Open-access TENDÊNCIAS NAS ANÁLISES DE DISCURSOS METAJORNALÍSTICOS NA COBERTURA POLÍTICA BRASILEIRA POR JORNAIS ESTADUNIDENSES

Trends in metajournalistic discourse analysis in Brazilian political coverage by U.S. newspapers

Tendencias en el análisis del discurso metaperiodístico en la cobertura política brasileña por periódicos estadounidenses

RESUMO

O artigo se propõe a apresentar tendências nas análises de discursos metajornalísticos na cobertura política brasileira por jornais estadunidenses. Entende-se, a priori, o conceito de discurso metajornalístico como o engajamento de agentes do campo profissional em discussões tanto internas quanto externas à profissão sobre seus fundamentos normativos. Parte-se da hipótese de que os veículos jornalísticos estadunidenses utilizam historicamente abordagens menos ancoradas no valor do distanciamento (detachment) quando cobrem assuntos relacionados a outros países. Infere-se que a abordagem jornalística de lideranças políticas populistas ao redor do mundo que tangenciam o espectro da extrema-direita e o tratamento de temas que colocam os princípios constitucionais dos Estados Unidos em xeque (ainda que em outros países tais princípios jurídicos sejam distintos) despontam como tendências destacadas dos estudos contemporâneos sobre discursos metajornalísticos.

Palavras-chave
Jornalismo; Metadiscurso; Brasil; Estados Unidos

ABSTRACT

This article presents trends in the analysis of metajournalistic discourse in Brazilian political coverage by U.S. newspapers. Metajournalistic discourse is defined as professionals engaging in discussions, both within and outside the profession, about its normative foundations. The hypothesis is that US news outlets have historically used approaches that are less anchored in the value of detachment when covering issues related to other countries. Prominent trends in contemporary studies on metajournalistic discourse include the journalistic approach to populist political leaders from the far-right political spectrum around the world and the treatment of issues that challenge the constitutional principles of the United States, even though such legal principles differ in other countries.

Keywords
Journalism; Metadiscourse; Brazil; United States

RESUMEN

Este artículo tiene como objetivo presentar tendencias en el análisis de los discursos metaperiodísticos en la cobertura política brasileña por parte de periódicos estadounidenses. El concepto de discurso metaperiodístico se entiende, a priori, como la participación de agentes dentro del campo profesional en discusiones, tanto internas como externas a la profesión, sobre sus fundamentos normativos. La hipótesis es que los medios estadounidenses han utilizado históricamente enfoques menos anclados en el valor del desapego al cubrir temas relacionados con otros países. Se infiere que el enfoque periodístico hacia líderes políticos populistas de todo el mundo que bordean la extrema derecha y el tratamiento de temas que cuestionan los principios constitucionales de Estados Unidos (aunque dichos principios legales sean diferentes en otros países) se destacan como tendencias prominentes en los estudios contemporáneos sobre discursos metaperiodísticos.

Palabras clave
Periodismo; Metadiscurso; Brasil; Estados Unidos

Introdução

As análises de metadiscursos remetem a uma longa tradição acadêmica e perpassam os mais distintos campos do conhecimento. De acordo com Wang (2025, p. 91), a primeira noção de uma ideia de metadiscursividade como horizonte de análise é estabelecida ainda no final dos anos 1950 pelo linguista estadunidense Zelig Harris (1959) em estudo sobre a estrutura dos modelos de linguagem. Desde então, o conceito tem passado por evoluções até se tornar uma chave-explicativa central nos estudos de análise do discurso. Em suma, inicialmente concebido na linguística estrutural como um método para compreender os usos das linguagens, a ideia de metadiscurso passou a ganhar aplicações em campos diversos, como a psicologia, a educação, a administração e, particularmente, o jornalismo (Wang, 2025).

Especificamente no terreno jornalístico, o conceito de metadiscurso têm sido debatido por autores como Carlson e Lewis (2015) e Carlson (2016) ao abordar o engajamento de agentes do campo profissional em discussões tanto internas quanto externas à profissão sobre seus fundamentos normativos, particularmente em um momento histórico de crise de legitimação do campo (Vos, Thomas, 2018; Carlson, Robinson, Lewis, 2021; Christofoletti, 2019). A concepção de metadiscurso jornalístico - ou discurso metajornalístico, outra variação semântica encontrada em estudos da área - também encontra dialogismo com estudos do chamado “ethos jornalístico”, seja no âmbito sociológico (Bourdieu, 1997; Benson, Neveu, 2005; Oliveira, Silva, 2017; Rodrigues, Baroni, 2018; Silva, Pedro Neto, 2020) ou discursivo (Maingueneau, 2005; 2008; Benetti, 2010; Bertasso, 2014; Bertasso, Franzoni, Lisboa, 2015, Amossy, 2025). Todavia, a opção teórico-metodológica pela ideia de uma metadiscursividade jornalística encontra respaldo na busca à qual o conceito endereça de “estabelecer definições e limites e emitir julgamentos sobre a legitimidade do jornalismo” (Carlson, 2016, p.350, tradução nossa).

Nesse cenário, busca-se neste artigo, provocado por ocasião do 10º Colóquio Brasil-Estados Unidos de Estudos da Comunicação, promovido pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares em Comunicação (Intercom), apontar algumas observações sobre as tendências nas análises de discursos metajornalísticos na cobertura política brasileira por jornais estadunidenses. Em linha com Antolini, Silva e Vos (2024), parte-se da hipótese de fundo trabalhada por Gans (1980) de que os veículos jornalísticos estadunidenses têm utilizado historicamente abordagens menos ancoradas no valor do distanciamento (detachment) quando cobrem assuntos relacionados a outros países que não os próprios Estados Unidos, isto é, permitem-se nesses casos afirmações e juízos mais explícitos ao construir conteúdos informativos sobre temas internacionais em comparação com os nacionais. Tal hipótese possui como pano de fundo o próprio processo histórico de construção de legitimidade - e de auto-legitimação - do jornalismo estadunidense na passagem do século XIX para o século XX a partir da defesa de princípios como a objetividade e de papéis jornalísticos (journalistic roles) determinados, como a vigilância dos poderes constituídos (watchdog role) e do zelo pelo estado democrático de direito (democratic role) (Schudson, 1978; Vos, Finneman, 2017) - princípios que irão reverberar posteriormente em todo o contexto do jornalismo ocidental ao redor do mundo, especialmente após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Ademais, ao debruçar-se na cobertura política brasileira por jornais estadunidenses, ancora-se como ponto de partida na constatação de Wang (2025, p. 94, tradução nossa), realizada a partir de revisão de literatura, de que os estudos contemporâneos sobre metadiscursos têm revelado “profunda influência de valores culturais” e sugerido que “investigações interculturais podem aprofundar a compreensão sobre como o metadiscurso funciona em diferentes contextos linguísticos e sociais”.

Reflexões sobre o conceito

Em mapeamento de tendências sobre a análise de metadiscursos em perspectivas interculturais, Wang (2025) identifica que os estudos sobre discursos midiáticos, particularmente os jornalísticos, consolidam-se como uma das principais linhas de investigação nas pesquisas contemporâneas a partir desta abordagem teórico- metodológica. De acordo com o autor, as tendências de investigação sobre metadiscursos no discurso midiático abrangem objetos como editoriais, colunas e comentários noticiosos realizados por jornalistas sobre o próprio campo. “Os estudos centram-se principalmente nas diferenças na utilização do metadiscurso em distintos contextos linguísticos e culturais e na forma como essas diferenças afetam a interação entre autores e leitores em textos noticiosos”, demonstrando complexidade nas trocas linguageiras e diferenças interculturais marcantes (Wang, 2025, p. 92, tradução nossa)1. Além disso, os estudos mapeados pelo autor revelam a profunda influência das línguas, da cultura e das tradições escritas nas escolhas metadiscursivas envolvendo a mídia.

Na tradição lusófona, autores como Oliveira (2010, p. 275-276) têm compreendido a noção de “discurso metajornalístico” como uma categoria “meta-política” que perpassa um ideal normativo. Nas palavras da autora, “é preciso fazer jornalismo sobre o próprio jornalismo” e “desmistificar a profissão aos olhos do público”. A figura do ombudsman no contexto da crítica de mídia, nesse ínterim, encontra especial sentido ao apontar para fora do campo profissional meandros típicos dos valores deontológicos do jornalismo.

No Brasil, a despeito de algumas abordagens recentes de fôlego, como a pesquisa de Sbaraini Fontes (2025), a discussão sobre o tema ainda apresenta caráter incipiente. Para efeitos ilustrativos, uma busca no Banco de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) a partir do termo “metadiscurso” resulta em apenas 125 trabalhos acadêmicos, sendo 76 dissertações de Mestrado e 42 teses de Doutorado, a maior parte (49 trabalhos) oriunda da grande área de Letras, Linguística e Artes. Apenas um trabalho na subárea da Comunicação - na qual se ancoram os estudos de Jornalismo - é indexado com a referida palavra-chave: uma tese de Doutorado na área de cinema documental (Scalzilli, 2021). Por seu turno, a expressão “metadiscurso jornalístico” não retorna qualquer resultado na plataforma. Já o termo “metajornalismo” remete a outros seis trabalhos acadêmicos: três teses de Doutorado (Amorim, 2008; Medeiros, 2009; Silva, 2022) e duas dissertações de Mestrado (Linke, 2005; Jácome, 2013; Lopes, 2022), todas na subárea da Comunicação.

No contexto de tendências recentes motivadas pela crise institucional do campo profissional, todavia, a discussão proporcionada por Carlson (2016) tem conquistado adesão nos estudos em Jornalismo ao redor do mundo. O texto que procura definir sua teoria para a análise de metadiscursos jornalísticos, publicado originalmente no periódico Communication Theory, por exemplo, possui índice de referenciação elevado, atingindo em 2025 mais de 800 citações segundo a plataforma Google Scholar.

Em seu desenvolvimento teórico, o autor procura desenvolver parâmetros para o estudo dos discursos metajornalísticos que conectam três instâncias centrais - atores, espaços/públicos e tópicos - aos processos de criação de (auto)definições, de delimitação de limites e de legitimação das práticas jornalísticas (Carlson, 2016, p. 1). A discussão encontra sintonia com as reflexões prévias de Carlson e Lewis (2015) sobre como as práticas do campo jornalístico endereçam à definição de um arcabouço simbólico de delimitação das fronteiras da profissão.

Na atribuição de parâmetros para os estudos metadiscursivos, Carlson (2016) reivindica três premissas principais: 1) o jornalismo possui variações no tempo e no espaço; 2) o jornalismo é contextual; e 3) o jornalismo estabelece-se como um conjunto de relações sociais. Posteriormente, o autor recorre a três componentes constitutivos do discurso metajornalístico passíveis de desvelamento como objetos de reflexão nas análises de temas relacionados à abordagem. Primeiramente, compreende-se que o discurso metajornalístico emerge tanto de atores jornalísticos como não-jornalísticos (externos ao campo). Na sequência, argumenta-se que o discurso metajornalístico também se materializa tanto em espaços jornalísticos como não-jornalísticos. Finalmente, entende-se que os temas que perpassam o discurso metajornalístico possuem origens tanto reativas a demandas externas como (auto)generativas no interior do próprio campo profissional (Carlson, 2016).

Complementa o autor:

Enfatizar o discurso metajornalístico é colocar em primeiro plano a criação e a circulação de significados sobre o jornalismo, incluindo as linhas interpretativas dominantes e os pontos de discórdia que ocorrem nas conversações públicas sobre as notícias. Não se trata de um campo auxiliar do discurso, mas de um espaço no qual as compreensões do jornalismo como uma forma de produção cultural encarregada de relatar histórias reais ao público são construídas, negociadas e contestadas por uma série de atores. Os significados do jornalismo - suas definições, seus limites e suas reivindicações por legitimidade - emergem por meio do discurso metajornalístico. Isto não significa descartar a importância dos textos jornalísticos na criação de significados, mas trata-se de um apelo para reconhecer que esses textos estão inseridos em discursos mais amplos sobre notícias que merecem ser estudados. (Carlson, 2016, p. 16, tradução nossa)2.

A legitimação do campo profissional, nesse horizonte, coloca-se como elemento central das dinâmicas metadiscursivas do jornalismo; legitimidade que, segundo Charaudeau (2002, p.303, tradução nossa), revela-se “tanto social (atribuída por status) quanto discursiva (construída por meio dos atos de fala)”. Ademais, em linha com Wang (2025), compreender os sentidos desvelados em contextos interculturais mostra-se imperativo das premissas e elementos constitutivos dos metajornalismo enquanto construção discursiva (Carlson, 2016). Endereça-se, assim, ao escopo temático deste trabalho: as particularidades interculturais entre Brasil e Estados Unidos na construção de discursos metajornalísticos.

Particularidades interculturais na imprensa: Brasil e Estados Unidos

Em seu modelo ocidental, o jornalismo teve origem na Europa no século XVII a partir de uma confluência de fatores como o desenvolvimento da tipografia de Gutemberg, a expansão de mecanismos técnicos que permitem um fluxo de informação sem precedentes e a consequente transformação desse fluxo em bens dentro de uma economia em expansão, entre outros (Sousa, 2004). Ao longo do século XIX, porém, as práticas jornalísticas viram-se de frente a uma nova modalidade focada em ocorrências factuais presentes da vida cotidiana (Dicken-Garcia, 1989). A construção de um padrão noticioso baseado na descrição distanciada dos fatos passou, nesse ínterim, a representar a forma hegemônica de contato com discussões estabelecidas no espaço público, em especial nos Estados Unidos (Schudson, 1978; Barnhurst, Nerone, 2001). Não casualmente, conforme argumenta Schudson (1978), a ideia de objetividade tornou-se central no jornalismo estadunidense na entrada do século XX, materializando-se em uma modalidade de “ideologia profissional”.

Introduzida na imprensa como contramedida à inevitável efervescência da subjetividade, “precisamente quando a impossibilidade de superar a subjetividade na apresentação das notícias passou a ser amplamente aceita” (Schudson, 1978, p. 157)3, a noção de objetividade fez ecoar no campo jornalístico ideais da ciência positivista da época considerados uma receita para os problemas da profissão. Em termos históricos, o jornalismo passou a reforçar sua constituição em torno de valores que o estruturaram como instituição social (Vos, 2013) e transformaram seu discurso em slogans adotados por toda a sociedade, como o distanciamento, o altruísmo, a imparcialidade e a maturidade, além da própria objetividade (Schudson, 1978; Vos, Moore, 2020).

Ademais, outros princípios, com a adoção de papéis profissionais (journalistic roles) determinados, como a vigilância dos poderes constituídos (watchdog role) e do zelo pelo estado democrático de direito (democratic role) (Vos, Finneman, 2017), concedeu aos jornalistas um estatuto diferenciado frente à política institucional. Nesse contexto, pesquisas sobre a história da imprensa nos Estados Unidos têm apontado, desde a virada do século XIX para o século XX, uma dinâmica de afastamento dos jornalistas oriundos da mídia tradicional - a chamada legacy media - de um debate público mais explícito, evitando embates diretos com políticos locais em assuntos partidários e evitando-se a quebra do contrato simbólico do princípio da “independência política” (Gans, 1980; Hamilton, 2009).

Tal cenário diferencia-se marcadamente do contexto histórico da imprensa brasileira ao longo do século XX, que, mesmo depois de seu processo de “modernização” após os anos 1950 inspirado na tradição estadunidense (Lins da Silva, 1990; Albuquerque, 2010), engajou-se inicialmente e determinantemente na legitimação do golpe civil-militar de 1964 (Machado da Silva, 2014; Napolitano, 2021) e, posteriormente, viu-se violentamente confrontada por um regime autoritário com modus operandi calcado na censura, na prisão e na tortura e morte de jornalistas, advogando-se então pela abertura política (Fico, 2014; Reimão, 2014).

Todavia, a conjuntura política mais recente nos Estados Unidos, com a ascensão de Donald Trump ao poder para seu primeiro mandato em 2016 e os sucessivos ataques à imprensa perpetrados desde então pela principal liderança do país (Carlson, Robinson, Lewis, 2021), passou a desafiar a tradição histórica de auto-legitimação da imprensa estadunidense calcada no distanciamento (detachment) e endereçou a práticas metadiscursivas do jornalismo por vezes ambíguas, com o cuidado de não transpassar os limites da politização da prática noticiosa. Um exemplo pertinente dessa inversão de valores consisti no artigo-manifesto “If Trump Runs Again, Do Not Cover Him the Same Way: A Journalist’s Manifesto” (Sulivan, 2022), publicado em outubro de 2022 por uma colunista do tradicional jornal The Washington Post - curiosamente de propriedade de Jeff Bezos, magnata que posteriormente aproximou-se do segundo mandato de Donald Trump (Rosenblatt, 2025) - em defesa de uma postura mais assertiva contra políticos que façam ataques aos princípios históricos da “democracia estadunidense”:

Tem sido educativo para todos nós - uma percepção gradual de que os instintos e as convenções do jornalismo tradicional não têm sido suficientemente bons para este momento da história do nosso país. Nesta altura em que Trump se prepara para se candidatar de novo em 2024, vale a pena recordar as lições que aprendemos - e comprometermo-nos com o princípio de que, ao cobrir políticos que estão essencialmente a concorrer contra a democracia, o jornalismo à moda antiga já não será suficiente. (Sulivan, 2022, online, tradução nossa)4.

Paralelamente à emergência de Donald Trump ao poder na última década junto ao movimento nacionalista “Make America Great Againg” (MAGA), outras lideranças de verve e argumentação similar ganharam terreno em diferentes partes do mundo (Grevin, 2016), com destaque para a América Latina (Kestler, 2022), onde recentes casos de lideranças populistas de direita passaram a obter protagonismo, incluindo Jair Bolsonaro (Brasil), José António Kast (Chile), Guido Manini Ríos (Uruguai) e Javier Milei (Argentina).

Especificamente no Brasil, sob o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022), uma ampla gama de ataques ao campo jornalístico encontrou consonância com o surgimento de um ecossistema informacional de direita em diferentes plataformas de redes sociais na internet (Nascimento et al., 2022; Osawa et al., 2023). Apesar das especificidades culturais do país, algumas das táticas políticas de Jair Bolsonaro mostraram-se semelhantes às de outros líderes de extrema-direita nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina, o que inclui ações e declarações que questionaram a ciência, negaram a gravidade de uma pandemia global, exacerbaram o nacionalismo e atacaram os direitos humanos e outros pilares da democracia, como a imprensa (Eatwell, Goodwin, 2018; Grevin, 2016; Kestler, 2022), não raramente acusando os jornalistas como disseminadores de “fake news” ou como inimigos da população (Sbaraini Fontes, Marques, 2022; Osawa et al., 2023).

Nesse cenário, a cobertura de temas estrangeiros - particularmente, no caso desta análise, aqueles devotados ao Brasil - pela imprensa estadunidense passou a constituir um terreno fértil para a construção de discursos metajornalísticos sem a entrada direta em contendas políticas locais, ratificando a pertinência da hipótese central que sustenta este estudo (Gans, 1980; Hamilton, 2009). A observação de tendências temáticas, nesse sentido, passa a constituir o foco final da discussão.

Tendências metadiscursivas na cobertura de temas brasileiros nos EUA

Algumas tendências temáticas e de construção discursiva podem ser observadas nas interfaces entre a atuação dos jornais estadunidenses e a emergência de temas localizados ao sul do continente, especificamente no Brasil, que impactam na opinião pública local. Uma tendência destacada que emerge nos estudos sobre discursos metajornalísticos na cobertura política brasileira por jornais dos Estados Unidos é a identificação de padrões consonantes de críticas a práticas políticas conservadoras de lideranças populistas que, mesmo em outras partes do globo, infringem valores considerados fundamentais no modelo norte-americano de democracia, como a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa.

Nesse horizonte, Antolini, Silva e Vos (2024) realizaram um mapeamento por meio da análise de 221 textos publicados nos jornais The New York Times e The Washington Post durante a ascensão de Jair Bolsonaro ao poder (2018-2022). Os autores partem de três questões de pesquisa que orientam a investigação: 1) de que forma a cobertura jornalística estadunidense sobre o presidente brasileiro Jair Bolsonaro estabelece paralelos entre os dois países no que diz respeito aos debates políticos com jornalistas?; 2) quais dispositivos discursivos os jornais dos Estados Unidos utilizam para construir significados de legitimidade dos valores, das normas e dos papéis jornalísticos ao abordar os debates políticos de Bolsonaro com os jornalistas?; e 3) como a cobertura jornalística estadunidense sobre Bolsonaro constrói discursivamente a legitimidade dos valores, das normas e dos papéis jornalísticos e posiciona socialmente o próprio jornalismo ao escrever sobre o valor social da profissão neste contexto?

Dentre os principais achados da pesquisa, os autores identificam um padrão de consonância bastante delineado entre o ex-presidente brasileiro e o então também ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com repetidas referências na imprensa à expressão “Trump dos trópicos” para explicar em linguagem popular ao público norte-americano as características de Bolsonaro (Antolini, Silva, Vos, 2024, p. 6). Complementarmente, verifica-se que, para além da figura retórica da consonância, a abordagem a Bolsonaro é também o foco de uma estratégia de personalização na cobertura de casos de agressões diretas a jornalistas brasileiros e/ou estrangeiros que trabalham no Brasil (Antolini, Silva, Vos, 2024, p. 7) - entre eles, casos com repercussão internacional, como os da repórter Patrícia Campos Mello, da documentarista Petra Costa e dos jornalistas estrangeiros Glenn Greenwald e Dom Phillips, este último brutalmente assassinado na floresta amazônica.

Outro dispositivo discursivo identificado por Antolini, Silva e Vos (2024) na construção de um metadiscurso jornalístico é a recorrência a metáforas bélicas - a utilização de opções semânticas como “guerra”, “armas”, “combate”, entre outras -, recurso correntemente utilizado na cobertura de temas políticos brasileiros para demarcar a legitimidade dos valores jornalísticos ao cobrir os embates de Bolsonaro com os repórteres, mas também para caracterizar outras disputas discursivas que atingem o campo jornalístico, como o “combate à desinformação”.

O estudo endereça, finalmente, à forma como os jornalistas estadunidenses posicionam socialmente a profissão ao escrever sobre os valores sociais do jornalismo no contexto das relações entre o ex-presidente brasileiro e a imprensa. Conclui-se que, ao falar sobre Bolsonaro, os jornais dos Estados Unidos constroem referências, implícita ou explicitamente, aos papéis jornalísticos tradicionais da área, como suas posturas históricas de defesa da democracia (democratic role) e de fiscalização dos poderes constituídos (watchdog role) (Antolini, Silva, Vos, 2024, p. 7). Os resultados, ademais, revelam um interessante padrão em termos de objetos de manifestação metadiscusiva (Wang, 2025), ao transpassar a arena do chamado “jornalismo opinativo” - editoriais, colunas e artigos assinados - e apresentar-se, muitas vezes nas entrelinhas, na cobertura noticiosa mais convencional.

Esperávamos encontrar artigos de opinião com essa perspetiva tendo Bolsonaro como tema. O achado mais inesperado, entretanto, é que esse tipo de defesa está presente também no conteúdo informativo das notícias. Voltemos à Gans (1980): os jornalistas estadunidenses, quando falam do próprio jornalismo, costumam fazer isso por meio da cobertura internacional para evitar um posicionamento político direto, mas fazem-no ao mesmo tempo que reforçam a norma institucional do distanciamento na cobertura. Apesar de a amostra ter como tema principal um país estrangeiro, mostra-se fácil perceber nas notícias que o Brasil é colocado como uma nação que enfrenta ameaças da extrema-direita, como violações ou redução dos direitos humanos, ameaças a jornalistas e à imprensa e desinformação nas redes sociais. (Antolini, Silva, Vos, 2024, p. 292-293, tradução nossa)5.

Para além da cobertura de lideranças populistas ao redor do globo que, ao desafiarem os preceitos tradicionais do jornalismo ocidental, entram na linha de frente da cobertura da imprensa nos Estados Unidos, outros temas presentes nas editorias internacionais encontram adesão nas pautas com discussões metajornalíticas ao projetarem luz em princípios caros à democracia estadunidense, a exemplo do contraditório debate sobre a regulação das redes sociais na internet. Ao mesmo passo que o enfrentamento à desinformação emerge no horizonte crítico da cobertura internacional sobre países sob regimes populistas e/ou autoritários, a temática específica da regulação das plataformas toca na interpretação dada pela primeira emenda da Constituição dos Estados Unidos sobre os princípios da liberdade de imprensa e da liberdade de expressão.

Nesse cenário, um caso recente que endereçou a uma arena discursiva tipicamente metajornalística nos jornais estadunidenses foi o banimento pelo Supremo Tribunal Federal brasileiro da rede social “X” no país em agosto de 2024. Com sede nos Estados Unidos, a plataforma de propriedade do multibilionário Elon Musk possui um vasto mercado no território brasileiro, com cerca de 20 milhões de usuários (Sena, 2024), e teve suas atividades suspensas por se negar a excluir da rede social contas identificadas pela justiça nacional como promotoras de conteúdos antidemocráticos - o que é proibido pela Constituição brasileira -, majoritariamente relacionadas aos ataques à capital federal Brasília em 8 de janeiro de 2023.

O embate entre a plataforma e o judiciário brasileiro não tardou a repercutir tanto na imprensa brasileira quanto na estadunidense com vasto conteúdo para análises discursivas sobre auto-legitimação do jornalismo. Em uma pesquisa ainda em desenvolvimento com os jornais Folha de S. Paulo e O Globo, no Brasil, e The New York Times, The Washington Post e The Wall Street Journal, nos Estados Unidos, Rossi, Silva e Vos (2025) indicam preliminarmente que os veículos dos dois países abordaram a disputa entre o Estado brasileiro e a empresa de Elon Musk como uma batalha em torno do pano de fundo da “liberdade de expressão”. Todavia, enquanto os jornais estadunidenses tendem a enquadrar o banimento da plataforma como um agravo ao direito inegociável à expressão, os veículos brasileiros inclinam-se a tratar o mesmo ato como uma medida extremada, mas voltada à defesa da soberania nacional e aos preceitos constitucionais do país (Rossi, Silva, Vos, 2025).

Em pauta na imprensa dos Estados Unidos, portanto, os assuntos relacionados à política brasileira, especialmente aqueles que colocam em xeque os princípios constitucionais próprios da carta magna local em vigor desde 1789, constituem uma arena propícia de debate sobre o próprio jornalismo, revelando tendências que impactam o próprio enquadramento que o Brasil recebe à luz da opinião pública do estadunidense.

Considerações finais

Os estudos sobre discursos metajornalísticos têm emergido como um pertinente objeto de análise na pesquisa internacional (Villagrán Sánchez, López Pan, 2024; Wang, 2025). Uma análise sistemática conduzida por Villagrán Sánchez e López Pan (2024) com 77 trabalhos publicados entre 2015 e 2023 demostra tendências sobre o atual estado da investigação. Entre os destaques inferidos pelos autores, o papel democrático/social do jornalismo surge como a principal estratégia de legitimação (Villagrán Sánchez, López Pan, 2024, p. 161). Esta tendência pode ser também verificada nas observações elencadas no presente estudo, por ocasião do 10º Colóquio Brasil-Estados Unidos de Estudos da Comunicação, promovido pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares em Comunicação (Intercom).

Indica-se, neste estudo, que a cobertura jornalística de temas políticos pontiagudos no Brasil por parte da imprensa tradicional - a chamada “legacy media” - nos Estados Unidos revela importantes achados em torno do metadiscurso jornalístico num momento histórico de crise de legitimação do campo profissional (Vos, Thomas, 2018; Carlson, Robinson, Lewis, 2021; Christofoletti, 2019). Em síntese, a abordagem jornalística de lideranças políticas populistas ao redor do mundo que tangenciam o espectro da extrema-direita - numa similaridade ao posicionamento político de Donald Trump e de parcela crescente do partido republicano - e o tratamento de temas que possam colocar em xeque princípios constitucionais dos Estados Unidos (a exemplo da tradicional primeira emenda da Constituição em vigor desde 1789), ainda que em outros países alguns dos princípios jurídicos sejam distintos (caso do Brasil), apontam - no interior dos respectivos contextos históricos das tradições políticas e midiáticas em crivo - para tendências mais destacadas dos estudos contemporâneos sobre discursos metajornalísticos.

O levantamento também coaduna a hipótese de fundo, baseada em Gans (1980) e ratificada por Hamilton (2009), de que os veículos jornalísticos estadunidenses valem-se historicamente, mantendo-se tal tradição nas abordagens contemporâneas, de um conjunto de abordagens menos ancoradas no valor do distanciamento (detachment) quando cobrem assuntos relacionados a outros países que não os próprios Estados Unidos - neste caso, especificamente, o Brasil -, permitindo-se juízos mais explícitos em comparação com os nacionais.

  • 1
    No original, em inglês: “Studies primarily focus on the differences in metadiscourse use across different linguistic and cultural contexts and how these differences affect the interaction between authors and readers in news texts”.
  • 2
    No original, em inglês: “To emphasize metajournalistic discourse is to foreground the creation and circulation of meanings about journalism, including the dominant interpretive threads and points of contention occurring in the public conversation about news. This is not an ancillary field of discourse, but the space in which understandings of journalism as a form of cultural production charged with relating true stories to the public are made, negotiated, and contested by an array of actors. The meanings of journalism—its definitions, boundaries, and claims to legitimacy—arise through metajournalistic discourse. This is not to dismiss the importance of news texts in creating meaning, but instead a call to recognize that these texts are embedded in larger discourses about news that deserve study”.
  • 3
    No original, em inglês: “precisely when the impossibility of overcoming subjectivity in presenting the news was widely accepted”.
  • 4
    No original, em inglês: “It’s been an education for all of us — a gradual realization that the instincts and conventions of traditional journalism weren’t good enough for this moment in our country’s history. As Trump prepares to run again in 2024, it’s worth reminding ourselves of the lessons we’ve learned — and committing to the principle that, when covering politicians who are essentially running against democracy, old-style journalism will no longer suffice”.
  • 5
    No original, em inglês: “We expected to find opinion pieces with that per-spective having Bolsonaro as a subject. The more unexpected finding is this type of defense being present in news pieces as well. We can come back to Gans (1980): US journalists, when talking about journalism itself, do so through international coverage to avoid direct political positioning, but do so while also reinforcing the institutional norm of detachment. Even though the sample has a foreign country as its main topic, it’s easy to perceive in the news articles that Brazil is but one country facing far-right threats, such as:violations or declines in human rights, threats to journalists and press, and misinformation on social media”.
  • Como citar:
    SILVA, M. P. da. Tendências nas análises de discursos metajornalísticos na cobertura política brasileira por jornais estadunidensese. São Paulo: INTERCOM - Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, v. 48, e2025124. https://doi.org/10.1590/1809-58442025124.
  • Financiamento:
    CNPq e CAPES
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Referências

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    11 Out 2025
  • Aceito
    01 Dez 2025
  • Publicado
    30 Dez 2025
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