Lançado na Livraria da Travessa de Ipanema, numa noite costumeiramente quente do Rio de Janeiro, o novo livro de Caroline Tresoldi e André Botelho, Helô Teixeira: crítica como vida, é um acontecimento que merece os olhares não só daqueles que têm interesse na história da crítica literária e cultural desenvolvida no Rio de Janeiro entre os anos 1970 e a primeira década deste século XXI, como também deveria estar no radar de todos que leem/escrevem trabalhos acadêmicos nas humanidades de uma maneira geral. Isto por uma razão muito simples: não apenas os autores foram capazes de reconstruir de maneira muito informativa a trajetória intelectual de uma crítica de difícil paridade no cenário nacional, como o fizeram de uma maneira que não violentou a leveza e a fluidez que eles mesmos buscaram identificar nessa vida/obra crítica.
O que menos se gosta em livros de acadêmicos sobre literatura, arte, cultura em geral é a postura ora excessivamente rígida e empolada, que leva a leituras duras e pouco instigantes, ora posturas superficiais e elegíacas, que pouco descrevem e mais explicam, cujo objetivo é menos uma apresentação complexa e plural de um autor, obra, período e mais reforçar a própria teoria do acadêmico que digitou o texto. Em nenhum instante, os autores caíram nessa trapaça.
O traço metodológico do livro termina como pergunta: “Não se trata de pensar a trajetória em movimento de formação cronológica e linear, como um aperfeiçoamento cumulativo ao modo dos paradigmas da ‘formação’ que visam estabilizar o contingente e domesticar a ideia de ‘momentos decisivos’ deste percurso, para não cairmos na armadilha de sobrevalorizar eventos e atribuir causalidades teleológicas a eles, enviesando a narrativa como um todo. O que fazer?”. Como biografar sem Bildung?
É preciso dar atenção à forma para respondê-la, se é que isso é possível. Forma caleidoscópica, a fim de abordar uma perspectiva intelectual sempre-em-formação, atravessando estudos em Letras Clássicas, a pós-graduação nos Estados Unidos, o trabalho na assistência de pesquisa, o mestrado em Literatura Brasileira, mesclando esses momentos tradicionais da formação intelectual brasileira com mensagens de WhatsApp. Quem lê pode ter a impressão de que, temporalmente, a narrativa biográfica é sócio-histórica, mas uma que dá saltos e não uma que precisa de uma continuidade teleológica, o coração da noção e conceito de formação. Saltos que vão dos anos 1970 aos anos 2010, da mensagem de texto de semana passada, de volta para as impressões da autora de suas leituras de Benjamin, Barthes, Bakhtin, um curso de José Guilherme Merquior, até a proximidade familiar com o próprio orientador (Afrânio Coutinho). Tudo abre leques de possibilidades, como aquilo que Santiago identificou em seu ensaio sobre o narrador contemporâneo.1 Isto permite a quem lê experimentar com os autores as viagens desde a Zona Sul e do Centro do Rio de Janeiro até os Estados Unidos ou São Paulo.
Os uspianos fornecem um embate central: a comparação entre os grupos de estudos criados em São Paulo e Rio permite uma visão clara e direta do que estava em jogo na perspectiva de Heloísa Teixeira: enquanto os cariocas eram menos interdisciplinares em relação ao grupo que se reunia para a leitura do Capital de Marx, eles também pareciam “bem mais abertos ou mesmo ecléticos em relação ao programa intelectual e à atualização bibliográfica do que o(s) seu(s) congênere(s) paulista(s)”. Farpas entre cariocas e paulistas são parte de uma práxis que vai muito além da academia, o que não significa que ela esteja isenta disso. Mas elas têm um valor para a pesquisa em história das ideias e da sociologia no Brasil valorosas: “ambos os grupos adotavam a mesma metodologia de leitura, a qual definia seus participantes como close readers”, sem deixar de anotar problemas constituintes daquela geração: “o grupo carioca reunia mais mulheres, jovens professoras em início de carreira na UFRJ e na PUC-Rio; o paulista, ao contrário, era quase exclusivamente masculino, sobretudo no primeiro seminário”.
Especial atenção é dedicada à presença de Mário de Andrade, somada à aversão à personalidade e à postura intelectual de Oswald de Andrade. Os autores apontam para um momento crucial da renovação crítica das leituras sobre cultura e literatura brasileiras a partir de Macunaíma, que tem em Heloísa Teixeira uma pioneira na leitura do livro em meio à Ditadura, “talvez como uma espécie de contradiscurso ao patriotismo verde-amarelo e controle do imaginário2 brasileiro do autoritarismo reinante” (:39). Incluindo nomes como Haroldo de Campos, Antonio Callado e Vera Lúcia Pires, todos defendendo teses acadêmicas sobre Mário de Andrade e/ou Macunaíma, vê-se a importância que essa reescrita e releitura teve no período. Além, é claro, da especificidade da dissertação de Teixeira, que combinava a análise do “curto-circuito” entre o livro, o filme (de Joaquim Pedro de Andrade), o contexto histórico, a alegoria, a fragmentariedade dos objetos recolhidos para a composição de seu texto… tudo gira em torno de uma disposição quase anárquica diante da possibilidade das “convenções e caretices institucionais” (Maurício Hoelz).
Um incidente, narrado já no livro de Zuenir Ventura, 1968, onde uma festa de Réveillon leva a uma briga de grandes proporções, envolvendo a nata da intelectualidade e da classe artística carioca na casa de Heloísa (então Buarque de Hollanda), culminando em 18 divórcios, aparece de maneira alegórica.
Os autores aqui traçam um dos paralelos de grande interesse da sociologia da cultura: a ligação entre processos particulares, experiências que normalmente são captadas apenas pela crônica, o jornalismo ou a ficção e processos globais de transformação em padrões e compreensões do mundo e da vida. Citando Ulrich Beck, eles comentam que “a ‘segunda modernidade’, ou a ‘modernidade reflexiva’, em que estaríamos então passando a viver, aparentemente tornava a constelação política da sociedade nacional da ‘primeira modernidade’ algo ‘não político’, enquanto aquilo que era ‘não político’ no âmbito do Estado-nação se tornava ‘político’”. O ocorrido também dá conta das fronteiras sociológicas que constituíam o pensamento crítico carioca naqueles anos.
Uma festa de Réveillon com a nata da classe média intelectualizada, o conflito entre os gêneros, a intelectualização pela atualização, nada disso aparece enquanto alienação. Ela é apenas a manifestação de uma ruptura perante a esquerda enquanto bloco até então existente, o surgimento de uma nova facção que não tem pretensão de se fechar “em instituições como parlamentos, partidos, sindicatos”.
É senso-comum (no bom sentido) que essa postura se consolidou desde então e que se configurou em modo de ser entre estudantes de pós-graduação e professores de departamentos de Ciências Sociais, História, Literatura etc. Sendo assim, o trabalho de Tresoldi e Botelho não é uma discussão que nos interessa, é uma contribuição original das raízes intelectuais que nos constituem. Livro necessário para entender como o pensamento crítico passa a abranger “o centro da vida privada, já que o microcosmo da conduta da vida pessoal está inter-relacionado com o macrocosmo dos problemas globais” no Rio de Janeiro (e além).
Por trás desta perspectiva, existe uma possibilidade muito rica e por isso tema de debate (e até polêmica): a união entre a festividade e o pensamento crítico, fazer da própria condição privilegiada um lugar para experimentações e reconstruções do desejo, chamando isto de construção de pensamento sociológico, antropológico, historiográfico e artístico. Os autores identificam que esta perspectiva é possível por causa da relativa blindagem que as classes médias altas tiveram durante determinado período durante a Ditadura Militar: “[Heloísa] fez dos seus privilégios de classe, de professora universitária, de anfitriã e de amiga da nata da intelectualidade e dos artistas do período, como o seu círculo mais próximo do Cinema Novo, recursos políticos cruciais para pensar e enfrentar, com criatividade e potência, o sistema e o status quo pelas brechas”.
Uma falsa oposição, aparentemente sustentada pelas gerações de crítica cultural anteriores, cai: festa x trabalho, lúdico x sério: se o discurso político sério centrava no trabalho, nas instituições para se enobrecer moralmente, a festa constituía o lugar em que se criticava o “tom grave e nobre da prática e do discurso político que caracterizava e definia a ação cultural da geração anterior". O estilo sério de escrever literatura mas também ciências sociais cai por terra, ao menos para aquela facção.
Acredito que uma das perguntas mais interessantes que o livro traz para o agora vem do confronto entre os limites sociológicos em que esse modelo crítico foi constituído e as suas intenções: a democratização do fazer e do pensar a cultura. Ou seja, em que medida seu potencial resiste às demandas das novas gerações que vêm compondo a sociologia, a historiografia, a antropologia e a crítica cultural, geração esta que não festeja (e talvez nem queira festejar) com a nata?
Agradecimentos:
O autor agradece à Faperj pelo apoio financeiro à sua pesquisa, que possibilitou a escrita desta resenha
Referências
- BOTELHO, André ; HOELZ, Maurício; BITTENCOURT, Andre. 2022. A Sociedade dos Textos Rio de Janeiro: Relicário.
- COSTA LIMA, Luiz. 2009. O controle do imaginário & a afirmação do romance: Dom Quixote, As relações perigosas, Moll Flandres, Tristam Shandy São Paulo: Companhia das Letras.
- SANTIAGO, Silviano. 2019. 35 ensaios de Silviano Santiago Org. Ítalo Moriconi. São Paulo: Companhia das Letras .
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1
O narrador pós-moderno. Companhia das Letras, 2016, p. 409-422.
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2
Controle do imaginárioque é conceito cunhado por outro crítico literário carioca de inestimável importância, o professor da PUC-Rio, Luiz Costa Lima.
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Declaração de Disponibilidade de Dados:
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
