Resumo
O presente artigo analisa o discurso do jornalismo de extrema-direita que deu apoio ao governo de Jair Bolsonaro na presidência do Brasil. Com base na Análise do Discurso Crítica, considerando tanto sua vertente europeia quanto seus desdobramentos na América Latina, foram identificados e analisados os principais recortes temáticos em seis portais que se autodefinem como jornalismo independente e se posicionam ideologicamente à extrema-direita: Jornal da Cidade Online, Terra Brasil Notícias, Foco do Brasil, Aliados Brasil, Relevante News e Terça Livre. Os resultados indicam a construção de dois principais inimigos discursivos (a esquerda e o Supremo Tribunal Federal), a projeção de uma imagem de líder como “salvador da pátria”, associado a traços de humildade e de coragem, e o enfraquecimento de valores democráticos por meio de diferentes estratégias temáticas, como o questionamento do processo eleitoral.
Palavras-chave:
Análise Crítica do Discurso; Jornalismo digital; Extrema-direita; Desinformação
Abstract
This article analyzes the discourse of far-right journalistic outlets that supported Jair Bolsonaro’s government during his presidency in Brazil. Based on Critical Discourse Analysis, and considering both its European tradition and its developments in Latin America, the study identifies and examines the main thematic frames in six outlets that define themselves as independent journalism and are ideologically aligned with the far right: Jornal da Cidade Online, Terra Brasil Notícias, Foco do Brasil, Aliados Brasil, Relevante News and Terça Livre. The findings indicate the construction of two main discursive enemies (the left and the Supreme Federal Court), the projection of a leader as a “savior of the nation,” associated with traits of humility and courage, and the weakening of democratic values through different thematic strategies, such as questioning the electoral process.
Keywords:
Critical Discourse Analysis; Digital Journalism; Far-Right; Disinformation
Resumen
El presente artículo analiza el discurso de portales periodísticos de extrema derecha que apoyaron el gobierno de Jair Bolsonaro durante su presidencia en Brasil. Con base en el Análisis Crítico del Discurso, considerando tanto su vertiente europea como sus desarrollos en América Latina, fueron identificados y analizados los principales recortes temáticos en seis portales que se autodefinen como periodismo independiente y se posicionan ideológicamente en la extrema derecha brasileña: Jornal da Cidade Online, Terra Brasil Notícias, Foco do Brasil, Aliados Brasil, Relevante News y Terça Livre. Los resultados indican la construcción de dos principales enemigos discursivos (la izquierda y el Supremo Tribunal Federal), la proyección de una imagen de líder como “salvador de la patria”, asociado a rasgos de humildad y de coraje, y el debilitamiento de valores democráticos mediante diferentes estrategias temáticas, como el cuestionamiento del proceso electoral.
Palabras clave:
Análisis crítico de discurso; Periodismo en línea; Extrema derecha; Desinformación
INTRODUÇÃO1
Nas últimas décadas do século XX, a expansão da internet suscitou expectativas de transformação no campo da comunicação, alimentando a esperança de um ecossistema midiático mais democrático e livre dos tradicionais oligopólios da informação. Contudo, essas promessas encontram-se atualmente sob ameaça. Se, por um lado, as chamadas “velhas mídias” perderam parte do monopólio sobre a produção e a circulação de discursos, por outro, surgiram novas formas de controle ainda mais concentradas, baseadas em algoritmos de Big Techs, que determinam o consumo de conteúdos a partir de emoções, como os discursos de ódio digitais (Pardo, 2022a), favorecendo um cenário de desinformação explorado pela extrema-direita (Bastow, 2002).
Nesse contexto, a polêmica e a mobilização de afetos negativos, como a raiva, configuram-se como estratégias eficazes de engajamento nas redes sociais. A construção de dicotomias - frequentemente organizadas em torno da lógica do “nós” versus “eles” - revela-se funcional à lógica econômica dessas plataformas. Nesse sentido, a escolha da expressão rage bait como palavra do ano pelo Dicionário Oxford em 2025 (Ronald, 2025), definida como a produção deliberada de conteúdos destinados a provocar indignação e gerar engajamento, é sintomática desse cenário. O aumento expressivo de seu uso no mesmo período sugere uma crescente percepção, por parte dos usuários, de que são progressivamente capturados por dinâmicas de polarização, impulsionadas pelos algoritmos das mídias sociais e pela circulação de conteúdos orientados à indignação.
Eventos da última década evidenciam a materialidade desses processos. Tanto a invasão ao Capitólio dos Estados Unidos, em 6 de janeiro de 2021, quanto os episódios ocorridos em 8 de janeiro de 2023 no Brasil foram, em grande medida, articulados por redes sociais, indicando como as plataformas digitais podem operar como espaços de mobilização e fortalecimento de grupos de extrema-direita (Cesarino, 2026).
Controladas por corporações transnacionais, as plataformas exercem hoje um poder inédito sobre o acesso à informação, selecionando conteúdos e moldando percepções em favor da hegemonia do capitalismo tardio. Esse cenário articula-se à lógica neoliberal que, conforme Jameson (1991, p. 80), promove uma “expansão prodigiosa do capital para territórios antes não mercantilizados”, incluindo os modos de comunicação e as interações digitalizadas mediadas por afetos. Nessa conjuntura, a razão cede lugar a mecanismos subjetivos de adesão. Como sintetiza Pardo (2022b, p. 151): “não é a razão que comprova uma verdade ou uma mentira, mas tudo se sustenta no que se sente, se prejulga e se acredita”2.
Ao analisar os discursos de portais de viés ultraconservador, este artigo busca compreender como essas práticas discursivas constroem representações, produzem antagonismos e ativam afetos no espaço digital, e, assim, contribuem para a manutenção (ou reconfiguração) das hegemonias políticas em curso3.
Nas seções que se seguem, o artigo apresenta, inicialmente, uma caracterização das posições discursivas e ideológicas da extrema-direita no contexto da década de 2020; em seguida, descreve a abordagem metodológica adotada, fundamentada na Análise de Discurso Crítica (ADC); por fim, procede à análise de portais de notícias de orientação extremista, interpretando os discursos a partir das temáticas mais recorrentes nos textos publicados.
2. A ASCENSÃO DA EXTREMA-DIREITA E SEU SISTEMA DE CRENÇAS COMO GUERRA CULTURAL
A escalada da extrema-direita contemporânea tem se apoiado na construção de um sistema discursivo fundado em valores morais conservadores, narrativas de oposição binária (“nós” contra “eles”) - como se pode ver nos resultados trazidos neste artigo - e no que se convencionou chamar de “guerra cultural” (Wodak, 2021). Como apontam Sperber e Hoare (2025), setores da nova direita passaram a reivindicar Antonio Gramsci como uma espécie de “teórico da direita cultural”, invertendo o sentido crítico de sua obra para legitimar ofensivas simbólicas contra supostos inimigos internos - a exemplo de universidades, movimentos sociais, artistas e jornalistas - acusados de promover uma doutrinação “marxista”.
Essa distorção do pensamento de Gramsci (2011) ocorre por meio da noção de “marxismo cultural”, um conceito difuso e conspiratório que se tornou central na retórica de grupos de extrema-direita em diversos países. Esses grupos alegam que o marxismo cultural representa uma “guerra cultural” conduzida pela esquerda para levar a sociedade ao comunismo, valendo-se de causas sociais e humanitárias para fragilizar os esforços conservadores. Slobodian (2025), ao analisar o manifesto “Agenda 47” da campanha de Donald Trump, em 2024, mostra como essa ideia é usada contra agendas ambientais, sanitárias, educacionais e de gênero. Tal retórica reposiciona a população como vítima de um suposto totalitarismo progressista, reivindicando a restauração da ordem por meio de perseguições simbólicas, expurgos institucionais e exaltação de valores patrióticos. Nesse contexto, a liberdade de expressão é invocada como bandeira e instrumentalizada para legitimar discursos de ódio, negacionismo científico e ataques a direitos fundamentais.
Inspirado nessa agenda, o movimento bolsonarista espelhou-se na experiência estadunidense, marcada pela vitória de Donald Trump em 2016. Wolf (2018) destaca a profunda relação do bolsonarismo com as culture wars norte-americanas. No Brasil, Bolsonaro passou a encarnar essas disputas simbólicas, aplicando aos adversários - especialmente os governos petistas - uma retórica que os constrói como “inimigos da nação”, ameaças existenciais a serem eliminadas. Essa lógica se ancora na crença de uma essência nacional imutável e constantemente sob ataque (Wolf, 2018). Circula um significado, a partir daí, sustentado pela ultradireita, de que existe um país homogêneo, puro e limpo, exacerbando, com isso, nacionalismos e preconceitos; quando não o ódio ao diferente.
De acordo com Charaudeau (2009), é recorrente, no discurso político, a mobilização de uma descrição catastrófica da realidade social, na qual o povo é apresentado como vítima. Nesse enquadramento, podem também ser identificados e nomeados os “culpados”, responsabilizados pela origem dos problemas apresentados. Além disso, outra estratégia consiste na exaltação de valores que, no caso da extrema-direita, tendem a se vincular a uma moral de base religiosa e à ideia de uma pátria “verdadeira”. Por fim, o autor aponta a recorrência da construção de lideranças políticas como figuras providenciais, carismáticas e visionárias, capazes de romper com o passado e de se apresentar como salvadoras da sociedade.
Tais estratégias são amplamente observáveis no campo político em geral; contudo, no âmbito da extrema-direita, articulam-se de modo particular a discursos de ódio que não apenas constroem inimigos, mas também os posicionam como alvos a serem eliminados. É nesse enquadramento que se insere a noção de “guerra cultural”, definida por Rocha (2021, p. 115) como a legitimação de uma visão fundamentalista de mundo, cujo desdobramento implica a rejeição - e, em seu limite, a eliminação - de tudo aquilo que é percebido como diverso.
Desse modo, é instaurada uma dinâmica de polarização que se aproxima da lógica de um confronto permanente, no qual os oponentes são concebidos como adversários a serem suprimidos. Nessa direção, Garriga Zucal e Noel (2010) argumentam que a violência discursiva não deve ser interpretada como expressão de irracionalidade ou de mera barbárie; ao contrário, trata-se de práticas orientadas por racionalidades socialmente produzidas, aprendidas e reiteradas em diferentes contextos.
Rocha (2021) ainda sustenta que a retórica bolsonarista também se organiza segundo uma lógica própria, passível de transmissão e aprendizagem. O autor evidencia o papel de Olavo de Carvalho4 na consolidação de uma midiosfera5, marcada pela difusão de um sistema de crenças que tende a se tornar resistente a questionamentos externos uma vez internalizado. Ex-participantes de seus cursos passaram a produzir conteúdos em plataformas como YouTube e podcasts, estabelecendo circuitos de circulação baseados no compartilhamento sistemático e mútuo. Tal dinâmica contribuiu para ampliar significativamente a visibilidade de perfis individuais e de canais autodenominados independentes - como os analisados neste artigo -, frequentemente envolvidos em ações coordenadas de grande alcance.
3. O JORNALISMO DE EXTREMA-DIREITA PELA PERSPECTIVA DA ANÁLISE DO DISCURSO CRÍTICA
O discurso, na perspectiva da ADC, envolve tanto o uso da linguagem quanto os modos de representação do mundo, os quais sempre são atravessados por relações de poder. Segundo Fairclough (2003), a linguagem faz parte da vida social e sua análise deve ser integrada a contextos institucionais, econômicos e culturais.
A ADC, especialmente pelo que apontam Wodak (1989) e Chouliaraki e Fairclough (1999), é um campo que tem interesse em investigar as práticas jornalísticas dominantes devido ao seu papel na construção e na reprodução de ideologias que favorecem os valores hegemônicos e, ao mesmo tempo, marginalizam grupos subalternos, contribuindo para a manutenção de desigualdades e para a negação da justiça social. Nessa perspectiva, os meios de comunicação dominantes são compreendidos como agentes estruturantes do espaço público, que atuam por meio de estratégias de legitimação, enquadramento e manipulação simbólica. A prática jornalística dominante, nesse contexto, urde o consenso ideológico, operando por um discurso de suposta neutralidade.
Diferentemente desse jornalismo hegemônico, que desenvolve um projeto de dominação sob a aparência da neutralidade, os jornalismos divergentes, sejam eles alinhados à esquerda sejam alinhados à extrema-direita, assumem abertamente um posicionamento político, apresentando-se como oposição direta às mídias tradicionais - como o grupo Globo, no Brasil. À diferença da esquerda, que realmente apresenta um projeto alternativo de práticas de noticiabilidade, a extrema-direita se baseia em falsas oposições ao jornalismo dominante. Ou seja, a extrema-direita caracteriza as mídias hegemônicas (o Grupo Globo, por exemplo) como defensoras de valores “comunistas” ou “esquerdistas”, mas essa posição não se sustenta em qualquer evidência, haja vista a atuação histórica dessas mídias dominantes em favor de projetos da hegemonia capitalista, não raro apoiando causas autoritárias e moralistas (Vasconcelos, 2021).
Há, desse modo, tanto iniciativas jornalísticas de esquerda quanto de extrema-direita que se afirmam contrárias às práticas consolidadas das mídias hegemônicas. Embora em planos ideológicos opostos, elas compartilham a crítica a aspectos do discurso jornalístico dominante. Essas posições divergentes podem estar sinalizando, afirma Bonini (2022b), “tanto perspectivas discursivas não coincidentes quanto perspectivas coincidentes em determinado ponto, por exemplo, em termos da fratura no discurso jornalístico dominante, que se vê aberto ao questionamento de ambos os lados, mesmo de seus pares ideológicos de direita”. Em termos do jornalismo contra-hegemônico de esquerda, Bonini (2022a, p. 543) ainda pontua: “Dois designativos, na atualidade, parecem expressar mais diretamente as fissuras do discurso jornalístico dominante, se colocando como os principais projetos transformadores da prática e contra-hegemônicos [o jornalismo comunitário e o jornalismo independente]”.
Para efeitos do presente artigo, não entendemos que o jornalismo de qualquer matiz ideológica de direita possa ser entendido como independente, haja a vista a relação de pertença (de dependência) que ele contrai com a diretriz econômica capitalista, por exemplo, o apoio mútuo com as grandes corporações capitalistas. A rigor, a extrema-direita no congresso brasileiro vota em todas as pautas do neoliberalismo, apenas apresentando leve discordância em pautas morais.
No espectro político do jornalismo de extrema-direita, observamos a consolidação de conglomerados midiáticos com grande capacidade de alcance e influência, operando em múltiplas plataformas - canais de TV, portais de notícias, canais no YouTube, podcasts e aplicativos de streaming. É o caso da rádio Jovem Pan e tevê Jovem Pan News, cujo faturamento anual gira em torno de 300 milhões de reais, segundo dados de Samor e Barbosa (2019). Também se inserem nesse grupo mídias como a Revista Oeste e o jornal Gazeta do Povo, ambas com ampla circulação nacional e alinhamento declarado a pautas conservadoras.
Também nesse grupo existem mídias que se identificam como “independentes”, operando fora das estruturas empresariais tradicionais. Esses veículos se autorrepresentam como iniciativas de cidadãos comuns, com fins não comerciais e como escolhidos por um poder divino (Weber, 2024b). Tais mídias têm desempenhado papel relevante na ascensão da extrema-direita no Brasil, especialmente no contexto do capitalismo neoliberal. É sobre esse grupo de portais que este artigo se debruça.
Fazem parte desta análise, que adota uma abordagem qualiquantitativa dentro do paradigma interpretativo crítico, seis portais de notícias situados ideologicamente à extrema-direita autodefinidos como portais independentes: Jornal da Cidade Online, Terra Brasil Notícias, Foco do Brasil, Aliados Brasil, Relevante News e Terça Livre.
A escolha desses portais de notícias se deu a partir de uma identificação prévia, durante o período de fevereiro a julho de 2021, das fontes de informação mais recorrentes, em grupos públicos, no Telegram (18 grupos) e no WhatsApp (39 grupos), e a relação delas com a rede de informação bolsonarista à qual estes grupos pertenciam.
Após o acompanhamento durante seis meses, chegou-se aos seis portais mais compartilhados. No momento seguinte, entre setembro de 2021 e fevereiro de 2022, os portais foram monitorados diariamente. A Tabela 1 foi elaborada com o total de gêneros de funcionamento (cf. Bonini, 2011) - notícias, artigo de opinião, entrevista e carta aberta - publicados em cada um dos seis portais selecionados.
Os textos veiculados nesses sites caracterizam-se, em geral, por sua curta extensão e pela elevada frequência de publicação. Predominam títulos de forte apelo, orientados à captura imediata da atenção do leitor, em uma dinâmica que privilegia o volume e a recorrência como estratégias de visibilidade, nas quais a abundância de conteúdos pode ser associada à ideia de constante atualização informativa. Esse funcionamento favorece o consumo contínuo, frequentemente mediado por algoritmos de recomendação, com destaque para vídeos e notícias centrados em temáticas sensacionalistas, conspiratórias e marcadas por polarização negativa. Conforme assinala Empoli (2019), tal lógica se ancora em disposições emocionais da audiência, especialmente ativadas por sentimentos como medo, raiva e desconfiança.
O volume expressivo de publicações no período analisado aponta para um modelo produtivo orientado por uma lógica de alta circulação, baseado em conteúdos breves, simplificados e facilmente compartilháveis em redes sociais. Vale destacar, no entanto, que alguns portais apresentaram interrupções temporárias em suas atividades, com períodos em que ficaram fora do ar por decisão do Supremo Tribunal Federal, o que impactou a regularidade da publicação de notícias.
Baseados no enquadre metodológico proposto por Chouliaraki e Fairclough (1999), consideramos três etapas para o estudo: levantar um problema social marcado pelo aspecto discursivo (o uso do jornalismo pela extrema-direita como parte de uma guerra cultural), analisar a conjuntura (a ascensão da nova extrema-direita) e analisar o discurso com base nos temas selecionados para constar nos portais de notícias. Segundo propõe Fairclough (2003), o discurso pode ser analisado com base em três tipos de significados: representacionais (contornos do mundo), relacionais (tipos de relações sociais) e identificacionais (subjetividades/identidades). Os temas (ou partes do mundo) compõem os elementos discursivos que instauram a primeira categoria de significados.
Para identificar os temas mais recorrentes nos portais analisados, utilizou-se o software NVivo6, no qual foram codificados os 10.563 textos. A partir desse processo, foram estabelecidas 40 categorias temáticas. Para este artigo, a análise concentrou-se nos onze temas de maior frequência.
4. RECORRÊNCIAS TEMÁTICAS NOS PORTAIS DE EXTREMA-DIREITA
A Tabela 2, apresentada na página anterior, apresenta as 40 categorias com realce dos onze temas mais frequentes. São eles: (1) embate com a esquerda; (2) exaltação da direita; (3) eleições; (4) instituições democráticas; (5) saúde; (6) domínio da China; (7) propostas do governo [na época, Bolsonaro]; (8) guerra Ucrânia e Rússia; (9) celebridades; (10) economia; (11) legislação de mídias digitais.
A categoria com maior recorrência de temas foi “embate com a esquerda”. No Quadro 1, mais adiante, apresentamos alguns títulos de notícias dessa categoria, além de exemplos relacionados aos tópicos “domínio da China” e “celebridades” - neste último, pessoas famosas contrárias ao governo à época são representadas como inimigas, enquanto os apoiadores são retratados como corajosos. Essas categorias foram reunidas para exemplificar o discurso da extrema-direita, no qual há uma explicitação do inimigo, frequentemente associado ao narcotráfico, ao aumento da violência, à corrupção e à erotização infantil.
Os exemplos de notícias veiculadas pelos portais analisados evidenciam a construção de um embate discursivo com a esquerda, configurada como inimigo em diferentes dimensões: associada à perpetuação da corrupção (exemplos 1.1); posicionada como adversário dos cristãos e, logo, do Deus judaico-cristão (exemplos 1.4 e 1.5); apresentada como ameaça à família (exemplos 1.6 e 1.7) e à proteção das crianças (exemplo 1.8). Nesse enquadramento, a agressividade, a polêmica e o uso de linguagem de ódio não aparecem como elementos contingentes, mas como recursos estratégicos, integrados a uma lógica de mobilização política e de construção de visibilidade.
Nessa perspectiva, o discurso da extrema-direita opera pela produção reiterada de cenários de possível caos, a partir dos quais se busca legitimar a necessidade de restauração da ordem. A intensificação de medos - por meio da exposição contínua de supostos riscos presentes e futuros, frequentemente associados a ameaças projetadas sobre grupos empobrecidos e marginalizados (exemplos 1.2 e 1.3) - favorece a internalização de demandas por controle, segurança e reforço de dispositivos repressivos.
No interior dessa dinâmica, Jair Bolsonaro assume o lugar de um líder extremista, capaz de condensar identificações coletivas, mobilizando sentimentos de pertencimento por meio da circulação de fórmulas cristalizadas no senso comum. Entre essas formulações, destaca-se a ideia de que haveria apoio popular a soluções autoritárias (como o fechamento do Congresso), ancorada na generalização de que “todo político é corrupto”, efeito discursivo associado a processos de deslegitimação da política institucional.
Os exemplos 1.2 (“Bolsonaro sobre MTST: Marginais depredaram 800 casas”) e 1.3 (“Como a esquerda destruiu a Argentina? Uma lição para o Brasil”), nos quais se discute, de maneira superficial, as medidas de assistência social promovidas pelo governo argentino, ilustram a construção de um ambiente de ódio a medidas de amparo governamental para equidade social. Nesse quadro, estabilizam-se enunciados recorrentes no senso comum, como a restrição moralizante dos direitos humanos e a desqualificação de beneficiários de políticas públicas. Tais formulações dialogam com uma racionalidade meritocrática, na qual o valor do trabalho e do esforço individual é apresentado como condição suficiente para a mobilidade social, desconsiderando condicionantes estruturais.
O tema do “embate com a esquerda” também se evidencia na construção de um discurso que associa a esquerda com a sexualização infantil (exemplos 1.7 e 1.8). Essa pauta de pânico moral da extrema-direita, reproduzida pelos portais, provavelmente ganha ênfase com a influência do trumpismo estadunidense no contexto brasileiro8.
A categoria temática “domínio da China”, igualmente exemplificada no Quadro 1, mobiliza um dos eixos recorrentes do discurso da extrema-direita: a construção de um suposto risco de implementação de um regime comunista no Brasil. Nesse enquadramento, projeta-se um cenário hipotético no qual a China - tomada como metonímia do comunismo - exerce influência hegemônica em escala global, com ênfase na América Latina. No exemplo 2.4, essa narrativa é legitimada pela incorporação da voz de uma jornalista, profissional que estrategicamente é mencionada para tentar buscar um grau de veracidade na informação, Bolsonaro seria o herói, a pessoa capacitada para impedir que esse risco se acerque. Dinâmica semelhante pode ser observada no exemplo 2.2, em que se produz desconfiança em relação a informações provenientes da China. Dessa forma, a ideia de um suposto domínio chinês articula-se à construção de sentidos associados ao medo, ao perigo e à insegurança nas relações internacionais.
Na categoria “celebridades”, o destaque se dá à escolha de determinadas personalidades como tema de notícia, especialmente aquelas vinculadas à oposição ao governo de extrema-direita (exemplos 3.1) ou, em contrapartida, ao apoio explícito ao governo à época (exemplos 3.2). Em 3.1, o ator e diretor Wagner Moura e o cantor Caetano Veloso são tematizados em notícias que os apresentam como derrotados, desmoralizados ou silenciados. No primeiro caso, Moura é descrito como alvo de uma resposta “com voadora”9 por parte de Mario Frias (ator, ex-ministro do governo Bolsonaro); no segundo, Caetano é apresentado como derrotado judicialmente por Marco Feliciano (pastor evangélico e deputado federal conservador). Essa relação explicita a ideia de que artistas opositores devem ser confrontados, desacreditados e, simbolicamente, vencidos, reforçando o enquadramento binário entre “nós” (os defensores da ordem) e “eles” (os inimigos a serem desautorizados).
Em 3.2, por outro lado, destacaram-se celebridades que expressam apoio ao governo de extrema-direita, as quais são representadas como corajosas, lúcidas ou despertas diante do “cenário de manipulação” atribuído à esquerda. No título “Neymar ‘janta’ ex-mulher de Ciro10, a atriz Patrícia Pillar”, há o uso da expressão popular “jantar” que sugere uma vitória argumentativa contundente e humilhante sobre a figura associada à oposição, reforçando a virilidade - característica que a extrema-direita associa ao sexo masculino - e a assertividade atribuídas ao apoiador. Já na notícia “Cantor Netinho se surpreende com Brasília no dia 11 de setembro: ‘Nunca se viu isso no Brasil’”, o artista é representado como alguém impactado positivamente por uma manifestação pró-governo Bolsonaro, o que sugere sua adesão emocional e ideológica ao movimento. Ambas as construções funcionam como estratégias de legitimação da extrema-direita por meio da autoridade simbólica dessas celebridades, devido ao nível de influência dessas pessoas - em contraposição aos opositores, que são ridicularizados, silenciados ou derrotados.
Por fim, no exemplo 3.2, observa-se, ao término do título da notícia, a inserção de uma chamada do tipo “ver o vídeo”. Esse recurso, recorrente nas publicações do portal Jornal da Cidade Online, opera como estratégia de redirecionamento do público para outros canais vinculados ao grupo, como plataformas de compartilhamento de vídeo, a exemplo do YouTube. Práticas semelhantes são adotadas por outros portais, que disponibilizam links para acesso a conteúdos distribuídos em diferentes redes sociais.
Essas múltiplas formas de veiculação se alinham ao contexto da modernidade tardia, em que as informações precisam alcançar o usuário ao longo de todo o dia, em contraste com a lógica anterior dos telejornais tradicionais, organizados em horários fixos. No cenário atual, marcado pela operação ininterrupta de fluxos informacionais, a mídia digital oferece condições para que portais como o Jornal da Cidade Online sustentem uma produção e distribuição permanente de conteúdos, em ritmo acelerado e em larga escala. Tal modelo de funcionamento do ecossistema informacional favorece atores que dependem da atualização constante de conteúdos e da reiterada apresentação de “fatos” e de suas interpretações, como forma de manter visibilidade e engajamento no ambiente digital.
O Quadro 2, mais adiante, apresenta exemplos de notícias das categorias temáticas “exaltação da direita”, “propostas do governo”, “economia” e “eleições”. Essas categorias são exemplificadas em um mesmo quadro, pois revelam um discurso semelhante em torno de certo viés de nacionalismo, além de elogios à economia neoliberal do governo e a exaltação de um herói construído como um homem humilde que busca sua reeleição.
Os temas identificados no Quadro 2 revelam uma configuração discursiva que complementa o cenário de “desordem” apresentado no Quadro 1. Enquanto os enunciados no Quadro 1 responsabilizam a esquerda - identificada como inimiga - pelos males que assolam a sociedade, o Quadro 2 destaca uma narrativa de redenção, centrada na figura de um herói capaz de reverter o caos: o líder de uma equipe econômica que, segundo os portais analisados, estaria obtendo resultados positivos (exemplos 5.1 e 5.2). Essa representação de progresso econômico é sustentada, no exemplo 5.1, pela autoridade do Fundo Monetário Internacional (FMI), e, no 5.2, por um economista alinhado ao governo. A manchete “Políticas econômicas brasileiras são destaque em Relatório Anual do FMI” (4.1) sugere uma avaliação positiva da instituição, historicamente associada ao apoio a medidas neoliberais. Em abril de 2024, por exemplo, o FMI descreveu como “progresso impressionante” os primeiros meses do governo de Javier Milei (Libertad Avanza, extrema-direita), na Argentina (France Press, 2024), apesar do superávit fiscal ter sido alcançado ao custo de um aumento expressivo da pobreza - que cresceu 12% em apenas três meses11. A menção ao FMI, portanto, reforça uma perspectiva que naturaliza os sacrifícios sociais como efeitos colaterais legítimos de políticas neoliberais. Já o exemplo 5.2, “Economista destrói narrativas da velha mídia: ‘A equipe econômica de Bolsonaro é a melhor que já vi no Brasil’”, reproduz a opinião de Eduardo Cavendish, economista e blogueiro que atua na divulgação de conteúdos sobre investimentos, bitcoin e criptomoedas, além de ser um defensor explícito do governo de extrema-direita. Sua fala reforça a estratégia discursiva de legitimar o campo político aliado enquanto se desqualifica o campo “adversário” (velha mídia).
Ainda na categoria “exaltação da direita”, destaca-se a recorrência de uma retórica que mobiliza uma idealização do nacionalismo (item 4.4). Nesse discurso, é construída a imagem de uma “pátria verdadeira”, concebida como capaz de restaurar a ordem no Brasil por meio do esforço de sua liderança - no caso, Jair Bolsonaro. A noção de ordem aí projetada articula-se a uma lógica de viés autoritário, na medida em que o patriotismo é associado à legitimação do poder presidencial para afastar ou neutralizar aqueles que não se alinham ao que é definido como “correto”. O nacionalismo assim configurado assume contornos conservadores, ancorados na valorização da família tradicional e na exaltação de símbolos pátrios idealizados, como o hino nacional e o uso das cores verde e amarelo. Tais manifestações, contudo, operam predominantemente no plano performático, com limitada relação com uma defesa efetiva da soberania nacional.
Integram também essa categoria narrativas que aproximam o líder de uma imagem de aceitação e equivalência popular, atribuindo-lhe traços de simplicidade e proximidade com o cotidiano (item 4.5), como na manchete “Bolsonaro vai de ônibus ao Planalto”. Essa construção discursiva o posiciona simultaneamente como um “homem comum” e como uma figura dotada de coragem, produzindo uma ambivalência que remete ao “grande homem comum” descrito por Adorno (2018 [1951]): uma figura que combina traços de autoridade com elementos de identificação popular.
Cabe ressaltar que tal configuração não é aqui compreendida como expressão de um populismo em sentido amplo, o que implicaria uma generalização analítica capaz de equiparar estratégias discursivas mobilizadas por atores políticos de distintos espectros ideológicos. Trata-se, antes, de um uso específico e situado de recursos de identificação com o “povo”, articulado a uma retórica própria da extrema-direita, cujos efeitos e finalidades não se confundem com outras formas de interpelação política.
A exaltação da figura do líder reaparece, ainda, na categoria “propostas do governo” (exemplos 6.1 a 6.5), na qual Bolsonaro é representado como um agente comprometido com a melhoria das condições de vida da população. Observa-se, nesse conjunto, a recorrência de grupos específicos como destinatários privilegiados dessas ações, entre eles caminhoneiros (6.3), policiais (6.4) e profissionais do setor agronômico (6.5). No exemplo 6.2, a redução do número de desempregados para 12,9 milhões é apresentada como indicador positivo, com destaque para a queda de 1,6 ponto percentual. Entretanto, esse dado é comparado a um período crítico da pandemia, em julho de 2021, quando o contingente alcançava 14,6 milhões (Alvarenga e Silveira, 2021), o que sugere um efeito de enquadramento que favorece a construção de uma leitura otimista, ainda que descontextualizada.
Por fim, o exemplo 7.1 - “‘O único adversário do presidente Jair Bolsonaro nas eleições é a fraude’, afirma jornalista” - ilustra a circulação de um discurso recorrente de deslegitimação do sistema eleitoral brasileiro no âmbito da extrema-direita. A afirmação é atribuída a um jornalista, Gustavo Vitorino, apresentado pelo portal como referência profissional, o que funciona como estratégia de atribuição de credibilidade, embora ele também atue como deputado estadual pelo partido Republicanos. A notícia e o vídeo associado foram posteriormente removidos do portal por atacarem ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A Figura 1 reproduz o conteúdo analisado, que, no mesmo dia de sua publicação (08/10/2021), já registrava 5.224 compartilhamentos (captura realizada às 20h07).
Na notícia apresentada na Figura 1, o comunicador direciona críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF), tanto em relação ao processo eleitoral quanto ao inquérito sobre a interferência de Bolsonaro na Polícia Federal. No entanto, o contexto em que a fala foi proferida não é informado, e o vídeo que poderia esclarecer esse dado - originalmente disponível na página e no canal do YouTube do portal - foi retirado do ar.
O discurso de descrédito das eleições brasileiras não é uma criação desses portais. Eles reproduzem a retórica comum de líderes de extrema-direita, como Bolsonaro fez no discurso de 7 de setembro de 2021, a 125 mil manifestantes na Avenida Paulista, como no seu conhecido anúncio de “Só saio preso, morto ou com vitória. Quero dizer aos canalhas que eu nunca serei preso”. Nesse discurso público realizado no terceiro ano de seu governo, exaltou a desobediência à justiça e alimentou a ideia de falsidade das eleições (Weber, 2024c).
Já foi aqui mencionado que essa retórica copia o modus operandi de Trump em seus ataques, em 2020, ao sistema eleitoral estadunidense (Laborde, 2020), que culminou na invasão ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021. Episódios semelhantes ocorreram também na Venezuela, nas eleições de 2013, quando o Henrique Capriles, candidato de extrema-direita derrotado por Nicolás Maduro, usou a estratégia de contestar os resultados da eleição, negar a legitimidade do sistema eleitoral do país e incentivar os partidários a atos de violência. Isso levou ao assassinato de sete pessoas (seis militantes socialistas que comemoravam a vitória de seu candidato, e um policial); além de mais de sessenta pessoas feridas (Lamrani, 2013).
Desde então, é praticamente certa a contestação de resultados quando a extrema-direita perde. Essa estratégia, amplamente disseminada em redes digitais, encontra terreno fértil nas plataformas das Big Techs, nas quais a ausência de regulação contribui para sua amplificação. Em 2024, pelo menos 22 contas de extrema-direita banidas do Twitter (atual X) por atentarem contra instituições democráticas retornaram à plataforma e, após a reintegração, somaram juntas mais de 300 mil novos seguidores (Motoryn, 2024).
Outro tópico com abordagem frequente pelos portais foi o das “instituições democráticas”, quarto tema de maior recorrência. Nesta categoria, foram incluídas as notícias que tratam do Congresso, do Poder Legislativo, do Supremo Tribunal Federal (STF) além das operações da Polícia Federal, dos inquéritos e das decisões de comissões. Desses sub-tópicos, o Tribunal Superior Federal aparece, nas notícias dos portais, como o mais tematizado, sendo representado como outro inimigo da extrema-direita, conforme exemplificado nos títulos de notícias presentes no Quadro 3.
Com exceção do exemplo 8.7, no qual o ministro André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro, é representado como uma figura equilibrada e comprometida com valores democráticos, os demais textos tendem a associar o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso Nacional (exemplo 8.3) à disseminação de falsidades e à articulação de um suposto complô contra o governo. Essa representação torna-se evidente nos exemplos 8.1 a 8.4. No caso de 8.1, por exemplo, recorre-se à ironia ao designar os ministros do STF como “senhores da verdade”, os quais seriam confrontados e “desmascarados” por Guilherme Fiuza, então apresentador do programa Direto ao Ponto, da Jovem Pan, emissora associada a setores da extrema-direita.
Outro eixo recorrente consiste na tentativa de aproximar o STF e o Congresso de posições vinculadas à esquerda, como ilustram os exemplos 8.2 (“Transformação do STF em partido de esquerda”), 8.3 (“Bandidos se sentem representados pelo Congresso Nacional”) e 8.10 (“A Polícia Federal é do STF”). Essa associação contribui para a construção de um inimigo interno que, segundo esses portais, seria responsável por práticas de censura e corrupção. Tal operação simbólica alimenta uma narrativa de cunho conspiratório que, conforme analisa Rocha (2023), favorece a produção de um quadro de dissonância cognitiva entre eleitores da extrema-direita, caracterizado como “uma realidade paralela, em que delírios coletivos passam a ser tomados como verdades absolutas por milhões de pessoas conectadas nas redes sociais” (Rocha, 2023, p.27).
A figura do STF, por sua vez, é frequentemente personalizada no ministro Alexandre de Moraes (exemplos 8.8 e 8.9), o que contribui para a identificação de um responsável direto. Embora o tribunal tenha adquirido maior visibilidade nos últimos anos, seu funcionamento permanece pouco compreendido por parcelas da população, de modo que a atribuição de um rosto específico tende a potencializar a eficácia da construção do inimigo.
Nos portais analisados, observa-se ainda que a deslegitimação de instituições democráticas - como o STF e o sistema eleitoral - é frequentemente ressignificada como atitude positiva, associada a um ato de coragem e autenticidade. É nesse enquadramento que se inserem, por exemplo, as ações do jornalista Allan dos Santos (exemplo 8.8) e da deputada Carla Zambelli (8.9), apresentadas como formas legítimas de enfrentamento.
Por fim, destaca-se a recorrência de notícias sobre a legislação das mídias digitais, o que indica a centralidade desse tema no conjunto analisado. Contudo, antes de avançar na análise, faz-se necessário um esclarecimento metodológico. Entre as 11 categorias temáticas mais recorrentes identificadas no corpus, duas - “saúde” e “guerra entre Ucrânia e Rússia” - não serão exploradas em profundidade neste artigo. No primeiro caso, as publicações concentram-se na pandemia de Covid-19, com ênfase na divulgação de dados diários sobre mortalidade e nas medidas adotadas pelo governo. Já a categoria relativa ao conflito entre Ucrânia e Rússia apresenta elevada frequência de postagens, especialmente nos dois meses finais do recorte temporal analisado. A exclusão dessas categorias do aprofundamento analítico justifica-se pelo foco deste estudo, centrado na construção discursiva do inimigo pela extrema-direita e na configuração de uma figura heroica responsável por restaurar a ordem diante de um cenário de crise.
No que se refere às propostas de regulação das mídias digitais, observa-se que os portais analisados tendem a enquadrá-las sistematicamente como iniciativas de censura à liberdade de expressão, contribuindo para a produção e o reforço de uma percepção de “ditadura” atribuída ao Supremo Tribunal Federal. Amparando-se no Artigo 5º da Constituição Federal, que assegura a liberdade de expressão, apoiadores e simpatizantes da extrema-direita defendem uma liberdade de imprensa instrumentalizada: usam esse princípio para disseminar informações distorcidas, incitar pânico moral e desacreditar instituições democráticas (Quadro 4).
Conforme analisa Rocha (2023), trata-se da atuação de uma estratégia política que opera pela erosão progressiva das instituições democráticas sob a aparência de conformidade legal. Nesse processo, medidas de caráter autoritário são apresentadas como iniciativas voltadas à proteção, ou até ao aperfeiçoamento, da própria democracia. Essa dinâmica não é inédita: Levitsky e Ziblatt (2018) indicam que, no período posterior à Guerra Fria, muitos regimes democráticos foram enfraquecidos a partir de mecanismos internos, frequentemente legitimados por discursos que reivindicam sua defesa.
No contexto brasileiro, essa configuração tem sido interpretada como indicativa de um rebaixamento da experiência democrática. Nessa direção, Casara (2018) identifica a emergência de um cenário pós-democrático, no qual dispositivos institucionais passam a ser tensionados ou relativizados em função de práticas autoritárias vinculadas a interesses de ordem econômica.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise temática dos portais examinados evidencia a centralidade da construção de dois polos de antagonismo: a esquerda - também retomada como comunismo ao longo dos textos - e o Supremo Tribunal Federal. Nessas narrativas, os adversários são desumanizados e reduzidos a inimigos que precisam ser extintos. A recorrente evocação de um cenário de ameaça, associado à suposta implantação do comunismo, frequentemente vinculada ao Partido dos Trabalhadores e a suas lideranças, opera como mecanismo de legitimação desse enquadramento. Ao mesmo tempo, essa construção sustenta a mobilização de sujeitos identificados como “pessoas de bem”, incentivando práticas de enfrentamento que podem extrapolar o plano discursivo12.
Em contraposição a esse cenário de desordem, os portais analisados projetam a figura de uma liderança de extrema-direita como agente capaz de restaurar a ordem social. Essa figura é construída a partir de uma dupla inscrição: de um lado, enfatizam-se traços de simplicidade e proximidade com o cotidiano - como nos episódios que destacam hábitos considerados ordinários (a exemplo escrever com caneta Bic, ir de ônibus ao Planalto, comer pão com leite condensado); de outro, são atribuídas qualidades como coragem e disposição para o confronto, especialmente no enfrentamento dos inimigos discursivamente construídos.
O projeto de enfraquecimento das instituições democráticas, tal como promovido nos discursos analisados neste artigo, intensifica tendências já presentes em sociedades organizadas sob a lógica neoliberal. Esse processo se materializa na reiterada circulação de temas estratégicos que se consolidam por meio da repetição, como a deslegitimação de processos eleitorais em contextos de derrota política e a mobilização da “liberdade de expressão” como argumento para contestar adversários e resistir a iniciativas de regulação das mídias digitais. Essas dinâmicas se ancoram em discursos de ódio, frequentemente direcionados a políticas de caráter popular, cuja rejeição é previamente alimentada pela lógica do capital. Nesse contexto, a extrema-direita não apenas reativa tais disposições, mas as reconfigura e as amplia no ambiente digital, valendo-se de uma linguagem direta e de fácil circulação, capaz de engajar diferentes segmentos da população.
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Bolsista do CNPq (Processo: 313180/2025-3)
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1
Este artigo está vinculado ao projeto Gênero, hipergênero e mediação nos portais eletrônicos de jornalismo independente e nas novas mídias globais, coordenado por Adair Bonini e desenvolvido na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC/202201601). A realização deste estudo contou com apoio da CAPES, por meio da concessão de bolsa de estudos para intercâmbio acadêmico na Faculdade de Filosofia e Letras, da Universidade de Buenos Aires.
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2
Tradução nossa do original em espanhol: “[…] no es la razón lo que prueba una verdad o una mentira, sino que todo se sostiene en lo que se siente, se prejuzga y se cree”.
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3
O corpus de análise deste artigo retoma parte da tese de doutorado (Weber, 2024a), com acréscimos e releituras. Na tese, foram analisados os sete portais mais compartilhados em grupos públicos bolsonaristas do WhatsApp e do Telegram. Porém, não foi considerado, neste artigo, o portal O Antagonista, pois, embora esteja entre os mais compartilhados, não se alinha estritamente a um viés de extrema-direita, uma vez que sua base político-ideológica é neoliberal (cf. Weber, 2024a).
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4
Escritor brasileiro de extrema-direita, radicado nos EUA e falecido em 2022; criticado pela academia como pseudocientífico, foi referência intelectual do bolsonarismo.
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5
Rocha (2021) caracteriza a midiosfera bolsonarista como um “um habitat da retórica do ódio que conduz a uma perversa pedagogia da desumanização do outro [...] um espaço em que a radicalização do discurso obedece à mesma dinâmica, assegurando curtidas e reencaminhamentos em função da agressividade crescente do emissor” (Rocha, 2021, p. 24-25). Para o autor, a emergência dessa midiosfera foi propiciada pelo alcance do universo digital e, sobretudo, pela onipresença das redes sociais no cotidiano.
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6
O software NVivo, desenvolvido pela Lumivero, é uma ferramenta de análise de dados qualitativos amplamente empregada em vários de campos. O NVivo permite organizar e gerenciar grandes volumes de dados qualitativos, como entrevistas, documentos, artigos, imagens e áudios.
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7
O MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto) é um coletivo brasileiro de luta por moradia e direito à cidade.
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8
Durante a campanha presidencial de 2016 nos Estados Unidos, quando Donald Trump enfrentou Hillary Clinton, ganhou ampla circulação nas redes sociais uma teoria conspiratória que acusava membros do Partido Democrata de liderarem uma suposta rede de pedofilia, operada a partir de estabelecimentos comerciais que serviriam como fachada.
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9
Golpe da arte marcial brasileira capoeira.
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10
Político brasileiro do Partido Democrático Trabalhista (PDT), que foi governador do Ceará e candidato à Presidência da República em diversas eleições.
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11
Entre janeiro e março de 2024, a pobreza na Argentina subiu de 45% para 57%, segundo a Universidade Católica Argentina (UCA). A UNICEF também apontou aumento da pobreza infantil, de 62% para 70%. Assim, o superávit foi obtido por meio do “Plano Motosserra”, com cortes severos e sem novas fontes de receita (Käufer, 2024).
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12
Alguns exemplos de perseguição com violência física contra aliados de esquerda são os assassinatos de Rafael Silva, em 7 de setembro de 2022, em Mato Grosso, por um apoiador de Bolsonaro durante uma discussão política, e de Marcelo Arruda, em 10 de julho de 2022, no Paraná, durante a comemoração de seu aniversário, por um vizinho bolsonarista.
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