a compor uma cartografia que não é apenas geográfica, mas também afetiva, política e cultural5. Cada trajeto desenha um mapa singular, no qual emergem fronteiras invisíveis da segregação, zonas de cuidado e de ameaça, vazios urbanos apagados pelo planejamento oficial, mas reencontrados pela experiência corporal. Ao caminhar, o investigador reconhece que a cidade não se oferece como cenário passivo da ação humana, mas como um texto vivo, continuamente escrito e reescrito por gestos, ritmos, paradas, escolhas de rota e formas de permanência.
Embora parciais, sensoriais e situados, esses dados podem ser sistematizados por meio de narrativas, mapas de deslocamento, registros visuais, desenhos e diários de percurso, produzindo predominantemente dados qualitativos, mas também registros quantitativos simples (como tempos de deslocamento, recorrência de passagens, frequência de paradas ou densidade de fluxos) sempre que tais medidas se mostram pertinentes ao problema investigado6. Lidos em conjunto, esses materiais permitem identificar repertórios de práticas corporais, modos de uso do espaço urbano e formas de habitar o tempo, oferecendo indícios de como o corpo aprende a cidade e de como a cidade, por sua vez, educa o corpo7.
Identificamos que o desafio metodológico central de abordagens que utilizem o caminhar como metodologia reside em resistir à tentação de fechar o método antecipadamente, submetendo o caminhar a um propósito rígido que o reduziria a meio para apreensão de algo previamente definido. Afirmamos que sustentar o caminhar como prática do pensamento implica preservar seu caráter aberto, errante e provisório, compreendendo-o menos como procedimento orientado à obtenção de respostas e mais como prática que suscita perguntas, desloca hipóteses e desestabiliza projetos de pesquisa excessivamente controlados.
Essa recusa ao fechamento antecipado do método aproxima-se da figura do flâneur viandante evocada por Richard Sennett, que possui “[...] um espírito mais aberto [...] que o caminhante munido de propósito, pois o seu conhecimento dos lugares e das pessoas pode se expandir de maneiras imprevistas” (2021, p. 210). Para Sennett, o caminhar desenvolve quatro aprendizados que nos permitem romper os limites do local ao perambular pela cidade (Sennet, 2021, p. 197-217): a avaliação lateral, que trata da capacidade de distinguir objetos e contexto de forma mais profunda que aquela produzida pelo movimento acelerado; a preensão, vista como a capacidade de captar a textura material e simbólica dos lugares pelo corpo em movimento, uma forma de compreensão do ambiente que permite ao caminhante agir por antecipação; o posicionamento, que envolve reconhecer a própria situação corporal, atuando criticamente na seleção dos marcos de orientação que lhe permitem situar-se no espaço, algo como a ação de orientar-se no interior de um labirinto; e a mensuração de escalas, que toma o movimento que “enfrenta resistências” como critério de medição, “a régua primeira” ao invés da métrica matemática do corpo vitruviano.
Todos esses aprendizados, que Sennett julga como critérios que o urbanista deve levar em consideração para viabilizar uma experiência aberta de cidade aos urbanitas, pode muito bem ser evocada como modos de produção de dados para o investigador caminhante. Ou seja, o aprendizado mesmo do caminhante sobre como portar-se em determinada localidade, os marcos que estabelece para orientar-se e os desafios que encontrar no percurso se tornam “dados” que permitem produzir interpretações sobre o fenômeno urbano e as práticas corporais. Trata-se, portanto, de um método de investigação em que o próprio procedimento metodológico se concretiza como uma prática corporal. Isso significa reconhecer que o caminhar, tal como proposto neste ensaio, não constitui protocolo universalizável nem técnica neutra de coleta de dados, mas uma orientação metodológica situada, cuja potência analítica depende da capacidade de sustentar reflexivamente a exposição do corpo ao espaço urbano e às tensões que dele emergem.
4 A QUE SE DEDICAM TAIS DADOS?
Voltando ao artigo de Guidetti, vemos sua menção à ausência de cartografias e etnografias na área, assim como maior diálogo com a antropologia e sociologia. Mas, e se buscássemos outras formas de investigação e experimentação do urbano como inspiração? Refiro-me às práticas artísticas do século XX, tais como sistematizadas por Careri (2013).
Inspirando-nos na proposta do caminhar como prática estética, entendemos que essa prática nas pesquisas da área se articula para operar a desestabilização dos regimes de visibilidade que definem o que conta como cidade, como prática corporal ou espaço legítimo. Nesse horizonte, traçados cartográficos anotados, intervenções no espaço, interações com outros urbanitas, mostram-se potentes para tornar inteligíveis práticas corporais não previstas pelo planejamento urbano. Relacionar os dados do caminhar à investigação das práticas corporais e dos espaços urbanos nos permite assim compreender, de um lado, repertórios de movimento e modos de apropriação e sentidos atribuídos ao espaço urbano, e de outro, tornam visível a própria configuração concreta e simbólica da cidade, suas ofertas e ausências, desigualdades, limites e lugares de encontro.
Francesco Careri compreende as rebentações urbanas (Careri, 2025) como rupturas e descontinuidades no tecido da cidade que interrompem sua lógica funcional, revelando espaços não programados de uso e encontro. É nesses interstícios que emergem os espaços hospitaleiros, lugares abertos à pausa e ao encontro, nos quais o caminhar deixa de ser mera circulação e se converte em prática de hospitalidade e produção de sentido urbano. Longe de constituírem vazios residuais, tais espaços funcionam como zonas críticas de invenção social e reconfiguração do público. Careri enxerga os artistas como agentes fundamentais na criação destes espaços e consideramos coerente com a trajetória formativa do campo da Educação Física a possibilidade de que pesquisas nesse campo possuam características de intervenção na cidade. Significa não apenas produzir dados a serem avaliados posteriormente, mas intervirem na cidade, tornando-se partícipes de sua (re)escrita. Assim, o caminhar emerge como prática investigativa que recoloca corpo, espaço e conhecimento em relação, tornando visível aquilo que só se revela quando a cidade é atravessada a pé. A cidade, nesse horizonte, deixa de ser mero cenário das práticas corporais para se tornar campo de disputa sensível, ética e política, no qual investigar é também expor limites, produzir fricções e abrir possibilidades de outros modos de habitar o espaço público.
Uma última consideração se faz necessária. Ao tomar o caminhar como prática estética capaz de revelar os limites e as fissuras do espaço urbano, Careri atribui ao gesto errante uma potência crítica frequentemente apresentada como transversal e amplamente disponível. É precisamente essa pretensão de universalidade que exige problematização, sob pena de naturalizarmos privilégios sob a aparência de abertura sensível. Nesse sentido, o desafio é reinscrever o caminhar numa crítica das condições sociais de possibilidade do próprio gesto errante, reconduzindo assim a experiência à sua análise no interior de um regime sensível socialmente produzido. Assim, assumindo a crítica bourdieusiana, pode-se afirmar que a errância é uma prática socialmente situada, atravessada por disposições incorporadas, regimes de visibilidade e condições materiais desigualmente distribuídas.
Inspirando-nos na sociologia carnal de Wacquant (2002) e nas discussões de Bordieu (2001; 2024) sobre reflexividade, tomamos os percursos, ritmos e modos de atenção envolvidos no caminhar como possíveis de serem analisados como efeitos de disposições incorporadas. Ao objetivar as condições sociais que autorizam ou restringem sua presença e circulação, transforma-se a experiência corporal em instrumento de análise dos mecanismos urbanos que produzem e regulam a legitimidade dos corpos no espaço público. Assim, a força analítica do caminhar não reside somente na errância em si, mas na capacidade de tornar visíveis os limites que organizam quem pode ocupar, atravessar e permanecer nos espaços públicos, bem como os modos pelos quais tais limites são incorporados, naturalizados ou tensionados pelos corpos em movimento.
5 CONCLUSÃO
Ao retomar as lacunas apontadas por Guidetti, este artigo sustenta que o caminhar, assumido como prática investigativa, promove deslocamentos relevantes nas pesquisas sobre corpo e práticas corporais na Educação Física. Ao operar segundo uma lógica transurbante8, nos termos de Careri (2013), o caminhar tensiona a tendência centrípeta das investigações, conduzindo o pesquisador para além dos centros consolidados do urbano e, mesmo quando permanece neles, instigando a travessia de limites, divisas e zonas pouco visíveis. Esses atravessamentos não são apenas espaciais, mas também epistemológicos, pois ao experimentar os limites urbanos, o investigador confronta os limites de seus próprios esquemas analíticos e de suas perguntas iniciais.
Ao afirmar o caminhar como método situado, corporificado e reflexivo, a investigação responde à baixa incidência de estudos baseados em experiências diretas, reinscrevendo o corpo em movimento como operador central de leitura e produção de conhecimento sobre a cidade. Assim, o caminhar reposiciona a própria prática investigativa, abrindo a Educação Física a modos de conhecer que se constroem no percurso, na exposição ao território e na recusa de centralidades espaciais e metodológicas previamente estabilizadas. Nesse sentido, o caminhar funciona menos como método a ser replicado e mais como matriz analítica a partir da qual outras práticas corporais urbanas podem ser investigadas enquanto efeitos e produtoras de regimes urbanos de sensibilidade, tempo e uso legítimo do espaço.
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FINANCIAMENTO
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.
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COMO REFERENCIAR
CARNEIRO, Gustavo Marchetti Corrêa; GOMES, Ivan Marcelo. Caminhar, desacelerar, perder-se: notas para uma metodologia situada das práticas corporais urbanas. Movimento, v. 32, p. e32045, jan./dez. 2026. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.153455.
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1
Parte deste trabalho será utilizado na seção metodológica da tese Divisas sensíveis: Corpo e espaço público na cidade neoliberal, inscrita no Programa de Pós-Graduação em Educação Física-UFES.
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2
HEIDEGGER, Martin. A época da imagem do mundo. In: SCHNEIDER, Paulo Rudi. O outro pensar: sobre que significa pensar? e A época da imagem do mundo, de Heidegger. Ijuí: Editora Unijuí, 2005.
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Essa noção é também desenvolvida em seus outros dois livros que compõem a trilogia Sennettiana sobre o Homo Faber: O Artífice (2008) e Juntos: Os rituais, os prazeres e a política da cooperação (2019). No primeiro título analisa a relação com a resistência dos materiais que o artífice articula em sua forja, no segundo, a resistência que se encontra nas relações sociais, forjando rituais de sociabilidade.
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Os situacionistas (1957-1972) propuseram a deriva como prática de deslocamento sem finalidade utilitária, orientada pelas ambiências e afetos do território, como gesto crítico ao urbanismo funcional. A referência a eles, neste artigo, reconhece sua contribuição histórica para pensar o caminhar como experiência e crítica do espaço urbano (Careri, 2013).
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Buscamos aqui dialogar com abordagens que entendem o deslocamento corporal como forma de captação do urbano a partir da experiência encarnada, na qual percepção, afeto e memória operam como dispositivos metodológicos centrais para apreender dinâmicas invisibilizadas pelas leituras funcionalistas da cidade. No campo da Educação Física, destacamos o trabalho do Grupo PES, da Colômbia (Moreno Gómez, 2016).
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Procedimentos análogos são descritos por um grupo de pesquisa da Universidad Nacional de La Plata, que desenvolve metodologias de investigação baseadas em deslocamentos corporais pela cidade, combinando caminhadas exploratórias, registros narrativos e visuais, elaboração de mapas de percurso e a coleta de indicadores simples de tempo, frequência e intensidade dos movimentos, articulando descrição sensível e sistematização analítica sem reduzir a experiência urbana a métricas abstratas (cf. Cachorro et al., 2013)
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Essa compreensão da cidade como produção contínua de sentidos no ato de caminhar aproxima-se da metodologia desenvolvida pelo grupo Gepech, que concebe o caminhar como prática gnosiológica, articulando deslocamento corporal, leitura do espaço urbano e criação coletiva de percursos como formas de produção de conhecimento, nas quais gestos, ritmos, escolhas de rota e modos de permanência são tratados como operadores analíticos centrais da investigação (cf. Leite; Della Fonte, 2022).
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A transurbância, conceito desenvolvido por Francesco Careri, designa o atravessamento da cidade e de seus limites como prática estética, política e cognitiva. Trata-se de um caminhar que não busca destinos definidos, mas que se orienta pela travessia de territórios residuais, marginais ou intersticiais, frequentemente excluídos do planejamento urbano e das narrativas oficiais da cidade. Ao deslocar o foco dos centros consolidados para as zonas de passagem, a transurbância produz uma leitura do urbano a partir da experiência direta do corpo em movimento, revelando camadas históricas, sociais e simbólicas que escapam à cartografia funcional. Mais do que um método formal, Careri propõe a transurbância como um dispositivo crítico que reinscreve o caminhar como gesto de conhecimento e de resistência às formas hegemônicas de ordenação do espaço.
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REFERÊNCIAS
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RESPONSABILIDADE EDITORIAL
Alex Branco Fraga*, Elisandro Schultz Wittizorecki*, Mauro Myskiw*, Raquel da Silveira** Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Porto Alegre, RS, Brasil.
