Open-access OS USOS DA TEORIA DA SALUTOGÊNESE NA EDUCAÇÃO FÍSICA: UMA REVISÃO DE ESCOPO

THE USES OF SALUTOGENESIS THEORY IN PHYSICAL EDUCATION: A SCOPING REVIEW

LOS USOS DE LA TEORÍA DE LA SALUTOGÉNESIS EN LA EDUCACIÓN FÍSICA: UNA REVISIÓN DE ALCANCE

Resumo

A salutogênese é uma teoria de promoção da saúde que amplia as concepções epistemológicas no campo da saúde. Mapeamos estudos que abordam essa teoria no campo da Educação Física (EF). Seguimos o PRISMA para revisões de escopo. Nove bases de dados foram consultadas e, de 2.745 títulos, 66 foram incluídos. O formulário de gráfico incluiu características dos estudos, da população, os usos da salutogênese e suas relações com a EF. Artigos originais e quantitativos foram maioria. Diversos contextos e ciclos da vida foram observados. O modelo do senso de coerência foi mobilizado majoritariamente. O contexto sociocultural é pouco mobilizado. Os dados foram sumarizados tematicamente e podem orientar pesquisadores e professores de EF, considerando-se que a salutogênese é uma teoria profícua e necessita de ser mais explorada no campo da EF para superar a hegemonia biomédica.

Palavras-chave
Salutogenia; Senso de Coerência; Práticas Corporais; Atividade Física

Abstract

Salutogenesis is a health promotion theory that expands epistemological conceptions in the field of health. We mapped studies that address this theory in the field of Physical Education (PE). We followed PRISMA guidelines for scoping reviews. Nine databases were consulted and, of 2,745 titles, 66 were included. The chart included characteristics of the studies, the population, the uses of salutogenesis, and its relationships with PE. Original and quantitative articles comprised the majority. Various contexts and life cycles were observed. The sense of coherence model was mostly mobilized. The sociocultural context is minimally addressed. The data were summarized thematically and can guide researchers and PE teachers, given that salutogenesis is a fruitful theory and needs further exploration in the field of PE to overcome biomedical hegemony.

Keywords
Salutogenesis; Sense of Coherence; Bodily Practices; Physical Activity

Resumen

La salutogénesis es una teoría de la promoción de la salud que amplía concepciones epistemológicas en el campo de la salud. Mapeamos estudios que abordan esta teoría en el campo de la Educación Física (EF). Seguimos las directrices del modelo PRISMA para las revisiones de alcance. Se consultaron nueve bases de datos y, de 2.745 títulos, se incluyeron 66. El gráfico incluyó características de los estudios, la población, los usos de la salutogénesis y sus relaciones con la EF. Los artículos originales y cuantitativos constituyeron la mayoría. Se observaron diversos contextos y ciclos de vida. El modelo de sentido de coherencia fue mayoritariamente movilizado. El contexto sociocultural se aborda poco. Los datos se resumieron temáticamente y pueden orientar a investigadores y profesores de EF, considerando que la salutogénesis es una teoría fructífera y necesita ser explorada más a fondo en el campo de la EF para superar la hegemonía biomédica.

Palabras clave
Salutogénesis; Sentido de Coherencia; Prácticas Corporales; Actividad Física

INTRODUÇÃO1

A Educação Física (EF) possui forte vínculo com a saúde desde sua gênese, mormente, sob o viés biomédico. Parece haver um “mantra” da compreensão da saúde na EF como sinônimo de capacidade aeróbica, aptidão física, índice de massa corporal, normatizações como “dez mil passos por dia”, ou em relação à forma corporal. Esse entendimento destaca uma normatividade relacionada ao comportamento moral e à ciência médica cuja noção trata o ser humano como, primordialmente, biológico. Tal base sustenta uma concepção patogênica, cujas fragilidades se apresentam como a classificação dicotômica entre saúde e doença e a redução das ações exclusivamente aos fatores de risco que ameaçam a normalidade biológica da existência humana (Quennerstedt, 2018).

No campo epistemológico da EF, principalmente no cenário da pós-graduação brasileira, Manoel e Carvalho (2011) apontam para uma “atração (fatal) para a biodinâmica”. Ou seja, uma produção do conhecimento sobre atividade física (AF) e saúde centrada, majoritariamente, nos moldes das Ciências Naturais. Indo ao encontro dessa orientação epistemológica, no campo do ensino, as Instituições de Ensino Superior parecem orientar uma metodologia centrada na doença e na pedagogia da transmissão (Carvalho; Ceccim, 2006; Dessbesell; Caballero, 2016).

No entanto, outros estudos indicam que existem pontos de tensionamento da hegemonia posta. Nesse sentido, vemos a emergência das Ciências Sociais e Humanas e da Saúde Coletiva no campo e na formação em EF, provendo outras perspectivas epistemológicas e metodológicas sob o conceito ampliado de saúde (Barboni; Carvalho; Souza, 2021; Nogueira; Bosi, 2017; Oliveira; Gomes, 2021).

Compreendemos que disputas se colocam no campo da EF com relação aos aspectos epistemológicos e metodológicos, que se traduzem na produção científica e na formação profissional da área. Em artigo emblemático, Loch, Rech e Costa (2020) advogam pela urgência da Saúde Coletiva na formação em EF. Os autores analisam que há uma lacuna sobre um conhecimento ampliado dos profissionais com relação entre EF e saúde. Também apontam que muitos ainda tomam a AF como uma panaceia sem compreender a complexidade e os determinantes e condicionantes dela (Loch; Rech; Costa, 2020).

Compreender a complexidade da saúde é algo urgente na EF e, para isso, é necessário a ampliação da sua concepção. Nesse sentido, vemos autores na área que têm se aproximado da teoria da salutogênese em textos publicados em português (Brodtmann, 2006; Mezzaroba, 2012; Oliveira, 2004; Oliveira; Mezzaroba, 2021; Taffarel, 2010). Almeida (2022), também observou o uso da salutogênese no campo da EF em textos da língua anglófona.

Na presente revisão, propusemos como objetivo mapear os estudos que abordam a teoria da salutogênese no campo da EF em interface com as PCAF. O texto se estrutura da seguinte forma: abordamos brevemente os aspectos conceituais que envolvem a teoria salutogênica; detalhamos os procedimentos metodológicos adotados na pesquisa; apresentamos e discutimos os dados apontando um sumário temático e indicações para futuras pesquisas e intervenções; fechamos com as considerações finais.

2 A TEORIA DA SALUTOGÊNESE

A salutogênese é uma teoria criada por Aaron Antonovsky (1979; 1988; 1996), cuja etimologia da palavra vem de salus (do latim: invencibilidade, bem-estar, alegria) e gênese (do grego: origem). Em suma, a salutogênese pergunta pelas origens das saúdes2: como as pessoas, apesar dos estressores onipresentes na vida, permanecem saudáveis ou conseguem se recuperar dos processos de adoecimento? A resposta para essa questão está no modelo do Senso de Coerência (SdC). Trata-se de uma orientação global que expressa a confiança de que, embora dinâmica, as ações da vida terão uma estrutura previsível e explicável, o que permite que as pessoas a percebam como compreensível, administrável e significativa (Antonovsky, 1996).

O SdC é constituído por três elementos: (a) a compreensibilidade (comprehensibility) está relacionada ao aspecto cognitivo e se refere ao fato de a pessoa considerar os acontecimentos da vida compreensíveis e explicáveis, mormente, com uma estrutura que permite certa previsibilidade; (b) a maleabilidade ou capacidade de gerenciamento (manageability) está relacionada ao aspecto comportamental e se refere à percepção de que há recursos disponíveis que podem ser utilizados no gerenciamento e enfrentamento dos acontecimentos da vida; (c) a significância (meaningfulness) está relacionada ao aspecto emocional/afetivo e se refere aos sentidos dados aos acontecimentos da vida como motivação para seguir em frente enfrentando-os (Antonovsky, 1979; 1988; 1996).

Quanto mais forte se encontrar o SdC, maior a capacidade da pessoa de mobilizar recursos generalizados de resistência (recursos de saúde), utilizados no gerenciamento dos estressores. No entanto, não podemos cair no equívoco de considerar a produção da saúde como algo voltadosomente na ação individual para um estilo de vida centrado no “fique saudável” ou “fortaleça seu SdC”. Mais do que isso, a produção da saúde está intimamente vinculada às condições socioculturais e históricas (Antonovsky, 1996). Nesse sentido, McCuaig e Quennerstedt (2018) chamam a atenção para a metáfora do rio da vida3 que expressa as dimensões socioculturais da salutogênese.

Retomando o conceito de recursos de saúde, vemos que são elementos disponíveis no contexto sociocultural, histórico e ambiental que, a partir de seu uso, geram proteção frente aos estressores da vida (Antonovsky, 1979). Taffarel (2010) lista três deles: 1) o sentido da vida, vinculado à visão de mundo e aquilo que fortalece a vontade de viver e o otimismo; 2) a autoestima, que diz respeito à construção da subjetividade humana e internalização de valores; 3) a assistência social, relacionada à convivência humana e o reconhecimento social. A autora ainda exemplifica eles na EF.

Quando alguém está envolvido em uma prática corporal, espera-se que aquela atividade tenha sentido e significado para sua vida. Também, é preciso que o sujeito se sinta capaz e que sua autoestima não seja afetada por padrões e modelos estereotipados, por exemplo, pela indústria cultural (como um corpo atlético e magro). Ainda mais, a pessoa precisa se sentir incluída socialmente e apoiada pelo grupo, sabendo que pode contar com todos em suas atividades. Desta forma, as práticas corporais e atividades físicas (PCAF) podem vir a se tornar recursos de saúde para as pessoas. Do contrário, experiências negativas poderão dificultar a mobilização desses recursos, assim, enfraquecendo o SdC.

Notoriamente, a salutogênese pode nos proporcionar meios para reorientar as formas de se compreender a formação e a atuação no campo da EF em sua interface com a saúde. Como diz Quennerstedt (2018), precisamos fazer perguntas diferentes sobre saúde na EF. Posto isso, vimos como profícua a realização de uma busca sistematizada por trabalhos que abordam a teoria da salutogênese em diálogo com a EF a fim de saber como se encontra a produção acerca dessa temática. Um dos nossos focos principais está em difundir essa teoria na literatura em português.

Buscamos compreender as potencialidades da relação da EF com a saúde numa perspectiva que vai além da hegemonia biomédica. Se a EF é vista como área da saúde, por que nela se privilegia as doenças e seus fatores de risco? Corroborando o movimento salutogênico na EF, vemos a necessidade de falarmos em saúdes e seus aspectos (como potência de vida, sentido para agir, capacidade de gerenciar os acontecimentos) e não em doença (que se pauta em discursos centrados no medo, no risco e na ameaça).

3 METODOLOGIA

3.1 PROTOCOLO E REGISTRO

Desenvolvemos uma revisão de escopo sobre os usos da teoria da salutogênese no campo da EF para identificar evidências, lacunas do conhecimento e estabelecer uma agenda de pesquisa e intervenção. Seguimos o checklist PRISMA-ScR – PRISMA extension for Scoping Reviews (Figura 1; cf. Material Suplementar 1) (Tricco et al., 2018). O protocolo foi registrado em Open Science Framework (https://osf.io/kxg6f/).

Figura 1
Fluxograma do processo de seleção dos estudos – checklist PRISMA-ScR.

3.2 CRITÉRIOS DE ELEGIBILIDADE

Esta revisão seguiu cinco etapas: 1) identificação da questão da pesquisa; 2) identificação de estudos relevantes; 3) seleção de estudos; 4) mapeamento dos dados; e 5) agrupamento, resumo, elaboração e relato dos resultados. Estabeleceu-se como questão norteadora: O que se sabe sobre os usos da Teoria da Salutogênese nos estudos relacionados às PCAF no campo da EF?

Os critérios de elegibilidade foram organizados a partir da estratégia mnemônica População, Conceito e Contexto (PCC), recomendado para revisões de escopo (Munn et al., 2018), com o acréscimo do tipo de publicação (Quadro 1).

Quadro 1
Critérios de elegibilidade para a revisão de escopo.

3.3 FONTES DE INFORMAÇÃO

A busca foi realizada em bases de dados de literatura revisada por pares. Em 27 de outubro de 2021: PubMed, Eric, Scopus, PsycInfo, LILACS, SciELO e Web of Science. Em 01 de novembro 2021: SportDiscus. Em 27 de outubro e 01 de novembro 2021: Google Acadêmico. Para complementar a busca, consultamos as referências dos estudos eleitos e incluídos, visando identificar documentos com possível potencial elegível.

3.4 ESTRATÉGIAS DE BUSCA

Os termos foram obtidos e refinados a partir da literatura pertinente ao tema e estruturados conforme o Medical SubjectHeadings (MeSH) e outras palavras-chave (ex.: salutogênese, senso de coerência, recursos de resistência, Educação Física, atividade física, exercício físico, práticas corporais). Os termos foram combinados entre si através de operadores booleanos (OR, AND ou AND NOT) e símbolos de truncamento para ampliar o alcance dos termos de busca (cf. Material Suplementar 2). As estratégias de busca seguiram as recomendações do Peer Review of Electronic Search Strategies (McGowan et al., 2016).

3.5 SELEÇÃO DOS ESTUDOS

Os títulos e resumos foram importados para uma biblioteca do EndNoteWeb, onde os trabalhos duplicados foram excluídos. Após, os títulos e resumos foram importados para a plataforma Rayyan. Dois revisores independentes trabalharam na seleção dos estudos em duas fases: 1) leitura do título e resumo; 2) leitura do texto completo. Ocorreram reuniões de consenso para discutir os estudos potencialmente elegíveis que atenderam os critérios de inclusão (Quadro 1). Quando houve discordância um terceiro revisor foi consultado.

3.6 PROCESSO DE EXTRAÇÃO DOS DADOS

Os dados foram divididos e extraídos por dois revisores independentes e revisados por outros dois revisores. Quando houve divergências, essas foram resolvidas em reunião de consenso. Uma planilha do Excel foi criada para auxiliar na extração dos dados (cf. Material Suplementar 3).

3.7 SÍNTESE DOS RESULTADOS

Os resultados foram resumidos pelos revisores no formato de síntese descritiva com uso de tabelas (Peters et al., 2020). A síntese incluiu os principais resultados sobre o contexto e as características das publicações (período de publicação, tipo de estudo, região do estudo), a metodologia (natureza da pesquisa, ciclo de vida, contexto e condições especiais relatadas) e as relações entre salutogênese e EF (sumário temático).

4 RESULTADOS

De 2.745 artigos, 669 duplicados foram excluídos. Foram lidos os títulos, resumos e palavras-chave de 2.076 artigos, elegendo-se 89 para leitura na íntegra. Desses, 27 foram excluídos por estarem fora do nosso escopo (n=25) ou não estarem disponíveis (n=2). Foram incluídos 4 artigos com base nas referências consultadas dos artigos lidos na íntegra. Assim, chegamos a 66 artigos (cf. Material Suplementar 4).

4.1 CONTEXTO E CARACTERÍSTICAS DAS PUBLICAÇÕES

As publicações ocorreram de forma crescente entre 2000 e 2021, com destaque para os períodos 2013-2017 e 2018-2021, quando ocorreu a maioria das produções, respectivamente, 30,3% e 50,0%. O idioma majoritário é o inglês (96,97%) e o tipo de estudo é de artigo original (86,36%). A concentração de estudos está na região europeia (69,7%), com destaque para os países Suécia (n=13) e Polônia (n=10) (Tabela 1; Figura 2).

Tabela 1
Caracterização das publicações.
Figura 2
Distribuição e concentração dos estudos por país.

Quanto à caracterização metodológica, a maioria dos estudos são de natureza quantitativa (62,12%). Os ciclos da vida abordados correspondem à idade adulta (43,94%), velhice (36,36%), adolescência (24,24%) e infância (6,06%). Os contextos de pesquisa mais presentes foram: escola de educação básica (24,24%), comunidade (19,7%), clube esportivo (18,18%) e hospital (16,67%). Alguns estudos, ainda relataram algumas condições especiais relacionadas a processos de vulnerabilidade social e adoecimento (Tabela 2).

Tabela 2
Caracterização metodológica das publicações.

4.2 SUMÁRIO TEMÁTICO SOBRE OS USOS DA SALUTOGÊNESE NA EF

Os resultados foram analisados tematicamente conforme a natureza da pesquisa e do tipo de estudo (Quadro 2; cf. Material Suplementar 5). Buscamos caracterizar os temas condizentes com cada especificidade epistemológica para não cairmos em um reducionismo analítico.

Quadro 2
Análise temática sobre os usos da salutogênese na EF.

Os estudos originais de natureza quantitativa apresentaram uma grande expressão de pesquisas de associação entre SdC e AF, o que inclui indicações de que:

  1. O SdC prediz/aumenta a AF (Ahola et al., 2012; Bronikowski et al., 2017; Malinauskas; Malinauskaiene, 2015; Myers et al., 2011; Szovák et al., 2020);

  2. A AF aumenta/melhora o SdC (Dumčienė; Gedvilienė; Mickevičius, 2015; Ericson; Quennerstedt; Geidne, 2021; Kowalska; Wójtowicz; Szczepanska-Gieracha, 2021; Mayer; Thiel, 2014; Monma; Takeda; Okura, 2017; Sollerhed; Ejlertsson; Apitzsch, 2005; Ziolkowski et al., 2016);

  3. Pessoas com maior SdC apresentam maior adesão à AF quando comparadas às que não participam (e vice-versa) (Endo; Kanou; Oishi, 2012; Hassmén; Koivula; Uutela, 2000; Humboldt; Leal; Pimenta, 2013; Jindo et al., 2018; Sipos; Jeges; Tóth, 2015);

  4. Pessoas com SdC fraco tendem a abandonar a AF (Hiensch et al., 2020; Løvlien; Mundal; Hall-Lord, 2016).

Outros estudos demonstram que a relação entre SdC e AF influencia as afecções psicológicas (afeto positivo/negativo, humor, estresse, ansiedade etc.) (Dimech; Seiler, 2011; Jörgensen et al., 2017; Lipowski et al., 2019; Litwic-Kaminska, 2010; Öztekin; Tezer, 2009; Szczypińska; Samełko; Guszkowska, 2021), o bem-estar e a qualidade satisfatória de vida (Ericson et al., 2018a; Gustavsson; Bränholm, 2003; Wiesmann; Hannich, 2008), a imagem corporal e a resolução de tarefas (Laudańska-Krzemińska et al., 2020; Portegijs et al., 2014) e a relação com a renda (Weirich et al., 2020).

Estudos evidenciaram programas de intervenção com orientação salutogênica que buscaram fortalecer o SdC (Bronikowski, 2010; Bronikowski; Bronikowska, 2009; Leisterer et al., 2021; Thompson et al., 2021). Alguns estudos indicaram que não existe associação entre SdC e AF (e vice-versa) (Kukihara et al., 2018; Pakkala et al., 2012; Reguera-García et al., 2020; Szczepanska-Klunder; Lipowski, 2014). Ainda, um estudo buscou validar a confiança da escala do SdC em uma população de idosos fisicamente ativos (Söderhamn; Holmgren, 2004).

Um grupo de estudos originais de natureza qualitativa indicam que o trabalho a partir de abordagens salutogênicas devem ir além da AF e que outros recursos devem ser considerados – inclusive, programas construídos para além do modelo biomédico foram considerados recursos de saúde (Cseplö et al., 2021; Ferreira; Drigo; Kirk, 2022; Ferreira; Kirk, Drigo; 2021; Sugden, 2020; Young; Mcgrath; Adams, 2018). Outro grupo considerou que mudanças contextuais e curriculares na EF escolar e no esporte, inclusive, por meio de abordagens baseadas em pontos fortes, são profícuas para o engajamento na prática e o fortalecimento do SdC (Brolin et al., 2018; Jakobsson, 2014; Jakobsson; Lundvall, 2021; Mccuaig; Quennerstedt; Macdonald, 2013; Super; Verkooijen; Koelen, 2018). Ainda, estudos indicam relações entre SdC e AF em grupos e programas, inclusive, com o fortalecimento de ambos (Ericson et al., 2018b; Midtgaard et al., 2012; Stødle et al., 2019).

Os estudos originais quantitativos-qualitativos indicaram que as PCAF contribuem para o fortalecimento do SdC e a produção de recursos de saúde. Cabe ressaltar que é exposta a necessidade de considerar os elementos socioculturais na pesquisa e intervenção, que inclui os sentidos atribuídos pelos participantes e as experiências de vida (Geidne; Quennerstedt, 2021; Gwiaździński et al., 2017; Ley; Barrio, 2011; Super et al., 2014).

Os ensaios indicam três grandes temas. Primeiro, que a saúde é uma questão pedagógica para a EF escolar e que é necessário que as aulas ampliem a visão da AF como prevenção de doenças para criação de possibilidades de aprendizagem, empoderamento, autocompreensão ou alegria no movimento como recursos de saúde nas PCAF (Cardoso; Kunz; Cunha, 2016; Quennerstedt, 2008; Quennerstedt, 2018). Em segundo lugar, que a salutogênese é uma base teórica profícua para a produção de artefatos (manual de orientação para a AF), intervenções (desenvolvimento positivo de jovens no esporte) e pesquisa. Reforça-se a necessidade de abordagens socioculturais na pesquisa salutogênica na área da EF, esporte e saúde (Mccuaig; Quennerstedt, 2018; Midtgaard, 2013; Super; Verkooijen; Koelen, 2021). Terceiro, é indicado que as experiências em AF e lazer podem se constituir como recursos de saúde, dado que oportunizam o empoderamento e a autodeterminação na criação de experiências de AF (Boonekamp et al., 2022; Peel; Maxwell; Mcgrath, 2021).

Já o estudo de revisão sistemática corrobora os demais artigos (principalmente, os de natureza quantitativa), indicando que a AF prediz o SdC que, por sua vez, impacta na participação na AF e que essa é sugerida como um recurso de saúde (Moyers; Hagger, 2020).

Figura 3
Sumário temático dos usos da salutogênese na EF.

Diante da análise temática, foi possível construir um sumário temático dos usos da salutogênese na EF, inclusive, contendo mensagens de destaque com respeito à pesquisa e intervenção para a área. Inicialmente, podemos destacar que, na relação “nadador e rio”, retomando a metáfora do “rio da vida” (contexto sociocultural – pessoa), o SdC e os recursos de saúde afetam e são afetados pelas PCAF (porém, nem sempre, evidenciando que outros elementos precisam ser observados). Geralmente, quando devidamente orientados contextualmente e arregimentados em abordagens baseadas em pontos fortes, as PCAF podem se tornar recursos de saúde capazes de fortalecer o SdC, assim como, o SdC ser um mediador para o engajamento em PCAF seguindo o desenvolvimento ao longo da vida. Cabe ressaltar que intervenções realizadas em programas e pesquisas ocorrem em diversos contextos, assim, solicitando o devido olhar contextual.

5 DISCUSSÃO

Nesta revisão de escopo, mapeamos os usos da teoria da salutogênese no campo da EF. Observa-se que, majoritariamente, os estudos são de natureza quantitativa e de origem anglo-saxônica. A mobilização dos conceitos de SdC e de recursos de saúde indica que os estudos se alinham com o modelo salutogênico de Antonovsky (1979; 1988) que, inclusive, é citado em quase todos os artigos.

Diante dos estudos de natureza quantitativa, observamos que as ações estão direcionadas para uma espécie de “medição da capacidade de nadar” em que se busca observar as associações entre o nível do SdC e da AF. Contudo, Eriksson e Lindström (2008) indicam que usar o questionário do SdC não significa ser guiado pela perspectiva salutogênica, pois a teoria é muito mais ampla do que simplesmente medir o SdC. No campo da EF, podemos dizer que não podemos apenas medir a AF e tentar associá-la ao SdC, porque essa relação é complexa e depende do contexto sociocultural e político.

Na esteira da complexidade apontada, os estudos de natureza qualitativa destacam outras relações entre salutogênese e EF, inclusive, buscando elementos socioculturais que ampliem o entendimento da relação entre o SdC e as PCAF. Nossos achados corroboram o questionamento de McCuaig e Quennerstedt (2018), quando perguntam: onde está o rio da vida na pesquisa salutogênica na EF? Com essa pergunta, eles se referem aos elementos socioculturais e políticos que devem fazer parte da construção das investigações.

Isso vai ao encontro com a preocupação de Antonovsky (1996), sobre o risco de colocarmos o indivíduo como responsável por fortalecer seu SdC. Eriksson e Lindström (2005) alertam para o fato de que há efeitos negativos para a saúde quando as pessoas são estigmatizadas e classificadas em grupos conforme o nível do SdC. Uma vez compreendido isso, o modelo salutogênico só pode ser observado pelo prisma das condições socioculturais, políticas e históricas em que as pessoas estão inseridas. Por esse motivo, Antonovsky (1979) indica que o desenvolvimento do SdC e acesso a recursos de saúde dependerão, sempre, do contexto espaço-temporal.

Logo, é necessário questionarmos o caminho que está sendo posto em curso na pesquisa em salutogênese na EF. Vemos como necessidade esforços para que as pesquisas de natureza quantitativa considerem as complexidades do “rio da vida” com abordagens holísticas. Também, conforme indicam Eriksson e Lindström (2005), é relevante o desenvolvimento de métodos qualitativos na pesquisa salutogênica (o que inclui a pesquisa salutogênica na EF).

Dentro da “metáfora do rio da vida”, em diálogo com McCuaig e Quennerstedt (2018), podemos dizer que não se trata apenas de “medir a capacidade de nadar”, mas de compreender a relação nadador e rio, compreendendo que haverá contextos em que a capacidade de nadar não será suficiente para a produção de saúde. Então, ações para mudar o rio da vida (ou seja, o contexto sociocultural) serão necessárias. No Brasil, esse entendimento é melhor observado, uma vez que a vida da maior parte da população é atravessada por iniquidades e vulnerabilidades construídas historicamente, que afetam o acesso às PCAF. Assim, políticas públicas que promovam equidade (em distribuição igualitária de renda, acesso a moradia, segurança, educação e serviços de saúde, inclusive, as relacionadas às PCAF) são necessárias para reduzir e/ou superar condições perversas de vida (Knuth; Antunes, 2021). Antonovsky (1979) vai chamar esse tipo de ação de medidas de saúde que evitam ou neutralizam os estressores que podem ocorrer nos âmbitos público ou privado.

Ainda tratando do contexto sociocultural, é necessário refletirmos sobre o idioma e a distribuição regional da pesquisa em salutogênese na EF. Em revisão sobre a escala do SdC, Eriksson e Lindström (2005) identificaram que a maioria dos estudos também estava no idioma inglês. Compreendemos que a alta concentração de estudos no continente europeu pode ter duas possíveis hipóteses. A primeira tem relação com o idioma da produção inicial da salutogênese que foi escrita em inglês. A segunda pode ser destacada pelo fato de que os países europeus possuem maior estabilidade socioeconômica, por exemplo, indicado por níveis mais altos do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), o que lhes permite pensar outros caminhos possíveis na área da saúde e do desenvolvimento das PCAF (Knuth; Antunes, 2021).

A alta concentração de estudos no continente europeu indica a necessidade de maior capilaridade da pesquisa nos demais continentes, inclusive, nos países do Sul Global. Nesse sentido, o estímulo da pesquisa em outros idiomas como o português é urgente. A produção de dados contextualizados também é profícua, visto que o contexto sociocultural do Norte Global não é factível com outras realidades. Por exemplo, Almeida e Eusse (2023) indicam que uma abordagem salutogênica pensada para o Norte Global (Kirk, 2023) não é factível no contexto brasileiro (Sul Global). Ainda mais, Palma, Araújo e Rodrigues (2023) criticam uma submissão cega aos estudos do Norte Global e propõem uma postura epistemológica decolonial uma vez que nossos problemas e categorias de pesquisa são construídas em um contexto diferente daquele “nortecentrado”. Isso não implica em um descarte dos conhecimentos produzidos pelos países do Norte Global, mas, uma relação de não dependência a eles.

Apesar de Antonovsky (1979; 1988) ter produzido uma teoria positiva de promoção da saúde, compreendemos, a partir de um contexto do Sul Global e considerando as teorias críticas, que as práticas de enfrentamento dos estressores não apenas demonstram o que as pessoas fazem para produzir saúde (salutogênese). Elas indicam, nitidamente, os arranjos de sobrevivência diante dos estressores produzidos pelas iniquidades que descortinam as condições de desigualdades sociais que geram os processos de estados de tensão e adoecimento das pessoas mais vulneráveis, as quais foram ampliadas em decorrência dos 3 anos de pandemia de covid-19. Logo, a salutogênese não é apenas uma teoria sobre o que a pessoa faz para ter saúde. Principalmente, do ponto de vista do Sul Global, ela se torna uma teoria do que devemos fazer para mudar as condições perversas de vida para que as pessoas possam produzir um modo de existência mais digno e saudável.

Outro ponto observado nos dados corresponde aos ciclos da vida. Há uma menor quantidade de estudos com crianças, provavelmente, por não haver instrumentos específicos difundidos para essa faixa etária. Apesar de Antonovsky (1979; 1988) ter indicado que o SdC é construído no decorrer da vida e que as experiências na infância e juventude são importantes, sua produção se deu a partir de um instrumento para adultos. Logo, difundir instrumentos e elementos para a pesquisa com crianças é algo a ser feito. Nesse sentido, encontramos um instrumento elaborado para a pesquisa com crianças entre 5 e 10 anos de idade (Margalit, 1998). Cabe indicar, ainda, que além de instrumentos quantitativos, a pesquisa pode ocorrer por processos qualitativos a partir da produção imagética e das narrativas das crianças em relação aos seus “rios da vida” (Oliveira, 2023). Já com relação aos contextos de estudo, nota-se uma variedade deles (escolas, comunidade, clubes, hospitais etc.) que corrobora a ideia de que são as diversas experiências de vida, que ocorrem em diferentes espaços-tempos, que moldam o SdC (Antonovsky, 1979; 1988).

A partir da sumarização temática dos dados, pudemos compreender que há uma relação positiva entre o SdC, os recursos de saúde e as PCAF. Porém, vale ressaltar que essa não é uma relação causal, visto a complexidade sociocultural que abarca tais processos. Logo, os usos da salutogênese na EF devem ser sempre contextuais e ponderados pelas condições socioculturais locais. Ainda, pudemos observar que, quando orientadas em perspectivas adequadas, as ações de uma abordagem salutogênica podem contribuir significativamente para uma série de possibilidades quanto ao fortalecimento do SdC, da mobilização de recursos de saúde, do engajamento com as PCAF, da melhoria de fatores psicossociais, do bem-estar e da qualidade satisfatória de vida. Logo, as experiências de vida vinculadas à EF, ao esporte e ao lazer podem se constituir elementos em que as PCAF constituem os próprios recursos de saúde ou criam meios para a mobilização de outros recursos.

5.1 LIMITES DO ESTUDO E INDICAÇÕES PARA FUTURAS PESQUISAS E AÇÕES

A revisão de escopo não se atém à qualidade metodológica, mas aos conceitos e ideias dos estudos. No entanto, como limites, reconhecemos que não buscamos textos em espanhol, que é um idioma recorrente em vários países, inclusive, do Sul Global. Também, é possível ampliar o número de bases de dados para maior abrangência na captação de estudos que tenham ficado de fora.

Com base nos dados e discussões podemos indicar para futuras pesquisas e ações:

  1. Deve haver mais investimento em estudos qualitativos, no ciclo da infância e em outros idiomas (ex.: português).

  2. O desenvolvimento dos estudos deve considerar os elementos socioculturais e contextuais e não apenas medir o nível do SdC.

  3. Abordagens salutogênicas baseadas em pontos fortes podem ser alvo de estudos e ações nos mais variados contextos com foco no desenvolvimento ao longo da vida e fortalecimento do SdC e mobilização de recursos de saúde.

  4. Nas ações é necessário compreender que haverá momentos em que a mudança deve ser do contexto (rio da vida) e não da pessoa (nadador).

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nosso mapeamento indica que o desejo de Antonovsky (1979), de ver a salutogênese sendo utilizada por outros profissionais, vem ocorrendo com o passar do tempo no campo da EF. Logo, essa teoria se mostra profícua alternativa para tensionar a racionalidade patogênica ainda presente na área. Assim, futuras revisões de escopo ou sistemáticas são necessárias para acompanhar esse processo.

Compreendemos que ações relacionadas às PCAF que se digam “promotoras de saúde” devem ser coerentes teoricamente e, nesse sentido, podem ter na salutogênese uma teoria correlata aos anseios da promoção da saúde. Além de uma “novidade teórica” para a EF, a salutogênese pode indicar uma reflexão epistemológica mais profunda na área indicando outros caminhos para a produção do conhecimento e intervenção profissional. Ou seja, nos afastando de um paradigma dominante para um paradigma emergente, se quisermos usar as palavras de Santos (2008).

Vemos com preocupação que as pesquisas relacionadas à salutogênese na EF correm o risco de se manterem no foco individual com um discurso moralista, mas, agora “positivo”, do tipo: “fortaleça seu SdC e seja fisicamente ativo”. Para se afastar disso, um aprofundamento teórico na salutogênese é necessário, inclusive, reconhecendo a “metáfora do rio da vida” (contexto sociocultural) como elemento essencial a ser mobilizado nas pesquisas e ações.

Mesmo diante de tais desafios, vemos com esperança as possibilidades de tensionarmos a hegemonia biomédica no campo da EF e, assim, produzir outras formas de relacionamento com as PCAF na produção das saúdes e na valorização das pessoas e das vidas.

  • FINANCIAMENTO
    O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM) e do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica da Coordenação de Pesquisas da Universidade Federal de Sergipe (PIBIC/COPES/UFS).
  • COMO REFERENCIAR
    ALMEIDA, Meycyhane Nogueira de; LISBOA, Lucas Vinícius Araujo; MEZZAROBA, Cristiano; OLIVEIRA, Victor José Machado de. Os usos da teoria da salutogênese na Educação Física: uma revisão de escopo. Movimento, v. 30, p. e30033. jan./dez. 2024. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.137792
  • 1
    Parte deste estudo foi apresentado como pôster e publicado nos Anais do XXIII Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte e do X Congresso Internacional de Ciências do Esporte. Disponível em: https://www.cbce.org.br/evento/upload/1186/VF-1186-103142.pdf. Acesso em: 26 dez. 2023.
  • 2
    Quennerstedt (2018) chama a atenção para o fato de falarmos de doenças (no plural) e saúde (no singular). Assim, concebe que passemos a entender que não existe apenas uma saúde, mas, “saúdes” – que deve ser considerada um verbo.
  • 3
    Antonovsky (1996) considera que todos estamos no perigoso rio da vida e coloca a questão: quão perigoso é nosso rio e quão bem podemos nadar? O rio representa o constante devir, que traz consigo os estressores nos quais as pessoas precisam tensionar e superar (nadar bem). No entanto, não se trata apenas de nadar bem, mas de compreender o que significa nadar, como se aprende a nadar e como é possível mudar o próprio rio quando se apresenta perigoso (Mccuaig; Quennerstedt, 2018).

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Editado por

  • RESPONSABILIDADE EDITORIAL
    Alex Branco Fraga*, Elisandro Schultz Wittizorecki*, Mauro Myskiw*, Raquel da Silveira*
    *Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Porto Alegre, RS, Brasil.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Dez 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    30 Dez 2023
  • Aceito
    15 Jul 2024
  • Publicado
    28 Out 2024
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