Open-access A LONGA SOMBRA DE MONROE: O TRUMPISMO E A RESTAURAÇÃO DA PRIMAZIA HEMISFÉRICA1

THE LONG SHADOW OF MONROE: TRUMPISM AND THE RESTORATION OF HEMISPHERIC PRIMACY

Resumo:

As presidências de Donald Trump marcam uma inflexão estrutural na política externa dos Estados Unidos e reativam os fundamentos históricos da Doutrina Monroe sob bases nacionalistas, geoeconômicas e securitárias. O artigo investiga como a intensificação da presença estratégica chinesa na América Latina impulsiona a reinterpretação e a operacionalização contemporânea da Doutrina Monroe pelo governo Trump, manifestada por meio de instrumentos de coerção econômica, alinhamentos seletivos com governos da direita radical e políticas de contenção regional. A partir da perspectiva da análise de conjuntura, o estudo articula dimensões estruturais de longa duração com dinâmicas recentes de rivalidade sino-americana, demonstrando que o America First não representa um retraimento hegemônico, mas, sim, a reconfiguração competitiva da primazia dos Estados Unidos no hemisfério ocidental. Argumenta-se que essa atualização monroísta revela tanto a busca por restaurar a liderança hemisférica quanto os limites dessa estratégia diante da multipolaridade emergente.

Palavras-chave:
Donald Trump; Política Externa; Estados Unidos; América Latina; Doutrina Monroe

Abstract:

Donald Trump’s presidencies constitute a structural turning point in the United States foreign policy, reanimating the historical foundations of the Monroe Doctrine through nationalist, geoeconomic, and security-driven frameworks. This article examines how the growing strategic presence of China in Latin America drives the Trump administration’s contemporary reinterpretation and operationalization of the Monroe Doctrine, expressed through economic coercion, selective alliances with far-right governments, and regional containment strategies. Using a conjunctural analysis approach, the study connects long-term structural patterns with recent dynamics of U.S.–China rivalry, showing that America First does not signal hegemonic retrenchment but a competitive reconfiguration of U.S. primacy in the Western Hemisphere. The article argues that this updated Monroist framework both seeks to restore U.S. hemispheric leadership and exposes the limits of such a strategy amid an increasingly multipolar order.

Keywords:
Donald Trump; Foreign Policy; United States; Latin America; Monroe Doctrine

Introdução

A ascensão de Donald Trump ao poder, em 2017, marcou uma inflexão estrutural na política externa dos Estados Unidos, instaurando um ciclo de revisionismo estratégico que desafia os alicerces normativos do internacionalismo liberal erigido no pós-Segunda Guerra. Em contraste com a tradição institucionalista e cooperativa que moldou a conduta norte-americana nas décadas anteriores (Ikenberry, 2011; Keohane, 1984), temas como a ruptura com padrões tradicionais de engajamento multilateral, a revalorização da soberania nacional e a adoção de uma diplomacia transacional,2 tornaram-se elementos centrais de uma agenda guiada por imperativos de competição geopolítica e por um nacionalismo econômico de viés protecionista (Gallagher, 2020).

Longe de representar mera oscilação conjuntural, tal reposicionamento da agenda traduz a ascensão de uma racionalidade neorrealista e unilateralista do poder, na qual a política externa é instrumentalizada como extensão da política doméstica e como meio para assegurar vantagens relativas em um ambiente internacional crescentemente multipolar (Mearsheimer, 2001; Waltz, 1979). Essa orientação aproxima-se do que Mearsheimer (2001) denomina de offensive realism: a busca deliberada por hegemonia regional e pela dissuasão de rivais potenciais, mesmo que às custas da erosão de regimes e normas multilaterais.

Ao priorizar vantagem comparativa (maximização de ganhos relativos) e ao rejeitar a lógica da cooperação institucional, Donald Trump desafia dois pilares da ordem internacional erigida no pós-guerra: por um lado, subverte o princípio de liderança benevolente que sustentou o consenso de Bretton Woods; por outro, tensiona premissas normativas da teoria da estabilidade hegemônica, segundo a qual a ordem liberal depende da disposição da potência dominante em prover bens públicos globais e conservar regras compartilhadas (Gilpin, 1981; Kindleberger, 1973). No plano decisório, essa inflexão não se restringe às rivalidades sistêmicas com Rússia e China, mas se projeta com especial intensidade sobre a América Latina, tradicionalmente concebida, no imaginário estratégico de Washington, como espaço privilegiado de hegemonia regional dos Estados Unidos.

A eleição de Trump em 2025 para um segundo mandato acentua essa dinâmica, ao reorganizar as prioridades hemisféricas em torno de três eixos estruturantes: (1) o controle dos fluxos migratórios; (2) a reorientação das cadeias globais de valor por meio de iniciativas de reshoring e nearshoring produtivo; e (3) a contenção da expansão chinesa em setores críticos de infraestrutura, tecnologia e segurança regional (Freeman, 2024). À luz desse cenário, o argumento formulado por Ikenberry (2011) oferece uma estrutura analítica útil para interpretar as transformações em curso: já antes do governo Trump, o autor apontava que movimentos de retração, unilateralismo e revisão das bases do engajamento internacional indicavam não apenas o enfraquecimento material da hegemonia americana, mas também a erosão de sua legitimidade normativa. Assim, o segundo mandato de Trump pode ser compreendido como a intensificação de um processo mais amplo de transição rumo a uma ordem “pós-hegemônica”, caracterizada pela crescente competição entre potências revisionistas.

A América Latina adquire, desse modo, centralidade como arena privilegiada da competição sino-americana, convertendo-se em um espaço de disputa por influência logística, tecnológica e diplomática. Observa-se, nesse processo, a reatualização de práticas coerentes com a tradição monroísta – historicamente marcada pela defesa da primazia estadunidense no hemisfério, pela formação de alianças seletivas e pelo uso de instrumentos econômicos e diplomáticos como ferramenta de pressão ou de coerção (sanções ou marcos regulatórios), ainda que sob novos enquadramentos discursivos e institucionais (Winter, 2024).

“Eles precisam de nós, muito mais do que nós precisamos deles… Todos precisam de nós” – respondeu Donald Trump, ao ser questionado sobre um possível diálogo com o governo Lula e sobre a futura política norte-americana com o Brasil em um eventual segundo mandato (Péchy, 2025). A frase emblemática revela mais do que arrogância retórica: expressa a lógica hierárquica que permeia a conduta estratégica dos Estados Unidos desde o século XIX (Mann, 2003; Smith, 2009). Essa declaração, ao lado de gestos simbólicos como ameaças sobre retomar o controle do Canal do Panamá, anexar o Canadá ou comprar a Groenlândia, não se reduz a manifestações idiossincráticas de um líder populista, mas ecoa uma longa tradição da política externa dos Estados Unidos, fundada na reafirmação da Doutrina Monroe (Winter, 2024).

Mais do que uma diretriz diplomática, a Doutrina Monroe consolidou-se como um dispositivo ideológico que articula elementos estruturantes do excepcionalismo americano, entendido simultaneamente como mito político, imaginário nacional e princípio normativo da política externa dos Estados Unidos (Churchwell, 2018; Restad, 2014). Desde sua formulação em 1823, a Doutrina expressa uma visão de mundo fundada na missão civilizadora e no direito autoatribuído dos Estados Unidos de exercer liderança, intervir e reorganizar ordens políticas percebidas como ameaças à segurança ou aos valores do país. Sua gênese está vinculada ao contexto da independência das colônias latino-americanas e às tentativas da Santa Aliança de restaurar o domínio na região, circunstâncias que permitiram a Washington afirmar-se como árbitro do equilíbrio hemisférico e guardião das Américas.

Ayerbe (2006) identifica três princípios centrais do núcleo ideológico monroísta: (1) a defesa hemisférica contra interferências extracontinentais; (2) a crença na superioridade política e civilizatória dos Estados Unidos – edificada sob valores republicanos e no ideário da liberdade e do progresso; e (3) a percepção de fragilidade dos Estados latino-americanos, concebidos como incapazes de proteger seus próprios interesses – justificando a tutela norte-americana. Trata-se, portanto, de uma construção que combina hegemonia material e autoridade normativa, projetando uma visão hierárquica do hemisfério. Com efeito, a Doutrina nunca foi formalmente revogada, mas sim continuamente reinterpretada por sucessivas administrações norte-americanas, dando origem a corolários3 que ajustaram seu escopo e ampliaram suas bases de ação.

Com o fim da Guerra Fria, o monroísmo passou por nova inflexão, combinando liberalização econômica, reformas institucionais e difusão de valores democráticos ocidentais como mecanismos de estabilização continental. As Cúpulas das Américas nos anos 1990, a tentativa de criação da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) e o reforço aos instrumentos de governança democrática expressam essa atualização. Entretanto, somente após os atentados de 11 de setembro de 2001 que, de fato, materializa-se a efetiva globalização da Doutrina Monroe no âmbito da administração Bush. Conforme avalia Ayerbe (2006), a Doutrina Bush transformou os princípios monroístas de defesa hemisférica em doutrina de alcance global, reinterpretada sob a lógica de guerra preventiva, da identificação de Estados “falidos” e na confrontação de regimes percebidos como hostis ou “potencialmente ameaçadores”.

A tradicional oposição “civilização versus barbárie”, historicamente mobilizada para legitimar intervenções na América Latina, foi estrategicamente transposta para o contexto do Oriente Médio, fundamentada sob a justificativa de combate ao terrorismo e término às guerras no Afeganistão e no Iraque. No período mais recente, na contramão da política de engajamento supranacional, fomentada na gestão Barack Obama como estratégia de convivência plural, a administração Donald Trump promoveu uma reativação seletiva da tradição intervencionista do monroísmo (Ayerbe, 2019), reinterpretando-a à luz de uma agenda nacionalista, identitária e fortemente marcada pela retórica do America First (Churchwell, 2018).

A partir de 2018, sob influência de lideranças como Mike Pompeo e John Bolton, a Casa Branca intensificou o uso de sanções, definiu como “troika da tirania” os regimes considerados autoritários e contrários aos valores e interesses americanos – notadamente Cuba, Venezuela e Nicarágua – e reafirmou sua primazia hemisférica. Essa ofensiva, contudo, revelou-se mais como gesto simbólico de afirmação política do que como estratégia de poder viável: a retração da assistência externa e o avanço econômico e financeiro da China no continente limitaram a capacidade dos Estados Unidos de reorganizar a ordem regional (Ayerbe, 2019).

Em linha convergente, Pires e Nascimento (2020) assinalam que a administração Trump reconfigurou o monroísmo como instrumento de contenção geopolítica, deslocando a América Latina para o centro da disputa hegemônica entre Estados Unidos e China. Embora Washington busque recuperar sua primazia hemisférica e evoque momentos de soberania típicos da Guerra Fria, a crescente interdependência econômica com Pequim, combinada à inserção chinesa em setores estratégicos da América Latina, impõe restrições estruturais à tentativa de reconstruir um “cordon sanitaire” regional.4 Nesse sentido, o dilema hegemônico descrito por Kindleberger (1973) reaparece sob condições renovadas: os Estados Unidos preservam sua capacidade de intervenção, mas já não são capazes de sustentar isoladamente a ordem unipolar que ajudaram a instituir, diante da difusão global de poder e da reconfiguração das hierarquias internacionais.

Após décadas de “negligência benigna”, a América Latina volta a ocupar posição central na agenda estratégica norte-americana durante o segundo governo Donald Trump, em razão da convergência entre fatores domésticos e imperativos geopolíticos. Freeman (2024) observa que a combinação entre a expansão de economias ilícitas e a consolidação de “Estados mafiosos” na Venezuela e Nicarágua intensificam a instabilidade regional e agravam a crise migratória, convertendo a América Latina em tema prioritário da política interna dos Estados Unidos e em variável decisiva para a vitória eleitoral de Trump em 2024. Nesse quadro, questões historicamente tratadas como desafios externos – particularmente migração irregular, crime organizado, fluxos financeiros ilícitos e colapso institucional (Crandall, 2023; Hakim, 2014) – reposicionam o hemisfério ocidental no núcleo estratégico de Washington e passam a ser reinterpretadas como agendas de segurança nacional, ampliando a permeabilidade entre política doméstica e externa.

A articulação entre contenção migratória, combate ao narcotráfico e a rivalidade com a China sustenta, no plano decisório, uma política externa crescentemente assertiva e de potencial caráter disruptivo. Nessa direção, Winter (2024) observa que o fortalecimento de lideranças conservadoras – como Nayib Bukele (El Salvador), Javier Milei (Argentina) e Jair Bolsonaro (Brasil) – cria oportunidades para arranjos de cooperação política e integração econômica entre Estados Unidos e governos ideologicamente alinhados. Esses vínculos sugerem o esboço de uma coalizão hemisférica de orientação conservadora, capaz de facilitar acordos bilaterais, agendas securitárias coordenadas e iniciativas de contenção regional.

Averso ao multilateralismo e crítico às chamadas “guerras sem fim”, Donald Trump – quando sublinha a necessidade de “vigorous[ly] defend our national interests” (White House, 2020) – retoma a lógica das “esferas regionais de influência”, na tentativa de reduzir o engajamento diplomático global e reforçar a primazia hemisférica estadunidense diante da presença chinesa em setores estratégicos da América Latina (Böller e Wiedekind, 2025; Stuenkel, 2020). Ao mobilizar discursos de soberania nacional e de autodeterminação (White House, 2020) como justificativa para intervenções seletivas, o trumpismo reatualiza a tensão constitutiva entre poder político e legitimidade do sistema internacional, central na tradição realista desde Morgenthau (1948). Nesse sentido, America First surge como uma doutrina marcada por ambivalências: de um lado, reivindica autonomia decisória e pauta rejeição à interdependência; de outro, preserva a lógica hierárquica da liderança americana no hemisfério (Bukhari et al., 2025; Vinha e Dutton, 2025).

Mais do que uma mera inflexão programática, tal padrão evidencia a condição paradoxal dos Estados Unidos enquanto potência que rejeita as obrigações do multilateralismo, mas tenta conservar a autoridade normativa associada à ordem liberal internacional. Como observa Acharya e Taş Yetim (2017), além de redefinir termos do engajamento regional e reativar dilemas da ordem geopolítica, trata-se de manifestação do colapso da liderança liberal e da erosão do multilateralismo enquanto princípio organizador do sistema internacional contemporâneo.

A compreensão dessa inflexão programática é fundamental não apenas para mapear as estratégias recentes na dinâmica da política externa norte-americana, mas também para avaliar suas implicações sobre a arquitetura hemisférica e sobre a redistribuição de poder na ordem internacional emergente. Nesse contexto, o papel de atores políticos como Marco Rubio torna-se particularmente relevante, uma vez que sua atuação molda a formulação de políticas de contenção, pressões econômicas e iniciativas de segurança, contribuindo para a atualização de dispositivos históricos de hegemonia regional dos Estados Unidos diante da multipolaridade global.

Este artigo tem como principal objetivo analisar de que maneira os Estados Unidos reinterpretam e operacionalizam a Doutrina Monroe na conjuntura dos mandatos presidenciais de Donald Trump, especialmente em detrimento da crescente presença chinesa no hemisfério ocidental. A pergunta que orienta a análise é: como o legado histórico da Doutrina Monroe é mobilizado, ressignificado e instrumentalizado na política externa recente dos Estados Unidos como mecanismo de contenção da China na América Latina? Para responder a essa questão, partimos da hipótese de que a intensificação da presença estratégica chinesa na América Latina reativa e reconfigura a Doutrina Monroe no discurso e nas práticas da política externa norte-americana, manifestando-se em novos padrões de contenção, alinhamento e securitização regional. Tal reativação não ocorre apenas em nível discursivo, mas se expressa em ações diplomáticas, pressões comerciais e iniciativas de segurança hemisférica, reafirmando a concepção dos Estados Unidos de que a América Latina constitui sua “esfera de influência natural”.

A análise é conduzida a partir da perspectiva de Análise de Conjuntura. Esta constitui uma abordagem teórico-metodológica voltada a examinar momentos históricos específicos em que dinâmicas econômicas, políticas, ideológicas e culturais interagem de forma particular, produzindo configurações temporárias de poder, crise e transformação.5 No campo das Ciências Sociais Críticas, essa perspectiva se mostra particularmente útil para investigar crises políticas, reestruturações econômicas ou disputas hegemônicas, permitindo compreender como processos globais se materializam e são reconfigurados em contextos locais específicos. Trata-se, portanto, de abordagem capaz de articular elementos estruturais, políticos e mediações institucionais, sem reduzir a conjuntura à mera descrição factual (Virgens e Teixeira, 2023).

Aplicada ao objeto deste estudo, a análise de conjuntura possibilita conectar elementos estruturais de longa duração, como a tradição monroísta na política americana, com eventos recentes, como discursos presidenciais, sanções comerciais e iniciativas regionais de contenção à China. Essa articulação evidencia correlações de força, rupturas e continuidades nas disputas históricas por hegemonia, além de reposicionamentos estratégicos que emergem em resposta à redistribuição global de poder. Nessa perspectiva, o objetivo não é apenas mapear decisões políticas, mas também compreender como elas expressam disputas hegemônicas mais amplas e como reconfiguram a inserção hemisférica dos Estados Unidos em um cenário multipolar.

No escopo desta análise, o recorte temporal abrange o período de 2015 a 2025, intervalo que engloba a ascensão de Donald Trump, seu primeiro mandato, a campanha e a eleição para um segundo governo, bem como a intensificação da competição geopolítica entre Estados Unidos e China. Ademais, a conjuntura em estudo se caracteriza por: (1) transformações na ordem internacional, marcadas pelo declínio relativo dos Estados Unidos e pela ascensão sistêmica da China (atores centrais); (2) acirramento da competição geopolítica na América Latina, convertida em território crucial para a competição tecnologia, logística e securitária entre Washington e Pequim (espaço político-referencial); (3) disputa de narrativas sobre soberania, democracia, segurança hemisférica e liberdade econômica, em consonância com a ascensão da direita radical nos Estados Unidos e em parte da região; (4) protagonismo de atores políticos estadunidenses que ressignificam a Doutrina Monroe no contexto da “Nova Guerra Fria” sino-americana (correlações de força).

A análise desdobra-se, assim, em diferentes polos discursivos: uma camada superficial, composta por discursos públicos, imposição de sanções, documentos estratégicos e declarações oficiais; e uma camada estrutural, que envolve doutrinas estratégicas, padrões de alinhamento político, iniciativas diplomáticas e mecanismos de contenção geoeconômica. Essa distinção permite observar como a retórica do America First é operacionalizada em estratégias concretas de política externa, articulando ideologia, interesses estratégicos e imperativos domésticos.

A estrutura do artigo reflete essa lógica analítica. Após esta introdução, examinam-se as diretrizes normativas, procedimentais e táticas do America First. Na seção subsequente, o foco recai sobre a atuação de Marco Rubio como vetor da diplomacia coercitiva e articulador de alianças seletivas com lideranças da extrema-direita regional. Em seguida, discutem-se os mecanismos contemporâneos de contenção da presença chinesa na América Latina. Por fim, as considerações finais sintetizam as tensões, contradições e vantagens relativas dessa estratégia em um cenário crescentemente multipolar, competitivo e fragmentado.

A política do America First: nacionalismo, populismo e hegemonia

Desde o pós-Segunda Guerra Mundial, a denominada ordem liberal internacional estruturou as relações entre Estados em torno de instituições multilaterais – Organização das Nações Unidas (ONU), Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e, posteriormente, Organização Mundial do Comércio (OMC) – e de princípios fundados na abertura econômica, segurança coletiva, democracia representativa e no livre mercado (Ikenberry, 2011). Esse arranjo institucional refletia a crença de que o fortalecimento das instituições globais e da integração econômica seriam capazes de garantir estabilidade e cooperação em um sistema internacional marcado por assimetrias de poder. O Consenso de Washington, nos anos 1990, consolidou essa lógica ao difundir normas de governança econômica e política que, em tese, permitiriam transcender fronteiras nacionais e consolidar um capitalismo global ordenado e autorregulado.

A crise financeira de 2008, contudo, expôs de forma contundente as limitações e vulnerabilidades desse modelo, revelando as tensões estruturais entre interdependência econômica e soberania nacional. O colapso dos mercados financeiros, a precarização das relações de trabalho e a financeirização das economias intensificaram a concentração de renda em escala global, gerando uma profunda crise de confiança nos supostos benefícios do liberalismo econômico e fomentando reações antiglobalistas em diversas regiões.

Em termos gramscianos, a hegemonia liberal entrou em crise orgânica, à medida que as promessas de prosperidade e estabilidade foram substituídas por insegurança social, desemprego estrutural e perda de status entre amplos segmentos das classes médias (Cox, 2012; Gramsci, 1971). Conforme evidenciam Rodrik (2018) e Stiglitz (2019), a globalização produziu vencedores e perdedores, e a incapacidade das democracias liberais de manter políticas redistributivas e mecanismos de regulação social adequados abriu espaço para o avanço de forças políticas que articulam ressentimento econômico, isolacionismo e nostalgia cultural.

Nesse contexto, ganharam força movimentos (ultra)conservadores e populistas associados à extrema-direita, marcados por um discurso contestatório, antiestablishment e nacionalista, que identificam “o inimigo” nas elites cosmopolitas e nas instituições multilaterais, vistas como ameaças à soberania popular e à identidade nacional. Esses atores constroem uma retórica centrada na oposição entre “povo” e establishment,6 convertendo ressentimentos culturais – relacionados ao multiculturalismo, às políticas de gênero e à imigração – em instrumentos de legitimação política (Mouffe, 2018). Em paralelo, exploram frustrações econômicas derivadas das assimetrias distributivas e do declínio das garantias de bem-estar social, fenômenos que, segundo Norris e Inglehart (2019), impulsionaram uma reação autoritária e um sentimento difuso de perda de status entre determinados segmentos sociais.

Mudde e Kaltwasser (2013) observam que o populismo de direita pode assumir feições “exclusivas” ou “inclusivas”. As “exclusivas” são típicas da direita europeia, que restringe direitos e benefícios de grupos específicos. As “inclusivas” são voltadas à ampliação da participação política e do acesso a recursos estatais, como nas experiências latino-americanas. Nessa direção, Judis (2016) interpreta o populismo como uma lógica moral dualista, que mobiliza a frustração das classes médias e trabalhadoras diante das promessas não cumpridas da globalização.

Historicamente, a nacionalização do discurso populista (ultra)conservador tem se associado à ascensão de lideranças autoritárias de extrema-direita que, além de contrárias ao igualitarismo, são habilidosas em instrumentalizar sentimentos difusos de ansiedade e de ressentimento social. Betz (1993) denominou esse padrão de neopopulismo radical, sendo caracterizado pela retórica antissistema, pela defesa do livre mercado combinada à limitação do papel do Estado e pela xenofobia latente. A escalada global da extrema-direita repercute na política internacional, ao enfraquecer o multilateralismo, personalizar a diplomacia e revalorizar a soberania nacional como fundamento da condução da política externa. A ascensão de Donald Trump deve ser compreendida, assim, nesse cenário de desencanto com o internacionalismo liberal e de reações nacionalistas à globalização.

Nos Estados Unidos, a direita radical consolidou-se, em sentido amplo, no interior do Partido Republicano e, mais especificamente, em torno do trumpismo, cuja expressão máxima reside nas retóricas do America First e do Make America Great Again (MAGA). A primeira campanha de Donald Trump à presidência foi construída sobre a premissa de que os Estados Unidos estavam em declínio, retomando um sentimento recorrente na política norte-americana. Nesse sentido, o slogan MAGA expressa a ideia de que os Estados Unidos precisam resgatar sua grandeza perdida (Da, 2018). Quanto à estrutura e aos meios de difusão dessa plataforma, o MAGA reúne republicanos extremistas, neoconservadores e uma nova direita capaz de articular interesses de grupos sociais distintos – de multibilionários e empreendedores do setor tecnológico ao trabalhador branco empobrecido das zonas industriais e rurais. Em termos estratégicos, a agenda do movimento ancora-se nas diretrizes e fundamentos do America First (González, Hirst e Luján, 2025).

Reconfigurado por Trump, o America First recupera significados históricos,7 expressando uma guinada do liberalismo ao realismo e do internacionalismo ao nativismo, sustentada por uma visão pragmática, competitiva e de soma zero das relações de poder (Da, 2018). Sob tal lógica de reordenamento estratégico, Trump renegociou o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA) em termos mais favoráveis a Washington, impôs tarifas sobre importações chinesas, retirou o país de tratados internacionais, aproximou-se de lideranças autoritárias e privilegiou políticas migratórias e discursos que corroem a credibilidade norte-americana. Conforme avaliam Cooley e Nexon (2025), essa estratégia contribuiu para a erosão do soft power estadunidense, ao abandonar valores universalistas, tais como direitos humanos, boa governança e combate à corrupção, que sustentaram a primazia dos Estados Unidos no pós-Guerra Fria, convertendo-os em um ator essencialmente transacional. Essa reorientação não expressa um isolacionismo clássico, mas uma redefinição hierárquica da inserção internacional dos Estados Unidos, em que alianças e instituições multilaterais passam a ter valor meramente instrumental, isto é, apenas enquanto servem aos interesses materiais e geopolíticos de Washington (Kimmage, 2025).

No plano interno, essa inflexão programática rompe com o internacionalismo liberal cultivado desde 1945, a partir do momento que privilegia a barganha direta entre Estados e o exercício unilateral de instrumentos de poder econômico – tarifas, sanções e controle de cadeias produtivas – em um ambiente de competição intensificada entre as grandes potências, especialmente com a China. Essa reorientação aproxima-se da lógica realista clássica descrita por Morgenthau (1948), segundo a qual o sistema internacional é anárquico e o poder constitui o principal meio de sobrevivência dos Estados. A ênfase trumpista na autossuficiência estratégica e na reciprocidade comercial reflete, assim, na rejeição da interdependência liberal defendida por Keohane (1984) e Ikenberry (2011), segundo a qual as instituições multilaterais atuam como mecanismos de cooperação e mitigação de dilemas de segurança. Ao contrário, o trumpismo reposiciona os Estados Unidos como um ator que privilegia ganhos relativos e soberania, a fim de garantir segurança e influência.

Com efeito, a política externa do America First ilustra o que Cox (1981) caracterizou como realismo neogramsciano: uma estratégia que combina coerção e consenso seletivo, mobilizando instrumentos econômicos, simbólicos e institucionais para reproduzir a hierarquia internacional (Rodrigues, 2023). Ao retomar práticas monroístas – por meio de sanções, ajuste de tarifas e diplomacia coercitiva – a Casa Branca reconfigura o hemisfério como extensão de sua segurança nacional, operando sob a lógica do hemispheric containment, tal como sugerido por análises recentes sobre a competição estratégica EUA-China (Crandall, 2023; Hirst et al., 2024).

Diante desse cenário, a política externa de Trump passa a enfatizar a reciprocidade nas relações econômicas, a autonomia decisória e a “paz através da força”, rejeitando o universalismo normativo que legitimava a primazia norte-americana no pós-guerra. A hegemonia, nesse sentido, deixa de se apoiar nos fundamentos do “soft power isto é, na capacidade de atração e liderança moral (Nye, 2004) para se reconfigurar em bases nacionalistas e transacionais, voltadas à defesa imediata dos interesses domésticos e geopolíticos. Assim, mais do que uma retração do poder hegemônico dos Estados Unidos, observa-se sua reconfiguração em direção a um “reluctant hegemon” (Fehl, 2011), menos comprometido com a manutenção da ordem liberal e mais inclinado à coerção seletiva e à barganha direta (Rodrigues, 2023; Walt, 2018).

Paralelamente, China e Rússia ampliaram sua presença em fóruns multilaterais como BRICS, Organização para Cooperação de Xangai e Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, enquanto conservadores norte-americanos desdenharam desses espaços. Esse afastamento abriu espaço para que potências rivais moldassem normas internacionais e diversificassem fontes de apoio econômico, financeiro e militar. Cooley e Nexon (2025) argumentam que, ao abdicar dos valores que tradicionalmente legitimavam o liberalismo – direitos humanos, boa governança e combate à corrupção – Washington compromete a credibilidade de sua liderança moral e arrisca converter-se em mais um competidor puramente transacional. A consequência provável é o esfacelamento dos instrumentos de influência diplomática e econômica, bem como da centralidade do dólar, acumulados no pós-Guerra Fria.

O trumpismo, nessa conjuntura, espelha uma tendência mais ampla de erosão do multilateralismo e de ascensão de regimes nacionalistas e populistas que redefinem as bases da ordem internacional liberal. Resta saber se os Estados Unidos serão capazes, no longo prazo, de converter essa reorientação estratégica em estabilidade e prosperidade. Se, por um lado, a ênfase na soberania nacional e na primazia econômica pode fortalecer a coesão interna e redistribuir os custos da liderança global; por outro, ameaça alianças históricas e fragiliza a legitimidade internacional norte-americana. O “mundo de Trump”, em suma, projeta um sistema internacional menos institucionalizado, mais competitivo e abertamente transacional – um cenário de incerteza no qual a hegemonia estadunidense se reinventa, mas também se desgasta, e cujo desfecho permanece em aberto.

A geopolítica do conservadorismo: alianças ideológicas e antagonismos hemisféricos

A consolidação do America First, enquanto núcleo ideológico e eixo estratégico do trumpismo, encontra máxima expressão institucional no Conservative Political Action Conference (CPAC) – notadamente configurado à medida que transcende o domínio da política externa e adquire contornos de uma doutrina que rompe as fronteiras simbólicas do conservadorismo norte-americano (Frieiro, 2025).

Originalmente concebido nos anos 1970, como fórum de debate para o conservadorismo tradicional – de matriz reaganista e pró-mercado –, o CPAC converteu-se, sobretudo após 2016, em arena de mobilização da direita radical, do populismo nacionalista e do revisionismo político-cultural associados ao MAGA (Graham, 2022; Haynes, 2021). No contexto recente, o CPAC passa a desempenhar dupla função: de um lado, atua como lócus de legitimação do America First no interior do Partido Republicano, marginalizando correntes mais moderadas e internacionalistas (Frieiro, 2025); de outro, transforma-se em plataforma transacional de difusão de um projeto civilizatório de direita, baseado no antiglobalismo, em valores cristãos e na defesa do Ocidente (Eatwell e Goodwin, 2018; Mudde, 2019).

A partir dessa lógica, a direita radical norte-americana constrói um sistema binário de identificação política, no qual aliados e ameaças são definidos com base em critérios ideológicos e geopolíticos (Cooley e Nexon, 2025). Internamente, os aliados são aqueles que partilham a agenda moral conservadora – oposição a políticas de gênero, multiculturalismo e imigração – e defendem o livre mercado sob moldura nacionalista. Enquanto ameaças são associadas às “elites globais” – políticas, midiáticas e acadêmicas –, ao progressismo cultural e ao “deep state”, acusados de corromper a soberania popular e de submeter os Estados Unidos a interesses supranacionais (Mouffe, 2018; Norris e Inglehart, 2019).

No plano internacional, o America First é erigido sob uma visão geopolítica marcada pela hierarquização do mundo entre civilizações “compatíveis” e “antagônicas”. As alianças preferenciais, nesse sentido, se concentram em líderes e governos que compartilham afinidade ideológica e resistência às agendas globalistas (como Santiago Abascal, Jair Bolsonaro, Javier Milei, Viktor Orbán e Giorgia Meloni).8 Em contrapartida, organizações multilaterais (ONU, OMS, OMC) e potências concorrentes, notadamente China e União Europeia, representam ameaças estruturais, entendidas respectivamente como: o “inimigo estratégico”, que desafia a primazia material dos Estados Unidos; e o “inimigo ideológico”, associado ao globalismo progressista e ao multilateralismo (Cooley e Nexon, 2025; Ikenberry, 2018).

A presença recorrente de figuras como Bolsonaro, Abascal e Milei nas edições do CPAC ilustra a função simbólica e estratégica do evento na consolidação de uma rede de extrema-direita hemisférica. Esses líderes são incorporados ao discurso trumpista como emblemas de soberania e de resistência à “nova ordem liberal decadente”, configurando uma coalizão identitária voltada à defesa do Ocidente cristão e do capitalismo nacional (Cooley e Nexon, 2025). Tal processo de demarcação de fronteiras identitárias reflete o que Mouffe (2018) denomina logic of antagonism, na qual a política é reduzida a uma oposição moral entre “povo” e “inimigo”, deslocando o debate público do campo da deliberação para o da disputa existencial.

O CPAC, nesse sentido, não apenas reforça a coesão discursiva entre os diferentes segmentos da direita radical, mas também exporta o modelo de polarização do trumpismo, estimulando a formação de redes ideológicas transnacionais que reproduzem tal clivagem em outros contextos regionais, como América Latina e Europa Oriental (Ferreira, 2023). É nesse ambiente que figuras como Marco Rubio ganham relevância singular, acentuada à medida que se insere nos circuitos discursivos do America First e mantém diálogo com a direita radical por meio de pautas nacionalistas e de segurança hemisférica (Bukhari et al., 2025; Frieiro, 2025).

Marco Rubio e a direita radical estadunidense

A trajetória de Marco Antonio Rubio oferece um caso singular para compreender a transição da direita republicana tradicional para a nova direita populista do trumpismo. Nascido em 1971, em Miami (Flórida), filho de imigrantes cubanos que deixaram a ilha ainda sob o regime de Fulgêncio Batista, Rubio constrói sua identidade política sobre a memória do exílio, do autoritarismo e do anticomunismo – valores que se tornaram elementos estruturantes de seu ethos político (McNamee, 2025). Essa experiência diaspórica conferiu-lhe uma sensibilidade particular à retórica da liberdade e da resistência a regimes autoritários, frequentemente traduzida em termos de “batalha moral” entre civilização e barbárie.

Graduado em Direito pela Universidade de Miami, Rubio iniciou sua carreira política no legislativo estadual da Flórida e elegeu-se senador em 2010 – cargo que exerceu até 2025, quando foi nomeado Secretário de Estado por Donald Trump. Durante o mandato, consolidou-se como voz influente nas comissões de Relações Exteriores e Inteligência, destacando-se pela retórica firme contra China, Venezuela e Cuba, e pela defesa de uma agenda de segurança hemisférica e de valores conservadores (Greer et al., 2025).

Com trajetória institucional consolidada e forte capital simbólico junto ao eleitorado latino e anticomunista, Rubio opera como mediador entre o establishment republicano e o núcleo militante do trumpismo. Reconhecido por sua postura forte e assertiva diante de potências revisionistas como Rússia e China, bem como de regimes contestatórios na Venezuela e Guatemala, Rubio inaugura seu mandato com visita oficial à América Latina, sinalizando que a contenção da presença chinesa, especialmente em espaços estratégicos como o Canal do Panamá, ocuparia posição central na agenda de Washington (Messari, 2025).

Do ponto de vista estratégico, Messari (2025) observa que essa orientação linha-dura de Rubio, articulada ao estreitamento de laços com governos ideologicamente alinhados, configura uma estratégia de poder assentada na seletividade relacional e na reafirmação hegemônica. Essa guinada, que combina elementos de realismo ofensivo com a retórica de excepcionalismo moral e civilizatório (Mearsheimer, 2001), revela o esforço de reafirmação da hegemonia americana diante do desafio imposto pela ascensão chinesa e enfraquecimento das instituições multilaterais (Ikenberry, 2018; Nye, 2021).

A nomeação de Marco Rubio como secretário de Estado materializa essa inflexão, ao deslocar para o núcleo da formulação diplomática um ator político com experiência acumulada em questões hemisféricas e de significativa afinidade cultural com a região. Como primeiro hispânico a ocupar o cargo de Secretário de Estado, Rubio combina a gramática moral e religiosa típica do conservadorismo latino da Flórida com a lógica de soberania transacional do America First. Essa trajetória dual – entre a institucionalidade republicana e o campo simbólico da direita radical – explica sua ascensão como figura de transição entre o conservadorismo tradicional e o núcleo militante do trumpismo (McNamee, 2025).

A adesão parcial ao discurso America First, a participação em fóruns como o CPAC e, sobretudo, a nomeação como Secretário de Estado expressam o esforço de Rubio na tradução diplomática da retórica populista em estratégia de política externa (Greer et al., 2025). Rubio personifica, assim, a tentativa de institucionalizar o nacionalismo pragmático do trumpismo e o discurso de supremacia civilizacional como práticas oficiais do Estado (US Department, 2025), convertendo o CPAC de espaço de militância em arena de reconfiguração da hegemonia norte-americana (Frieiro, 2025). Nesse sentido, America First deixa de ser apenas um mote de campanha para se tornar o núcleo articulador da nova gramática política, que reposiciona os Estados Unidos no sistema internacional – não mais como guardião da ordem liberal, mas como potência revisionista empenhada em preservar sua centralidade mediante alianças ideológicas e exclusão normativa (Ferreira, 2023).

Durante sua candidatura presidencial, em 2015, Rubio delineou uma visão clássica da política externa republicana, estruturada em três eixos (US Department, 2025): (1) restauração da força americana como condição da ordem internacional; (2) defesa de uma economia global aberta, sustentada pela primazia militar e naval dos Estados Unidos; e (3) promoção moral da liberdade e da democracia como imperativo estratégico. Seu programa refletia uma síntese entre realismo e idealismo liberal – poder e valores concebidos como instrumentos complementares da liderança americana –, ainda ancorado na doutrina neoconservadora de George W. Bush e no intervencionismo do pós-Guerra Fria (McNamee, 2025).

A atuação de Marco Rubio torna-se, portanto, fator determinante para compreender a inflexão da política norte-americana diante da América Latina, da ordem internacional e do redesenho ideológico promovido no America First (Bukhari et al., 2025; Greer et al., 2025). Suas primeiras declarações como secretário de Estado9 revelaram convergência explícita com o America First. No discurso de posse, Rubio afirma que “a prioridade do Departamento de Estado será, antes de tudo, os Estados Unidos”, substituindo a noção de liderança global pela de defesa soberana e transacional dos interesses nacionais. Durante a audiência de confirmação, identifica, na China, “o adversário mais potente e perigoso que a nossa nação já enfrentou”, comprometendo-se a reduzir a dependência estratégica de Washington em relação a Pequim.

No exercício da função, Rubio promoveu uma reorganização profunda do Departamento de Estado com base em princípios pragmáticos e hierárquicos. Entre as medidas iniciais, destacam-se: (1) cortes orçamentários e de pessoal em escritórios voltados à promoção de valores progressistas; (2) reestruturação do corpo diplomático, com reforço das divisões de segurança econômica e tecnológica; e (3) redefinição das prioridades regionais, recolocando a América Latina no eixo da contenção ideológica e da competição geopolítica (Rubio, 2025). Essas ações evidenciam a já mencionada ruptura com o internacionalismo liberal e a adoção de um modelo neorrealista-identitário, em que valores universais cedem lugar ao (neo)conservadorismo nacional (Greer et al., 2025).

Para Cooley e Nexon (2025), a ascensão de Rubio simboliza, portanto, a institucionalização do trumpismo no aparelho de Estado. A política externa norte-americana, ao incorporar a lógica America First e se aproximar de fóruns como o CPAC, converte a retórica populista em programa diplomático. Essa inflexão expressa o que Ikenberry (2018) descreve como a erosão da ordem liberal e o advento de uma política revisionista, guiada por afinidades ideológicas e exclusão normativa.

Sob sua liderança, o Departamento de Estado transforma-se de vetor do universalismo liberal em instrumento de política de poder, caracterizado por rivalidades e alianças seletivas com governos alinhados ao nacionalismo de direita. Rubio, assim, emerge como figura emblemática no segundo governo Trump. A comparação entre seus posicionamentos proferidos em 2015 e 2025 evidenciam continuidades, conforme o Quadro 1.

Quadro 1
Comparativo analítico da política externa de Marco Rubio (2015-2025)

Há uma mudança de paradigma. Rubio deixa de representar a direita republicana tradicional – nacionalismo, anticomunismo e defesa da ordem liberal – para se consolidar como um dos arquitetos e principais defensores do America First. Sua trajetória reflete, assim, um processo de adaptação estratégica da política externa norte-americana à ascensão da extrema-direita e à internacionalização da direita radical. Ademais, ao passo em que se aproxima do movimento MAGA e do CPAC, Rubio legitima sua permanência no centro do poder republicano mediante uma agenda soberanista, securitária e transacional. Nesse contexto, a diretiva da política externa passa a refletir uma “revolução diplomática” que redefine tanto o lugar dos Estados Unidos no sistema internacional quanto o próprio sentido contemporâneo da direita ocidental.

Alianças seletivas com a extrema-direita latino-americana

A América Latina rapidamente se tornou o eixo central na agenda do novo governo, sobretudo em razão da crise migratória e da intensificação de políticas coercitivas no campo comercial e diplomático. A questão migratória, em particular, constitui o principal foco de tensão entre Washington e seus vizinhos do sul. Trump retomou a retórica securitária de sua primeira presidência, ampliando deportações em massa de migrantes irregulares e reintroduziu práticas degradantes – como o uso de algemas e correntes durante os voos de repatriação – que haviam sido amplamente condenadas por organismos internacionais e por setores da própria burocracia estatal.

Essa política hipernacionalista funciona tanto como instrumento de afirmação interna quanto como mecanismo de expansão dos poderes presidenciais, viabilizando a externalização das fronteiras dos Estados Unidos e o uso da região como um “laboratório de controle” para a política externa do movimento MAGA. Nesse contexto, a Casa Branca tem operado uma estratégia de bilateralismo à la carte, marcada por acordos pontuais, seletivos e condicionais, concebidos para reforçar mecanismos de subordinação e coerção em meio ao processo de declínio relativo da hegemonia norte-americana (González, Hirst e Luján, 2025).

A relação entre Donald Trump e a nova direita latino-americana tem se aprofundado por meio de uma convergência entre afinidades ideológicas e interesses estratégicos, dinâmica especialmente visível, conforme observam Huggins e Lima (2023), na interlocução com três lideranças centrais: Nayib Bukele (El Salvador), Javier Milei (Argentina) e Jair Bolsonaro (Brasil). Embora cada líder se aproxime de Washington a partir de contextos e motivações distintos, pesquisas recentes indicam que todas compartilham traços comuns: antagonismo sistemático à esquerda, retórica populista e disposição para colaborar com a agenda externa dos Estados Unidos, especialmente nas áreas de segurança, imigração e contenção geopolítica (Ernst, 2025; Messari, 2025; Rooduijn et al., 2024; Sanders, 2025; Winter, 2024).

Entre esses atores, Nayib Bukele se consolida como o aliado mais próximo de Trump na região. Desde sua chegada ao poder, Bukele implementou uma política de segurança de viés abertamente repressivo, marcada pela construção de “mega prisões” e no encarceramento em massa sem garantias legais mínimas. Embora tenha sido objeto de críticas severas da administração Biden – notadamente pelos retrocessos democráticos e violações de direitos civis –, Bukele encontrou acolhida no governo Trump ao oferecer uma contrapartida altamente valorizada: aceitar deportados ilegais, inclusive de países terceiros, e alojá-los em suas instalações prisionais (Rooduijn et al., 2024). Esse gesto conferiu-lhe capital político junto à Casa Branca e resultou em crescente reconhecimento diplomático, incluindo recepções oficiais como chefe de Estado e a participação de Donald Trump Jr. em sua cerimônia de posse em 2024.

Mesmo diante de denúncias persistentes de negociações com organizações criminosas que garantem a continuidade de redes transnacionais de narcotráfico em troca da repressão intensificada às gangues locais, Bukele mantém elevada popularidade doméstica e segue bem-posicionado em Washington. Sua permanência nesse arranjo, contudo, depende centralmente da manutenção de seu alinhamento irrestrito à agenda migratória e securitária do governo Trump (Sanders, 2025).

Javier Milei, por sua vez, emergiu como um outsider na política argentina, ascendendo à presidência em meio ao colapso econômico do país (Merke e Doval, 2024). Amparado por um programa de reformas radicais e corte severos de gastos públicos, Milei iniciou um processo de estabilização econômica, ainda que acompanhado de elevados custos sociais (Heinisch et al., 2024). No plano simbólico e ideológico, aproximou-se de Trump com entusiasmo, participando de eventos como a CPAC e sendo celebrado pelo ex-presidente norte-americano como “um homem MAGA” pelo próprio ex-presidente (Fioreze e Cepik, 2023). Embora haja diferenças significativas entre ambos – particularmente no campo econômico, já que Milei é um dos defensores mais veementes do livre comércio e Trump adota uma postura abertamente protecionista –, o presidente argentino buscou apoio dos Estados Unidos nas negociações com o FMI, nas quais obteve importante respaldo político.

No plano internacional, Milei alinhou-se firmemente com Washington, retirando a Argentina da OMS, adotando posições conservadoras em temas de gênero e direito ao aborto, e passou a votar sistematicamente com os Estados Unidos contra resoluções da ONU críticas à Rússia. Sua retórica,10 elemento central de sua projeção global, o posiciona como liderança de uma nova direita transnacional ao lado de figuras como Giorgia Meloni e Viktor Orbán (Sanders, 2025)

Atualmente, Milei enfrenta o momento mais crítico desde que assumiu a presidência. Desde agosto de 2025, acumulam-se fatores que comprometem sua governabilidade e imagem pública: derrota eleitoral expressiva em Buenos Aires, queda de popularidade, novas tensões econômicas, dificuldades no Congresso e, sobretudo, denúncias de corrupção envolvendo sua irmã e principal estrategista política, Karina Milei. O escândalo fragilizou o núcleo de sua narrativa política “anticasta” e a corrupção, provocando instabilidade nos mercados e desgaste político. Apesar das demonstrações públicas de apoio de Donald Trump e do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent – que anunciaram um pacote financeiro de US$ 20 bilhões à Argentina e exaltaram sua liderança –, tais gestos têm efeito limitado sobre o eleitorado argentino imerso em um cotidiano marcado pela crise econômica (Saccomandi, 2025).

No caso brasileiro, Jair Bolsonaro, cuja presidência coincidiu com o primeiro mandato de Trump, buscou inspiração direta no estilo e nas pautas do ex-presidente norte-americano, ficando conhecido internacionalmente como o “Trump dos Trópicos”. Durante seu governo, cultivou uma aliança baseada em valores conservadores, acordos comerciais pontuais e forte alinhamento retórico. Contudo, sua tentativa frustrada de reeleição em 2022 e o avanço das investigações sobre a tentativa de ruptura institucional colocaram-no em situação jurídica delicada (Sanders, 2025). Nesse contexto, seu filho Eduardo Bolsonaro passou a buscar apoio político nos Estados Unidos para pressionar por uma anistia e impor sanções11 contra o ministro Alexandre de Moraes, relator da ação penal relacionada à trama golpista de 2022, e membros do Governo, como forma de pressão política (Moraes, 2025).

Outros líderes conservadores da região, como Daniel Noboa (Equador) e José Raúl Mulino (Panamá), têm tentado estabelecer vínculos com Trump, com graus variados de sucesso e limitações. Desse modo, a relação entre Trump e a nova direita latino-americana constitui uma intersecção entre afinidades ideológicas, interesses estratégicos e, em alguns casos, cálculos de sobrevivência política pessoal. A região, a exemplo da Europa Oriental, tem se mostrado receptiva a uma agenda que rejeita os valores do establishment progressista e abraça o nacionalismo conservador. Contudo, o fator mais determinante para o nível de proximidade com o governo Trump parece ser a disposição de colaborar com suas prioridades domésticas, especialmente a contenção da imigração ilegal (Sanders, 2025).

Pontos de tensão e conflitos com a esquerda latino-americana

Ainda que tenham precedentes em administrações anteriores, as deportações de imigrantes ganharam dimensão política e simbólica inédita sob Trump, servindo de instrumento para reafirmar autoridade interna e impor pressões econômicas e diplomáticas aos países latino-americanos, especialmente àqueles governados pela esquerda – casos de México, Colômbia, Venezuela e Brasil.

O México constitui o elemento mais complexo das relações entre os Estados Unidos e a América Latina. A agenda bilateral envolve temas sensíveis como migração, crime organizado, tráfico de armas e competição com a China. Durante seu primeiro mandato, Donald Trump intensificou políticas de contenção migratória e chegou a ameaçar uma intervenção militar em território mexicano, retomando essa retórica em sua campanha mais recente. O país, portanto, enfrenta uma administração estadunidense marcada pela volatilidade e pelo confronto. O crime organizado na fronteira inclui o tráfico de drogas, especialmente fentanil, pessoas e armas, este último favorecido pela frouxidão regulatória nos Estados Unidos. Além disso, o tráfico de espécies, minerais e metais preciosos, bem como o avanço do cibercrime e da fraude financeira revela a amplitude da economia ilícita transnacional (Ernst, 2025; Messari, 2025).

Em 2025, o México enfrentou a ameaça de um aumento unilateral de 25% nas tarifas de importação. A crise foi atenuada após negociações diretas entre Trump e a presidente Claudia Sheinbaum, que concordou em adotar medidas mais rígidas de contenção migratória. Messari (2025) sugere que o conflito tarifário funcionou como expediente de barganha, disfarçando o real objetivo de obter concessões comerciais de um parceiro vital para a economia norte-americana.

O presidente colombiano Gustavo Petro consolidou-se como uma das principais vozes críticas à política externa de Donald Trump na América Latina. Inicialmente, Petro recusou a entrada de aviões norte-americanos com deportados colombianos algemados. A reação de Trump foi imediata, ameaçando impor tarifas às exportações colombianas. Diante da perspectiva de sanções, Bogotá recuou e aceitou a repatriação, o que consolidou a imagem de um Trump disposto a usar todas as ferramentas de poder para alcançar seus fins (Messari, 2025). Participando de um protesto pró-Palestina após participação na Assembleia Geral da ONU, Petro pediu uma investigação criminal sobre os ataques aéreos do governo Trump contra supostos barcos de tráfico de drogas no Caribe. O Departamento de Estado considerou seus comentários “imprudentes e incendiários” e cancelou o visto de Petro e de altos funcionários do Governo Colombiano (Lau e Aikman, 2025).

A relação com a Venezuela, por sua vez, tem passado por inflexões. Apesar do histórico de hostilidade, o governo Trump optou inicialmente por uma postura pragmática, negociando diretamente com Nicolás Maduro o retorno de migrantes e a libertação de prisioneiros norte-americanos (Messari, 2025). O fim do diálogo, conduzido até então por Richard Grenell, enviado especial da Casa Branca, sinaliza o esgotamento da via diplomática e abre caminho para uma possível escalada militar, justificada pelo discurso de combate ao narcotráfico. A ruptura ocorreu em meio a um contexto de tensões crescentes entre Washington e Caracas. Os Estados Unidos acusam Maduro de chefiar um cartel de drogas e ofereceram uma recompensa de US$ 50 milhões por informações que levem à sua captura. Paralelamente, o governo norte-americano posicionou navios de guerra em águas internacionais próximas à Venezuela, sob o argumento de combater o tráfico de drogas. Bombardeios norte-americanos atingiram embarcações supostamente ligadas a traficantes venezuelanos, resultando em diversas mortes. Caracas nega as acusações de narcotráfico e denuncia a operação como parte de uma ofensiva destinada à mudança de regime (Wells e Cheetham, 2025).

A decisão de Trump integra uma estratégia mais ampla de pressão coercitiva e demonstração de força, características da política externa trumpista em seu segundo mandato, que busca reafirmar a primazia dos Estados Unidos no hemisfério ocidental. Ao enquadrar o regime de Maduro como uma ameaça à segurança regional, Washington busca legitimar sua presença estratégica no Caribe e reafirmar sua capacidade de intervenção direta no que considera sua tradicional esfera de influência.

Em relação ao Brasil, a administração Trump impôs, em julho de 2025, tarifas de 50% sobre a exportação de produtos, sanções a ministros do Supremo Tribunal Federal e seus familiares, bem como a membros do alto escalão do Governo Lula, sob a alegação de violações à liberdade de expressão e perseguição política a Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito (Moraes, 2025). Essa ação foi acompanhada de um discurso de defesa de Bolsonaro e de crítica ao governo Lula, configurando uma tentativa de enfraquecer as instituições democráticas brasileiras e de projetar influência sobre o cenário político interno do país. O uso simultâneo de instrumentos econômicos e políticos expressa uma dimensão neomonroísta da política externa trumpista, em que a defesa dos interesses norte-americanos se combina à retórica de proteção de “valores democráticos” contra governos percebidos como desafiadores da hegemonia dos Estados Unidos.

As medidas punitivas tiveram impacto imediato no comércio bilateral. Nos dois primeiros meses de vigência do chamado “tarifaço”, as exportações brasileiras aos Estados Unidos caíram 18,3%, de US$ 6,6 bilhões em 2024 para US$ 5,4 bilhões em 2025. Setores como açúcar (-82,3%), tabaco (-76,6%), carne bovina (-53,4%) e café não torrado (-11,3%) foram os mais afetados. Mesmo produtos não incluídos nas tarifas, como minério de ferro e celulose, sofreram retração devido à instabilidade gerada pela medida. Contudo, o revés comercial impulsionou uma reorientação da pauta exportadora brasileira em direção à Ásia. A China ampliou em 21% suas importações do Brasil, absorvendo grande parte dos produtos redirecionados. As compras chinesas de carne bovina quase dobraram e as de café não torrado cresceram 163%. México, países árabes e do Sudeste Asiático também aumentaram suas importações, evidenciando a diversificação geoeconômica das exportações brasileiras. O movimento foi facilitado pela política de abertura de mercados promovida pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, que desde 2023 havia firmado mais de 400 novos acordos comerciais (Garcia, 2025).

Em perspectiva analítica, a medida representou uma tentativa de enfraquecer as instituições democráticas brasileiras e de enviar um sinal de advertência a outros países do BRICS, como Índia e África do Sul, que vêm desafiando o domínio dos Estados Unidos em áreas como comércio em moedas alternativas,12 regulação digital e aproximação com a China (Ernst, 2025). Nesse sentido, o ataque ao Brasil combina interesses econômicos, ideológicos e pessoais de Trump, incluindo a defesa de empresas norte-americanas e de aliados como Elon Musk, cujo conflito com Moraes – motivado por decisões judiciais que limitam a disseminação de desinformação e suspenderam o funcionamento da plataforma X (ex-Twitter) – tornou-se um ponto central da disputa (Sanders, 2025).

Com efeito, esse episódio revela uma dupla consequência. De um lado, a tentativa de Trump de punir o Brasil e enfraquecer o BRICS traduziu-se em um instrumento de coerção econômica destinado a conter a influência chinesa e reafirmar o papel hegemônico dos Estados Unidos no hemisfério ocidental, erodindo a credibilidade dos americanos como parceiro confiável. De outro, paradoxalmente, as sanções e tarifas têm acelerado a integração do Brasil ao eixo econômico do Sul Global, fortalecido sua cooperação estratégica com a China e estimulado o efeito rally ’round the flag, isto é, fortalecendo o apoio doméstico a Lula em torno de um sentimento nacionalista e antiamericano (Kalout, 2025).

Assim, longe de isolar o Brasil, a política tarifária norte-americana acabou impulsionando a diversificação de seus mercados e reforçando seu papel como potência intermediária no cenário multipolar emergente. Em termos mais amplos, a ofensiva de Trump ilustra os limites da diplomacia coercitiva dos Estados Unidos diante do reordenamento do sistema internacional, no qual países como o Brasil e México buscam equilibrar suas relações entre as grandes potências e afirmar maior autonomia estratégica no contexto do pós-hegemonismo americano.

Nesse cenário de tensões bilaterais e uso crescente de instrumentos coercitivos por parte dos Estados Unidos, as reações dos países latino-americanos evidenciam um movimento gradual de reconfiguração estratégica. O reposicionamento brasileiro diante das sanções e a ampliação de laços comerciais com a Ásia, especialmente com a China, refletem uma tendência mais ampla de diversificação de parcerias e busca por maior autonomia nas relações internacionais. Tais dinâmicas não ocorrem isoladamente, mas integram um cenário geopolítico mais amplo, marcado pela intensificação da disputa entre Estados Unidos e China pela primazia econômica e tecnológica no sistema internacional. A crescente presença chinesa na América Latina, por sua vez, desafia diretamente a influência histórica de Washington na região e desencadeia uma resposta estratégica por parte dos Estados Unidos, voltada à contenção geoeconômica de Pequim.

Reequilíbrio estratégico e a contenção chinesa

A ascensão da China rompeu o equilíbrio histórico da distribuição de poder econômico, tornando-se um ator indispensável na economia mundial. O crescimento chinês representa uma transição de um modelo periférico para um núcleo capitalista, alterando as dinâmicas tradicionais de acumulação e divisão internacional do trabalho. O país passou a ocupar posição central nas cadeias produtivas e de valor, destacando-se como o maior exportador mundial de bens de consumo e um dos principais financiadores de infraestrutura em países em desenvolvimento. No contexto latino-americano, o avanço chinês cria novas oportunidades e desafios. Por um lado, a ampliação do comércio e dos investimentos chineses gera “espaço de manobra” e possibilidades de mobilidade ascendente para economias periféricas, reforçando formas alternativas de cooperação Sul-Sul. Por outro, há o risco de reprodução de padrões de dependência, com a região assumindo papel de fornecedora de commodities e perdendo capacidade industrial (Li, 2023).

Essa nova dinâmica dá origem a um processo de regionalismo híbrido, no qual coexistem e competem modelos de integração impulsionados pelos Estados Unidos no passado, baseados em abertura de mercados e liberalização comercial, e iniciativas articuladas pela China, que enfatizam infraestrutura, complementaridade produtiva e pragmatismo econômico (Merino, 2024).

A rivalidade China- Estados Unidos, intensificada após a guerra comercial de 2018, colocou a América Latina em uma posição estratégica, porém delicada. Enquanto o conflito abriu oportunidades de exportação e diversificação de mercados, como no caso do aumento das compras chinesas de soja brasileira, também expôs a vulnerabilidade estrutural da região frente à oscilação de preços e à pressão geopolítica. Nesse cenário, os Estados Unidos, historicamente dominantes no hemisfério ocidental, perceberam a penetração chinesa como um desafio direto à sua influência tradicional. O governo estadunidense passou a redefinir suas políticas de segurança e desenvolvimento em relação à América Latina, combinando reequilíbrio estratégico, reforço de laços regionais e políticas de contenção. Essa reaproximação ocorre tanto por meio de iniciativas econômicas voltadas à substituição de cadeias produtivas dependentes da China quanto pela tentativa de retomar laços diplomáticos e de segurança enfraquecidos nos últimos anos (Li, 2023).

A pandemia de Covid-19 expôs a vulnerabilidade norte-americana diante de cadeias globais dominadas pela China, levando estrategistas em Washington a defender uma grande estratégia de contenção e restrição. Essa orientação busca concentrar esforços em regiões prioritárias, como a América Latina, para contrabalançar a influência chinesa e reduzir dependências críticas em insumos estratégicos, como semicondutores e minerais raros. A esse respeito, o projeto do MAGA manifesta a ambição de controlar a exploração de recursos estratégicos na região, como o lítio (48% das reservas mundiais na região), o cobre e as terras raras, valiosos para o complexo militar-industrial e a tecnologia digital dos Estados Unidos (González, Hirst e Luján, 2025).

Essa reação deve ser compreendida dentro do contexto mais amplo da chamada “interdependência armada”, fenômeno no qual a economia global se converte em arena de coerção geoeconômica (Farrell e Newman, 2025). Durante décadas, os Estados Unidos utilizaram sua posição central nas redes financeiras e tecnológicas – controle do dólar, do sistema SWIFT e da infraestrutura digital – para exercer poder coercitivo sobre adversários e aliados. Contudo, a ascensão chinesa alterou esse equilíbrio, permitindo que Pequim também utilizasse instrumentos de coerção econômica, como o controle sobre a cadeia de terras raras e a criação de sistemas alternativos de pagamento e exportação tecnológica.

Nesse novo contexto, Washington passou a adotar políticas de segurança econômica nacional, ampliando sanções, restrições de exportação e incentivos industriais com o objetivo de manter a vantagem tecnológica e conter o avanço chinês em setores como inteligência artificial, energia limpa e infraestrutura digital. Essa estratégia, contudo, tem efeitos ambíguos: ao mesmo tempo em que busca proteger interesses estratégicos, pode acelerar a fragmentação das cadeias globais e reduzir o poder estrutural norte-americano no longo prazo.

Além da dimensão econômica, a resposta norte-americana assume também um caráter político e simbólico, a “Doutrina Monroe 2.0”, na qual o inimigo a ser contido é a influência econômica e tecnológica chinesa. Essa política combina retórica nacionalista, uso de tarifas e sanções como instrumentos de coerção, e uma diplomacia transacional, voltada à obtenção de concessões pontuais de governos latino-americanos. Trata-se de uma política assertiva e unilateral, baseada mais na lógica da pressão e da barganha do que em cooperação multilateral – uma atualização contemporânea do “grande porrete” de Theodore Roosevelt, agora direcionada contra Pequim (Messari, 2025).

Sob essa lógica, Washington procura reafirmar sua primazia hemisférica frente à crescente presença chinesa, utilizando um discurso de “responsabilidade compartilhada” e “defesa da democracia”, mas com práticas que reeditam o controle político sobre a região. Essa atualização da Doutrina Monroe se manifesta na ampliação de iniciativas como a Americas Partnership for Economic Prosperity (APEP) e na intensificação da cooperação em segurança com aliados regionais, buscando conter a influência de Pequim sobre governos e elites políticas latino-americanas (Pires e Nascimento, 2020).

Com efeito, os Estados Unidos estão reconstruindo uma arquitetura hemisférica que combina competição geoeconômica com contenção ideológica. A retórica de defesa da “ordem baseada em regras” serve como instrumento para legitimar políticas de exclusão da China de áreas estratégicas, como telecomunicações, infraestrutura portuária e energia, e para promover a reintegração das cadeias produtivas sob supervisão norte-americana.

Enquanto os Estados Unidos procuram reatualizar a Doutrina Monroe sob novas roupagens, a China aposta na diplomacia do desenvolvimento, baseada em pragmatismo, não interferência e ênfase em ganhos mútuos. Essa divergência de discursos e práticas reflete diferentes formas de exercer poder: os Estados Unidos continuam a atuar predominantemente por meio de mecanismos de coerção e influência normativa, enquanto a China adota estratégias de coesão econômica e diplomática, centradas na interdependência e no investimento (Merino, 2024).

A competição com Pequim, portanto, adquire uma dimensão não apenas militar ou comercial, mas sistêmica, envolvendo a disputa por padrões tecnológicos, infraestrutura crítica e controle de fluxos financeiros. Na América Latina, esse contexto gera uma revalorização estratégica do continente. A China não apenas se tornou o principal parceiro econômico de vários países latino-americanos, mas também poderá usar essa influência como instrumento de pressão estratégica em eventual confronto hegemônico com os Estados Unidos, especialmente no contexto da Ásia-Pacífico (Gök e Ekici, 2024). Washington, em contrapartida, busca reafirmar sua influência regional, tratando o continente como espaço-chave tanto para a diversificação produtiva quanto para a contenção geoeconômica do avanço chinês.

Essa reorientação política ocorre sobre uma base estrutural marcada pela dependência histórica dos países latino-americanos em relação a fluxos externos de capital, tecnologia e segurança. A conjuntura imposta, conforme observam Ayerbe (2019) e Gallagher (2020), manifesta-se sob um paradoxo: enquanto a aproximação política das elites regionais com Washington visa ganhos imediatos, tais como acesso a investimentos, reforço simbólico e proteção diplomática, a interdependência produtiva e comercial em relação à China é relativamente ampliada. Esse diagnóstico remete à teoria da dependência (Frank, 1967; Santos, 1970), segundo a qual o sistema internacional perpetua, por meio de mecanismos políticos e econômicos, uma hierarquia funcional entre centro e periferia.

Contudo, como adverte Li (2023), a região deve evitar transformar-se em um campo de disputa entre as duas potências, buscando estratégias de equilíbrio, diversificação e autonomia relativa. O exemplo do Sudeste Asiático, que procura maximizar benefícios sem alinhamentos rígidos, oferece um modelo possível para uma inserção latino-americana mais soberana na nova era da interdependência armada.

Considerações finais

A partir da perspectiva da Análise de Conjuntura, observou-se que a reconfiguração da doutrina monroísta emerge da interação entre três dimensões: (1) transformações estruturais da ordem internacional e do deslocamento relativo de poder dos Estados Unidos; (2) dinâmicas regionais marcadas pela crescente competição sino-americana; e (3) mediações institucionais e ideológicas produzidas pelo trumpismo e sua política America First. Tal combinação gera um conjunto de práticas que, embora retomem elementos históricos da hegemonia estadunidense, assumem contornos inéditos ao enfatizar rivalidade estratégica, militarização das fronteiras, controle das cadeias produtivas e diplomacia transacional.

As três frentes analisadas – coerção migratória e econômica; alianças seletivas com governos da direita radical; e contenção da presença chinesa – revelam que a Doutrina Monroe contemporânea opera menos como doutrina normativa e mais como instrumento competitivo, orientado à maximização de vantagens relativas em um ambiente multipolar. Em vez de um recuo hegemônico, o que se evidencia é uma tentativa de redefinir a primazia hemisférica sob bases nacionalistas e geoeconômicas, ainda que com custos significativos de credibilidade, legitimidade e estabilidade regional.

No plano internacional, a atualização monroísta reproduz a lógica da “interdependência armada”, gerando tensões comerciais, disputas tecnológicas e conflitos regulatórios que podem acelerar a fragmentação da ordem global. No plano regional, aprofunda assimetrias históricas e expõe a América Latina ao risco de se converter em arena intermediária de rivalidade entre grandes potências. Ainda que alguns governos obtenham ganhos táticos no curto prazo, tais alinhamentos tendem a reforçar padrões tradicionais de dependência, limite historicamente associado ao papel subordinado do continente no sistema internacional.

Conclui-se, portanto, que a restauração da primazia hemisférica pelos Estados Unidos não se dá em continuidade com o liberalismo do pós-guerra, mas por meio de uma racionalidade neorrealista e unilateralista, que combina competição sistêmica com práticas de contenção geoeconômica. Essa configuração fortalece elementos centrais da tradição monroísta, mas evidencia, simultaneamente, seus limites diante de uma ordem internacional mais fragmentada, multipolar e tecnologicamente disputada. Nesse sentido, mais do que um retorno ao passado, a nova Doutrina Monroe revela o lugar ambivalente dos Estados Unidos no século XXI: uma potência ainda central, mas cada vez menos capaz de exercer hegemonia incontestada em seu próprio hemisfério.

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  • WELLS, Ione; CHEETHAM, Joshua. 2025. Maior porta-aviões do mundo, caças e a CIA: qual é o objetivo final de Trump na Venezuela? BBC News Brasil, 24 out. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c205xy84y58o . Acesso em: 19 nov. 2025.
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  • WINTER, Brian. 2024. Latin America is about to become a priority for U.S. foreign policy: Trump will disrupt three decades of “benign neglect”. Foreign Affairs, 10 dez. Disponível em: https://www.foreignaffairs.com/united-states/latin-america-about-become-priority-us-foreign-policy . Acesso em: 7 out. 2025.
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  • WÜNSCH, Silke. 2025. The culture war on ‘wokeness,’ from the US to Germany. Deutsche Welle, 12 mar. Disponível em: https://www.dw.com/en/the-culture-war-on-wokeness-from-the-us-to-germany/a-71892359 . Acesso em: 20 nov. 2025.
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  • 1
    Agradecemos a Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF – processo n. 291/2023), pelo financiamento desta pesquisa.
  • 2
    Estados que praticam uma política externa transacional tendem a ver a política internacional sobretudo como “acordos bilaterais” entre presidentes ou chefes de governo, em detrimento do multilateralismo, com uma projeção de curto prazo (Dipama e Parlar Dal, 2024).
  • 3
    Nesse processo, o Corolário Clay (1825) buscou impedir a transferência de Cuba e Porto Rico da Espanha para outra potência europeia, preservando o equilíbrio estratégico no Caribe; o Corolário Polk (1845) advertia a Inglaterra contra qualquer interferência no estado do Texas, recém-independente do México; o Corolário Grant (1871) foi invocado diante da possibilidade de recolonização da República Dominicana; o Corolário Olney (1895) defendia a mediação dos EUA na disputa entre Venezuela e a Guiana Inglesa, afirmando o direito americano de arbitrar conflitos hemisféricos; e o Corolário Roosevelt (1904), o mais conhecido, inaugurou a Big Stick Policy, legitimando intervenções preventivas sem que um Estado americano fosse incapaz de manter a ordem, garantir estabilidade ou honrar compromissos financeiros. Esses corolários cristalizaram o monroísmo como gramática de poder, acomodando justificativas normativas, interesses estratégicos e mecanismos de intervenção.
  • 4
    Importa destacar que, em contextos marcados por inflexão estratégica como o explicitado, elementos próprios do novo ordenamento hegemônico tornam inviável a reversão dos vínculos já consolidados – no caso, entre países latino-americanos e ambos os polos de poder (Rooduijn et al., 2024).
  • 5
    Inspirada em Gramsci e Stuart Hall, essa perspectiva busca “ver o presente de forma diferente”, integrando dimensões estruturais e contingentes e reconhecendo que as conjunturas são sempre processuais, multiescalares e historicamente situadas. Hart (2023) enfatiza a necessidade de uma leitura global e relacional das conjunturas, capaz de conectar práticas locais a dinâmicas mundiais. Peck (2024) argumenta que a análise conjuntural deve ser entendida como uma “prática artesanal” de pesquisa, marcada pela reflexividade, colaboração e experimentação metodológica. Sua aplicação, portanto, não se restringe a um método fixo, mas envolve o esforço coletivo de interpretar e intervir em situações concretas por meio da articulação entre escalas e temporalidades distintas.
  • 6
    Para a direita populista, “povo” significa nação; para a esquerda, classe social (Mudde, 2004).
  • 7
    Churchwell (2018) mostra como o America First e o American Dream surgiram, mudaram de significado e foram instrumentalizados por diferentes atores ao longo da história, desde políticos e jornalistas até movimentos nativistas e grupos de ódio. O American Dream, segundo a autora, inicialmente tinha uma conotação mais política do que econômica, associada à democracia e à igualdade, antes de ser reconfigurado como ideal de ascensão material. Já America First esteve historicamente vinculado ao isolacionismo, ao nacionalismo e a movimentos contrários à imigração, chegando a ser apropriado por grupos racistas, como a Ku Klux Klan. Analisando as políticas de Trump, Churchwell (2018) sugere que a história política dos Estados Unidos tende a se repetir, e que o ressurgimento dessas ideias revela um passado de racismo e exclusão que nunca foi totalmente superado.
  • 8
    Para aferir o alinhamento dessas lideranças globais com o trumpismo, ver: Hronešová e Kreiss (2024), Fernández-Vázquez (2024), Fioreze e Cepik (2023), Merke e Doval (2024).
  • 9
    Para ampliar a compreensão sobre o universo de suas posições e declarações, recomenda-se a leitura do “Remarks: secretary Rubio” (U.S. Department of State, 2025).
  • 10
    O termo woke designa “um estado de consciência sobre problemas sociais, como racismo e desigualdade”, e no uso contemporâneo está associado à defesa de direitos de minorias raciais, de gênero e da comunidade LGBTQ+, assim como às agendas de diversidade, equidade e inclusão (DEI) e à crítica às discriminações estruturais. A “guerra anti-woke” consiste na mobilização política contra essas pautas - especialmente a teoria crítica da raça (CRT), políticas de identidade, linguagem inclusiva e direitos sociais - apresentando-as como ideologia radical, ameaça à ordem tradicional e símbolo de elitismo cultural. Trata-se, assim, de uma disputa cultural e política em que woke é transformado em termo pejorativo e instrumentalizado como inimigo simbólico em campanhas conservadoras e populistas (Wünsch, 2025).
  • 11
    Alexandre de Moraes e sua esposa, Viviane Barci de Moraes, foram sancionados pelo governo Donald Trump a partir da aplicação da Lei Magnitsky, sob a justificativa de que o ministro teria atuado contra liberdades fundamentais e processos democráticos, enquadrando-se nos critérios legais que permitem sancionar agentes estrangeiros acusados de reprimir denúncias de corrupção, cercear direitos civis ou interferir em eleições. A legislação, criada em 2012 e ampliada em 2016, autoriza os Estados Unidos a imporem bloqueio de bens, restrição de vistos e inclusão de indivíduos na lista de pessoas especialmente designadas quando considerados responsáveis por violações graves de direitos humanos ou corrupção significativa (CNN Brasil, 2025).
  • 12
    Apesar das preocupações de Donald Trump quanto à possível erosão da hegemonia do dólar, análise do comércio intra-BRICS entre 2006 e 2022 mostrou que a diversificação monetária permanece limitada. Observa-se uma substituição parcial do dólar no curto prazo, evidenciada por uma relação negativa e estatisticamente significativa entre o aumento do comércio intra-BRICS e as reservas em dólar. Esse fenômeno pode ser atribuído ao uso de moedas locais ou acordos de swap cambial no âmbito do bloco. Contudo, não há evidências robustas de diversificação monetária no longo prazo. Ao contrário, evidências sugerem que o crescimento do comércio intra-BRICS está positivamente associado às reservas em dólar nesse horizonte, possivelmente em função da persistente dependência do comércio global em relação à moeda norte-americana (Fliagin e Abdulganiyu, 2025).
  • Disponibilidade de Dados
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Editado por

  • Editora Responsável
    Natália Nóbrega de Mello

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    21 Out 2025
  • Aceito
    01 Dez 2025
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