Resumo
Este estudo teve como objetivo investigar a participação, o desempenho e a trajetória de atletas paralímpicas brasileiras. Como fonte de dados, utilizamos o relatório Jogos Paralímpicos Tóquio 2021 elaborado pela então Secretaria Especial do Esporte e Ministério da Cidadania. Os resultados mostraram que a maioria das atletas possui deficiência adquirida e iniciou tardiamente no esporte paralímpico, com uma rápida ascensão ao alto rendimento. Algumas atletas migraram entre modalidades ao longo da carreira, destacando a diversidade de suas experiências. Amigos e amigas, familiares e clubes foram essenciais no processo de inserção dessas atletas no esporte. A análise também mostrou que a maioria nasceu na região Sudeste do país e que o tamanho populacional da cidade de origem não foi determinante para o seu desenvolvimento esportivo. Esses achados oferecem visibilidade às histórias dessas mulheres e reforçam a importância de redes de apoio e ambientes inclusivos para a promoção do esporte adaptado.
Palavras-chave
Deficiência; Carreira; Gênero
Abstract
This study aimed to investigate the participation, performance, and trajectory of Brazilian female Paralympic athletes. The data source used was the Tokyo 2021 Paralympic Games report, prepared by the Special Secretariat for Sports and the Ministry of Citizenship. The results showed that most athletes had an acquired disability and started late in Paralympic sports, with a rapid rise to elite performance. Some athletes transitioned between sports throughout their careers, highlighting the diversity of their experiences. Friends, family members, and clubs were essential in their introduction to sports. The analysis also revealed that most athletes were born in the Southeast region of Brazil, but the size of their hometown was not a determining factor in their athletic development. These findings bring visibility to these women's stories and reinforce the importance of support networks and inclusive environments for the promotion of adaptive sports.
Keywords
Disability; Career; Gender
Resumen
Este estudio tuvo como objetivo investigar la participación, el rendimiento y la trayectoria de las atletas paralímpicas brasileñas. Como fuente de datos, utilizamos el informe de los Juegos Paralímpicos de Tokio 2021, elaborado por la entonces Secretaría Especial del Deporte y el Ministerio de Ciudadanía. Los resultados mostraron que la mayoría de las atletas tenía una discapacidad adquirida y comenzó tardíamente en el deporte paralímpico, con un ascenso rápido al alto rendimiento. Algunas atletas cambiaron de modalidades a lo largo de sus carreras, lo que destaca la diversidad de sus experiencias. Amigos, familiares y clubes fueron esenciales en el proceso de inserción de estas atletas en el deporte. El análisis también mostró que la mayoría nació en la región Sudeste de Brasil, pero el tamaño de la ciudad de origen no fue un factor determinante para su desarrollo deportivo. Estos hallazgos ofrecen visibilidad a las historias de estas mujeres y refuerzan la importancia de las redes de apoyo y los entornos inclusivos para la promoción del deporte adaptado.
Palabras clave
Discapacidad; Carrera; Género
1 INTRODUÇÃO
A participação de mulheres como praticantes esportivas tem recebido crescente atenção da literatura científica. Entre os diferentes contextos de prática esportiva, o alto rendimento tem sido amplamente investigado devido ao seu protagonismo e visibilidade mundial (Fraser; Kochanek, 2023; Thomson et al., 2023). Nesse cenário, estudos nacionais mostraram o aumento da participação das atletas em Jogos Olímpicos ao longo dos anos (Giglio et al., 2018) e exploram suas trajetórias no esporte de alto rendimento (Galatti et al., 2019; Lima et al., 2023). O conhecimento sobre os diferentes caminhos percorridos por elas é importante para a proposta de políticas esportivas que ofereçam suporte e promovam um esporte com maior equidade. Entretanto, é importante lembrar que esses estudos têm dedicado a atenção às mulheres no esporte olímpico e, consequentemente, restringido as ações a esse grupo específico. Mulheres de diferentes grupos identitários, como aquelas com deficiência, ainda têm sido esquecidas pela literatura científica e formuladores de políticas esportivas (Kirakosyan, 2021).
A generalização das barreiras e experiências do esporte para pessoas sem deficiência em relação ao esporte para pessoas com deficiência minimiza a importância das vivências das mulheres nesse contexto, ao desconsiderar o caráter histórico e político que molda essas experiências (Olenik; Matthews; Steadward, 1995). Sabemos que menos mulheres com deficiência participam da prática esportiva, em comparação aos homens, e as razões por trás dessa desigualdade são diversas e complexas (Kirakosyan, 2021). Huang e Brittain (2006) sugeriram que as mulheres com deficiência no esporte, em comparação aos homens, enfrentam mais barreiras sociais e culturais que, por sua vez, limitam suas oportunidades esportivas e muitas vezes as desencorajam a seguir nessa carreira. As mulheres que desejam seguir no esporte de alto rendimento frequentemente enfrentam uma dupla discriminação, ligada tanto à deficiência quanto ao gênero, agravada por barreiras sistêmicas em um ambiente esportivo amplamente dominado por homens (Olenik; Matthews; Steadward, 1995, Alves, 2023).
Diante dessa urgente necessidade de conhecer as diferentes trajetórias de mulheres com deficiência no esporte de alto rendimento, poucos estudos se dedicaram a estudar esse fenômeno no território nacional. Em 2021, a pesquisadora Lyusyena Kirakosyan publicou os resultados encontrados a partir de entrevistas realizadas com as atletas que participaram dos Jogos Paralímpicos Rio 2016. A autora mostrou que alguns dos maiores problemas enfrentados pelas atletas em sua trajetória estão relacionados à falta de conscientização sobre recursos, pobreza, suporte insuficiente, falta de transporte adequado e indisponibilidade de instalações acessíveis. A pesquisadora reforça que os caminhos percorridos por essas mulheres são complexos e representam as relações intrincadas que cada uma tem com as normas sociais relacionadas ao gênero, à deficiência, ao esporte e ao corpo. Além disso, Gomes, Morato e Almeida (2011) destacaram, em seu estudo sobre mulheres atletas de judô paralímpico, os atravessamentos enfrentados pelas brasileiras, que envolvem questões de deficiência, classe social e gênero. As atletas relataram dificuldades em se constituir como pessoa com deficiência, pertencente a uma camada social vulnerável e praticante de uma modalidade historicamente dominada por homens.
Mais recentemente, Krahenbühl et al. (2022) investigaram a carreira esportiva das atletas da seleção brasileira de voleibol sentado que participaram dos Jogos Paralímpicos Rio 2016. As autoras mostraram que a carreira esportiva costuma aparecer após a lesão física, como parte do processo de reabilitação, e que a dupla carreira é comum entre essas atletas devido à dificuldade de se viver exclusivamente do esporte. Além disso, o estudo mostrou a ausência de um planejamento em relação ao pós-carreira, como também evidenciado por Patatas et al. (2020).
Os estudos citados anteriormente investigaram alguns dos aspectos que compõem a carreira esportiva de atletas paralímpicas. De acordo com Stambulova et al. (2009), a carreira esportiva pode ser definida por como um conjunto de atividades esportivas realizadas dentro de um período de tempo, incluindo as vivências da iniciação ao alto rendimento, com o objetivo de alcançar elevados níveis de desempenho dentro de uma modalidade. Nesse sentido, a carreira esportiva perpassa por vários estágios e transições, além de abranger diversos aspectos pessoais, sociais e profissionais. Portanto, outras variáveis relacionadas à carreira esportiva das atletas paralímpicas poderiam ser investigadas contribuindo para o conhecimento sobre as especificidades de suas trajetórias.
Entre elas, a literatura científica tem indicado que o local de nascimento, principalmente em relação ao tamanho populacional, influencia as oportunidades de treinamento e disponibilidade de infraestrutura que impactam diretamente a carreira esportiva de atletas olímpicos (Côté; Baker; Abernethy, 2007). Além disso, a idade de início no esporte paralímpico tem sido objeto de estudo, buscando compreender se há um processo de especialização precoce ou se a introdução às modalidades ocorre de forma mais tardia, o que pode impactar o desenvolvimento da carreira e o desempenho das atletas (Baker; Cobley; Fraser‐Thomas, 2009). Por fim, investigar a forma como essas atletas são introduzidas no esporte paralímpico também pode oferecer informações valiosas para futuros formuladores de políticas esportivas, permitindo que se desenvolvam propostas mais eficazes que incentivem a participação de meninas e mulheres no esporte paralímpico, promovendo a inclusão e o acesso equitativo ao esporte (De Bosscher et al., 2015).
Diante dessas perguntas ainda abertas em relação às carreiras esportivas de atletas paralímpicas, este estudo tem como objetivo investigar a participação, o desempenho e a trajetória de atletas paralímpicas brasileiras participantes dos Jogos Paralímpicos Tóquio 2021.
2 MÉTODOS
Esse é um estudo de caráter observacional e descritivo que utilizou os métodos mistos para a coleta de dados, combinando técnicas quantitativas e qualitativas a fim de obter uma compreensão mais abrangente das trajetórias das atletas (Creswell, 2014). Esse método possibilitou uma análise mais completa, unindo a objetividade dos dados numéricos com a riqueza das narrativas individuais (Creswell, 2014). Seu caráter descritivo e retrospectivo possibilitou descrever as características e explorar fatos do passado desse grupo específico de mulheres.
Como fonte de dados foi utilizado o relatório Jogos Paralímpicos Tóquio 2021 elaborado pela então Secretaria Especial do Esporte e Ministério de Cidadania (Brasil, 2021). Para cada atleta, o documento apresentou as seguintes informações: i) data de nascimento e idade; ii) naturalidade (cidade e estado); iii) prova; iv) classe; v) bolsa atleta 2021; vi) bolsa atleta no ciclo paralímpico; vii) Jogos Paralímpicos disputados; viii) Instagram; ix) histórico. Essas informações eram acompanhadas por textos descrevendo a trajetória dessas atletas. Todas as informações das atletas brasileiras presentes nessa edição dos Jogos Paralímpicos foram coletadas e tabuladas em uma planilha de Excel.
Além do documento mencionado acima, os relatórios “Resultados dos Jogos Paralímpicos de Tóquio 2020” (CPB, 2021a) e “Guia de Imprensa: Jogos Paralímpicos de Tóquio 2020 (CPB, 2021b)” elaborados pelo Comitê Paralímpico Brasileiro em 2021 também foram utilizados como fonte para a coleta de informações sobre a quantidade de participantes por prova e seus respectivos desempenhos na competição.
Os dados qualitativos nominais foram resumidos em frequências relativas e absolutas. A partir desses dados, foi possível analisar a quantidade de atletas em cada prova e a quantidade de vezes que participaram dos Jogos Paralímpicos. Esse procedimento também foi utilizado para analisar os locais de nascimento das atletas. O tamanho populacional das cidades de nascimento foi coletado no site oficial do IBGE Cidades1 considerando os resultados do último censo (2022). A partir da data de nascimento foi possível calcular a idade das atletas em cada edição dos Jogos e também quando iniciaram no esporte paralímpico. Esse dado quantitativo contínuo foi analisado utilizando média, desvio padrão e histograma. Para essas análises foram utilizados os dados de todas as atletas participantes nos Jogos Paralímpicos Tóquio 2021 disponibilizados nos relatórios mencionados acima.
As informações disponibilizadas sobre a trajetória das atletas foram lidas na íntegra e exploradas a partir de um processo indutivo de análise. Com base na definição de códigos durante a leitura, foi possível identificar similaridades e singularidades nas suas trajetórias. Entre os principais temas de análise foram identificados: i) esportes praticados antes e depois da aquisição da deficiência; ii) a iniciação tardia no esporte paralímpico; iii) agentes responsáveis pela iniciação no esporte paralímpico. Os temas foram explorados a partir de relatos disponibilizados no tópico “Trajetórias” dos Resultados.
3 RESULTADOS
3.1 PARTICIPAÇÃO E DESEMPENHO
Ao todo foram analisadas as participações de 94 mulheres brasileiras que disputaram os Jogos Paralímpicos Tóquio 2021, representando 37% da delegação brasileira. Sua idade mínima era de 17 anos, a máxima de 56 anos e a média de 31,0 (8,3) anos. A Tabela 1 apresenta a participação e o desempenho das atletas nas modalidades disputadas. É importante notar a ausência de atletas mulheres em quatro modalidades: badminton, futebol de 5, hipismo e tiro. A maior participação, em relação ao total de atletas em cada modalidade, se deu no parataekwondo, remo, tênis de mesa e tiro com arco. Em relação ao desempenho, as atletas apresentaram resultados expressivos nas provas de atletismo, halterofilismo, natação, judô, parataekowndo, tênis de mesa, e vôlei sentado.
Participação e desempenho das atletas brasileiras que participaram dos Jogos Paralímpicos Tóquio 2021.
Em relação à participação em Jogos Paralímpicos, notamos que a maioria das atletas era estreante com apenas uma participação ao longo de todas as edições.
3.2 ORIGEM E INÍCIO NO ESPORTE PARALÍMPICO
A Figura 2 apresenta o estado de nascimento das atletas brasileiras que participaram dos Jogos Paralímpicos Tóquio 2021. Encontramos uma predominância de atletas nascidas na região sudeste, especificamente nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
A Tabela 2 apresenta o tamanho das cidades em que nasceram as atletas paralímpicas brasileiras. Encontramos uma distribuição homogênea em função do tamanho populacional, com atletas nascidas em cidade de pequeno, médio e grande porte.
Tamanho das cidades em que nasceram as atletas brasileiras que participaram dos Jogos Paralímpicos Tóquio 2021.
A Figura 3 apresenta a idade de primeiro contato das atletas com o esporte paralímpico. As mais novas iniciaram no esporte com 8 anos e, como exceção, algumas mulheres tiveram seu primeiro contato com o esporte paralímpico aos 42 anos. A idade média de início dessa prática esportiva foi de 19,5 (8,2) anos.
3.3 TRAJETÓRIAS
As trajetórias esportivas de pessoas com deficiência (PCD) são marcadas por diversos fatores, tais como a natureza da deficiência (se é congênita ou adquirida), oportunidades esportivas, classificação funcional, reabilitação, entre outros. Gomes, Winckler e Trigo (2024) apresentaram o Modelo de Desenvolvimento Paradesportivo (MDP) na tentativa de mapear os caminhos das PCDs na atividade física e esportes, bem como propor percursos sustentáveis e coerentes.
Os modelos foram divididos em modelo congênito e modelo adquirido. No congênito, a criança nasce ou apresenta a deficiência até os 3 anos e o MDP sugere que a primeira etapa da sua trajetória esportiva seja a estimulação inicial, ou seja, a apresentação de estímulos motores, cognitivos e psicossociais logo que a deficiência seja diagnosticada. Por outro lado, no modelo congênito, se a criança adquire a deficiência antes da puberdade, entende-se que sua deficiência é precoce, enquanto a aquisição pós-púbere é considerada uma deficiência tardia (Gomes; Winckler; Trigo, 2024).
O início tardio na atual modalidade paralímpica pode ser acompanhado por aspectos como a aquisição de uma deficiência ao longo da vida e a vivência prévia de outras modalidades paradesportivas, como no caso da remadora Cláudia Santos que se acidentou aos 23 anos e iniciou o treinamento esportivo cinco anos depois.
Cláudia Santos foi atropelada em 2000, quando saía do trabalho, e precisou amputar a perna direita por completo. Em 2005, começou na natação e dois anos depois, conheceu o remo. Em oito meses de treino participou do Mundial de Munique, onde conquistou a medalha de ouro. (Brasil, 2021 , p. 123)
Ainda nessa modalidade, a atleta Diana, aos 16 anos, “sofreu um acidente em 2004 e perdeu a perna direita, abaixo do joelho. Em 2016, começou no remo paralímpico. Antes, praticou a vela” (Brasil, 2021, p. 124). Em ambos os relatos notamos que as deficiências foram decorrentes de acidentes e que, depois desse evento, conheceram o esporte paralímpico. Inicialmente, começaram a prática em diferentes modalidades, como a natação e a vela, e posteriormente migraram para o remo.
Outro fato que chama a atenção é a rápida ascensão ao alto rendimento. No caso de Cláudia Santos, após oito meses de treinamento, a atleta se tornou medalhista de ouro no mundial da modalidade. Uma realidade parecida é apresentada pela atleta de parataekwondo, Silvana Fernandes.
Silvana Fernandes tem má-formação congênita no braço direito e começou a praticar atletismo aos 15 anos. Conheceu o parataekwondo pela internet, em 2018, e no ano seguinte recebeu sua primeira convocação para a seleção brasileira. (Brasil, 2021, p. 120)
Mesmo tendo uma deficiência congênita, a atleta iniciou tardiamente no esporte, quando já tinha alcançado os 15 anos. De forma similar às trajetórias anteriores, ela começou sua prática esportiva no atletismo e somente anos mais tarde conheceu sua modalidade atual, o parataekwondo. Entretanto, em menos de um ano como praticante da modalidade foi convocada para representar a seleção brasileira.
Vale destacar que nem todas as atletas iniciam seu contato com o esporte em modalidades paralímpicas. Algumas trajetórias são marcadas pela prática do esporte olímpico antes da aquisição da deficiência ao longo da vida, como podemos notar no caso da atleta Laiana Rodrigues.
Laiana Rodrigues era atleta convencional de vôlei. Aos 18 anos, teve dengue hemorrágica e a manifestação da síndrome de Guillain Barré, doença autoimune. Suas pernas ficaram paralisadas e seu pé direito caído. Ela conheceu a modalidade paralímpica 15 anos depois, aos 33 anos. (Brasil, 2021, p. 159)
A atleta jogava a modalidade de vôlei e, após o desenvolvimento de uma síndrome, iniciou no esporte paralímpico. Outro aspecto que chama atenção é o fato de ter iniciado na modalidade paralímpica em uma idade tardia, aos 33 anos. Em outros casos também encontramos a prática do esporte durante a infância e juventude, e o início em uma nova modalidade paralímpica após o desenvolvimento da deficiência. No caso da atleta de tênis de mesa Cátia Oliveira, “Em outubro de 2007, aos 16 anos, Cátia sofreu um acidente automobilístico e ficou tetraplégica. A atleta era jogadora de futebol e, após se recuperar do acidente, conheceu o tênis de mesa a convite de uma amiga” (Brasil, 2021, p. 130).
Ao longo dessas trajetórias também encontramos diferentes pessoas ou organizações responsáveis por aproximar as atletas das modalidades paralímpicas. No caso da atleta Cátia, notamos que seu retorno ao esporte foi proporcionado a partir do convite de uma amiga. Já no caso de Nathalie Filomena, atleta de vôlei, a volta ao esporte aconteceu a partir do convite do próprio clube em que praticava a modalidade tradicional. “A atleta jogava vôlei em pé desde a infância. Aos 15 anos, recebeu uma ligação do clube onde praticava a modalidade convencional para conhecer o vôlei sentado.” (Brasil, 2021, p. 160). Também encontramos a influência de familiares, representado pelos irmãos que, no caso de Karla Cardoso e Lúcia Teixeira, estimularam as irmãs a começarem a praticar o judô paralímpico.
4 DISCUSSÃO
O aumento da representação de mulheres brasileiras nos Jogos Paralímpicos de verão ao longo do tempo reflete um progresso significativo em relação a sua inclusão e reconhecimento no esporte. Esse crescimento demonstra uma evolução positiva na presença e visibilidade das mulheres nesse cenário esportivo. Além disso, na delegação brasileira, o número de atletas mulheres também aumentou consideravelmente nas últimas edições de Jogos Paralímpicos, embora ainda não tenha chegado nos 40% do total. É importante lembrar que em algumas modalidades elas têm maior e, em outras, menor representatividade. Por exemplo, nas modalidades de parataekowondo, remo, tênis de mesa e tiro com arco há uma maior participação de mulheres do que homens. Em contrapartida, em outras modalidades elas se encontram sub-representadas, reforçando a importância das políticas esportivas para reverter o cenário nesses esportes.
No caso deste estudo, percebemos que a maioria das atletas iniciaram tardiamente no esporte paralímpico. Esses resultados corroboram achados anteriores com as atletas da seleção brasileira de voleibol sentado (Krahenbühl et al., 2022) e em outras pesquisas com o esporte paralímpico (Sanchotene; Mazo, 2018). Diversas atletas praticavam outras modalidades durante a infância e juventude antes do desenvolvimento da deficiência, como também mostrado por Krahenbühl et al. (2022). Nesse sentido, saber se a deficiência é congênita ou adquirida, e se antes da deficiência houve experimentação, prática ou até mesmo treinamento esportivo, são informações que devem ser levadas em consideração no estudo da carreira dessas atletas (Patatas et al, 2022).
Os achados também mostraram que é comum as atletas iniciarem em uma modalidade paralímpica e depois mudarem para outra. Isso pode estar associado ao fato de descobrirem o esporte durante o processo de reabilitação como observado por Patatas et al. (2020) nas etapas da carreira de atletas paralímpicos (atração, retenção e competição). O modelo de sistematização paradesportiva na reabilitação de pessoas com deficiência proposto por Costa, Ribeiro Neto e Winckler (2024) também corrobora esses achados ao mostrar que a pessoa é apresentada a diferentes esportes na primeira etapa de seu processo de reabilitação de acordo com seu potencial remanescente. Numa segunda etapa ela participa de modalidades esportivas com objetivo de qualidade de vida, saúde e lazer e na terceira etapa ela se especializa em uma modalidade e inicia no sistema competitivo.
No nosso estudo, também identificamos uma diversidade de agentes envolvidos no processo de iniciação das atletas no esporte paralímpico, como amigos, amigas, familiares e os próprios clubes esportivos, corroborando a importância de múltiplos agentes na promoção do esporte (Barreira et al., 2022). Além disso, esses resultados que destacam a importância das redes de apoio na inclusão de pessoas com deficiência no esporte (Patatas et al., 2020). De acordo com as autoras, a presença de figuras de incentivo próximas, como amigos e familiares, é fundamental para que as atletas superem barreiras iniciais, como o desconhecimento sobre as modalidades paralímpicas e a falta de confiança em suas capacidades físicas. Além disso, os clubes desempenham um papel crucial ao oferecer as primeiras oportunidades estruturadas de prática esportiva, permitindo que essas mulheres desenvolvam suas habilidades e construam uma trajetória no esporte.
Nesse estudo, também encontramos que a maioria das atletas paralímpicas são nascidas na região Sudeste do país, corroborando achados com atletas olímpicos. Por exemplo, uma análise dos atletas brasileiros que competiram nas Olimpíadas de Tóquio 2021 revelou que a maioria dos atletas brasileiros nasceu na região Sudeste, particularmente nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro (Thuany et al., 2021). Esses resultados podem ser explicados pelo maior desenvolvimento econômico da região que pode implicar em maior investimento financeiro no esporte. Segundo Haiachi et al. (2016), os recursos financeiros podem melhorar as condições de treinamento em questões estruturais (locais de treino), tecnológicas e afetivas (apoio familiar e convívio com equipe multidisciplinar). No caso do esporte paralímpico, é importante destacar que o Centro de Treinamento Paraolímpico Brasileiro, a principal estrutura nacional para o desenvolvimento do esporte paralímpico de alto rendimento, está situado na cidade de São Paulo, favorecendo o desenvolvimento de atletas que nascem e se desenvolvem próximos dessa região.
Por fim, diferentemente dos estudos com modalidades olímpicas, não encontramos um efeito do tamanho da cidade de nascimento no desenvolvimento das atletas. Estudos com atletas olímpicos mostraram que pessoas nascidas em cidades de médio porte (geralmente entre 50.000 e 400.000 habitantes) têm maior probabilidade de alcançar o nível de elite, em comparação com aqueles nascidos em cidades muito grandes ou muito pequenas (Hancock et al., 2018). Isso é atribuído a uma combinação de acesso adequado a instalações, oportunidades competitivas e uma estrutura comunitária que apoia o desenvolvimento dos jovens atletas, sem a competição intensa ou a estratificação observada em cidades maiores (Hancock et al., 2018). No entanto, essa relação não se confirmou no contexto do esporte paralímpico, possivelmente devido às particularidades das trajetórias dessas atletas. Enquanto o esporte olímpico frequentemente envolve uma iniciação esportiva ainda na infância, muitas atletas paralímpicas começam sua prática esportiva já na idade adulta, seja em função do momento de aquisição da deficiência ou da descoberta tardia das oportunidades dentro do esporte adaptado, minimizando a influência de fatores geográficos no seu desenvolvimento esportivo.
No caso do esporte paralímpico brasileiro, a trajetória das atletas parece ser mais influenciada pela região de nascimento, ou seja, a Sudeste, do que pelo tamanho da cidade. Nesse sentido, o direcionamento de maior financiamento e recursos em regiões sub-representadas, pode garantir que as atletas com deficiência nessas áreas tenham acesso à infraestrutura, treinamento e oportunidades necessárias. Esse investimento pode potencializar a construção de mais instalações esportivas inclusivas e o desenvolvimento de programas que visem especificamente áreas onde o acesso ao esporte é limitado.
Embora esse estudo tenha avançado com a literatura nacional ao visibilizar as diferentes trajetórias de atletas paralímpicas de alto rendimento, também é importante reconhecer as suas limitações. O estudo utilizou como principal coleta de dados as informações disponibilizadas pelo Guia de Atletas Paralímpicos Tóquio 2021(CPB, 2021b). Portanto, os achados são baseados somente nas atletas participantes dessa edição do campeonato e nas informações disponibilizadas nesse documento. Embora as questões de gênero, raça e classe influenciem a carreira das mulheres no esporte (Barreira, 2021), elas não foram aprofundadas nesse estudo uma vez que não foram abordadas no relatório utilizado para a coleta de dados. Assim, entrevistas com atletas poderiam revelar mais detalhes e singularidades dos suportes e desafios vivenciados por elas ao longo da sua trajetória.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao explorar os diferentes caminhos percorridos por atletas brasileiras paralímpicas no esporte de alto rendimento, encontramos similaridades e singularidades nas suas trajetórias. Em relação às similaridades, notamos que a maioria das atletas tem uma deficiência adquirida e que iniciam no esporte paralímpico mais tardiamente em relação às modalidades olímpicas. Depois de iniciarem no esporte paralímpico, as atletas apresentam uma rápida ascensão aos esportes de alto rendimento. Nesse contexto, a maioria das atletas relatam ter participado de uma ou duas vezes em Jogos Paralímpicos, evidenciando a dificuldade de manterem o elevado nível de desempenho esportivo.
Ao analisar as diferentes trajetórias das atletas, observamos que algumas delas tiveram experiências esportivas antes da aquisição da deficiência, enquanto outras iniciaram sua prática esportiva de forma mais tardia, já em um contexto paralímpico. Esse aspecto evidencia a diversidade de caminhos percorridos, em que nem todas começaram diretamente na modalidade em que competem atualmente. Muitas atletas iniciaram em uma modalidade esportiva e, ao longo de suas carreiras, migraram para outra, adaptando-se às novas exigências e oportunidades do esporte paralímpico.
Além disso, o processo de inserção dessas atletas no esporte não foi homogêneo e contou com a participação de diversos agentes do sistema esportivo. Amigos, familiares e até clubes desempenharam papéis fundamentais na introdução dessas mulheres ao esporte paralímpico. Esses agentes foram cruciais para o desenvolvimento inicial das atletas, oferecendo suporte, incentivo e acesso às primeiras experiências nesse ambiente. A complexidade desse processo reflete a importância de redes de apoio e de ambientes inclusivos que permitam a entrada e a permanência de meninas e mulheres no esporte, ampliando suas possibilidades de desenvolvimento e desempenho ao longo de suas carreiras.
Por fim, a análise do local de nascimento revelou que a maioria das atletas paralímpicas brasileiras nasceu na região Sudeste do país. No entanto, essas atletas vêm de cidades de diferentes tamanhos, sugerindo que o porte da cidade de origem não é necessariamente um fator determinante para o desenvolvimento esportivo. Uma linha de investigação futura seria explorar o impacto dos mais de 60 Centros de Referência Paralímpicos, implementados pelo Comitê Paralímpico Brasileiro em diversas cidades do país, que têm ampliado o acesso ao esporte para pessoas de regiões urbanas menores.
Este estudo representa um importante passo ao trazer visibilidade para as histórias dessas atletas, destacando suas trajetórias e os desafios no esporte paralímpico. Esperamos que esses achados iniciais incentivem futuras pesquisas sobre mulheres com deficiência no esporte, ampliando o conhecimento e a compreensão sobre suas vivências. Além disso, acreditamos que as trajetórias aqui compartilhadas possam inspirar as novas gerações a iniciarem e se desenvolverem nas modalidades paralímpicas, contribuindo para a inclusão e o fortalecimento do esporte adaptado no Brasil.
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IBGE. Estados e cidades do Brasil. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br. Acesso em: 24 ago. 2024.
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FINANCIAMENTO
O presente trabalho foi realizado sem o apoio de fontes financiadoras.
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COMO REFERENCIAR
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DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA
Os dados de pesquisa só estão disponíveis mediante solicitação.
REFERÊNCIAS
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RESPONSABILIDADE EDITORIAL
Alex Branco Fraga* https://orcid.org/0000-0002-6881-1446André Luiz dos Santos Silva* https://orcid.org/0000-0002-9838-2558Elisandro Schultz Wittizorecki* https://orcid.org/0000-0001-7825-0358Mauro Myskiw* https://orcid.org/0000-0003-4689-3804Raquel da Silveira* https://orcid.org/0000-0001-8632-0731* Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Porto Alegre, RS, Brasil.




Fonte: Elaborado pelas próprias autoras com base no relatório Jogos Paralímpicos Tóquio 2021 elaborado pela então Secretaria Especial do Esporte e Ministério de Cidadania (
Fonte: Elaborado pelas próprias autoras com base no relatório Jogos Paralímpicos Tóquio 2021 elaborado pela então Secretaria Especial do Esporte e Ministério de Cidadania (
Fonte: Elaborado pelas próprias autoras com base no relatório Jogos Paralímpicos Tóquio 2021 elaborado pela então Secretaria Especial do Esporte e Ministério de Cidadania (Brasil, 2021).