Open-access COMEMORANDO DUAS DÉCADAS DE PARCERIA ACADÊMICA: Colóquio Brasil-Estados Unidos de estudos da comunicação

Coloquio Brasil-EE. UU. sobre Estudios de la Comunicación: Celebrando dos décadas de colaboración académica

RESUMO

O artigo apresenta um balanço dos 20 anos do Colóquio Brasil–Estados Unidos de Estudos da Comunicação, destacando sua relevância para o fortalecimento de uma agenda comparativa e colaborativa entre pesquisadores dos dois países. O dossiê reúne sete artigos que abordam temas centrais da comunicação contemporânea, como economia da atenção, regulação de plataformas digitais, narrativas visuais no jornalismo, discursos metajornalísticos, cultura esportiva televisiva, métodos interpretativos para ciências sociais públicas e estratégias de pesquisa sobre elites na sociedade digital. Em conjunto, os textos evidenciam a importância de abordagens transnacionais, estudos de caso interamericanos e rigor metodológico para compreender fenômenos comunicacionais em contextos democráticos e digitais. O dossiê também reconhece o legado de José Marques de Melo e a liderança de Sonia Virgínia Moreira na consolidação do Colóquio, ressaltando a continuidade de uma parceria acadêmica que contribui para o avanço teórico e metodológico dos estudos da comunicação no Brasil e nos Estados Unidos.

Palavras-Chave
Cooperação acadêmica internacional; Estudos comparados em comunicação; Sociedade digital

ABSTRACT

The article reviews the twenty-year trajectory of the Brazil–United States Colloquium on Communication Studies, emphasizing its relevance in strengthening a comparative and collaborative research agenda between scholars from both countries. The dossier brings together seven articles addressing central themes of contemporary communication, such as the attention economy, platform regulation, digital visual narratives in journalism, metajournalistic discourse, sports media culture, interpretive methods for public social sciences, and research strategies for elites in a digitizing society. Collectively, the texts highlight the importance of transnational approaches, inter-American case studies, and methodological rigor for understanding communicational phenomena in democratic and digital contexts. The dossier also acknowledges the legacy of José Marques de Melo and the leadership of Sonia Virgínia Moreira in consolidating the Colloquium, underscoring the continuity of an academic partnership that advances theoretical and methodological development in communication studies in Brazil and the United States.

Keywords
International academic cooperation; Comparative communication studies; Digital society

RESUMEN

El artículo presenta un balance de los veinte años del Coloquio Brasil–Estados Unidos de Estudios de la Comunicación, destacando su relevancia para el fortalecimiento de una agenda comparativa y colaborativa entre investigadores de ambos países. El dossier reúne siete artículos que abordan temas centrales de la comunicación contemporánea, como la economía de la atención, la regulación de plataformas digitales, las narrativas visuales digitales en el periodismo, el discurso metaperiodístico, la cultura deportiva televisiva, los métodos interpretativos para las ciencias sociales públicas y las estrategias de investigación sobre élites en una sociedad digitalizada. En conjunto, los textos evidencian la importancia de enfoques transnacionales, estudios de caso interamericanos y rigor metodológico para comprender fenómenos comunicacionales en contextos democráticos y digitales. El dossier también reconoce el legado de José Marques de Melo y el liderazgo de Sonia Virgínia Moreira en la consolidación del Coloquio, resaltando la continuidad de una colaboración académica que impulsa el desarrollo teórico y metodológico de los estudios de la comunicación en Brasil y Estados Unidos.

Palabras-claves
Cooperación académica internacional; Estudios comparados de comunicación; Sociedad digital

Este dossiê celebra 20 anos de encontros e colaboração acadêmica entre pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos (Intercom/ 2026a). Desde 2004 professores brasileiros e americanos participam deste importante esforço no campo da Comunicação que tem beneficiado gerações de estudiosos reunindo pesquisadores das Américas em uma parceria acadêmica muito especial. O fruto desses trabalhos não se resume aos encontros regulares a cada dois anos, incluindo as reuniões realizadas via Zoom durante a pandemia de COVID-19. Os frutos também não se limitam a publicações, embora estas tenham resultado da importância dos marcos acadêmicos. De fato, como mostra este dossiê da INTERCOM – Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, o Colóquio Brasil-Estados Unidos de Estudos da Comunicação continua a produzir conteúdo acadêmico que reflete uma relação muito especial, que atua como um impulso contínuo para a solidariedade internacional e o intercâmbio de conhecimento (INTERCOM, 2026b).

O primeiro artigo do dossiê é do palestrante principal do Colóquio em 2025: Silvio Waisbord. O professor Waisbord faz parte do corpo docente da Universidade George Washington, em Washington, D. C., onde é professor na Escola de Mídia e Relações Institucionais. Suas várias contribuições internacionais são numerosas demais para serem citadas (Saad e Ramos, 2021), mas incluem a função de editor do International Journal of Communication e ex-presidente da Associação Internacional de Comunicação (ICA na sigla em inglês). O título do seu artigo é “Comunicação, democracia e a tirania da economia da atenção” e nele Waisbord reúne uma importante análise da economia da atenção no que se refere às práticas da comunicação e ao bem-estar democrático. Concentrando seu olhar nos recursos da atenção, Waisbord argumenta que colocar a economia da atenção no centro da análise comunicativa é vital para compreender a “atenção algorítmica na sociedade digital”, que nos permite investigar “expressão, diálogo, (des)informação e outros fenômenos comunicativos” na Era da IA (Waisbord, 2019). Como ele deixa claro, sem uma compreensão adequada da atenção como recurso humano, não podemos entender de que modo a comunicação ocorre por meio da mídia digital, redes e similares. Porque, embora a mídia digital nas sociedades democráticas permita a transmissão praticamente ilimitada de conteúdo, o valor do conteúdo só é percebido quando recursos escassos de atenção estão garantidos. Em suas palavras: “Qualquer tipo de comunicação, formato ou intenção exige atenção; caso contrário, não tem alcance ou impacto. Sem atenção, a expressão é pura expressão — uma manifestação de ideias, sentimentos, sensibilidades —, mas não necessariamente comunicação, pois não tem público ou interlocutores. Para que a comunicação exista é necessário a atenção”.

O conceito de atenção está implícito no próximo artigo, “Dinâmica dos grupos de interesse na regulamentação das plataformas digitais no Brasil: esforços para estabelecer regras sobre as receitas das notícias online”, de Jonas Valente (Oxford Internet Institute), Renata de Oliveira Miranda Gomes (Universidade de Illinois Urbana-Champaign) e Fernando Oliveira Paulino (Universidade de Brasília). Assim como Waisbord destaca a importância dos recursos da atenção, Valente et al. mostram como a crise na receita publicitária é estimulada por essa mudança. Eles afirmam: “A concentração da distribuição de conteúdo online e da receita publicitária pelas plataformas mudou fundamentalmente o cenário da mídia tradicional, gerando uma crise para os editores que dependiam dessas receitas”. Os autores deixam claro que os formuladores de políticas estão apenas começando a lidar com regulamentações que há muito são moldadas por “grupos de interesse poderosos e concorrentes”. Como o artigo deixa claro, à medida que a revolução digital se acelera, “o cerne dessa batalha está na redistribuição do valor econômico e no estabelecimento de novas regras de mercado para lidar com o poder de barganha desigual entre a mídia tradicional e os gigantes digitais”.

As implicações da mudança para a mídia digital também ficam claras no artigo “Estrutura para a construção de uma narrativa visual digital no jornalismo: diálogo interamericano na produção de conhecimento”. Da atenção à democracia e às políticas, esta contribuição oferece uma comparação significativa das narrativas visuais digitais no jornalismo, graças às percepções das autoras Cristiane Fontinha Miranda (Universidade Federal de Santa Catarina – Florianópolis, SC, Brasil) e Maria José Baldessar (Universidade Federal de Santa Catarina – Florianópolis, SC, Brasil). O estudo “aborda o desafio de adaptar o jornalismo tradicional à complexidade da web, empregando teorias do Design Emocional, Design de Interface e do Design Thinking para propor uma estrutura conceitual que oriente esse processo”. Com base na experiência das autoras em metodologias qualitativas, elas oferecem dados comparativos bastante ricos a partir de entrevistas com profissionais e acadêmicos de jornalismo no Brasil e nos Estados Unidos. Ao fazer isso, elas nos mostram a importância de adotar “perspectivas comparativas e interdisciplinares sobre a produção de conteúdo convergente para múltiplas plataformas e dispositivos”.

A perspectiva comparativa também está no centro do artigo “Tendências nas análises de discursos metajornalísticos na cobertura política brasileira por jornais estadunidenses”, de Marcos Paulo da Silva (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – Campo Grande, MS, Brasil). Dando continuidade ao tema da evolução profissional nos campos jornalísticos brasileiro e americano, da Silva apresenta uma análise do “discurso metajornalístico na cobertura política brasileira por jornais dos EUA. O discurso metajornalístico é definido como o de profissionais envolvidos em discussões, tanto dentro quanto fora da profissão, sobre seus fundamentos normativos”. Por meio de uma comparação entre os dois países vemos como as suposições normativas no campo do jornalismo têm implicações abrangentes no tratamento dos temas políticos, em particular questões e líderes populistas, o que é oportuno e relevante tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Por fim, o autor revela como os diversos marcos legais moldam o setor em cada país, um ângulo de grande valor para os leitores.

Aprofundando a comparação entre áreas profissionais, o artigo seguinte dá continuidade à comparação transnacional entre esportes nos dois países. O artigo é intitulado “Mídia e Cultura Esportiva: o esporte na TV aberta do Brasil e dos Estados Unidos”, de Ana Paula Goulart de Andrade (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – Seropédica, RJ, Brasil) e Igor Vieira Ferreira (Universidade Federal Fluminense – Niterói, RJ, Brasil). Com base nos marcos teóricos estabelecidos por Berger e Luckmann, os autores examinam a importância da televisão na criação de uma subcultura profissional significativa tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Eles oferecem uma comparação detalhada entre a transmissão esportiva brasileira e americana pore meio da análise de estudos de caso de programação paralela em cada país (Esporte Espetacular, da TV Globo, e One Team: The Power of Sports, da NBC). Os autores constatam que há “semelhanças e diferenças na produção, circulação e consumo de conteúdo audiovisual esportivo”. E também que o resultado disso é uma “interface entre cultura, esporte e mídia audiovisual” que leva a uma concepção distinta de esporte e sociedade nos dois países.

Como mostram esses projetos transnacionais em estudos de comunicação, pesquisadores no Brasil e nos Estados Unidos compartilham um compromisso permanente com a excelência em métodos de pesquisa (ROBINSON et al., 2017). O próximo artigo é “Ferramentas para as Ciências Sociais Públicas na era digital: Estratégias interpretativas para a análise de conteúdos de interesse público”, de Laura Robinson (Universidade de Santa Clara – Santa Clara, Califórnia, Estados Unidos). Robinson amplia esse tema para examinar o crescimento das plataformas digitais no Brasil e nos Estados Unidos que podem não estar sendo consideradas adequadamente nas abordagens de big data. Robinson argumenta que o uso da codificação automatizada e outras estratégias não é ideal para os pesquisadores que “contribuem para as ciências sociais voltadas para o público, nas quais a narrativa, os relatos (o contar histórias) e o discurso natural são destaque”. Robinson oferece uma abordagem diferenciada para as estratégias de análise de conteúdo a pesquisadores da área qualitativa orientados para a interpretação: “Ao fornecer ferramentas metodológicas replicáveis para analisar dados de forma interpretativa, esta pesquisa oferece um conjunto de ferramentas para investigadores qualitativos envolvidos em ciências sociais públicas em uma era de confrontos políticos”.

Por fim, o artigo que fecha este dossiê com textos selecionados do Colóquio Brasil-Estados Unidos em 2025 é “Estudando as elites antigas e novas: as elites em uma sociedade em processo de digitalização” / “Studying Elites Old and New: Elites in a Digitizing Society”, de Jeremy Schulz (Universidade da Califórnia em Berkeley – Califórnia, Estados Unidos). Dando continuidade à comparação entre países, Schulz prossegue a discussão sobre métodos rigorosos das ciências sociais, essenciais para os estudiosos da comunicação. Concentrando sua atenção nas elites na era digital, Schulz não apenas oferece um modelo para amostragem, recrutamento e entrevista de membros de vários tipos de elites, mas também “mostra como várias estratégias de recrutamento e entrevista podem ser adaptadas para aproveitar as plataformas digitais contemporâneas, a fim de identificar e recrutar indivíduos que não estão vinculados a locais de trabalho ou organizações específicas”. Como Schulz conclui, essas estratégias se tornarão cada vez mais importantes para entender melhor tanto as elites digitais profissionais quanto as elites mais intangíveis que povoam a criação contemporânea de conteúdo e as plataformas de trabalho temporário.

Para concluir, é preciso registrar a importância, mais do que nunca, de manter nosso foco nas conexões globais compartilhadas pelo Brasil e pelos Estados Unidos, em vez de sucumbir à tentação de nos preocuparmos com o que está “perto de casa” em nossos próprios contextos nacionais. Como podemos ver, os artigos são marcados pela recorrência de várias abordagens importantes para a pesquisa em comunicação: comparação constante, estudos de caso transnacionais e métodos rigorosos, todos destacando semelhanças e diferenças entre os Países do Futuro, Brasil e Estados Unidos. A edição deste dossiê especial destaca o compromisso não apenas com esses sete artigos, mas com os 20 anos de aprimoramento e atenção a partir da proposta original do professor José Marques de Melo (in memoriam), liderada nos estudos comparados entre os dois países por Sonia Virgínia Moreira, que compartilhou essa jornada com os pesquisadores parceiros americanos Joseph Straubhaar (Universidade do Texas em Austin), Vicki Mayer (Universidade de Tulane, em Nova Orleans), John Baldwin (Universidade do Estado de Illinois, em Normal), Samantha Joyce (Saint Mary’s College da Califórnia) e Laura Robinson (Universidade de Santa Clara, na Califórnia), bem como gerações de estudiosos no Brasil e nos Estados Unidos.

  • Sistema duplo cego
  • Financiamento:
    CNPq e CAPES
  • Artigo submetido à verificação de similaridade
  • Editoração e marcação XML:
    IR Publicações
  • Como citar:
    MOREIRA, S. V. e ROBINSON, L. Comemorando duas décadas de parceria acadêmica: Colóquio Brasil - Estados Unidos de estudos da comunicação. São Paulo: INTERCOM - Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, v. 48, e2025119. https://doi.org/10.1590/1809-58442025119pt
  • A REVISTA INTERCOM incentiva o compartilhamento de dados mas, por observância a ditames éticos, não demanda a divulgação de qualquer meio de identificação de sujeitos de pesquisa, preservando a privacidade dos sujeitos de pesquisa. A prática de open data é viabilizar a reproducibilidade de resultados, e assegurar a irrestrita transparência dos resultados da pesquisa publicada, sem que seja demandada a identidade de sujeitos de pesquisa.

Disponibilidade dos Dados:

Todos os dados que fundamentam este artigo encontram-se no corpo do texto.

Referências

  • INTERCOM. Colóquio Brasil-EUA (histórico). Disponível em: https://portalintercom.org.br/coloquios/historico/ Acesso em: 9 jan. 2026.
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  • INTERCOM. Brazil-US Colloquium on Communication Studies 2004-2021. Disponível em: http://www.emeraldmediastudies.com/Brazil-US-Colloquium.html Acesso em: 9 jan. 2026.
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  • SAAD, E.; RAMOS, D. Silvio Waisbord: diversidade e fragmentação – o campo da comunicação como uma pós‑disciplina e seus desdobramentos na contemporaneidade. Matrizes, São Paulo, v. 15, 2021. Disponível em: https://revistas.usp.br/matrizes/pt_BR/article/view/186265/172238 DOI: (dx.doi.org in Bing). Acesso em: 9 jan. 2026.
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  • WAISBORD, S. Communication: A post-discipline. Cambridge: Polity Press, 2019.
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    Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    11 Out 2025
  • Aceito
    01 Dez 2025
  • Publicado
    30 Dez 2025
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