O legado de luta, de mobilização e também de produção intelectual negra nos permitiu chegar ao século XXI com um debate assertivo sobre desigualdade racial, sobre discriminação baseada no fenótipo, assim como nos permitiu pensar e implementar políticas públicas afirmativas no Brasil. Este novo panorama acarreta uma avidez por aprofundar debates relacionados às questões raciais, e a consequente diversidade de abordagens sobre raça, relações raciais e racismo nos apresenta diferentes vieses, trajetórias teóricas e abordagens conceituais que amplificam, pluralizam posicionamentos, visões de mundo e lugares epistemológicos de onde se fala.
Assim, Cativeiro: Antinegritude e Ancestralidade se propõe a uma tarefa laboriosa: por um lado, busca ir a fundo na abordagem afropessimista - corrente de pensamento ligada ao campo interdisciplinar dos Black Studies afro-americanos, que tem em Frank Wilderson, dramaturgo e crítico literário da Universidade de Irvine, Califórnia; Saidiya Hartman, professora de Literatura e História Afro-americana da Columbia University; e Jared Sexton, professor de estudos de Mídia da Universidade de Irvine, seus principais expoentes. Por outro lado, Cativeiro nos traz a possibilidade de uma contraposição, ou melhor, Pinho nos sugere uma possibilidade de saída para a inescapabilidade da morte social negra, entendimento que está na base das pressuposições afropessimistas (Wilderson 2017). A contribuição intelectual trazida por Cativeiro assenta-se na experiência vivida por negros e negras no Brasil e propõe a ancestralidade - tão central na experiência espiritual do candomblé e tão celebrada no imaginário afro-brasileiro - como uma alternativa à impossibilidade da humanidade plena do ser negro no mundo configurado pelo advento da Modernidade Ocidental.
Ao longo dos cinco capítulos de Cativeiro, o antropólogo Osmundo Pinho, baseado em sua consolidada experiência de pesquisa etnográfica, nos oferece cenários e universos onde a agência negra contradiz o lugar da “morte social”, mesmo quando, através da transfiguração da performance, reafirme esse lugar de desonra destinada ao negro. Como assim, contradizer a morte reafirmando a morte? Aqui talvez esteja a reviravolta que uma performance pode criar; ela “... transtorna o repouso dos sentidos” (Artaud 1993:24) e, assim, aquilo que era/é a grande esperança da nação - a eliminação da “mancha negra” de forma silenciosa, não alardeada, ou justificada - subitamente é reintroduzida com grande alarde, esfregada na cara da nação através da hecatombe trepidante vinda dos sons automotivos dos paredões de pagode baiano, como temos no capítulo II, “Arrastão: descolonizando o gênero e a sexualidade no pagode baiano”. O autor afirma: “O acesso a essa estrutura profunda, linha de fuga, ritualização fugitiva de uma estética da desumanização radical, pode encontrar assim a forma de sua constituição em modalidades performáticas” (:106), ou seja, os sujeitos, ao articularem performaticamente os lugares de desonra, desvalorização, imoralidade e morte, estão tornando reconhecíveis para si os lugares que lhes foram designados historicamente e, ao mesmo tempo, confrontando a mesma sociedade que os quer silenciosamente mortos.
Reveladora é a afirmação do autor quando coloca que “em meu contato com a literatura afro-pessimista, dois aspectos me chamaram fortemente a atenção. Primeiro, a preocupação com a ontologia - um debate que eu julgava superado ou irrelevante...” (:50). Esse retorno à discussão ontológica indica a compreensão de que só existe a possibilidade de superar o debate da ontologia para quem teve uma ontologia, ou ontologias bem definidas para serem deixadas de lado, ou superadas por um novo momento filosófico e histórico. O ser do negro ainda não teve possibilidade de existir no mundo inaugurado pela modernidade exceto enquanto projeção racializada do homem moderno - este último constituído na (e por) sua relação com o que ele não é: um negro. Este último é um corpo reduzido à carne (flesh), ou nas palavras do autor, “marcado por sua condição epidérmica...” (:131), conforme elaborado no capítulo III, “Black Border: o corpo e a luta no audiovisual negro”, que discute justamente o antagonismo entre a negritude e a capacidade de simbolização, discussão que desemboca em um dos eixos centrais da obra de Osmundo Pinho, a saber; a representação/impossibilidade da representação do ser do negro.
Assumindo-se a prerrogativa fanoniana - o ser do negro existe apenas como projeção racializada e esvaziada de uma ontologia e subjetividades próprias - neste caso, não é possível para ele representar-se, ou mesmo criar consciência de si e encontrar-se em uma subjetividade “sua”, já que pessoalidade e subjetividade são inalcançáveis dentro da nothingness (Sexton citado em Pinho:51) do escravo coisificado. Então, Pinho, ao longo dos capítulos IV “Sangue Atlântico: Morte Social e Ancestralidade em Albert Eckout e Ayrson Heráclito” e V “A Cena da Objeção: narrativa, economia política e performance”, propõe o desinvestimento da busca incessante por “representar” ou “representar-se” negro/negra. Esse desinvestimento ou ruptura com uma busca pela representação, enquanto mimese que demanda uma interpretação e uma hermenêutica de seu sentido, se daria em favor de um ideal de imanência em que o sujeito não mais precisa adequar o conteúdo à forma - significado e significante, os quais têm estado na base de toda uma tradição ocidental da filosofia, da arte, da literatura. A performance permitiria essa imanência do ser negro através de seus repertórios de memórias.
Pinho alinhava a episteme da ancestralidade às proposições da linha conhecida como Black Optimism, associada ao poeta e teórico cultural Fred Moten, professor da Universidade de Nova York. O Black Optimism não recusa a premissa afropessimista de “morte social”, porém vê neste lugar da morte social um lugar político e de reinvenção de onde pessoas negras criam arte, política, coletividades e possibilidades, entendendo a performance negra “enquanto a resistência do objeto” (Moten 2017:33). Assim, em Pinho, a articulação de categorias como ancestralidade e objeção não nega a concretude daquilo que os afropessimistas (e também os Otimistas Pretos - Black Optimists) identificam como a redução do ser negro à condição de objeto e, portanto, de morte social. Todavia, há uma aposta de que as criações, as repetições, as performances e os repertórios circulantes pela diáspora negra de Nova Orleans ao Recôncavo da Bahia são agências - resistências do objeto - capazes de situar a negritude enquanto uma presença (frequentemente fantasmagórica) que assombra e objeta a normatividade do mundo e da ordem brancas.
Cativeiro: antinegritude e ancestralidade indica também a tensão entre o posicionamento de intelectuais ligados ao afropessimismo (e também ao Black otimismo, em termos de uma gramática da posicionalidade negra no mundo), para os quais a condição (des)ontologizada do “escravo” é determinante para se pensar a condição negra na contemporaneidade, e o posicionamento de intelectuais e ativistas afro-brasileiros, para os quais todo o esforço das últimas décadas foi desconstruir uma narrativa na qual pessoas negras só passam a fazer parte da história a partir da escravidão. Para os últimos, a resistência à objetificação da pessoa negra se dá em torno da manipulação do “signo-África”, o qual opera como um suplemento ao vazio subjetivo (:51). Já o afropessimismo fala desse lugar de trauma coletivo e da impossibilidade de sublimação do trauma porque o mundo que exigiu essa cessão da pessoa do africano continua sendo o mundo no qual estamos hoje. Como vemos em Hortense Spillers: “Estas marcações no corpo social da africanidade do Novo Mundo são marcas de crise edipiana (para crianças do sexo masculino e do sexo feminino) que só podem ser eliminadas agora por uma confrontação com a cena da sua ocorrência, mas como se fosse um mito” (2003:732-733, tradução nossa).1
A memória da middle passage e sua necessária relação com o “cativeiro” são o gatilho que dispara os repertórios da negritude diaspórica: nascer para o mundo como “o escravo”, “o cativo”. Mas, diferentemente do que os arquivos que, conforme Diana Taylor (citada em Pinho: 245) pertencem às sociedades letradas, às sociedades do Estado, registram em sua fixidez e normatividade, os repertórios são formas baseadas no performático, assentadas no corpo e capazes de produzir e transmitir conhecimentos dentro e para as “comunidades tradicionais”. Assim, as práticas performativas, como as aparições das Indians tribes do carnaval de New Orleans e as aparições do “Nego Fugido” do distrito de Acupe, no Recôncavo baiano, têm o poder de confrontar essa cena primordial que instaura o cativeiro negro, uma vez que estas performances estão atravessadas por “símbolos poderosos que atuam rompendo limites entre o Eu e o Outro, como no transe, e entre o passado e o presente, como no mito, subvertendo a linearidade temporal em sua irreversibilidade ocidental” (:247).
A inquietação provocada pela discussão de questões raciais no Brasil, o desconforto, o incômodo que desalojou as narrativas do “homem cordial” e do “paraíso racial” trouxe à tona o reflexo monstruoso de um povo que se queria mais perto da brancura e hoje tende a descobrir que não só está muito longe dela, como também tem tido a sua antinegritude desvelada. Enquanto escrevia esta resenha para este livro, o qual a meu ver já se constitui como um marco do pensamento social negro, me deparava constantemente com o espetáculo da abjeção, dos diferentes níveis de tortura e sujeição, do corpo negro reduzido à sua materialidade orgânica em diversos cenários da capital baiana. A morte social negra se descortina como um espetáculo que a cada esquina de qualquer cidade segue atualizando seu script e nos é imprescindível avançar em nossa capacidade de objetar os cativeiros.
Referências bibliográficas
- ARTAUD, Antonin. 1993. O Teatro e seu Duplo São Paulo: Martins Fontes.
- MOTEN, Fred. 2017. Black and Blur Durham, Carolina do Norte: Duke University Press.
- PINHO, Osmundo. 2021. Cativeiro: Antinegritude e Ancestralidade Salvador: Segundo Selo. 300 pp.
- SPILLERS, Hortense. 2003. Black, White, and in Color: essays on American literature and culture Chicago: University of Chicago Press.
- WILDERSON III, Frank. 2017. “Biko e a problemática da presença”. In: Ana Flauzina & João Costa Vargas, Motim: horizontes do genocídio antinegro na diáspora Brasília: Brado Negro. pp. 67-89.
