Open-access Prevalência de síndrome de burnout em estudantes do ensino técnico e superior

Prevalence of burnout syndrome in technical and higher education students

RESUMO

Introdução  A Síndrome de Burnout está na lista das doenças ocupacionais reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde desde 2022. Visa-se estimar a prevalência da síndrome em estudantes e sua associação com características demográficas, escolares, laborais e emocionais.

Método  Pesquisa transversal, analítica, conduzida com os estudantes do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais. A variável dependente foi a Síndrome de Burnout, avaliada por meio do instrumento Burnout Inventory/ Student Survey (MBI-SS). As variáveis independentes foram avaliadas por meio de questionário desenvolvido pelos próprios autores e aplicado via formulário digital (Google Forms), englobando características demográficas, escolares e ocupacionais, características de estilo de vida, socioafetivas, condições emocionais e psíquicas, conforme o questionário Estilo de Vida Fantástico (EVF), Internet Addiction-Test (IAT), Smartphone Addiction Inventory (SPAI-BR) e Escala de Adição às Redes Sociais (EARS). Utilizou-se a Razão de Chances, mediante a Regressão Logística.

Resultado  participaram desse estudo 1.998 estudantes, 1.321 do Ensino Técnico e 677 do Ensino Superior. A idade média dos estudantes foi de 17 anos e 23 anos, respectivamente. Entre estudantes do Ensino Técnico, a síndrome foi associada ao sexo feminino, ao segundo e terceiro anos; e à raramente ou quase nunca ter alguém para conversar, bem como dependência em smartphones. No ensino superior, a Síndrome de Burnout mostrou uma associação com a idade igual ou superior à média dos alunos e com dependência de smartphones.

Conclusão  a síndrome, entre os estudantes investigados, está associada a fatores sociodemográficos, além da falta de suporte social, e à dependência em smartphones.

Burnout; Estudantes; Ensino Superior; Exaustão emocional

ABSTRACT

Introduction  Burnout Syndrome has been on the list of occupational diseases recognized by the World Health Organization since 2022. The aim is to estimate the prevalence of the syndrome in students and its association with demographic, school, work and emotional characteristics.

Method  Cross-sectional, analytical research, conducted with students at the Federal Institute of Northern Minas Gerais. The dependent variable was Burnout Syndrome, assessed using the Burnout Inventory/Student Survey (MBI-SS) instrument. The independent variables were evaluated using a questionnaire developed by the authors themselves and applied via digital form (Google Forms), encompassing demographic, school and occupational characteristics, lifestyle characteristics, socio-affective, emotional and psychological conditions, according to the Lifestyle questionnaire Fantástico (EVF), Internet Addiction-Test (IAT), Smartphone Addiction Inventory (SPAI-BR) and Social Network Addiction Scale (EARS). The Odds Ratio was used, using Logistic Regression.

Result  1,998 students participated in this study, 1,321 from Technical Education and 677 from Higher Education. The average age of the students was 17 years old and 23 years old, respectively. Among Technical Education students, the syndrome was associated with females, in the second and third years; and rarely or almost never having someone to talk to, as well as dependence on smartphones. In higher education, Burnout Syndrome showed an association with students being at or above the average age and with dependence on smartphones.

Conclusion  the syndrome, among the students investigated, is associated with sociodemographic factors, in addition to the lack of social support, and dependence on smartphones.

Burnout; Students; Higher education; Emotional exhaustion

INTRODUÇÃO

A Síndrome de Burnout (SB) foi descrita pelo psicanalista Herbert J. Freudenberger, em meados de 1970, como desinteresse e desmotivação dos indivíduos no trabalho devido à sobrecarga ocupacional e desgaste mental. O Burnout pode ser definido como a exaustão emocional causada pela exposição prolongada ao estresse e pelo excesso de cobranças no ambiente de trabalho, associada a fatores sociais, pessoais e institucionais. Tal condição impacta na satisfação e no desempenho profissional do indivíduo1.

A Síndrome de Burnout, no contexto atual, foi incorporada à lista das doenças ocupacionais reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde no ano de 2022. Também incluída na Classificação Internacional de Doenças (CID 10), descrita como um problema de ordem crônica, pela má condução das relações interpessoais no trabalho2.

Entretanto, a Síndrome não se restringe ao ambiente profissional. Também é uma realidade no âmbito educacional, visto que implica problemas na saúde física e mental dos estudantes, provenientes da dificuldade em lidar com críticas, do sentimento de incapacidade, das grandes responsabilidades escolares e do excesso de autocobrança3. Nesse sentido, a qualidade de vida e a autoestima do estudante ficam comprometidas, favorecendo a utilização de ansiolíticos, o consumo de substâncias como cigarro, álcool e maconha, além do aumento do distanciamento social4,5. Isso compromete a aprendizagem do estudante e sua permanência na instituição de ensino, pois torna-o mais susceptível a processos de alienação, cinismo, apatia e a quadros de ansiedade, depressão e até mesmo suicídio ⁴.

A incidência de alunos com a Síndrome de Burnout tem aumentado devido às exigências no ensino, impactando sua vida pessoal e educacional6,7. O estudo da Síndrome de Burnout em estudantes de graduação e ensino técnico, principalmente nos cursos que não pertencem à área da saúde, é escasso. Assim, o reconhecimento e identificação dos possíveis fatores associados à Síndrome nos estudantes podem auxiliar no desenvolvimento de estratégias para minimizar os efeitos do fenômeno, tanto na educação básica quanto na superior. Nessa perspectiva, este estudo tem como objetivo estimar a prevalência da Síndrome de Burnout em estudantes do Ensino Técnico e Superior e sua associação com características demográficas, escolares, laborais e emocionais.

MÉTODOS

A pesquisa foi realizada com estudantes dos cursos técnicos integrados e superiores do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais. Concernente ao Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Norte de Minas Gerais (IFNMG), ele foi fundado em 29 de dezembro de 2008, pela Lei nº 11.892, por meio da junção do Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet) de Januária e da Escola Agrotécnica Federal de Salinas (EAF), tais instituições têm mais de 60 anos de experiência na oferta da educação profissional. Agregando, atualmente, onze sedes: Campi Almenara, Campi Araçuaí, Campi Arinos, Campi Diamantina, Campi Avançado Janaúba, Campi Januária, Campi Montes Claros, Campi Pirapora, Campi Avançado Porteirinha, Campi Salinas e Campi Teófilo Otoni – e a Reitoria, sediada em Montes Claros.

O presente estudo faz parte da pesquisa intitulada “IFNMG online: Estudantes e Adicção em Internet”. Trata-se de um estudo epidemiológico do tipo Websurvey, realizado com estudantes dos cursos técnicos integrados ao ensino médio e nível superior de uma instituição pública de ensino no norte do estado de Minas Gerais (IFNMG). A população foi constituída por 8.021 estudantes, distribuídos em 11 campis, em 2020.

Para o cálculo do tamanho amostral foram considerados os seguintes parâmetros: prevalência estimada de Adicção em Internet 60%, nível de confiança de 95% e margem de erro de 2%8. Foi realizada correção para população finita (N=8.021 alunos) e acréscimo de 10% para compensar possíveis perdas. Os cálculos evidenciaram um tamanho amostral de no mínimo 1.970 estudantes, estratificados proporcionalmente por nível de ensino (ensino técnico integrado ao ensino médio= 1.300 e ensino superior = 670). Em relação aos cursos selecionados, foram eles:

  1. cursos técnicos: Técnico em Administração; Técnico em Agrimensura; Técnico em Agroecologia; Técnico em Agroindústria; Técnico em Agropecuária; Técnico em Comércio; Técnico em Edificações; Técnico em Eletrotécnica; Técnico em Enfermagem; Técnico em Gestão Empreendedora; Técnico em Informática; Técnico em Informática para internet; Técnico em Manutenção e Suporte de Informática; Técnico em Meio Ambiente ; Técnico em Química; Técnico em Sistemas de Energia Renováveis; Técnico em Teatro; Técnico em Vendas; Técnico em Vigilância em Saúde; Técnico em Zootecnia;

  2. cursos superiores: Bacharelado em Engenharia Agronômica, Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, Tecnologia em Processos Gerenciais, Bacharelado em Administração, Bacharelado em Engenharia, Agrícola e Ambiental, Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, Tecnologia em Gestão Ambiental, Bacharelado em Administração, Bacharelado em Engenharia Agronômica, Bacharelado em Sistemas de Informação, Tecnologia em Gestão Ambiental, Tecnologia em Produção de Grãos, Bacharelado em Administração, Bacharelado em Engenharia Agrícola e Ambiental, Bacharelado em Engenharia Agronômica, Bacharelado em Engenharia Civil, Bacharelado em Sistemas de Informação, Licenciatura em Ciências Biológicas, Licenciatura em Física, Licenciatura em Matemática, Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, Licenciatura em Matemática em EAD, Bacharelado em Ciência da Computação, Bacharelado em Engenharia Química Bacharelado em Engenharia Elétrica, Bacharelado em Administração Bacharelado em Engenharia Civil, Bacharelado em Sistemas de Informação, Bacharelado em Engenharia de Alimentos, Bacharelado em, Engenharia Florestal, Bacharelado em Medicina Veterinária, Bacharelado em Sistemas de Informação, Licenciatura em Ciências Biológicas, Licenciatura em Física, Licenciatura em Matemática, Licenciatura em Pedagogia, Licenciatura em Química, Tecnologia em Produção de Cachaça, Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, Tecnologia em Gestão Empreendedora.

Após autorização e concordância dos coordenadores, um formulário digital (Google Forms) foi disponibilizado aos estudantes para a coleta dos dados. O link do formulário foi enviado para o aplicativo Google Sala de Aula (Classroom) das disciplinas dos cursos técnicos e superiores. A coleta de dados ocorreu entre agosto de 2020 a outubro de 2021, com garantia de anonimato dos participantes. Considerou-se critério de inclusão ser matriculado no ano em que a pesquisa foi realizada e como critério de exclusão aqueles estudantes que não responderam ao questionário no período da coleta.

A variável dependente no presente estudo foi a Síndrome de Burnout, avaliada por meio do instrumento MBI, forma adaptada por Schaufeli e Martinez para o português a partir do Maslach Burnout Inventory – General Survey, denominada Maslach Burnout Inventory/ Student Survey (MBI-SS)9. Este instrumento consiste em 15 perguntas que se subdividem em três subescalas: Exaustão Emocional (5 itens); Descrença (4 itens); e Eficácia Profissional (6 itens). Todos os itens são avaliados pela frequência, variando de 0 a 6, sendo 0 (nunca), 1 (uma vez ao ano ou menos), 2 (uma vez ao mês ou menos), 3 (algumas vezes ao mês), 4 (uma vez por semana), 5 (algumas vezes por semana) e 6 (todos os dias)9.

Na presente pesquisa, a Síndrome de Burnout foi considerada presente quando houve a alteração em pelo menos um dos três domínios avaliados, isto é: no domínio exaustão – quando o escore foi superior ao percentil 66 da amostra; ponto de corte 16 para o ensino técnico e ensino superior 14. No domínio descrença – quando o escore foi superior ao percentil 66 da amostra; ponto de corte 10 para o ensino técnico e ensino superior 9. No domínio eficiência – quando o escore foi inferior ao percentil 33 da amostra; o ponto de corte foi 17 para o ensino técnico e superior. Classificação da Síndrome de Burnout, não demonstra ter a Síndrome quando nenhum dos três domínios apresentar alterações. Vulneráveis a desenvolver Burnout, quando há alteração em dois domínios e já acometido pela Síndrome de Burnout quando há alteração nos três domínios9.

As variáveis independentes foram as demográficas, escolares e ocupacionais: sexo (masculino, feminino e outro), idade, local/moradia (zona rural/urbana), atividade remunerada, escolaridade dos pais, período/ano que estuda e área de conhecimento do curso. Ademais, foram incluídas características de estilo de vida, socioafetivas e condições emocionais e psíquicas, sendo elas: consumo abusivo de álcool, prática de atividade física, troca de afeto, disponibilidade de alguém para conversar, adicção em internet, dependência em smartphone e redes sociais.

A idade dos estudantes do Ensino Técnico variou de 14 a 40 anos, com média de 17,0 anos (desvio padrão, d.p=1,7) e a dos estudantes do Ensino Superior variou de 16 a 60 anos, com média de 23 anos (d.p=5,6), foi dicotomizada com base na média como ponto de corte. A variável atividade remunerada foi dicotomizada em “sim” ou “não”. As variáveis de escolaridade dos pais tinham muitos dados ausentes e foram apresentadas como indicadores sociodemográficos, categorizadas em “fundamental ou menos”, “ensino médio” e “ensino superior”. O período de estudo para o Ensino Superior foi dicotomizado em dois grupos, 1º ao 5° período e do 6º ao 10º. Para o Ensino Técnico, foram consideradas as 3 séries (1º, 2º e 3º ano). As áreas de conhecimento do curso foram classificadas nas seguintes categorias: sociais e aplicadas, exatas e tecnológicas, biológicas e da saúde.

Utilizou-se o questionário Estilo de Vida Fantástico (EVF) para as variáveis: consumo abusivo de álcool, ponto de corte 3 vezes por semana, dicotomizada em raramente/quase nunca/nunca e ocasionalmente/frequentemente); prática de atividade física, dicotomizada em menos de três vezes por semana e três vezes ou mais por semana, ponto de corte menor ou igual 3 vezes por semana; troca de afeto dicotomizada em frequentemente/sempre e raramente/quase nunca/nunca10.

Em relação à dependência em smartphone: utilizou-se o instrumento de coleta Smartphone Addiction Inventory (SPAI-BR). O SPAI-BR avalia a dependência em smartphones por meio de 26 itens, divididos em quatro subescalas, com resposta “sim” ou “não”. O ponto de corte adotado para a dependência de smartphone, considerando a validação e adaptação ao português, foi de sete pontos, que possui sensibilidade de 90,54% e especificidade de 59,93%. Sendo maior que 7 (com dependência) e menor ou igual a 7 (sem dependência)11.

No que diz respeito à adicção em Internet: o instrumento utilizado foi o Internet Addiction Test (IAT), validado em vários países, inclusive no Brasil, mais especificamente, sua validade e confiabilidade foram evidenciadas no norte de Minas Gerais. A análise foi dicotomizada em “sem adicção” (ponto de corte 20 a 39), “uso problemático” (ponto de corte 40 a 69), com adicção em internet”(ponto de corte 70 a 100) para o ensino técnico e superior8.

A Escala de Adição às Redes Sociais (EARS) é uma adaptação da escala de adição à internet de Young, formada por 14 itens, sendo eles avaliados de acordo com uma escala de concordância (tipo Likert). adotou-se a média dos escores da escala como ponto de corte,a do ensino técnico (média = 36,0), para o ensino superior (média = 35,0). A dicotomização foi sim e não.

Os dados foram tabulados no programa estatístico Statical Package for the Social Science (IBM-SPSS) versão 23.0. Inicialmente, foram realizadas análises descritiva, bivariada e múltipla, por nível de ensino. As análises descritivas das variáveis foram realizadas por meio de suas distribuições de frequências. Foi construído um gráfico de colunas para apresentar a prevalência das categorias de Síndrome de Burnout. Também foram estimados os IC95% para cada categoria da Síndrome.

A análise bivariada foi utilizada para avaliar a associação da Síndrome de Burnout e as variáveis demográficas, escolares, ocupacionais, de estilo de vida, socioafetivas e condições emocionais e psíquicas. A análise utilizou o teste Qui-quadrado e estimou Odds Ratio Brutas (não ajustadas) com intervalos de confiança de 95%. As variáveis com uma associação com a Síndrome de Burnout a um nível de 0,20 foram selecionadas para a análise múltipla, que empregou um modelo de regressão Logística. Odds Ratio ajustadas com intervalos de confiança de 95% foram calculadas. No modelo final, permaneceram as variáveis com associação significativa com a Síndrome a um nível de 0,05. O ajuste do modelo múltiplo foi avaliado por meio do R2de Nagelkerke e o Teste Hosmer e Lemeshow.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário das Faculdades Unidas Pitágoras de Montes Claros (UNIFIPMoc) com parecer consubstanciado nº 4.076.46/2020. Os estudantes receberam junto ao formulário de coleta de dados informações sobre os objetivos da pesquisa e sobre a preservação do anonimato, bem como o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e o termo de assentimento livre e esclarecido (TALE).

Os participantes com idade maior ou igual a 18 anos deram seu consentimento para participarem da pesquisa por meio do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido - TCLE digital, em que assinalaram “sim” à questão relativa à concordância em participar da pesquisa. Os participantes com idade inferior a 18 anos receberam o TCLE e o Termo de Assentimento Livre e Esclarecido – TALE também digital e responderam “sim” à questão relativa ao assentimento, enquanto seus pais ou responsável assinalaram “sim” à questão relativa à concordância em participar da pesquisa.

RESULTADOS

Participaram do estudo 1.998 estudantes de 11 campi do IFNMG, dos quais 1.321 eram do Ensino Técnico e 677 do Ensino Superior. A idade dos estudantes do Ensino Técnico variou de 16 a 40 anos, com média de 17,0 anos, desvio padrão (d.p=1,7), e a dos estudantes do Ensino Superior variou de 16 a 60 anos, com média de 23 anos (d.p=5,6) (Tabela 1).

Tabela 1
Distribuição dos estudantes segundo variáveis demográficas, escolares e ocupacionais - Norte de Minas, Brasil, 2020-2021

Quanto à distribuição dos estudantes nas variáveis de estilo de vida, socioafetivas e condições emocionais e psíquicas no Ensino Técnico e Superior, os dados mostram que, entre os alunos do Ensino Técnico: 493 (37,3%) consomem álcool menos de três vezes por semana, de 474 (35,9%) dão ou recebem afeto, 505 (38,2%) raramente ou nunca têm alguém para conversar, 785 (59,4%) apresentam dependência em smartphone, 577 (43,75%) têm adicção em internet e 768 (58,2%) dependem de rede sociais. Os alunos do Ensino Técnico também apresentaram alterações nos domínios de exaustão – 408 (69,1%); descrença 442 (33,5%); e eficácia 442 (32,1%). Referente a alteração em um domínio 364 (27,6%), em dois domínios 239 (18,1%), já estavam com a Síndrome 144 (10,8%) (Tabela 2).

Tabela 2
Distribuição dos estudantes segundo variáveis de estilo de vida, socioafetivas e condições emocionais e psíquicas - Norte de Minas, Brasil, 2020-2021

Dos alunos de Ensino Superior, observa-se que: 245 (36,2%) consomem álcool menos de três vezes por semana, de 212 (31,3%) dão ou recebem afeto e 212 (31,3%) têm alguém para conversar raramente/quase nunca/nunca concomitantemente. Além disso, 212 (31,3%) têm dependência em smartphone, 180 (26,6%) apresentam adicção à internet e 269 (39,7%) são dependentes de redes sociais. Os alunos dessa modalidade de ensino também demonstram alterações nos domínios: exaustão 193 (28,5%), descrença 216 (31,9%) e eficácia 185 (27,3%). Quanto a alteração é um domínio 186 (27,5%), com alteração em dois domínios 135 (19,9%) e já foram afetados pela Síndrome 46 (6,8%) (Tabela 2).

Entre os 1.321 alunos do Ensino Técnico, destes apresentaram alterações nos domínios que classificam a Síndrome de Burnout, em um domínio foi de 27,6%, com 18,1% em dois domínios e 10,8% já afetados pelo Burnout. Já entre os 677 alunos do Ensino Superior, observa-se alteração em um domínio foi 27,5%, em dois domínios 19,9% e nos três domínios 6,8% (Gráfico 1).

Gráfico 1
Prevalência da Síndrome de Burnout entre estudantes do Ensino Técnico e Superior - Norte de Minas, Brasil, 2020-2021

Na Tabela 3, são apresentadas a distribuição dos estudantes de acordo com as características demográficas, escolares e ocupacionais, enquanto na Tabela 4, são apresentadas as variáveis de estilo de vida, socioafetivas e condições emocionais e psíquicas. As variáveis que demonstraram associação significativa (nível de 0,20) com a Síndrome de Burnout foram selecionadas para o modelo múltiplo (Tabela 3 e 4).

Tabela 3
Prevalência de Síndrome de Burnout, Odds Ratio bruta com Intervalo de 95% de confiança, entre estudantes do Ensino Técnico e Superior segundo variáveis demográficas, escolares e ocupacionais - Norte de Minas, Brasil, 2020-2021
Tabela 4
Prevalência de Síndrome de Burnout, Odds Ratio bruta com Intervalo de 95% de confiança, entre estudantes do Ensino Técnico e Superior segundo variáveis de estilo de vida, socioafetivas e condições emocionais e psíquicas - Norte de Minas, Brasil, 2020-2021

Na Tabela 5, são apresentados os resultados da análise múltipla. Após ajuste, a Síndrome de Burnout entre estudantes do Ensino Técnico demonstrou associação significativa com os seguintes fatores: sexo feminino (Odds Ratio - OR =1,5; p-valor= 0,048), estar cursando o segundo ano (OR=2,5; p- <0,001) e terceiro ano (OR=1,6; p- <0,039), relatar raramente ou quase nunca ter alguém para conversar (OR= 1,6; p- <0,008) e apresentar dependência em smartphones (OR=4,0; p- <0,001). No Ensino Superior, a Síndrome de Burnout associou-se à idade igual ou superior à média dos alunos (OR=0,4, p- =0,030) e à dependência de smartphones (OR=4,8; p- <0,001). O modelo apresentou qualidade de ajuste adequada (Tabela 5).

Tabela 5
Resultado da análise múltipla: modelo de Regressão logística, Odds ratio ajustada, com intervalo de 95% de confiança para analise dos fatores associados à Síndrome de Burnout entre Estudantes do Ensino Técnico e Superior do Norte de Minas, Brasil, 2020-2021

DISCUSSÃO

Neste estudo, a prevalência da Síndrome de Burnout foi de 9,6% entre os estudantes pesquisados, sendo 10,8% do Ensino Técnico e 6,8% do Ensino Superior. Esses resultados são comparáveis aos de uma pesquisa anterior realizada no Irã, que encontrou uma prevalência geral de Burnout de 10,4%12. Outros estudos, entretanto, apresentam prevalência mais elevada da Síndrome. Por exemplo, um estudo desenvolvido no Nepal com 239 estudantes de Medicina, encontrou uma prevalência geral de Burnout de 65,9%13. Da mesma forma, entre 145 estudantes de medicina e cirurgia na Uganda, a prevalência foi de 54,5%14.

A alta prevalência de Burnout entre estudantes é frequentemente causada pelos elevados níveis de exigência do ensino e pela falta de tempo15,13. As implicações incluem dificuldades em realizar as atividades escolares com eficiência, incapacidade de lidar com as demandas do ensino e aprendizagem, baixo rendimento escolar e diminuição no desempenho cognitivo. Além disso, o Burnout pode interferir em outros aspectos, como baixa autoestima e percepção negativa de si mesmo e dos colegas16.

Na presente pesquisa, a Síndrome de Burnout em estudantes do Ensino Técnico foi associada a fatores como sexo feminino, estar no 2º ou 3º ano, raramente ou quase nunca ter alguém com quem conversar e a dependência de smartphones. Com relação às diferenças de sexo, um estudo realizado com adolescentes de escolas secundárias de diferentes regiões da Polônia indicou que o sexo feminino é mais vulnerável ao desenvolvimento da Síndrome de Burnout. Essa maior vulnerabilidade é atribuída à falta de apoio social, ansiedade e estresse decorrente da dificuldade em lidar com as exigências escolares16.

A associação entre Burnout e o ano escolar também foi evidenciada em outros estudos. Uma análise realizada no Brasil com estudantes dos primeiros anos de um curso técnico em Enfermagem observou essa relação. A hipótese sugerida é que o ambiente novo deixa os estudantes desconfortáveis em relação às avaliações dos colegas e professores17.

Uma pesquisa envolvendo 517 estudantes do 2º ano de escolas técnicas profissionalizantes revelou que o apoio social proveniente da família, dos amigos e dos professores desempenha um papel fundamental como fator de proteção contra a Síndrome de Burnout. Contudo, quando os estudantes não desfrutam de um ambiente familiar e educacional acolhedor, sua suscetibilidade à Síndrome aumenta18. Outros estudos corroboram essas descobertas, evidenciando que as instituições de ensino secundário que oferecem suporte escolar conseguem reduzir os níveis de esgotamento entre os estudantes. Por outro lado, os alunos que frequentam escolas desprovidas desse apoio demonstram um alto índice de Burnout. Nesse sentido, a interação respeitosa entre professores, alunos e colegas ganha ainda mais relevância19.

Uma investigação realizada com 2.540 estudantes do ensino médio na Hungria demonstrou associação significativa entre dependência em smartphones e Síndrome de Burnout, confirmando o resultado da presente pesquisa. É ressaltado pelos autores a escassez de pesquisas sobre o uso problemático de internet e Síndrome de Burnout no contexto escolar20. A utilização excessiva de smartphones e outros dispositivos eletrônicos podem ser responsáveis pelo Burnout digital, conceito atribuído a pessoas que ficam muitas horas na internet. Tal hábito afeta a saúde física e mental dos estudantes, refletindo na vida acadêmica21.

No Ensino Superior, as variáveis idade e dependência em smartphone foram associadas ao Burnout. Uma pesquisa sobre estresse e Burnout entre estudantes europeus do ensino superior verificou um nível maior de esgotamento entre alunos mais jovens (51,1%). Os autores afirmam que esse resultado pode estar relacionado à necessidade de adaptação ao ambiente educacional e ao anseio por um currículo de qualidade22. Outro estudo com alunos do Nepal observou um alto nível de estresse entre os estudantes com idade entre 18 e 25 anos, relacionado ao esgotamento emocional prévios à entrada na faculdade, alta competitividade, distância familiar e falta de tempo para atividades de entretenimento13.

Um estudo longitudinal realizado na Cracóvia com 130 estudantes universitários, idades entre 19 e 23 anos, evidencia que o uso exagerado de smartphones pode contribuir para o desencadeamento da Síndrome de Burnout e esclarece que os jovens são mais vulneráveis a adicção em rede social, internet e smartphones, consequentemente, são mais vulneráveis a adoecer23. O uso problemático de internet é descrito como uma válvula de escape dos estudantes para lidar com o esgotamento emocional, contribuindo para o avanço da Síndrome16. Uma meta-análise, que incluiu 201 estudos a fim de avaliar os riscos relacionados a problemas mentais entre estudantes de medicina, evidenciou a adicção em internet e smartphones como principais fatores de risco para o desencadeamento de depressão, ansiedade, distúrbio do sono e, sobretudo, o Burnout24.

Diante desse cenário, nota-se que as escolas de ensino técnico e ensino superior precisam acompanhar os níveis de estresse e esgotamento de seus alunos, a fim de implementar sistemas de apoio aos estudantes, melhorando a qualidade de vida e o desempenho escolar22. As instituições de ensino podem, ainda, acrescentar práticas de higiene do sono e o apoio psicossocial em seus programas de promoção da saúde dos discentes25. Além disso, outros mecanismos de enfrentamento para lidar com o estresse entre os estudantes podem ser: prática de atividade física, sono regulado, diálogo com colegas e o hábito de ouvir música26.

O Governo em âmbito municipal deve ter como uma de suas prioridades a criação de um ambiente urbano saudável27. É importante aumentar os investimentos em recursos de saúde mental em pesquisas com estudantes nos diferentes cenários28. Com o intuito de prevenir a Síndrome de Burnout em estudantes, se faz necessário que as instituições de ensino e os educandos compreendam a síndrome e os impactos dela na vida escolar e pessoal. Neste contexto, é importante mudanças na organização visando reduzir os fatores estressores, melhorando as relações humanas, a capacidade de diálogo entre os alunos e professores, a autonomia e segurança no processo de ensino e aprendizagem29. As especificidades das situações que os estudantes perpassam podem desencadear a exaustão emocional evidenciada, contribuindo para que se distanciem dos estudos e do comprometimento com os afazeres estudantis29.

Os resultados da presente pesquisa, alteração no domínio esgotamento emocional e descrença indicam a necessidade das instituições de ensino de elaborar projetos voltados para a promoção da saúde mental dos estudantes, que visem minimizar o estresse ocasionado pelas condições identificadas, as quais estão associadas ao desenvolvimento das dimensões do Burnout entre os estudantes. Os discentes, para assumir responsabilidades da esfera educacional e profissional, precisam saber lidar com as situações que podem desencadear a Síndrome de Burnout, possibilitando, assim, o fortalecimento do cuidado consigo para lidar com os fatores estressores do ambiente em que estudam30.

Este estudo tem como limitação a obtenção de informações por meio de questionário autoaplicado que potencialmente constitui um viés na memória e na interpretação das questões pelos indivíduos investigados, visando maior fidedignidade e contornar possíveis distorções foram utilizados questionários validados. Ademais, foi realizado em uma determinada região e não abrange realidades nacionais e internacionais. Contudo, trata-se de uma amostra representativa da população realizada com estudantes de diversos campis e diferentes cenários, contribuindo para maior confiabilidade dos resultados.

CONCLUSÃO

A presente pesquisa sugere que a Síndrome de Burnout entre os estudantes investigados está associada a fatores sociodemográficos, como sexo, idade e ano que estuda, bem como à falta de suporte social, evidenciada pela ausência de alguém para conversar, e à dependência em smartphones. Diante do contexto apresentado, tanto as instituições de ensino quanto os próprios estudantes precisam desenvolver mecanismos de proteção contra a Síndrome. Entre as medidas que podem ser oferecidas aos estudantes, estão mudanças curriculares, oferecimento de apoio psicológico, oferta de atividades extracurriculares e palestras educativas.

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) e da Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES).

REFERÊNCIAS

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    02 Set 2024
  • Aceito
    27 Nov 2024
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