Open-access Apresentação do Dossiê: Estudos de clima, humor e atmosfera no Brasil

Dossier presentation: Studies of climate, mood and atmosphere in Brazil

Resumo

Este artigo é uma apresentação do dossiê temático Estudos de clima, humor e atmosfera no Brasil. O texto parte do reconhecimento desse campo de estudos em fase de consolidação – Mood Studies ou Estudos Atmosféricos. Faz-se, então, uma genealogia do conceito de atmosfera, que tem centralidade nesse campo, a partir da obra de Hermann Schmitz e de comentadores e contribuidores, como Gernot Böhme. Dialoga-se, na sequência, com outros conceitos recorrentes nesse campo, como Stimmung, Mood e estrutura de sentimentos, indicando como eles fazem parte de uma constelação de conceitos que auxiliam na compreensão do aspecto impreciso e etéreo dos fenômenos. Por fim, trata-se do estado atual da organização do campo no Brasil e internacionalmente.

Palavras-chave
atmosfera; stimmung ; mood ; afetos

Abstract

This article introduces the special issue Studies of Climate, Mood and Atmosphere in Brazil. The text begins by acknowledging a field of study that is still under construction – Mood Studies or Atmospheric Studies. It then traces a genealogy of the concept of atmosphere, central to this field, beginning with the work of Hermann Schmitz and including commentators and contributors such as Gernot Böhme. The article subsequently establishes a dialogue with other recurring concepts in the field, such as Stimmung, mood, and structure of feeling, showing how these ideas form part of a constellation of concepts that help us understand the imprecise and ethereal nature of such phenomena. Finally, we discuss the current state of the field’s organization both in Brazil and internationally.

Keywords
atmosphere; Simmung; mood; affects

1 Introdução

Nas últimas duas décadas, observamos o desenvolvimento de um campo de pesquisas e de estudos que toma aspectos etéreos, difusos e indefinidos dos fenômenos sociais como foco de análise. Tais abordagens têm partido inicialmente de discussões acerca de conceitos e categorias cujas próprias definições se tornam pauta, como atmosfera, humor, clima, mood, Stimmung, vibe, estrutura de sentimentos, ambiência, entre tantos outros. Cada uma destas palavras-chave evoca contextos intelectuais específicos e engloba tanto discussões sobre a natureza em si dos fenômenos como discussões em que tais conceitos se aplicam a objetos de pesquisa. Recentemente, elas passaram a encontrar ambientes comuns de trocas e articulações, impulsionados em geral pelos efeitos da “virada afetiva” e, mais recentemente, da “virada atmosférica” (Griffero, 2019b). Hoje, portanto, é possível identificar diversas iniciativas que cruzam fronteiras disciplinares e englobam diferentes perspectivas culturais caminhando para a constituição de um campo de estudos, cujo nome pode ser rascunhado como mood studies ou, mais recentemente, como estudos atmosféricos.

Como indícios da construção desse campo que atravessa culturas e disciplinas, podemos citar a proliferação de dossiês temáticos em revistas acadêmicas que foram relevantes para expandir o alcance destas discussões em diversos países, especialmente no âmbito europeu, e em diferentes esferas disciplinares. Um marcante exemplo inicial foi o dossiê “In the Mood” na New Literary History (2012), publicação dos estudos literários, no qual as editoras Rita Felski e Susan Fraiman buscaram priorizar a compreensão da ideia de mood3 dentro das discussões sobre afeto e emoções nas humanidades e nas ciências sociais aplicadas. Para elas, a ideia de mood é capaz de contornar categorias e dicotomias desajeitadas impostas pela experiência: subjetividade e objetividade, sentimento e pensamento, latência e manifestação. Ao evitar tais desafios, enfatiza-se o papel do conceito nas modulações do pensamento, o que permite reconhecer o dinamismo da relação entre razão e emoção. Em 2014, o dossiê “Mood Work” da revista de cultura, teoria e política New Formations (Highmore; Taylor, 2014) dá continuidade a esta perspectiva. Em sua introdução, Ben Highmore e Jenny Bourne Taylor (2014) entendem novamente que a fluidez do conceito de mood faz com se trafegue sem fronteiras rígidas entre clima, emoções, afetos e sentimentos, oferecendo a vantagem clara de uma perspectiva para observar o mundo do afeto, das sensações e dos sentidos, ao mesmo tempo que também proporciona uma visão sobre o mundo da percepção. Para eles, é possível seguir a abordagem conceitual estabelecida por Martin Heidegger, sem seguir as direções políticas de seu projeto filosófico.

No ano seguinte, um dossiê na Emotion, Space and Society Journal (Bille; Bjrregaard; Sørensen, 2015) discute desta vez o conceito de “atmosfera”, também a partir de uma perspectiva heideggeriana e de suas reverberações sobre o braço filosófico nomeado de neofenomenologia – que compreende autores como Hermann Schmitz, Gernot Böhme, Jürgen Hasse e Tonino Griffero. Para discutir a atmosfera como um fenômeno social ligado à encenação, os autores a analisam como uma interface entre pessoas, lugares e coisas, entendendo que investigar atmosferas deve ser algo essencial para as ciências sociais. Em 2017, a revista Philosophia (Krebs; Ben-Ze’ev, 2017) publica “The Meaning of Moods”, em que Angelika Krebs e Aaron Ben-Ze’ev fazem a curadoria de 22 artigos produzidos a partir de um workshop sobre estudos das emoções organizado pela Sociedade Europeia de Filosofia. A edição explora o significado de mood em cinco eixos: o que são, como se conectam à filosofia de Martin Heidegger, moods e o sentido da vida, a coletividades e a estética e inclui dois textos fundantes: um artigo de 1941 por Friedrich Bollnow e um artigo de Friedrich Kambartel de 1989. Em 2019, Tonino Griffero edita o dossiê “Moods” na publicação italiana Studi di Estetica (Griffero, 2019a), a fim de investigar o expressivo ressurgimento da ideia de Stimmung, ou mood, nas ciências humanas. A coletânea reúne textos que novamente discutem temáticas localizadas entre moods e atmosferas, com artigos sobre estética, espaço, paisagem, música e discussões interculturais. Por fim, mais recentemente, em 2023, a discussão destes dois conceitos-chave se funde no dossiê “Atmosphere and Mood: Two Sides of the Same Phenomenon” da revista Art Style, Art & Culture, editado por Martina Sauer e Zhuofei Wang (2023). Além destes dossiês, podemos também citar livros no formato coletâneas como Atmosphere/Atmospheres: testing a new paradigm (Griffero; Moretti, 2018); Atmosphere and aesthetics: a plural perspective (Griffero; Tedeschini, 2019); Mood: interdisciplinary perspectives, new theories (Breidenbach; Docherty, 2016); Atmospheres and shared emotions (Trigg, 2022); além de dezenas de mesas-redondas, seminários e sessões temáticas. Portanto, o dossiê que ora apresentamos aqui é mais uma iniciativa, dentre outras aqui não mencionadas, que compõe esse processo.

2 Genealogia das atmosferas

Podemos pensar em atmosferas como aquele “clima” ou “vibe” que preenche os lugares que habitamos, funcionando como um elo sensível entre indivíduos e o ambiente que os rodeia. Contudo, elas estão longe de serem apenas impressões subjetivas, e de fato operam como uma ponte que une o observador e o objeto. Como descreve Tonino Griffero (2016a), trata-se de um “algo a mais” (je-ne-sais-quoi) que percebemos fisicamente em um espaço, mas que não conseguimos explicar apenas listando características materiais. Em termos da dita “virada atmosférica”, é essencial entender não apenas a difusão desta ideia dentro do contexto descrito acima, mas também como tal conceito e abordagem parece responder à crescente percepção sobre fenômenos contemporâneos como pertencentes a âmbitos que aparentam estar além do alcance de metodologias e conceitos historicamente utilizados e viáveis para sua compreensão.

Como dito acima, a chamada “virada afetiva” consolidou a percepção de que problemas fluidos necessitam de olhares igualmente fluidos, que por si, então, correspondam à falta de especificidades de nossas experiências contemporâneas. É compreensível, assim, que caminhos filosóficos tenham sido recrutados para tal tarefa, entre eles a noção de atmosfera. Griffero (2019) observa que, no contexto das humanidades, este conceito vem sendo usado como um mecanismo heurístico para pesquisar fenômenos cujos efeitos invisíveis parecem desproporcionais em relação às suas causas visíveis, o que torna necessária uma atenção ao aspecto vago e qualitativo da experiência. Ele observa que, em diversas instâncias e setores das humanidades, pesquisadores têm optado pelo discurso “atmosférico”, aplicado de maneira mais simples do que a complexa interpretação de afeto oferecida por Spinoza por Gilles Deleuze, algo que ele chama de “virada atmosférica” (Griffero, 2019).

Yukiko Kuwayama (2025) vem investigando a genealogia do termo “atmosfera” dentro da perspectiva filosófica da fenomenologia. Como se trata de um termo que coincide com a linguagem corrente, ela afirma que, na história da fenomenologia, o termo “atmosfera” foi, provavelmente, utilizado pela primeira vez na obra de Maurice Merleau-Ponty, relacionado ao corpo, à sexualidade etc. Ola Sigurdson observa que, na Fenomenologia da Percepção (1945 [2018]), Merleau-Ponty usa o termo atmosfera ao se referir à experiência sensorial localizada entre sujeito e objeto como um horizonte para ambos, mas não o problematiza como assunto de investigação conceitual (Sigurdson, 2024, p. 22). Apenas no fim dos anos 1960, o alemão Hermann Schmitz (1928-2021) dá corpo à noção de Atmosphäre como conceito que descreve especificamente a ideia de emoção como atmosferas que transbordam no espaço, mas não espacialmente, e que constitui uma das bases na construção de sua obra. Kuwayama (2025) aponta que Schmitz se concentra especificamente na maneira como fenômenos se desdobram não apenas por meio de nossas intenções propositais, mas de modo não intencional, da maneira como ocorrem de modo involuntário, misterioso ou além de nossa compreensão. Segundo a pesquisadora, o desafio do projeto filosófico mais amplo de Schmitz, nomeado de neofenomenologia, reside no processo de tornar acessível via linguagem as enigmáticas experiências destes fenômenos, ou seja, uma investigação da base de abstração, que ampara todo trabalho filosófico que torna abstratos os fenômenos humanos e que dá origem a tais dicotomias.

Segundo Rainer Kazig (2016), o princípio da neofenomenologia se localiza em uma crítica da separação entre os mundos interior e exterior dos indivíduos. Schmitz critica a psicologização da experiência, que faz com que aspectos importantes da experiência imediata e não cognitiva sejam deixados de lado. Uma chave para a compreensão desta proposta é a ideia de corpo sentido (Leib) como a base da concepção da experiência humana: aquilo que uma pessoa sente na esfera de seu corpo material (Körper) sem auxílio dos cinco sentidos. Schmitz estabelece tal concepção teórica do conceito de atmosfera em seu repertório ao discutir a espacialidade do corpo sentido, que não possui superfície ou dimensões. Para ele (2023), além do próprio corpo, o espaço das emoções se configura na forma de atmosferas, que também são compreendidas como espaços sem superfície. As emoções aqui não são, portanto, uma categoria puramente psicológica, mas algo objetivo derramado no espaço, o que as imbui de uma natureza “quase-objetiva”. Esta é outra chave fundamental para a compreensão da neofenomenologia, a noção de que as atmosferas se classificam como quase-coisas (no conceito original de Schmitz, Halbdinge, e com tradução de Griffero, 2010, 2013), algo que se localiza entre objeto e sujeito, entre materialidade e estados mentais, mas que só manifesta sua existência a partir da experiência.

Segundo Kuwayama, a noção de quase-coisa se configura como uma crítica ao dualismo entre coisas e seus atributos ou, mais amplamente, entre mente e corpo. Além das atmosferas, outros exemplos possíveis de quase-coisas são um olhar, a voz, os aromas, a brisa, a melodia, a cor, a sensação de peso em um dia úmido, a dor crônica, o choque elétrico, o frio extremo, calor insuportável, o tempo do tédio, a espera ansiosa. Em Atmospheric Spaces (Schmitz, 2023), livro que reúne alguns dos poucos ensaios da ampla obra de Schmitz traduzidos para inglês (por Lorenzo Marinucci), ele explica que essa atribuição como Halbdinge se torna uma ferramenta para entendermos a natureza dos sentimentos como atmosferas difusas. Segundo ele, as coisas persistem sem interrupções e funcionam como causas que produzem efeitos por ações, enquanto as quase-coisas podem ser descontínuas e não mediadas, já que nelas causa e ação são a mesma coisa. O uso do prefixo Halb (“meio” ou “quase”) se prova essencial para concepção de Schmitz sobre sentimentos como atmosferas, pois as localiza no espaço “entre”, ou seja, o território intermediário entre sujeito e objeto. Como a ontologia ocidental clássica tende a separar rigidamente o que é “coisa” (objetivo) do que é “sentimento” (subjetivo), ele denomina estes fenômenos híbridos deste modo por não se encaixarem perfeitamente em nenhum dos polos. Griffero reafirma as atmosferas como “quase-coisas” pois elas são “coisas” porque possuem uma “expressividade intrusiva” (Griffero, 2016b, p.1) que nos afeta de fora para dentro, mas são apenas “quase” porque carecem de materialidade física, não têm superfície e não permanecem idênticas ao longo do tempo como um objeto sólido.

A ideia desta quase-objetividade é também chave para a compreensão de Gernot Böhme (2017), filósofo tido como responsável pela difusão dessa concepção de atmosferas. A partir da metade dos anos 1990, Böhme segue o desenvolvimento de uma abordagem das atmosferas baseada na neofenomenologia que valida as atmosferas como algo não meramente “psicológico” ou “interno”. Para ele, elas possuem uma realidade externa – podemos entrar nelas e ser capturados por seu tom – e sua existência pode ser comunicada a outros por meio da intersubjetividade, o que lhes confere um caráter objetivo; contudo, permanecem “quase” pois não existem sem o sujeito que as sente. As atmosferas funcionam, portanto, como uma ponte: são a maneira como o sujeito percebe o objeto e, nesse exato ato de sentir o que está “lá fora”, sente a si mesmo. Elas são “sentimentos espacializados” que transbordam das coisas, mas só ganham vida na presença de um corpo que as perceba. Segundo Ben Anderson (2009), Böhme coloca ênfase especial na espacialidade das atmosferas, mas sua localidade permanece ambígua. É difícil dizer onde as atmosferas se localizam, devido a seu caráter difuso e vaporoso, o que nos permite concebê-las como algo entre pessoas, coisas e ambientes, algo como um elemento gasoso que ocupa um ambiente.

Para Griffero (apud Schmitz, 2023), nos anos 1990, Böhme se torna o responsável por uma difusão mais ampla da versão neofenomenológica do conceito de atmosferas, ao tê-las como pilar de uma estética, entendida aqui como uma teoria geral da percepção, que considera não apenas a arte, mas também âmbitos como cosméticos, anúncios, paisagismo, design, cenografia, design de interiores, acústica, mobiliário. Böhme sugere que, nestes campos, ambientes podem ser “sintonizados” ou “tingidos” pela disposição de objetos, luzes e pessoas, unificando as impressões sensoriais em um estado emocional coeso. Segundo Anderson (2009), a partir de tais práticas de disposição, as atmosferas podem ser melhoradas, transformadas, intensificadas ou formatadas. Aqui é importante notar que, diferentemente de Schmitz, Böhme enfatiza que, por sua quase-objetividade, as atmosferas podem ser produzidas ou encenadas. Nesse contexto, os elementos de um ambiente podem ser mobilizados por seu “valor de encenação” (que se contrapõe ao conceito marxista de valor de uso), atuando como geradores de atmosferas – por exemplo, o manejo da luz e do som no teatro cria uma atmosfera coletiva na plateia, ou a escolha de espécies floríferas no paisagismo cria uma atmosfera de paz, ou as estratégias de branding olfativo de uma marca cujas lojas têm sempre o mesmo aroma cria uma atmosfera de consumo. Esta forma de mediação é chamada de “trabalho estético”, englobando atividades voltadas a mobilizar espaços e mercadorias buscando influenciar estados de espírito e orientar comportamentos. Para Böhme, esta encenação de atmosferas se encontra no centro da sociedade contemporânea e de sua “economia estética”. É importante observar que, considerando a natureza quase-objetiva, Böhme (2017) sustenta que a estética das atmosferas se encontra entre uma estética da recepção e uma estética da produção. Os profissionais especializados de cada área possuem habilidades e conhecimentos específicos para reproduzir sentimentos atmosféricos.

Assim, tendo em vista esta base teórica, a chamada “virada atmosférica” nas ciências humanas se consolidou nas últimas décadas como um campo interdisciplinar interessado em compreender como qualidades afetivas permeiam situações, espaços e experiências. Inspirado sobretudo pela neofenomenologia, o campo parte da ideia de que as atmosferas constituem dimensões fundamentais da percepção, sendo frequentemente descritas como qualidades afetivas espacialmente difundidas que precedem e condicionam a experiência do mundo. Nos anos 2000, o conceito ganhou destaque particular na geografia anglófona com a noção de affective atmospheres introduzida por Ben Anderson (2009), que buscava tensionar a distinção entre emoção individual e afeto impessoal ao enfatizar como experiências sensíveis emergem em situações coletivas e espaciais. Mais recentemente, a literatura tem avançado ao deslocar o foco da percepção para as práticas atmosféricas, investigando como corpos, objetos e rotinas cotidianas não apenas percebem, mas também produzem, modelam e transformam atmosferas em contextos sociomateriais específicos.

Nesse processo de difusão e sistematização do conceito, trabalhos como os de Tonino Griffero e de Jürgen Hasse desempenham um papel importante ao ampliar o alcance da teoria das atmosferas para além de sua formulação inicial. Griffero (2016a) aprofunda a herança neofenomenológica de Schmitz ao propor uma abordagem que denomina atmosferologia, articulada a uma estética pática (Griffero, 2019) que enfatiza o papel do corpo sentido (Leib) na percepção de ambientes e situações. Nessa perspectiva, o indivíduo não aparece apenas como agente que interpreta o mundo, mas também como alguém afetado por ele, sensível às qualidades expressivas que se manifestam nos espaços. Em paralelo, o geógrafo Jürgen Hasse (2015) aplica as ideias de Schmitz ao campo da geografia humana e dos estudos urbanos. Por meio do que chama de fenomenografia crítica e de observações micrológicas de situações cotidianas, Hasse (2018) investiga como mercados, ruas, praças ou sistemas de transporte geram atmosferas específicas que influenciam o modo como os corpos se orientam e se comportam nesses espaços.

A diversificação do campo nas últimas décadas consolidou um estado da arte transdisciplinar, onde a atmosfera é mobilizada como uma ferramenta analítica para investigar desde a materialidade física até as estruturas sociais. No campo da antropologia e da arqueologia, por exemplo, Mikkel Bille (2015) e Bille, Bjrregaard e Sørensen (2015) investigam a encenação de atmosferas domésticas e comunitárias através de tecnologias de iluminação, exemplificadas no conceito dinamarquês de hygge. A aplicação do conceito se estende ainda a esferas normativas e sociais complexas: Andreas Philippopoulos-Mihalopoulos (2015) introduz a noção de lawscape, tratando o Direito não como uma abstração, mas como um afeto espacial e corpóreo que opera atmosfericamente. Na sociologia e no esporte, Robert Gugutzer (2020, 2025) utiliza a neofenomenologia para analisar como sentimentos coletivos e atmosferas situacionais “agarram” o corpo sentido (Leib) e coordenam ações sociais. Do mesmo modo, Barbara Wolf (2019) aplica essa lente à pedagogia, discutindo as atmosferas de aprendizagem e a importância de uma “competência atmosférica” e do “tato pedagógico” para o desenvolvimento infantil. No âmbito da comunicação, Christiane Heibach (2024) analisa as atmosferas como fenômenos difusos e alerta para o papel das mídias na construção de atmosferas manipulativas que influenciam convicções e decisões.

Por fim, a virada atmosférica contemporânea é marcada por uma profunda abertura intercultural. Tadashi Ogawa (2021) estabelece pontes entre a fenomenologia europeia e a tradição japonesa, vinculando atmosferas aos conceitos de ki (気: ar/sopro/energia vital) e de vento e respiração como elementos invisíveis, sem forma, impermanentes, mas sempre presentes como movimentos entre as coisas, animando-as entre subjetividades. Tonino Griffero e Yuho Hisayama (2025) desenvolvem uma fenomenologia que cruza fronteiras culturais ao unir a neofenomenologia de Schmitz aos conceitos de aida (entre) e o de ki, que é tido como um “modelo fluido” para descrever a imersão do ser humano em um meio atmosférico que precede a distinção técnica entre sujeito e objeto. Através da ideia de pansfera, Hisayama (2014) investiga uma dimensão impessoal que funciona como a continuidade absoluta entre a esfera do corpo sentido (Leibessphäre) e a atmosfera externa para além da linguagem.

3 Os estudos atmosféricos como campo

O que temos observado não é somente o desenvolvimento interno de uma tradição filosófica ou de um legado autoral do filósofo e de seus intérpretes. Observamos de fato algo muito mais amplo e socialmente significativo. Se é uma “virada atmosférica” ou se estamos no “clima para o clima” (“in the mood for mood”) (Griffero, 2019b, p. 121), trata-se de descrições que apontam incerteza e imprecisão para captar algo que está em curso. Pensamos que parece existir uma predisposição socialmente formada para o atmosférico. Tal como a presença de um astro pode ser constatada pela curvatura que sua massa provoca na luz, essa predisposição pode ser sentida em como conceitos têm ganhado destaque e em como os seus significados que apontam para o atmosférico vão sendo realçados.

Dentro da língua alemã, temos o revival do termo Stimmung. Presente há séculos nas discussões filosóficas, tem sido retomado especialmente a partir da formulação heideggeriana, para a qual Stimmung é a condição do ser-aí de estar jogado no mundo, de se sintonizar ao mundo. Griffero vê nessa acepção de Heidegger uma antecipação da perspectiva anti-introjetista da neofenomenologia (Griffero, 2019b, p. 125). Stimmung tem uma longa história antes de Heidegger, que afirma sua vocação a captar algo sensível, ligado à vibração, mas também algo muito subjetivo, especialmente no pensamento alemão no século XIX (Wellbery, Pohl, 2018). O que Griffero nota é que Heidegger desloca o conceito dessa perspectiva subjetivista e o aproxima de um aspecto do mundo. Isso será desenvolvido posteriormente pelo próprio Schmitz, que verá Stimmung como um “modo da minha afetividade corporal que representa aquele fenômeno fundamental (ur-phenomenon) na sua estrutura espacial” (Wellbery, Pohl, 2018, p. 41).

Como um modo de afetação, Stimmung tem sido traduzido com frequência nos estudos pelo termo inglês mood. Tomado a partir da Stimmung heideggeriana, mood se afasta do conceito de emoção, com o qual é muitas vezes confundido. Mood, por influenciar “mais a forma como se percebe do que o conteúdo percebido, leva apenas indiretamente a comportamentos e não motiva diretamente emoções” (Griffero, 2019b, p. 133-134). Essa acepção demonstra o porquê de o campo descrito aqui não ser absorvido, ainda que parcialmente, pela Sociologia das Emoções. De fato, ele pode ser entendido como mais próximo aos Estudos Culturais, particularmente a partir do modo como os sentimentos e afetações foram tratados por sua geração inicial e como esta geração foi revisitada no contexto da virada afetiva. Vários autores referenciados nos Estudos Culturais têm trabalhado o termo mood em relação ao conceito de estruturas de sentimento de Raymond Williams (Anderson, 2009; Coleman, 2018; Highmore, 2016). Tem servido de elo entre os conceitos o foco pré-discursivo de ambos. Estrutura de sentimento tenta dar destaque e inteligibilidade àquilo que emerge, que não tem ainda forma social discursiva e institucional. O mood, que pode ser traduzido muitas vezes por clima, serve para se referir àquilo que se insinua, o clima que antecede o evento, o burburinho, ou os humores de uma geração que começa a se expressar.

Nessa acepção, o uso de mood como categoria oferece mais abertura aos aspectos sociais e oferece estímulos a uma maior apropriação nas Ciências Sociais. É o que pode ser notado no foco do “clima político” sobre os protestos peruanos de 2022-2023 no artigo de Diego Garcia e Valeria León neste dossiê. O clima aqui não é mobilizado como sinônimo de contexto, pano de fundo inerte, mas sim na tensão proposta pelo atmosférico de um processo que é constituído e constitui as dinâmicas sociais. Os autores corroboram a ideia de que “a disputa pelo clima de um debate público é um aspecto relevante na compreensão dos conflitos políticos, pois é por meio dela que se configura o que é ou não audível” (Gajanigo, 2020, p. 171). A pesquisa, inspirada nos estudos de Sara Ahmed (2014) sobre política das emoções, detalha como a circulação de emoções como medo, dor, ódio e asco atua na construção das figuras do “outro” criminoso, indígena, estrangeiro e bárbaro. O texto descreve que o terruqueo funciona mediante a repetição de estereótipos que buscam modular o humor social, sintonizando a coletividade para o reconhecimento de determinados grupos como ameaças ao Estado.

O uso do termo mood parece ganhar ainda mais relevância atualmente, num contexto em que o que se insinua é objeto de disputas intensas nas mídias sociais, uma batalha sobre os humores antes mesmo dos eventos. Rebecca Coleman (2018) chamou as novas mídias de infraestruturas de sentimento, produtoras de formas de percepção e temporalidade. De forma próxima, Heibach (2024) nomeia essas mídias de atmosféricas. Bruno Reinhardt e Letícia Cesarino (2024) qualificaram o bolsonarismo como um fascismo atmosférico. O adjetivo aqui tem o sentido de “modo de fazer tempo e mobilizar públicos através do clima político”. Aí parece estar uma das relevâncias, ou mesmo urgências, desse campo de estudos. A simbiose entre novas mídias e política exige dos pesquisadores ferramentas para lidar com o etéreo, o insinuante, as disposições e predisposições, as emergências.

Outro termo que tem uma trajetória distinta, mas tem sido colocado em diálogo com o atmosférico é o de ambiance. A partir do seu uso em francês, tem abrigado estudos que se voltam para questões urbanísticas e arquitetônicas, o que é demonstrado, por exemplo, pela rede internacional Ambiances, que tem dado consistência institucional a esse campo. Criada por Jean-Paul Thibaud, abriga pesquisas que tratam da “concepção sensorial de espaços arquitectónicos e urbanos e à compreensão das ontologias, formas e potências das intensidades afetivas das atmosferas” (LE RÉSEAU, 2026). As afinidades com a atmosfera são evidentes e têm sido exploradas por diversos autores (Kazig, 2016; Thibaud, 2021). No artigo deste dossiê intitulado “Ambiências comunicativas do futebol-espetáculo contemporâneo: o caso do Dispositivo de Hiperexcitação Controlada Arena MRV”, Pedro Silva Marra e Gabriela Lopes Gomes optam pelo uso do termo ambiência por este permitir tratar o fenômeno como um espaço-tempo qualificado do ponto de vista sensório, onde agentes humanos e não humanos se emaranham. Para os autores, “o termo ambiência agencia mais elementos do espaço capazes de produzir ou sofrer impactos sensoriais, estéticos e simbólicos em relação a coletividades do que atmosfera” (Marra; Gomes, 2026, p7-8). O estudo analisa a Arena MRV, um estádio de futebol moderno localizado em Belo Horizonte, como um arranjo complexo que integra arquitetura, tecnologia e mercado para gerir e intensificar estados coletivos de excitação. O artigo detalha como equipamentos sensoriais – projetos acústicos, telões de LED e aplicativos sincronizados – funcionam como infraestruturas de afetação que buscam sintonizar o público em um ciclo de repetição entre a performance em campo e a das arquibancadas.

Para além desses conceitos, o que vemos é que o processo de consolidação do campo dos estudos atmosféricos envolve também o diálogo com debates em áreas disciplinares ou temáticas. O artigo neste dossiê de Julia Barroso da Silveira, Vinícius Andrade Pereira e Camile Carvalho Nascimento estabelece uma profícua relação entre os Mood Studies e os estudos do som. A afinidade aparece inicialmente na referência sonora que está no conceito de Stimmung. Ao ter Stimmung como um dos conceitos basilares, o campo desafia a centralidade das metáforas visuais bastante recorrentes no pensamento ocidental. Os autores destacam que a ideia de epistemologias sônicas de Voegelin desafia “as suposições de universalidade e objetividade, bem como a centralidade da cultura visual” (Silveira; Pereira; Nascimento, 2026, p.5). Outra afinidade estaria na percepção e valorização das indefinições nos fenômenos estudados; para os autores, “há uma efemeridade na escuta e na percepção ambiental, além da confusão entre sujeito e objeto, tornando impermanente e ontologicamente frágil a atmosfera” (Silveira; Pereira; Nascimento, 2026, p. 10).

Uma área que parece colher muitos frutos com a incorporação do “olhar atmosférico” é a do cinema e do audiovisual. “O cinema [...] interessa-se particularmente pela noção de atmosfera porque tem a particularidade de dispor de uma infinidade de instrumentos para a sua representação e transmissão ao espectador” (Gil, 2002, p. 95). O conceito de atmosfera oferece instrumentos tanto para tratar de sua busca por apresentar experiências vividas (o que seria comum à literatura também) quanto pelo seu aspecto de “arte total” imersiva e, portanto, envolvente em vibrações e humores. Já há diversos trabalhos que tomam a atmosfera como aspecto relevante da análise fílmica (Gil, 2002; Kratje, 2018; Salviano, 2025; Santos Júnior, 2025; Spadoni, 2020). Neste dossiê, temos o estudo do cinema de horror feito por Rodrigo Carreiro. O autor mobiliza as contribuições de Gumbrecht, Böhme e Gil para captar a experiência do horror nos filmes como uma construção de atmosfera. Para ele, “pensar o horror como experiência estética é reconhecer que sua eficácia depende menos de sustos isolados e mais da criação de atmosferas que instalam Stimmungen específicas” (2026, p.8). Para compreender essa construção atmosférica, não é operativa a visão direta de transmissão afetiva, como, por exemplo, a cena de alguém em pânico transmitir pânico. O trabalho na construção de atmosferas exige técnicas de imersão e temporalidade. Como Carreiro arremata, “podemos afirmar que o horror é menos a arte do monstro do que a arte da espera, menos a arte do choque do que a arte da preparação. É no clima, no espaço sensível compartilhado entre filme e audiência, que o horror encontra sua eficácia” (Carreiro, 2026, p. 18).

A questão da atmosfera aqui está diretamente ligada à forma como Böhme trata a estética. Como o próprio autor indica, sua proposta não se resume ao que estaria chancelado dentro do sistema de arte, mas sim à experiência estética de maneira ampla. Isso permite que se olhe para a arquitetura, design, propaganda como também para âmbitos da experiência no seu aspecto estético. O texto “Composições do self: das atmosferas e emoções da memória”, de Vittorio Talone, neste dossiê, faz isso com a memória. A partir de uma pesquisa qualitativa com mães de vítimas de trânsito e policiais militares, o autor analisa como experiências de violência e perda se manifestam no cotidiano por meio de corpos que registram e relatam dores físicas, tremores e sensações de “choque” ou “vazio”. O texto propõe que o passado não se atualiza apenas como representação visual ou imagem neutra, mas também como dispositivos de afetos e atmosferas que funcionam como actantes, redefinindo a percepção de si e as possibilidades de agir. Ao dialogar com a estética de Gernot Böhme e a fenomenologia das tonalidades afetivas (mood/Stimmung), o trabalho descreve a atmosfera como uma presença sensível e difusa que preenche o espaço e envolve o corpo, atuando como uma “luz” que ilumina o mundo e orienta o self em suas transições de realidade.

4 A organização dos Estudos Atmosféricos

Quando escrevemos a proposta de dossiê, em 2024, estávamos vendo a formação desse campo de estudos num estágio anterior à nomeação. Um campo emergente que não tinha encontrado ainda nenhum ato institucionalizador. Como dissemos aqui, havia a rede Ambiances, havia a neofenomenologia e seus núcleos de estudo4, havia o disperso campo dos estudos culturais, com epicentros nos EUA e no Reino Unido. Arriscamos nomear o campo, de forma reticente, de Mood Studies. Foi no artigo de 2024 que se rascunha o rótulo (Gajanigo, 2024). Em 2026, precisamos fazer um registro. Como sugerimos, o campo, que ainda não tinha dado passos institucionais, está se consolidando. Ainda em agosto de 2024, foi realizado um encontro para estabelecer uma sociedade internacional de Estudos Atmosféricos. O evento foi uma articulação entre o grupo italiano do Atmospheric Spaces, o Instituto de Estudos Atmosféricos de Kobe (KOIAS), do Japão, e o centro de pesquisa ZRS Koper da Eslovênia. No ano de 2026 será realizado o primeiro encontro dessa Sociedade, batizada de Society for Atmospheric Studies (SOFAS), com a participação de dezenas de pesquisadores pertencentes a diversos centros e núcleos de pesquisa ao redor do mundo dedicados às atmosferas.

No Brasil, a produção de pesquisas neste campo teve como impulso principal a influência de Hans Ulrich Gumbrecht (2015), especialmente a partir da publicação em português da obra Atmosfera, ambiência, Stimmung: sobre um potencial oculto da literatura. Em 2024, foi lançado o primeiro dossiê com tema sobre Atmosferas na revista Antropolítica, “Atmosferas e Antropologia”, organizado por Bruno Reinhardt e Diogo Correa. Em março de 2025, foi realizado o I Colóquio de Estudos Atmosféricos, sediado na Universidade Federal Fluminense, com a participação de nove palestrantes convidados do Brasil, Japão, Itália e Argentina, 19 trabalhos apresentados por 31 pesquisadores de diversas regiões do país e 145 inscritos no evento. Na ocasião, a UFF, por meio do laboratório de pesquisas no.ar, assinou um acordo de cooperação com a Universidade de Kobe para o fortalecimento de estudos atmosféricos e para a consolidação do campo através da formação da sociedade. O que essas iniciativas demonstram é que, mesmo sem muitos espaços de trocas, há uma produção cada vez mais robusta nesse campo no Brasil. Essa produção vem aparecendo em diversas dissertações e teses e não está tão presente em coletâneas e grupos de pesquisa – o que sugere o quadro de consolidação ainda do campo.

A proposta deste dossiê se insere neste esforço de fortalecimento do campo no país. O objetivo é oferecer um espaço comum para produções contemporâneas que tenham se inspirado nas contribuições desse campo e incentivar o diálogo entre pesquisas que usam algum ou vários desses conceitos. Particularmente, o dossiê também tem como objetivo reforçar a relevância das discussões dentro dos estudos atmosféricos para as Ciências Sociais. Diversos temas caros à nossa disciplina são tocados pelas propostas, com abordagens voltadas para o aspecto etéreo dos fenômenos sociais. Por exemplo, a contribuição de Tim Ingold (2012) sobre atmosfera se articula com sua proposta de antropologia ecológica. Além disso, o termo mood, entendido para além das emoções individuais, desafia abordagens dos estudos sobre public mood e análise dos humores nas redes sociais virtuais (Gajanigo, 2024). Ainda que Hartmut Rosa (2019) não faça uso explícito dos conceitos como Stimmung ou atmosfera, seu uso da ideia de ressonância se aproxima das contribuições que mapeamos aqui e desafia, tal como os estudos atmosféricos o fazem, a primazia da racionalidade na compreensão da esfera pública.

  • Pesquisa financiada por JSPS – Core-to-Core Program (grant number JPJSCCA20250001). Pesquisa financiada pela FAPERJ (Processo nº E-26/210.342/2022).
  • Declaração de uso de IAGen
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    Nos últimos anos, temos traduzido o conceito de mood como clima no português, palavra que mantém parcialmente a significação ligada ao coletivo, ao mesmo tempo que acarreta a perda de seu significado relacionado ao âmbito de humor. Devido a tal polissemia, mantemos aqui o original anglófono quando nos referirmos ao campo dos estudos de mood, especialmente porque o mesmo já constitui uma tentativa de tradução da ideia de Stimmung, cuja tradução é também frequentemente evitada.
  • 4
    Como o website Atmospheric Spaces (2026).

Declaração de Disponibilidade de Dados

Nenhum dado de pesquisa gerado ou utilizado.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    06 Mar 2026
  • Aceito
    23 Mar 2026
  • Publicado
    29 Abr 2026
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