Open-access UMA LEITURA DA CONDIÇÃO FEMININA NOS CONTOS “A MULHER ADÚLTERA”E “JONAS OU O ARTISTA NO TRABALHO”, DE CAMUS, A PARTIR DA RELAÇÃO EXISTENCIALISMO/METÁFORA

Resumo

Através de uma leitura da condição feminina nos contos A mulher adúltera e Jonas ou o artista no trabalho, de Albert Camus, foi possível identificar a análise da existência humana, como acesso para a descoberta do ser, realizada por uma mulher: Janine.

Palavras-chave:
Angústia; Angústia essencial heideggeriana; Ser; Nada

Abstract

Through a reading about the female condition in stories A mulher adúltera and Jonas ou o artista no trabalho, by Albert Camus, it was possible to identify the analysis of the human existence, as access for the discovery of the being, carried through by a woman: Janine.

“Cansado de esperanças
persigo realidades.
Quando o vento contrário
aumenta em seus embates,
navego a qualquer vento
em minha ligeira embarcação”.

Nietzsche O conto “A mulher adúltera” é a única obra camusiana que tem como personagem central uma mulher. A obra possui muitas metáforas e a ocorrência do adjetivo “adúltera” no título, já é, em si, metáfora, pois seu sentido pode ser apreendido apenas através da abstração metafórica.

As obras de Camus são, de certo modo, metáforas da metáfora, pois quando o leitor pensa que conseguiu extrair um significado, este significado nada mais parece do que uma metáfora. Sendo assim, o leitor se perde e, para supostamente encontrar-se, precisa agarrar-se a uma outra metáfora. Mas, para que serviria uma obra que não fosse capaz de transportar para além de si mesma?

O texto de Camus não se presentifica passivamente. É preciso saber abordá-lo para que se mostre. Na abordagem textual, o leitor possui a mesma experiência criativa do autor. O mais importante ocorre quando o leitor submete esta experiência a uma análise pensante. É neste palco que os sentimentos se manifestam. Há intercâmbios de pensamentos e a maneira como se posicionam entre si demonstra os meios para a chegada a uma certa conclusão.

Os pensamentos isolados entram em consonância com o horizonte conceitual do leitor, devagar, infiltrando-se até o que lhes é mais oculto. Nesta experiência conceitual, o conceito emerge das sombras da consciência. Por intuição, a essência se mostra, pois foi colocada em relação com o homem: leitor e escritor. E é assim que o texto de Camus se me apresenta. É preciso ter coragem para lê-lo, ou melhor, para se ver lida por ele.

Camus filosofa através de contos perpassados de conceitos existencialistas. O existencialismo é o grito do homem moderno que ficou desiludido com a civilização. Representa uma reação e crítica ao nacionalismo e ao otimismo imanentista do idealismo absoluto. O principal pressuposto entre as correntes existencialistas é que a existência precede a essência. Enfatiza a singularidade da existência no sentido da experiência interior e imediata do homem em face da consciência de si mesmo. Não se trata, simplesmente de viver, mas do viver do homem.

O dinamarquês Sören Kierkegard (1813-1855) é considerado o fundador do existencialismo. Para ele, a vida é um grave problema a resolver, principalmente por causa do mal e do pecado, ainda que a maioria dos homens não possa, não queira, ou não saiba preocupar-se com esse problema.

O pensamento de Nietzsche (1844-1900) é o mais importante na constituição do existencialismo moderno. Para ele, a única coisa que ficou de pé, depois da revolução racional de Kant e do impulso schopenhaueriano da vontade, é o potenciamento vital: todos os valores devem ser apreciados enquanto favorecem o poder, a força. Em 1871, publicou O nascimento da tragédia, obra que considera Sócrates uma pedra lançada no mito da vida grega, que faz com que as engrenagens do desenvolvimento filosófico emperrem. A tragédia grega, segundo Nietzsche, depois de ter atingido sua perfeição pela reconciliação da “embriaguês da forma”, de Dionísio e Apolo, começou a declinar quando foi invadida pelo racionalismo. Apolo é o deus da clareza, da harmonia e da ordem; Dionísio, o deus da exuberância da desordem e da música. Segundo Nietzsche, o apolínio e o dionisíaco, complementares entre si, foram separados pela civilização. A grande tragédia grega apresenta, para ele, a chave para a vida e para a morte, abrindo caminho para o essencial do mundo.

A obra de Nietzsche pretende sacudir-nos, arrancar-nos do torpor, mostrando as maneiras pelas quais negamos cada vez mais a nossa humanidade, submetendo-nos, em vez de nos afirmar.

Na França, destaca-se o maior expoente do existencialismo: Sartre. O filósofo parte do pressuposto de que o homem está só em um universo que lhe é hostil e que este não necessita dele. O homem, ao analisar o mundo humano, sente náusea da sociedade, náusea da natureza, cuja beleza é irrisória, e náusea de si próprio. Compreende que o mundo é o absurdo e só Deus poderia dar-lhe um sentido, mas Deus, segundo Sartre, morreu, e o homem tem que aceitar o absurdo.

Sartre é contra as filosofias evolucionistas da história, principalmente o marxismo, porque negam o fato de que o homem é responsável por suas escolhas. O homem é livre e isso implica uma séria responsabilidade pela sua existência. Sartre chama esta forma de existir de humanismo, mas é o humanismo heróico e vão do homem sozinho em face do nada, em uma existência que é dor, angústia, desespero. É neste humanismo pessimista que se encerra o existencialismo de Sartre.

A maioria dos contos e romances de Camus é, a primeira vista, pessimista. Ele acolhe, do existencialismo, um tipo de pessimismo onde o homem não encontra mais explicação para o que acontece na vida. Camus, aparentemente, não mostra saída, não oferece solução.

Camus, no início, em suas obras (O estrangeiro, 1942, A peste, 1947 e A queda, 1956), compartilhava das idéias de Sartre, e, ao publicar o seu ensaio O homem revoltado, esperava uma crítica razoável de Sartre. Mas, como isso não ocorreu, rompeu com Sartre, e seus pensamentos evoluíram em direções opostas. A aliança entre Camus e Sartre foi abalada em 1956. No ano seguinte, Camus publica A mulher adúltera, e mais cinco contos que integram O exílio e o reino. Altera o estilo, emergindo, no conto em análise, um sentimento de mudança, de transmutação, trágico, que somente é encontrado em Heidegger e Nietzsche.

Nietzsche pretende sacudir-nos, arrancar-nos da inércia e, depois, apresenta-nos o dizer “sim” à vida. Ele é trágico, porque supera o pessimismo, através da palavra “hybrys”, exposta em “A filosofia na Idade trágica dos gregos” (1991, p. 49). “Hibrys”, que em grego quer dizer excesso, orgulho, fogosidade, multiplicidade, mudança, para o filósofo, “é a pedra de toque de todo discípulo de Heráclito” (1991, p. 49). O mundo está cheio de sofrimento, culpa, desilusão sim, mas só para o homem limitado que vê as coisas separadas umas das outras, paradas. Para o homem que vê as coisas em seu conjunto, todos os contrários confluem numa harmonia, invisível ao olhar do homem comum, mas visível, segundo Nietzsche, ao olhar de Heráclito, do artista, do peregrino e da criança, que, rejeitando a segurança ilusória de que se nutrem os homens médios, projeta-se na “hybrys”, na mudança, no desconhecido, pois sua alegria está no mutável e no inconstante.

Camus consegue fazer desta superação, quando, no conto em análise, utiliza o conceito de angústia heideggeriana, que é diferente dos outros filósofos existencialistas. A angústia, para Sartre, é o sentimento que o homem vivencia por ser responsável por suas escolhas. Para Heidegger, entretanto, a experiência da angústia é radicalmente diferente. É uma experiência metafísica de purificação e libertação. Significa passar da vida banal à vida autêntica.

Olhando a palavra “adultério” no dicionário, notamos que significa “infidelidade” conjugal. À primeira vista, quando nos deparamos com o título do conto de Camus, “A mulher adúltera” espera-se o desenrolar de uma história de infidelidade conjugal, mas não é o que vamos encontrar.

Percorrendo a obra de Camus, é no conto “Jonas ou o artista no trabalho”, que o escritor nos dá um significado de adúltera, correspondendo ao sentido de adulterar, de mudar o estatuído, sem que isso represente infidelidade conjugal.

“Jonas ou o artista no trabalho”, parece ser o relato mais autobiográfico de toda a coletânea de Camus. O autor explica que o pai de Jonas separou-se da esposa por motivo de adultério. Nesta obra, segundo a explicação do autor, adultério significaria: “abdicar de seus interesses em prol da humanidade sofredora”. O pai de Jonas não conseguia suportar as boas ações da mulher e, como senhor das virtudes da esposa, disse: “Para mim, basta de ser enganado com os pobres”. Sendo assim, conclui-se que a mulher “adúltera” seria aquela que “se altera”, “que muda”. Será que o pai de Jonas teria se separado de sua esposa, se ela tivesse se alterado em seu ser, só para dedicar-se a ele?

A maioria das mulheres se “altera”, abdica-se de si mesma e de seus interesses em prol de um casamento, sem se perguntar sobre o nexo de um existir simplesmente.

A mãe de Jonas foi adúltera, porque abdicou de seus interesses em prol da humanidade sofredora. Outra mulher, Janine, personagem do conto “A mulher adúltera”, foi chamada de adúltera, porquê? Pela silenciosa perplexidade que indaga o cotidiano sem amor? Louise, a outra esposa, personagem do conto “Jonas ou o artista no trabalho”, abdica-se de seus interesses em prol de seu marido Jonas e não foi chamada de adúltera. Por quê? Existia, simplesmente, desveladamente.

Louise e Janine eram esposas dedicadíssimas ao marido. Louise era tão dedicada, que foi comparada, pelo marido, a uma “formiga”, porque era “trabalhadora”. Dedicou-se à literatura e à pintura, enquanto seu marido se interessava por estas atividades. Louise era mãe, esposa, dona de casa, comprava roupas, costurava, cuidava do fisco, da previdência social, procurava trabalho para o marido, marcava consultas com o dentista, (Jonas falava, em tom de brincadeira, que Louise poderia ir, por ele, ao dentista), cuidava do abastecimento do carro, de reserva de hotéis, carvão para calor do lar, de tudo e sempre, com muita economia.

Louise era um “anjo bom”, segundo Jonas, ou um “tesouro de dedicação”, apesar do julgamento, por ele mesmo, de que ela fazia tudo isso para “matar o tempo”.

Janine não tinha filhos, mas, além de cuidar da casa, “ajudava” Marcel na contabilidade, às vezes, substituía-o na loja e, agora, contrafeita, acompanhava-o pelo deserto.

As mulheres retratadas neste universo camusiano aparecem reclusas, sem saída, vitimadas pelo sujeito masculino. O lugar que a mulher ocupa na sociedade está determinado pelo sentido que adquirem as atividades por elas exercidas, em função do homem. Tanto Marcel como Jonas elogiam suas esposas, por serem boas donas de casas.

Jonas não conseguia pintar, estava sem inspiração, não conseguia nem colocar em ordem a correspondência. Tudo isso fazia com que Louise ficasse cada vez mais sobrecarregada. Pelas palavras de Jonas, Louise “esgotava-se, fazendo tudo o que ele mesmo teria podido fazer em casa” (Camus, p. 112). Segundo Camus, “Jonas trabalhava por prazer, e ela ficava com a parte ruim”. Nota-se que os homens liberam-se das tarefas, e as mulheres têm sido incumbidas de certas ocupações sociais, cujo trabalho desobriga os homens, ou melhor, liberaos da necessidade de cuidarem, não só do próprio corpo, como ainda da casa que habitam. O trabalho da mulher é tomado como atividade instintivamente “natural” e se torna tanto mais invisível, quanto melhor for desempenhado. O eu se anula no cumprimento das tarefas repetitivas do serviço doméstico, fica nelas sepultado. Será que Janine foi considerada “adúltera” por, de certa forma, retornar e reencontrar-se com o seu próprio eu?

A identidade da mulher, fundada no esquecimento de si em benefício do outro, não é simplesmente desfavorável à afirmação do eu feminino. É muito difícil libertar-se deste “sintoma” das tarefas domésticas, pois os homens não as praticam por serem consideradas virtudes femininas. Na metade do século XX, foi essa a grande dificuldade das feministas. Desse modo, puseram-se, paradoxalmente, a lutar pelo direito de fazerem dois trabalhos: os da afirmação profissional e os de casa.

Em relação à mãe de Jonas ser considerada “adúltera”, por “abdicar dos seus interesses em prol da humanidade sofredora”, percebe-se que as mulheres, com o desejo de serem reconhecidas, começaram a apoderar-se dos espaços que lhes eram deixados ou confiados, por serem extensão das tarefas domésticas ou continuação do lar: a filantropia. Era a oportunidade para saírem da esfera que lhes estava consignada. Foi a oportunidade, para saírem de casa moralmente justificadas, em itinerários caridosos, tolerados pela sociedade. Mas foi ao mesmo tempo, a oportunidade de passarem a ter opinião, e a ela se agarraram. E a filantropia, gestão privada do social, foi um espaço primordial.

Em relação à palavra “ajudantes”, anteriormente citada, existe a crença de que as mulheres mais “ajudam” do que trabalham, de que o seu verdadeiro lugar é o lar. Quando elas se aventuram para fora dos limites do lar, são mais convenientes em trabalhos que imitem as tarefas domésticas.

No conto “Jonas ou o artista no trabalho”, Louise “ajudava” o marido, lendo textos, ou tentava “ajudar” o marido na pintura, mas achava que não tinha talento e também faltava-lhe tempo. Janine, do conto “A mulher adúltera”, “ajudava” o marido na contabilidade e na loja. Nota-se a pouca valorização do trabalho da mulher e o seu distanciamento do trabalho dito “produtivo”. Quando Louise dizia que gostaria de saber pintar para “ajudar” mais seu marido, no fundo estava criticando seu próprio trabalho.

Conclui-se que Camus vai revelando ao leitor, através de Louise e de Janine, o modelo cultural do masculino e do feminino de sua classe e do seu tempo.

Louise, do conto “Jonas ou o artista no trabalho”, não passava de uma sombra na vida do marido, da qual eram descritos apenas os afazeres e raramente as características físicas. Nas duas vezes em que era lembrada pelo marido, o motivo era sua face envelhecida e cansada. Ela não tinha voz, não era ouvida, não se queixava, porque se resignava aos fatos do destino. A mulher, acumulada de trabalho é, ao mesmo tempo, degradada por ele. Janine, do conto “A mulher Adúltera”, tinha um bom marido, um “porto seguro”. Iria ampará-la. Seria necessário garantir-se contra a necessidade. Mas Janine questionava: “e do resto, do que não representa a necessidade mais simples, onde se amparar”? Louise nada interroga. Porque será que Janine tinha este nefasto desejo de emancipação? Tinha tudo, um marido, um lar, e, segundo o autor, será que não eram filhos que lhe faltavam? Nota-se, então, que para a mulher, não há outro reconhecimento senão o de dona de casa ou sua vocação maternal, qualidades definidas, não só psiquicamente, mas também socialmente.

Louise gostaria de saber pintar, de possuir inspiração igual a do marido, mas, como dedicar-se a outras tarefas, se ela era reclamada incessantemente pelas necessidades que a rodeavam? A quantidade de tarefas que ocupava todo o seu espírito e o seu próprio “eu”, dispersava e diluía um “eu” que, no ímpeto criador, diminuía de intensidade, dificultando o desenvolver de sua singularidade.

Devotamento, esquecimento de si, humildade. Com estas virtudes, a ruptura seria muito difícil para Louise.

A mãe de Jonas do conto “Jonas ou o artista no trabalho”, segundo Camus, era “adúltera”, e o pai de Jonas desabafava: “basta de ser enganado pelos pobres”(96), pois sua esposa “abdicava de seus interesses em prol da humanidade sofredora”(96) .Louise, a esposa de Jonas, corrompeu-se, por “abdicar” de seus interesses em prol do marido, dos filhos, da família e não foi chamada de adúltera.

Janine, do conto “A mulher adúltera”, foi chamada por Camus de “adúltera”. Ela não abdicou de seus interesses em prol da humanidade sofredora, não “enganou o marido com os pobres” e não praticou adultério ou infidelidade conjugal. Retomando o sentido de adúltera como “mudar”, “alterar”, conclui-se que, no conto “A mulher adúltera”, Camus descreve a experiência da mudança de uma mulher. A mãe de Jonas, do conto “Jonas ou o artista no trabalho” foi adúltera, porque mudou. A filantropia foi uma oportunidade para sair da esfera que lhe era consignada pela civilização, modificando sua percepção de mundo e a idéia que tinha de si. Louise, ainda no mesmo conto, estava tão envolvida com o cotidiano, com os “valores do mundo” (Sartre, 1997, p.84), que não havia possibilidade de deparar-se com o absurdo, por isso Camus não a chama de adúltera. Ela não mudou, não modificou sua percepção de mundo e, segundo Sartre, definia-se a partir do objeto e não dela mesma.

Janine do conto “A mulher adúltera”, mudou, transformou. Ela, conduzida por Camus, ousou fazer um levantamento da vida metódica e remota que levara até então. Teve a coragem de arrancar a máscara, facilitando-lhe assim, ver claramente a luz de um meio-dia pleno de luminosidade. Ela teve a coragem de se permitir participar da experiência do ser, ou melhor, da angústia. Camus diz que Janine foi invadida por uma “angústia sem nome” (29) e, no final do conto, quando o marido pergunta o que aconteceu, ela responde: “nada”. Por estes comentários, podemos chegar à conclusão de que Janine estava passando pela experiência da angústia heideggeriana.

Janine vivencia o universo conceitual heideggeriano do início ao fim. Camus faz a transposição das metáforas, tão cheias de vida e significação, de Heidegger, que veremos logo a seguir. Porém, para que esta transposição seja fecunda, é preciso entender que este filósofo escreve num estilo próprio, paradoxal.

Apesar de ser considerado o mais famoso representante da filosofia existencialista, Heidegger recusou ser incluso entre eles. O filósofo, para Heidegger, deve partir da existência humana, tal como se dá imediatamente à consciência, a fim de elevar-se até o desvelamento do ser em si mesmo, último objetivo de toda reflexão filosófica. Para outros pensadores existencialistas, a reflexão filosófica restringe-se aos limites do próprio homem.

Na terminologia heideggeriana, a existencialidade é constituída pelos atos de apropriação das coisas do mundo, por parte de cada indivíduo. O conceito existencialidade não é empregado no mesmo sentido em que se diz que uma pedra, árvore ou o anjo existem, mas designa a forma como cada homem pessoalmente existe. Existe como ser anterior a si mesmo, antecipando sua existência, desafiando o seu próprio poder de tornar-se aquilo que aspirou. Para Heidegger, somente o homem existe. A pedra é, mas não existe. A árvore é, mas não existe. O anjo é, mas não existe. O homem existir, não quer dizer que só ele é real, e que todos os entes restantes são irreais. Segundo o filósofo (1991, p. 59) “a frase: ‘O homem existe’ significa: o homem é aquele ente cujo ser é assinalado pela in-sistência ex-sistente no desvelamento do ser a partir do ser e no ser”. A essência existencial do homem é a vida, consciente de si mesmo e consciente de seu não-ser final.

A personagem central do conto “A mulher adúltera”, Janine, estava sentindo-se exilada em seu corpo, em seu cotidiano. Estava fazendo uma revisão de sua vida, de sua existência. Procurava uma coisa que sempre estivera com ela, algo além de si mesma. Foi aconselhada a subir até o terraço do forte, para ver o deserto. Foi com o marido. A escadaria era longa. À medida que subiam, “o espaço aumentava, eles se elevaram numa luz cada vez mais vasta” (Camus, 1957, p.24). Segundo Heidegger, essa luz antecipava a experiência do “nada”, pois “Somente na clara noite do nada, a angustia surge” (Heidegger, O que é metafísica, 1991, p.41). O deserto era urgência.

Um vazio se abrira diante de Janine. Seu marido queria descer, não tinha nada para ver, mas Janine não tirava os olhos do horizonte, onde a terra e o céu se uniam.

A seqüência da narrativa enuncia a angústia se apossando de Janine. Era um sentimento individual. Seu marido não estava pronto.

Segundo Heidegger, a vida cotidiana é uma forma de existência inautêntica. A escalada que Janine realizou para olhar o deserto é signo da análise de sua vida inautêntica. Para o filósofo, a existência inautêntica seria constituída por três aspectos fundamentais: a facticidade, a existencialidade e a ruína.

A facticidade consiste no fato de o homem estar imerso num mundo já com história, ou melhor, pronto, sem que sua vontade tenha sido consultada. Encontramos a facticidade no conto, quando Janine faz um levantamento de sua vida.

A existencialidade é a maneira como o homem se apropria das coisas deste mundo. A palavra existência resulta da aglutinação da preposição EK e do verbo SISTERE. Segundo Heidegger, na disposição vocabular, existência é: a) movimento de dentro para fora, expresso na preposição; b) a instalação que delimita um estado e um lugar; c) contínua e dinâmica estruturação.

Em virtude desse conjunto semântico, Heidegger, em Ser e tempo, destinou “existência” para caracterizar a riqueza das relações recíprocas entre este ente que cada um é e sua possibilidade de questionar e o ser, através do homem. Segundo o filósofo, o termo “existencialidade” não é empregado no mesmo sentido em que a pedra ou o carro existe. O homem existe, EKSISTERE, num contínuo projetarse para fora de si mesmo, nas fronteiras do mundo que encontra submerso. A metafísica heideggeriana é do homem no mundo, do mundo e com o mundo. Quando Janine subiu a escada e ficou apoiada no parapeito, sentiu que “alguma coisa até aquele presente dia desconhecida e que, no entanto, sempre fizera falta, estava à sua espera” (25) era, segundo Heidegger, a aceitação do dom da existência, a responsabilidade de assumir este dom. Era um anúncio da possibilidade do “nada”.

Na terceira análise, a ruína seria a não aceitação de assumir este dom que o homem possui, que é a existência. Seria a impossibilidade de questionar, de não ser presença, de alienar-se de sua principal tarefa de tornar-se ele mesmo..

Segundo Sartre (1997, p. 84), ruína seria o mesmo que “captar os valores do mundo a partir do mundo”, desviando de seus projetos em favor das preocupações cotidianas. Louise, do conto “Jonas ou o artista no trabalho”, vivenciava este sentimento, pois dedicando a sua vida em prol de seu marido e sua família, não existia por ela mesma, exilava-se interiormente, não tinha como albergar as suas contradições e sonhos. Janine, do conto “A mulher adúltera”, teve consciência deste sentimento em sua vida , quando refletiu sobre a liberdade de alguns homens que caminhavam no deserto, “sem nada possuir, mas sem servir a ninguém” (26) e apesar de serem ”senhores miseráveis e livres de um estranho reino (26) , pareciam possuir uma força que impulsionava os seus próprios destinos. Janine não sabia porque esta idéia a enchia de uma “tristeza tão suave e tão vasta que lhe fechava os olhos” (26). Segundo Heidegger, Janine teve a consciência da ruína, pois tinha vivenciado o sentimento de tédio, que é anterior à angústia, e

“como névoa silenciosa, desliza para cá e para lá nos abismos da existência, nivelando todas as coisas, os homens e a gente mesmo com elas, numa estranha indiferença” (Heidegger, 1991, p.38).

Imersa neste sentimento, parecia que o mundo tinha acabado para Janine e, a partir deste instante, ninguém envelheceria, nem morreria.

Através dos conceitos de Heidegger, que utiliza termos carregados de ambivalência sob o ponto de vista semântico, Camus nos mostra que Janine estava sendo invadida pela angústia, pois para ela, todas as coisas do mundo apareciam desprovidas de qualquer importância.

Na configuração do conto em análise, vão se estruturando três estados de angústia: o sentimento de angústia perante a liberdade, de Sartre, angústia como “sentimento”, que, segundo Heidegger, confunde-se com quaisquer sentimentos no diversos estados da ânimo vistos psicologicamente e a angústia essencial heideggeriana, que vai, pouco a pouco, ganhando forma, até sua enunciação com maior vigor, no fim do conto.

A angústia como “sentimento”, para Heidegger, é a angústia que não assume a disposição de humor que vem da voz do ser. Pode ser confundida com qualquer estado de ânimo psicológico que deprime ou eleva o humor. Heidegger diria que, todas as vezes que Janine se angustiava, salvo a experiência no final do conto, essas angústias eram somente um estado de ânimo, um sentimento. Segundo o filósofo, pode-se nomeá-los, descrevê-los como vários “tipos” e “antitipos” de “sentimentos”, como fez Sartre, mas só a angústia essencial possibilita a experiência do ser.

Camus nos apresenta, na obra “A mulher adúltera”, a angústia essencial heideggeriana. Entretanto, no decorrer do enredo, identificam-se, ainda, dois tipos de angústia que foram descritos por Sartre: “angústia ante o passado” e “angústia ante o futuro”.

A angústia, segundo Sartre, é “a captação reflexiva da liberdade por ela mesma” (1997, p. 84) e não através de valores. Para Sartre, a liberdade “é o único fundamento dos valores e nada, absolutamente nada, justifica minha adoção dessa ou daquela escala de valores” (1997, p. 83).

O homem vive protegido por seus valores, cria leis sociais, tabus e os segue de tal forma como se fossem eternos, pré-existentes. As reflexões acima fazem-nos lembrar a afirmação de Nietzsche:

“O homem é o criador de valores, mas esquece sua própria criação e vê, neles, algo de “transcendente”, de “eterno” e “verdadeiro”, quando os valores não são mais do que algo “humano, demasiado humano” (1991, p. 9).

Quando o homem descobre que é responsável pela existência de valores, cujas exigências irão determinar sua ação, e que não tem qualquer valor a que recorrer contra o fato de que é ele mesmo que os mantém e os cria, angustia-se. Segundo Sartre, angustia-se, porque compreende que é ele mesmo quem decide.

Sartre alerta para não se confundir o medo com a angústia. Segundo o filósofo, o medo é apreensão irrefletida do transcendente, e a angústia é a apreensão reflexiva de si. Porém, segundo ele (1997, p. 73) “uma nasce da destruição da outra”.

Segundo Camus, Janine, durante muito tempo fugia do medo. Para Sartre, se Janine fugia do medo, ela o conhecia, e se o conhecia, refletia sobre ele. Sendo assim, ela não estava sentindo medo, mas sim angústia, pois quando começava a prever ações contra o medo, como casar, ficar com alguém de que não gostava muito, morar na loja, viajar para a praia, significava que a angústia iria se aproximar. No caso acima exemplificado, Janine estava, segundo Sartre, com “angústia frente ao futuro”. Para evitar o medo, que a entregaria a um devir transcendente, rigorosamente determinado, como foi talvez sua vida até aquele momento, refugiava-se na reflexão que proporcionaria um devir indeterminado. Este devir poderia ser as projeções sobre mergulhar, ou não, no que estaria, ou não, para ocorrer: “angústia essencial”.

A conduta de Janine será de um eu que ainda não o é. O eu que ela é depende do eu que ela ainda não é. Janine capta esta dependência e fica indecisa. Pensa nas possibilidades futuras, no que acontecerá com ela, no que fará da vida sozinha. Realiza, simbolicamente, a sua conduta futura, surgindo motivos para a realização. Mas como saber se estas possibilidades são eficazes? Não é possível saber. E, assim, Janine fica indecisa. Há 25 anos atrás, a indecisão trouxe uma decisão: casou-se. E agora, perante a “angústia essencial”, qual era a decisão? Convém lembrar, que a “angústia essencial” só será “angústia essencial” depois que ela ocorrer, que ouvir a voz do ser, ou, então, será somente um “sentimento” psicológico.

Janine hesitara entre:

“a vida livre e o casamento”, ontem mesmo que pensava, com angústia, no dia em que, talvez envelheceria sozinha” (p.13).

Há vinte e cinco anos atrás, Janine ficou angustiada frente a sua decisão de casar ou não casar, mas pensou que poderia envelhecer sozinha. Ela constituiu um conjunto de motivos para a escolha que fizera: casar. Mas, ao mesmo tempo, captou esses motivos como ineficazes. Sabe que são desculpas para camuflar sua escolha, pois a outra opção também parecia possível.

Pode-se pensar, também, que há vinte e cinco anos atrás, quando escolheu o casamento, talvez não tivesse se angustiado, e sim, segundo Sartre, captado “os valores do mundo a partir do mundo” (1997, p.84). Ou ter-se-ia definido a partir do objeto, sentimento que o filósofo propõe como “espírito de seriedade”, que é o oposto da angústia. De acordo com o conto “A mulher adúltera”, Janine há vinte e cinco anos atrás, teria optado pelo “espírito de seriedade”. Sua escolha teve como parâmetro os valores da sociedade, do mundo, tendo, como impossíveis os seus projetos.

Janine , recordando sobre sua escolha realizada há 25 anos atrás, em seu dizer: “parecia ontem que hesitara entre a vida livre e o casamento” (13). Há vinte e cinco anos atrás ela optara pelo casamento, e agora esta resolução estava aí, ou melhor, ela sempre estava aí e, na dúvida Janine recorria a ela em busca de ajuda. Para Sartre este sentimento é a “angústia ante o passado”. Não querer a liberdade, optar pelo casamento foi a sua decisão eficaz, mas segundo o filósofo, “apreende na angústia exatamente sua total ineficácia” (Sartre, 1997, p.77).

A resolução passada, “opção pelo casamento e não à liberdade”, achava-se aí, sem dúvida, porém, congelada, ineficiente e, segundo Sartre, ultrapassada pelo próprio fato de que Janine tinha consciência dela. Janine capta a “ruptura permanente do determinismo” (Sartre, 1997, p.77), quando, pela sua opção de casar, tem uma “apreensão sintética das vantagens da situação”. Janine pensa na solidão, “no dia em que, talvez, envelheceria sozinha” (p. 28), “envelhecer, morrer sozinha” (p. 29), “não ter companhia” (p. 13), “viver razoavelmente bem” com Marcel (p. 14), “amparo nas necessidades, sentir bem e contente” (p. 28), “sentir que alguém tinha necessidade dela”, “necessitava da necessidade que Marcel tinha de necessitar dela”.

Janine criou uma barreira entre a opção de liberdade e ela mesma, porém percebe, segundo Sartre, que essa “apreensão sintética” não passa de uma recordação, de uma idéia ou lembrança de um sentimento para reforçar aquela decisão anterior de casar.

Por isso, ela pensava nas desvantagens de não casar, pois, quando o desejo de liberdade surgisse, aquela antiga decisão emergiria para prestar-lhe ajuda, ou melhor, para barrar seus desejos. Seria também o peso da normatização imposta pelo discurso masculino, estipulando o que as mulheres podiam ou não fazer, principalmente a respeito da condição da mulher solteira, “a mulher sem homem”, segundo Nicolle Arnauld-Duc (1991, p. 130). A decisão de casar é uma possibilidade, assim como o fato de não casar e ser livre, é outra. Ela recriou todos os seus medos como se os estivesse vivendo naquele instante, pois, segundo Sartre, eles sempre se mantiveram como uma sombra na dependência de que Janine lhe emprestasse a sua carne.

A decisão de Janine ainda lhe pertence na medida em que realiza sua identidade consigo mesma, através do fluxo temporal, mas já não é sua pelo fato de que existe para sua consciência. Será que Janine se libertará de sua decisão de casar e renunciar à liberdade?

Depois de erguer os muros que sustentaram nestes vinte e cinco anos sua decisão de casar, e de ter se protegido nos valores desta decisão, Janine percebe com angústia que nada a impediria de seguir o seu desejo, a não ser sua ignorância a respeito dos móveis reais que, à sombra do seu inconsciente, determinaram a sua ação.

Para Sartre, esta angústia não surge como prova da liberdade humana e sim de que “existe uma consciência específica de liberdade e esta consciência é angústia” (1997, p. 77). Angustia, para Sartre, é a:

“captação reflexiva da liberdade por ela mesma... surge da negação dos chamados do mundo... aparece se me desgarro do mundo em que havia me comprometido” (1997, p. 84).

No início do conto, Janine “pensava com angústia” (p. 13). Para Heidegger, esta não seria a “angústia essencial” que ela vivenciou no final do conto. Segundo o filósofo, esta angústia como sentimento, é um estado de ânimo visto psicologicamente como qualquer outro. No entanto, este sentimento de angústia nunca acompanha a “angústia essencial”, pois esta surge a partir da atenção à voz do ser, assumindo a disposição de humor que vem desta voz. Segundo Heidegger, esta disposição de humor, experimentada na “angústia essencial”, apela ao homem em sua essência, para que aprenda a experimentar o ser no nada.

E é em direção àquela que será em instantes, que Janine se lança com todas as suas forças, pois “uma angústia sem nome invadiu- a” (p. 29) Somente quando Janine teve a clara coragem para a “angústia essencial”, uma angústia que, segundo Heidegger, não tem nome, pois se for nomeada deixa de ser angústia, é que ela participou da revelação do nada.

Quando Janine subiu a escadaria do forte pela primeira vez, vivenciando a experiência da antecipação da angústia, agoniada, sente que “alguma coisa até aquele dia desconhecida e que, no entanto, sempre lhe fizera falta estava à sua espera” (p. 25).

Segundo Heidegger, este algo que está sempre à espera, dormindo,” sufocado no ser-aí “ é a angústia. Ela está em todos os homens e mulheres, esperando para desvelar o nada. Naquela noite fria, quando Janine retornou sozinha, para realizar o mesmo caminho que fizera anteriormente, começou a sentir “um calor tímido nascendo em meio aos arrepios” (p. 31). Neste instante, ela começou a perceber que a angústia “estava aí”. Esse calor tímido era, segundo Heidegger, seu “hálito” palpitando sem cessar. Logo após sentir este calor, o silêncio.

“Nenhum sopro, nenhum ruído... vinha perturbar a solidão e o silêncio que cercava Janine” (p.31).

Quando a pessoa está envolvida no cotidiano, com dúvida, medo ou angústia como sentimento psicológico, somente um leve tremor perpassa a medrosa e imperceptível atitude do “ser-aí”, envolvido com tudo, menos com o ser que quer despertar. Quando Janine está pronta e escuta a voz do ser, é que o “ser-aí” surpreende e desperta a angústia que desvelará o nada.

Segundo Heidegger, só a angústia desvela o nada. Ela é sufocada no ser aí. Ela dorme. Ela somente despertará por aquilo que libertou o ser-aí. Assim, a angústia, em sua grandeza, surge, tendo como testemunha aquilo que a aprisionou.

Janine ouviu a voz do ser e, “diante da angústia, na pura atividade medrosa do temor” (Heidegger, l991, p.49), esquivou-se. Essa angústia então, que poderia tornar-se “angústia essencial”, no caminho da transcendência, estaciona, sendo confundida com qualquer outro sentimento ou estado de ânimo psicológico. Posteriormente, ela não foge mais da “voz silenciosa do ser” e, “aviltando a essência da coragem”, fica frente a frente com o nada, “a maravilha de todas as maravilhas” (Heidegger, 1991, p. 49), o “véu que cobre o ser”.

Janine, em sua experiência existencial, transcendeu, ultrapassou o ente para recuperar o ser. Somente porque o nada se revelou, pôde Janine interrogar, perguntar, pelas razões das coisas. Este ultrapassar, para Heidegger, é a própria metafísica. Metafísica que, para o filósofo, pertence a “natureza do homem”, e não uma disciplina acadêmica ou um campo de idéias arbitrariamente imaginadas. Esta transcendência, para Heidegger, só acontece na dialética especulativa. A dialética especulativa faz parte do fenômeno. Heidegger cita uma frase de Husserl, para explicar sobre ela. “Não é das filosofias que deve partir o impulso para a pesquisa, mas das questões e dos problemas” (Husserl, apud, Heidegger, 1991, p.75).

Janine, em sua experiência metafísica, em sua transcendência, vivenciou a dialética especulativa. Se, para Husserl, o homem se movimenta em seu cotidiano na atitude natural, para Heidegger, em todo comportamento humano já é exercida a transcendentalidade. Para o filósofo, a análise existencial do homem em sua cotidianidade é o ponto de partida para a discussão do ser, do homem. Entretanto, não é uma dimensão qualquer do homem que serve de ponto de partida, mas sim aquela pela qual Janine vivenciou o exercício de sua transcendência, a angústia.

Nota-se que a ontologia clássica é superada através do próprio ponto de partida antropológico, em Heidegger. Mas, em Camus, esta superação é realizada por uma mulher.

Segundo Heidegger, os questionamentos aparecem através da dialética especulativa, na transcendência, no desvelamento do ser. Este aparecer acontece em uma certa claridade. “Somente através dela, pode mostrar-se aquilo que aparece, isto é, brilha” (Heidegger, 1991, p.76). Segundo o filósofo, esta claridade, repousa numa dimensão de abertura, não se sabe quando vai clarear. “A claridade acontece no aberto e aí luta com a sombra” (Heidegger, 1991a, p. 77). Quando Janine ficou face a face com o ente, a claridade ficou presente.

Filologicamente e historicamente, Heidegger explica que a palavra claridade tem o mesmo sentido que a palavra aberto, leve. Clareira, clarear, para o filósofo, quer dizer “tornar a floresta, em determinado lugar, livre de árvores” (Heidegger,1991a, p. 77), aberta para a luz.

O conto em análise vem enunciando esta claridade, esta abertura e este caminho da transcendência através de duas metáforas que pouco a pouco, juntas, ganham força no texto: palmeira e luz. A luz ganha intensidade diferente, de acordo com o que ilumina. A presença da palmeira, pode parecer às vezes insignificante, mas vem sempre acompanhada da interrogação, do questionamento, culminando com um bifurcação na palavra luz, claridade.

Quando Janine entrou no quarto do hotel, ficou parada. “Esperava, mas não sabia o que” (p. 18). Sentia um peso no coração, solidão e silêncio. Não escutava o barulho lá fora, ao contrário, estava consciente do rumor do rio e do rumor do que o “vento fazia nascer nas palmeiras, que lhe pareciam agora tão próximas” (p. 19). Imaginava, por traz das paredes, “um mar de palmeiras” onde suas vagas refrescavam seus olhos cansados. Janine “sonhava com palmeiras”. Se há um mar de palmeiras deve haver uma clareira. Ao mesmo tempo, “um rumor vinha das palmeiras” (p. 19). Esse rumor poderia ser a voz do ser que estava sufocado e com o vento, umas poucas aberturas se insinuavam.

Quando Janine e Marcel desceram para a sala de jantar, observaram, nas paredes nuas, “camelos e palmeiras” (p. 19) pintados. Nota-se aí o contraste, palmeira, possibilidade de clareira, abertura e camelo, possibilidade de não abertura, de estagnação e fuga de si mesmo. Perto das pinturas, na sala de jantar, “as janelas em arco deixavam entrar uma luz parcimoniosa” (p. 49).

Janine e Marcelo subiram ao terraço, sentiram que a escadaria era longa e rígida, apesar de formada apenas de alguns patamares de terra batida. Era apertado, mas à medida que subiam, o espaço aumentava e eles se elevaram numa luz cada vez mais vasta e fria. No momento que chegaram no terraço, o ar iluminado parecia vibrar à volta deles.

Essa luz, que iluminava cada vez mais, enquanto subiam a escada e, na amplidão do terraço, brilhava com vibração, segundo Heidegger, era a luz da razão, que “só ilumina o que já está aberto” (Heidegger, 1991, p. 78). É uma luz que brilha, e que pode, efetivamente, incidir na clareira, nunca, porém, criá-la.

Janine, no terraço, silenciosa, diante da imensidão, olhou “para além do palmeiral” (p. 24) onde “uma única nota sonora e leve” ecoava. Ela novamente, percebe a voz do ser e depara-se com o silêncio.

Mais uma vez, Janine olha um pouco adiante “o palmeiral, dividido em quadrados desiguais pelos muros de barro” (p. 25). O palmeiral não era mais aquela imensidão de árvores. Janine já o via dividido, com clareiras. “O palmeiral... sussurrava sob o efeito do vento” (p. 25). Novamente era a voz do ser, sussurrando. À margem do palmeiral, ela via, aberto pelo vasto território que olhava, mas que era “uma parte irrisória de um espaço maior” (p. 26), o acampamento dos nômades.

A visão do acampamento dos nômades significava, para Janine, a possibilidade de superação. O vasto território que Janine olhava, mas que era uma parte irrisória de um espaço maior, era a experiência que a tornava consciente de sua finitude, trazendo a lume, a incapacidade de se colocar diante do nada por decisão e vontade própria.

O palmeiral dividido significava que a clareira do ser estava aberta. A vida de Janine mergulhada na cotidianidade estava suspensa e apenas testemunhava o despertar da angústia, transformando Janine em lugar-tenente do nada, a clareira aberta do ser.

Na metafísica heideggeriana, a luz da razão necessita da angústia para iluminar aquilo que, na clareira, torna presente o ser.

Para Janine, “Em todos os lugares, de agora em diante, a vida estava suspensa, a não ser no seu coração, onde nesse mesmo momento, alguém chorava de tristeza e deslumbramento” (p. 26). Nietzsche diz que Heráclito foi chamado de “o filósofo que chora” (A filosofia da Idade trágica dos Gregos, p. 48).Chora porque, na multiplicidade dos contrários, há alegria. Chorar é o novo impulso, o fundir-se nas formas da multiplicidade. Chorar, olhar de deslumbramento é o prazer contemplativo com que o artista olha para sua obra em vias de realização, e era o olhar de Janine, para o novo, o que ela poderia realizar.

Neste momento de angústia, “a luz se pôs em movimento, e o sol, nítido e sem calor, declinou no poente” (p.26). O “sol nítido e sem calor” significava a luz da razão frente ao brilho da clareira do ser que se manifestava soberanamente em Janine.

Janine volta para o hotel, mas não consegue dormir. Ela “contava tendas negras, por trás de suas pálpebras, pastavam camelos imóveis” (p. 27). No dizer de Heidegger, Janine estava suspensa, fazendo uma análise de sua vida: ou ser como os nômades ou ser como os camelos. Nômades significava, liberdade, “algo que sempre quis e não sabia o que era”. Segundo Heidegger, não é o homem que possui a liberdade, pelo contrário, é a liberdade que possui o homem. É a partir da angústia que a liberdade encontra o homem. Camelo significava carregar de novo o peso de uma vida que não mais se deseja.

Janine adormeceu com esta dúvida, mas logo acordou. “O silêncio à sua volta era total”. Para Heidegger, a angústia é o lugar do silêncio. No conto em análise, sempre que Janine estava para vivenciar o sentimento de angústia, o silêncio estava a sua volta, possibilitando o desvelamento. Isto seria, para o filósofo, a “clareira do aberto” (1991, p. 79). Aberto para pensar. O pensamento necessita da clareira para percorrer. Janine pensava sobre sua vida, sobre filhos, amor, morte etc..., mas uma angústia sem nome invadiu-a, não havendo mais possibilidade de voltar atrás, não dava mais para adiar. Queria libertar-se. Janine ouvia e sentia alguma coisa, até os momentos anteriores desconhecidos, e que, no entanto sempre lhe fizeram falta. Era o chamado do ser, que agora, para ela “lhe pareceu bem próximo” (p.29).

Janine ouviu um “chamado mudo”, que, no parecer de Heidegger, seria a “voz do ser”, que somente o homem, em meio a todos os seres, experimenta. Janine poderia ou não escutar este chamado mudo, mas, se não atendesse naquele instante, poderia ser que jamais entendesse o significado. Sozinha, resolveu subir a escada.

Janine solta-se, abandona-se à deriva, olhando as estrelas que pareciam fogos de artifício. Esquece o frio, o peso dos seres, a vida demente e imobilizada, a longa angústia de viver e morrer. Heidegger diz que, na angústia, não há confusão, perpassa no ser humano uma “estranha tranqüilidade”.

“Na angústia - dizemos nós - ‘a gente sente-se estranho’ (...) Não podemos dizer diante de que a gente se sente estranho. (...) Todas as coisas e nós mesmos afundamo-nos numa indiferença. (...) mas em se afastando elas se voltam para nós” (Heidegger, 1991b, p.39).

Segundo Heidegger (1991b, p.39), “Este afastar-se do ente em sua totalidade, que nos assedia na angústia, nos oprime. Não resta nenhum apoio. Só resta e nos sobrevém - na fuga do ente - este nenhum”. Assim, a angústia se apossa do ser de Janine, manifestando o nada.

A luz agora brilhava e, segundo Camus, “do céu negro desciam guirlandas de estrelas sobre as palmeiras” (p.30). Agora, a clareira estava aberta e iluminada, onde “milhares de estrelas se formavam sem tréguas” (Camus, p. 31). Essa luz intensa, esse brilho, significava, não mais a luz da razão, que podia, ou não, estar ali, mas a luz da clareira do ser, que o próprio ser por intermédio da angústia criou. Na clareira, há lugar para a luz e para a sombra. Só há sombra, se houver a possibilidade da luz.

No forte, Janine não ouvia nada. No entanto, uma espécie de “gravidade giratória atraía o céu acima dela” (p.31), Janine girava com os fogos, à deriva. Este girar, esta gravidade giratória, para Heidegger significa “Alethéia” (1991a, p. 78). Atlethéia é esférica, porque: “gira sempre na pura circularidade do círculo, na qual, em cada ponto, começo e fim coincidem” (Heidegger, 1991a, p. 78).

O filósofo traduz Alethéia como desvelamento.

O que pode ter despertado a angústia de Janine? Segundo Heidegger, a angústia não necessita ser despertada por um acontecimento inusitado. Ela pode acontecer a qualquer momento. Ela está sempre à espreita, mas raramente desperta. “A profundidade de seu imperar corresponde, paradoxalmente, à insignificância do elemento que pode provocá-la” (Heideger, 1991b, p.42).

Janine “parecia que encontrara suas raízes, a seiva tomava a subir em seu corpo” (p.31). No dizer de Heidegger, Janine encontrou o “ente”, encontrou o que, e como realmente é. E, naquilo que é, encontrou o ser.

Janine “espera apenas que também o seu coração, ainda transtornado, se acalmasse e que se fizesse silêncio” (p.31). Silenciar, para Heidegger, não significa ficar mudo. Nem se pode saber ou provar se o mudo pode silenciar. O silêncio só é possível num discurso autêntico. Segundo o filósofo, o lugar do silêncio, “concentra em si aquilo que primeiramente possibilita o desvelamento” (Heidegger, 1991b, p. 78). Para silenciar aquilo que Janine é, o que fala e o que sente ,deve ter algo a dizer. Só então é que o silêncio em Janine vai se revelando, nesta abertura própria e rica em si mesma. Em silêncio, Janine articula aquilo que ela é e o que tem para questionar e dizer.

Com as mesmas precauções de quando saiu, Janine volta para o hotel, junto ao seu marido.

Segundo Heidegger, confirma-se que a angústia revela o nada, quando somos interpelados sobre o motivo pelo qual nos angustiamos. Se respondermos “nada” - “Efetivamente, o nada mesmo - enquanto tal - estava aí” (Heidegger, 1991a, p. 40).

O marido de Janine começa a falar, mas ela não compreende, porém o que entendeu não foi expresso em palavras. Ele queria saber o que tinha acontecido. Chorando sem conseguir controlar-se, responde: Nada.

Conclui-se, então, que o conto “A mulher adúltera” relata a análise da existência humana, como acesso para a descoberta do ser, realizada por uma mulher: Janine. Faz a análise da existência inautêntica, desvendando a existência autêntica, através do sentimento de angústia essencial, pois segundo Heidegger, somente este sentimento pode conduzir ao encontro de sua totalidade como ser.

Através de uma narrativa indireta e metafórica, Camus utiliza os passos da angústia heideggeriana, desde a angústia frente à angústia essencial, até a angústia essencial. Apesar de ter rompido os laços de amizade com Sartre e de seus pensamentos evoluírem em direções opostas, foi possível identificar alguns conceitos da filosofia existencialista de Sartre, perpassando ao longo do caminho de Janine, em sua transcendência.

O drama de Janine pode ser lido como o drama de qualquer mulher ou homem que tenha coragem de deparar-se com o absurdo. Ela se angustia. O conto termina aí, na angústia. Segundo Heidegger, a partir do estado de angústia, surgem duas alternativas: retornar ao cotidiano ou superar a própria angústia, transcendendo sobre o mundo e sobre si.

Janine vivenciou a transcendência, não havendo possibilidade de esquecer-se em sua dimensão mais profunda. Depois da conquista, ninguém volta para o cotidiano da mesma forma, mas se voltar, voltará por vontade própria. A pessoa toma o destino em suas próprias mãos. Janine, manifestando sua superioridade, poderá consagrar sua liberdade e, por escolha, juntar-se ao “rebanho”, sendo mais ator do que espectador desta tragédia: a vida.

No conto “A mulher adúltera”, a criatura revelou-se mais audaciosa do que o criador.

“Minha marcha te seduz,
minhas palavras te atraem!
Segue-te pois a ti mesmo
e a mim seguirás sem perceber.”
Nietzsche

BIBLIOGRAFIA

  • 1 CAMUS, Albert. A mulher adúltera. In: O exílio e o reino. 4.ed. Rio de Janeiro: Record, 1957.
  • 2______. Jonas ou o artista no trabalho. In: O exílio e o reino. 4.ed. Rio de Janeiro: Record, 1957.
  • 3 DUC ARNOULD-NICOLE. As contradições do direito. In: História das mulheres. São Paulo: Ebradil, 1991.
  • 4 HEIDEGGER, Martin. O que é a metafísica. Sao Paulo: Duas Cidades, 1991a.
  • 5______. Fim da filosofia. Sao Paulo: Duas Cidades, 1991b.
  • 6 NIETZSCHE. Os pensadores. 5.ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991.
  • 7 PERROT, Michelle. Sair. In: Histórias das mulheres. O século IX. São Paulo: Ebradil, 1991.
  • 8 SARTRE, Jean Paul. O ser e o nada. Ensaio de Ustologia fenomenológica. Trad. Paulo Perdigão. Petrópolis: Vozes, 1997.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Out 2024
  • Data do Fascículo
    Jul-Dec 2001
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