Open-access GÊNEROS TEXTUAIS E FORMAÇÃO DOCENTE: CONTRIBUIÇÕES DOS GRUPOS ALTER-AGE E ALTER-FIP

TEXTUAL GENRES AND TEACHER EDUCATION: CONTRIBUTIONS FROM THE ALTER-AGE AND ALTER-FIP GROUPS

GÉNEROS TEXTUALES Y FORMACIÓN DOCENTE: CONTRIBUCIONES DE LOS GRUPOS ALTER-AGE Y ALTER-FIP

Resumo

Este artigo, em diálogo com a obra Gêneros orais e escritos na escola, objetiva mostrar contribuições dos grupos de pesquisa ALTER-AGE e ALTER-FIP para identificar conflitos dos docentes ao planejar e implementar o ensino de gêneros e os obstáculos de aprendizagem dos discentes frente a esse ensino; para buscar ferramentas para enfrentar os conflitos e obstáculos; para trabalhar com a formação docente; e para usar gêneros de texto e/ou multimodais para o ensino de línguas. Apresentam-se resultados de pesquisas que evidenciam (a) a importância da dimensão interpessoal do trabalho docente; (b) os conflitos docentes e respectivos gestos de regulação dos formadores; (c) os gestos de planejamento; (d) os obstáculos e respectivos gestos de regulação; (e) o estudo de verbalizações sobre o trabalho docente; (f) os dilemas do métier de professor; e (g) os dispositivos didáticos para o ensino dos gêneros multimodais.

Palavras-chave:
Docência; Gênero textual; Gestos de planejamento; Didática; Regulação de conflitos

Abstract

This article, in dialogue with the work Oral and Written Genres in School, aims to show the contributions of the research groups ALTER-AGE and ALTER-FIP in identifying the conflicts faced by teachers when planning and implementing the teaching of genres and the learning obstacles faced by students in response to this teaching; in seeking tools to address these conflicts and obstacles; in working with teacher education; and in using textual and multimodal genres for language teaching. We present results highlighting (a) the importance of the interpersonal dimension of teaching, (b) teacher conflicts and the corresponding regulatory gestures by trainers, (c) planning gestures, (d) obstacles and the corresponding regulatory gestures, (e) the study of verbalizations about teaching work, (f) the dilemmas of the teaching profession, and (g) the didactic devices for teaching multimodal genre.

Keywords:
Teaching; Textual genre; Planning gestures; Didactics; Conflict regulation

Resumen

Este artículo, en diálogo con la obra Géneros orales y escritos en la escuela, tiene como objetivo mostrar las contribuciones de los grupos de investigación ALTER-AGE y ALTER-FIP para identificar los conflictos de los docentes al planificar e implementar la enseñanza de los géneros y los obstáculos de aprendizaje de los estudiantes frente a esa enseñanza; para buscar herramientas para enfrentar estos conflictos y obstáculos; para trabajar con la formación docente; y para utilizar géneros textuales y/o multimodales en la enseñanza de idiomas. Se presentan resultados de investigaciones que evidencian (a) la importancia de la dimensión interpersonal del trabajo docente; (b) los conflictos de los docentes y los gestos de regulación correspondientes de los formadores; (c) los gestos de planeamiento; (d) los obstáculos y los gestos de regulación respectivos; (e) el estudio de las verbalizaciones sobre el trabajo docente; (f) los dilemas del oficio docente; y (g) los dispositivos didácticos para la enseñanza de géneros multimodales.

Palabras clave:
Docencia; Género textual; Gestos de planeamiento; Didáctica; Regulación de conflictos

1 INTRODUÇÃO

Este artigo objetiva mostrar contribuições de pesquisas dos grupos ALTER-AGE1 e ALTER-FIP2 a partir da obra fundadora Gêneros orais e escritos na escola, de Bernard Schneuwly e Joaquim Dolz, em interface a outros aportes teórico-metodológicos que o grupo ALTER possibilitou desde sua criação em 20023. Este grupo foi se consolidando em harmonia com a obra aqui homenageada, e Anna Rachel Machado foi a responsável por introduzir como objeto de estudo o conceito de trabalho docente4 (Machado, 2004) - objeto hoje bastante disseminado nos estudos brasileiros na vertente teórico-metodológica do interacionismo sociodiscursivo - abrindo caminho para os pesquisadores sucessivos unirem com mais propriedade os aportes dos estudos de gêneros com os das ciências do trabalho.

A obra homenageada nesta edição de Linguagem em (Dis)curso trouxe importantes conceitos advindos das reflexões sobre Didática das Línguas dos pesquisadores da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Genebra, dentre os quais: modelo didático de gênero, sequência didática e capacidades de linguagem5. A partir desses três conceitos facilmente operacionalizáveis em razão das detalhadas orientações teóricas e metodológicas apresentadas no livro, houve várias consequências para a prática de ensino e para a pesquisa sobre o ensino e a aprendizagem de línguas no Apresentamos neste artigo algumas dessas consequências. Em primeiro lugar, sabemos, do ponto de vista da prática de ensino, que inúmeros documentos oficiais brasileiros se pautaram por conceitos desenvolvidos no livro, resultando em prescrições para o trabalho com gêneros em diferentes âmbitos escolares e influenciando, também, a elaboração de livros didáticos. Em segundo lugar, do ponto de vista da pesquisa acadêmica, como o livro trazia resultados de estudos realizados na Suíça românica e com aulas de francês, os pesquisadores brasileiros iniciaram investigações sobre as aulas de português como língua materna, abordando subsequentemente línguas estrangeiras como o inglês, o francês, o espanhol e mesmo o português.

Portanto, desde o marco da publicação de Gêneros orais e escritos na escola, a quantidade de pesquisas sobre o ensino de gêneros e o impacto nas produções dos alunos se multiplicou, assim como se multiplicaram as variadas adaptações e propostas para essa abordagem, ao entrar em contato com a realidade do ensino no Brasil.

Neste artigo trazemos apenas algumas das adaptações e propostas desenvolvidas a partir dessa obra, no que diz respeito a duas temáticas que começaram a germinar nas discussões do Grupo ALTER-CNPq em sua formação inicial na PUC-SP, ou que foram desenvolvidas posteriormente pelos Grupos ALTER-AGE-CNPq e ALTER-FIP-CNPq: o ensino como trabalho e uma perspectiva discursiva para analisá-lo; e o ensino de línguas com base em gêneros voltada para as escolas brasileiras. Foram exploradas, por exemplo, as línguas estrangeiras, bem como os textos multimodais, estes mais frequentes após a publicação dos textos iniciais que deram origem à obra de Schneuwly e Dolz (2004).

Para a escrita deste artigo, partimos da premissa de que, para criar condições de desenvolvimento das práticas de linguagem em sala de aula com base em gêneros, é necessário realizar um trabalho que exige a identificação dos conflitos dos docentes (ALTER-FIP) e dos obstáculos dos discentes (ALTER-FIP) e dos docentes (ALTER-AGE); a busca por ferramentas para enfrentar esses conflitos e obstáculos em todas as etapas de ensino; a identificação das vozes que exercem influência no agir docente e de dilemas do métier; a valorização do trabalho com a formação docente nessas etapas; e a consideração de aspectos da contemporaneidade, como os gêneros multimodais.

É em relação a essas etapas, evidenciadas pelos pesquisadores dos dois grupos de pesquisa, que propomos apresentar, em síntese, nossas contribuições para a obra aqui reverenciada.

2 CONTRIBUIÇÕES DO GRUPO ALTER-AGE-CNPQ

As pesquisas do Grupo ALTER-AGE-CNPq se concentram na análise de situações de trabalho de ensino do francês como língua estrangeira e se valem dos aportes da Clínica da Atividade (Clot, 2006; 2010) e da antiga equipe ERGAPE (Amigues, 2004; Faïta; Vieira, 2003), ao lado dos pressupostos teóricos-metodológicos do Interacionismo Sociodiscursivo (Bronckart, 1999). Realizam estudos que utilizam métodos como a autoconfrontação (Faïta; Vieira, 2003) com o intuito de intervir na situação de trabalho e/ou implementar dispositivos de formação de professores. Dentre os trabalhos realizados desde 2010, damos destaque a uma pesquisa de mestrado (Dantas-Longhi, 2013), duas pesquisas de doutorado (Rocha, 2023; Silva, 2023) e pesquisas realizadas por Lousada (2013, 2020, 2021, 2023), pois todas se valeram do método das entrevistas em autoconfrontação (Faïta; Vieira, 2003) como forma de gerar verbalizações sobre o trabalho, contribuir para a formação docente e, posteriormente, para o desenvolvimento das capacidades de linguagem dos alunos.

No que diz respeito ao uso de gêneros multimodais para o ensino do francês como língua estrangeira, damos destaque a duas pesquisas, uma de mestrado e outra de doutorado, que propuseram dispositivos didáticos para trabalhar os gêneros multimodais e sugeriram categorias de análise desses gêneros a partir do quadro do Interacionismo Sociodiscursivo (Bronckart, 1999), categorias que não têm sido contempladas pelos pesquisadores genebrinos.

Vejamos as contribuições do Grupo ALTER-AGE-CNPq para a análise do trabalho de ensino e para o trabalho com gêneros multimodais.

2.1 PARA O TRABALHO DE ENSINO

Nos dispositivos de formação que foram objeto das pesquisas parte-se do princípio, presente na obra de Schneuwly e Dolz (2004), de que o desenvolvimento das capacidades de linguagem é propiciado por atividades que partem do uso da língua em situações de comunicação. As pesquisas propõem, então, interações em sala de aula para que os alunos se apropriem de diferentes gêneros de textos que permitam agir com a linguagem.

Dando continuidade aos estudos de Lousada (2006), as pesquisas que apresentamos neste artigo retomaram o estudo das vozes enunciativas que podem ser identificadas na verbalização dos professores sobre o trabalho, pela utilização do método da autoconfrontação. Tanto simples quanto cruzada, a autoconfrontação permite que professores, ao assistirem às suas aulas ou às aulas de seus colegas, verbalizem suas dificuldades, as possibilidades não realizadas naquele momento, as possíveis soluções etc. Pelas verbalizações, é possível identificar vozes enunciativas que impactam o agir docente, visto que a análise dessas vozes ajuda a compreender as razões do agir docente, o que é de interesse para a formação ao trabalho de ensino.

Em Dantas-Longhi (2013) e Lousada e Dantas-Longhi (2014) vemos a emergência de uma voz diferente das anteriormente identificadas: a voz da fala interior reconstituída (que revela o que o professor teria falado ou pensado no momento da aula visualizada na autoconfrontação) e a voz da fala interior exteriorizada (que é enunciada no momento da autoconfrontação). A identificação dessa voz complementa o estudo de vozes (Lousada, 2006, 2013) que são reveladas na verbalização dos professores enquanto pensam e falam sobre seu trabalho: da didática, da escola, do coletivo de trabalho, dos alunos, todas podendo ser identificadas, de forma mais ou menos explícita, por categorias que evidenciam os mecanismos de inserção de vozes nos textos (Authier-Revuz, 1998; Maingueneau, 2001).

Além dessas vozes enunciativas, identificamos generalizações sobre o trabalho de ensinar o francês como língua estrangeira que podem ter influência no agir docente. Em Lousada (2021, 2023), vimos que as autoconfrontações podem ser o momento de verbalizar experiências vividas anteriormente. Eles podem generalizar maneiras de ensinar que, independentemente do grau de formação de conceitos que demonstrem, indicam formas de agir docente que poderiam influenciar seu agir futuro.

Lousada (2021) traz uma autoconfrontação simples em que uma professora de francês reflete sobre o ensino do vocabulário a partir de uma atividade de compreensão escrita. Por meio de generalizações, chega-se à conclusão de que o maior problema é a utilização posterior do vocabulário e não apenas sua compreensão em um texto. Nesse sentido, a autoconfrontação, possibilitando generalizações construídas a partir de situações práticas, contribui para a formação de professores.

Outra contribuição do Grupo ALTER-AGE-CNPq para as pesquisas sobre o trabalho de ensino está relacionada à identificação de obstáculos didáticos e epistemológicos que permeiam tanto o trabalho docente quanto o ensino de gêneros e as soluções, encontradas individualmente ou por pares, para superá-los.

A questão dos obstáculos, formulada em forma de “dificuldades” na obra aqui homenageada, foi primeiramente abordada por Bachelard (1934/1967) na Formação do espírito científico, e foi retomada posteriormente no âmbito da Didática da Matemática por Brousseau (1998). Apenas tangenciada no livro de Schneuwly e Dolz (2004), foi trazida para discussão no quadro da Didática das línguas pelos pesquisadores genebrinos, em especial Joaquim Dolz (2022) e Tobola-Couchepin (2022).

Em Rocha (2023), Rocha e Lousada (2023) e Lousada (no prelo), vemos que o método da autoconfrontação permite evidenciar os obstáculos didáticos e epistemológicos que exercem influência no agir docente; eles são origem de impedimentos, mas, também, de discussões sobre soluções para enfrentá-los. Rocha (2023), em uma pesquisa sobre o impacto de um dispositivo de formação para o trabalho com gêneros, demonstra a importância do gesto de regulação para ultrapassar os obstáculos, enquanto Lousada (no prelo) evidencia o papel dos obstáculos didáticos e epistemológicos na compreensão do agir docente, que se constrói por seu enfrentamento. Nessa publicação, vemos que, no caso de professores de língua estrangeira em formação inicial, os obstáculos epistemológicos referentes aos saberes sobre a língua francesa criam obstáculos didáticos no ensino da LE. Portanto, essa reflexão também contribui com a formação de professores, apontando caminhos importantes que devem ser considerados em dispositivos de formação, sobretudo inicial.

Por fim, as pesquisas mais recentes do Grupo ALTER-AGE-CNPq têm procurado identificar os dilemas próprios ao métier de professor de francês como língua estrangeira de forma a planejar a formação para o trabalho de ensino. Assim, Lousada (2021; no prelo) identificou dois dilemas: o uso da L1 em aulas de francês como língua estrangeira e a dúvida entre mostrar ou não os erros aos aprendizes. Por sua vez, Silva (2023) também identificou dois dilemas quanto a esse métier: o (des)interesse dos alunos e o uso da língua materna nas aulas de francês, o que coincide com o encontrado por Lousada (2021).

A identificação dos dilemas e sua discussão permitem a despersonalização da dificuldade, ao mostrar que se trata de questões de caráter coletivo e não apenas a de um indivíduo, apontando, assim, uma dimensão transpessoal do trabalho de ensino. Dessa forma, procuramos colaborar na formação para o trabalho de ensino, concebendo formações voltadas para esses dilemas, que podem ser antecipados e discutidos, sabendo que os professores em formação inicial ou continuada poderão encontrá-los futuramente.

As pesquisas aqui sintetizadas permitem avançar na vertente de estudos sobre o trabalho docente, iniciada por Anna Rachel Machado no Grupo ALTER-CNPq-PUC/SP e provocada, entre outras razões, pelas indagações advindas da publicação da obra aqui homenageada.

2.2 PARA A ANÁLISE DE TEXTOS MULTIMODAIS

Os avanços advindos da obra Gêneros textuais e escritos na escola foram inúmeros, ao propor conceitos relativos à Didática das Línguas que podem ser utilizados tanto para as situações práticas de ensino quanto para as pesquisas na área. Na obra, uma temática que apenas recentemente tem recebido destaque no Brasil já tinha sido contemplada: a questão do ensino-aprendizagem de gêneros orais. É no capítulo 6 que Dolz, Schneuwly e Haller (2004) fazem uma descrição de meios não linguísticos da comunicação oral, evidenciando elementos que se mostrariam mais importantes posteriormente, com o recurso aos textos multimodais, muito mais frequentes com o desenvolvimento progressivo da internet e seu impacto na comunicação contemporânea.

No ensino de línguas, inclusive as estrangeiras, a produção de gêneros multimodais começou a ser mais valorizada, o que determinou mudanças nos materiais didáticos, nas produções exigidas dos alunos e na formação docente. Com base nos princípios elencados na obra de Schneuwly e Dolz (2004), pesquisas realizadas no âmbito do Grupo ALTER-AGE-CNPq procuraram explorar os gêneros multimodais no ensino de línguas estrangeiras: o tutorial em vídeo (Sumiya, 2017), o anúncio publicitário, o guia de viagem, a receita (Sumiya, 2024) e a apresentação oral (Sumiya, 2024; Lousada, Sumiya, 2022). Neste artigo destacamos apenas aos estudos de Sumiya (2017, 2024), já que ela propõe dispositivos didáticos que orientam os alunos na produção dos gêneros que mencionamos.

Os dispositivos didáticos observados nessas pesquisas mostraram contribuir para o desenvolvimento de capacidades de linguagem e multissemióticas dos alunos, confirmando a necessidade do ensino de gêneros multimodais e, portanto, a pertinência de construir modelos didáticos e sequências didáticas correspondentes, desses gêneros, na continuidade do trabalho iniciado por Schneuwly e Dolz (2004).

Além dos dispositivos didáticos voltados para o desenvolvimento de capacidades multissemióticas - por meio de gravação em vídeo e outros recursos visuais, que podem ser conferidos na dissertação e tese em questão (Sumiya, 2017, 2024) -, uma grande contribuição foi a reflexão sobre categorias de análise de textos multimodais a partir do modelo do Interacionismo Sociodiscursivo (Bronckart, 1999). Como se sabe, não há categorias advindas do ISD para analisar textos multimodais, o que cria problemas hoje, já que a compreensão e a produção textual na escola estão muito ligadas à multimodalidade. Nessa perspectiva, as pesquisas propuseram, por exemplo, índices de inserção de vozes ou mecanismos que estabelecem a conexão entre as ideias dos textos por meio de imagens, fixas ou móveis. Essas reflexões e iniciativas contribuem para aprofundar discussões iniciadas na obra aqui homenageada.

3 CONTRIBUIÇÕES DO GRUPO ALTER-FIP PARA O TRABALHO DOCENTE

O grupo de pesquisa ALTER-FIP surgiu em 2017 em meio a um contexto que apontava, há muitos anos, a dificuldade de efetuar formação docente no cenário brasileiro. Vale lembrar o forte envolvimento do pesquisador de linguística aplicada, principalmente na década de 1990, nas escolas públicas para realizar pesquisas e efetuar coleta de dados.

Nesse cenário, durante a década de 2000, Anna Rachel Machado, professora e pesquisadora do LAEL da PUC-SP, mergulhava nos aportes sociointeracionistas da linguística e buscava diálogos com outras ciências que pudessem ajudar, inicialmente, a compreender a profissão de professor como trabalho e não como vocação ou sacerdócio, conforme explicita Bronckart (2009); em um segundo momento, para realizar trabalho de formação nas escolas. Vale lembrar a importância, no cenário nacional, do espaço em que isso ocorreu: o LAEL da PUC-SP era um dos polos centrais de pesquisa em formação de professores do Brasil; as pesquisas se pautavam fortemente, na época, na proposta formativa da reflexão na ação (Magalhães, 1998) e contribuíram também na elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais publicados em 1998.

Os resultados de pesquisa que trazemos aqui fazem parte desse segundo momento com referência ao grupo ALTER, ou seja, o de realizar formação docente pautada em aportes que unem as ciências da linguagem às do trabalho, e que foi possível a partir da compreensão de trabalho docente resultante das primeiras pesquisas do grupo (Machado, 2004)6.

O grupo ALTER-FIP tem como projeto norteador realizar estudos sobre a atividade de trabalho do docente de línguas e seus dispositivos didáticos em diferentes contextos de ensino. Compreendemos, pautando-nos em Machado (2010), que a atividade do professor é constituída por diferentes elementos: os contextos variados de ensino e as normas institucionais que os orientam; a formação dos próprios profissionais e os outros (“outrem”) que os constituem e que com eles interagem; e as ferramentas e materiais de ensino utilizados por eles. Investigar essa atividade complexa incide, assim, em estudos que focalizem seus elementos constitutivos. O grupo busca, portanto, desenvolver pesquisas que contemplem o ensino de línguas (português como língua materna, português brasileiro como língua de herança e de origem, e línguas estrangeiras) em formação inicial e/ou continuada de professores.

Dentre as várias pesquisas já realizadas, apresentamos as contribuições de três neste artigo, pelos critérios que seguem. Primeiramente, elas são oriundas de três propostas de formação continuada de professor de língua materna (sem o objetivo inicial de “coleta de dados”). Em segundo lugar, elas tratam a formação continuada em diferentes contextos: Hernandes-Lima (2020) desenvolveu pesquisa com dados oriundos de uma formação continuada da rede estadual (Ensino Fundamental Anos Finais); Amorim (2022) desenvolveu pesquisa oriunda de dados de uma formação com professores municipais (Ensino Fundamental Anos Iniciais) em contexto pandêmico; e Voltero (2024) pesquisou com dados de uma formação com professor da rede estadual referente a atendimento educacional especializado, no contexto de sala de recursos multifuncionais (mais especificamente, professora de Libras do Ensino Fundamental Anos Finais), também em situação pandêmica. Em terceiro lugar, foram pesquisas que conquistaram o espaço formativo: na formação desenvolvida de 2014 a 2016 (Abreu-Tardelli, 2014; Abreu-Tardelli; Silva-Hardmeyer, 2016), de cujos dados desenvolveu-se a pesquisa de Hernandes-Lima (2020), os encontros com os professores realizaram-se fora do espaço escolar, na universidade; já na formação desenvolvida por Amorim (2022), os encontros foram realizados durante a Hora de Trabalho Pedagógico Coletivo (HTPC)7, espaço que já almejávamos conquistar nas formações realizadas pelos pesquisadores do grupo8. Vale destacar o critério de que as atividades tinham como centralidade os gêneros textuais; essa demanda, nesses casos, não foi prevista, mas pensada juntamente com os professores ou a partir de seus conflitos.

Os aportes teórico-metodológicos comum das pesquisas se baseiam na Clínica da Atividade (Clot, 2006, 2010; Clot et al. 2011) e nos procedimentos de análise propostos pelo Interacionismo Sociodiscursivo (ISD) (Bronckart, 1999, 2008) e por Machado e Bronckart (2009). Voltero (2024) também se baseou nas figuras de ação (Bulea, 2010; Bulea-Bronckart; Bronckart, 2017) e Voltero (2024) e Amorim (2022), em conceitos advindos da Didáticas de Línguas: agir didático, gestos didáticos e obstáculos (Schneuwly, 2009, Silva, 2013; Messias; Dolz, 2015; Dolz, 2022, Tobola-Couchepin, 2022). As investigações também se pautam nos estudos ducrotianos para auxiliar na detecção de vozes implícitas ou pressupostas (Ducrot, 1987). Hernandes-Lima (2020) se baseia também na Ergonomia da Atividade Francesa (Amigues, 2004; Faïta, 2004); com vistas a compreender questões relacionadas à saúde no trabalho, a pesquisadora recorreu aos estudos sobre saúde, de Canguilhem (1943/2009), e à Psicopatologia do Trabalho, desenvolvida por Le Guillant (2006).

A tese de Hernandes-Lima (2020), intitulada “A dimensão interpessoal do trabalho do professor: conflitos e poder de (não)agir”, tematizou a dimensão interpessoal do trabalho de uma professora de português atuante na rede pública de ensino do estado de São Paulo e analisou parte dos dados oriundos do Projeto de Ensino e Intervenção “Da formação continuada à formação inicial: uma intervenção no ensino da gramática”, desenvolvidos por Abreu-Tardelli (2014) de 2014 a 2016. Dentre as contribuições dessa investigação, destaca-se o papel do outrem enquanto pré-construído histórico-cultural do métier, e que interfere (in)diretamente no agir da trabalhadora. Além disso, ele é formado por uma vasta rede que transcende a comunidade escolar e assume o caráter de coprotagonista do agir da docente, atuando, inclusive, na amputação do poder de agir da professora. Esta, ao tentar blindar sua saúde psíquica debilitada em razão dos conflitos vivenciados em situação de trabalho, lança mão de alguns mecanismos de defesa para sobreviver no trabalho, tais como medicamentos fortes, a fuga da realidade e a sátira de situações profissionais, principalmente as relacionadas às reuniões com o corpo docente e à gestão escolar. Os efeitos perversos das estratégias utilizadas pela professora, que não teve um coletivo de trabalho que pudesse auxiliá-la na superação de seus conflitos e na promoção de sua saúde, levaram a docente a um caminho de adoecimento profissional.

A partir de seus resultados, a pesquisadora traz duas contribuições importantes não só para o grupo de pesquisa, mas para as pesquisas sobre trabalho docente nos termos aqui apresentados. A primeira é a reconfiguração da representação da atividade docente na sala de aula proposta por Machado (2010); Hernandes-Lima (2020) reelabora a figura, (re)incorporando elementos anteriormente presentes como o percurso que o professor faz para transformar os artefatos em instrumentos, e as setas duplas, que indicam interação mútua dos polos, dando destaque aos conflitos inerentes ao trabalho profissional, simbolizados pelos vetores de resistência, além de ampliar o conceito de outrem, conforme representado na figura 1.

Conforme esclarece Machado (2010), a atividade docente é, por natureza, permeada de conflitos nas interações entre os elementos que a constituem. A segunda contribuição de Hernandes-Lima (2020, p. 74), com base em Clot (2006, 2010), Canguilhem (1945/2009) e Le Guillant (2006), é a definição de conflito como uma

unidade de tensão, fruto da luta de interesses e/ou de posicionamentos antagônicos, de caráter subjetivo e/ou social, que atua como elemento propulsor para a mobilização da ação ou da atividade humana, podendo tanto servir de motor que potencialize o desenvolvimento do indivíduo, ampliando seu poder de agir, como também desempenhar o papel de fator gerador de sofrimento, podendo conduzir o sujeito a um caminho cujo provável fim é o do adoecimento e da amputação de seu poder de agir (Hernandes-Lima, 2020, p. 74).

A segunda pesquisa que trazemos é o trabalho de Amorim (2022): “Conflitos como dimensão da atividade de formação de professores na Hora de Trabalho Pedagógico Coletivo (HTPC) em contexto pandêmico”9. A formação, voltada para a produção textual por meio de gêneros, centrava-se na produção inicial do gênero entrevista jornalística com os alunos, atividade que fez emergir alguns conflitos nos participantes. O estudo possibilitou formalizar o gesto de regulação de conflitos, que é específico do formador de professor (Amorim, Abreu-Tardelli, Silva-Hardmeyer, 2024). A compreensão desse gesto evidencia ao formador que o gesto de planejamento de um curso pode abarcar estratégias (gestos do formador, atividades de formação, questionamentos) para que as tensões emerjam e se tornem instrumento de desenvolvimento para ambos: os professores participantes e o formador.

A pesquisadora retoma o modo como Gagnon et al. (2018) apresentam os gestos profissionais do formador, constituindo um conjunto de estratégias e técnicas recorrentes no trabalho de formação e integrantes da memória do sistema de atividade do formador; eles dizem respeito tanto a uma atividade quanto a um grupo de atividades de formação. A partir da análise dos gestos da formadora em seus dados, Amorim (2022) identifica o gesto específico de regulação de conflitos a partir das intervenções da formadora no momento de implementação da sequência de formação, mais especificamente a partir da realização de uma proposta de produção inicial do gênero entrevista que ocorreria em contexto pandêmico. A análise evidencia que emergem conflitos referentes à dimensão interpessoal, ao contexto pandêmico e ao artefato (atividades impressas e ensino remoto). A fim de refletir sobre as situações apresentadas e os conflitos existentes, a formadora realizou diferentes intervenções que constituem o gesto de regulação dos conflitos.

A terceira pesquisa é a de Voltero (2024). Em sua tese intitulada “O (não) agir de uma professora da sala de recursos multifuncionais: a influência dos elementos do trabalho docente e dos obstáculos no gesto de planejamento”, a autora investiga a influência dos elementos do trabalho docente e dos obstáculos em relação ao gesto de planejamento de uma docente da sala de recursos multifuncionais (SRM), tendo alunos com deficiência auditivas e surdos como público-alvo. Foi constatado que os elementos do trabalho do professor (aspectos pessoais, sócio-históricos, prescrições, outrem: alunos, família, gestão escolar, professores da sala regular; artefatos, instrumentos, ausência do coletivo de trabalho, conflitos), os gestos didáticos e os obstáculos influenciam o agir didático de planejamento da docente da SRM. Em relação aos artefatos e instrumentos, a pesquisadora observa que a professora da SRM utiliza como artefatos a internet e livros como fonte para a construção de atividades na tentativa de adaptação para a edificação de um instrumento (Machado, 2010).

A autora salienta que as propostas de atividade enviadas via Whatsapp, em contexto assíncrono de aula, são construídas a partir do reconhecimento dos obstáculos dos discentes. Na tentativa de criar um ambiente estimulador da aprendizagem no contexto investigado, as atividades são focalizadas em leitura, interpretação e, algumas vezes, privilegiando a escuta de textos. No entanto, a estudiosa explicita que as questões propostas para interpretação textual apresentam características mais subjetivas, e as consignas para ler e escutar não exibem um processo de reflexão da língua e da escuta. Outro aspecto evidenciado na pesquisa de Voltero (2024) é o ensino em uma perspectiva de plurilinguismo no contexto presencial da SRM, isto é, a docente apresenta intervenções para o aprendizado conjunto de língua portuguesa e libras.

A autora também destaca a relação intrínseca entre o trabalho docente em sala de aula e o gesto de planejamento. Evidencia, então, a necessidade de reflexão e verbalização sobre o gesto didático de planejamento na situação de trabalho do professor e na formação docente inicial e continuada, assumindo que o gesto de planejamento é uma faceta inseparável da triangulação didática (professor, aluno e objeto), bem como de outros elementos da situação de trabalho docente: prescrições, outrem (professores da sala regular, gestão escolar, família, outros interiorizados etc.), modos de agir, artefatos e instrumentos. A partir dos resultados de sua análise, a autora reelabora a figura que representa a atividade docente em sala de aula (Figura 1).

Figura 1
A Atividade docente em sala de aula

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir do material de pesquisa desdobrado aqui, podemos afirmar que, após 20 anos da publicação da obra Gêneros orais e escritos na escola, o gênero como objeto de ensino continua sendo uma demanda para formação docente inicial e continuada. Trouxemos aqui, de modo sintético, três conceitos fundamentais: (a) o gesto de regulação de conflitos do formador (Amorim, 2022) e a importância desse gesto nas formações; (b) a intrínseca relação entre o trabalho docente em sala de aula e o gesto de planejamento (Voltero, 2024), compreendido como parte constitutiva do agir docente na sala de aula; e (c) a importância de incluir nos processos formativos a dimensão interpessoal do trabalho docente (Hernandes-Lima, 2020).

Dessa forma, as pesquisas evidenciam a importância, na formação docente, dos gestos de formação considerar as práticas efetivas dos docentes envolvidos, e seus conflitos em todas as dimensões, em especial a interpessoal, tão pouco explorada nas formações.

Em relação ao trabalho e à formação dos professores de francês como língua estrangeira, as pesquisas aqui apresentadas mostraram, por um lado, um avanço na análise das verbalizações dos professores, mostrando como a inserção de vozes e a construção de generalizações sobre aspectos do trabalho de ensino podem trazer luz para a compreensão do agir docente. Mostraram também como a reflexão sobre os obstáculos didáticos e epistemológicos que permeiam o trabalho do professor, assim como o gesto de regulação, permitem melhor compreender o agir docente e buscar soluções para o enfrentamento desses obstáculos e para uma reconstrução do agir futuro. Por outro lado, possibilitaram a identificação de dilemas do métier de professor de francês como língua estrangeira, o que pode contribuir para um melhor planejamento da formação de professores.

Também constatamos, enfim, que o livro de Schneuwly e Dolz (2004) estabeleceu bases sólidas para a didática e para a pesquisa a partir da noção de gênero textual, produzindo frutos até hoje. Duas décadas após sua publicação, muitos estudos se valem de suas ideias originais para gerar reflexões e discussões ancoradas em aspectos da contemporaneidade, tais como a circulação dos gêneros multimodais e o desenvolvimento de categorias específicas de análise a partir do Interacionismo Sociodiscursivo (Bronckart, 1999).

REFERÊNCIAS

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  • 1
    O Grupo ALTER-AGE (Análise de Linguagem, Trabalho Educacional e suas Relações/Aprendizagem, Gêneros textuais e Ensino) foi criado e certificado pelo CNPq e USP em 2011 e tem como líder a Profa. Dra. Eliane Gouvêa Lousada (USP) e como vice-líder a Profa. Dra. Luzia Bueno (USF).
  • 2
    O Grupo ALTER-FIP (Análise de Linguagem, Trabalho Educacional e suas Relações /Formação, Intervenção e Pesquisa) foi criado e certificado pelo CNPq e UNESP em 2017 e tem como líder a Profa. Dra. Lília Santos Abreu-Tardelli e como vice-líder a Profa. Dra. Carla Silva-Hardmeyer (UNIGE).
  • 3
    O grupo ALTER (Análise de Linguagem, Trabalho Educacional e suas Relações) foi criado em 2002 pela Profa. Dra Anna Rachel Machado na PUC-SP e, após seu falecimento, assumido pela Profa. Dra. Eliane Lousada em 2012, na USP.
  • 4
    A Profa. Dra. Maria Cecília Sousa-e-Silva (PUC-SP) trouxe a memória desse ineditismo em fala proferida no III Colóquio Interacional de Clínica da Atividade (III CICA), realizado na USP em 2016.
  • 5
    Esses e outros conceitos tinham sido publicados anteriormente, em francês, em diferentes artigos, por isso a reunião em um volume, com tradução em português, teve enorme impacto no cenário educacional e acadêmico brasileiro.
  • 6
    Com isso, homenageamos aqui também a fundadora do grupo matriz (ALTER) que, dado seu falecimento precoce, não conseguiu elaborar e pôr em prática uma proposta de formação docente tal como gostaria.
  • 7
    Após a deflagração da pandemia da Covid-19, a formação continuou em contexto remoto, mas foi realizada nos primeiros meses durante a HTPC da escola com os professores voluntários em participar.
  • 8
    A formação desenvolvida por Voltero (2024) foi praticamente toda realizada em contexto pandêmico e à distância, não sendo possível a negociação do espaço escolar devido ao ensino remoto.
  • 9
    A pesquisa recebeu o prêmio de melhor tese de Humanidades da UNESP em 2022.

Editado por

  • Editores de Seção:
    Fábio José Rauen, Maria Marta Furlanetto

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    16 Dez 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    24 Jul 2024
  • Aceito
    04 Out 2024
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