Open-access Educação física, desporto e hedonismo: um diálogo com Inezil Penna Marinho

Educación física, deporte y hedonismo: un diálogo con Inezil Penna Marinho

Resumo

O objetivo deste ensaio é refletir sobre a atualidade de ideias de Inezil Penna Marinho acerca do modo como se relacionam educação física, desportos e hedonismo na sociedade contemporânea. A pesquisa que resultou neste ensaio é de caráter teórico e a metodologia empregada é de cunho essencialmente bibliográfico. Como resultados, foram identificadas pelo menos duas acepções de hedonismo, uma das quais, no texto de Marinho (1984), se vincula à tradição filosófica que remonta a Epicuro. É nessa acepção de hedonismo, com seus desdobramentos na psicologia e na pedagogia modernas, que se fundamenta filosoficamente o conceito e a função da educação física e dos desportos. Embora não houvesse suspeitado de fenômenos relativos ao desenvolvimento da internet e do mundo digital, Marinho (1984) cultivou uma sensibilidade capaz de compreender importantes relações entre filosofia, educação física e desportos na contemporaneidade, de modo que algumas de suas ideias permanecem atuais no século XXI.

Palavras-chave
Filosofia; Prazer; Sofrimento; Dor

Abstract

The aim of this essay is to reflect on the relevance of Inezil Penna Marinho's ideas concerning the relationship between physical education, sports, and hedonism in contemporary society. The research that led to this essay is theoretical in nature, and the methodology employed is essentially bibliographic. As a result, at least two meanings of hedonism were identified, one of which, in Marinho's (1984) text, is linked to the philosophical tradition that dates back to Epicurus. It is in this sense of hedonism—along with its developments in modern psychology and pedagogy—that the concept and function of physical education and sports are philosophically grounded. Although he could not have foreseen phenomena related to the development of the internet and the digital world, Marinho (1984) demonstrated a sensitivity capable of grasping important connections between philosophy, physical education, and sports in contemporary times, thus allowing some of his ideas remain relevant in the 21st century.

Keywords
Philosophy; Pleasure; Suffering; Pain

Resumen

El objetivo de este ensayo es reflexionar sobre la actualidad de las ideas de Inezil Penna Marinho en relación con el modo en que se vinculan la educación física, los deportes y el hedonismo en la sociedad contemporánea. La investigación que dio lugar a este ensayo es de carácter teórico y la metodología empleada es esencialmente bibliográfica. Como resultado, se identificaron al menos dos acepciones del hedonismo, una de las cuales, en el texto de Marinho (1984), se relaciona con la tradición filosófica que se remonta a Epicuro. Es en esta acepción del hedonismo —con sus desarrollos en la psicología y la pedagogía modernas— donde se fundamentan filosóficamente el concepto y la función de la educación física y los deportes. Aunque no previó fenómenos relacionados con el desarrollo de internet y el mundo digital, Marinho (1984) cultivó una sensibilidad capaz de comprender importantes relaciones entre filosofía, educación física y deportes en la contemporaneidad, de modo que algunas de sus ideas siguen siendo actuales en el siglo XXI.

Palabras clave
Filosofía; Placer; Sufrimiento; Dolor

1 INTRODUÇÃO

O livro de Inezil Penna Marinho, intitulado Introdução ao estudo da filosofia da educação física e dos desportos, é relativamente pouco comentado pela contemporânea literatura especializada sobre os fundamentos filosóficos da educação física. Esse fato nos parece sintomático se considerarmos o nosso contexto histórico, marcado pelas muito divulgadas “novas abordagens” ao mesmo tempo em que pouco se reflete mais profundamente sobre um assunto central posto por Marinho (1984) em meados da década de 1980, a saber: a discussão da educação física no seio de uma corrente filosófica-psicológica-pedagógica-sociológica como o hedonismo.

Dada essa escassez de estudos relacionados a essa candente discussão presente em sua obra, elegemos como critério de seleção a relevância filosófica de sua abordagem neste que é um de seus últimos livros publicados antes de seu falecimento. Tratam-se, portanto, de escritos de maturidade, o que lhes confere especial interesse para análises críticas tais como as que aqui, neste ensaio, buscamos desenvolver. Desconhecemos outros estudos do mesmo autor nos quais ele aborda a temática do hedonismo com tanta profundidade e amplidão, conectando-a, inclusive, com os fundamentos filosóficos da educação física e do desporto contemporâneos.

Desde já, é importante destacar que, neste estudo, o sentido da expressão “hedonismo” não é unívoco, podendo ser compreendido tanto em uma acepção histórico-filosófica, que é aquela em que Marinho (1984) se fia para fundamentar filosoficamente a educação física e os desportos, quanto em uma conotação pejorativa, a qual referido autor não ignorava e que, nos dias atuais, vem sobrepujando uma vez mais o seu sentido histórico-filosófico.

Neste ensaio, partindo das considerações de Marinho (1984), contextualizadas em seu devido tempo, consideramos as transformações históricas do hedonismo em direção à era digital e sua relação cultural com a educação física e os desportos. Mas não nos limitamos, porém, a tão-somente reproduzir aqui as linhas gerais da análise deste importante intelectual da educação física brasileira, visto que nos comprometemos com um aprofundamento da questão do hedonismo a partir de uma análise do contexto histórico das primeiras décadas do século XXI. Para tanto, elegemos duas obras com as quais dialogamos a fim de fazer avançar as discussões iniciadas por Marinho (1984), a saber: Sociedade paliativa, do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han (2021), que trata de modo original da maneira relativamente patológica como, na era digital, estamos nos acostumando a lidar com a dor, bem como de uma abordagem acerca de sua função existencial no campo da filosofia, das artes e da cultura; e Nação dopamina, de Anna Lembke (2025), um livro que, não obstante haja rapidamente se tornado um best-seller, traz significativos argumentos e demonstrações científicas acerca de como o prazer, na contemporaneidade, tem-se convertido em um dos principais problemas culturais de diversas sociedades. Ambas essas obras se tornaram célebres em nosso contexto histórico, de modo que julgamos necessário as interpelar em nosso estudo com o intuito de alimentar o debate filosófico no campo da educação física e desportos.

Ora, ao mesmo tempo em que parte significativa da população mundial é arrastada por uma onda interminável de prazeres desnecessários e desmedidos ofertados em cada elemento do hiperespaço do mundo digital, com cada nação e outros contextos regionais experimentando essa submersão de distintas maneiras, a civilização contemporânea, não obstante as desiguais condições de vida presentes nos seis continentes, parece estar tergiversando em relação à centralidade da experiência da dor e do sofrimento para a condição existencial humana, bem como tem pouco debatido filosoficamente em profundidade as questões relacionadas aos projetos biotecnológicos vinculados à problemática do prazer.

Assim sendo, o objetivo deste artigo é refletir criticamente sobre a atualidade das ideias de Marinho (1984) acerca do modo como ele posiciona a relação entre educação física, desportos e hedonismo na sociedade contemporânea. Mais especificamente, busca-se compreender como essa atualidade do pensamento do referido autor impele um exame das hodiernas mutações sociotécnicas pelas quais as sociedades modernas ou em processo de modernização têm passado, sobretudo no que se refere às últimas décadas do século XX e às primeiras décadas do século XXI. Neste ensaio, a expressão “sociedades modernas” representa aquelas nações que experimentaram historicamente amplo e profundo processo de transformação tecnológica da base industrial em diversos setores da economia mundial, tornando-se mais poderosas, por assim dizer, nos âmbitos militar e de comércio global (exemplos: Estados Unidos, China etc.), ao passo que as chamadas sociedades “em processo de modernização” correspondem àquelas nações que se encontram em estágio tecnoindustrial menos avançado, mas que têm buscado, cada uma à sua maneira e com as restrições que o sistema geopolítico vigente impõe, criar condições que reduzam a desigualdade de condições de vida de seus cidadãos.

Para atingir o referido objetivo, o ensaio está metodologicamente dividido em duas etapas. A primeira coincide com a apreciação da abordagem filosófica de Marinho (1984) acerca das relações entre hedonismo, educação física e desportos. Em segundo lugar, passamos a considerar em análise as obras de Han (2021) e Lembke (2025), as quais abordam, além das problemáticas relacionadas ao hedonismo contemporâneo, o modo como o mundo digital tem contribuído com a crescente dificuldade contemporânea de lidarmos com a dor e o sofrimento. Nesse contexto, também é considerada criticamente a apreciação de Marinho (1984) acerca do hedonismo na sociedade de seu tempo, bem como sobre o papel da recreação e dos desportos no cultivo de atividades importantes a serem desfrutadas no tempo de lazer.

Para evitar uma análise comparativa anacrônica entre esses autores, é importante destacar, no desdobramento de nossa exposição, a emergência de transformações sociotécnicas significativas nas aproximadas quatro décadas que separam a obra de Marinho (1984) e os livros de Han (2021) e Lembke (2025) aqui apreciados. Nesse sentido, buscamos explicitar algumas transformações significativas pelas quais esse contexto histórico de quatro décadas passou, sobretudo no que se refere à eclosão da era digital. Assim sendo, conquanto esses três autores houvessem elaborado suas teorizações em circunstâncias históricas e culturais significativamente distintas (abrangendo contextos sul-americano, norte-americano, europeu e do extremo oriente), a temática do prazer e do hedonismo constituiu o nexo que, por meio do cotejo entre seus escritos, permitiu-nos deslindar de certa maneira os fenômenos aqui investigados em sua gênese e apresentar, através de um diálogo com a obra de Marinho (1984), uma atualização de sua contribuição para o nosso atual contexto histórico.

2 EDUCAÇÃO FÍSICA, DESPORTOS E HEDONISMO NA OBRA FILOSÓFICA DE INEZIL PENNA MARINHO

Quando escreveu a obra sobre a qual aqui se fez referência, Marinho (1984) provavelmente estava a par dos desenvolvimentos da microeletrônica, conquanto não houvesse tido a chance de conhecer repercussões da internet e os fenômenos a ela associados. Isso porque o autor faleceu antes do início da década de 1990, um período crucial para o desenvolvimento dos aparatos sociotécnicos que iriam dominar o cenário cultural de nações modernas ou em processo de modernização. Sabe-se que, com a emergência da internet e a proliferação massiva de smartphones, as civilizações contemporâneas passam a experimentar consideráveis mutações socioculturais, de modo que não é mais novidade o discurso segundo o qual se afirma que a inteligência artificial modelará a próxima grande alteração qualitativa técnico-industrial e passará a ser incorporada em todas as dimensões da vida social.

Todavia, através de sua visão histórico-filosófica acerca da educação física e dos desportos, Marinho (1984) demonstrou sensibilidade para captar não apenas a emergência e o desenvolvimento do hedonismo na cultura ocidental – enquanto um movimento que influenciou desde a filosofia antiga até à psicologia, à pedagogia e à sociologia modernas –, como também, de certa forma, assinalou traços de sua exacerbação e consequente corrupção na antiguidade e na contemporaneidade, apontando a importância de programas de educação física e desportos organizados pelo Estado para combater esse estado de decadência. Talvez, em relação a esse último ponto, o autor houvesse decidido resgatar e distinguir o hedonismo histórico do sentido puramente pejorativo associado a diversos usos modernos do termo, conferindo-lhe, a seu modo, uma conotação mais condizente com a interpretação epicurista dessa noção. Mas antes de o fazer, o autor situa essa noção epicurista do papel que o prazer tem na vida humana na esteira do desenvolvimento filosófico ocidental, remontando a discussão naturalmente ao pensamento socrático-platônico. Buscando aprofundar a compreensão da noção historicamente constituída de Hedonismo, destacamos aqui a definição encontrada no Dicionário de Filosofia de Nicola Abbagnano (1998, p. 497):

Termo que indica tanto a procura indiscriminada do prazer, quanto a doutrina filosófica que considera o prazer como o único bem possível, portanto como o fundamento da vida moral. Essa doutrina foi sustentada por uma das escolas socráticas, a Cirenaica, fundada por Aristipo; foi retomada por Epicuro, segundo o qual “o prazer é o princípio e o fim da vida feliz” (DIOG. L., 10, 129). O hedonismo distingue-se do utilitarismo do século XVIII porque, para este último, o bem não está no prazer individual, mas no prazer do “maior número possível de pessoas”, ou seja, na utilidade social.

(Abbagnano, 1998, p. 497).

Conforme veremos no tópico subsequente, as concepções de hedonismo com que Lembke (2025) e Han (2021) trabalham são substancialmente distintas, visto que tendem a expressar com elas atitudes relacionadas ao vício (Lembke, 2025) e à conformação a um paradigma sociocultural emergente, vinculado à determinada ideologia do bem-estar, que conduz os indivíduos a considerarem a dor como um escândalo (Han, 2021). No que se refere à essa concepção de Lembke (2025), Marinho (1984) dela se aproxima quando utiliza o conceito de hedonismo em sentido pejorativo, e não enquanto doutrina filosófica, atribuindo, por exemplo, aos romanos a culpa pelo descrédito em que o hedonismo filosófico se afundou em outros períodos da história. Essa capacidade filosófica de Marinho (1984) empregar o conceito em sentidos tão distintos confere à sua obra uma complexidade com a qual seu leitor precisa se acautelar.

Todavia, a influência do Hedonismo, entendido enquanto específica doutrina filosófica originada na Grécia Antiga influenciou diversas escolas de pensamento da Idade Moderna (o utilitarismo do século XVIII foi uma delas, conforme apontado na definição de Abbagnano), segundo doravante veremos. Por agora, a esse respeito, basta que nos lembremos dos influxos do Hedonismo sobre a filosofia daquele que, para muitos, é considerado o pai da filosofia da educação moderna: Jean-Jacques Rousseau. Como é sabido, em Emílio, Rousseau defende a implementação de uma pedagogia em que de certa maneira se embaralham as bem nítidas distinções entre autoridade preceptora e interesse infantil, de modo que o jovem estudante se possa desenvolver naturalmente e crescer aprendendo e desfrutando de sua liberdade.

Aceitando sem as devidas críticas os pressupostos de Jean-Jacques Rousseau segundo os quais o homem nasce bom, embora a sociedade o corrompa, Marinho (1984) afirma que, em relação à filosofia de Epicuro, “indispensável se torna observar a criança, antes que a educação tenha depravado a sua natureza”. Na sequência, o autor declara que “não é outra a razão pela qual, depois [de observar o período da infância], só resta observar o animal, porque sendo o homem nada mais do que um dos animais, o bem do animal também será o do homem”. Em sendo os animais espécies de “espelhos fiéis da natureza”, o autor reconhece que, com Epicuro, é da natureza de homens e animais tenderem “a conservar o prazer, quando se apresenta”, ao passo que, se uma dor se manifesta, eles buscam celeremente dela se afugentar (Marinho, 1984, p. 26-27).

Assim, quando o homem se interroga, a sua natureza lhe mostra que é preciso conservar o prazer e fugir da dor. E se tentamos enganar os anseios da nossa natureza, desprezando o prazer, como fanáticos de uma virtude artificial, poderemos, em uma análise introspectiva, verificar que não somos sinceros e quanto dissimulamos nossos sofrimentos, para conformar nossas ações a nossas palavras. [...] Se cada prazer nosso, ao invés de afetar por um momento apenas certa parte de nosso corpo se expandisse em toda a massa de nosso organismo e se prolongasse, sem se enfraquecer, em sua duração, não cessaríamos de possuir o bem supremo, nossa natureza não reclamaria nenhuma outra satisfação, ninguém teria nada a nos reprovar e não teríamos que fazer nada mais que preceitos de moral: uma teoria da virtude nos seria supérflua. Mas não é assim: há prazeres sem duração e que, longe de serem um bem para o corpo inteiro, deixam-no num estado de fraqueza e de mal-estar; é importante distinguir estes prazeres passageiros, do prazer estável, perfeito, durável que é o objeto de nosso desejo constante

(Marinho, 1984, p. 27).

Como se pode notar, ao elaborar sua apreciação do prazer na vida humana, o autor alinha-se à filosofia epicurista, que distingue os prazeres passageiros de outras espécies superiores de prazer (os quais coincidem com a leveza, a suavidade e a serenidade). Nesse sentido, conforme a clássica carta de Epicuro a Meneceu, reconhecer que o prazer seja o bem mais natural e primitivo e que não deveríamos agir contra a natureza não significa procurar toda espécie de prazer. Como diz o antigo filósofo grego, para atingir formas superiores de prazer, seria necessário renunciar a experiência de prazeres desonrosos, ao passo que, além disso, deveríamos preferir muitas dores a certos prazeres, sobretudo quando delas resultam bens maiores do que as penas suportadas. Essa compreensão epicurista sinaliza que é impossível atingir as espécies superiores de prazer sem que se seja justo, virtuoso, corajoso, temperante, em suma, sem que se seja sábio.

Havendo considerado o hedonismo histórico-filosófico nesses termos, Marinho (1984) afirmou que ele serviu à grande parte dos romanos “para justificar sua vida de dissipações e prazeres”, o que, como vimos, contribuiu com que esse sistema filosófico fosse desacreditado. Durante a Idade Média, segundo o autor, o hedonismo sucumbiu sufocado pelas doutrinas ascéticas, havendo ressurgido apenas durante o Renascimento. Além disso, o hedonismo haveria sido adotado por variadas correntes filosóficas modernas, tais como, por exemplo, o materialismo francês do século XVII e grande parte do utilitarismo (conforme vimos na definição de Abbagnano, em que tal doutrina inglesa visa à multiplicação do prazer para maior número de pessoas). Essa filosofia teria também inspirado a psicologia moderna de Sigmund Freud, que postulou o princípio do prazer como importante impulso modulador da psiquê. Além disso, diz o autor, a própria Pedagogia Moderna foi grandemente influenciada pelo Hedonismo à medida que ela defendeu uma vida mais feliz para a criança, com menos coisas desagradáveis, advogando que, na infância, ela “não deve fazer o que quer e sim querer o que faz” (Marinho, 1984, p. 31-32).

E o que essa discussão tem a ver com a educação física? Ora, é por meio de sua apreciação acerca da natureza dos jogos e dos desportos, de um ponto de vista pedagógico, que Marinho (1984) vai relacionar o hedonismo à educação física. Sobre a natureza dos jogos, o autor cita Claparède, cuja teoria estaria embebida do hedonismo histórico, afirmando que o jogo, “psicológica e fisiologicamente, como toda atividade espontânea de um ser vivo, não é mais que uma manifestação de uma tendência de todo indivíduo para desdobrar, para afirmar a sua personalidade”. A partir dessa visão de Claparède, Marinho (1984) questiona a razão pela qual, no jogo, a identidade do ser humano em formação recorre à ficção, propondo-se objetos fantásticos ao invés de se fiar à realidade. Para responder a essa questão, o autor assevera que os contextos de experiência imediata nem sempre são capazes de satisfazer as “suas tendências profundas”, de modo que as atividades lúdicas têm por função viabilizar ao indivíduo a realização de seu eu, orientando sua personalidade e seguindo “a trilha de seu maior interesse” na circunstância na qual não o possa conseguir realizando as atividades sérias (Marinho, 1984, p. 49).

Para Marinho (1984), Jean-Jacques Rousseau consiste no “grande paladino” e defensor intransigente da liberdade da criança no âmbito pedagógico. O autor julgou encontrar na obra Emílio de Rousseau “a verdadeira filosofia da recreação, os fundamentos genéticos do interesse”. Citou Rousseau nos seguintes termos: é necessário que as crianças corram, pulem, gritem, tanto quanto tenham vontade, de sorte que a totalidade de os seus movimentos foi considerada necessária à sua constituição, a qual almeja se fortalecer. Rousseau haveria também proposto uma modificação da orientação pedagógica dos jogos infantis, sugerindo que eles não sejam considerados tão-somente “formas de distração para elas”, mas também, e talvez mais importante, “instrumentos de utilidade”. Este último princípio em que se baseia essa pedagogia lúdica de Rousseau haveria servido de fundamento para que autores renomados se inspirassem, tais como, por exemplo, Herbart, Pestalozzi, Décroly, Fröebel, Montessori etc. (Marinho, 1984, p. 45-46).

E quanto ao desporto? Como se relaciona com o hedonismo? Segundo Marinho (1984), os desportos estão para os adultos e adolescentes como o jogo está para a criança. Em sua visão, em última análise, os desportos são processos por meio dos quais os indivíduos são estimulados a manifestar seus gestos “com a maior perfeição possível”, de modo que se poderia repetir, de modo aristotélico, “que o prazer completa e aperfeiçoa o ato”. Já no domínio da recreação, diz o autor, o prazer do desporto propagar-se-ia dos atletas para aqueles que assistem ao espetáculo: a grande emoção que experimenta um jogador quando “assinala um tento” contagia e envolve o torcedor de modo tal que sua torcida parece se configurar como elemento ou fator determinante da “perfeição alcançada” nos gestos pelo jogador praticados. O autor cita, como exemplo, os colossos arquitetônicos que são os estádios de futebol, os quais se constituem em verdadeiras “válvulas de escape” da acumulada tensão após a semana de trabalho, “ou de vicissitudes, ou de angústias as mais variadas”. Nesse sentido, o autor assinala que gesticular, gritar, roer as unhas integram os torcedores entre os atletas de sua equipe que lutam para conseguir a vitória: o desporto, essa indubitável fonte de prazer, quer para os jogadores, quer para assistentes à torcida, manifesta-se como uma das principais instituições das sociedades contemporâneas, “devendo merecer do Estado a mais cuidadosa atenção” (Marinho, 1984, p. 49-50).

Para que se compreenda mais exatamente a relação que se estabelece, no texto de Marinho (1984), entre educação física, desportos e hedonismo histórico, faz-se necessário descrever brevemente aqui os modos como, desde a pré-história, as atividades físicas e a educação física se manifestaram em três grandes concepções ou estádios. Pois bem, o primeiro estádio corresponde à concepção naturalista de educação física, de modo que, nessa etapa, o ser humano é considerado como um animal que, em luta contra a hostilidade da natureza, lança mão de seus recursos naturais para sobreviver. Nesse estádio, o ser humano corria, lutava, transportava, saltava, isto é, atos que todos os outros animais também poderiam fazer, mas se distinguia dos demais por ter desenvolvido a capacidade de elaborar um tal gesto de grande importância para a sobrevivência do ser humano, gesto que os demais animais não eram capazes de realizar. Que gesto seria esse? Seria aquele capaz de atirar objetos e atingir as feras na ausência de uma luta corpo a corpo: “ainda em nossos dias, nas manifestações mais instintivas e primitivas, sentimos sempre o assomo indômito de atirar alguma coisa, quando a cólera nos domina, quando o instinto sobrepuja a razão”. O segundo estádio, ou etapa, corresponde à concepção guerreira de educação física, ainda presente, poderíamos dizer, em nossos dias nos contextos em que são treinados variados exércitos humanos. Essa concepção haveria surgido após o ser humano ter ampliado a sua convivência grupal, simultaneamente ao desenvolvimento da agricultura, da pecuária e da vida sedentária. Nesse contexto, tornava-se indispensável “que ele se estruturasse, se organizasse para a defesa daquilo que plantava, daquilo que criava”, de modo que emerge a necessidade de prontidão para a luta e o combate, enfim, para a guerra, sobretudo quando esta se manifestasse de modo inevitável. Por fim, o terceiro estádio, correspondente à concepção desportiva de educação física, surge quando os grupamentos humanos se tornam maiores, havendo o ser humano se fixado cada vez mais e havendo se transformado aqueles povoados em vilas, aldeias e cidades. Quando a guerra deixa de ser uma ameaça constante, permite-se que as cidades bem-preparadas para sua defesa possam descansar um pouco, vivendo em paz. Nesse contexto, a referida concepção guerreira, a qual inspirava a atividade corporal, foi sendo substituída por uma “filosofia de vida” que indicava a necessidade do exercício das faculdades já desenvolvidas, das quais os seres humanos dependiam para que não se atrofiassem as forças e para que não perdessem, o potencial de utilizá-las. É assim que os combates simulados e a prática de exercícios realizadas em tempos de paz viabilizam a alteração da atividade guerreira pelas competições (Marinho, 1984, p. 19-20).

Como se pode notar, a concepção desportiva de educação física seria aquela mais apropriada para a prática de exercícios e atividades físicas em tempos de paz. Devido ao referido prazer que elas ensejam, e aos modernos direitos ao lazer e ao desporto, essa concepção vincula a educação física à corrente histórico-filosófica do hedonismo. Por fim, cumpre destacar que Marinho (1984) estava atento não apenas para o fato de que o sentido original e filosófico do hedonismo histórico já havia se corrompido na Roma Antiga, mas que algo similar também estaria ocorrendo em sociedades contemporâneas. Mas esse é um assunto que iremos discutir no tópico seguinte, de modo que teremos a oportunidade de apreciar mais apropriadamente não apenas os insights de Marinho (1984) acerca de tendências “culturais” expressas pelo sentido pejorativo da expressão hedonismo, como também alguns impactos vinculados às alterações do cenário sociotécnico contemporâneo relativo ao mundo digital.

3 NAÇÃO DOPAMINA E SOCIEDADE PALIATIVA: UM RETRATO DA CULTURA HEDONISTA CONTEMPORÂNEA E ALGUNS INSIGHTS DE INEZIL PENNA MARINHO

De acordo com Lembke (2025), ao longo dos últimos séculos, temos transformado o mundo de um lugar de escassez para um lugar de grande abundância: “drogas, comida, notícias, jogos, compras, jogos de azar, mensagens de texto, de sexo, do Facebook, do Instagram, do YouTube, do Twitter...” Nessa espécie de “admirável mundo novo” que se descortina para aqueles que começam a perceber, os crescentes números, a enorme variedade e o grande potencial de incitações compensatórias atordoam a razão humana, ao passo que o smartphone tem funcionado como uma “agulha hipodérmica” no contexto contemporâneo, oferecendo incessante e instantaneamente “dopamina digital” para diversas gerações imersas no ciberespaço. A autora afirma que, segundo os cientistas, a dopamina consiste em uma “espécie de moeda corrente universal para a avaliação do potencial adictivo de qualquer experiência”, de modo que “quanto mais dopamina no sistema de recompensa do cérebro, mais adictiva é a experiência”. Por essa razão, a autora asseverou que, se determinada pessoa não descobriu até o momento a sua “droga preferida”, ela tão-logo estará disponível e bem perto dela por meio do acesso a sítio virtual (Lembke, 2025, p. 9-10).

Analisando o hedonismo na vida social há cerca de quatro décadas atrás, Marinho (1984) já apontava que aquele contexto histórico era marcado pela emergência de sociedades mais ou menos industrializadas, de sorte que artesanato de períodos anteriores da história tem cedido lugar a uma larga produção em série. A tecnologia nesse contexto haveria se desenvolvido em um tal grau que, já percebia o autor, “os cérebros eletrônicos trabalham mais rapidamente do que os cérebros humanos, reduzindo os erros a uma possibilidade mínima”. Nessa sociedade em que são diminuídas as horas de trabalho em função da implementação de processos de automação da produção, diz o autor, seres humanos ampliaram seu tempo de lazer, de modo que, “satisfeitas suas necessidades imediatas de abrigar-se, vestir-se e alimentar-se”, voltaram-se eles para a satisfação de prazeres da vida, revivendo assim a frase de Aristóteles: “todo animal foge da dor e busca o prazer”. Ao haver estabelecido a jornada de oito horas de trabalho, o repouso semanal remunerado e as férias anuais, de acordo com o autor, o emprego das horas destinadas ao lazer, que então se denominou de “recreação”, deixa de enquadrar-se como problema unicamente individual para assumir as proporções de premente problema social, admitindo-se a esse respeito não apenas o interesse do cidadão mas também o do Estado, cuja estrutura se manifesta ameaçada, e que, por essa razão, desse problema deveria passar a se ocupar com maior afinco (Marinho, 1984, p. 61-62).

A respeito da ampliação histórica do tempo de lazer de diversas populações, o sociólogo do trabalho Domenico De Masi (2019), por sua vez, analisou a dramática condição de grandes continentes humanos que passam a vivenciar as consequências da ampliação do desemprego. Segundo o autor, a distinção entre as grandes máquinas das fábricas industriais concebidas nos séculos anteriores e os aparelhos miniaturizados digitais não seria apenas quantitativa, mas, sim, qualitativa. Diante dessa mudança qualitativa, propõe-se duas hipóteses de cenários futuros, a saber: enquanto a primeira hipótese afirma que “no curto prazo essas máquinas reduzem, sim, os postos de trabalho, mas no médio-longo prazo criam muitos mais e, portanto, não ocorre o temido desemprego tecnológico”; a segunda hipótese, com a qual o autor se coloca de acordo, assevera que “as máquinas devorarão, mais do que criarão, cada vez mais postos de trabalho”. Conquanto a segunda hipótese pareça à primeira vista mais pessimista do que a primeira, para o autor, ela em contrapartida consiste em uma “visão salvadora e vital”, visto que se supõe que fabricaremos cada vez mais serviços e bens com cada vez melhor tecnoestrutura e cada vez menos trabalho humano físico. A esse fenômeno denomina-se “jobless growth”. A problemática central, no entender do sociólogo italiano, consistiria justamente na gestão e na distribuição de empregos, o que implicaria diminuição de cargas horárias de trabalho proporcional ao aumento da produtividade proporcionado por essa referida tecnoestrutura. Além disso, implicaria também distribuição mais equitativa de bens e serviços para uma população mundial que cresce na casa numérica bilionária, bem como na atenção e investimento na educação para o tempo livre, uma vez que o lazer será cada vez maior e mais central em relação ao convencional tempo de trabalho (De Masi, 2019, p. 120-121).

Marinho (1984) não considerou em seu contexto histórico o referido fenômeno do jobless growth e suas possíveis repercussões no plano econômico, o que evidencia o alcance teórico de suas formulações teórico-filosóficas. Nesse sentido, é preciso destacar que sua visão se limita a determinados apontamentos que não enquadram as contemporâneas questões relacionadas ao lazer em sua totalidade. Não obstante, devido às relativas similaridades entre os contextos históricos, o autor ao menos concordaria com a descrição de Lemke (2025) a respeito das mutações sociais que estariam dando forma a uma “economia da dopamina”. A esse respeito, conforme aponta Lembke (2025, p. 27), em nosso atual contexto econômico, aquilo que David Courtwright chamou de “capitalismo límbico” tem conduzido a uma metamorfose cultural de grande envergadura, apoiada por uma tecnologia que ampliou não apenas o acesso, mas também o número, a potência e a variedade das drogas (aqui entendidas em sentido amplo). Conforme afirma Marinho (1984), os viciados em drogas sempre existiram, “quer no uso do álcool, quer no de drogas, dentre as quais a cocaína, a heroína e a morfina, ao lado da maconha, se apresentavam como as mais difundidas”. No contexto das últimas décadas do século XX, porém, assinala o autor, “o número de toxicômanos multiplicou-se de tal forma, em todos os países, que passou a constituir um grave flagelo social” (Marinho, 1984, p. 66).

Ao lado do problema das taxas mundiais crescentes de adicção, emergem os problemas relacionados aos processos de positivação da sociedade. Para Han (2021), estaríamos vivendo uma mudança de paradigma sociocultural, uma vez que, talvez pela primeira vez na história, “vivemos em uma sociedade da positividade, que busca se desonerar de toda forma de negatividade”. Compreendendo a dor como a negatividade simples e pura, o autor assinala que psicologia estaria também experimentando os efeitos dessa mudança paradigmática, passando da “psicologia do sofrimento” para uma psicologia positiva, “que se ocupa com o bem-estar, a felicidade e o otimismo”. Nesse contexto, pensamentos negativos são convidados a retirar-se de cena a fim de que emerjam apenas pensamentos positivos, ao passo que “o treino de resiliência como o treino de resistência espiritual tem de formar, a partir do ser humano, um sujeito de desempenho permanentemente feliz, o mais insensível à dor possível”. Para o autor, estão irmanadas, de um lado, a psicologia positiva e sua promessa de felicidade; de outro, o oásis do bem-estar em hipótese proporcionado por fármacos (Han, 2021, p. 11-12).

Para Marinho (1984), antigamente, o prazer era um privilégio de poucos, pois apenas os que dispunham de poder, tempo e dinheiro podiam consagrar uma vida aos prazeres. Quanto à grande maioria das pessoas, esta lutava laborando para assegurar sua própria sobrevivência e a de seus descendentes, entregando-se a extensas jornadas de trabalho a fim de suprir suas necessidades imediatas. Através das mudanças sociais relacionadas à vida contemporânea, que conferem maior tempo destinado ao lazer para a população, constata-se o aumento de oportunidades “para entregar-se ao prazer”. O autor assinalou que essa necessidade de prazer de cada indivíduo atua de modo a que se busque o objeto capaz de propiciá-lo e, dessa relação entre sujeito e objeto do prazer, originar-se-ia aquilo que em psicologia se denominou “interesse”. Este, entendido como a relação de conveniência momentânea e recíproca estabelecida entre um sujeito e um objeto, variaria “segundo a idade, a maturidade, a cultura, enfim as condições personalíssimas de cada ser humano” (Marinho, 1984, p. 62).

Marinho (1984) já se mostrava ciente de determinadas formas de compulsão humana ao prazer, uma vez que se referiu ao fenômeno da “industrialização do prazer”. Esse fenômeno, em parte, seria marcado pela necessidade de empresários pesquisarem e auscultarem “o mercado consumidor do qual depende o êxito da iniciativa pretendida”. Citando o futurólogo Herman Kahn, Marinho (1984) assinalou que, na década de 1980, os trabalhadores norte-americanos estariam lutando cada vez mais pela ampliação tanto do valor de seu salário quanto de seu tempo de lazer, caminhando celeremente “do auto-sacrifício para a auto-satisfação”. O autor narra que tal futurólogo conclui asseverando que os recursos para a educação norte-americana serão mais destinados ao prazer e ao entretenimento, proporcionados pela cultura, do que para a conquista de maior capacidade profissional. Kahn prevê ainda que as grandes empresas seriam organizadas visando a promover a recreação, fomentar o divertimento e “propiciar maiores oportunidades para o prazer” (Marinho, 1984, p. 62-63). Mais recentemente, Lembke (2025) afirmou que todos nós fugimos do sofrimento, alguns tomando comprimidos, outros se estendendo no sofá enquanto assistem à Netflix, outros ainda lendo romances baratos, de modo que “fazemos praticamente qualquer coisa para nos distrair de nós mesmos”. Contudo, diz a autora, parece que toda essa tentativa de exilar o sofrimento torna-o tão-somente o ainda pior (Lembke, 2025, p. 48-49).

De acordo com Han (2021), a crise estadunidense de opioides tem um caráter paradigmático em nosso contexto histórico. Dessa crise tomaria parte não apenas “a cobiça material de uma empresa farmacológica”, mas também, em seu fundamento, “uma suposição fatal para a existência humana”. Para o autor, apenas uma sociedade que promove uma ideologia do bem-estar permanente pode conduzir a que medicamentos os quais eram originariamente utilizados pela medicina paliativa sejam agora usados “com grande pompa” também nas pessoas sem problemas de saúde (Han, 2021, p. 12). O autor cita o especialista em dor estadunidense David B. Morris, que já dizia na década de 1990 o seguinte: os norte-americanos de hoje fazem parte provavelmente da primeira geração sob a Terra que visam a uma existência livre de dor enquanto um direito constitucional, de modo que as dores são consideradas formas de “escândalo” (Han, 2021, p. 12-13).

Para Lembke (2025), a cultura contemporânea marcada, entre outros aspectos, pela imersão no hiperespaço, não obstante as condições desiguais de vida das diversas populações, caminha no sentido de perdermos cada vez mais a capacidade de tolerar até as menores formas de desconforto ou sofrimento. Plugados ao mundo espelhado narcisicamente pelo smartphone, procura-se distração do momento presente por meio do entretido zapping digital. Citando Aldous Huxley na obra Admirável mundo novo, afirma-se: “o desenvolvimento de uma vasta indústria de comunicação de massa dizia respeito, em grande parte, não ao verdadeiro ou ao falso, mas ao irreal, o mais ou menos totalmente irrelevante... falhou em levar em conta o apetite quase infinito do homem por distrações”. Na sequência, a autora cita o clássico de Neil Postman, Amusing Ourselves to Death (Entretendo-se até morrer): “os americanos já não conversam uns com outros, eles entretêm uns aos outros. Não trocam ideias, trocam imagens. Não argumentam com propostas, argumentam com boas aparências, celebridades e comerciais” (LEMBKE, 2025, p. 45). Mais à frente, citando o Relatório de Felicidade Mundial, que classifica 156 nações segundo a extensão de felicidade que seus cidadãos consideram experienciar, a autora assevera que os residentes nos Estado Unidos declaram menor felicidade em 2018 do que em 2008, ao passo que outras nações com nível similar de “riqueza, assistência social e expectativa de vida” experimentaram um declínio parecido em quantitativos autodeclarados de felicidade, “incluindo Bélgica, Canadá, Dinamarca, França, Japão, Nova Zelândia e Itália” (Lembke, 2025, p. 49).

O hedonismo contemporâneo, entendido como traço sociocultural de uma sociedade que veio se consolidando nos últimos trinta anos, todavia, não se reduz ao uso de alucinógenos ou outras drogas ilícitas. Como vimos, a própria vida mediada pelo mundo digital disponível à mão nos conduz a uma enxurrada de dopamina. Isso tem trazido efeitos dramáticos para aqueles que, conscientemente ou não, veem-se levados por essa corrente. Para Lembke (2025), “o maquinário neurológico para processamento de prazer e sofrimento (superantigo do ponto de vista filogenético) permaneceu intacto ao longo da evolução e através das espécies”. Falando sobre as vantagens evolutivas do prazer e do sofrimento, a autora recorda que, sem o prazer, deixaríamos de comer, beber e de nos reproduzir, ao passo que, com a ausência da dor, não teríamos motivos para nos proteger de ferimentos e da morte. O resultado desses mecanismos evolutivos pertencentes à nossa espécie consiste no fato de estarmos em vias de transformar o mundo de um lugar de escassez para um lugar de abundância excessiva. Ao elevarmos, enquanto civilização, nosso ponto de ajuste neural a repetidos prazeres, em uma forma desenfreada de hedonismo, tornamo-nos, segundo a autora, batalhadores que nunca encontram satisfação com o que se tem. Paradoxalmente, quanto mais se busca o prazer, mais os mecanismos compensatórios inerentes a nosso organismo nos induzem à dor e ao sofrimento. Ao mesmo tempo, viver em um mundo de relativa fartura consiste em algo inteiramente novo para a humanidade, pois nossos cérebros, diz a autora, evoluíram para lidar com um mundo em escassez. Citando uma metáfora do Dr. Tom Finucane, atualmente, “somos cactos em uma floresta tropical”, ao passo que, “como cactos adaptados a um clima árido, estamos nos afogando em dopamina” (Lembke, 2025, p. 68).

Para que se tenha uma ideia sobre o que seria o hedonismo desenfreado levado às suas últimas consequências, é instrutivo aqui abordar o fim do livro Sociedade paliativa, no qual Han (2021) comenta a obra The Hedonistic Imperative (O imperativo hedonista), de autoria de David Pearce, quem proclama em 1995 um futuro livre da dor. Sigamos o argumento de Pearce esboçado por Han (2021). No transcurso das próximas eras milenares, as chamadas “pressuposições biológicas do sofrimento” seriam completamente dissolvidas. Nesse sentido, as dores corporais e físicas estariam destinadas, pelas transformações históricas, a esmaecer até o inteiro desaparecimento. Nesse cenário, também seriam superadas as dores do amor, isto é, as agruras cruéis que destruiriam a alma concernentes a determinadas tradicionais formas de amor. O objetivo deste transumanismo, então, seria uma felicidade sublime que passa a estar presente na totalidade da vida. Comentando essa conjectura de Pearce, Han (2021) assinala que “o transumanismo deixa o último ser humano para trás, pois ele é [...] humano, demasiado humano”. Mesmo o tédio poderia ser dominado por biotécnicas: ainda que falte à humanidade a imaginação para isso, em algumas gerações o próprio tédio, entendido como dor negativa, seria “neurofisiologicamente impossível”. Em contrapartida ao tédio, dizia Nietzsche, nem mesmo os deuses lutam em vão. Friederich Nietzsche, porém, não haveria tido ideia de virtualidades imaginadas no campo da biotecnologia (Han, 2021, p. 114).

O transumanismo de Pearce é um exemplo extremo de uma ideologia que promove o prazer como supremo bem. Marinho (1984) não nos convida a transpor os limites da atual condição existencial humana ao propor, em sentido positivo, a sua concepção hedonista de educação física. Como vimos no tópico primeiro, ele inspira-se no hedonismo histórico-filosófico de Epicuro, que não nos convida a imaginar o mundo sem a dor, visto que, para o epicurismo, o sofrimento que provoca benefícios para o desenvolvimento humano deveria ser escolhido se comparado a prazeres desnecessários e desmedidos que levariam a vícios. Marinho (1984), portanto, propõe uma solução mais simples. Em sua visão, a recreação surge como problema social no fim do século XIX e se vai tornando cada vez mais importante durante as transformações históricas ocorridas no século XX.

Relativamente à atividade infantil, Marinho (1984) assinala que a recreação se manifestava em seu contexto cultural como uma “necessidade imprescindível para evitar que se anule a obra educativa da escola pela influência maléfica da rua, da vizinhança e, às vezes, da própria família”. Ao passo que, outrora, a criança permanecia na escola cerca de seis a oito horas diárias, “sobrando-lhe, assim, poucas horas de lazer”; por outro lado, o autor lamentava que, em sua época, a criança passava apenas três ou no máximo quatro horas na escola, de modo que seu tempo de lazer havia consideravelmente aumentado. Nesse sentido, diz o autor, a organização racional da recreação deveria ser um dever do Estado comprometido com o aproveitamento das horas de lazer das crianças, sendo considerada uma medida, por conseguinte, que se impõe para preservar o trabalho realizado na escola. O desregramento das crianças não ocorreria na escola durante as horas de estudo, mas em suas horas de ócio abandonadas às ruas (Marinho, 1984, p. 69). Como se pode notar, o autor não experienciou a atual polêmica do uso de smartphones nas escolas e fora delas por parte das crianças e adolescentes, controvérsia que é tão atual e pungente nos dias atuais, mas suas preocupações, consideradas as limitações de seu contexto, eram legítimas.

Quanto ao adulto, Marinho (1984) acertadamente assinalou que o problema estatal e educacional acerca do adequado uso do tempo de lazer dizia respeito às mudanças das leis trabalhistas, as quais vieram paulatinamente “reduzindo a jornada de trabalho para 12, 10, 9 e 8 horas de labor”. Sem haver conhecido, porém, o contexto dos atuais fenômenos da autoexploração, da auto-otimização, do superdesempenho e do consequente esgotamento psicossomático no mundo trabalho (Han, 2021), fenômenos próprios da era digital, Marinho (1984) afirmou que “os povos não se depauperam, nem se degeneram nas suas horas de trabalho, mas, isto sim, nas suas horas de lazer, de ócio”. Por consequência, o autor não se comprometeu filosoficamente com propor alternativas para no novo cenário do trabalho que vinha se configurando, mas sim com sugerir que o Estado conduza com imperiosa seriedade programas de recreação para o povo, entendidos enquanto “medida preservadora das suas energias físicas e morais”, isto é, contra as dissipações e corrupções próprias de um hedonismo desmedido. No Brasil, diz o autor, o chamado movimento Esporte Para Todos (EPT), auxiliado pela Secretaria de Educação Física e Desportos do Ministério da Educação e Cultura, poderia desempenhar relevante função, organizando um programa que alcançasse as cidades e o campo, engajando as massas populares nas práticas desportivas e, por conseguinte, ocupando de modo salutar as horas de lazer das pessoas de todas as faixas etárias (Marinho, 1984, p. 69-71).

À medida que se reconhece que o atual estágio da educação física, para diversos povos e devido às transformações históricas que delinearam seus respectivas contextos de vida, passou da “concepção guerreira” para aquela denominada “desportiva”, sendo esta última vinculada tanto ao campo educacional quanto àquele do lazer, percebe-se não apenas como a educação física e as práticas desportivas podem se fundamentar filosoficamente pela teoria de Marinho (1984), mas também como a sua introdução filosófica buscava orientar o Estado a atuar, há cerca de quarenta anos atrás, perante os problemas resultantes do aumento das horas de lazer e da ausência de políticas públicas consistentes de recreação popular. Embora houvesse cultivado uma sensibilidade capaz de promover insights valiosos sobre o seu contexto histórico e sobre as décadas que viriam a se desdobrar no tempo até os dias atuais, Marinho (1984) não suspeitou de problemas oriundos e próprios da era digital, de modo que seu leitor deve se precaver diante de tais limitações. Esse último ponto reclamava, para nós, uma atualização da compreensão do contexto em que nos inserimos enquanto civilizações que participam do século XXI. Foi o que buscamos realizar na análise que desenvolvemos neste último tópico.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste ensaio, refletimos sobre a atualidade de algumas ideias de Marinho (1984) acerca do modo como se relacionam educação física, desportos e hedonismo na sociedade contemporânea.

Para tanto, foram distinguidos em um primeiro momento o sentido histórico-filosófico da expressão “hedonismo” daquela acepção pejorativa que vem cada vez mais se afirmando na atualidade. Com essa distinção, pôde-se perceber as mutações históricas e culturais do hedonismo e sua relação com os conceitos e as funções da educação física e dos desportos, bem como situamos o leitor acerca dos estágios históricos da educação física (naturalista, guerreira e desportiva), entendidos como fundamentos com base nos quais a problemática investigada se torna inteligível. Em uma segunda etapa, analisamos o modo como, mais recentemente, o hedonismo configura-se desde o fim do século XX e início do século XXI, examinando as transformações históricas e culturais que delineiam as relações que diversas sociedades têm entabulado com o prazer e a dor, bem como a maneira como os jogos, o desporto e a recreação podem emergir como soluções para importantes problemas de nossa época.

Assim sendo, torna-se possível afirmar que, embora não houvesse suspeitado de fenômenos decorrentes do desenvolvimento da internet e do mundo digital (o processo de popularização dos personal computers que seriam conectados à internet, no Brasil, ocorre justamente no contexto em que sua obra estava sendo compilada), com profundas repercussões nos campos da experiência do prazer e do sofrimento, Marinho (1984), que desconfiou de problemas relativos à adicção, cultivou uma sensibilidade capaz de compreender importantes relações entre filosofia, educação física e desportos na contemporaneidade, de modo que algumas de suas ideias permanecem ainda atuais no século XXI.

Suas considerações, em contrapartida, limitaram-se a enfatizar problemas candentes relativos ao campo de estudos do lazer, do desporto, da recreação e da educação física, deixando de fazer referência analítica mais profunda a fenômenos importantes relativos ao âmbito do trabalho, que já podiam ser pressentidos em seu tempo, como são os casos dos fenômenos do jobless growth ou da intensificação do uso da microeletrônica como fator que operaria mutações socioculturais de larga envergadura. Inezil Penna Marinho foi, portanto, um pensador de seu tempo, o que nos motivou a alimentar o debate por ele iniciado no Brasil com novas referências.

  • FINANCIAMENTO
    O presente trabalho foi realizado sem o apoio de fontes financiadoras.
  • COMO REFERENCIAR
    AVANÇO, Leonardo Dias. Educação física, desporto e hedonismo: um diálogo com Inezil Penna Marinho. Movimento, v. 32, p. e32019, jan./dez. 2026. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.148342.

DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA

Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.

REFERÊNCIAS

  • ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
  • DE MASI, Domenico. O mundo ainda é jovem: conversas sobre o futuro próximo. São Paulo: Vestígio, 2019.
  • HAN, Byung-Chul. Sociedade paliativa: a dor hoje. Petrópolis: Vozes, 2021.
  • LEMBKE, Anna. Nação dopamina: por que o excesso de prazer está nos deixando infelizes e o que podemos fazer para mudar. 12. reimp. São Paulo: Vestígio, 2025.
  • MARINHO, Inezil Penna. Introdução ao estudo de filosofia da educação física e dos desportos Brasília: Horizonte, 1984.

Editado por

  • RESPONSABILIDADE EDITORIAL
    Alex Branco Fraga*, Elisandro Schultz Wittizorecki*, Mauro Myskiw*, Raquel da Silveira*
    * Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Porto Alegre, RS, Brasil.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    20 Jun 2025
  • Aceito
    12 Fev 2026
  • Publicado
    25 Maio 2026
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