Open-access VAILATI, Alex. 2024. O campo das elites: percursos etnográficos para a exposição da desigualdade. Rio de Janeiro: Papéis Selvagens Edições. 173 pp.

VAILATI, Alex. 2024. O campo das elites: percursos etnográficos para a exposição da desigualdade. . Rio de Janeiro: Papéis Selvagens Edições, 173

Ao longo do livro O campo das elites: percursos etnográficos para a exposição da desigualdade (Vailati 2024), podemos considerar que uma pergunta central guia nossa leitura: “[...]as elites, entendidas seja como um conjunto de grupos específicos, seja como uma categoria fundante do imaginário do século XX, foram realmente secundárias no desenvolvimento das práticas voltadas à pesquisa etnográfica?” (:12). Esta não é a única grande questão tratada por Vailati, que também problematiza a noção de excelência individual enquanto uma influência do “imaginário norte-americano” (:12), ou mesmo a discussão entre Gilbert e Sklair (2018) a respeito do estudo crítico das elites, um grupo econômico cuja mera existência gera prejuízo para a maior parte da população mundial.

Estas são grandes questões, e é em torno das grandes questões que campos de pesquisa se formam. A temática das elites está longe de ser um tema inédito, já tendo sido trabalhada por importantes autores como Laura Nader (1972) e George Marcus (2010), mas o esforço de Vailati está justamente em revelar diferentes “percursos etnográficos”, analisando os caminhos por onde essa tradição passa despercebida por autores clássicos da antropologia. O livro se estrutura em torno de uma introdução e cinco capítulos: I) Desenhos; II) Processos; III) Estruturas; IV) Interpretações; V) Formas; e IV) O campo das elites. Esta organização elabora um caminho histórico pela teoria antropológica, ao mesmo tempo em que apresenta perspectivas do próprio trabalho de campo e da experiência biográfica de Vailati.

O tema das elites possui certos atravessamentos biográficos ao longo da leitura do livro, na maneira como os interlocutores de Vailati o percebem enquanto parte de uma elite, seja por ser italiano ou professor universitário, pressupondo que ele partilhe dos mesmos gostos, interesses e padrões de consumo elitista. Somos apresentados a diferentes contextos etnográficos, seja pelos luxuosos produtores de filmes de casamentos, na África do Sul entre a juventude zulu e suas noções de Pessoa, a disputa do movimento social Ocupe Estelita contra a especulação imobiliária em Recife, ou os registros audiovisuais da construção de um dos maiores empreendimentos do Nordeste brasileiro, o Porto de Suape.

Por mais distintas que sejam essas áreas de pesquisa, todas são capazes de apontar como há uma centralidade na produção de distinção perpetuada por determinadas elites, que acabam por ser detentoras de um tipo de valor material ou simbólico que é imposto ou merecido, mas de um modo ou de outro posicionado em uma outra lógica hierárquica da reprodução social e na noção de Pessoa. Os fragmentos etnográficos do trabalho de campo de Vailati dialogam justamente com os autores clássicos, a fim de aprofundar o que entendemos como campo da antropologia das elites.

Ao longo da história da antropologia, há um tipo de exploração que atormenta tanto pesquisadores quanto interlocutores, pressupondo o lugar do antropólogo como detentor do controle da situação etnográfica na qual se encontra, e de uma suposta vantagem intelectual que deturpa a perspectiva do nativo, sempre vista como em certo nível limitada ou distante da profundidade que a teoria antropológica proporciona. Essa relação não chegou a mudar como imaginamos, mas talvez o impacto desta perspectiva como “ferida disciplinar” tenha gerado a ilusão de que a antropologia não estuda as elites, ou mesmo que não se reconhece enquanto elite.

Vale destacar que o presente livro é um trabalho de antropologia voltado para a análise das classes sociais, uma área de estudos que muitas vezes fica em segundo plano quando falamos no tripé interseccional de raça, classe e gênero nas pesquisas antropológicas contemporâneas, em particular, em relação ao posicionamento subjetivo dos pesquisadores e das pesquisadoras.

Os percursos etnográficos, que dão nome ao livro, têm como objetivo encontrar as elites enquanto ponto de pesquisa submerso nas etnografias clássicas. Somos apresentados inicialmente a autores clássicos, que se deparam de diferentes formas com o tema das elites na construção de suas pesquisas. No caso de Malinowski, seus famosos diários revelam o modo como ele cita extensamente seu informante e assistente Ahuia Owa, mas nem sequer uma vez fala dele em sua mais importante monografia, para a qual muito do acesso que Malinowski teve deveria ter sido creditado à boa vontade, à influência e ao respeito de Ahuia Owa.

No caso de Margaret Mead, a partir de Coming of Age in Samoa, é analisado como um jovem líder tem seus interesses tomados pelas obrigações e deveres de ter sido escolhido como líder local, realçando para Vailati dois temas fundamentais no campo de estudos das elites: a análise da reprodução das elites, e como esse poder não é um “simples papel social” (:36-37). A hereditariedade foi amplamente trabalhada por autores como George Marcus ou mesmo Gilberto Freyre, e está no cerne da reprodução social e psicológica desse grupo, na maneira como os jovens são impostos ou treinados para aceitar determinados papéis, fazendo parte importante da construção da personalidade desses sujeitos. Portanto, não é apenas um “simples papel social”, mas uma maneira como podemos destacar “[...] as influências do poder sobre a personalidade” (:37).

No segundo capítulo, somos apresentados à missão Dakar-Djibouti de Marcel Griaule, em particular a fascinante história do surrealista Michel Leiris, um exemplo bastante biográfico das frustrações e dificuldades pessoais na adaptação de um jovem estudante de antropologia no início do século XX, aspirante à antropólogo vindo do movimento surrealista. Havia uma outra antropologia sendo feita na França, que daria origem ao estruturalismo tratado no capítulo posterior, mas podemos adiantar que a relação entre objetividade e subjetividade é em muito discutida no campo francês, algo que rendeu um status no mínimo controverso para Leiris, mas elucidativo das relações assimétricas de poder entre interlocutores e antropólogos.

[...] A pesquisa de campo, enquanto experiência fundante do conhecimento antropológico, se torna, assim, na trajetória de Leiris, algo que transcende a necessidade de estudar outra sociedade; e o diário de campo que ele posteriormente publica reflete a contínua tentativa de ultrapassar a divisão imposta pela filosofia ocidental entre sonho e realidade, bem como as normas sociais, operações radiadas na reflexão surrealista (Vailati 2024:61).

Em geral, esse percurso pelos clássicos é uma leitura bastante prazerosa, e cumpre bem a tarefa de apontar incongruências ou contradições nos trabalhos clássicos, ao mesmo tempo em que revela detalhes biográficos pouco comentados. Este é o caso de Marcel Mauss e Radcliffe-Brown (carinhosamente apelidado por colegas de Anarchy Brown), ambos conscientes de uma dimensão ideológica presente na produção científica. Entre os autores trazidos ao livro, Louis Dumont (1997) talvez seja um dos mais interessantes e importantes no campo das elites, ao realçar, por meio das hierarquias, dois níveis de análise: os dados empíricos e a dimensão ideológica (:90), importante por abordar o individualismo como perspectiva ideológica dominante nas sociedades contemporâneas, assim como a distribuição desigual de recursos materiais, algo notável na modernidade, pela maneira com que as elites alcançaram uma acumulação de riqueza sem precedentes na história da humanidade.

Por fim, o campo de estudos das elites é uma temática que merece maior aprofundamento para a antropologia brasileira, na forma como ele aparenta ser um problema referente à acessibilidade dos interlocutores desta camada social, e não um problema de sistematização metodológica dos critérios que definem a categoria de elite. Creio que Vailati traz à tona o primeiro livro que sintetiza a noção de elite na área antropológica, trazendo perspectivas bastante divergentes dos elitistas da ciência política.

Quanto à pergunta que inicia esta resenha, acredito que somos apresentados de forma contundente ao tema das elites enquanto categoria presente na história da antropologia. Seja nas etnografias clássicas ou nos trabalhos de campo de Vailati, este grupo não é meramente a face opressora das camadas populares que nós, antropólogos, defendemos em nossas etnografias, mas uma chave conceitual que proporciona a compreensão das desigualdades de maneira mais aprofundada, assim como dos sistemas que constituem a dimensão simbólica e material das elites.

Referências

  • DUMONT, Louis. 1997. Homo Hierarchicus: O sistema de Castas e suas Implicações Trad. Carlos Fonseca. São Paulo: Editora USP. p. 424.
  • GILBERT, Paul; SKLAIR, Jessica. 2018. “Introduction: Ethnographic Engagements with global elites”. Focaal, 81:1-15.
  • MARCUS, George. 2010. Elites, ethnographic issues Albuquerque: University of New Mexico Press.
  • NADER, Laura. 1972. “Up the anthropologist: perspectives gained from studying up”. In: Dell Hymes, Reinventing Anthropology New York: Pantheon. pp. 284-311.
  • Declaração de Disponibilidade de Dados:
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Editado por

  • Editor-Chefe:
    Luiz Costa
  • Editora Adjunta:
    Adriana Vianna
  • Editor Adjunto:
    Carlos Fausto

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    05 Fev 2025
  • Aceito
    08 Set 2025
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