Open-access Vinhos do Cerrado de altitude: o desenvolvimento de uma nova fronteira vitivinícola em Brasília, DF

Wines from high-altitude Cerrado: the development of a new wine-growing frontier in Brasília, DF

Vinos del Cerrado de altitud: el desarrollo de una nueva frontera vitivinícola en Brasilia, DF

Resumo

O vinho está ligado com a história da civilização ocidental e, ao longo da história, vem se expandindo para novas fronteiras. No Brasil, novas regiões vêm se desenvolvendo, seja na vitivinicultura tradicional, seja na viticultura tropical e nos vinhos de inverno. O artigo analisa o processo de inserção da vitivinicultura no Cerrado de altitude, destacando a integração com o território e as perspectivas em termos de desenvolvimento local. A pesquisa tem natureza qualitativa e exploratória e contou com dados primários e secundários. Foi realizada pesquisa bibliográfica e documental e também entrevista com produtores de uvas viníferas da região. Os resultados mostram a presença de um produto com identidade territorial, que já vem integrando elementos locais. O levantamento mostra a disponibilidade de diversos recursos territoriais que podem ser valorizados, em termos de patrimônio, cultura e paisagem, e a presença de pesquisas para apoiar o novo setor. Pode ser identificada a presença de elementos comuns em outros territórios do vinho nos aspectos de terroir, paisagem e enoturismo. Os resultados preliminares apontam para um potencial de denominação de origem, a partir do aprofundamento dos estudos e caracterização dos vinhos do Cerrado de altitude.

Palavras-chave:
vitivinicultura; Distrito Federal; terroir; indicação geográfica

Abstract

Wine is linked to the history of Western civilization and, throughout history, has been expanding to new frontiers. In Brazil, new regions have been developing, whether in traditional viticulture or in tropical viticulture and winter wines. The article analyzes the process of insertion of viticulture in the high-altitude Cerrado, highlighting the integration with the territory and the perspectives in terms of local development. The study is qualitative and exploratory and included primary and secondary data. Bibliographic and documentary research was carried out, as well as interviews with wine grape producers in the region. The results show the presence of a product with a territorial identity, which has already been integrating local elements. The survey shows the availability of several territorial resources that can be valued in terms of heritage, culture, and landscape, and the presence of research to support the new sector. The presence of common elements in other wine territories can be identified in terms of terroir, landscape, and wine tourism. The preliminary results point to a potential for designation of origin, based on in-depth studies and characterization of wines from the high-altitude Cerrado.

Keywords:
viticulture; Federal District; terroir; geographical indication

Resumen

El vino está ligado a la historia de la civilización occidental y, a lo largo de la historia, se ha ido expandiendo hacia nuevas fronteras. En Brasil se han ido desarrollando nuevas regiones, ya sea en la viticultura tradicional o en la viticultura tropical y los vinos de invierno. El artículo analiza el proceso de inserción de la vitivinicultura en el Cerrado de altitud, destacando la integración con el territorio y las perspectivas en términos de desarrollo local. La investigación tiene un carácter cualitativo y exploratorio y se basó en datos primarios y secundarios. Se realizó investigación bibliográfica y documental, así como entrevistas a productores de uva para vinificación de la región. Los resultados muestran la presencia de un producto con identidad territorial, que ya viene integrando elementos locales. La encuesta muestra la disponibilidad de diversos recursos territoriales que pueden ser valorados, en términos de patrimonio, cultura y paisaje, y la presencia de investigaciones para apoyar el nuevo sector. La presencia de elementos comunes en otros territorios vitivinícolas se puede identificar en los aspectos de terroir, paisaje y enoturismo. Los resultados preliminares apuntan al potencial para la denominación de origen, basándose en nuevos estudios y caracterización de los vinos del cerrado de altitud.

Palabras clave:
vitivinicultura; Distrito Federal; terroir; indicación geográfica

1 INTRODUÇÃO

A história do vinho e da viticultura está intimamente ligada à história da civilização ocidental, como atividade econômica, mas também como patrimônio imaterial e representação de sua cultura, integrando a sociedade de modo amplo. Desde a cordilheira do Cáucaso, cerca de 5.000 a.C., até os dias atuais, o vinho cumpre uma longa jornada que passa pela chegada à Mesopotâmia e ao Egito e sua difusão pela Europa, levada pelos Gregos e Romanos (Garrier, 1998; Pitte, 2012). Razões econômicas, comerciais, logísticas e culturais levaram o vinho a buscar novas fronteiras pelo globo. A expansão da vitivinicultura para fora da Europa pode ser considerada uma consequência imprevista do período colonial. Os espanhóis levaram a vitivinicultura para as Américas por questões logísticas, para facilitar a comercialização dos vinhos. Ao mesmo tempo, foram as demandas inglesas que levaram a uva e o vinho para países como Austrália e África do Sul (Johnson, 2009; Sommers, 2010).

A história do vinho no Brasil teve início juntamente da colonização portuguesa, com inserções pontuais no sudeste e no nordeste no séc. XVI. Contudo, o vinho só foi estabelecer sua identidade territorial no séc. XIX, com a presença dos imigrantes alemães e, principalmente, dos imigrantes italianos na Serra Gaúcha, que até hoje é a maior região produtora do país (Flores et al., 2014). Hoje, os parreirais comerciais ocupam cerca de 76 mil hectares no Brasil, o que corresponde a 740 mil toneladas colhidas, das quais 80% são de uvas para processamento (IBGE, 2022; MAPA, 2024). Cabe destacar que, apesar de a produção ser concentrada na região Sul do país (70% na região Sul e 43% do total na Serra Gaúcha), o IBGE (2022) aponta a presença de uva em todas as regiões do território nacional, com destaque para o Nordeste, com 15,7% do total, concentrada na região do Vale do São Francisco (cerca de 93% da produção da região), seguido pelo Sudeste, que corresponde a 13,08% da produção brasileira.

O presente artigo trata de uma nova fronteira vitivinícola brasileira, os vinhos do Cerrado de altitude, em especial em Brasília, Distrito Federal. O objetivo do artigo é analisar o processo de inserção da vitivinicultura em Brasília, DF, destacando a integração com o território e as perspectivas em termos de desenvolvimento local. Brasília é conhecida por ser a capital e o centro político do Brasil, também pela sua arquitetura e organização urbanística. O que pode ser surpresa para pessoas de fora da região é que o centro político do país também é espaço de importante produção agrícola, com destaque para soja e milho, com quase 80.000 ha e 50.000 ha de área plantada e, respectivamente, 915 e 2.050 produtores (Emater, 2024). O vinho é um processo bastante recente, mas que já conta com projeção e premiações em nível nacional, além de projetos envolvendo enoturismo.

A seguir, o referencial teórico discutirá o conceito de território do vinho e seus pilares, observando suas possíveis relações com o desenvolvimento local. Também será apresentado um breve histórico da vitivinicultura no Brasil. Os dois aspectos visam dar suporte à análise do território estudado de um modo mais amplo. Os procedimentos metodológicos são apresentados a seguir e incluem dados primários e secundários, que são analisados utilizando um protocolo validado. O artigo busca contribuir com pesquisadores e profissionais do setor, sistematizando informações sobre essa nova fronteira do vinho brasileiro, de modo a apoiar uma melhor compreensão do processo atual e suas perspectivas, além de subsidiar e provocar futuras pesquisas no tema e na região.

2 REFERENCIAL TEÓRICO

O referencial teórico está organizado em dois grandes temas: os territórios do vinho e a trajetória do vinho no Brasil. O primeiro tema tem o intuito de trazer elementos teóricos para a condução da análise. No segundo tópico, é abordada uma visão geral do desenvolvimento da vitivinicultura no Brasil, para que se possa observar tendências e refletir sobre perspectivas.

2.1 Os território do vinho: principais elementos para a análise

Um território pode ser entendido como uma combinação de fatores físicos, simbólicos, sociais e políticos, formado a partir de relações que podem ser internas ao território ou dele com o exterior, que o diferenciam e o tornam único. O território é formado a partir de um processo de territorialização, que coloca no centro as relações humano-território e lhe confere identidade (Saquet, 2007, 2018). Entre os pontos de consenso nas diversas abordagens que trabalham a noção de território, é que suas características não estão relacionadas apenas aos recursos do qual cada território dispõe, mas, sobretudo, à forma como os recursos se organizam. Nesse sentido, abordagens de desenvolvimento territorial vão enfatizar a importância de se ativar recursos e de se trabalhar uma territorialidade ativa, com a participação de atores locais.

Os territórios do vinho podem ser considerados uma categoria específica no contexto da análise territorial, devido às suas características que extrapolam uma atividade agrícola ou setor econômico, envolvendo elementos culturais e identitários, além de agregar outras atividades correlatas. Entre os elementos que distinguem os territórios do vinho, estão: a noção de terroir, o enoturismo e a paisagem.

Terroir é uma palavra de origem francesa, adotada sem tradução, pela maioria dos países, e se refere basicamente a características distintas de um produto que estão ligadas a determinado território. O termo pode ser usado por diversos produtos, em geral, de origem agropecuária, como cafés, carnes e queijos; todavia, seu uso mais frequente está associado aos vinhos. Para a Organização Internacional da Uva e do Vinho, terroir vitivinícola “se refere a um espaço sobre o qual se desenvolve um saber coletivo de interações entre um meio físico e biológico identificável e as práticas vitivinícolas aplicadas” (Organização Internacional da Vinha e do Vinho [OIV], 2010, p. 1), o que já traz aspectos físicos, mas também humanos, considerando as escolhas e práticas adotadas.

É evidente a importância dos aspectos físicos na caracterização e diferenciação de um terroir vitivinícola, destacando-se fatores edafoclimáticos e biodiversidade, elementos que estão presentes no conceito proposto pela OIV. Inclusive, trabalhos que tratam terroir como categoria de análise também conferem centralidade aos fatores físicos, como em Oliveira, Lisboa e Silva (2022). Por outro lado, terroir também se refere a fatores humanos, é identidade para o produtor e também pode ser espaço de articulação e gestão, reunindo e organizando os atores, e ferramenta de promoção, unificando os discursos (Flores, 2015). Os diferentes aspectos do terroir (Quadro 1) não devem ser vistos isolados, mas se relacionam, conferindo diferenciação e identidade aos territórios do vinho.

Quadro 1
Terroir e seus diferentes aspectos

Uma questão a ser reforçada é que a noção de terroir se contrapõe à uniformização e valoriza a diversidade. Nesse sentido, as indicações geográficas (IGs) são um ativo de propriedade intelectual com a finalidade de proteger o uso de nomes geográficos vinculados a um produto com determinadas características. No Brasil, as IGs são regulamentadas pela Portaria do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI)/PR n. 4, de 12 de janeiro de 2022, e Lei Federal n. 9.279, de 14 de maio de 1996, em “Indicação de Procedência” (art. 177), que se refere à reputação de locais ligada ao produto, e “Denominação de Origem” (art. 178), que reconhece nexo causal entre territórios e produtos (Brasil, 1996; INPI, 2022). As IGs são um instrumento para proteger e reconhecer os elementos de um território associando com um produto, formalizando a noção de terroir e com potencial para contribuir para valorização do patrimônio e da identidade (Flores e Falcade, 2022).

Outra peculiaridade dos territórios do vinho é o enoturismo, uma atividade que une as indústrias do vinho e do turismo. O enoturismo se refere a práticas de lazer vinculados aos vinhos e pode envolver uma diversidade de atividades recreativas, excursões, visitação ou estadias (Hall et al., 2000). O vinho passa a ser um atrativo, trazendo um apelo significativo para um grupo de turistas, além de proporcionar outra gama de atividades. Nesse sentido, o enoturismo compreende uma relação abrangente entre vinícolas, regiões vitivinícolas e o consumidor, o que contribui na promoção de atividades e atrativos diversos que se somam a outras atrações do território, tais como a educação do vinho ou sobre variedades de uvas, harmonização de vinhos e alimentos, passeios históricos pela região, passeios de bicicleta pelas paisagens das vinícolas, entre outros (Singh; Hsiung, 2016). O enoturismo vai além do consumo de um produto turístico e permite uma experiência cultural (Tonini; Lavandoski, 2011).

Já a paisagem pode ser considerada uma representação do território, possuindo elementos concretos, mas também abstratos, presente nas representações e no imaginário. No caso dos territórios do vinho, a paisagem também é a expressão da ligação do vinho com o território e um importante elemento de identidade (Falcade, 2011). A paisagem também tem relação direta com o enoturismo e a promoção, aparecendo como representação do terroir vitivinícola nos rótulos e materiais de comunicação, seja como fotografia, iconografia ou ainda nos elementos de linguagem (Flores; Medeiros, 2013).

Por fim, o vinho pode ser relacionado ao desenvolvimento territorial, mesmo sendo uma cultura de implantação mais recente. Ao observar as abordagens do desenvolvimento local, diversos autores consideram a presença de elementos endógeno e/ou exógeno, na promoção dos territórios, no sentido de que os recursos locais são importantes, mas também impulsos externos podem ser apropriados pela população e integrados nos territórios (Bellingieri, 2017; Paula, 2004). Nesse sentido, os vinhos têm potencial de se integrar com os territórios locais, passando a fazer parte das paisagens e ser mais um elemento na cultura e identidade local (Flores; Medeiros, 2013). Esse processo está presente ao longo da história, nas diversas formas e representações que o vinho assume em sua expansão pelo mundo, e também pode ser visto no Brasil, o que será mais bem explorado a seguir.

2.2 A trajetória do vinho no Brasil

Quando se fala na história do vinho no Brasil, muito se remete à imigração italiana, no final do séc. XIX. Certamente, os italianos foram fundamentais para o desenvolvimento da cultura no Brasil e sua efetiva territorialização; todavia, a trajetória do vinho no Brasil tem origem anterior e acaba por se confundir com a história da colonização do país. Os primeiros registros de inserção da videira no Brasil foram em 1534, por iniciativa de Martim Afonso de Souza, na construção da Capitania de São Vicente (Inglez de Souza, 1969). A inserção da agricultura marca a intenção de colonização e se difere de expedições anteriores que visavam exploração ou pirataria. Na ocasião, foram trazidos agricultores e diversas espécies de cultivares, tais como bananeiras e laranjeiras, além de animais domésticos. O clima litorâneo não se mostrou favorável à videira e, mais tarde, Brás Cubas produziu o primeiro vinho na região do Tatuapé, em 1551. Além disso, no séc. XVI, existem registros de videiras na Bahia e em Pernambuco, também pela colonização portuguesa (Inglez de Souza, 1969).

No sul do país, as primeiras videiras são atribuídas às Missões Jesuíticas, em 1626 (Inglez de Souza, 1969). Nesse sentido, observa-se que a presença de vinhedo no entorno dos monastérios e das igrejas é recorrente ao longo da história, a exemplo das ordens dos Cluny e dos Cistercianos na França. O vinho era utilizado nas celebrações, mas também como alimento e cuidados de saúde. Tais monastérios contribuíram para a formação de hoje de reputadas regiões vitivinícolas, como a Borgonha (Garrier, 1998). Voltando ao sul do Brasil, a presença dos vinhedos também contou com a participação dos açorianos, que chegaram ao Rio Grande do Sul em 1732 e permaneceram na região da atual Região Metropolitana de Porto Alegre, contribuindo, inclusive, para a formação da capital (Inglez de Souza, 1969).

Em todo esse período, existem relatos da presença de uvas nos pomares das fazendas e de vinhedos isolados. Contudo, tais iniciativas não se transformaram em identidade territorial, que se caracterizaria pela continuidade dos vinhedos e sua efetiva participação como territorialidade, na cultura, nos hábitos e também em suas implicações econômicas. Diversas razões levaram a isso, incluindo clima, tecnologia, estrutura produtiva e regulação. Foi com a chegada dos italianos que a produção de uva e vinho foi retomada no séc. XIX.

A cultura do vinho se desenvolveu particularmente no estado de São Paulo, nas zonas urbanas de São Paulo, Mogi das Cruzes e zonas periféricas, entre 1830 e 1840, com predominância da uva Isabel, uma variedade americana que se adaptou melhor às condições locais comparado com a vitis vinifera. A atividade se intensificou a partir de 1880, nas regiões cafeeiras, e passou a ter relevância econômica a partir da atuação dos imigrantes italianos que trabalhavam nas lavouras do café (Inglez de Souza, 1969).

A imigração italiana esteve diretamente ligada com a territorialização do vinho no Brasil. No Rio Grande do Sul, os imigrantes chegaram a partir de 1875 e foram alojados no Planalto Meridional, no bioma Mata Atlântica, na região hoje conhecida como Serra Gaúcha. Em um primeiro momento, as práticas agrícolas eram predominantemente de subsistência, muitas espécies eram cultivadas para aprovisionamento local e trocas comerciais, e a uva estava sempre presente. Algumas referências mostram tentativas de cultivo de vitis vinifera (a exemplo das tentativas anteriores com os jesuítas e açorianos); todavia, foram as variedades americanas que tiveram continuidade pela sua adaptação às condições ambientais locais (Falcade, 2011). Esse núcleo de imigração deu origem aos atuais municípios de Bento Gonçalves, Garibaldi, Caxias do Sul, Flores da Cunha e região, que é o principal centro vitivinícola do país nos dias de hoje.

A presença do vinho no Brasil vem se desenvolvendo de forma quantitativa e qualitativa, considerando aumento no consumo, na área plantada e também a diversidade, uma vez que o vinhedo está presente atualmente em 4 biomas brasileiros, o que contribui diretamente para a diversidade na produção. A evolução da vitivinicultura brasileira pode ser classificada em quatro períodos ou gerações, conforme Tonietto (2003). A primeira geração ocorreu entre a chegada dos imigrantes italianos, em 1870 até 1920, e corresponde à implantação da vitivinicultura e ao predomínio de variedades americanas e do vinho de mesa. A segunda geração, entre os anos 1930 e 1960, foi marcada pela diversificação de produtos e pela presença de vinhos híbridos e de viníferas. Na terceira geração, entre os anos 1970 e 1990, inicia-se um período de melhoria na qualidade dos produtos, e a principal característica é a presença de vinhos varietais. A partir dos anos 2000, a quarta geração vai trazer a busca de identidade para o vinho brasileiro, e tem como destaque a presença de regiões determinadas e das indicações geográficas.

Podem ser destacados dois principais movimentos de expansão, que consolidaram novas regiões vitivinícolas, a partir dos anos 1980: vitivinicultura tradicional no Sul do país e novas fronteiras vitivinícolas, criando duas macrorregiões, no Nordeste e no Sudeste. A viticultura tradicional está localizada predominantemente no clima subtropical úmido e no bioma Mata Atlântica, com identidade inicial fortemente ligada à imigração italiana. As novas regiões, que hoje também são reconhecidas como indicação geográfica, são Santa Catarina, Paraná, Campanha Gaúcha e Campos de Cima da Serra. Em Santa Catarina, a principal característica são os vinhedos de altitude; os primeiros experimentos iniciaram-se na década de 1990, e a Indicação de Procedência foi reconhecida em 2021. No Paraná, entre as ocorrências, estão as iniciativas de enoturismo na Região Metropolitana de Curitiba e os Vinhos de Bituruna, reconhecidos como Indicação de Procedência em 2022.

No caso da Campanha Gaúcha, a região está no bioma pampa, ao longo da fronteira com o Uruguai, e se destacou por criar uma nova identidade, ligada à cultura da fronteira e do gaúcho. A vitivinicultura foi retomada na década de 1980 e teve nova expansão nos anos 2000, que trouxe vinhedos com características distintas no contexto internacional, os quais contribuíram com inovações em produtos e processos produtivos - a região foi reconhecida como Indicação de Procedência em 2020. Ainda no RS, a região do Campos de Cima da Serra possui desenvolvimento recente e está em fase de estruturação da Denominação de Origem.

Já as novas fronteiras vitivinícolas compreendem um processo que alia pesquisa e desenvolvimento tecnológico para a introdução de vinhedos em climas e condições distintas. Um dos maiores exemplos é o Vale do São Francisco, região que está no clima tropical semiárido, no bioma caatinga, e tem capacidade para a produção de até 5 safras a cada 2 anos. A região iniciou a comercialização de vinhos na década de 1980 e inaugurou o conceito de viticultura tropical no mundo, tornando-se a primeira indicação geográfica da vitivinicultura tropical no mundo, com a Indicação de Procedência reconhecida em 2022.

A macrorregião mais recente são os chamados Vinhos de Inverno, que iniciaram produção em escala comercial em 2004. Os vinhedos estão localizados no Sudeste, Centro-Oeste e com ocorrências pontuais no Nordeste, em regiões de altitude, que podem chegar a 1.300 m, em zonas de clima subtropical ou tropical de altitude. A nova região parte também de um novo conceito no contexto vitivinícola, a dupla poda. A exemplo do que ocorre na viticultura tropical, devido às condições climáticas, a videira não entra em período de dormência, como ocorre em regiões com invernos mais frios, como o Sul do país. A peculiaridade da região é que a técnica de dupla poda estabelece dois ciclos distintos para a videira: formação e produção. O ciclo de formação corresponde aos meses de primavera e verão, e não é realizada a colheita, apenas a poda. Dessa forma, a maturação e colheita da uva ocorre nos meses de outono e inverno, dando origem aos Vinhos de Inverno (Tonietto; Pereira; Peregrino, 2020).

A região já possui a Associação Nacional de Produtores de Vinhos de Inverno (ANPROVIN), desde 2016, e conta com marca coletiva registrada. Também está depositada no INPI a primeira solicitação de indicação geográfica para a região do Sul de Minas. Os vinhedos do Cerrado de Altitude fazem parte desse novo movimento de expansão da vitivinicultura nacional, dos vinhos de inverno em regiões de altitude. A nova região vem de uma expansão recente, mas já está com repercussão nacional, contribuindo para o desenvolvimento da vitivinicultura no país e para a diversificação da matriz local, como será analisado no texto a seguir.

3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

A pesquisa adota uma metodologia qualitativa e natureza exploratória, devido ao caráter emergente do tema estudado e a lacuna em conhecimento sistematizado sobre a região vitivinícola (Marconi; Lakatos, 2021). A coleta de dados considerou dados primários e secundários. Os principais dados secundários foram a revisão bibliográfica das publicações sobre os vinhos da região, complementada por literatura cinza, como relatórios técnicos, dados institucionais e materiais disponíveis na mídia.

A pesquisa focou os produtores do Distrito Federal. A presença de produção vitivinícola na região do Cerrado de altitude é mais ampla e tem ocorrências em Goiás, por exemplo. A escolha de se trabalhar com o DF se justifica pela concentração geográfica de produtores e pela evolução recente de investimentos e projetos, que passam por uma ação articulada dos produtores. Todos estes são elementos que permitem diferenciar e melhor caracterizar uma potencial região vitivinícola ou terroir, em sentido amplo. Como dados primários, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com produtores da região, em um total de 10 entrevistas, o que corresponde a cerca de 48% dos produtores de uvas viníferas relacionados pela Emater. Além da representatividade estatística, também se usou a técnica da neve ou rede, que considera a saturação das respostas como ponto de corte para as entrevistas (Marconi; Lakatos, 2021). Além disso, foi usada a técnica da triangulação entre múltiplas fontes de dados para uma maior confiabilidade nos resultados apresentados (Marconi; Lakatos, 2021).

Para análise de dados e sistematização dos resultados, foi utilizado o protocolo proposto por Flores e Falcade (2022) para avaliação de oportunidades e barreiras em indicações geográficas. O protocolo avalia fatores de inovação, competitividade e sustentabilidade e está estruturado em 5 dimensões (territorial, político institucional, econômica, social e ambiental), para as quais são definidos fatores e indicadores. O protocolo permite organizar as informações e também estabelecer comparações da realidade estudada com indicações geográficas estabelecidas ou em estruturação. Foi avaliada apenas a dimensão territorial, de modo a compreender a aderência dessa nova cultura com o território. A dimensão trabalha com 5 fatores: patrimônio e cultura, paisagem, conhecimento, produto com identidade territorial e produto com notoriedade. Os indicadores propostos foram avaliados utilizando uma escala tipo Likert de 5 pontos e apresentados utilizando gráfico radar.

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

4.1 Antecedentes e características atuais do vinhedo de Brasília, Distrito Federal

Os vinhedos de Brasília (Distrito Federal) estão na terceira macrorregião brasileira de produção vitivinícola, a dos “vinhos de inverno”, no Sudeste e Centro-Oeste do Brasil, predominantemente no clima tropical de altitude, próximo ou acima dos 1.000 m, onde tradicionalmente é realizado o plantio de café. A inovação na macrorregião é o sistema de “dupla poda” (uma para o período de formação e outra para o de brotação), que desloca a colheita para os meses de junho e agosto, em pleno inverno do hemisfério sul. O sistema de dupla poda permite que a colheita seja realizada em um período com menores índices de precipitação e frio noturno, potencializando aspectos vitienológicos.

O DF já possuía ocorrências pontuais de produção de uva, que acompanharam a inserção da cultura no país. Inglez de Souza (1969) identificou a presença de videiras em Goiás, em especial pequenas ocorrências na antiga capital, Vila Boa de Goiás, e com maior adensamento nos municípios do entorno do DF. O autor relata que os primeiros parreirais teriam participação dos padres dominicanos, remontando ao ano de 1734 - a exemplo do ocorrido em outras regiões do país, como as Missões Jesuíticas no Sul, ou mesmo em outras regiões do mundo, como a Borgonha, com a presença dos monastérios (Garrier, 1998; Pitte, 2012). Na época, a maior parte dos vinhedos tinham caráter doméstico, acompanhado de potenciais projetos para abastecimento da capital federal. A figura a seguir mostra um mapa da época, identificando provável área com possibilidade vitícola, o que inclui o DF (Figura 1).

Figura 1
Área com possibilidade vitícola

Figura 2
Área plantada das principais variedades de uva vinífera no PAD-DF, em 2024

Considerando-se o DF como um todo, levantamento da Emater indica 21 produtores de viníferas, com área entre 1 ha e 7 ha, dos quais 16 indicaram interesse em desenvolver enoturismo. Os produtores de viníferas estão localizados principalmente no Programa de Assentamento Dirigido do Distrito Federal (PAD-DF), mas também presentes em Sobradinho, Gama, Jardim, Paranoá e Alexandre Gusmão. A tabela a seguir apresenta a distribuição, levando-se em conta a área plantada (Tabela 1).

Tabela 1
Produtores de uvas viníferas no Distrito Federal, em 2024

O levantamento também identificou mais 42 produtores de uva de mesa no DF, com área de até 3 ha - a grande maioria com produção pontual e área inferior a 1 ha (Tabela 2). Os produtores de uva de mesa estão espalhados por todo o DF, com destaque para Planaltina, Sobradinho, PAD-DF, Paranoá e São Sebastião.

Tabela 2
Produtores de uvas de mesa no Distrito Federal, em 2024

A atual configuração do vinhedo do DF foi impulsionada a partir de 2018, no distrito do PAD-DF. Entre 2018 e 2019, foi constituído um consórcio de 10 produtores, os quais hoje têm juntos cerca de 52 ha e estão à frente da Vinícola Brasília. As principais variedades são Syrah e Sauvignon Blanc, que representam, cerca de 39% e 18% da área plantada para a safra de 2024, respectivamente. Outras variedades que se destacam são Cabernet Franc, Malbec, Marselan, Tempranillo, Sangiovese e Cabernet Sauvignon, para os tintos, e Viognier e Alvarinho, para os brancos.

Em abril de 2024, foi inaugurada a Vinícola Brasília, um importante marco para a região, por ser a primeira, em termos de estrutura de elaboração, e já contar com uma estrutura significativa. A vinícola é um projeto de 10 produtores associados, que ao mesmo tempo podem ter linhas próprias de produtos e projetos de enoturismo, mas a maior parte da produção de uva é destinada aos vinhos da Vinícola Brasília - pelo menos 60%. Esse formato contribui para otimizar a infraestrutura e, ao mesmo tempo, diversificar a presença do vinho na região.

Apesar de ser um processo recente, seja pela implantação dos vinhedos, seja pela elaboração dos vinhos, a Vinícola Brasília já teve um de seus vinhos reconhecidos entre os 16 mais representativos na safra 2023, pela avaliação nacional, entre outras premiações. As premiações em concursos nacionais de amplo espectro são mais um indicativo da consistência deste processo que se inicia e que tem bases importantes para continuidade e desenvolvimento, alinhado aos recursos do território local.

4.2 Integração do vinho com o novo território e perspectivas para o desenvolvimento local

Ao longo da história, o vinho vem se expandindo para novas regiões e passando a integrar a dinâmica local, seja em termos de arranjo produtivo ou de identidade. O mesmo processo ocorre no Brasil, onde a vitivinicultura vem desbravando novas fronteiras e, assim, assumindo formatos distintos a partir do diálogo com aspectos físicos e imateriais dos territórios. Avaliar o potencial de integração de uma cultura exógena em um dado território não é evidente; para melhor analisar, foi escolhido usar a proposta metodológica de Flores e Falcade (2022), que trata de indicações geográficas (IGs). A dimensão territorial da metodologia trata da integração entre produto, produção e território, relacionando a identidade local com o produto em questão (Flores e Falcade, 2022). A dimensão observa 5 fatores, que podem ser observados na figura a seguir (Figura 3).

Figura 3
Avaliação dos recursos territoriais e integração produto, produção e território

O primeiro fator é “patrimônio e cultura”, o qual traz uma abordagem mais ampla sobre aspectos do patrimônio - natural e construído, tangível e intangível - e cultura local, que podem ser reconhecidos pelos atores locais ou também fora do território. A importância de observar tais aspectos é que, mesmo no caso de um produto novo e inicialmente exógeno, como o vinho, podem ser incluídos nos projetos de produtos e instalações, ou em iniciativas específicas (Flores; Falcade, 2022; Flores; Medeiros, 2013). Os indicadores são: museus, festividade agroindustrial, festividade gastronômica. Pesquisa no Portal MuseusBR, plataforma adotada pelo Cadastro Nacional de Museus, indicou 86 ocorrências em Brasília (Brasil, 2024a), o que evidencia a diversidade de elementos culturais nesse território. Entre as festividades agroindustriais, destacam-se a AgroBrasília e a Festa do Morango (Brasilândia). Um ponto interessante é que, mesmo a vitivinicultura sendo um processo recente, a região possui a Festa da Uva e do Vinho, em Planaltina, que em 2024 realizou sua 4a edição. Entre as festividades gastronômicas, podem ser citados o Festival Comida de Boteco e o Chefs no Eixo.

A “paisagem” é um importante aspecto na formação da identidade e frequentemente apropriado no mundo dos vinhos, seja para caracterização do terroir ou como elemento de promoção ou atrativo vinculado ao enoturismo. No indicador paisagens tombadas, consulta ao Sistema Integrado de Conhecimento e Gestão (SICG) do IPHAN (Brasil, 2024b) não identificou paisagens tombadas no DF. Por outro lado, foram identificados 6 jardins históricos, entre eles, o Parque da Cidade Dona Sarah Kubitscheck, o Parque Ecológico Olhos d'Água e a Praça dos Cristais. Além disso, o conjunto urbanístico-arquitetônico de Brasília foi reconhecido como Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO, o que demonstra reconhecimento internacional. Em termos de unidades de conservação, o bioma Cerrado tem 19% das unidades de conservação do Brasil, das quais o Distrito Federal possui 35 unidades, entre elas, o Parque Nacional de Brasília, criado em 1961.

Apesar de os elementos de patrimônio e cultura identificados não serem historicamente associados aos vinhos, que é um processo recente, podem ser integrados, em um processo dinâmico de diálogo desse novo arranjo produtivo com o território. A Vinícola Brasília, por exemplo, traz em seu logotipo e em seus rótulos referências à arquitetura e à paisagem da região. Além disso, outras vinícolas da região fazem referência ao bioma e a elementos da paisagem no nome dos produtos ou da iconografia utilizada. Em ambos os casos, verifica-se que um produto exógeno pode ser apropriado e passar a representar também a identidade do território e contribuir para o seu desenvolvimento.

Com relação ao fator “conhecimento”, avaliam-se as publicações de artigos em periódicos, teses e dissertações, além da presença de projetos de pesquisa. A pesquisa nos periódicos foi realizada nas bases de dados Scopus, Web of Science e Google Scholar. As publicações sobre os vinhos da região ainda são bastante incipientes, o que é justificado por ser um processo recente. O estudo de Calácia, Balduíno e Maggiotto (2015), por exemplo, avaliou o potencial climático com base no Sistema de Classificação Climática Multicritérios Geovitícola (CCM), utilizando como base dados secundários das estações climáticas. O estudo foi publicado em anais de evento e não contou com dados primários ou testes a campo. Outro estudo conduzido por De Castro e Glass (2008) abordou o mercado de vinhos de Brasília. Já o trabalho de Pimenta, Filippi e Streit (2023) apresenta uma análise mais estruturada do potencial da vitivinicultura em Brasília, a partir de dados primários. A publicação foi realizada em periódico revisado por pares e utilizou como instrumento de análise a matriz FOFA (forças, oportunidades, fraquezas e ameaças). Outros trabalhos, de caráter mais agronômico ou enológico, foram identificados abordando os vinhos de inverno, mas nas regiões do sul de Minas e São Paulo. Com relação aos projetos de pesquisa, o governo do DF vem investindo através das chamadas Agrolearning, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF). Os projetos estão sendo desenvolvidos em parceria com os produtores e devem contribuir para a produção científica e qualificação tecnológica dos vinhedos da região.

A “identidade territorial” aborda a influência de fatores físicos e imateriais em um produto típico ou diferenciado - a essência do conceito de terroir. Com relação a fatores físicos, resultados preliminares apontam para características específicas para o Cerrado de altitude ligadas aos fatores edafoclimáticos. Os vinhos de Brasília seguem as características dos vinhos de dupla poda no Brasil com grande potencial fenólico, coloração intensa nos tintos e aromas muito característicos de vinhos de altitude elevada. Vinhos tintos potentes, estruturados, persistentes e de taninos maduros e macios. Entretanto, o que vem chamando ainda mais a atenção são os vinhos brancos, por sua acidez equilibrada e com aromas que remetem aos vinhos brancos de uvas cultivadas em climas frios brasileiros em vinhedos de climas subtropicais. Outro indicador observado é a ligação histórica do produto com o território; nesse ponto, a região tem antecedentes que se apresentaram de forma pontual e não criaram identidade territorial. Todavia, esse fato não significa que a vitivinicultura não possa contribuir para o desenvolvimento local, na medida em que pode atuar como um recurso externo que é apropriado pelo território (Bellingieri, 2017; Paula, 2004). Tal situação pode ser verificada inclusive no Brasil, nas regiões da Campanha Gaúcha e do Vale do São Francisco, por exemplo. Em ambos os casos, as regiões não possuíam identidade historicamente ligada ao vinho, que foi um elemento exógeno a partir de condições favoráveis em termos de clima e fatores de produção. As regiões se desenvolveram e a vitivinicultura passou a integrar a paisagem e contribuir para o desenvolvimento local (Flores, 2015).

O fator de “notoriedade” avalia em que escala o produto é conhecido, se localmente, na região, nacional ou internacional. No caso de Brasília, os vinhos já conquistaram premiações nacionais e foram matéria na imprensa internacional. Todavia, os vinhedos são recentes, e a escala de produção ainda pequena, o que indica um processo em andamento e um território em construção, com bom potencial de desenvolvimento em médio e longo prazo. Cabe ressaltar que a notoriedade é um fator de análise, mas não é condicionante, mesmo em processos de indicação geográfica - muitas vezes, o processo da IG contribui para a organização dos produtores, o que acaba repercutindo na notoriedade.

Por fim, cabe retomar os elementos que caracterizam os territórios do vinho: terroir, enoturismo e paisagem. Com relação ao terroir, os resultados preliminares mostram a influência dos fatores edafoclimáticos para a construção de um produto diferenciado, com identidade territorial. No aspecto paisagem, o bioma do Cerrado proporciona uma paisagem diferenciada, que já vem sendo integrada nas propostas de enoturismo e nos rótulos dos produtos. Além disso, cabe ressaltar a paisagem urbana de Brasília, que também vem sendo apropriada como fator identitário para a Vinícola Brasília. O enoturismo já está presente em iniciativas e é perspectiva para diversos produtores. Assim, pode-se verificar que Brasília apresenta fatores que deram origem e são presentes em outras regiões vitivinícolas no contexto internacional, ou seja, é um território do vinho em construção.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Apesar de ser um processo recente, os vinhos de Brasília começam a consolidar identidade própria, o que se percebe nas características enológicas, potencializadas pelos diferenciais edafoclimáticos, aliados aos fatores humanos e imateriais na construção do terroir e ao desenvolvimento do enoturismo. Os principais desafios estão ligados às demandas tecnológicas da viticultura na região, que, por ser um processo recente, ainda carece de estudos e testes e a divulgação da região como produtora de vinho. Entre as oportunidades, destaca-se a proximidade com o público consumidor, o potencial edafoclimático de elaborar um vinho diferenciado e o desenvolvimento do enoturismo.

Como limitação do estudo, pode ser elencada a amostra que, apesar de representativa, trabalhou apenas com produtores de viníferas concentrados no PAD-DF. Futuros estudos podem expandir para os produtores de uva de mesa e também avaliar produtores de outras áreas. Outra limitação foi a avaliação apenas da dimensão territorial da metodologia de Flores e Falcade (2022). A previsão é expandir o trabalho para também analisar as dimensões político-institucional, econômica, social e ambiental.

Os resultados do estudo demonstram a presença de um produto com identidade territorial. Destaca-se que, mesmo sendo um processo recente, a vitivinicultura de Brasília já conta com diversos produtores e estrutura, indicando sua permanência na região. Os resultados preliminares apontam para o potencial de reconhecimento de uma nova denominação de origem, a partir do aprofundamento dos estudos e caracterização dos vinhos do Cerrado de altitude. A exemplo do que pode ser visto em outras regiões, o vinho se coloca como um novo arranjo produtivo, que pode integrar elementos locais e contribuir para o desenvolvimento do ponto de vista econômico, mas também como uma leitura da identidade local.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    19 Set 2024
  • Aceito
    05 Out 2024
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