Open-access CULTURA, DOMÍNIO E PODER

O número 125 da revista Lua Nova: revista de cultura e política é formado por artigos avulsos e enviados espontaneamente por seus autores e que foram avaliados positivamente por nossos pareceristas. O número reúne temáticas variadas e enfoques heterogêneos que trazem à tona questões relacionadas às estruturas de poder, aos campos da cultura e das ideias, bem como ao binômio domínio-autonomia.

Abrimos com o texto “A Primeira Guerra Mundial e a Mudança Momentânea de Paradigma em Manoel Bomfim”, de Patrick Silva dos Santos e Alessandro André Leme, que aborda como o autor de “A América Latina: males de origem” (1905) operou uma virada contraditória, durante a Primeira Guerra Mundial, relativizando parte das teses críticas à colonização que o consagraram. O artigo busca interpretar as razões da inflexão operada por Bomfim no artigo “A Obra do Germanismo” (1914-1915), no qual são suavizadas suas críticas ao colonialismo e neocolonialismo francês, inglês e belga e seus impactos negativos na formação social e política de sociedades colonizadas.

A esse respeito, vale relembrar Frantz Fanon, que adverte, em Os condenados da Terra, sobre os dilemas inerentes à busca por autonomia intelectual entre as produções culturais de intelectuais situados em contextos coloniais e as formas sutis de domínio que atravessam a produção de ideias. Segundo ele, as ideias, mesmo quando nascem em chave crítica, são atravessadas por linguagens e discursos externos que, longe de possibilitarem a construção de projetos autônomos, tendem a moldar o pensamento dentro de um campo que restaura a dominação. Nas palavras de Fanon (2010, pp. 260-261):

Só podemos avançar resolutamente se tomamos, primeiro, consciência da nossa alienação. Tomamos tudo do outro lado. Ora, o outro lado não nos dá nada sem, através de mil rodeios, curvar-nos para a sua direção; sem, através de dez mil artifícios, cem mil astúcias, atrair-nos, seduzir-nos, aprisionar-nos. Tomar também é, em múltiplos planos, ser tomado.

O texto seguinte, de autoria de Pedro Bueno de Melo Serrano, versa a respeito da trajetória intelectual de Álvaro Lins e, por comparação, Alceu Amoroso Lima, a partir da lente de análise das relações entre crítica literária, campo intelectual e redes de sociabilidade.

Na sequência, o artigo intitulado “Beyond Interventionism: A Theory of International Intrusions as a mechanism of hegemonic action”, de Rodrigo Augusto Duarte Amaral, propõe uma ferramenta teórica-analítica para se avançar nos estudos sobre intervenção nas relações internacionais. Tendo por referência o paradigma neogramsciano, o autor explora os diferentes tipos de intrusão internacional e o papel da incorporação de elites locais na realização dos objetivos perseguidos.

Já o artigo “A Transição Energética na União Europeia”, de Antonio Goucha Soares, dedica-se a avaliar a transformação do sistema energético e diversificação de fontes promovidas pelo bloco. Destacadamente, Goucha Soares examina a produção de fontes renováveis e de energia nuclear da União Europeia, considerando o duplo desafio de reduzir as emissões de gases do efeito estufa e ampliar a autonomia estratégica em relação ao gás natural importado da Rússia.

Em “Retorno a Adorno: teoria social e crítica da economia política”, César Barreira e Guilherme Gonçalves propõem o resgate da obra adorniana e a exploração das convergências entre a teoria social de Adorno e a crítica marxiana da economia política. Para os autores, essa convergência abre a possibilidade de reatualizar categorias como valor de uso, valor de troca, trabalho abstrato, trabalho concreto, expropriação, lucro e renda ao recolocar a noção de valor como inerentemente contraditória, dialetizando troca e expropriação.

Quanto ao texto “Qualidade da classe política: uma discussão com a literatura e uma proposta de definição”, de Renato Perissinotto e Adriano Codato, os autores partem de uma discussão com a literatura contemporânea sobre a qualidade dos governantes, a fim de oferecer uma abordagem teórica e um índice multidimensional para mensurá-la, articulando fatores normativos e indicadores empíricos.

A contribuição seguinte, assinada por Fernando Maccari, tendo por lente teórica-analítica os sistemas deliberativos, investiga o processo de elaboração do Plano Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional de Santa Catarina observando os diversos espaços participativos, seus conectores e as interações, conflitos e negociações entre atores e instituições envolvidas.

Haroldo Ramanzini Junior e Rogério de Souza Farias propõem uma ampliação nos estudos de política externa, até hoje, demasiadamente focados no processo da formulação de políticas, relegando ao segundo plano a análise da implementação. O artigo parte da sistematização do debate e observação de alguns casos relevantes da política externa brasileira para enunciar uma agenda de investigação e um marco analítico com sete variáveis cruciais para investigação da fase de implementação.

O artigo “Negacionismo como Ruptura de Confiança e Fidelidade em Relação a Formas Sociais Modernas”, de Patrícia da Silva Santos e Ricardo Pagliuso Regatieri, oferece uma reflexão sobre o fenômeno do negacionismo com base em concepções teóricas simmelianas sobre duas formas sociais modernas: a confiança e a fidelidade. Dialogando com Simmel, os autores destacam que vivemos um período em que ambas as formas – que concedem relativa estabilidade às instituições sociais modernas – sofreram abalos significativos.

Fechando o número, publicamos o texto “Ativismo Acadêmico: quando nossas ideias ganham corpo”, de Manuela Lavinas Picq, no qual a autora apresenta instigantes reflexões ao receber o Prêmio de Ativismo Acadêmico da International Studies Association (ISA), em 2024. Picq problematiza a própria ideia de premiar o ativismo acadêmico, apontando que o reconhecimento pode encobrir a reprodução de hierarquias e o estreitamento do ativismo a atores excepcionais e “heroicos”, quando seria mais profícuo distribuir a responsabilidade e normalizar a participação de intelectuais em práticas coletivas de engajamento.

Bibliografia

  • FANON, Frantz. 2010. Sobre a Cultura Nacional. In: Os Condenados da Terra. Juiz de Fora: Editora UFJF, pp. 237-270.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2025
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