Resumo
Discutimos a “semiótica abaixo do radar” empregada por Jair Bolsonaro e seus estrategistas durante sua presidência (2019-2022). Esse tipo de discurso, típico da cultura de celebridades, adapta affordances digitais para distorcer mensagens que são interpretadas de maneira diferente pelo público-alvo (ou refratado) e pelo público geral. Analisamos como enunciados “cômicos” sobre jornalistas mulheres foram interpretados por públicos refratados como apitos de cachorro ou convites a ataques digitais. Metodologicamente, elaboramos duas vinhetas analíticas sobre a violência discursiva direcionada a Patrícia Campos Mello e Gabriela Prioli, jornalistas transformadas em “inimigas” pelo bolsonarismo. Mostramos que enunciados ambíguos foram pragmaticamente reconhecidos como autorização à violência. Concluímos que linguagem indireta, públicos refratados e violência misógina coemergem no populismo digital bolsonarista. Propomos, por fim, retomar os fundamentos etnográficos da análise textual como via crítica para compreender a violência antiestrutural do populismo reacionário.
Palavras-chave:
Bolsonaro; Semiótica abaixo do radar; Digitalização; Públicos refratados
Abstract
We discuss the “under-the-radar semiotics” employed by Jair Bolsonaro and his strategists during his presidency (2019-2022). This type of discourse-typical of celebrity culture-adapts digital affordances to twist messages that are read differently by target (or refracted) audiences and the general public. We analyze how “comic” utterances about female journalists were underregistered and by refracted audiences as dog whistles or invitations to digital attacks. Methodologically, we developed two analytical vignettes focused on discursive violence against Patrícia Campos Mello and Gabriela Prioli, journalists turned into “enemies” by Bolsonarism. We show that ambiguous utterances were pragmatically recognized as authorizations for violence. We conclude that indirect language, refracted audiences, and misogynistic violence co-emerge in Bolsonarist digital populism. Finally, we propose a return to the ethnographic foundations of textual analysis as a critical approach for understanding the anti-structural violence of reactionary populism.
Keywords:
Bolsonaro; Under-the-radar-semiotics; Digitalization; Refracted publics
Resumen
Discutimos la “semiótica bajo el radar” empleada por Jair Bolsonaro y sus estrategas durante su presidencia (2019-2022). Este tipo de discurso, típico de la cultura de celebridades, adapta affordances digitales para transmitir mensajes interpretados de manera diferenciada por el público objetivo (o refractado) y el público general. Analizamos cómo enunciados “cómicos” sobre periodistas mujeres fueron interpretados por públicos refractados como silbatos encubiertos o invitaciones a ataques digitales. Metodológicamente, elaboramos dos viñetas analíticas sobre la violencia discursiva dirigida a Patrícia Campos Mello y Gabriela Prioli, periodistas transformadas en “enemigas” por el bolsonarismo. Mostramos que los enunciados ambiguos fueron pragmáticamente reconocidos como autorizaciones para la violencia. Concluimos que el lenguaje indirecto, los públicos refractados y la violencia misógina coemergen en el populismo digital bolsonarista. Por último, proponemos retomar los fundamentos etnográficos del análisis textual como vía crítica para comprender la violencia antiestructural del populismo reaccionario.
Palabras clave:
Bolsonaro; Semiótica bajo el radar; Digitalización; Públicos refractados
1. INTRODUÇÃO
Este artigo investiga a sistemática de ataques misóginos a jornalistas e influenciadoras digitais promovidos por Jair Bolsonaro durante sua presidência (2019-2022). Mais especificamente, enfocamos a produção de públicos em uma semiótica abaixo do radar, por meio da qual o então presidente se apropriava de affordances1 digitais para incitar ataques digitais em massa contra alvos específicos, frequentemente com o propósito de criar cortinas de fumaça sobre problemas em seu governo. Crystal Abidin (2021) aponta que essa semiótica é típica da cultura de celebridades, que têm adaptado recursos de plataformas digitais para “torcer” mensagens, de forma que estas sejam registradas de forma específica (geralmente como engajamento ou incitação) por públicos escolhidos, e de forma relativamente despercebida por públicos que não são o alvo da mensagem.
Emergindo da interação entre usuários e plataformas digitais, esses públicos-alvo são chamados por Abidin de “públicos refratados” - isto é, públicos que emergem de ações de deflexão do radar, permitindo que influenciadores produzam textos indiretos e abaixo do radar. A partir de etnografia do universo das celebridades do Sudeste Asiático, Abidin (2021, p. 5) sugere que a projeção de públicos refratados é uma estratégia textual-discursiva que permite que influencers “evitem detecção por audiências que não são o alvo, promovam deflexão da atenção, e facilitem a disseminação de mensagens” (ênfase no original). Embora a produção de mensagens indiretas já tenha sido bastante investigada em campos como a pragmática, a linguística textual e sociolinguística (por exemplo, Grice, 1988; Gumperz, 1982; Marcuschi, 2002; Silverstein, 2010; Wierzbicka, 1985), a digitalização confere uma complexidade maior a esses recursos semióticos. Por exemplo, a capacidade que as plataformas digitais têm de gerar engajamento e atenção de usuários (Cesarino, 2020), colapsar distinções como público e privado (boyd, 2010) e algoritmicamente direcionar mensagens a nichos (Blommaert, 2020) seriam menos efetivas, senão impossíveis, em cenários analógicos de produção textual falada, escrita ou multimodal.
Jair Bolsonaro é um político que saltou de deputado federal pouco conhecido (1991-2018) a presidente da república (2018-2022), em grande parte devido à sua exploração da cultura de celebridades digitais. Em um cenário de crise econômica e criminalização da política intensificado pelo impeachment de Dilma Rousseff em 2016 e pela prisão de Lula em 2018, Bolsonaro (e seu time) se aproveitaram de recursos da digitalização para que ele passasse como um homem do “povo”, emergindo como uma opção para públicos descontentes com a política e crescentemente engajados digitalmente (Cesarino, 2020; Mello, 2020a; Silva, 2020a). Assim, Bolsonaro conseguiu transformar sua misoginia, homofobia e ódio às minorias em “brincadeiras”. Ele se projetou como um político do povo contra o sistema - representado por políticos corruptos, oligarcas e corporações de mídia, disfarçados à guisa do politicamente correto e da social democracia.
Este artigo aborda uma das estratégias textuais-discursivas de Bolsonaro no universo digital: a produção de ataques sistemáticos a jornalistas mulheres por meio de enunciados supostamente cômicos registrados por públicos digitais como um apito de cachorro - “uma mensagem política que tem um significado inócuo para um público geral e um significado codificado para um público diferente” (Slotta, 2020, p. 54). Em geral, as jornalistas atacadas haviam incomodado sua agenda extremista produzindo reportagens como as investigações sobre o envolvimento de Flávio Bolsonaro com “rachadinhas” (Dal Piva, 2022). Aparentemente espontâneos e brincalhões, os enunciados de Bolsonaro eram rapidamente lidos por audiências específicas como comandos para ataques misóginos. Frequentemente, os ataques produziam tal engajamento e atenção - não apenas de públicos que atacavam, mas também daqueles que se horrorizavam com a violência, de modo que a entropia informacional resultante criava uma cortina de fumaça ideal para esconder falhas em seu governo.
Metodologicamente, combinamos uma revisão teórica sobre a pragmática da linguagem indireta e a digitalização com uma análise textual-discursiva de dados gerados a partir de interações digitais de grupos de extrema-direita no Brasil. Desde 2018, temos acompanhado a comunicação digital de Jair Bolsonaro, bem como de políticos e ativistas associados à extrema-direita, em diferentes plataformas digitais (ver, por exemplo, Bonfante, 2024; Hahn, 2023a; Silva, 2020a, 2020b). Para este artigo, selecionamos dois episódios emblemáticos que, ao mesmo tempo, ilustram e permitem compreender as nuances da torção de mensagens em forma de “apitos de cachorro” realizada por Bolsonaro e seus assessores. Com isso, construímos duas cenas narrativas - ou dois estudos de caso2 - centradas nos ataques digitais de Bolsonaro à jornalista Patrícia Campos Mello e à advogada e apresentadora Gabriella Prioli, detalhando como a deflexão de mensagens coemerge com públicos de nicho, violência simbólica e entropia informacional.
Embora não tenhamos realizado uma etnografia no sentido tradicional (ou seja, não convivemos com os sujeitos envolvidos nas práticas observadas por um período prolongado), adotamos aqui uma perspectiva etnográfica do significado (Signorini, 2024). Essa abordagem parte do princípio de que a interpretação de uma prática está intrinsecamente ligada aos sentidos que os próprios sujeitos envolvidos atribuem a ela, por exemplo, por meio de seu discurso metapragmático, no qual constroem reflexões sobre o que está acontecendo (Garcez; Bulla; Loder, 2014; Garcez; Schulz, 2015). Nesse sentido, damos centralidade nas seções analíticas ao discurso metapragmático de Campos Mello e Prioli sobre a violência linguística que sofreram.
Quanto à organização do artigo, revisitamos na seção seguinte abordagens textuais-discursivas e sociolinguísticas sobre linguagem indireta e indexicalidade (de nicho), simultaneamente mostrando que a digitalização cria complexidades para as interações analógicas do passado. Depois, discutimos a produção digital de públicos que vem sendo facilitada pelas affordances de plataformas digitais. As seções seguintes discutem as vinhetas analíticas sobre a violência política de gênero sofrida, respectivamente, por Patrícia Campos Mello e Gabriela Prioli. A conclusão sugere um retorno às bases etnográficas da sociolinguística, para lidar com as desestabilizações promovidas pela interseção entre extrema-direita e digitalização.
2. REVISITANDO LINGUAGEM INDIRETA E INDEXICALIDADE
Uma questão fundamental para os estudos da significação é o modo como usuários comunicam mensagens indiretamente. Cursos sobre pragmática das línguas naturais inevitavelmente incluem explicações sobre por que falantes preferem enunciar sentenças indiretas como “está quente aqui”, para sugerir indiretamente que o anfitrião ligue o ar condicionado, ou “você pode me passar o sal?”, uma pergunta sobre habilidade, preferida em lugar da ordem de passar o sal. Algumas respostas a esse fenômeno tendem a ser universalistas, generalizando a pragmática de alguns registros da língua inglesa para as línguas do mundo. Na teoria dos atos de fala, por exemplo, John Searle (1975, p. 76) sugeriu que a tendência de falantes a serem indiretos em tais situações tem a ver com a universalidade da polidez, “a motivação mais proeminente para a linguagem indireta em pedidos”.
Ao explicar por que um falante disse “x” para significar “y”, muitas teorias pragmáticas assumem que a deflexão do sentido literal em favor do sentido pragmático ou indireto segue princípios racionais. Racionalidade tende a ser definida em abordagens modernistas segundo uma visão econômica (Bauman; Briggs, 2003). Asa Kasher (1994, p. 3281), por exemplo, defende que a ação na fala envolve um cálculo racional de menor custo nos meios empregados na enunciação para a obtenção do maior benefício. Um importante modelo conversacional nessa tradição racionalista é o princípio da cooperação de Paul Grice (1988, p. 88), para quem “falar é um tipo de ação intencional, portanto racional”. Grice situa seu princípio racional da cooperação em máximas inspiradas pelo racionalismo de Kant. A suposição básica é a de que interlocutores, ao produzirem e interpretarem linguagem indireta ou sentidos implícitos, partilham de princípios racionais e culturais comuns.
Existe hoje um importante registro etnográfico de críticas a modelos racionalistas de comunicação indireta como os de Grice e Searle (e.g. Briggs, 1997; Rosaldo, 1982; Silva, 2017; Silverstein, 2003). Michael Silverstein (2003, p. 197) critica os “olhos cartesianos” de alguns praticantes da pragmática linguística, atentos a “intenções mentais não observáveis” (p. 201) como chave para entender a disjunção entre o dito e o intencionado3. Com base em sua etnografia com os Ilongot das Filipinas, Rosaldo (1982) questiona a visão universalista de Searle, baseada na ideologia subjetivista de comunicação como leitura de intenções entre mentes individuais. A racionalidade universal que Searle deduz do uso de verbos performativos é, segundo Rosaldo, uma racionalidade local, pensada a partir dos verbos performativos em inglês. Como veremos na seção seguinte, a visão racional do significado de teorias clássicas da pragmática linguística serve de importante base de teorias racionalistas da comunicação na esfera pública, como o influente modelo de Jürgen Habermas (1991).
Nosso objetivo neste ensaio não é criticar teorias analíticas ou racionalistas do significado, cuja relevância para a compreensão da linguagem humana reconhecemos. Propomos, de forma mais modesta, que a noção de indexicalidade - especialmente em sua complexificação nos contextos digitais - oferece um recurso explicativo potente para analisar como políticos e outros agentes se apropriam das affordances da linguagem indireta nas mídias digitais. A noção de indexicalidade, formulada por Charles S. Peirce (1900), refere-se a signos que apontam para seus referentes por contiguidade ou causalidade. Na antropologia linguística, Silverstein (2006, p. 14) define indexicalidade como o modo pelo qual signos linguísticos e não linguísticos orientam os usuários para os contextos em que são usados. Para ele, os índices operam em dois níveis: como pressuposição, quando remetem a normas contextuais pré-existentes, e como criação, ao performar novos posicionamentos e relações sociais (Silverstein, 2003). Um exemplo é o uso do pronome they como forma inclusiva para pessoas trans e não binárias: ao mesmo tempo em que pressupõe uma norma de uso, ele transforma o contexto em uma cena de inclusão e posicionamento político.
O funcionamento a um só tempo contextual e transformador dos signos indexicais é particularmente útil para entendermos a “indexicalidade de nicho” que políticos como Donald Trump e Jair Bolsonaro têm explorado em sua comunicação política. Silverstein (2006, p. 14) sugere que estudar como índices “estabelecem, mantêm e transformam [...] relações entre comunicadores reais” requer a análise das “normas sendo invocadas na prática real”. Como veremos na seção seguinte, Jair Bolsonaro (assim como Donald Trump) são políticos que se utilizam de affordances da digitalização para projetar mensagens em uma esfera pública laminada, nas quais a comunicação política não se dissemina de modo linear, mas sim de forma algorítmica, refratada e setorizada. É o que explicamos na próxima seção.
3. PÚBLICOS: EM REDE, REFRATADOS, ANTIESTRUTURAIS
A crescente digitalização da vida social em suas múltiplas dimensões permitiu a ascensão de atores políticos pouco convencionais. Esse é o caso tanto de movimentos como o Cinco Estrelas na Itália, idealizado por um comediante, Beppe Grillo, e um estrategista de internet, Gianroberto Casaleggio, quanto de indivíduos como Donald Trump, uma celebridade norte-americana que se popularizou em aparições midiáticas como “O Aprendiz”, e Jair Bolsonaro, um político que até as eleições nacionais de 2018 tinha pouca expressão, mas bastante notoriedade por seus enunciados incendiários. Esses atores têm se aproveitado tanto de cenários de crises econômicas e políticas quanto de affordances digitais para avançar sua agenda e chegar ao poder.
Esses atores políticos (e seus estrategistas) perceberam que as plataformas digitais são o lócus fundamental da comunicação política hoje. Uma infinidade de atividades é atualmente realizada no que Blommaert (2019) chamou de nexo online-offline, no qual interações que antes se realizavam em canais analógicos agora tendem a coexistir com tecnologias digitais. Uma mudança fundamental provocada pela digitalização foi a redefinição da própria ideia de “esfera pública”. Segundo o modelo de Habermas (1991, p. 27), “a esfera pública burguesa pode ser concebida, acima de tudo, como uma esfera de pessoas privadas que se reúnem como um público”. Algumas das principais características da esfera pública são deliberação racional (debate por meio do discurso lógico e busca de evidências), acessibilidade (“o acesso é garantido a todos os cidadãos”, Habermas 1974, p. 49) e autonomia (a esfera pública não é nem o Estado nem o governo, podendo criticar e influenciar ambos). Habermas (1974, p. 49) observa ainda que as instituições de mídia de seu tempo, como “jornais e revistas, rádio e televisão, são a mídia da esfera pública”.
Contudo, a mídia corporativa como mediadora da comunicação política entre, de um lado, líderes e, de outro, o povo, tem sido profundamente transformada pela digitalização (Blommaert, 2020; Cesarino, 2022; Maly, 2024). A partir de metadados sobre preferências e perfis demográficos, algoritmos podem direcionar mensagens para públicos específicos, segmentando-os por preferências, padrões de interação, perfis demográficos etc. (Araújo; Araújo, 2024; Maly, 2024). Figuras como Donald Trump têm sido engenhosas em se apropriar da quebra dos processos tradicionais de mediação política. A esfera pública é hoje profundamente fragmentada e segmentada em nichos. Um bom exemplo do emprego de uma semiótica abaixo do radar para segmentar públicos vem da campanha de Trump à presidência em 2016, quando ele, de modo aparentemente enigmático, usou o nome “Sidney Blumenthal” repetidamente em aparições na mídia corporativa, comícios e mídias digitais. James Slotta (2020) comenta que esse nome próprio deixou comentaristas políticos progressistas e o público em geral perplexos quanto à precisão do referente, ao mesmo tempo em que sua “base” interpretava esse nome de modo específico. O sobrenome Blumenthal é tipicamente judeu, um índice étnico que “pode ser inaudível para grande parte do público, mas [que é] indubitavelmente ouvido por antissemitas e supremacistas brancos” (Slotta, 2020, p. 54). Slotta (2020) analisa a cadeia de discursos em que o nome Blumenthal circulou e fora da qual o nome próprio perde muito de sua eficácia referencial. Sidney Blumenthal é um jornalista que trabalhou como assessor de Bill Clinton (durante sua presidência) e, mais tarde, da Secretária de Estado Hillary Clinton. Além disso, canais de extrema-direita associaram Blumenthal à falsa informação de que ele teria sido a fonte de um suposto argumento na pré-campanha de Hillary Clinton à presidência, em 2008, de que Obama não teria nascido nos Estados Unidos.
A tática de Trump de empregar esse nome - dentro de uma organização textual sem muita coesão, lida por alguns como “não presidencial” - é uma estratégia de comunicação abaixo do radar (Abidin, 2021), que setoriza a esfera pública em pelo menos dois segmentos. Ou seja, Trump se dirige ao público em geral usando uma linguagem que, para alguns, soa desleixada, sem coesão, incoerente e populista, mas que é registrada por sua “base” como um chamado à ação (ver Stolee; Caton, 2018). De maneira pragmática e indexical, ele emulou em seu discurso uma característica dos filtros e algoritmos digitais, ou seja, segmentou a “mesma” mensagem em diferentes bolhas. Se o modelo linear e racional proposto por Habermas (1991) pressupunha uma esfera pública estrutural - na qual o político se comunicava com sua base eleitoral a partir da estruturação ou mediação de instituições como partidos políticos, mídia corporativa e outros sistemas especialistas - o modelo digitalizado de agentes como Trump e Bolsonaro é antiestrutural (Cesarino, 2022), isto é, ele rejeita a mediação de instituições de estruturas políticas da esfera pública tradicional, em favor de uma fragmentação amplamente favorecida por modelos de negócios algorítmicos (Araújo; Araújo, 2024; Maly, 2024).
A etnografia realizada por Abidin (2021) no Sudeste Asiático é mais uma vez um bom exemplo aqui. A autora demonstra como microcelebridades e influenciadores da Internet usam mídias digitais para expandir estrategicamente seus negócios, especialmente bifurcando o significado das mensagens. As informantes de Abidin “eram adolescentes e mulheres jovens que vendiam na Internet roupas usadas e recém-importadas por meio de plataformas de blog, cultivando meticulosamente ‘personas íntimas’” (2021, p. 1). Em interações com essas empreendedoras, Abidin percebeu que elas investiam na construção de intimidade e conexão com usuários. Esses vínculos, muitas vezes indiciados por meio de estratégias como “conversa de menina”, as ajudavam a mascarar “uma intenção comercial subjacente - promover mais vendas nos blogs” (p. 2). As influenciadoras digitais conseguiam driblar o radar de diferentes maneiras, por exemplo, “incorporando tutoriais de cosméticos e moda ‘apropriados para o sofrimento’ durante um período de luto nacional, a fim de manter sua produção de conteúdo e evitar punição das autoridades” (p. 5).
Com base em seu trabalho empírico com comunidades de jovens influenciadoras, Abidin (2021, p. 3) define públicos refratados como:
públicos que são contornados pelos usuários. Dessa forma, eles são simultaneamente (1) o espaço construído a partir do desejo de percepções refratadas e (2) a coleção de práticas de subversão ou evasão resultantes de manipulações analógicas e algorítmicas da visão e do acesso. Públicos refratados permitem que usuários e seus conteúdos evitem a detecção por aqueles globos oculares humanos e recursos de visão mecânica que não são o alvo da mensagem; promovam a deflexão por meio de cortinas de fumaça ou iscas de atenção alternativas; e ainda facilitem a disseminação de mensagens de forma expansiva e acessível.
Ao propor esse conceito, Abidin revisita o trabalho pioneiro de danah boyd (2010, p. 39) sobre públicos em rede: “públicos que são reestruturados por tecnologias em rede”. Enquanto boyd teorizou sobre públicos em rede “no início da plataformização da web, quando suas consequências não eram tão claras ou difundidas” (Cesarino, 2022, p. 131), Abidin (2021, p. 3) estudou jovens usuários da internet quando já era possível observar mais sistematicamente “suas adaptações agentivas e inventivas do que as plataformas lhes oferecem”. Com base em etnografia realizada em grupos digitais pró-Bolsonaro, Leticia Cesarino (2022) observa que essa produção refratada de públicos é um efeito da fragmentação da esfera pública causada pelo duplo processo de “digitalização e neoliberalização” da política contemporânea (p. 133). Essas adaptações dos recursos digitais e seu viés antiestrutural são visíveis nas formas como Trump, Bolsonaro e outros populistas digitais têm participado (e muitas vezes coordenado) o uso de redes contra o Estado de Direito e a própria Democracia. Para Cesarino, públicos antiestruturais nascem de uma esfera pública fragmentada (conforme discutimos acima). Eles distorcem os recursos cibernéticos e a própria linguagem para construir visões de mundo paralelas, onde direita e esquerda não são polos políticos na mesma esfera pública, mas realidades distintas em que o Estado de Direito e a própria Democracia (ou seja, o “sistema”) são um inimigo a ser eliminado. Nos estudos de caso a seguir, examinaremos como esses públicos têm legitimado a violência contra a mulher como parte de sua agenda antiestrutural.
4. “ELA QUERIA DAR O FURO”
Os ataques misóginos contra Patrícia Campos Mello, jornalista da Folha de S. Paulo, são o protótipo da estratégia antiestrutural de intimidação online que funciona como censura informal e aglutina apoiadores de Bolsonaro em ataques coordenados contra alvos incômodos. Poucos dias antes do segundo turno das eleições de 2018, Mello publicou no jornal o resultado de uma investigação jornalística sobre empresas de marketing digital que haviam sido contratadas por empresários pró-Bolsonaro (ver Mello, 2018). A reportagem revelou uma prática considerada crime: empresas compravam pacotes de mensagens em massa no WhatsApp com conteúdo negativo e notícias falsas sobre o rival (Fernando Haddad). As empresas de impulsionamento utilizaram bancos de dados de usuários da própria campanha de Bolsonaro e outros ilegalmente comprados. Para fugir dos limites dos grupos de WhatsApp no Brasil (na época, 256 pessoas), as empresas adquiriram chips estrangeiros. A reportagem também revelou que as empresas de impulsionamento usavam algoritmos para segmentar os usuários por grupos demográficos e nível de apoio a Bolsonaro, personalizando assim “de forma mais eficiente o conteúdo a ser enviado” (Mello, 2018).
A matéria de Mello atraiu muita atenção. À esquerda, Fernando Haddad rapidamente contestou a candidatura de Bolsonaro na Justiça. À direita, apoiadores de Bolsonaro lançaram uma campanha para destruir a reputação da jornalista. Enquanto a Polícia Federal iniciava uma investigação sobre a disseminação de notícias falsas, Mello continuou sua investigação sobre o esquema fraudulento, desta vez acompanhando o fluxo de dinheiro. Como Mello (2020a) explica em A máquina do ódio, ela entrevistou Hans River do Nascimento, ex-funcionário da Yacows, uma das empresas de impulsionamento digital contratadas por empresários pró-Bolsonaro. Nascimento estava processando a Yacows por direitos trabalhistas. Ele contou a Mello sobre outras ilegalidades praticadas pelas empresas de impulsionamento, incluindo o uso não autorizado de dados de idosos para comprar chips e a venda de dados de eleitores, segmentados “por número de título eleitoral, perfil social e econômico [...] e dados georreferenciados por estado, cidade e bairro” (p. 55). Com Artur Rodrigues, Mello publicou um novo artigo centrado nas evidências de Nascimento em dezembro de 2018 (Rodrigues; Mello, 2018) e continuou a investigação em 2019 sobre o que parecia ser “uma imensa estrutura de desinformação montada para manipular a opinião pública” (Mello, 2020a, p. 57).
Em 2020, uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) foi aberta para investigar as evidências reunidas por Mello e uma série de outros vestígios do uso de notícias falsas nas eleições, bem como a violência digital que estava se espalhando. Hans Nascimento foi convocado para depor. Em transmissão ao vivo na TV e na internet, Nascimento afirmou falsamente que Mello havia lhe oferecido sexo em troca de informações. Em seu livro, Mello (2020a) contradiz Nascimento em detalhes. Ela explica que, provavelmente, ele usou a entrevista para negociar um acordo melhor em seus processos trabalhistas. Tendo alcançado seus objetivos, ele torceu a história e acusou Mello de querer trocar sexo por informações. Embora Mello e o jornal tenham prontamente publicado evidências de que Hans estava mentindo (Folha de S. Paulo, 2020), a fala incendiária do ex-funcionário da Yacows imediatamente provocou uma onda de ataques misóginos. Uma ilustração multimodal da violência misógina que circulou foi o vídeo “Jornalista da Folha”, publicado inicialmente no Canal Hipócritas, mantido por apoiadores de Bolsonaro no YouTube (Canal Hipócritas, 2020). No vídeo, uma profissional do sexo se inclina contra a janela de um carro. O motorista pergunta à mulher: “eu só preciso de um furo... um furinho pra mim tá bom”. O vídeo explora a polissemia da palavra ‘furo’, que em jargão jornalístico significa uma notícia importante publicada pela primeira vez. Em outros contextos, o uso de ‘furo’ pode levar a conotações sexuais - o que foi amplamente explorado pelo bolsonarismo. No vídeo, a profissional do sexo diz ao cliente: “Eu tenho três, meu amor, escolha o que você quiser”. À medida que o diálogo se desenrola, a mulher percebe que o homem não está interessado em sexo, mas em um furo de reportagem baseado em notícias falsas, e fica indignada: “Olha aqui, eu sou prostituta, seu babaca. Jornalista da Folha? É só o que me faltava. O meu trabalho é um trabalho digno, eu não destruo a vida das pessoas.”
No momento em que escrevemos este artigo, o vídeo já teve mais de 288 mil visualizações. As associações entre Patrícia Campos Mello e profissional do sexo e entre ‘furo’ e ‘buraco’ são alguns dos termos misóginos contra a jornalista que circularam de forma viral nas redes sociais. Mas a força injuriosa desses ataques se intensificaria sete dias após o depoimento de Hans Nascimento, quando o próprio Jair Bolsonaro incitou seu público antiestrutural com um comentário abaixo do radar (ver Coelho, 2020; Mello 2020a, p. 83-84). Em frente ao Palácio da Alvorada, Bolsonaro disse aos apoiadores: “Ela queria um furo. Ela queria dar o furo”. Dada a conotação sexual da expressão, seus apoiadores caíram na gargalhada. Bolsonaro faz uma pausa para deixá-los rir e acrescenta: “A qualquer preço contra mim”.
Mello (2020a) explica detalhadamente a pragmática dos apitos de cachorro de Bolsonaro. As reportagens investigativas de sua equipe e de outros jornalistas já haviam conseguido influenciar a opinião pública, culminando na CPMI das fake news. Além disso, a publicação de provas de que Hans Nascimento havia mentido diminuiu a credibilidade da narrativa de Bolsonaro contra o “sistema”. Bolsonaro, então, engajou-se mais uma vez com seu “lugar de fala jocoso e incendiário” (Silva, 2020b, p. 509), ideal para criar sentimentos de agitação tanto em públicos antiestruturais quanto em social-democratas. Nas palavras de Mello (2020a, p. 85), a piada de Bolsonaro era um apito de cachorro convidando a ataques contra ela: “Ao ampliar a ofensa, o presidente dava sinal verde para milhares de pessoas me ofenderem, legitimava ataques sexistas contra mulheres”. Em seu livro, Mello relata alguns dos ataques verbais dos apoiadores de Bolsonaro. A maioria deles itera ofensas que tornam o corpo da mulher vulnerável a estupro, à morte e a abusos psicológicos (por exemplo, Mello, 2020a, p. 78-86). Alguns dos ataques vieram de membros do parlamento, incluindo Eduardo Bolsonaro, que disse da tribuna da Câmara dos Deputados: “Não duvido que a Sra. Patrícia Campos Mello, jornalista da Folha, possa ter se insinuado sexualmente, como disse o sr. Hans, em troca de informações para tentar prejudicar a campanha do presidente Jair Bolsonaro” (apud Mello, 2020a, p. 83).
Em contraste com o registro austero de Eduardo Bolsonaro, muitas postagens de membros do parlamento e usuários de mídia digital (tanto humanos quanto bots) iconizaram o estilo lúdico de Bolsonaro. André Fernandes, um parlamentar pró-Bolsonaro, por exemplo, postou no Twitter (agora X): “Se você acha que está pior, lembre-se da jornalista da Folha de SP que oferece SEXO em troca de alguma matéria para prejudicar Jair Bolsonaro. Depois de hoje, vai chover falsos informantes pra cima desta senhora. Força, coragem e dedicação Patrícia, você vai precisar! 🤣 👍🏻”. Se não tivesse sido postada por um político conhecido, essa postagem poderia facilmente ter sido gerada por um bot. Cesarino e Nardelli (2021, p. 17) explicam que tanto estudos acadêmicos como textos leigos tendem a ver esse tipo de comportamento de manada - em que “‘humanos pensantes’... agem como ‘robôs reativos’” - como espontâneo. Nessa visão, “[a] dinâmica das mídias sociais emergiria, portanto, do comportamento individual espontâneo em uma espécie de auto-organização gerada, reverberada ou inflada pelos modelos de negócios das plataformas, levando a uma criação destrutiva [...] ou a ameaças à segurança epistêmica” (Cesarino; Nardelli, 2021, p. 17, grifo deles). Embora empiricamente grande parte desse comportamento possa ser de fato espontâneo, estruturalmente a ecologia e a cibernética das mídias digitais favorecem tais operações de guerrilha digital. Além disso, alguns agentes se beneficiam e incentivam essa dinâmica. Os autores sugerem que “um pequeno grupo identificado com uma posição política de extrema-direita e com profundo conhecimento sobre o terreno das mídias sociais pode ser capaz de produzir um ambiente polarizado favorável, que permita induzir ‘humanos pensantes’ a agir como ‘robôs reativos’” (p. 17).
De fato, o jornalismo investigativo descortinou um desses “pequenos grupos”, o chamado “Gabinete do Ódio”, composto por aliados de Bolsonaro que trabalhavam ao lado de seu gabinete oficial, “coordenando uma campanha de desinformação e mirando [...] seus rivais políticos” (Reuters, 2022). Além de Carlos Bolsonaro, o filho do ex-presidente mais envolvido com suas táticas cibernéticas, os membros do Gabinete do Ódio incluíam o supremacista branco Felipe Martins e Leo Índio, primo dos filhos de Bolsonaro (ver Silva 2020b, p. 523-524). As estratégias coordenadas por esse gabinete foram eficazes na administração Bolsonaro.
Globalmente, os efeitos negativos dessas táticas orquestradas contra rivais de populistas reacionários são muitos, incluindo censura e medo. Apesar de sua tenacidade e esforços para mobilizar redes de apoio contra os ataques que recebeu, Mello (2020a, p. 101) confessa: “Toda vez que vou escrever uma reportagem investigativa que envolve o governo, respiro fundo e imagino o que pode vir do outro lado. Será que vão ultrajar pessoas da minha família ou fazer memes obscenos? Penso várias vezes se vale a pena escrever”.
Diante desse cenário de violência simbólica e ameaças disseminadas, é essencial investigar as ações dos sujeitos que buscam conter a “máquina de ódio” de Bolsonaro. Nas considerações finais, voltaremos à batalha jurídica de Mello, que desafiou Bolsonaro por meio de uma ação criminal. Antes disso, porém, analisaremos outro ataque em massa coordenado por Bolsonaro e seu “Gabinete do Ódio”.
5. “TABAJARA FUTEBOL CLUBE DIZ POR QUE NÃO QUER NEYMAR EM SEU TIME”
Em sua análise do uso de gestos e do espetáculo por Donald Trump nas primárias republicanas de 2016, Hall, Goldstein e Ingram (2016:73) dizem que “é difícil criticar um palhaço: estamos ocupados demais rindo”. Os autores se baseiam especificamente na teoria de Bakhtin sobre a carnavalização, segundo a qual “os tolos e palhaços subvertem a ordem social por meio de atos de paródia, zombando da mística dos governantes e provocando a rebelião de seu público” (Hall; Goldstein; Ingram, 2016, p. 73). Todavia, ao dizer que estamos “ocupados demais rindo”, os autores estão simultaneamente apontando para a economia de atenção inerente à aceitação de uma piada: ao mudar o registro do ordinário para o cômico, o artista também está distraindo o público para longe do cotidiano e em direção a um espaço de prazer. Obviamente, rir de uma piada implica aceitar participar de uma “comunidade de prática” - e aqueles que são críticos de Bolsonaro certamente não apreciam suas piadas politicamente incorretas. No entanto, o ponto aqui é precisamente a economia de atenção mobilizada por figuras como Trump e Bolsonaro: enquanto seus seguidores riem, seus críticos ficam horrorizados, em um ciclo que favorece a visibilidade do piadista.
Em nosso segundo estudo de caso, analisamos como o humor machista de Bolsonaro funcionou como uma estratégia semiótica abaixo do radar durante sua campanha para a reeleição em 2022. Como discutimos nas seções teóricas, os comentários de Bolsonaro, ao torcerem as mensagens em diferentes camadas de interpretação, dividem a recepção em pelo menos dois níveis: públicos refratados recebem os enunciados (em geral cômicos) como “comandos para ação” e o público geral os registram como mais um sinal de sua comunicação “pouco presidencial”. Nas mídias digitais, seu alvo em 1º de setembro daquele ano foi a comentarista política e advogada Gabriela Prioli. Conforme a Figura 1, o então presidente repostou um artigo de Veja explicando por que Prioli não o convidou para seu programa de entrevistas na CNN Brasil. Ele também acrescentou o comentário: “Tabajara Futebol Clube diz por que não quer Neymar em seu time”.
O discurso humorístico projetado por Bolsonaro se baseia em diferentes escalas de citacionalidade (Butler, 1997). Primeiramente, o comentário de Bolsonaro cita a manchete de Veja, estabelecendo inicialmente um paralelismo sintático entre a manchete e o texto por ele escrito: “Gabriela Prioli diz por que não quer Bolsonaro em seu programa na CNN” // “Tabajara Futebol Clube diz por que não quer Neymar em seu time”. Do ponto de vista poético (Jakobson, 1987), esse paralelismo sintático também torna as estruturas semânticas paralelas: Gabriela Prioli e o Tabajara Futebol Clube (um clube de futebol imaginário), por exemplo, são posicionados como se fizessem escolhas semelhantes. Esse estilo de substituição sintagmática é típico de práticas de zombaria e bullying (Hahn, 2023b): como em um espelho embaçado, o enunciador parodia seu alvo ao substituir elementos-chave do enunciado original por outros com carga ofensiva.
Em segundo lugar, Bolsonaro cita o humor do Casseta & Planeta, antigo programa humorístico da TV Globo. Formado quase exclusivamente por homens, o grupo foi ativo na década de 1990, quando o sexismo e a homofobia eram ainda mais amplamente legitimados no setor de entretenimento do Brasil. Casseta & Planeta criou o Tabajara Futebol Clube, um time de futebol fictício utilizado para criticar times brasileiros reais. Satirizando dirigentes de futebol incompetentes e disfarçando a misoginia com humor, Tabajara era apresentado como o pior time do mundo; sua mascote era uma vaca; seu patrocinador era o Leite Quente do Papai; e o time jogava na série Z do campeonato brasileiro (que, na verdade, tem quatro divisões, de A a D).
Como todo performativo fere por meio de uma “acumuladora e dissimuladora historicidade da força [ilocucionária]” (Butler, 1997, p. 52), a analogia textual entre Gabriela Prioli e o Tabajara Futebol Clube acumula e dissimula uma história misógina. Prioli é implicitamente posicionada como a pior comentarista política do mundo, e seu desempenho é ao mesmo tempo dependente do poder masculino e sexualizado por ele. Na comparação entre Bolsonaro e Neymar, diferentes camadas de iconicidade se destacam. Primeiro, como um jogador de futebol “empreendedor de si mesmo” (isto é, alguém que, pelo próprio esforço, saiu da pobreza e se tornou milionário), Neymar é visto pelos seguidores de Bolsonaro como um ícone do sucesso neoliberal. Em segundo lugar, o envolvimento de Neymar em escândalos sexuais acrescenta camadas extras a essa iconicidade sexista. O The Wall Street Journal, por exemplo, noticiou que, em 2021, a Nike rompeu seu contrato com Neymar depois que se iniciou um processo de investigação contra o jogador sobre um suposto assédio sexual a uma funcionária da marca de artigos esportivos (Safdar, 2021). Neymar também, em diferentes ocasiões, expressou simpatia por Daniel Alves, jogador que foi condenado por estuprar uma mulher em uma boate em Barcelona em dezembro de 2022 (Sollitto, 2024).
Não devemos perder de vista o fato de que, nesse contexto, o discurso humorístico misógino e sexualizado de Bolsonaro faz parte de uma estratégia semiótica abaixo do radar. Isto é, Bolsonaro explorou a pragmática indireta da linguagem não apenas para efetuar violência simbólica de gênero, mas também para mobilizar públicos refratados que leriam seu enunciado “cômico” como um chamado a ataques (misóginos). Uma evidência disso vem do próprio discurso metapragmático de Prioli em resposta à postagem de Bolsonaro. A pesquisa em antropologia linguística tem demonstrado que uptakes (enunciados formulados em resposta a um enunciado-input) são fundamentais para observar como o input é incorporado a outras práticas, por exemplo, por meio de comentários metapragmáticos que o reproduzem, criticam ou parodiam (Agha, 2007; Bauman; Briggs, 1990). Além disso, os uptakes de profissionais da mídia como Patrícia Campos Mello e Gabriela Prioli são particularmente privilegiados no sentido de que, além de trabalharem na esfera jornalística, ambas foram enredadas na máquina bolsonarista de misoginia, ódio, destruição de caráter e violência simbólica abaixo do radar. Nesse sentido, o comentário metapragmático de Prioli após a postagem de Bolsonaro é ilustrativo. Ela inicia um vídeo em seu perfil no Instagram dizendo (cf. Prioli, 2022):
Ontem à noite, o Presidente da República, em vez de responder sobre a compra de tantos imóveis em dinheiro vivo, sobre as rachadinhas ou sobre a sua aliança com o centrão, decidiu publicar nas suas redes sociais uma matéria sobre mim, fazendo piada. Seu propósito é um só e nós conhecemos bem qual é! O que ele quer é coordenar sua militância num ataque violento contra mim. A convocação, como sempre, covarde, atinge - no meu caso - uma mulher grávida de seis meses de uma menina. E isso me faz lembrar dos reiterados ataques do Bolsonaro às mulheres. Eu recebi centenas de ameaças nas últimas horas e ele sabia que isso aconteceria. Esse era o objetivo dele. Mas isso não me intimida. Isso apenas reforça minha convicção de que o atual presidente faz parte do que existe de pior na humanidade e que ele deve ser varrido de volta para o lugar de onde ele nunca deveria ter saído. Em breve, ele será.
Em seu discurso metapragmático, Prioli classifica a piada aparentemente espontânea de Bolsonaro como uma “cortina de fumaça,” precisamente uma ação semiótica abaixo do radar. Isto é, Bolsonaro teria utilizado a piada para, a um só tempo, desviar a atenção de acusações de corrupção e convocar ataques à apresentadora. Ao dizer que a piada a “faz lembrar dos reiterados ataques do Bolsonaro às mulheres”, Prioli chama a atenção especificamente para a posição misógina do então presidente, que se consolidou em seu mandato especialmente por meio de ataques a alvos femininos na mídia corporativa. Em sua textualidade antiestrutural, Bolsonaro, ao mesmo tempo, coloca em prática sua notória misoginia e questiona a credibilidade da mídia e de seus profissionais. Prioli também é explícita sobre a violência praticada abaixo do radar, na medida em que Bolsonaro manipula a piada para “coordenar sua militância num ataque violento contra [ela]”. Além disso, o alvo que Bolsonaro escolhe para engajar a atenção de seus públicos refratados não era qualquer alvo: na época, Prioli estava grávida. Mais uma vez, um corpo feminino “receb[eu] centenas de ameaças nas últimas horas e ele sabia que isso aconteceria. Esse era o objetivo dele.”
No entanto, a misoginia de Bolsonaro e seu apoio (refratado) à violência contra as mulheres têm limites. Mais adiante em seu comentário metapragmático, Prioli afirma que a “equipe do presidente, entre seus muitos desafios, tem um: o Bolsonaro precisa conquistar o voto feminino para tentar se reeleger. O problema é que as mulheres do Brasil sabem exatamente quem é o Bolsonaro: um homem violento, agressivo e machista”. Ela acrescenta que “não importa o trabalho de imagem que tentam fazer os seus assessores e apoiadores políticos, o ódio do Bolsonaro às mulheres é tão forte, mas tão forte, que ele não consegue manter o script. Das cem últimas postagens na sua timeline do Instagram, apenas duas apresentam imagens de mulheres: as duas são postagens de ataque”. Bolsonaro tinha de fato o desafio de conquistar as eleitoras para ter uma chance de se eleger. Naquele ano, as mulheres representavam 52% do eleitorado, mas pesquisas de opinião mostravam que 50% delas preferiam Lula, contra 41% a favor de Bolsonaro (Barbon, 2022). Lula derrotou Bolsonaro por uma margem estreita de 2% dos votos válidos. Ficou explícito que os votos das mulheres e das minorias raciais, sexuais e econômicas tiveram um papel decisivo nessa eleição.
Cumpre ressaltar que agressões online como as sofridas por Mello e Prioli não se restringem ao mundo digital ou aos gabinetes políticos. Na virada conservadora da política brasileira, “[o] discurso antifeminista e o pânico sexual [tornaram-se] peças fundamentais” (Sivori; Zilli, 2021; ver também Borba, 2022; Correa; Kalil, 2020). A violência política no Brasil tem sido incessantemente perpetrada por meio de uma semântica que gravita em torno de gênero, sexo e raça (Assis; Silva, 2024; Instituto Marielle Franco, 2021; Silva, 2019). Bolsonaro e seus assessores foram engenhosos em usar astutamente o gabinete presidencial. Por meio de piadas misóginas, Bolsonaro deu comandos indiretos, fez apitos de cachorro e mobilizou uma semiótica abaixo do radar a fim de reunir apoiadores antiestruturais e direcioná-los contra seus inimigos. Além disso, o emprego reiterado de uma linguagem violenta contra as mulheres por Bolsonaro o ajudou a torcer a esfera pública também no que diz respeito à aceitabilidade de enunciados antigênero. Com suas “piadas” de “tio do churrasco”, ele ajudou a conferir familiaridade e, consequentemente, um senso de verdade à violência antifeminista. Esse senso de algo íntimo e familiar que se repete, numa esfera pública agora reordenada, é propício à insidiosidade da violência. Afinal, como Butler (1997, p. 52) apropriadamente formulou, a violência linguística nunca tem a ver com originalidade do performativo injurioso; pelo contrário, ela é alimentada pela repetição.
6. CONCLUSÃO
Este ensaio descreveu a coemergência de linguagem indireta, públicos refratados e violência misógina no populismo digital de Bolsonaro. Mais especificamente, analisamos como Bolsonaro e sua equipe incitaram ataques coordenados online a jornalistas e comentaristas políticas indesejáveis, por meio de uma semiótica abaixo do radar (Abidin, 2021). Bolsonaro produziu “piadas” que foram rapidamente lidas por públicos antiestruturais como apitos de cachorro ou como comandos para ataques em massa, lembrando um “comportamento de enxame” (Cesarino; Nardelli, 2021, p. 17). Em nível semântico, os insultos ofereceram a Bolsonaro um certo grau de negação plausível; afinal, ele estaria apenas fazendo uma “piada”. Em linha com uma mecânica populista em que o líder emerge como uma pessoa do “povo” insatisfeita com o “sistema” (Cesarino, 2022; Laclau, 2005; Silva, 2023), a linguagem populista de Bolsonaro estaria apenas ecoando uma memória machista disseminada no Brasil. Como disse Regina Duarte, Bolsonaro seria “um homem dos anos 1950, como [seu] pai, e que faz brincadeiras homofóbicas, mas é da boca pra fora” (apud Veja, 2018). No entanto, no nível pragmático, mostramos que as piadas de Bolsonaro não foram ditas “da boca para fora”. Ao analisar o discurso metapragmático das vítimas e a violência que se seguiu às palavras do presidente, demonstramos que as piadas misóginas e sexualizadas de Bolsonaro foram registradas por seguidores como um sinal verde, ou um apito de cachorro, para ataques digitais às mulheres.
Embora tenhamos enfocado ataques misóginos e sexualizados contra Patrícia Campos Mello e Gabriela Prioli, esses casos não foram os únicos. Ataques semelhantes de Bolsonaro atingiram Talita Fernandes e Marina Dias (Folha de S. Paulo), Vera Magalhães (O Estado de S. Paulo), Constança Rezende (UOL), Miriam Leitão (O Globo) e Juliana Dal Piva (ICL Notícias). A violência discursiva no nexo online-offline (Blommaert, 2019) também não é exclusiva do Brasil. Por exemplo, depois de receber os primeiros ataques de bolsonaristas no Brasil, Patrícia Campos Mello foi para a Índia para cobrir as eleições nacionais em 2019. Lá, ela testemunhou uma “estratégia semelhante de intimidação online de reputações que integra o manual de vários populistas” (Mello, 2020a, p. 100), incluindo a odiosa rotulação de Rana Ayyub, uma jornalista que escreveu uma reportagem sobre a islamofobia de Modi, como “presstitute” - um neologismo sexista que combina press (imprensa) e prostitute (prostituta).
Como já discutimos, a digitalização da vida social e da política está intensificando esse cenário de violência contra mulheres e outras minorias (ver Maly, 2024). O modelo de negócios do capitalismo de plataformas digitais, no qual anúncios comerciais e outros produtos são divididos algoritmicamente em nichos, tem sido utilizado por campanhas políticas em todo o mundo (Blommaert, 2020). Além disso, affordances digitais têm sido habilmente manipuladas por populistas como Trump e Bolsonaro. Ambos foram bem-sucedidos em fragmentar a esfera pública em nichos de “amigos” e “inimigos”, com várias subdivisões (Cesarino, 2022; Slotta, 2020; Stolee; Caton, 2018). Resistir a essa ação insidiosa não é simples. Um dos canais convencionais para coibir a violência digital de Bolsonaro tem sido o sistema judiciário. Patrícia Campos Mello, por exemplo, processou o então presidente em 2020. Em 2022, o Tribunal de Justiça de São Paulo manteve a condenação de Bolsonaro por ofensa à honra de Patrícia. Ela comemorou a decisão em um post no Twitter (agora X), agradecendo ao seu advogado e ao apoio popular que recebeu: “O Tribunal de Justiça de SP decidiu que não é aceitável que um presidente da República ofenda uma jornalista usando insinuações sexuais. Uma vitória para todas nós, mulheres”. No entanto, embora essa decisão tenha sido importante, ela está longe de consertar um problema que é (anti)estrutural (Cesarino; Nardelli, 2021; Cesarino, 2022).
Para encerrar, acreditamos que uma estratégia possível diante da circulação do ódio misógino nas mídias digitais e da instrumentalização dessa dinâmica por populistas reacionários é o que Cesarino (2021, p. 75) chamou de “retorno aos fundamentos”. Diante da crise perene da política contemporânea como resultado dos processos de plataformização e digitalização da economia e da identidade, Cesarino (2021) retornou aos fundamentos da antropologia e da cibernética. Isso lhe permitiu perceber a estratégia antiestrutural de populistas como Bolsonaro precisamente como sistêmica, e não como puramente local ou unidimensional. No que diz respeito à nossa discussão, retornar aos fundamentos pode significar observar a circulação do ódio sob uma perspectiva etnográfica e não racionalista. Em outras palavras, para chegar a respostas que não estejam já prefiguradas de antemão, precisamos reconstruir trajetórias de textos, buscar conexões, lidar com perspectivas êmicas e, especialmente, nos envolver com o discurso metapragmático daqueles que vivem os projetos ideológicos no “chão de fábrica” (ver Silva; Lee, 2024). No caso brasileiro, as instituições políticas têm se tornado cada vez mais isoladas e distantes das aspirações dos movimentos sociais e dos problemas sociais reais. Isso gerou uma insatisfação sistêmica, abrindo caminho para um político “antissistema” como Bolsonaro - e ele não é o único. Pelo menos para o campo dos estudos do texto e do discurso, o duplo movimento de se envolver com os fundamentos da etnografia e analisar crenças (mesmo aquelas que abominamos) que circulam na vida social é um dos vários caminhos a serem seguidos.
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SÍVORI, H.; ZILLI, B. Anti-rights discourse in Brazilian social media: Digital networks, violence and sex politics. Latin American Center on Sexuality and Human Rights, 2021. Disponível em: https://firn.genderit.org/research/anti-rights-discourse-brazilian-social-media-digital-networks-violence-and-sex-politics Acesso em: 11 fev. 2025.
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1
Em linha com Cesarino (2022), preferimos manter o termo affordance em inglês, em vez de utilizar o termo técnico “propiciação”. Eis a explicação da autora: “[a]ffordance, traduzível por propiciação (…), diz respeito a potencialidades de um ambiente que emergem na relação com um organismo: o que ele afford (propicia) que o organismo faça (ou não). Um exemplo simples é a água. Um lago é um ambiente que possui affordances de andabilidade para certas espécies de insetos ou répteis, mas não para humanos. Para nós, ele propicia outras ações: mergulhar, beber água, se refrescar etc.” (p. 99, ênfase da autora).
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2
Empregamos aqui o termo “estudo de caso” no sentido de vinheta analítica (Bell, 2013; Garcez; Schulz, 2015), isto é, como uma cena discursiva emblemática que permite examinar o funcionamento social da linguagem em sua complexidade, sem a pretensão de esgotar a totalidade do fenômeno. Como em outras tradições da antropologia linguística e da sociolinguística crítica, nosso foco está menos na representatividade estatística do “caso” e mais em sua densidade interpretativa como índice de processos sociais mais amplos. A vinheta, no caso deste artigo, funciona como um recorte estratégico que permite ativar debates conceituais e etnográficos sobre violência simbólica, indexicalidade e públicos digitais (ver também Blommaert; Jie, 2020).
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3
Todos os excertos citados de textos consultados em língua estrangeira foram traduzidos por nós.
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Os conjuntos de dados estarão disponíveis mediante solicitação ao(s) autor(es).
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