Open-access Tuberculose: uma doença mortal e negligenciada na era da COVID-19.

AO EDITOR,

Em 1993, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a Tuberculose (TB) uma emergência global. Desde então, foram registrados poucos avanços referentes ao controle da doença, como ferramentas de diagnóstico molecular e novos esquemas de redução do tratamento, mas a falta geral de progresso se deve principalmente a investimentos insuficientes na Pesquisa & Desenvolvimento de novos produtos e estratégias para a prevenção, diagnóstico e tratamento da TB.1

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas e o Plano Global para Acabar com a TB da Organização Mundial da Saúde afirmam que o financiamento para a tuberculose precisa se aproximar da meta de US$2 bilhões por ano para acabar com a doença até 2030. No entanto, essa meta nunca foi alcançada, como foi relatado pelo Grupo de Ativistas em Tratamentos (GAT) em seu recente relatório de investimento, em que o valor mais próximo foi de US$772 milhões em 2017.2

Em contraste, em 2020, o mundo enfrentou uma pandemia de enorme magnitude que mudou a maneira como vivemos nossas vidas, impactando consideravelmente os sistemas globais econômicos e de saúde. Desta forma, a OMS declarou a COVID-19 uma emergência de saúde global dentro de dois meses após o reconhecimento dos primeiros casos, e grandes economias rapidamente mobilizaram fundos de pesquisa para desenvolver vacinas e medicamentos que pudessem controlar a pandemia. O financiamento dedicado ao combate à COVID-19 ultrapassou US$21,7 trilhões, segundo análise de dados disponível na plataforma de financiamento Devex.3-5

Embora haja uma diferença marcante na dimensão dos investimentos entre as duas doenças, o número de mortes foi semelhante em 2020: 1,5 milhões devido à TB (incluindo 214 mil pessoas vivendo com HIV) e 1,8 milhões devido à COVID-19, conforme relatado pela OMS. O número de óbitos em 2021 ainda está sendo calculado, embora seja provável que ocorra um excesso de mortes relacionadas a ambas as doenças devido às variantes mais transmissíveis e virulentas do SARS-CoV-2 e, no caso da tuberculose, ao impacto da COVID-19 no acesso aos serviços de saúde, resultando em atrasos no diagnóstico.6,7

Assim, a discrepância de fundos que ainda enfrentamos não está relacionada à magnitude do número de óbitos devido às duas doenças, mas sim ao local onde essas mortes estão ocorrendo e quais populações são afetadas. Embora a COVID-19 tenha um alcance amplo, afetando países ricos e em desenvolvimento, a tuberculose continua sendo uma doença negligenciada, que afeta predominantemente os países mais pobres e suas populações mais vulneráveis.

No Brasil, conforme relatado pelo GAT, o financiamento para a TB não atingiu 0,1% do valor total alocado para a ciência e tecnologia em todas as áreas, que representa uma expectativa de US$35 milhões por ano. O Brasil investiu apenas US$1.196.598 em 2019. Em 2020, esse financiamento aumentou, atingindo um total de US$3.726.864, o que representa 11% da meta de US$35 milhões. No Portal de Transparência do governo brasileiro, o valor total investido nos últimos dez anos na pesquisa da TB foi de pouco mais de US$6 milhões.2

Conforme demonstrado na Tabela 1, o montante destinado à pesquisa da TB no Brasil pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a principal agência brasileira de fomento à pesquisa, foi irrisório. A maior parte dos recursos vem dos sistemas de gestão financeira e convênios do governo federal (SICONV e GESCON). O SICONV promove repasses financeiros aos estados para o cumprimento de financiamentos conjuntos entre o CNPq e fundações estaduais de pesquisa, bem como recursos parlamentares, enquanto o GESCON é o sistema que repassa recursos a instituições federais de pesquisa. É possível que outras transferências não tenham sido informadas; no entanto, a Tabela 1 inclui exatamente o que é informado e relatado pelo governo federal.

Tabela 1
Valores investidos em pesquisa com TB de 2010 a 2020.

Por outro lado, o financiamento para a pesquisa da COVID-19 em 2020, segundo o governo brasileiro, foi da ordem de US$100 milhões, número ainda muito aquém do desejado, dada a magnitude da pandemia.8

Em um editorial de R. E. Chaisson, M. Frick e P. Nahid, duas grandes diferenças na resposta às duas pandemias são notáveis, considerando que o Mycobacterium tuberculosis foi descrito pela primeira vez em 1882 e o SARS-CoV-2 em 2019. Primeiramente, existem atualmente apenas 15 vacinas candidatas contra a TB em preparação em comparação com 112 vacinas para a COVID-19, e temos apenas uma vacina licenciada em uso para TB, a vacina BCG (que significa vacina Bacillus Calmette-Guérin), enquanto existem 25 vacinas licenciadas para COVID-19. Em segundo lugar, apenas um total de US$915 milhões foi investido na pesquisa da TB em 2020, em comparação com US$104 bilhões para COVID-19 no mesmo período,9 ou seja, 113 vezes mais do que o valor gasto por todos os financiadores em pesquisas com TB em 2020 (US$915 milhões).

A COVID-19 e a tuberculose são doenças diferentes com impactos distintos na saúde pública, exigindo ações diferenciadas dos governos; no entanto, também está claro que, sem investimentos adequados, a inovação para o controle de qualquer doença permanece bastante limitada.

A lição que pode ser aprendida com o rápido enfrentamento da pandemia da COVID-19 é que, com a vontade política, os investimentos necessários para controlar as doenças pandêmicas podem ser alcançados, como estamos vendo em todo o mundo desenvolvido. Como a tuberculose é um problema de diferentes dimensões, especialmente para os países que compõem o bloco BRICS, é fundamental que esses países que sofrem o maior ônus contribuam para acelerar suas capacidades de pesquisa e inovação.

Além disso, os investimentos em ciência devem reduzir o ônus de doenças nas populações mais vulneráveis, como as pessoas que vivem em favelas, privadas de sua liberdade, coinfectadas com HIV/AIDS, indígenas e moradores de rua, que correm maior risco de desenvolver TB, com o objetivo de reduzir as desigualdades sociais.1,10

Por fim, precisamos continuar lutando para que a TB esteja na agenda política e receba financiamento adequado, especialmente nos países mais onerados, como o Brasil, para que a meta de eliminação da TB seja alcançada.

Referências bibliográficas

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Jun 2022
  • Data do Fascículo
    2022
location_on
Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia SCS Quadra 1, Bl. K salas 203/204, 70398-900 - Brasília - DF - Brasil, Fone/Fax: 0800 61 6218 ramal 211, (55 61)3245-1030/6218 ramal 211 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: jbp@sbpt.org.br
rss_feed Acompañe los números de esta revista en su lector de RSS
Ir para arriba Notificar error