Resumo
O estudo analisou as percepções de crianças e de seus responsáveis sobre a participação na Colônia de Férias Social “Se Essa Rua Fosse Minha”, fundamentada exclusivamente em jogos e brincadeiras tradicionais. Com abordagem qualitativa e de caráter descritivo, participaram da pesquisa 46 crianças, entre 4 e 12 anos, e 30 responsáveis, que responderam a questionários aplicados ao final da colônia. A análise de conteúdo das respostas infantis revelou cinco categorias: alegria e diversão; expectativa e encantamento; valorização dos educadores; aprendizados e descobertas; e medos e receios. Os responsáveis destacaram o brincar como prática promotora de estímulos motores, cognitivos, emocionais e sociais, além de reconhecer a colônia como espaço de amadurecimento e pertencimento. Os dados evidenciam as potencialidades do brincar como prática cultural, promotora de vínculos, desenvolvimento integral e justiça social, especialmente em contextos de vulnerabilidade. Conclui-se que iniciativas como essa ampliam o acesso ao lazer, resgatam valores comunitários e fortalecem a formação cidadã de crianças e suas famílias.
Palavras-chave
Pesquisa Qualitativa; Desenvolvimento infantil; Vulnerabilidade social; Cidadania
Abstract
The study analyzed the perceptions of children and their guardians regarding their participation in the Social Holiday Camp “If This Street Were Mine”, based exclusively on traditional games. Using a qualitative and descriptive approach, the research involved 46 children aged 4 to 12 and 30 guardians who responded to questionnaires at the end of the camp. Content analysis of children's responses revealed five categories: joy and fun; expectation and enchantment; appreciation for the educators; learning and discoveries; and fears and concerns. Guardians emphasized play as a practice that promotes motor, cognitive, emotional, and social development, recognizing the camp as a space for growth and belonging. The data highlight the potential of play as a cultural practice that fosters bonding, holistic development, and social justice—especially in vulnerable contexts. The study concludes that initiatives like this can expand access to leisure, rescue community values, and strengthen the civic formation of children and their families.
Keywords
Qualitative Research; Child Development; Social Vulnerability; Citizenship
Resumen
El estudio analizó las percepciones de los niños y sus tutores sobre su participación en el Campamento Social de Verano "Se Essa Rua Fosse Minha", centrado exclusivamente en juegos y actividades tradicionales. Mediante un enfoque cualitativo y descriptivo, participaron 46 niños de 4 a 12 años y 30 tutores, quienes completaron cuestionarios al final del campamento. El análisis de contenido de las respuestas de los niños reveló cinco categorías: alegría y diversión; anticipación y encanto; aprecio por los educadores; aprendizaje y descubrimientos; y miedos y preocupaciones. Los tutores destacaron el juego como una práctica que promueve la estimulación motora, cognitiva, emocional y social, además de reconocer el campamento como un espacio de maduración y pertenencia. Los datos resaltan el potencial del juego como práctica cultural, fomentando vínculos, el desarrollo integral y la justicia social, especialmente en contextos vulnerables. La conclusión es que iniciativas como esta amplían el acceso al ocio, recuperan los valores comunitarios y fortalecen el desarrollo cívico de los niños y sus familias.
Palabras clave
Investigación Cualitativa; Desarrollo Infantil; Vulnerabilidad Social; Ciudadanía
1 INTRODUÇÃO
A diminuição do brincar entre crianças, especialmente na rua, é um fenômeno cada vez mais comum em muitos contextos urbanos (Silva, 2023). Esse declínio pode ser atribuído a diversos fatores, sendo a urbanização e a falta de segurança alguns dos principais. À medida que as cidades crescem e se tornam mais densas, os espaços antes destinados ao lazer e brincadeiras ao ar livre são substituídos por edifícios, estradas e outras infraestruturas urbanas (Doherty; Forés Miravalles, 2019; Godoy; Zaim-de-Melo, 2024).
Além disso, o aumento da violência e da criminalidade em muitos centros urbanos faz com que os pais se sintam inseguros ao deixar seus filhos brincarem na rua. O medo de acidentes e outros perigos reduz significativamente as oportunidades para brincadeiras ao ar livre, levando as famílias a restringirem as atividades das crianças a ambientes internos ou controlados (Godoy; Zaim-de-Melo, 2024).
Assim, a ausência da prática de jogos e brincadeiras na infância pode acarretar consequências significativas no desenvolvimento das crianças, afetando áreas cruciais como socialização, motricidade e cognição (Aarts et al., 2010; Bodrova; Leong, 2005). Estudos elucidam que a prática de jogos e brincadeiras pode gerar influência positiva na socialização entre as crianças, auxiliar nas habilidades motoras fundamentais e contribuir para o desenvolvimento da atenção, memória e funções executivas (Cordazzo; Vieira, 2007; Nascimento et al., 2023; Sattelmair; Ratey, 2009).
Gomes (2014) considera o lazer como parte integrante da cultura local, carregando significados próprios e manifestando-se de formas diversas no cotidiano, seja por meio do cinema, de mostras culturais, de atividades sociais ou corporais. Nesse contexto, o lazer não deve ser limitado à ideia de “tempo restante” ou visto apenas como algo a ser feito na ausência de uma ocupação laboral. Essa compreensão se articula com as reflexões de Huizinga (1980), que aponta que, ao longo da vida, atividades como o jogo ou o lazer podem ser inferiorizadas por não gerarem valor dentro da lógica produtiva do trabalho.
Entretanto, ambos os autores convergem ao destacar que o lazer constitui uma dimensão fundamental da experiência humana, favorecendo processos de expressão cultural e desenvolvimento humano. Essa concepção é reforçada pela Constituição Federal de 1988, que reconhece o lazer como direito social (Brasil, 1988) e estabelece o compromisso do Estado em incentivar práticas corporais (Brasil, 1988), evidenciando seu papel na garantia da cidadania e na promoção da qualidade de vida.
Ademais, é por meio de jogos e brincadeiras que as crianças se adaptam à cultura existente, constroem suas próprias realidades e culminam sua própria linguagem (Santos; Araújo; Santos, 2022). Isso se evidencia no fato de que as definições de jogos e brincadeiras são frequentemente voláteis, uma vez que, para diversos autores, elas dependem dos contextos culturais e linguísticos nos quais estão inseridas. Assim, jogos e brincadeiras são compreendidos como fenômenos culturais, cujas formas e significados variam conforme as particularidades de cada sociedade (Brougère, 1998; Freire, 2017; Kishimoto, 2011).
No entanto, o conceito de jogos tradicionais é o único que pode ser considerado invariável, já que toda sociedade apresenta seus costumes, tradições, valores e formas de expressão cultural que moldam a maneira como seus membros se relacionam, educam, comunicam e interpretam o mundo ao seu redor. Diante disso, de acordo com Brasil (2008), os jogos tradicionais são o legado da antiguidade para a criança moderna.
Para o autor, o termo “jogos tradicionais” refere-se àqueles que precedem o conceito de modernidade, uma vez que, no passado, o brincar era uma prática compartilhada entre adultos e crianças, sem distinções ou julgamentos. No entanto, com a ascensão de uma nova representação social do trabalho, o brincar passou a ser associado ao ócio, o que, por sua vez, fez com que perdesse sua relevância à medida que deixou de ser visto como uma atividade válida no contexto capitalista (Brasil, 2008; Huizinga, 1980).
Neste sentido, estratégias a partir do brincar de forma segura e espaços para as crianças interagirem por meio de atividades lúdicas são importantes para o universo infantil. Uma das estratégias que tem crescido cada vez mais é a oferta de colônias de férias (D’Haese et al., 2015).
Para Ribeiro (2023), uma Colônia de Férias (CF) é entendida como um conjunto organizado de atividades recreativas oferecidas por instituições como universidades, clubes, escolas e condomínios. Essas práticas são destinadas a grupos específicos, definidos de acordo com os objetivos do programa, e conduzidas por profissionais das áreas de Educação Física, Turismo, e áreas afins, sobretudo durante os períodos de férias e recesso escolar. A autora também apresenta o conceito de Colônia de Férias Temática (CFT), caracterizada pela realização de atividades variadas desenvolvidas a partir de um tema central. Dessa forma, jogos, brincadeiras, cantigas, produções artísticas e manifestações culturais devem ser planejados de modo a dialogar com esse eixo temático. Por fim, Ribeiro destaca que a finalidade principal de uma CF é promover experiências prazerosas e satisfatórias aos participantes.
As colônias de férias oferecem um ambiente seguro e controlado onde as crianças podem participar de diversas atividades recreativas, esportivas e educativas. Essas atividades não apenas promovem o desenvolvimento motor e cognitivo, mas também facilitam a socialização, permitindo que as crianças formem novas amizades e aprendam a trabalhar em equipe (Flynn et al., 2014). Além disso, essas colônias podem contribuir para a redução do tempo de exposição às telas, incentivando o contato com a natureza e a prática de atividade física (Tan et al., 2024).
Assim, segundo Ramos et al. (2023, p. 136), a vivência de profissionais em diferentes colônias de férias despertou interesse em compreender melhor os distintos perfis do público atendido. A autora aponta que, em colônias voltadas para crianças de classes sociais mais altas, eram frequentes as queixas sobre as atividades e os lanches oferecidos. Em contrapartida, participantes de contextos sociais mais vulneráveis geralmente demonstravam entusiasmo e gratidão, independentemente do tipo de programação realizada.
Diante disso, um grupo de profissionais decidiu desenvolver uma colônia de férias com caráter social, conduzida por voluntários e fundamentada exclusivamente em jogos tradicionais. Assim nasceu a primeira edição da colônia de férias "Se Essa Rua Fosse Minha", que atendeu 110 crianças, com idades entre 3 e 13 anos, proporcionando uma semana gratuita de convivência comunitária e valorização da cultura lúdica, com foco no resgate das brincadeiras infantis e na promoção de vínculos sociais e familiares para crianças em situação de vulnerabilidade (Ribeiro, 2023).
Ademais, as devolutivas de acadêmicos e profissionais que participaram da colônia de férias “Se Essa Rua Fosse Minha” evidenciaram sentimentos de satisfação diante da alegria das crianças e dos retornos positivos recebidos. Os participantes relataram que a experiência contribuiu significativamente para sua formação cidadã e profissional, reforçando o compromisso com a responsabilidade social e a valorização do voluntariado. Tais percepções demonstram que o impacto da colônia vai além das crianças, alcançando também os voluntários envolvidos (Ferraz et al., 2022).
Assim, verificar a percepção das crianças e dos responsáveis sobre a participação em colônias de férias permite entender o impacto dessas atividades no desenvolvimento infantil e no bem-estar familiar. As opiniões das crianças oferecem insights sobre suas preferências e atividades mais envolventes, enquanto a avaliação dos responsáveis sobre segurança, organização e benefícios ajuda a aprimorar o programa e a avaliar sua vivência.
Posto isto, o objetivo da presente pesquisa foi analisar a percepção de crianças e a opinião de suas famílias sobre a participação da Colônia de Férias Social: “Se Essa Rua Fosse Minha”.
2 METODOLOGIA
O presente estudo adotou uma abordagem qualitativa. Segundo Chizzotti (2018), essa abordagem se baseia na relação entre o sujeito e o objeto, sendo que essa relação é caracterizada pela dinâmica e interdependência. O observador-sujeito faz parte integrante do processo de conhecimento e interpreta os fenômenos, atribuindo-lhes significado. Neste sentido, a abordagem qualitativa apresentou finalidade de compreender os fenômenos estudados em seu contexto social e cultural, levando em consideração a subjetividade dos indivíduos envolvidos e a complexidade das interações sociais (Minayo, 2017).
Quanto aos objetivos, tratou-se de uma pesquisa descritiva, que visa compreender as percepções e descrever fenômenos, situações ou comportamentos, sem manipulação ou controle das variáveis. Nesse sentido, buscamos captar as características e os significados atribuídos pelos participantes ao fenômeno estudado, oferecendo uma visão detalhada e contextualizada do seu cotidiano (Silveira; Córdova, 2009).
Participaram da colônia de férias 120 crianças de baixa renda e 30 responsáveis pelas crianças participantes, no entanto, apenas 46 crianças e 26 responsáveis responderam efetivamente aos questionários enviados.
Os participantes da pesquisa são 46 crianças, com idades entre 4 e 12 anos. As crianças que participaram da pesquisa estavam matriculadas na Colônia de Férias Social “Se Essa Rua Fosse Minha”, que ocorreu na Universidade Católica de Brasília.
As famílias foram selecionadas por meio do preenchimento do questionário socioeconômico da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa1. Após essa seleção, os recreadores voluntários foram convocados por meio de divulgação na Universidade Católica e redes sociais. Os recreadores, em sua maioria, possuíam experiência prévia com colônias de férias e tinham afinidade pelo público infantil. Antes da realização da colônia, foi realizado um treinamento para conhecimento da estrutura de coleta de dados, programação e necessidades da colônia.
O instrumento de coleta de dados utilizado no estudo foi o questionário. Neste sentido, utilizamos um questionário via Google Forms, enviado ao final da Colônia de Férias Social “Se Essa Rua Fosse Minha”. O questionário tinha como finalidade avaliar as percepções e opiniões das crianças e seus familiares sobre a vivência na colônia de férias. Algumas perguntas realizadas no questionário foram:
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Se houvesse outra edição desta Colônia de Férias, você inscreveria sua criança novamente?
-
Você esteve presente no Dia da Família? Defina a experiência por meio de 3 palavras.
-
Em sua opinião, qual a importância da brincadeira para o desenvolvimento de sua(s) criança(s)?
A análise de dados qualitativos utilizada para avaliar o questionário foi a análise de conteúdo de Bardin (Bardin, 1977). A análise de conteúdo é uma técnica de análise que tem como finalidade compreender as mensagens contidas em diferentes formas de comunicação, utilizando procedimentos sistemáticos e objetivos. Neste estudo, a utilização da Análise de Conteúdo foi dividida em três etapas: 1) Pré-análise: nesta etapa, realizamos a leitura flutuante do material para familiarização com os dados. Também ocorre a constituição do corpus, ou seja, a organização do conjunto de dados a ser analisado, e a formulação de hipóteses que direcionarão o processo de análise. 2) Exploração do material: Nessa fase, o foco foi identificar e categorizar as unidades de sentido presentes no conteúdo. A busca por categorias ajudou a organizar e sistematizar as informações, permitindo uma análise mais detalhada. 3) Tratamento dos resultados obtidos e interpretação: Por fim, os resultados foram tratados por meio da elaboração de inferências e interpretações. Esse processo envolveu a construção de significados a partir dos dados, possibilitando a extração de conclusões que respondam às questões de pesquisa (Bardin, 1977).
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A partir da análise de conteúdo, foi realizada a categorização e subcategorização de padrões identificados por meio das respostas de perguntas abertas dos formulários.
De acordo com as respostas das crianças, as características das categorias foram divididas considerando a relação emocional, afetiva e cognitiva das crianças com o projeto e os educadores. Já as unidades de contexto refletem a padronização de termos e opiniões similares, por exemplo, na unidade de contexto de Alegria e Diversão, consideramos respostas que apresentam termos como: diversão; legal; feliz; dentre outros. Por fim, as unidades de registro representam as respostas íntegras das crianças.
Para categorizar as respostas, foi realizado um quadro em que foi feita a análise de termos e organização de acordo com a unidade de contexto apropriada.
Como apresentado no quadro 1, para avaliar a opinião das crianças após a colônia de férias, as categorias foram elencadas em: Alegria e Diversão; Apreciação pelos Educadores; Encantamento e Expectativa; Medos e Receios; e Aprendizado e Descobertas.
Ao todo, foram computadas 46 respostas, em que 30 famílias responderam aos questionários. Das 30 famílias, 11 levaram até duas crianças e cinco levaram até três crianças. Dentre as unidades de contexto, a que mais obteve ocorrências foi a de “Expectativa e encantamento” com um total de 22 respostas. Nessa unidade, foram consideradas a expectativa das crianças em relação ao projeto e sua satisfação após sua participação. Abaixo, podem-se conferir os comentários de algumas crianças, com suas identidades preservadas, representadas pela letra “C”.
C1 - Adorei!
C2 - Amei!
C3 - Quero mais!
Aliado à unidade de expectativa e encantamento, encontra-se a segunda unidade de contexto com mais respostas, que foi a de “Alegria e Diversão” com 11 respostas. Nessa categoria, a padronização de respostas se fez por meio da relação das crianças com as atividades realizadas durante a colônia de férias. Na categoria de “Expectativa e Encantamento”, verificamos o estado pós-atividade das crianças, já na categoria de “Alegria e Diversão", verificamos seus sentimentos durante o projeto.
C4 - Gostei! Divertido, muito animado!
C5 - Amei! Foi divertido, pura diversão!
C6 - Emocionante! Máximo! Muito divertido!
Os dados apresentados revelam a potência do brincar sob o ponto de vista das próprias crianças, confirmando a relevância das atividades propostas na colônia. Nesse sentido, Nicholson et al. (2014) realizaram um estudo avaliando a percepção de crianças entre 3 e 11 anos em relação ao brincar ao longo da vida. Demonstraram-se não apenas os benefícios do brincar para as crianças, mas também a consciência que elas possuem sobre seus efeitos sociais, emocionais e físicos. O estudo reforça que a opinião das crianças, os verdadeiros especialistas em brincar, deve ser considerada para pesquisas e práticas pedagógicas. Assim, os resultados obtidos nesta pesquisa, ao escutar diretamente as percepções infantis sobre a colônia “Se Essa Rua Fosse Minha”, corroboram essa visão, reforçando a importância de incluir suas vozes na avaliação de propostas lúdicas voltadas ao desenvolvimento infantil.
Para Vygotsky (1987), o ato de brincar favorece as relações sociais da criança, além de proporcionar experiências de vida significativa e amadurecimento pessoal. Para o autor, até certa idade, a criança, ainda que realize tarefas sozinhas, necessita do apoio de outra pessoa mais experiente, frisando a importância das interações sociais e da aprendizagem significativa. Por outro lado, em outra etapa de seu desenvolvimento, esse apoio de outrem se faz desnecessário, de forma que, se houver, pode atrasar não só o amadurecimento da criança como sua capacidade de autonomia.
Durante as atividades da colônia, as crianças puderam desfrutar de atividades guiadas, cooperativas entre as próprias crianças e atividades com suas famílias. Dessa forma, o ato de brincar pôde ser explorado por diversas esferas de ação, possibilitando o desenvolvimento integral das crianças (Cotonhoto; Rossetti; Missawa, 2019).
Durante a colônia de férias “Se essa rua fosse minha”, foram realizadas apresentações de dança, palhaçaria, gincanas em família, brincadeiras com água, jogos tradicionais, entre outros elementos aliados ao lúdico e ao ato de brincar. Brougére (1998) afirma que jogos e brincadeiras têm o potencial de transformar a experiência humana como um todo, tornando o ambiente seguro para que os indivíduos se expressem autenticamente, reflitam sobre si mesmos e desenvolvam competências.
A terceira unidade de contexto com mais respostas foi a de “Apreciação pelos educadores” com seis respostas. Nessa categoria, foi avaliada a forma como as crianças se sentiram em relação aos educadores durante a colônia.
C7 - Gostei das tias e dos tios!
Brincar, além de ser uma ferramenta para o desenvolvimento integral de crianças, também pode se apresentar como um facilitador de vínculos emocionais. Para Piaget (2012), aborda que, durante os seis primeiros anos de vida, a criança tende a ser egocêntrica e a enxergar o mundo apenas para si própria. Dessa forma, iniciativas como colônias de férias e contraturnos escolares podem ser opções para estimular o desenvolvimento social e altruísmo das crianças.
Para Kishimoto (2011), o ato de brincar sozinho ou com um brinquedo pode moldar a identidade da criança e favorecer sua capacidade de enxergar além de si. Para a autora, o ato de brincar representa uma identidade, seja da sociedade em que aquela brincadeira está inserida, seja da criança que brinca aquela brincadeira ou do adulto que desenvolveu a brincadeira, e isso abrange os campos como o jogo e o brinquedo.
Com isso, os professores, educadores, facilitadores apresentam um papel fundamental na integração e contemplação de atividades como jogos e brincadeiras. Esses autores podem ser considerados fatores externos motivacionais (Alencar; Fleith, 2003; Amabile, 1996) para que se ative na criança sua vontade não só pelas atividades, mas pelas pessoas envolvidas, e assim, podendo inviabilizar seus medos e receios, além de poder absorver os benefícios de atividades lúdicas, recreacionais e pedagógicas, como jogos e brincadeiras.
A quarta unidade de contexto foi a de “Aprendizados e Descobertas” com apenas duas respostas. Ainda que comparada às outras categorias, apresente poucas respostas, isso não descaracteriza ou inferioriza esta categoria. Nessa unidade, foram computadas respostas como:
C8 - Descobertas!
C9 - Incrível, muito aprendizado.
Ainda que o foco da colônia de férias “Se essa rua fosse minha” fosse primordialmente de caráter recreativo, algumas crianças relataram aprender novas habilidades motoras, além de serem desafiadas a usar sua imaginação e criatividade para solucionar problemas. Com isso, pode-se destacar o motivo pelo qual pesquisas têm apontado jogos e brincadeiras como ferramentas de estimulação cognitiva, favorecendo o aprimoramento da memória, atenção, concentração, resiliência e por fim, sua inteligência emocional, podendo impactar na forma como lida com situações cotidianas e possíveis frustrações (Cotonhoto; Rossetti; Missawa, 2019; Koeners; Francis, 2020; Souza et al., 2021; Stanmore et al., 2017).
3.1 OPINIÃO DOS RESPONSÁVEIS SOBRE A IMPORTÂNCIA DE JOGOS E BRINCADEIRAS PARA O DESENVOLVIMENTO DE CRIANÇAS
Como apresentado no quadro 2, para avaliar a opinião dos responsáveis após a colônia de férias, as categorias foram divididas em: desenvolvimento motor; desenvolvimento cognitivo; desenvolvimento emocional; desenvolvimento social; e a conexão das atividades e objetivos do projeto em relação às experiências de vida e aprendizagens.
Opinião dos responsáveis sobre a importância de jogos e brincadeiras para o desenvolvimento de crianças
Ao todo, foram 24 respostas baseadas em categorias que avaliam a opinião dos responsáveis das crianças sobre a importância do ato de brincar para o desenvolvimento infantil. Dentre as categorias, foram divididas cinco unidades de contexto, sendo elas: “Desenvolvimento motor”; “Desenvolvimento cognitivo”; “Desenvolvimento social”; “Desenvolvimento emocional" e “Experiência de vida e crescimento”.
De acordo com os relatos dos pais e responsáveis, a importância de jogos e brincadeiras para o desenvolvimento infantil foi condizente e contribuiu de diferentes formas com suas crianças. Fosse pela oportunidade de socializar e criar vínculos, tal qual ampliar seu conhecimento e flexibilidade para com antigos hábitos, como o alimentar ou o uso do celular. Para Elbeltagi et al. (2023), o ato de brincar favorece a socialização, dentre outras áreas de desenvolvimento, e pode ser uma ferramenta para proporcionar um espaço seguro para que crianças com dificuldades de socialização ou habilidades motoras possam se expressar confortavelmente. Abaixo, podem-se conferir os comentários de alguns pais e responsáveis, com suas identidades preservadas, representados pela letra “P”.
P1 - Ela aprende a socializar e conhecer novas pessoas.
P2 - Ajuda na socialização e trabalho em grupo.
P3 - Importante para o desenvolvimento motor, psicológico.
Ainda sobre a consideração dos pais sobre a importância de jogos e brincadeiras no desenvolvimento infantil, o que mais se destacou dentre os relatos foi a capacidade de socialização por meio dessas atividades. Com isso, destacou-se pelos relatos dos responsáveis que o ato de brincar e o meio favorável para se expressar favoreceu a conscientização social, respeito ao próximo e a regras. Além disso, o ato de brincar pode favorecer a autoexpressão, inteligência emocional e funções cognitivas (Berger et al., 2018; Brito-Gomes et al., 2020; Proyer, 2014; Proyer et al., 2018). Características essas primordiais para o convívio em sociedade, assim, pode-se dizer que jogos e brincadeiras auxiliam no desenvolvimento de cidadãos.
P4 - A brincadeira é o principal mecanismo de desenvolvimento da criança em diversas esferas.
P5 - De grande importância. Sabemos que é brincando que a criança aprende as maiores lições da vida.
P6 - Importante para o desenvolvimento e crescimento como pessoa.
3.2 OPINIÃO DOS RESPONSÁVEIS EM RELAÇÃO À COLÔNIA DE FÉRIAS “SE ESSA RUA FOSSE MINHA”
Como apresentado no quadro 3, para avaliar a opinião dos responsáveis em relação às novas edições, as categorias foram divididas em melhorias estruturais e preparação dos profissionais envolvidos, como monitores e coordenadores.
Ao todo, foram 26 respostas que abordaram as avaliações dos responsáveis pela colônia de férias “Se essa rua fosse minha” e a equipe organizadora para com o projeto. Embora muitos relatos apresentem apenas agradecimentos e pontos positivos em relação à iniciativa, aos educadores e atividades, a logística e divulgação receberam críticas que podem ter influenciado negativamente a participação de algumas famílias. Contudo, ainda que haja críticas, no geral, os relatos e críticas foram, em suma, positivos, e os negativos são passíveis de transformação e melhorias para possíveis próximas edições.
P7 - Obrigado por tudo que fizeram. A minha filha amou.
P8 - Apenas gratidão pela experiência que minha filha teve. Até o momento, não temos condições financeiras de colocá-la em uma colônia de férias, então isso foi maravilhoso. Poder proporcionar isso para ela não tem preço.
P9 - Eu só tenho a agradecer a iniciativa de vocês, foi muito bom esse período de interação com outras brincadeiras que essa nova geração já quase não brinca. Só gratidão. Muito obrigada pelo carinho e atenção.
Das 30 respostas coletadas de pais e responsáveis pelas crianças participantes da colônia de férias “Se Essa Rua Fosse Minha”, todos afirmaram que, caso houvesse uma nova edição, inscreveriam suas crianças novamente. Esse dado reforça a relevância e o impacto positivo da iniciativa.
A pesquisa permitiu evidenciar não apenas os benefícios que jogos e brincadeiras proporcionam ao desenvolvimento infantil, mas também como uma ação social bem estruturada pode transformar o contexto onde está inserida. A colônia investigou, de forma sensível e profunda, cada etapa de uma iniciativa voltada ao bem coletivo, considerando a perspectiva das crianças (protagonistas da experiência), a visão de seus responsáveis e o olhar daqueles que atuaram na realização da colônia, contribuindo para torná-la uma vivência leve, afetiva e divertida. Além disso, por meio das avaliações, é possível corrigir e buscar melhorias para as próximas edições.
Quanto às limitações da pesquisa, não foi possível extrapolar as perguntas realizadas para as crianças e seus responsáveis, abrangendo um escopo mais amplo em relação à brincadeira, como, por exemplo, atividades do contexto das crianças, seu tempo em jogos e brincadeiras para além da escola. Também não foi possível avaliar as percepções dos pais quanto aos benefícios para a saúde, dentro de seu contexto, nem como são oportunizadas as ofertas de jogos e brincadeiras.
Dessa forma, esta pesquisa contribui para o fortalecimento de iniciativas com foco social, incentivo à atividade física, valorização dos jogos e brincadeiras tradicionais e promoção do desenvolvimento infantil. Além disso, estimula a criação de novas oportunidades e amplia o diálogo entre a prática e a produção científica nesse campo.
4 CONCLUSÃO
O objetivo da presente pesquisa foi analisar a percepção de crianças e as opiniões de suas famílias sobre a participação da Colônia de Férias Social: “Se Essa Rua Fosse Minha”. Assim, por meio desta pesquisa, foi possível avaliar a visão das crianças que participaram ativamente da colônia de férias, bem como dos responsáveis que acompanharam indiretamente, além da percepção desses dois grupos em relação à coordenação do projeto e aos responsáveis pela organização e logística.
A partir disso, foi possível coletar informações valiosas para estabelecer novos parâmetros de qualidade em projetos como esse, além da visão daqueles que não estão ativamente envolvidos na estrutura de uma colônia de férias, mas podem ser impactados por ela de forma indireta.
A experiência da colônia de férias social abre caminhos promissores para pesquisas futuras. Um dos principais eixos de investigação refere-se ao impacto aprofundado de jogos e brincadeiras tradicionais no desenvolvimento global de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social, considerando aspectos emocionais, sociais, motores e cognitivos. Outro campo relevante a ser explorado diz respeito aos efeitos formativos dessa vivência na trajetória de profissionais em formação nas áreas da saúde e da educação, especialmente no que tange ao fortalecimento do compromisso cidadão e da atuação empática voltada para a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva.
Por fim, destaca-se a importância de investigar o papel de iniciativas como essa na redução das desigualdades de acesso ao lazer e à cultura entre populações de baixa renda. Compreender os efeitos da ampliação do acesso a experiências lúdicas e educativas pode oferecer subsídios relevantes para o fortalecimento de políticas públicas orientadas à equidade social e à garantia do direito ao lazer.
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FINANCIAMENTO
O presente trabalho foi realizado com apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa (FAP-DF): 00193-00001156/2021-94.
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ÉTICA DE PESQUISA
A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética de Pesquisa (CEP) da Universidade Católica de Brasília, protocolo 19888219.3.0000.0029.
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COMO REFERENCIAR
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ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EMPRESAS DE PESQUISA. São Paulo, 2012. Disponível em: https://abep.org/criterio-brasil/ Acesso em: 15 jul. 2025
DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.
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RESPONSABILIDADE EDITORIAL
Alex Branco Fraga* https://orcid.org/0000-0002-6881-1446Elisandro Schultz Wittizorecki* https://orcid.org/0000-0001-7825-0358Mauro Myskiw* https://orcid.org/0000-0003-4689-3804Raquel da Silveira* https://orcid.org/0000-0001-8632-0731* Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Porto Alegre, RS, Brasil.
