Open-access NARRATIVAS TRANSMÍDIA PARA O PATRIMÔNIO, CULTURA E MEMÓRIA DE INTERESSE PÚBLICO DA CIDADE DE SÃO BERNARDO DO CAMPO NO ABC PAULISTA

Narrativas Transmedia para la Comunicación del Patrimonio Cultural y la Memoria de la Ciudad de São Bernardo do Campo en ABC Paulista

RESUMO

O patrimônio cultural é uma temática contemporânea relevante e deve ser repensado de modo mais inclusivo, incluindo as memórias dos habitantes das cidades, a fim de assumir formas narrativas contemporâneas que valorizem a comunicação de interesse público do patrimônio com sua própria comunidade local. Com uma abordagem qualitativa, de delineamento documental, com referencial teórico-metodológico alinhado aos Estudos Culturais, esse trabalho busca apontar as possibilidades da comunicação transmídia na disseminação do patrimônio cultural da cidade de São Bernardo do Campo, no Estado de São Paulo, formulado por meio das narrativas orais e fotográficas de moradores da cidade. Os resultados da pesquisa possibilitaram o desenvolvimento do produto transmídia Caçadores de Histórias do ABC, e indicam o potencial inovador das narrativas orais e fotográficas para estudos de comunicação de interesse público para a valorização do patrimônio, da memória e da cultura das cidades.

Palavras-Chave
patrimônio cultural; memória social; interesse público; narrativas transmídia; cidade de São Bernardo do Campo

ABSTRACT

Cultural heritage is a relevant contemporary theme and must be rethought in a more inclusive way, to give visibility to new narratives evidenced by the memories of the inhabitants of the city of São Bernardo do Campo, and to assume contemporary narrative forms to enhance the communication of cultural heritage of public interest with their own local community. With a qualitative, documentary approach, and a theoretical-methodological framework aligned with Cultural Studies, this work seeks to point out the possibilities of transmedia communication in the dissemination of cultural heritage, formulated through the oral and photographic narratives of residents of the city. The research results enabled the development of the transmedia product Caçadores de Histórias do ABC and indicate the innovative potential of oral and photographic narratives for communication studies of public interest for the appreciation of the heritage, memory and culture of the cities.

Keywords
cultural heritage; social memory; public interest; transmedia storytelling; city of São Bernardo do Campo

RESUMEN

El patrimonio cultural es un tema contemporáneo relevante y debe ser repensado de manera más inclusiva, para dar visibilidad a las nuevas narrativas evidenciadas por las memorias de los habitantes de la ciudad de São Bernardo do Campo, y asumir formas narrativas contemporáneas para valorar la comunicación de interés público del patrimonio con su propia comunidad local. Enfoque cualitativo, documental, y un marco teórico-metodológico alineado con los Estudios Culturales. Busca señalar y explorar las posibilidades de la comunicación transmedia en la difusión del patrimonio cultural, formuladas a través de las narrativas orales y fotográficas de los habitantes de la Ciudad. Los resultados de la investigación posibilitaron el desarrollo del producto transmedia Caçadores de Histórias do ABC e indican el potencial innovador de las narrativas orales y fotográficas para estudios de comunicación de interés público para la valorización del patrimonio, la memoria y la cultura de las ciudades.

Palabras clave
patrimonio cultural; memoria social; interés público; narración transmedia; ciudad de São Bernardo do Campo

Introdução

Na contemporaneidade, as mudanças socioculturais impulsionadas pelas novas tecnologias de informação e comunicação originaram novas narrativas e uma cultura participativa que favorece o desenvolvimento e a aplicação de estratégias de transmidialidade em diversas áreas além do entretenimento, tais como a educação e a cultura. Destaca-se o patrimônio cultural, que está diretamente relacionado com a memória, a cultura, e a comunicação, e que consiste na preservação de significados, tornando “visível” a dimensão “invisível” da cultura, o que ocorre por meio dos artefatos materiais e/ou saberes, fazeres e práticas existentes na vida social que podem se constituir em referências que remetem à identidade e à memória de grupos específicos, sendo um recurso para o desenvolvimento das cidades, conforme prescrito no artigo 216, da Constituição de 1988 (Brasil, 1988).

O patrimônio cultural constitui-se como um campo de relações e disputas em que vários atores sociais estão envolvidos e pode ser considerado de interesse comum e direito de todos os cidadãos, segundo Held (apud McQuail, 2012), o que pressupõe a necessidade de ações de comunicação no sentido de valorizar tal patrimônio como um bem maior. Desse modo, torna-se relevante repensar a questão do patrimônio cultural de modo mais inclusivo e sob a perspectiva de novas narrativas, tornando-o mais permeável à sociedade como um todo, possibilitando o envolvimento de uma coletividade maior na produção e compartilhamento de narrativas relacionadas a sua memória social, assim como a reflexão, o debate e a decisão acerca da salvaguarda de bens culturais que levem em consideração a apropriação dos espaços pelas pessoas em seu cotidiano e que são imprescindíveis para a conformação da identidade cultural dessas comunidades, uma vez que é por meio deles que os significados e saberes da cultura são compartilhados.

Dentre essas narrativas podemos pensar na transmídia por se constituir em formas narrativas contemporâneas que se caracterizam por seus desdobramentos narrativos em múltiplas plataformas de comunicação, com discursos que podem ser de natureza verbal, visual-verbal, verbal-sonoro ou audiovisual, a partir dos quais a história se apresenta por múltiplas mídias e plataformas de comunicação, envolvendo a participação ativa de seus usuários/interatores (Scolari, 2013; Santaella, 2018).

Segundo Bourdaa (2018), o uso da transmídia no campo do patrimônio cultural possibilita contar histórias que valorizam o patrimônio e a cultura. As narrativas transmídia se fazem presente em diversos museus e instituições culturais do mundo que buscam atrair um público mais amplo, particularmente mais jovem, por produzirem maior interação, imersão e/ou engajamento dos participantes em mundos de histórias factuais. Além disso, o uso das narrativas transmídia se justifica pelo fato de que a ação de disseminar histórias em múltiplas plataformas de mídias possibilita alcançar públicos diversos e permite que tais públicos exerçam um papel ativo no debate, criação, produção e compartilhamento de conteúdos para a valorização do patrimônio cultural da sua comunidade.

É relevante considerar que as narrativas transmídia possibilitam que os usuários possam experienciar a história de modo mais dinâmico e participativo, contribuindo para a motivação e engajamento em ambientes narrativos, que “independente da forma, exploram histórias de experiências, e essas experiências são fundamentais para constituir a memória, a comunicação e o próprio conhecimento dos sujeitos” (Field, 2009 apud Busarello, 2016, p.10).

Sendo assim, esse artigo tem o propósito de apresentar o produto Caçadores de Histórias do ABC, para apontar as possibilidades das narrativas transmídia na disseminação do patrimônio cultural da cidade de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, dando visibilidade a novas narrativas de patrimônio elaboradas a partir das memórias dos habitantes da cidade. Tais memórias são representadas por meio das narrativas orais de história de vida (Perazzo, 2015) e relatos obtidos a partir de fotografias, à própria comunidade local, como uma memória de interesse público, ou seja, aquela que se torna visível, que vem à aparência, que pode ser vista e ouvida por todos, como define Hannah Arendt (Arendt, 2000 apud Schittino, 2016, p.38).

A concepção e a construção do produto transmídia Caçadores de Histórias do ABC resulta de uma pesquisa qualitativa, de caráter documental (Chizzotti, 2000; GIL, 2008), com a busca, seleção e análise de narrativas orais e fotográficas que evocam memórias da cidade, obtidas em acervos de instituições de referência e de pesquisa na área de patrimônio, memória e cultura relacionadas à de São Bernardo do Campo, tais como o acervo de depoimentos de narrativas orais de história de vida do sistema digital HiperMemo, da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), e o Banco de História Oral e Acervo Online de fotografias do Centro de Memória da Prefeitura de São Bernardo do Campo, assim como grupo da rede social Facebook Fotos Antigas de São Bernardo do Campo, que contém narrativas de moradores da cidade e região.

As narrativas orais e fotográficas obtidas na pesquisa documental foram analisadas de modo integrado, com a seleção de trechos e “falas” contextualizados, a partir de critérios propostos por Kossoy (2014) com ênfase à análise iconológica, buscando aspectos relacionados ao conteúdo que contribuíram para a produção de sentido das imagens fotográficas, em conjunto com as categorias e/ou elementos que compõem a imagem de uma cidade, propostos por Lynch (1997).

A pesquisa e o produto transmídia Caçadores de Histórias do ABC foram elaborados com um referencial teórico-metodológico que parte da estreita relação entre as concepções de comunicação, cultura e a identidade e da inter-relação entre comunicação, memória e cidade alinhados com a perspectiva dos Estudos Culturais, os quais, por sua vez, fornecem os subsídios para a apreensão da imagem da cidade de São Bernardo nas memórias de interesse público, produzidas por meio das narrativas orais e fotográficas dos habitantes da Cidade, possibilitando o desenvolvimento da dinâmica e especificidades de conteúdo das narrativas transmídia para a comunicação do patrimônio cultural dessa cidade.

Comunicação, Cultura e Identidade

Os Estudos Culturais abordam e integram temáticas relacionadas à cultura, à comunicação, à identidade e à memória, considerando a relação entre elas. Nessa perspectiva, a “cultura” está vinculada a quaisquer produções e/ou práticas simbólicas do ser humano em seu cotidiano, uma vez que estas são as principais articuladoras dos processos identitários e de construção da realidade percebida no mundo. Os meios de comunicação podem ser considerados como produção cultural inserida em contexto histórico e social particular.

Em suas reflexões sobre comunicação, cultura e identidade, Giménez (2011) afirma que as fronteiras entre comunicação e cultura se diluem na medida em que a cultura pressupõe e é comunicação: qualquer ato comunicativo não transmite apenas uma mensagem, mas é um fenômeno social que implica na existência de uma cultura expressa no processo de interação entre os indivíduos ou grupos sociais. Cultura e identidade são conceitos indissociáveis pois os processos identitários estão presentes e são constituídos pelos contextos culturais e, ainda, pelo tipo de relação social existente entre os interlocutores. Se a identidade social modula e condiciona o processo comunicativo, este último é determinante para a construção da identidade social que, por sua vez, é formada a partir de representações sociais e/ou memórias compartilhadas.

A identidade envolve sempre um “posicionamento”, como sustenta Hall (1996), colocando a questão da inexistência de uma identidade única, hegemônica, mas de uma identidade pensada “como uma ‘produção’ que nunca se completa, que está sempre em processo (“identificação” ao invés de identidade), e é sempre constituída interna e não externamente [às formas de] representação” (Hall, 1996, p. 65), o que inclui as práticas culturais, as significações, os sistemas simbólicos que possibilitam a produção de significados e o “posicionar-se” como indivíduo. Desse modo, a identidade está sempre “em contexto”, ou em uma cultura compartilhada, ou seja, em sistemas culturais que unificam os indivíduos em quadros de referência. Tal noção de identidade é socialmente construída, articula o passado ao presente e se desdobra para o futuro, sendo constituída tanto por discursos públicos quanto pelas próprias práticas e experiências dos sujeitos, inseridos num contexto social e histórico, que possibilitam o “pertencimento” desses sujeitos a culturas étnicas, linguísticas, entre outras.

A identidade envolve “identificações” e pode ser pensada como um processo que envolve “mediações”: os meios de comunicação são mediadores na construção de identidades e na conformação de comunidades, concebidas por meio de “interações comunicativas” (Martín-Barbero, 2003).

Tais interações, por sua vez, acontecem num contexto de “hibridismo cultural”, ou seja, constituem-se pela inter-relação complexa entre tradições existentes e as modernidades, diversas e desiguais, coexistentes nos países latino-americanos. E que envolvem a cidade e o ambiente rural, articulados pela mídia eletrônica, que estabelece uma nova estrutura (fragmentada) e novos fluxos nos espaços urbanos. Desse modo, as identidades culturais surgem “não como uma essência intemporal que se manifesta, mas como uma construção imaginária que se narra” (Canclini, 1999, p.148), constituindo-se como uma narrativa que se constrói e se reconstrói continuamente por diversos atores sociais.

Comunicação, Memória e Cidade

A memória social envolve um sistema de significados, um sistema cultural que é construído ao longo do tempo e se constitui como um conjunto de processos e narrativas sociais e históricas, de expressões, de experiências vividas no espaço e no tempo. É referencial importante para a construção da identidade individual ou coletiva, oferecendo certa estabilidade e fixação da identidade estabelecida, mesmo que seja imaginária (Le Goff, 1994). A memória pode ser cultural e comunicativa. A primeira possibilita a construção de uma narrativa do passado e, consequentemente, atua no processo de formação da imagem e da identidade de nós mesmos. A dinâmica na memória cultural está relacionada a formas, transições e transformações que envolvem a memória comunicativa, que seria aquela que vive na interação cotidiana (Assmann, 2016).

Nos ambientes digitais, estudos recentes ampliam as conceituações sobre a memória social, considerando a memória vivida, do tempo presente, que dilata o instante presente, se caracteriza pelo imediatismo, quando os acontecimentos são narrados e vivenciados ao mesmo tempo (Virillo, 2006).

As narrativas de memória, construídas e reconstruídas a partir de fragmentos compartilhados na rede, acontecem a partir dos objetos criados pelas tecnologias digitais, da disposição/organização de tais objetos nas interfaces e das possibilidades e ações relativas ao seu acesso, envolvendo as “memórias mediadas” (Dijck apud Falci, 2013).

Os estudos conduzidos por Casalegno (2006) postulam que a memória social se constitui como uma rede e é modelada quando toda a coletividade (ou comunidade) pode acessá-la e nutri-la, atuando como uma inteligência coletiva nos moldes de Lévy (1999) e promovendo o compartilhamento da memória cotidiana e informal, além da “histórica” e formal e, principalmente, da memória vivida, lembrada e interpretada pelas pessoas que participam da sua criação, formando comunidades. As memórias produzidas em ambientes on-line podem ser consideradas como memórias inacabadas, em contínua construção e que envolvem a produção de novos acontecimentos.

Diversos estudos nessa temática exploram também a questão dos espaços, lugares, artefatos e das relações do cotidiano que interferem na memória e a importância de lugares e memórias para a configuração das comunidades físicas e/ou digitais, das culturas e das relações sociais.

Estudos de Urbanismo indicam que a imagem de uma cidade está diretamente relacionada às associações que cada cidadão faz de partes dessa cidade e que está impregnada de memórias e significados, que podem ser articulados pela inter-relação de cinco elementos: vias, limites, bairros, cruzamentos e pontos marcantes (Lynch, 1997).

Mitchell (2006) explora o conceito de “simbiose” entre o ambiente físico e o digital, sugerindo uma “simbiose” de memórias, que vivenciadas no ambiente físico são recombinadas àquelas que acontecem por meio de mídias digitais e se complementam pela socialização e compartilhamento da informação.

Diante desse cenário contemporâneo, Massey (2000) propõe uma nova forma de pensar o conceito de lugar, cujas especificidades provém de redes de relações sociais, sendo que cada lugar pode ser observado como um ponto particular, único, como um momento de articulação dessa rede, que contém uma constelação particular de relações sociais que se encontram e estão entrelaçadas, como um “lugar de encontro”.

As cidades também podem ser relacionadas à metáfora do palimpsesto, à medida em que se constituem como ambientes (e lugares) com diversas inscrições e camadas que guardam indícios ou traços de memórias que sintetizam experiências e vivências ao longo da história (Nunes, 2014).

A Imagem da Cidade de São Bernardo do Campo nas Memórias de Interesse Público

A imagem da cidade de São Bernardo do Campo deve ser pensada como uma rede de associações, memórias e significados que os moradores atribuem aos espaços urbanos e às edificações da cidade, que pode ser disseminada, cultivada e revivida por diferentes gerações, constituindo-se a partir das “memórias de interesse público”, produzidas a partir de narrativas orais e de relatos obtidos a partir de fotografias.

O emprego de narrativas produzidas pela oralidade é uma questão relevante nos dias atuais, uma vez que atua como texto social que fornece indícios das experiências do cotidiano e da imaginação presente na cultura. A aplicação dos métodos da história oral tem sido cada vez mais valorizada nas ciências humanas e sociais e, especificamente, na área de Comunicação, uma vez que se trata de um campo interdisciplinar que tem como base a interação humana, fornecendo um suporte para os estudos da memória e das narrativas orais de história de vida, e sua inter-relação com os processos comunicacionais e com a cultura (Perazzo, 2015).

De acordo com Perazzo (2015), tais narrativas não são menos verdadeiras do que as existentes nas histórias oficiais, mas resultam da subjetividade de cada narrador que, a partir de fatos objetivos, elabora seu próprio relato, selecionando o que faz sentido ao longo de sua trajetória de vida, de acordo com a percepção que tem de si mesmo e da realidade. As narrativas de história de vida introduzem inovações e ampliações nas pesquisas da área de Comunicação pois possibilitam “a compreensão dos múltiplos sentidos, dos processos de comunicação e de sua ligação com o cotidiano, com a memória e com as diversas práticas sociais” (Perazzo, 2015, p.123).

Associada às narrativas orais, os relatos evocados a partir das fotografias atuam como um texto visual que envolve o autor, o leitor e o próprio texto, considerando ainda que as imagens fotográficas se constituem em fontes de reconstituição histórica e de memória de abrangência multidisciplinar, que suscitam a possibilidade de construção de diversas narrativas.

Segundo Kossoy (2004), a fotografia constitui-se num meio de conhecimento relevante que registra visualmente micro-aspectos relacionados a cenários, fatos e personagens, atuando com força documental e expressiva para a fixação da memória individual e coletiva das experiências vivenciadas por indivíduos e grupos sociais nos espaços urbanos das cidades.

As figuras exibidas a seguir (de 1 a 5) exemplificam as narrativas orais e relatos obtidos a partir das fotografias evocados pelas memórias dos moradores da cidade de São Bernardo do Campo.

Figura 1
Centro de São Bernardo na década de 1960

De acordo com as narrativas encontradas, a imagem da cidade de São Bernardo do Campo está associada às memórias que se relacionam à configuração geral da cidade e seu tamanho, estruturado pela percepção de seus limites que, até a década de 1950, envolviam a mancha urbana que se estendia do centro até os bairros do Baeta Neves, de um lado, e de outro, da indústria Volkswagen até o Departamento de Rodagem, quando da construção da via Anchieta. Essa configuração resulta de uma série de vivências e memórias relacionadas às condições de mobilidade dos moradores, principalmente junto à área central da cidade em seu cotidiano, sendo que outros bairros mais distantes e/ou contíguos ao centro, como o Assunção e o Baeta Neves, são lembrados e/ou mencionados quer por suas características próprias, quer por terem sido localidades de moradia de vários dos depoentes.

Figura 2
Rua Marechal Deodoro, década de 1950

A imagem da cidade de São Bernardo do Campo está fortemente associada às condições iniciais de formação do povoado, que remetem à sua condição de passagem, estabelecida pela existência do antigo Caminho do Mar, hoje conhecido como rua Marechal Deodoro e imediações. A cidade é rememorada pelas vias e cruzamentos existentes na área central, onde está a Rua Marechal Deodoro, e suas imediações, tais como a rua Jurubatuba e o Largo da Matriz (Fig.s 1 e 2). Essa via está indissociavelmente ligada ao desenvolvimento da cidade desde os seus primórdios e articula a maior parte das referências da área central que compõem o imaginário coletivo acerca de São Bernardo do Campo, articulando interações sociais que envolvem o sagrado/religioso, o artístico/cultural e o industrial, conferindo sentido e identidade na vida cotidiana e garantindo a legibilidade da paisagem urbana/cultural da cidade.

Tendo como ponto de partida a Rua Marechal Deodoro e suas imediações, é possível destacar algumas edificações que se constituem como referências importantes, tais como as edificações de cunho religioso, como a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição da Boa Viagem (Fig. 2), a Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem e a Capela de Santa Filomena, que estão estreitamente vinculadas à história de São Bernardo do Campo desde a sua fundação, e ainda mantém diversas celebrações religiosas e diversas práticas sociais e/ou simbólicas que movimentam os espaços urbanos e promovem o senso de pertencimento dos moradores à cidade.

Figura 3
Antiga Igreja Matriz Nossa Senhora da Boa Viagem (1930)

Tal como um palimpsesto, como postula Nunes (2006), a cidade de São Bernardo do Campo reúne elementos de diferentes épocas, envolve várias camadas ou inscrições no tempo e no espaço, que guardam indícios ou traços de memórias que revelam experiências e vivências ao longo da história da cidade, e que possibilitam que referências do passado coexistam e sejam articuladas no presente.

Figura 4
Cine São Bernardo, Rua Marechal Deodoro, 1967

Como rastros que evocam lembranças de uma presença que não existe mais, essas memórias possibilitam resgatar narrativas orais evocadas a partir das fotografias que evidenciam que um grande número de edificações rememoradas e valorizadas como bens culturais, práticas sociais, artísticas e culturais associadas à edificações que ainda fazem parte do imaginário e da memória social dos moradores da cidade.

Dentre esses bens, destacam-se as edificações que abrigaram atividades de caráter artístico-cultural durante as décadas de 1940 a 1960, como o Cine São Bernardo (Fig. 4), o Cine Anchieta, o Estúdio Cinematográfico Vera Cruz e a Rádio Independência, entre outras que hoje são fisicamente inexistentes, relacionadas às atividades laborais, como as que abrigam as fábricas de móveis no começo do século XX (Fig. 5).

As narrativas estudadas reforçam parte da história da cidade de São Bernardo do Campo que ainda hoje se faz presente quando há menção de seus elementos urbanos, deixando nítida a associação que há do entorno na formação de uma lembrança. Tal associação impulsiona a importância desses elementos/locais para a história e a cultura locais, tornando a cidade uma construção coletiva feita a partir do olhar das pessoas que nela residem. Como construção coletiva, a cidade envolve, portanto, a inter-relação de memórias, fatos e lugares, que se constituem a partir de práticas sociais.

Figura 5
Fábrica de Móveis e Cadeiras Cassetari & Comp, em 1923

As narrativas orais e os relatos das lembranças evocadas pelas fotografias indicam claramente que a rua Marechal Deodoro é uma via de referência para a memória urbana local. Dada a sua apropriação por grupos sociais de diversas localidades, essa via se constitui num lugar de memória formado por uma multiplicidade de sentidos e por uma rede de memórias a eles associados, que ocorrem a partir da repetição de práticas e discursos de diversas manifestações culturais que alimentam o imaginário social e se constituem como marcas identitárias da cidade ao longo de sua história. Desse modo, a rua Marechal Deodoro se constitui como um lugar de memória representativo para a cidade que, conforme Massey (2000), pode ser observado como um lugar de encontro, no qual se entrelaçam relações e práticas sociais que produzem identidades plurais, definindo sua especificidade como lugar, continuamente (re)produzido.

Como um dos resultados da pesquisa é interessante observar que grande parte das lembranças evocadas e publicadas sob a forma de comentários são fragmentadas, estabelecem vínculos comunicativos entre os participantes do grupo e se caracterizam pelo grau de inacabamento. As memórias evocadas pelas fotografias na rede social são continuamente construídas, havendo uma “simbiose de memórias”, como indica Mitchell (2006), uma vez que as memórias vivenciadas no ambiente físico são recombinadas àquelas que acontecem a partir da observação das imagens fotográficas, e se complementam pela socialização e compartilhamento da informação. Nesse processo, existe a produção de novos sentidos e a construção de novas memórias que modelam a imagem da cidade de São Bernardo do Campo.

Dessa forma, é importante considerar as estratégias utilizadas pelas comunidades para construir e conservar suas memórias na elaboração de produtos de comunicação de interesse público, que contemplem a visibilidade e a apropriação dessas memórias pela própria comunidade em mídias digitais.

5. A Cidade de São Bernardo do Campo pelas Narrativas Transmídia

Seguindo o percurso teórico-metodológico e os resultados obtidos pela pesquisa documental, foram analisados alguns produtos transmídia em ambientes digitais voltados ao patrimônio cultural e estabelecidas algumas estratégias e elementos visuais e sonoros que possibilitam a navegação, interatividade, hipertextualidade, consideradas como essenciais para o desenvolvimento de narrativas transmídia voltadas para o patrimônio cultural.

Tendo como base as questões anteriormente apresentadas sobre a necessidade de valorização e disseminação do patrimônio cultural e sua relação com a memória social, por meio do uso das narrativas orais de história de vida e dos registros fotográficos, o produto desenvolvido a partir da pesquisa consiste na produção de narrativas transmídia que articulem as memórias de interesse público da cidade de São Bernardo do Campo, por meio de um website e perfis em duas redes sociais: o Instagram e o Tik Tok.

Esse produto busca atingir um público amplo e de perfil diversificado, deve contemplar a fragmentação das histórias no tempo e seus desdobramentos nessas plataformas, as associações textuais que fornecem informações sobre a histórias, e a diversificação de modos de representação dessas histórias, assim como possibilitar a interação, o acesso e a coparticipação de indivíduos/usuários de diversas idades e níveis sociais na criação, publicação, compartilhamento e organização de conteúdos relacionados, promovendo construção social do conhecimento eformação de rede coletiva de memória baseada em narrativas orais de história de vida e sua relação com os espaços urbanos e a arquitetura da cidade de São Bernardo do Campo.

A obra Caçadores de Histórias do ABC consiste num produto transmídia, composto por um website (http://www.cacadoresdehistorias-abc.com.br), que contém a narrativa principal, apresentando conteúdos relacionados às memórias de interesse público dos moradores dessa cidade, obtidas pelas narrativas orais e fotográficas, além de outros materiais afins, tais como documentários, trabalhos audiovisuais e musicais, que evocam memórias sociais e urbanas relacionadas à vida cotidiana nessa cidade (Fig. 6). Está ancorado num universo narrativo que tem como cenário a área central de São Bernardo do Campo, destacando a via que contém as principais referências relacionadas à memória urbana, ao patrimônio e à cultura da cidade.

Figura 6
Tela de Abertura e menu aberto do website Caçadores de Histórias do ABC

O website é trilingue e responsivo, contém uma estrutura de navegação não linear que possibilita aos usuários/interatores a escolha de caminhos de navegação e interação com os conteúdos disponibilizados em diversas linguagens interconectadas (fotografias, vídeos, áudios, textos, infográficos), e pode ser navegado por um menu disposto na parte inferior da tela (em Memórias da Cidade: Narrativas Orais, Circuitos e Histórias e Memórias). Tem um sistema cartográfico, existente tanto nas telas dos itens que compõem Memórias da Cidade como de forma independente em Lugares de Memória. Por aí é possível acessar o acervo dos áudios de cinco moradores com imagens fotográficas que complementam tais narrativas, o acervo das fotografias de diversos lugares de memória da cidade (Circuitos), o acervo dos vídeos que apresentam diversas histórias e memórias de depoentes, documentários sobre a Cidade (Histórias e Memórias). Em Circuitos, que provém do acervo de fotografias, estas são classificadas em três circuitos temáticos ou caminhos que envolvem as categorias do sagrado/religioso, do artístico/cultural e do industrial, reunindo diversas imagens que se relacionam com as memórias e relatos de cinco personagens e, de modo geral, com as memórias de interesse público obtidas na pesquisa documental.

O sistema cartográfico se compõe de um mapa interativo da cidade, que contém informações e arquivos acessáveis pelos usuários e que são de natureza textual, visual e audiovisual das narrativas orais de história de vida e dos registros fotográficos que estão interconectados, fazendo referência aos diversos espaços urbanos das cidades relacionados à memória social, ao patrimônio e a cultura da comunidade local.

Pelo mapa, é possível aos usuários/interatores localizar e explorar os seus diversos lugares de memória que, ao serem selecionados possibilitam que o visitante tenha acesso às mesmas narrativas orais e fotografias disponibilizadas por textos, imagens, sons e vídeos, do mesmo modo que permite traçar rotas entre os diversos locais da cidade, registrando comentários e recomendações das visitações realizadas, que podem ser compartilhados com outros usuários. Pelo Website é possível contar e enviar a própria história (Sua História), assim como ganhar um bônus que consiste na criação de uma “refotografia”, ou seja, uma imagem elaborada a partir da composição de fotografias antigas e recentes de um mesmo local, que também podem ser compartilhadas. O website Caçadores de Histórias do ABC está conectado com o Instagram e o Tik Tok, e seus conteúdos podem ser compartilhados nas redes sociais.

No perfil do Instagram são disseminadas as memórias dos moradores da cidade de São Bernardo do Campo por meio da postagem de fotografias ou de trechos de vídeos com narrativas orais de história de vida de moradores da região, dispostos em temáticas específicas e relevantes que têm contribuído para o desenvolvimento da região, tais como: indústria cinematográfica, cinema, indústria automobilística, etc. Vídeos atuais realizados em diversos locais da cidade de São Bernardo do Campo, poderão ser curtidos, comentados e compartilhados pelos usuários. Cada temática apresentada poderá contar com lives, com testes, quizzes de caráter informativo e lúdico em diversos formatos (textos, imagens, animações, etc.) disponibilizados nos Stories, e também um desafio na forma de convite aos usuários para que contem uma história de vida relacionada a um local existente na cidade, enviada no formato de textos/videos e fotografias. Histórias selecionadas serão compartilhadas publicamente na própria rede social e passarão a compor a galeria de registros de memória existentes no website proposto.

No Tik Tok, muito utilizado por um público jovem na faixa entre 16 e 24 anos, são disponibilizados vídeos curtos (entre 15 a 60 segundos), em linguagem bem humorada, sobre questões que despertem a curiosidade dos usuários com relação às memórias dos espaços urbanos e da arquitetura da cidade de São Bernardo do Campo, com a utilização de testes e quizzes, de modo a permitir que os usuários possam ampliar o seu conhecimento sobre o tema, garantindo sua participação por meio de uma interação lúdica com os conteúdos nela disponibilizados. A partir desses vídeos, os usuários serão convidados a acessar as outras duas plataformas para conhecer mais sobre o assunto. Esses vídeos também deverão propor um desafio (challenge) para produção de um vídeo de curta duração, relacionado aos assuntos abordados.

O Quadro 1 lista as principais linhas de ação e especificações propostas para o produto transmídia Caçadores de Histórias do ABC.

Quadro 1
Especificações do Produto Caçadores de Histórias do ABC

Considerações Finais

A memória da cidade de São Bernardo do Campo vai sendo assim construída nas imagens formuladas nas narrativas orais de história de vida e fotografias constituídas como patrimônio cultural. Formam uma memória de interesse público acionada pela comunicação, no sentido de valorizar o patrimônio cultural local, que deve ser considerado como um direito público, um bem comum maior, de interesse comum de todos os cidadãos (McQuail, 2012).

Nesse contexto, é imprescindível dar visibilidade às novas narrativas de patrimônio que levem em consideração a apropriação dos espaços pelas pessoas em seu cotidiano, uma vez que contribuem para a conformação da identidade cultural dessas comunidades e é por meio deles que os significados e saberes da cultura são compartilhados.

Essas novas narrativas devem ser publicizadas à própria comunidade local, de modo a produzir maior envolvimento, reflexão e debate da coletividade com relação a sua própria memória pública e às decisões sobre a preservação e valorização do patrimônio local. Isso implica em considerar o acesso, a comunicação e a valorização de bens culturais por meio de formas narrativas contemporâneas, como as narrativas transmídia, que envolvam o coletivo, possibilitam o compartilhamento e a socialização da informação para a produção de novos sentidos e promovam narrativas de modo colaborativo, pela própria comunidade envolvida.

Os resultados obtidos na pesquisa, em termos teóricos e de aplicação para o desenvolvimento do produto transmídia Caçadores de Histórias do ABC, validam o potencial das narrativas transmídia elaboradas a partir de narrativas orais e fotográficas, envolvendo o interesse coletivo e/ou público na valorização e preservação da memória e da cultura associadas ao patrimônio cultural das cidades do ABC, permitindo um impacto sócio-cultural significativo para a construção da identidade coletiva local.

  • Como citar:
    GUARALDO, F., SANTA-CRUZ, L., PERAZZO, P. F. Narrativas transmídia para o patrimônio, cultura e memória de interesse público da cidade de São Bernardo do Campo no ABC Paulista. São Paulo: INTERCOM - Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, v. 48, e2025116. https://doi.org/10.1590/1809-58442025116pt.
  • Finaciamento:
    CNPq
  • sistema duplo cego
  • A REVISTA INTERCOM incentiva o compartilhamento de dados mas, por observância a ditames éticos, não demanda a divulgação de qualquer meio de identificação de sujeitos de pesquisa, preservando a privacidade dos sujeitos de pesquisa. A prática de open data é viabilizar a reproducibilidade de resultados, e assegurar a irrestrita transparência dos resultados da pesquisa publicada, sem que seja demandada a identidade de sujeitos de pesquisa.

Disponibilidade dos Dados

Todos os dados que deram base ao presente artigo encontram-se no corpo do texto.

Referências

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    19 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    23 Set 2024
  • Aceito
    09 Jun 2025
  • Publicado
    30 Out 2025
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