Com base num estudo etnográfico efetuado na Espanha, propomo-nos a analisar o alcance das habitações colaborativas (co-habitações) como alternativa que potencialmente poderá contribuir para transformar a atual organização social dos cuidados durante o envelhecimento, que se baseia no cuidado familiar e na institucionalização em lares de idosos. Enquanto em outros ambientes europeus os cuidados com as habitações colaborativas são providenciados por recursos públicos e não representam uma alternativa excludente das residências assistidas, na Espanha esta alternativa representa um compromisso com a desfamiliarização e a desinstitucionalização dos cuidados até o fim da vida. No entanto, a gestão dos cuidados em situações de dependência grave só agora começa a ser considerada. O potencial transformador destas iniciativas fica truncado porque: 1. constroem uma comunidade, mas com uma forte homogeneidade entre os seus membros em relação ao seu capital econômico, social e cultural; 2. isto dificulta o seu reconhecimento como entidades fornecedoras de recursos públicos; 3. os cuidados acabam por ser resolvidos pelos privados (embora coletivos), pelo que, 4. não se modifica em essência a atual organização social dos cuidados nem se reverte numa transformação integral do modelo. Consideramos que as administrações públicas deveriam avançar na formulação de alternativas socialmente mais justas, tendo em conta o potencial destas iniciativas de cuidados comunitários.
Palavras-chave:
Desfamiliarização; Desinstitucionalização; Comunidades autogeridas; Dependência; Envelhecimento; Cuidados comunitários