Open-access Emoções e política: a prática do terruqueo nos protestos peruanos de 2022-2023

Emotions and politics: the practice of terruqueo in the 2022-2023 protests in Peru

Resumo

Após a saída de Pedro Castillo da Presidência peruana instaurou-se um clima político de exceção que buscava justificar a repressão estatal. Este processo apoiou-se no terruqueo, prática de estigmatização que visa associar um indivíduo ou grupo ao terrorismo, em referência aos tempos de conflito armado interno (1980-2000). O presente artigo pretende analisar os sentidos e impactos deste dispositivo enquanto parte de uma política afetiva, investigando como a produção e circulação de emoções (medo, dor, ódio e asco) contribuíram para a construção do “outro” nos protestos de dezembro de 2022 a fevereiro de 2023. Com este fim, examina pronunciamentos oficiais, materiais jornalísticos, relatórios e publicações em redes sociais do período. As reflexões baseiam-se nos estudos atmosféricos, que, a partir do conceito de clima, enfocam as tonalidades afetivas dos ambientes e as emoções sedimentadas na memória coletiva, e nos aportes de Sarah Ahmed sobre o papel da economia dos afetos na disposição social dos corpos. O terruqueo é abordado, assim, à luz dos mecanismos de gestão dos humores e de sintonização dos seres com os seus entornos.

Palavras-chave
emoções; política; terruqueo ; Peru; clima

Abstract

After Pedro Castillo left the Peruvian Presidency, a political climate of exception was established which sought to justify state repression. This process was supported by the terruqueo, a stigmatization practice that aims to associate an individual or group with terrorism, in reference to the times of internal armed conflict (1980-2000). This article aims to analyze the meanings and impacts of this device as part of an affective politics, investigating how the production and circulation of emotions (fear, pain, hatred and disgust) contributed to the construction of the “other” in the protests of December 2022 to February 2023. To this end, it examines official statements, journalistic materials, reports and social media posts from that period. The reflections are based on atmospheric studies, which, with the concept of climate, focus on the affective tonalities and the emotions sedimented in collective memory, and on Sarah Ahmed’s contributions to the role of the economy of affections in the social disposition of bodies. The terruqueo is analyzed through the mechanisms for managing moods and attuning beings to their surroundings.

Keywords
emotions; politics; terruqueo ; Peru; climate

1 Considerações iniciais

Os helicópteros rasgavam o céu de Huamanga enquanto os militares recém-chegados de outras regiões do Peru disparavam incessantemente contra os corpos dos manifestantes. Na aproximação realizada por Hans Gumbrecht (2014, p. 13) entre música e clima atmosférico, o autor afirma que o som é “uma forma de realidade física (ainda que invisível) que ‘acontece’ aos nossos corpos e que, ao mesmo tempo, os ‘envolve’”. Gabriel Peters (2024, p. 4), no mesmo sentido, sustenta que as atmosferas “não são apenas realidades decodificadas com a mente ou percebidas pelo aparelho auditivo, mas ondas físicas que circundam, impactam e atravessam nossa pele”.

Para Paula Aguilar Yucra, as balas e as aeronaves, ouvidas durante toda a tarde de 15 de dezembro de 2022, marcaram o retorno de outros tempos. Ela declara a Rivas (2022, s.p., tradução nossa) que “não escutava esse som dos helicópteros desde o ‘tempo do perigo’”3. Afetada por esses sons, tocada, como que de dentro, usando aqui o belo paradoxo da escritora Toni Morrison, Paula evoca memórias dolorosas do período de conflito armado interno (1980-2000), referindo-se à primeira vez que escutou um helicóptero, ainda em seu povoado natal: “Isso matou tanta gente no meu povoado, nem pudemos enterrar”4 (Rivas, 2022, s.p., tradução nossa). Agora deve sepultar seu sobrinho, um dos 10 assassinados na jornada de repressão, algo que no passado não pôde oferecer nem à sua mãe, vítima do grupo terrorista Sendero Luminoso, nem ao seu irmão, desaparecido nas mãos dos militares.

Neste ponto, a história de vida de Paula exemplifica o processo de violência política vivido pelo Peru, tanto pela natureza dos perpetradores e das vítimas5 quanto pela estigmatização dos familiares em luto, que, na sua busca por justiça, são revitimizados ao serem tachados de terroristas ou terrucos – termo coloquial para a designação do inimigo na guerra contraterrorista que, estendido ao debate público como insulto, reuniu

[...] quatro aspectos desprezíveis: uma conduta política censurável (ser subversivo, rebelar-se contra o Estado ou seus atores armados, ser antipatriota), uma atuação criminosa (cometer atos terroristas, assassinar, matar, destruir), uma condição étnico-social (ser serrano, indígena, falar quéchua, ser pobre) e uma qualidade moral/intelectual (sujeitos irracionais, fanatizados, a maldade em si mesma)

(Bolo-Varela et al., 2023, p. 14, tradução nossa).

Enquanto estratégia discursiva recorrente, o dispositivo do terruqueo integra uma política afetiva que funciona mediante a repetição de estereótipos já existentes para o reconhecimento de certos grupos sociais como possíveis ameaças e, por conseguinte, como temíveis, odiáveis e asquerosos (Ahmed, 2015). Delineada a categoria identitária do que parece ser ou se comporta como um terrorista, isto ampara a ação policial6. Colado aos corpos racializados e um assédio às suas existências, o estigma evoca uma série de emoções acumuladas que podem ser analisadas a partir do conceito de atmosfera, a qual carrega, conforme Gherlone (2021, p. 27, tradução nossa), “uma dimensão marcadamente temporal, já que conecta o passado e o presente, trazendo ao presente as experiências que foram se sedimentando na forma de memória coletiva transgeracional”. No mesmo sentido, o conceito de clima lança luz sobre a ambientação social dos fenômenos, uma questão normalmente negligenciada nos estudos discursivos entronizadores da racionalidade e possibilita pensar o acesso à esfera pública mediante a sintonização dos sujeitos em relação às referências afetivas de suas práticas (Gajanigo, 2020).

Com esse entendimento, novas possibilidades se abrem para abordar a disputa pelo clima político vivido no Peru após a tentativa de autogolpe de Pedro Castillo em 7 de dezembro de 2022 e a posse de Dina Boluarte como nova presidenta. A utilização do terruqueo nessa disputa é objeto de análise do presente trabalho; os próximos parágrafos esboçam interpretações sobre as operações emocionais desenvolvidas por diferentes agentes na atuação sobre a crise que deixou mais de 50 mortos e centenas de feridos. Para tal fim, recorre-se a amplo e diverso material: pronunciamentos oficiais, entrevistas de vozes estatais e vítimas da repressão em meios televisivos e escritos, crônicas, reportagens e artigos jornalísticos, relatórios de organismos internacionais e publicações em redes sociais. Este acervo reúne informações produzidas entre dezembro de 2022 e fevereiro de 2023, viabilizando, dessa forma, o estudo do processo de construção do inimigo nos primeiros meses da presidência de Boluarte, para o qual o medo, a dor, o ódio e o asco desempenharam importante papel. O recorte temporal está determinado pela importância da ativação do dispositivo do terruqueo na resolução do impasse gerado pela derrocada de Pedro Castillo, cobrindo, portanto, o período mais intenso de protestos populares.

Dessa forma, o corpus procura abrigar um conjunto de documentos representativos da política afetiva articulada no intervalo de tempo analisado. Após uma ampla revisão dos discursos produzidos, os conteúdos foram agrupados de acordo com proximidade semântica, tendo em conta as quatro características identificadas previamente por Bolo-Varela et al. (2023), mencionadas acima, como formadoras da figura do inimigo terruco. Seguindo o percurso da Análise Textual Discursiva (Moraes; Galiazzi, 2016), o presente trabalho combina os métodos indutivo e dedutivo, visto que as quatro unidades definidas a priori foram complementadas, modificadas e aperfeiçoadas pelo processo de análise dos materiais. Este procedimento resultou na sistematização do corpus em quatro categorias e, por conseguinte, na organização do texto final em seções (o outro criminoso, o outro indígena, o outro estrangeiro e o outro bárbaro) que dialogam entre si em função de uma interpretação globalizada do fenômeno do terruqueo. A escolha de diferentes mídias e vozes atua na mesma direção, buscando um tratamento da complexidade “por meio de movimentos hermenêuticos em espiral, em que a cada retomada do fenômeno é possibilitada uma compreensão mais radical e aprofundada” (Moraes; Galiazzi, 2016, p. 52).

Neste sentido, a seção 2 reconstitui o clima político da eleição de Pedro Castillo. Caracterizada por manifestações racistas, alegações de fraude e o posterior boicote do Congresso, a confrontação assentou as bases para a crise posterior. A seção intitulada Los rostros de la violencia discute como os programas de televisão dominicais reforçaram a vinculação dos manifestantes com atividades criminosas, gerando uma política do medo efetiva por amparar-se na ubiquidade do terruco. O quarto item, Chola, llama y terruca, explora as camadas temporais contidas nas emoções a partir do episódio da entrada da polícia na Universidad de San Marcos, mostra da intrínseca relação entre colonialidade e terruqueo. Em Vayan a sus casas, esta relação é ampliada com a reflexão sobre os signos de “estrangeiridade” atribuídos ao indígena: a figura do ex-presidente boliviano Evo Morales concentra e circula emoções que orientam o clima político para a defesa da segurança nacional. Já a última parte do estudo completa os traços do terruco: depois do criminoso, do indígena, do estrangeiro, Quemado vivo aborda os sentidos construídos em torno da morte do policial José Luis Soncco Quispe, principalmente no que se refere ao sentimento de asco, medular na leitura emocional do manifestante como bárbaro.

2 Antecedentes

“Este governo chegou para governar com o povo e para construir de baixo para cima. É a primeira vez que nosso país será governado por um camponês [...] Eu também sou filho deste país fundado sobre o suor dos meus antepassados”7 (Pedro [...], 2021b, tradução nossa). Em 28 de julho de 2021, o professor e sindicalista Pedro Castillo assumiu a Presidência do Peru em um clima de extrema polarização e estigmatização política, no qual a candidata de direita Keiko Fujimori, líder do partido Fuerza Popular e filha do ditador Alberto Fujimori, denunciou, sem evidências, fraude no segundo turno das eleições presidenciais (Pedro [...], 2021a).

Em coletiva de imprensa, Fujimori pediu a anulação de cerca de 200 mil votos de cidadãos das zonas rurais e mais pobres do país, alegando principalmente que as assinaturas das atas eleitorais tinham sido falsificadas (Testimonios [...], 2021). Além disso, incentivou seus eleitores a sair às ruas para “defender o voto”. Este chamado, que incluiu a cobertura completa das mídias hegemônicas, provocou uma campanha de fake news, desprestígio de instituições eleitorais e discriminação às comunidades indígenas (CIDH, 2023). César Castiglioni, advogado de Fuerza Popular, plantou a ideia de que as comunidades tinham sido cúmplices da fraude: “E o que fez o nosso adversário ocasional, nestas eleições, é que nas regiões serranas de todo o país e nos lugares afastados encheu as urnas a seu bel-prazer”8 (Avilés, 2021, tradução nossa).

O racismo, historicamente presente na sociedade peruana, manifestou-se novamente durante a campanha eleitoral. As mostras de preconceito foram diversas: Castillo era retratado com o desenho de um burro portando um chapéu típico da sua região, em referência à sua suposta ignorância por “não saber falar fluentemente o espanhol”. Posteriormente, um conto chamado “O burrinho que não queria ser presidente”9 foi apresentado na Feira do Livro de Lima (Pimentel, 2022). Seus eleitores foram chamados de cholos, índios comunistas, terroristas, preguiçosos e sujos. Estereótipos foram amplificados para ridicularizar os costumes andinos. A construção de um muro (à moda Trump) foi exigida, de maneira a separar Lima do sul do país: “Para que nos visitem, primeiro teriam que tirar visto e mostrar suas vacinas e antecedentes”10 (Separación [...], 2021, tradução nossa).

O Congresso da República, dominado pela direita, não aceitou os resultados oficiais das eleições. Seus líderes sustentaram discursos de fraude e organizaram manifestações com mensagens anticomunistas que incluíam saudações nazistas (Reisman, 2021). Durante o primeiro ano da Presidência de Castillo, o Legislativo usou a figura do impeachment por incapacidade moral permanente para desestabilizar o governo. As constantes tentativas de destituição, denúncias constitucionais, votos de desconfiança dados aos ministros e até impedimentos de saída do presidente para cumprir suas funções causaram uma crise política no Peru baseada no descrédito das instituições, desgaste da agenda legislativa e desprestígio da figura presidencial (CIDH, 2023).

Pedro Castillo permaneceu no cargo por apenas um ano e quatro meses: no dia 7 de dezembro de 2022, horas antes de uma votação do Congresso por um novo impeachment, em mensagem à nação, o presidente anunciou a dissolução do Congresso e o estabelecimento de um governo de exceção. Essa tentativa de autogolpe foi imediatamente controlada, o mandatário foi preso por seus próprios guarda-costas quando tentava se deslocar à Embaixada do México para pedir asilo político. O Poder Legislativo o acusou do crime de rebelião e Castillo foi removido da Presidência com 73 votos a favor. Nessa mesma tarde, a vice-presidenta Dina Boluarte já tinha a faixa presidencial posta e pronunciou um discurso alinhado com a direita que havia organizado o impeachment.

3 Los rostros de la violencia – o outro criminoso

Os protestos iniciados com a queda de Pedro Castillo se estenderam, com maior ou menor intensidade, pelos primeiros meses de 2023, contabilizando 1.327 ações entre 7 de dezembro e 20 de fevereiro. Além das realizadas em Lima, a maioria se concentrou no centro-sul do Peru: Apurímac, Arequipa, Ayacucho, La Libertad, Junín, Ica, Cusco e Puno. Os manifestantes recorreram ao bloqueio de estradas e à tentativa de tomada de cinco aeroportos. Entre as reivindicações, defendiam a liberdade do presidente deposto, a realização de novas eleições gerais e a criação de uma assembleia encarregada de redigir uma nova Constituição em substituição da vigente, promulgada sob o governo de Fujimori. O governo respondeu com sucessivos decretos de emergência, os quais ofereceram os instrumentos retóricos, financeiros e legais para o recrudescimento da repressão. David Atequipe Quispe, um adolescente de 15 anos da cidade de Andahuaylas, foi a primeira vítima fatal.

A Anistia Internacional concluiu que “a polícia e o exército dispararam em numerosas ocasiões de maneira indiscriminada contra manifestantes e transeuntes na região, apesar de não existir uma ameaça real e iminente para sua vida ou integridade” (Racismo [...], 2023, p. 12, tradução nossa). Mesmo com crescentes sinais de arbitrariedade policial, como as detenções na sede do partido Nuevo Perú em 17 de dezembro e o saldo de 23 falecidos até aquele momento, a jornalista Sol Carreño começa a entrevista no programa dominical Cuarto Poder de 18 de dezembro recriminando uma suposta conduta demasiado dialógica da presidenta Dina Boluarte e a pressiona por uma mudança. Carreño argumenta que, naquelas condições, o diálogo seria impossível, pois as mobilizações estariam sendo lideradas por gente vinculada ao terrorismo e ao narcotráfico, segundo relatórios policiais. “Já entenderam que não dá pra conversar com certas pessoas?”11 (Dina [...], 2022, tradução nossa) repreende, então, a jornalista ao reforçar o pedido de uma atitude mais firme.

Minutos depois, no programa Punto Final, Boluarte, já mais incisiva, reproduz as palavras e ilações da jornalista Carreñas: “No meio dessa tremenda violência, como podemos dialogar?”; “Não podemos viver no caos e temos que ser firmes”12 (tradução nossa), já que minimizar o problema poderia fazer o país retroceder à época do terrorismo: “Já viemos de uma experiência dos anos 80, dos anos 90, quando se disse que eram pequenas situações que estavam aparecendo por aí, e tivemos milhares de mortos”13 (Punto [...], 2022, tradução nossa). Boluarte corrobora, ainda, a versão da entrevistadora Mónica Delta de que as marchas seriam financiadas por garimpeiros, terroristas e narcotraficantes. Na terceira entrevista em horário nobre desse domingo, a presidenta declara ao programa Panorama (#Panorama [...], 2022, tradução nossa): “Temos a experiência dos anos 80, dos anos 90, e aqui temos que ser firmes para que a intranquilidade no país não volte. É por isso que estamos dando as ferramentas legais para que a polícia e as forças armadas possam atuar”14.

As três entrevistas mencionadas foram antecedidas por reportagens associando reiteradamente os protestos a atividades criminosas. Duas emissoras coincidem inclusive no título: “Os rostos da violência”15. Ambas utilizam fichas policiais e vídeos das manifestações para identificar a participação de supostos condenados por terrorismo, classificados como incitadores do caos. Conforme o chefe da Secretaria Contra o Terrorismo16, “há personagens devidamente identificados que cumpriram pena por colocar carros-bomba, por assassinar pessoas, por fazer greves armadas nos anos 80, nos anos 90, então eles têm expertise para atiçar”17 (Punto [...], 2022, tradução nossa).

A apresentação desses rostos, e dos seus antecedentes, oferece a concretude de um corpo para temer/odiar. Sara Ahmed chama a atenção para o caráter econômico dos afetos. Segundo a autora, as emoções não residem em um determinado sujeito ou objeto, mas são produzidas mediante a circulação entre objetos e signos. Tal acumulação de valor afetivo opera de modo a definir o aqui dentro e o lá fora ao estabelecer efeitos de semelhança e dessemelhança que passam, então, a ser lidos como propriedade de certos corpos. Esta separação atua na configuração da integridade social e corporal, alinhando coletivamente aqueles corpos que temem e odeiam. O indivíduo-outro, representando um grupo de outros temidos e odiados, encarna uma identidade e uma ameaça de invasão que as emoções criam e confirmam em seus deslocamentos, de lógica ondulatória:

[As emoções] Movimentam-se para os lados (mediante associações “pegajosas” entre signos, figuras e objetos) assim como para frente e para trás (a repressão sempre deixa sua marca no presente: portanto, o que “fica colado” está vinculado com a “presença ausente” da historicidade)

(Ahmed, 2015, p. 81, tradução nossa).

Dessa forma, o termo terrorista pode ser vinculado a formas mais recentes de criminalidade comum, como garimpo e narcotráfico, ao mesmo tempo que reabre feridas do passado, servindo até mesmo para designar qualquer alternativa de esquerda à ordem vigente, qualquer movimento iniciado na região andina ou, ainda, qualquer contestação das normas vividas. Esta mobilidade, além de permitir que a relação causal entre os termos se estabeleça sem a necessidade da explicitação, garante a eficácia do dispositivo, já que, apesar de colado especialmente a certos corpos racializados, de acordo com Ahmed (2015, p. 131, tradução nossa), o medo/ódio desliza, e o “terrorista ‘poderia ser’ qualquer um e estar em qualquer lugar”. O terruco pode estar por trás, infiltrado, escondido, camuflado (palavras utilizadas nos programas de televisão dominicais analisados), de forma que qualquer manifestante ou simpatizante poderia acabar sendo um deles.

O medo, assim, apoiando-se na ubiquidade do terruco e nas impressões deixadas historicamente no corpo social, manifesta-se como útil para expandir as formas de vigilância e suspender direitos constitucionais. Isto implica, em primeiro lugar, uma ação preventiva do Estado contra o incremento das mobilizações que, segundo Ahmed (2015, p. 117, tradução nossa) “encolhe os corpos e os coloca em um estado de temor, um encolhimento que pode envolver uma recusa a sair dos espaços reduzidos da casa ou uma recusa a habitar o que está fora, antecipando dessa maneira o dano”. O recolhimento à casa representa, em segundo lugar, uma convocatória à sua defesa, em uma luta pela sobrevivência própria do momento de excepcionalidade em que métodos mais duros são, mais que aceitáveis, urgentes. Nesse regime de crise, os esforços devem orientar-se fisicamente para a manutenção da ordem das coisas; os corpos se reorganizam em função dos outros odiados. Entende-se, então, o apoio do programa de televisão dominical Cuarto Poder à reduzida “Marcha pela Paz”18 em defesa da ação policial, ocorrida no centro de Lima em 15 de dezembro de 2022. Repleta de cartazes que alternavam os dizeres “terrorismo nunca mais” e “violência nunca mais”19, a passeata foi saudada como o retorno da calma.

Paulo Gajanigo (2020, p. 171) destaca a “relevância dos instrumentos de ambientação social, ou seja, instituições, mecanismos, aparelhos que atuam na configuração social do clima”. Estes instrumentos agem sobre a referência afetiva da prática dos sujeitos, na forma como se comportam diante de certa situação social ou ainda, segundo a ideia de afinação musical contida no conceito de Stimmung retomado por Gajanigo, na sintonização dos seres com os seus entornos. Esta abordagem, de herança heideggeriana, impulsionada pela chamada “virada afetiva” que modificou a agenda de pesquisas sociais nos anos 1990, reúne no termo Stimmung três sentidos: humor, atmosfera e sintonização (Gajanigo, 2024). Tal confluência tem o mérito de ressituar o debate das emoções por intermédio de paradigmas que enfatizam a relacionalidade, para além do dualismo sujeito-objeto. Nessa perspectiva, entende-se que o terruqueo, enquanto política afetiva, opera ao mesmo tempo como sintonia autoativada e como ditame externo (Thonhauser, 2021). Isto suscita o diálogo com o tratamento conferido aos movimentos e vínculos nos escritos de Ahmed (2015) acerca da economia das emoções, posto que, conforme a autora, a circulação destas pelos objetos ajusta igualmente a distância dos sujeitos em contato.

Na leitura dos eventos no Peru em dezembro de 2022 mediante esta ótica, a concertação das três principais emissoras nacionais, ressoando a repressão estatal e silenciando qualquer registro dissidente, dá conta da constituição de um clima político de crise. Busca-se, enfim, a modulação do humor social, o controle da atmosfera no intuito de fazer emergir determinados sentimentos e memórias (Gajanigo, 2024). Os contornos de corporeidade individual e coletiva prescritos pela aliança de poder emergente nesse contexto não deixavam dúvidas: palmas para os que dancem conforme a música, balas para os desafinados.

4 Chola, llama y terruca – o outro indígena

A mulher rendida no chão, com as mãos nas costas, enquanto uma agente policial grita “Cale a boca, já falei para você se calar”20, é Yolanda Enríquez, camponesa huancavelicana de 58 anos que estava se refugiando na Universidad Nacional Mayor de San Marcos – UNMSM (Testimonio […], 2022, tradução nossa). Uns dias antes, a instituição educativa foi tomada pelos estudantes a fim de receber e albergar as delegações de diversas regiões do Peru que chegavam à capital para participar dos protestos contra o governo de Dina Boluarte. Os portões fechados da universidade exibiam cartazes com frases como “O sangue derramado jamais será esquecido” e “Não matarás nem com fome nem com balas”21 (tradução nossa). No dia 21 de janeiro de 2022, a pedido do representante legal da universidade, um contingente de 563 policiais entrou arrombando os acessos com tanques e bombas de gás lacrimogêneo, além de um sobrevoo de helicóptero sobre o campus (Defensoría Del Pueblo, 2023).

A violência e o uso de aparatos de guerra para a irrupção na UNMSM não eram por acaso; a polícia estava a ponto de enfrentar supostos terroristas: “Será que estamos voltando aos anos de violência terrorista onde se penduravam cachorros nos postes de luz?”22, disse a presidenta (TV Perú, 2023, tradução nossa) em mensagem presidencial de 14 de janeiro. Difundiram-se, então, vídeos de policiais durante a intervenção: “Cumpriu-se, detidos todos estes terroristas, estouramos San Marcos”23, fala um agente (Se hace [...], 2022, tradução nossa) ao gravar os manifestantes. “Para o chão, merda!”24, grita outro enquanto força um grupo de cidadãos a se ajoelhar (Violencia [...], 2022). Nesse dia foram detidas 196 pessoas pelos delitos de usurpação agravada (192) e terrorismo (4), entre elas uma grávida acompanhada de sua filha de 7 anos (Defensoría Del Pueblo, 2023).

O último registro de intervenção das forças da ordem na Universidade San Marcos havia sido em 1991, com Alberto Fujimori, quando o espaço educativo foi militarizado mediante a instalação de uma base do exército. A Comissão da Verdade e Reconciliação (CVR) atestou casos de desaparições de estudantes nessa época. Durante o conflito armado interno, a universidade mais antiga da América abrigava a maior quantidade de estudantes do país e caracterizava-se por sua complexidade e pluralidade política. O governo de Fujimori a considerava uma base terrorista, justificando, assim, a intervenção e os atos de violência contra os estudantes.

Chola, llama y terruca foram as injúrias que mais machucaram Yolanda Enríquez nesse dia. Em entrevista ao jornal El País (Gómez, 2023, tradução nossa), contou que durante a prisão os policiais berravam: “Que porra vocês estão fazendo aqui, terrucos? Por que vocês vieram? Voltem para os seus povoados! Estes cholos vieram a Lima só para incomodar. Ninguém precisa deles”25. Como mencionado anteriormente, terruco é uma palavra com conotação depreciativa e preconceituosa. De acordo com Aguirre (2011, p. 110), originou-se na serra do Peru durante os anos mais violentos do conflito armado interno:

[...] o uso extensivo da palavra “terruco”, como ocorre com tantos outros insultos, teve precisamente o efeito de estigmatizar os reais ou potenciais terroristas, sugerindo implicitamente que eram serranos ou, em qualquer caso, tão desumanos e selvagens como os serranos (tradução nossa).

Na ótica colonial, os indígenas da serra peruana não são cidadãos e representam um perigo para a sociedade; portanto, não têm os mesmos direitos das demais pessoas. Para o sociólogo peruano Aníbal Quijano (1992), embora o colonialismo tenha terminado com as independências, a colonialidade, isto é, a estrutura colonial de poder que é o quadro para todas as formas de exploração, persiste. A dominação colonial gerou construções intersubjetivas que hierarquizam as culturas, produzindo discriminações sociais. Neste sentido, a associação terrorista-indígena-selvagem é indispensável para construir a ferramenta antissubversiva que, durante a época de violência interna no Peru, serviu para eliminar o inimigo racializado. Mas quem é esse inimigo? Ahmed (2015, p. 107) aborda o medo como uma política afetiva que preserva a vida somente quando ameaça a vida. Esse medo do outro não surge de maneira isolada de dentro de uma pessoa, mas é produto de associações de histórias passadas e permite construir corpos separados dos corpos temidos – no caso peruano, os indígenas considerados sanguinários:

Podemos notar aqui que o medo faz algo: restabelece a distância entre corpos cuja diferença é lida a partir da superfície, como uma leitura que produz a superfície (trêmula, cauterizada). O medo envolve relações de proximidade que são cruciais para estabelecer a “separatividade” dos corpos brancos

(Ahmed, 2015, p. 107, tradução nossa).

A proximidade mencionada por Ahmed implica o uso de estereótipos com o objetivo de fixar o significado do outro, mas, ao mesmo tempo, a repetição constante dessa ideia causa uma atmosfera de insegurança. Assim, aparece a fantasia de se ver absorvido pelo corpo desse outro, o que envolve a desaparição do “eu” incorporado por um estranho. Isto fundamenta a política do medo e justifica o uso da violência, posicionando o outro como um perigo não só ao “eu”, mas também à própria vida e à comunidade (Ahmed, 2015). “Que porra vocês estão fazendo aqui, terrucos?”26, gritam os agentes policiais aos detidos na Universidade San Marcos. A frase não denota apenas desprezo, mas também medo de uma invasão à capital, uma ameaça ao status quo de Lima, que não é o lugar dos indígenas, representantes do atraso e do caos.

Yolanda Enríquez Gómez (2023) contou que, no dia da intervenção policial, estava prestes a tomar banho. Eram 9h30 quando escutou sons de guerra: “Eu pensei: agora é o meu fim, vão nos matar”27 (Gómez, 2023, tradução nossa) e, como medida de proteção, decidiu colocar um capacete. A esta altura, a polícia e os militares já tinham assassinado quase 50 pessoas, a maioria indígena do sul do Peru. E foi precisamente esse capacete branco o estopim da fúria da policial, que o retirou violentamente. Yolanda confessa que em algum momento da detenção, aflita, chegou a urinar-se.

Segundo Ahmed (2015), o medo envolve os corpos que o sentem e, ao mesmo tempo, os constrói contidos por ele, como se viesse de fora e se movesse para dentro. Esse medo não junta os corpos num sentimento de solidariedade. Apesar de ambos poderem demonstrar afetos, estes não são iguais e dependem da interpretação dos sentimentos do outro: “[...] só se sente o outro como temível devido a uma leitura errônea que o outro devolve mediante sua resposta de temor” (Ahmed (2015, p. 107, tradução nossa). Assim, um objeto de proteção como um capacete, símbolo do medo que tinha Yolanda da violência estatal, é entendido pela agente policial como perigoso e ameaçador, e converte-se no fundamento para o uso da violência. O relatório da Defensoría Del Pueblo (2023, p. 17, tradução nossa) concluiu que houve uso desnecessário e desproporcional da força policial, tratamento cruel e degradante, e não foram garantidos os direitos humanos dos detidos: negação de intérpretes de línguas nativas (aimara e quéchua), ofensas racistas e superlotação nas celas da delegacia: algumas mulheres “tiveram que urinar nas celas, e outras que estavam menstruando chegaram a manchar as suas roupas”.

É importante assinalar que os maus-tratos e todo o maquinário usado para a irrupção na universidade representaram uma mensagem estatal clara para os manifestantes, provenientes das regiões andinas e mais pobres do Peru: aqui vocês não são bem-vindos, este não é seu lugar. “Por que vocês vieram? Voltem para os seus povoados!”28, vocifera a autoridade. Na política afetiva, a distribuição desigual do medo também é ferramenta para alinhar o espaço corporal e social, isto é, demarcar territórios onde só determinados corpos podem habitar e se movimentar (Ahmed, 2015).

“Então, meu povoado era, pois, um povoado, sei lá, um povoado separado dentro do Peru”29 (tradução nossa), exclamou Primitivo Quispe, durante uma audiência da CVR (2003, p. 156) em Ayacucho. Conforme Gherlone (2021), as emoções coletivas têm a capacidade de trazer memórias do passado, manifestando-se através de discursos, imagens ou objetos que tendem a se repetir. Embora as emoções sejam passageiras e parte de um contexto específico, elas contêm camadas temporais. Por isso, não só se expressam de maneira coletiva, como também constituem emoções culturais organizadas em repertórios afetivos comuns. Nesse sentido, o mundo andino foi impactado de maneira desigual pela violência e exclusão. Sem reparação e justiça, o conflito armado interno deixou feridas permanentes. As principais vítimas da época do terrorismo foram camponeses indígenas: 75% delas tinham como idioma materno o quéchua ou outra língua nativa; 79% moravam em zonas rurais; e os departamentos mais afetados foram Huancavelica, Ayacucho, Apurímac y Huánuco, os mais pobres do Peru. A CVR também destacou que, diante desta situação, a capital virou as costas. Hoje, Lima reivindica como sua a luta antiterrorista e aponta entre as vítimas os terrucos.

5 Vayan a sus casas – o outro estrangeiro

Integrantes das delegações chegadas do interior para os protestos do dia 19 de janeiro de 2023, os dirigentes aimara Isidro Limache e Lucas Pari são entrevistados pelo canal América Notícias (La Larga [...], 2022) enquanto caminham pelas ruas da capital, quando um transeunte interrompe colérico: “Façam essas merdas nas suas casas, porra!”30. Além de negar a legitimidade do direito de falar e se fazer ouvir no debate público, a interrupção rechaça também a proximidade com aqueles estranhos, sinaliza a presença indesejada daqueles ustedes, corpos considerados fora do lugar. Nas palavras de Ahmed (2015, p. 257, tradução nossa), “a exigência é, então, que o estrangeiro volte à casa, onde a casa se constrói não só como ‘em outro lado’, mas também como o ‘lado’ do terrorismo”.

A partir da convocatória da chamada “Conquista de Lima”31, referências afetivas divergentes são mobilizadas na leitura do evento. Os manifestantes rememoraram a luta de Manco Inca ao cercar a Lima de Pizarro em 1536 ou, ainda, a “A Marcha dos Quatro Suyos”32, marco da resistência antifujimorista em 2000 que evidenciou também os efeitos funestos da política do terruqueo, posto que o atentado orquestrado por Vladimiro Montesinos, braço direito de Fujimori, para criminalizar os protestos deixou seis mortos. Por outro lado, diante da iminente afluência de milhares de manifestantes de outras regiões, exagerada para maximizar o temor, instalou-se entre a população da capital o discurso da necessidade de salvaguarda da cidade, não apenas territorial ou patrimonial, mas também dos valores que ela representaria, como a civilização, a democracia e a própria ideia de nação. Recorreu-se, então, à associação da movimentação com a estratégia “do campo para a cidade” usada pelo Sendero Luminoso e o trauma da ocupação chilena de Lima (1881-1883) durante a Guerra do Pacífico.

Nessa perspectiva, as ações prévias das forças policiais (mobilização espetacularizada de 11.800 agentes na capital, postos de controle nas estradas, dificultando a chegada dos manifestantes, detenções preventivas em alojamentos) foram acompanhadas pela tentativa de vincular as mobilizações com uma suposta ingerência estrangeira. Assim, tratou-se de conferir à aproximação com esses outros vindos de fora o sentido de perda, ferida ou roubo, incitando a raiva contra os invasores que destruiriam a nação. Esta operação emocional encontrou alta aderência na figura de Evo Morales. Vale sublinhar que, conforme Ahmed (2015), as emoções circulam através de associações entre signos, muitas vezes uns aos outros (aderência). Certos corpos desenvolvem, então, uma qualidade pegajosa, contaminante. Ao terem suas superfícies moldadas por um histórico de contatos, acumulam o valor afetivo que transmitirão em suas próximas relações.

O ex-presidente boliviano, crítico do governo de Boluarte, transformou-se em símbolo de fraude, subversão, autoritarismo, violência, criminalidade e corrupção, características que, ligadas à origem étnica e filiação ideológica compartilhadas com os habitantes da região sul do Peru, alimentaram o alarmismo de uma ameaça externa. A estratégia governamental foi determinante para isso: no dia 9 de janeiro de 2023, alegando claro risco à segurança nacional e à ordem interna do Peru, o Ministério do Interior anunciou a proibição de entrada no país de nove cidadãos bolivianos, entre eles Evo Morales (Perú [...], 2023). A narrativa da intervenção boliviana prosseguiu com a declaração da presidenta Dina Boluarte de 13 de janeiro sobre a presença de armas de fogo e munições provenientes da Bolívia entre os manifestantes, especulação reforçada pelo primeiro-ministro dois dias depois (Stuardo [...], 2023).

Tais declarações serviram também para minimizar a responsabilidade do Estado pelas mortes registradas, já que Boluarte sugeriu que estas poderiam ser resultado da ação do movimento social Ponchos Vermelhos33, pertencente ao MAS, partido de Evo. Desta maneira, nota-se que a alta mandatária incorpora e ressoa as fake news disseminadas nas redes sociais sobre a participação da organização (Solis, 2023). No dia 9 de janeiro, o mesmo em que a polícia executou 18 pessoas, o usuário El Último Paladín (2022, tradução nossa) denunciou em publicação do Twitter: “Os terroristas sanguinários ponchos vermelhos do MAS marcam presença na praça de Armas de Puno”3435. Os comentários, raivosos, exigiam o fechamento das fronteiras e a expulsão dos estrangeiros, mas os homens do vídeo eram, na verdade, autoridades do distrito de Pisacoma, província de Chucuito, Puno, Peru.

Além da ignorância acerca da diversidade cultural do país, o engajamento emocional na postagem se valeu de certo tratamento político do luto, afinal, partindo da ideia de Ahmed (2015, p. 58, tradução nossa) de que a experiência da dor, sentida geralmente como intrusão de um objeto externo, delimita as fronteiras do corpo, e seguindo a aproximação, igualmente sugerida pela autora, entre superfícies individuais e coletivas, é possível estimar que a dor envolvida na imaginada vulneração do corpo-país “cria o desejo de restabelecer a fronteira, de expulsar a dor ou o objeto (imaginado, material) que sentimos que é a ‘causa’ da dor’”. Este movimento configura um recolhimento, no qual a redefinição dos contornos da nação põe em risco tudo aquilo que habita as margens, provocando uma separação com base nas características negativas atribuídas aos outros e convocando à exclusão dos signos de diferença, lidos como “estrangeiridade”. Na esteira do pensamento de Judith Butler (2019), pode-se argumentar que nesta ocasião o luto, em vez de estimular o compromisso ético de solidariedade baseado no reconhecimento da precariedade comum dos corpos, é instrumentalizado a fim de reforçar a preocupação narcisista da melancolia. O potencial político da memória dos mortos no período de violência armada é explorado, portanto, no marco de uma hierarquia afetiva que perpetua a distribuição desigual da vulnerabilidade humana.

Outras notícias falsas viralizadas à época36 evidenciam a potência deste dispositivo na aclimatação política. Os meios de comunicação tradicionais não demonstraram maior cuidado com a informação, ao repercutirem discursos de políticos bolivianos opositores que, sem provas, alertavam sobre a participação de Evo na entrada de 126 mil balas no Peru (Bolivia, 2023) e, inclusive, praticavam o terruqueo mais explícito, associando o ex-presidente ao ex-líder do Sendero Luminoso, Abimael Guzmán («Evo […], 2023). A figura de Evo ocupou o centro de uma conspiração internacional, complementada com as participações anedóticas de terroristas que pediam ajuda a Vladimir Putin e Xi Jinping (Camaradas [...], 2023), do onipresente embaixador cubano El gallo Zamora (Contracorriente, 2022a), do enigmático El Español (que poderia ser cubano, venezuelano ou equatoriano) (Contracorriente, 2022b), dos presidentes de esquerda da região e do espião russo que afirmava comandar do México, através do telefone, as manifestações no Peru (#Panorama [...], 2022).

Apesar da risível armação, os apelos sensacionalistas apontavam para um objetivo concreto: engrossar o pedido de endurecimento do regime mediante a declaração do Estado de Sítio sob a causa prevista na Constituição de invasão ou guerra exterior (Congresistas [...], 2023). Buscava-se, portanto, influenciar o clima político na direção de um maior fechamento do regime. Nesse contexto, acumularam-se no signo do estrangeiro valores de temor, raiva, ódio e indignação que atuaram para afastar da esfera pública determinadas vozes e justificar a limitação de sua circulação. Evo Morales concentrou esse investimento simbólico porque nele o inimigo é indígena e estrangeiro, o que equivale a sugerir, via leve inversão de termos, que o indígena é inimigo e estrangeiro.

Dessa forma, o habitante da capital, vendo a multidão descer a serra, pergunta-se: o que esconderá o poncho? A vestimenta se converte em obstáculo para o reconhecimento daquele outro como parte da comunidade, pois, marca do caráter violento, contraria o ideal nacional, aqui identificado com a civilização e a democracia, valores que Lima acredita representar. Como sustenta Ahmed (2015, p. 218, tradução nossa):

[...] a nação é um efeito concreto da maneira em que certos corpos se movimentaram para, e afastaram-se de, outros corpos, um movimento que funciona para criar limites e fronteiras, e a “aproximação” ao que agora podemos chamar de “caráter nacional” (o como é a nação). Esta história de movimentos “cola”, de modo que segue sendo possível “ver” uma ruptura da imagem ideal da nação na diferença concreta de outros.

Temendo ser sitiada, a capital clama por um Estado de Sítio que coloque preventivamente as coisas e os sujeitos nos seus devidos lugares. Embora isto represente o recrudescimento da repressão, esta postura é lida como amor, amor à pátria e aos ideais por ela representados, amor que se deve cultivar desde o colégio, como pregava o prefeito de Lima, Rafael López Aliaga, um pouco antes de declarar zona intangível uma região de mais de 10 km² da capital, com o fim de evitar concentrações populares ou, nas suas palavras, atividades campestres (López […], 2023).

6 Quemado vivo – o outro bárbaro

Com a inauguração da sala em homenagem ao policial José Luis Soncco Quispe no dia 17 de julho de 2023, às vésperas de novas mobilizações na capital, o primeiro-ministro Alberto Otárola procurava, além de demonstrar novamente o apoio público do governo às ações policiais, evocar a atmosfera gerada ao redor da morte do agente. As circunstâncias haviam sido divulgadas pelo próprio Otárola meses antes, no Congresso da República, onde solicitava faculdades legislativas para controlar a ordem interna: Soncco foi queimado vivo dentro de sua viatura por um grupo de manifestantes.

Os principais jornais de Lima estamparam nas capas da quarta-feira 11 de janeiro a foto do policial, acompanhada da versão oficial e da notícia de que o governo havia decretado toque de recolher em Juliaca, local dos fatos. Quem seria capaz de queimar viva uma pessoa? Um dia depois, o procurador Jorge Cotrina colocou em palavras a resposta que pairava no ar: “Isso não é um protesto, isso é terrorismo, e nós vamos investigar quem foram essas pessoas que cometeram este execrável delito contra um homem indefeso [...] Estamos chegando à barbárie”37 (Fiscal [...], 2023, tradução nossa).

A necrópsia realizada no corpo de Soncco revelou a verdadeira causa da morte, uma contusão encefálica, contrariando a versão oficial. No entanto, este documento só veio a público dois meses depois do incidente, quando o caso já havia sido bastante explorado na gestão do clima político, a fim de estabelecer o tom do enfrentamento às demandas dos setores descontentes. Reinhardt e Corrêa (2024, p. 21) afirmam que “uma análise da política das atmosferas deve colocar em relevo os modos com que o senso de possibilidade embutido no clima político é administrado”. Nesse sentido, a crueldade atribuída aos manifestantes contribuiu para a desqualificação de suas reivindicações, já que a realização de novas eleições e a elaboração de uma nova Constituição foram apresentadas como a porta de entrada para a barbárie.

O afastamento destas propostas do campo do possível se valeu da política afetiva em torno da ideia do retorno dos tempos do terrorismo, como no vídeo emitido pelo canal Willax em que uma canção de acordes comoventes, homenagem ao policial assassinado, traz a letra “vencemos ontem, voltaremos a vencer”38, enquanto na tela aparece Abimael Guzmán com roupas de presidiário (El Caso […], 2023, tradução nossa). Gherlone (2021, p. 27, tradução nossa) refere-se da seguinte forma a imagens como essa, carregadas de significados afetivos sedimentados e capazes de moldar a compreensão das experiências vividas:

Em uma situação de incerteza, um coletivo de pessoas pode perceber-se unido por uma memória antecipatória – vinculada a vicissitudes preexistentes e simbolizada, por exemplo, por uma figura emblemática – que gera pessimismo, mesmo não existindo ainda as condições reais para dizer que “tudo sairá mal”.

Mediante o terruqueo, o discurso do combate à barbárie se alastrou qual fogo. Encontrou terreno propício, é certo, pois memórias antecipatórias serviam de combustível. Formação cultural que se confunde com a formação nacional, a fantasia do atraso descrita por Vich (2010, p. 159, tradução nossa), imaginou a serra peruana “como uma realidade degradada e abjeta, como o lugar da ‘barbárie’, uma cultura figurada como inferior àquela que no melhor dos casos teria que ‘educar’ tutelarmente e excluí-la de toda participação política”. Os eventos de Juliaca, mostras do desprezo à vida humana, confirmariam a inaptidão dos povos andinos para a convivência democrática e o progresso econômico, seja pela sociabilidade arcaica, o intelecto manipulável ou a moral repudiável.

No repertório afetivo mobilizado nesse caso, a intensa repulsa aos manifestantes pode ser relacionada à emoção do asco. No seu livro “El factor asco”, a intelectual peruana Rocío Silva-Santisteban (2008) analisa o papel desse sentimento na conformação de uma sociedade baseada no autoritarismo e na tutelagem, a partir da construção de alteridades lixificadas39, descartáveis. Este dispositivo, conforme Silva-Santisteban (2008), organiza o rechaço ao outro mediante a detecção de um perigo contaminante; o outro deve ser excluído em prol da saúde do sistema, o que atua na coesão do grupo que se sente ameaçado e na validação de condutas até então consideradas abjetas. Defesa diante do desconhecido ou artifício de hierarquização, o asco demarca fronteiras.

Embora a jornalista Rosa María Palacios estivesse apenas repercutindo o relatório policial que, além de publicar a necrópsia com a verdadeira causa da morte de Soncco, apontava um ex-policial como principal suspeito e afirmava não haver indício da participação dos manifestantes, as reações indignadas aos cortes dos seus vídeos atestam a força do fator asco. Ademais da reiterada presença das palavras “asco” ou “asquerosa/o”, o ataque à profissional na postagem do usuário Derecha Política no dia 24 de março de 2023 chama a atenção pelo teor escatológico (“Essa mulher já é esterco… o mais infra-humano que existe”40) (tradução nossa) e por alusões a excesso de comida e sujeira (“Pobre mulher. No lugar do cérebro tem gordura”; “Miserável excremento”41) (tradução nossa). Entre os atributos físicos, o peso é utilizado para a estigmatização (“Esta gorda asquerosa tratando de minimizar a morte do policial Soncco para defender essas porcarias de vândalos filoterroristas miseráveis delinquentes da esquerda lixo”42) (tradução nossa) que deriva em desumanização nos textos e imagens fazendo referência a baleias, porcos, morsas e criaturas monstruosas.

Não parece fortuito que o linchamento virtual recorra ao tema comida. Ahmed (2015) a considera a “matéria-prima” da repugnância, pois para sobreviver precisamos nos abrir ao mundo, o que desvela nossa vulnerabilidade e traz consigo o medo da contaminação. O nojo expressa o recuo diante de algo que, devido à proximidade, desestabiliza nossas fronteiras. Neste encontro com o outro, mediado pelas impressões sedimentadas, este algo emerge como corpo prejudicial. Apesar de não corresponder ao estereótipo do terrorista, recai sobre María Palacios o processo de lixificação simbólica43 (Silva-Santisteban, 2008) que procura excluir o outro do debate público. Desliza sobre a jornalista o estigma de significar, na espacialidade dos afetos, um ser de dimensões inadequadas, indesejáveis, um ser sobrante cuja adiposidade indica ameaça de contágio.

Em suma, o processo ocorre porque sua posição, questionando a manipulação narrativa do incidente por parte do Estado, desafia os ditames da guerra; seu corpo dá indícios de desalinhamento com o estado de prontidão permanente exigido pela “atmosfera de exceção” (Reinhardt; Cesarino, 2024), o que o situa “do outro lado”, o dos bárbaros. Se a agressividade dos ataques expressa a urgência de marcar distância do pensamento contagioso e controlar o clima político, o regozijo dos usuários na busca pelo insulto mais repugnante possível expõe a atração exercida por esses materiais asquerosos. O terruqueo revela-se ao mesmo tempo excludente e pegajoso.

7 Considerações finais

A modo de conclusão, é importante salientar que o terruqueo das eleições peruanas de 2021 deu o tom do debate público durante o breve governo de Pedro Castillo e preparou as condições atmosféricas que emergiram no enfrentamento aberto após a sua queda. A partir da evocação de memórias dos tempos de conflito armado interno, a nova aliança de poder exerceu um controle do clima político que logrou descredibilizar as demandas dos manifestantes e, assim, barrar a antecipação das eleições presidenciais e a instauração de um processo constituinte. O presente artigo identificou estratégias emocionais de estigmatização baseadas principalmente na dor, no medo, ódio e asco. Os escritos de Sara Ahmed foram de fundamental importância para reconhecer o caráter ondulatório dos deslocamentos dessas emoções entre os objetos: para os lados, ligando os manifestantes a atividades criminosas como garimpo e narcotráfico, e de trás para a frente ou vice-versa, transportando a historicidade das formações culturais.

Igualmente, constatou-se que o termo terruco serviu para naturalizar a associação entre o suspeito de pertencer aos grupos armados e a população indígena, corroborando a afirmação de Carlos Aguirre (2011, p. 110) de que esta ofensa sugere “a imagem de pessoas de extração indígena que cometiam atos de violência sanguinária que, por sua vez, revelavam (quer dizer, confirmavam) sua condição de indivíduos hipócritas, fanáticos, traidores, antipatriotas e inclusive subumanos” (tradução nossa). O terruqueo, portanto, atualizando as identificações desumanizadoras do índio bárbaro, atrasado e perigoso, configura-se como um exercício de racismo que atende à reprodução das relações intersubjetivas da colonialidade. A perpetuação desse imaginário se beneficiou do alto nível de centralismo dos meios de comunicação, reflexo da concentração autoritária do exercício do poder na capital Lima. Assim, uma vez mais, o levante da região serrana foi percebido como ataque aos valores representados pela costa: civilização, mercado e modernidade (Vich, 2010).

Embora as evidências indicassem o uso generalizado de munição letal e a prática de execuções extrajudiciais por parte do Estado, verificou-se que a imprensa hegemônica se alinhou ao discurso oficial, concedeu espaço desproporcional aos seus porta-vozes e concentrou sua cobertura na ação violenta dos manifestantes, imputando aos mesmos as responsabilidades pelos mortos e feridos. Ela chegou a exigir, em alguns casos, uma postura ainda mais enérgica, um exercício da força ainda mais ostensivo por parte das forças policiais. A conformação de um clima político de ameaça apoiou a separação dos corpos e a consequente restrição da circulação de alguns, com a construção do outro-inimigo interseccionado em quatro atributos aqui examinados: criminoso, indígena, estrangeiro e bárbaro. O indígena representou novamente o alvo preferencial das balas, mas o terruqueo recaiu sobre todos aqueles que desafiaram as prescrições do estado de espírito e forjou sua efetividade na suspeita de que qualquer um pudesse ser um terrorista.

A abordagem aqui utilizada permitiu considerar “aquilo que está no ar”. Por amparar-se no campo dos estudos atmosféricos, avaliou que “a disputa pelo clima de um debate público é um aspecto relevante na compreensão dos conflitos políticos, pois é por meio dela que se configura o que é ou não audível” (Gajanigo, 2020, p. 171), tomando em conta que a forma como sintonizamos com o mundo pode ser usada para produzir um ser como estranho. Nesse sentido, a leitura afetiva dos participantes das marchas como terroristas explica em parte o êxito dos argumentos em defesa da redução do horizonte de demandas políticas aceitáveis, da suspensão dos direitos constitucionais e do endurecimento da repressão sob a lógica de defesa da segurança nacional.

Por fim, o esforço realizado pretende contribuir para o entendimento do desenlace sob termos conservadores da crise peruana de 2022-2023. Ao mesmo tempo, oferece uma análise da prática do terruqueo baseada na acumulação do valor afetivo nos signos mobilizados pelos diferentes discursos. Talvez represente, assim, um passo para desvendar os fundamentos da eficácia de um dispositivo recorrentemente utilizado nas últimas décadas em prol da manutenção da ordem desigual das coisas.

  • Pesquisa financiada pela CAPES (Processo n° 88887.240479/2025-00).
  • Declaração de uso de IAGen
    As autorias declaram não ter feito uso de IAGen na elaboração do artigo.
  • Avaliadora 2:
  • 3
    No escuchaba ese sonido de los helicópteros desde el “tiempo del peligro”.
  • 4
    Eso ha matado cantidad de gente, en mi pueblo, ni siquiera hemos podido enterrar.
  • 5
    Segundo estimativas da Comissão da Verdade e Reconciliação, das 69.280 vítimas, 46% foram causadas pelo PCP-Sendero Luminoso; 30% por agentes do Estado e 24% por outros (patrulhas camponesas, comitês de autodefesa, Movimento Revolucionário Túpac Amaru (MRTA), grupos paramilitares, agentes não identificados ou situações de combate armado). 75% dos afetados tinham origem indígena.
  • 6
    Conforme o Alto Comissariado dos Direitos Humanos da ONU, todas as pessoas detidas que foram entrevistadas denunciaram ter sido chamadas de terroristas por agentes policiais.
  • 7
    Este Gobierno ha llegado para gobernar con el pueblo y para construir desde abajo. Es la primera vez que nuestro país será gobernado por un campesino. [...] Yo también soy hijo de este país fundado sobre el sudor de mis antepasados.
  • 8
    Y lo que ha hecho nuestro adversario ocasional [Castillo], en estas justas electorales, es que en las serranías de todo el país y en los lugares alejados ha llenado las ánforas a su antojo.
  • 9
    El burrito que no quería ser presidente.
  • 10
    Para que nos visiten primero tendrían que sacar visa y luego sus vacunas y antecedentes.
  • 11
    ¿Ya entendieron que no se puede conversar con algunas personas?
  • 12
    En medio de esa tremenda violencia, ¿cómo se puede dialogar?; No podemos vivir dentro del caos y tenemos que ser firmes.
  • 13
    Ya venimos de una experiencia de los 80, de los 90, casi porque se dijo eran pequeñas situaciones que estaban por ahí levantándose, hemos tenido miles y miles de muertos.
  • 14
    Tenemos la experiencia de los 80, de los 90, y acá tenemos que ser firmes para que no vuelva nuevamente la zozobra en el país. Es por eso que hemos dado las herramientas legales para que la policía y las fuerzas armadas puedan salir.
  • 15
    Los rostros de la violencia.
  • 16
    Dirección Contra el Terrorismo.
  • 17
    Hay personajes debidamente identificados que han purgado condena por colocar coches-bomba, por asesinar personas, por hacer paros armados en los 80, en los 90, entonces tienen un expertise para azuzar.
  • 18
    Marcha por la Paz.
  • 19
    Terrorismo nunca más e violencia nunca más.
  • 20
    Cállate, he dicho que te calles.
  • 21
    La sangre derramada, jamás será olvidada e No matarás ni con hambre ni con balas.
  • 22
    ¿Estamos acaso volviendo a los años de la violencia terrorista donde se colgaban perros en los postes de luz?
  • 23
    Se cumplió, detenidos todos estos terroristas, reventamos San Marcos.
  • 24
    Al suelo, concha tu madre.
  • 25
    ¿Qué mierda hacen aquí, terrucos? ¿A qué han venido? Váyanse a sus pueblos. Estos cholos han venido a molestar a Lima nomás. Nadie los necesita.
  • 26
    ¿Qué mierda hacen aquí, terrucos?
  • 27
    Yo pensé: ahora es mi fin, nos van a matar.
  • 28
    ¿A qué han venido? Váyanse a sus pueblos.
  • 29
    Entonces, mi pueblo era pues un pueblo, no sé... un pueblo ajeno dentro del Perú.
  • 30
    ¡Vayan a sus casas a hacer sus huevadas, mierda!
  • 31
    Toma de Lima.
  • 32
    Marcha de los Cuatro Suyos.
  • 33
    Ponchos Rojos.
  • 34
    Los terroristas sanguinarios ponchos rojos del MAS se hacen presente en la plaza de Armas de Puno.
  • 35
    Na noite desse dia 9, o congressista Héctor Valer repetiu esta versão e acusou diretamente Evo Morales de atentar contra a unidade territorial peruana. Mais tarde se somaria a este rumor a denúncia de balas contrabandeadas. A cronologia desse caso pode ser consultada aqui: https://l1nq.com/JzaRM
  • 36
    Uma breve compilação encontra-se disponível aqui: https://linktr.ee/juan.solis
  • 37
    Eso no es una protesta, eso es terrorismo, y nosotros vamos a investigar quiénes han sido las personas que han cometido este execrable delito frente a un hombre indefenso […] Estamos llegando a una barbarie.
  • 38
    Vencimos en el ayer, volveremos a vencer.
  • 39
    Basurizadas.
  • 40
    Esa tipa ya es estiércol… Lo más infrahumano que hay.
  • 41
    Pobre tipa. En lugar de cerebro tiene grasa; Miserable bazofia.
  • 42
    Esta regordete asquerosa tratando de minimizar la muerte del policía Soncco para defender a esas porquerías de vándalos filo terroristas miserables delincuentes de la izquierda basura.
  • 43
    Basurización simbólica.

Declaração de Disponibilidade de Dados

Nenhum dado de pesquisa gerado ou utilizado.

Referências

Editado por

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    15 Set 2025
  • Aceito
    26 Fev 2026
  • Publicado
    27 Abr 2026
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