Open-access Motivações para migrar: as redes sociais e o processo decisório do migrante contemporâneo

Motivations to migrate: social networks and the decision-making process of contemporary migrant

Motivaciones para migrar: redes sociales y el proceso de toma de decisiones de migrante contemporáneo

Resumo

Neste artigo, objetivamos compreender as motivações que estimulam as migrações contemporâneas, assim como conhecer a relevância das redes sociais no processo decisório do migrante. Para isso, tomamos como ponto de partida o modelo histórico-estrutural, por meio do qual se visualizam os diversos fatores que influenciam a tomada de decisão pela migração, tornando-a uma análise de um contexto social sugestionado pelo capital, em vez de uma decisão única de cada indivíduo. Ainda, buscamos analisar a influência das redes sociais no processo migratório, por meio de entrevistas com migrantes nordestinos, que, atualmente, trabalham em frigoríficos de processamento de aves nas cidades de Forquilhinha e de Nova Veneza (cidades situadas no Sul do estado de Santa Catarina, onde estão localizados os dois maiores frigoríficos da região, os quais pertencem à JBS). Foi possível concluir que, para os migrantes deste artigo, a existência de uma rede de apoio no local de destino é preponderante para sua escolha na decisão de migrar ou, principalmente, para onde ir. Além disso, compreendeu-se que, por mais que seja uma decisão individual para o migrante, é no contexto social e, sobretudo, econômico, que reside a determinação por migrar. O artigo também evidencia o fato de que os migrantes estão mudando para cidades de pequeno porte, que dispõem de alta oferta de empregos.

Palavras-chave:
migração; redes sociais; modelo histórico-estrutural

Abstract

In this article, we aim to understand the motivations that stimulate contemporary migrations, as well as to know the relevance of social networks in the migrant's decision-making process. For this, we take as a starting point the historical-structural model, through which the various factors that influence decision-making on migration are visualized, making it an analysis of a social context suggested by capital, rather than a decision unique to each individual. Still, we seek to analyze the influence of social networks in the migratory process, through interviews with northeastern migrants who currently work in poultry processing plants in the cities of Forquilhinha and Nova Veneza (cities from the south of the state of Santa Catarina, where the two largest slaughterhouses in the region, which belong to JBS, are located). It was possible to conclude that, for the migrants in this article, the existence of a support network at the destination is preponderant for their choice, whether in the decision to migrate, but mainly, in choosing where to go. Additionally, it was understood that, more than an individual decision from the migrant, it is in the social and mainly economic context that the determination to migrate resides. Another question that was evidenced in the article was that migrants are moving to small cities, where there are more job opportunities.

Keywords:
migration; social media; historical-structural model

Resumen

En este artículo pretendemos comprender las motivaciones que impulsan las migraciones contemporáneas, así como conocer la relevancia de las redes sociales en la toma de decisiones del migrante. Para ello, tomamos como punto de partida el modelo histórico-estructural, a través del cual se visualizan los diversos factores que inciden en la toma de decisiones sobre la migración, haciéndolo un análisis de un contexto social sugerido por el capital, más que una decisión única de cada individuo. Aún así, buscamos analizar la influencia de las redes sociales en el proceso migratorio, a través de entrevistas con migrantes nordestinos que actualmente trabajan en plantas procesadoras de aves en las ciudades de Forquilhinha y Nova Veneza (ciudades situadas en el sur del estado de Santa Catarina, donde se encuentran los dos mayores frigoríficos de la región, que pertenecen a JBS). Se pudo concluir en el artículo que, para los migrantes de este artículo, la existencia de una red de apoyo en el destino es preponderante para su elección, ya sea en la decisión de migrar, pero principalmente, hacia dónde ir. Y que, más que una decisión individual en el migrante, es en el contexto social y principalmente económico donde reside la determinación de migrar. El artículo también destaca el hecho de que los migrantes se están mudando a ciudades pequeñas, que cuentan con una alta oferta de empleo.

Palabras clave:
migración; redes sociales; modelo histórico-estructural

1 INTRODUÇÃO

A migração não é um tema contemporâneo: desde sempre, o ser humano se move pelo mundo. Pode ser em razão de uma necessidade econômica, uma fuga de desastres naturais ocorridos em seu local de origem, ou em busca de asilo após perseguições políticas ou religiosas. Alguns migram do campo para a cidade para estudar; outros migram da cidade para o campo para ter uma vida mais sossegada. Independentemente das motivações, esse deslocamento possibilita ao migrante a esperança de um recomeço.

Neste artigo, buscamos abordar as motivações que conduzem à migração contemporânea, por meio do estudo de migrantes que se movem da região Nordeste para o Sul brasileiro, em busca de trabalho nos frigoríficos da multinacional JBS, especificamente nas unidades fabris de Nova Veneza e Forquilhinha, ambas localizadas em Santa Catarina. O estado de Santa Catarina tem sido um dos maiores receptores de imigrantes nos últimos anos, sendo o que mais gerou postos de trabalho para trabalhadores estrangeiros nos anos de 2014, 2017, 2018, 2019 e 2020, segundo o Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra)2. Mas o número de migrantes internos que são atraídos para essa região também é muito significativo. De acordo com dados do CadSUS3, em Nova Veneza, 90% dos moradores cadastrados não nasceram no município, enquanto em Forquilhinha, seriam 49,62% dos cadastrados não naturais.

O artigo está dividido em duas partes: na primeira, em uma abordagem mais ampla, visualizamos as motivações da migração por meio do modelo histórico-estrutural, que demonstra a influência do contexto social para o migrante. Na segunda parte, buscamos compreender de que forma as redes sociais nas quais o migrante está inserido indicam os locais para os quais será direcionada a migração; ainda, apresentaremos as configurações das redes de apoio que auxiliarão o migrante na chegada ao destino final. Para isso, usaremos como conceitos norteadores a Teoria dos Desenvolvimentos Desiguais, de David Harvey, e as contribuições sobre a temática migração, de Eunice Durham e Paul Singer.

O artigo é parte de um estudo maior, o qual relata experiências de trabalhadores migrantes nos frigoríficos de Nova Veneza e de Forquilhinha. Utilizamos como metodologia de pesquisa para este estudo a História Oral, por esta ter características que permitem obter resultados que dificilmente seriam encontrados por meio de outros métodos. Na palavra escrita, podemos repensar inúmeras vezes o discurso, revisá-lo de forma a deixar a escrita mais agradável ou pouco comprometedora. Na História Oral, apostamos na perspicácia do entrevistador em buscar despertar tanto lembranças do passado quanto fatos do presente, que serão contados de forma espontânea e, provavelmente, com maior riqueza de detalhes. Há críticas de que esse método não teria eficácia, visto que a memória do entrevistado pode ser falha, principalmente quando se decorre um tempo considerável da experiência vivenciada, ou que ele, o entrevistado, poderia distorcer a informação. Porém, essa possível falha ou distorção pode ser fruto do contexto social e histórico em que o entrevistado se insere, e, por mais que nem sempre a narrativa seja absolutamente condizente com a realidade, para o respondente, ela pode ser sua verdade absoluta. O método foi fundamental para o desenvolvimento deste artigo, porque, como já explica Portelli (1997),

[...] fontes orais contam-nos não apenas o que o povo fez, mas o que queria fazer, o que acreditava estar fazendo e o que agora pensa que fez. Fontes orais podem não adicionar muito ao que sabemos, por exemplo, o custo material de uma greve para os trabalhadores envolvidos; mas contam-nos bastante sobre os custos psicológicos (Portelli, 1997, p. 31).

Desta forma, buscamos captar algumas das experiências desses migrantes por meio de entrevistados, os quais foram escolhidos aleatoriamente: nossa primeira incursão foi na Secretaria de Assistência Social de Nova Veneza, na qual pudemos conversar com quatro profissionais que atuam no órgão, todos diretamente envolvidos na elaboração e na implementação das políticas públicas assistenciais do município. Esses também nos indicaram algumas pessoas com o perfil que buscávamos para as entrevistas. Além disso, também tivemos acesso a pessoas que, esporadicamente, compareceram na secretaria enquanto ali estávamos, e, gentilmente, concordaram em falar conosco. Outro entrevistado foi o senhor Celio Elias, dirigente sindical que já presidiu o SINTIACR4 por várias gestões. Além de falar sobre a questão migratória, Sr. Célio realizou indicação de um entrevistado, o qual também trouxe um colega para conversar conosco. Ainda, realizamos uma entrevista com o idealizador do projeto social Padrinho dos Sonhos, que também indicou mais uma pessoa para contribuir para a pesquisa. Todos os entrevistados, não naturais de Santa Catarina, eram oriundos do Nordeste brasileiro.

Preparamos para estas entrevistas um roteiro com perguntas diretas, apenas para que tópicos importantes não pudessem ser deixados de lado. Nosso objetivo nunca foi realizar algo muito formal, mas sim abrir uma porta para que o entrevistado pudesse contar sua história de forma livre, com interrupções pontuais ou mudanças de tema de acordo com o decorrer da conversa. Procedemos de forma a obter algumas informações básicas do entrevistado e, em seguida, deixá-lo falar sobre sua história de vida. Na segunda parte deste artigo, será possível visualizar um excerto dessas entrevistas, a partir das quais podemos afirmar sobre a relevância das redes sociais no processo decisório da migração.

2 COMPREENDENDO O MODELO HISTÓRICO-ESTRUTURAL: A TOMADA DE DECISÃO DO MIGRANTE

Dentro dessa corrente, podemos discutir a perspectiva de Singer (1998), que elenca dois fatores como as principais influências para as migrações: os fatores de atração são os mais amplamente discutidos pelos pesquisadores atuais, que é exatamente a perspectiva de migrar para obter um trabalho na cidade grande, especialmente em indústrias. A remuneração no campo ou nas pequenas cidades costuma ser baixa e irregular; em muitos casos, depende da produção agrícola, e as safras geralmente não têm uma constância, pois dependem de uma série de fatores (como o clima, por exemplo) para alcançarem a produtividade. Além disso, a cidade disponibiliza uma série de “atrações” que ou não existem no campo ou são em menor número: mais acesso a opções de lazer, aos meios de consumo e também a estruturas educacionais, como escolas e universidades. Para o migrante, a conquista de um emprego na cidade grande representa uma mudança em seu status social, algo que vai muito além da remuneração.

Podemos exemplificar essa situação a partir das palavras de Thomson (2002, p. 345), em que “as narrativas dos migrantes evocam os ‘imaginários culturais’ sobre os futuros locais de destino e explicam como estes imaginários são produzidos, disseminados, recebidos e usados”. É possível entender que as suposições imaginadas pelos migrantes a respeito do local de destino são, muitas vezes, despertadas pelos contatos com outras pessoas que já realizaram esse deslocamento e pressupõem formar uma rede de apoio que irá auxiliar o migrante nessa transição, seja fornecendo moradia provisória, seja indicando de locais onde buscar emprego, seja mesmo inserindo-o em sociedade.

Campos (2015), por sua vez, cita diversos atores que usualmente fazem parte desta rede social migratória, a qual pode consistir em outros personagens além de familiares e conhecidos, mas que também influenciam o processo migratório: agenciadores, agentes de turismo, policiais, assistentes sociais e religiosos, como padres e pastores. A autora ressalta que não podemos supor que todos os migrantes tomam sua decisão influenciados por atores de sua rede social, mas considerar que mesmo o indivíduo que toma sua decisão individualmente pode ser atingido por um “transbordamento” da rede migratória. Um exemplo atual seria o amplo acesso à internet e às redes sociais, em que simples pesquisas podem proporcionar um enorme acesso à informação, fundamental para a tomada de decisão: uma agência de empregos que disponibiliza vagas nas redes sociais pode atrair migrantes de todos os lados, que não necessariamente tenham algum vínculo com a localidade para a qual irão migrar.

Everett Lee (1966) traz o assunto ao relacionar como determinantes para a migração alguns fatores principais: os primeiros são os que estão ligados ao local de origem ou ao destino da migração, os quais irão influenciar tanto para atrair quanto para afugentar os migrantes; as motivações pessoais também são consideradas, como, por exemplo, os chamados “obstáculos intervenientes” (podemos citar o caso dos imigrantes e as exigências de documentação para se manter em situação legal dentro do país de destino). O autor coloca sobre a forma como esses fatores podem ser interpretados de distintas maneiras por cada pessoa: uma mesma dificuldade se configura como simples ou insuperável para pessoas distintas, assim como um fator atrativo pode se mostrar insignificante ou decisivo para outras.

Outra abordagem do modelo histórico-estrutural acontece a partir da Teoria dos Desenvolvimentos Desiguais, de David Harvey (2000). Nessa teoria, o autor explica de que forma a busca pelo capital faz com que os territórios se desenvolvam economicamente de forma díspar, trazendo à luz dois fatores: a produção das escalas espaciais e a produção da diferença geográfica. Acerca do primeiro fator, deve ser observada a formação das escalas espaciais: desde a escala mais diminuta, como um lar, até uma escala de grande proporção, como um país, e cada uma tem suas particularidades. Na maioria das vezes, esses detalhes não se formam naturalmente, mas por meio das inovações tecnológicas, das formas de organização dos seres humanos e de lutas políticas. O próprio território não se define por limites estabelecidos pela natureza, mas por acordos políticos e econômicos, em que se estabelecem fronteiras de cidades, de estados e de países.

Assim, os cidadãos ficam sujeitos às formas de governo ditadas por seus governantes, que privilegiam certas escalas espaciais em detrimento de outras. Um exemplo seria quando um estado oferece incentivos fiscais para que determinada empresa se estabeleça em seu território: por um lado, certa quantidade de empregos será gerada, assim como a economia da região se desenvolverá em virtude da instalação da empresa e dos serviços por ela demandados. Por outro, os impostos que a empresa deixará de pagar, em virtude dos incentivos recebidos, deixam de ser revertidos em benefício da população, investidos em saúde, educação, saneamento básico, entre outros. Assim, o maior favorecido continuará sendo o capital, cujos maiores beneficiados serão a empresa e seus proprietários, o que gera ainda mais desigualdade de renda.

Já quanto à produção da diferença geográfica, segundo fator apontado pelo autor, temos os “legados histórico-geográficos”, em que cada região tem suas concepções políticas e culturais, um modo de vida da população, uma composição geográfica e uma localização no mapa. Harvey (2000) fala do mosaico geográfico, onde camadas e camadas de legados são adicionadas umas sobre as outras. Cada geração vai deixando sua contribuição, seja na relação com o meio ambiente, seja nas relações de trabalho, seja nos padrões de vida. Contudo, aponta o autor,

[...] as diferenças geográficas são bem mais do que legados histórico-geográficos. Elas estão sendo perpetuamente reproduzidas, sustentadas, solapadas e reconfiguradas por meio de processos político-econômicos e sociológicos que ocorrem no momento presente” (Harvey, 2000, p. 111).

Desse modo, as diferenças geográficas se aliam às escalas espaciais a partir do momento em que se torna mais vantajoso investir o capital em uma região do que em outra. Certos locais passam a ser extremamente ricos, enquanto outros empobrecem cada vez mais.

Dessa forma, os desenvolvimentos geográficos desiguais se tornam um propulsor dos movimentos migratórios, seja pela ausência do investimento em uma determinada localidade, seja quando indústrias outrora estabelecidas na região decidem mover seus recursos para outra localização onde tenham mais vantagens econômicas; o desemprego proporcionado pela diferença na distribuição do capital entre as regiões impulsiona a migração. Mesmo a precarização do emprego, fato comum quando associado, principalmente, a grandes empresas, é relevante: salários baixíssimos, aliados a péssimas condições de trabalho, evocam a necessidade de migrar para buscar por uma vida melhor. Como um enorme exército industrial de reserva à disposição, grandes empresas, em geral, não almejam oferecer condições justas de remuneração e de ambiente de trabalho aos funcionários, visto que as “peças de reposição” são facilmente encontradas, caso o trabalhador explorado não mais deseje se submeter a degradantes condições para permanecer no emprego.

Ainda dentro da corrente histórico-estrutural, podemos evidenciar as hipóteses desenvolvidas por Lee (1966) sobre outros fatores que influenciam nas migrações, entre as quais: oportunidades repentinas (o autor cita a exploração de metais preciosos em certos territórios); diversidade da população (uma população de origens muito diversas, com desigualdade social elevada e disparidade de raças e escolaridade pode gerar uma discriminação que propulsione a migração da parcela menos favorecida); flutuações da economia (a ampla industrialização de uma região do país pode despovoar outras regiões); e até mesmo o nível do desenvolvimento entre países - enquanto em países mais desenvolvidos é comum migrar para regiões onde haja oferta de um trabalho mais especializado e melhor remunerado (e visando a essa migração, uma vez que desde cedo as pessoas se qualificam para atender futuros requisitos técnicos), em países mais pobres a migração pode ser condicionada a fatores de expulsão, só ocorrendo quando o migrante não tem outra alternativa.

3 A DECISÃO DE MIGRAR: A PARTIDA FOMENTADA PELO INCENTIVO DAS REDES SOCIAIS

[...] é basicamente um imã: um tá aqui, chama o outro, né? Um colega veio pra cá porque aqui é muito bom, tem emprego (Marcelo5, entrevistado, 2021).

Aqui, daremos voz às palavras de algumas pessoas entrevistadas para o estudo no qual se baseia este artigo. Quando questionadas sobre as motivações de sua migração, percebemos que, geralmente, o fator determinante para a decisão de migrar foi econômico. Mas, como apontado por Durham (1973), nem sempre quem migra se encontra em uma situação extrema, em condição de fome, por exemplo. Comumente, a rede de familiares e o círculo social amparam esse indivíduo, caso se encontre em condição de necessidade. O que ocorre é a manifestação do desejo de melhorar de vida: em geral, de consumir mais. A autora discorre sobre isso, colocando sobre a ânsia por “ascensão social” reforçada pela “expansão da economia industrial e que só podem ser satisfeitas pela compra” (Durham, 1973, p. 114). Na percepção do migrante, somente com uma remuneração maior e garantida por meio de um trabalho registrado, com carteira assinada, de preferência em uma grande empresa, é possível adquirir os itens de desejo e, assim, escalar degraus de importância em seu círculo social.

A idade média dos entrevistados foi entre 20 e 40 anos. A maioria deles, antes de migrarem para Santa Catarina, residiam com seus familiares ou no entorno deles. Em vários momentos, são citadas, por eles, frases como: “Venha embora, aqui você tem casa, não paga luz nem água”. Ou seja, o núcleo familiar poderia prestar auxílio com o básico para sobrevivência. Todavia, a partir do momento em que suas redes sociais se manifestaram, dando informações de que em determinado local haveria condições de sobrevivência mais satisfatórias, o migrante optou por trocar essa pequena segurança que existia em seu local de origem por um lugar desconhecido. Ele deduziu que certamente iria conquistar uma condição econômica mais interessante do que a atualmente encontrada: houve a necessidade de quebrar essa dependência econômica dos familiares e ascender social e financeiramente.

Para a população mais jovem, o acesso maior aos bens de consumo se torna não só desejável, mas quase que obrigatório. Na continuidade das observações de Duhran (1973), podemos interpretar como um verdadeiro desejo de pertencer à coletividade, integrar-se socialmente, algo que só pode ser obtido por intermédio do “ter”, o que, na juventude, pode se mostrar irrenunciável, mesmo que, para isso, seja necessário abrir mão de outros objetivos, como, por exemplo, a escolarização. No estudo de Araújo et al. (2014), os autores demonstram a migração na faixa etária entre 23 e 29 anos, de acordo com dados dos Censos 2000 e 2010. É possível constatar que os jovens migrantes têm menor escolaridade do que os que não migram, porém, mesmo assim, conseguem melhores posições empregatícias, por contarem com outras características que lhes destacam, como empreendedorismo e motivação. O próprio fato de migrar já representa um espelho dessas características, pois a disposição de deixar a segurança do lar em busca do desconhecido demonstra coragem e determinação, assim como o desejo de obter uma condição de vida (principalmente econômica) mais confortável do que a obtida até o momento da migração.

É o caso de Alice, de dezoito anos. Morando com os pais no município de Salgadinho (PE), mudou-se para Nova Veneza sem conhecer alguém, influenciada pelo projeto PADRINHO DOS SONHOS, do qual falaremos adiante. A jovem, que tem Ensino Médio completo e pensava, em 2023, iniciar uma graduação em Administração, disse ter mais responsabilidades na cidade nova, principalmente porque, em sua cidade original, muitas vezes, os pais tomavam as decisões por ela. Segundo a entrevistada, Salgadinho é uma cidade pequena, com poucas oportunidades de emprego e também de escolarização; via em sua migração a perspectiva de ter uma vida melhor: desejava que seu irmão mais novo também se mudasse para Santa Catarina. Questionada sobre como estava sendo a experiência na nova cidade, ela nos relatou que “[...] é complicado, muito, porque eu não tenho nenhuma família, apesar de ter o pessoal. Família é família, então é um pouco complicado” (Alice, entrevistada, 2021).

Percebemos em Alice a mistura de duas perspectivas: por um lado, a jovem optou por deixar os familiares na origem e se submeter a residir em um local desconhecido, dividindo a casa com pessoas que, a princípio, também não conhecia, com a expectativa de conseguir um emprego que lhe desse um maior acesso aos bens de consumo; por outro lado, o fato de falar que em sua cidade o acesso à escolarização é difícil, demonstra que ela tinha intenção de obter uma maior escolaridade e, assim, eventualmente, buscar empregos mais qualificados. Em nossa interpretação, essas possibilidades se tornam mais acessíveis quando são indivíduos jovens, cujos familiares podem auxiliar com alguma contribuição (geralmente financeira), e que, no momento, estão responsáveis unicamente pelo próprio sustento, por não terem filhos ou precisarem enviar dinheiro para aqueles que ficaram na cidade original.

Porém, a situação muda quando tratamos de uma família migrante, que já se encontrava numa situação de extrema dificuldade quando migrou. Observamos aqui a percepção da entrevistada Maria, com idade de 33 anos, que residia há três em Nova Veneza, com seu marido e filha pequena. Maria é natural de Fortaleza (CE); seu marido, metalúrgico experiente, se encontrava desempregado há quatro meses e, convidado por amigos que residiam na cidade catarinense, decidiu tentar a sorte no Sul. Foi contratado imediatamente, e, após o período de experiência, trouxe esposa e filha, na época recém-nascida. Maria descreveu sua chegada na cidade como bastante difícil: nada possuía. É forte o depoimento em que descreve que, por um mês, ela e a sua pequena família dormiam em cima de paletes, em pleno frio do inverno, por não terem móveis; que dividiam a casa com mais dois jovens, os quais lhe forneciam uma cesta básica em troca de que ela cozinhasse e lavasse suas roupas.

Para Maria, a comunidade de Nova Veneza mostrou hospitalidade: foi abordada por uma estranha que, ao vê-la andando pela rua, puxou conversa e em seguida lhe ofertou alguns móveis usados. Aos poucos, o casal foi melhorando de vida, e, no momento da entrevista, Maria se considerava uma “privilegiada”, usufruindo também de políticas públicas ofertadas pelo município: considerava que o atendimento em saúde era muito satisfatório, mas, principalmente, enaltecia a creche da prefeitura: “Minha filha, quando chega na porta da creche, ela quer derrubar o portão pra entrar”. Falou sobre os materiais e alimentos que a filha recebia para levar para casa e sobre o carinho que ela tinha pelas professoras, chamando, inclusive, a diretora de vó. Segundo ela, isso não seria possível onde vivia anteriormente, em função de certa escassez ou má distribuição de recursos públicos.

Maria e sua família, assim como os outros entrevistados, viram na migração um desejo de fugir da pobreza: deixaram para trás familiares, que poderiam ter contribuído para sua subsistência, caso optassem por permanecer. Não são apenas pobres que migram: pessoas migram para estudar, migram para outros países em busca de uma cultura desejada - vista em filmes e em séries de televisão; aposentados já estabelecidos financeiramente migram para locais onde terão uma vida mais tranquila, como praias ou montanhas. Entretanto, especificamente nesse caso das pessoas que vão para Forquilhinha e Nova Veneza, é o padrão econômico o determinante para a migração - o anseio por atender as suas necessidades mais simples. Posto por Singer (1998, p. 61), “a pobreza é vista como uma situação relativa, que deve, contudo, ser relacionada com a medida absoluta de um mínimo. [...] Pobres são os desprovidos da satisfação daquilo que se considera suas necessidades básicas”. Significa que, quando a filha de Maria ganhou na creche alimentos, brinquedos, materiais escolares ou foi acolhida pelas professoras, Maria não se sentiu mais tão pobre: naquele momento, a satisfação de sua filhinha era a única coisa que importava. Ainda que, aparentemente, a situação da creche fosse algo positivo e inesperado, algo com que Maria não contava quando decidiu pela migração, foi fundamental para sua permanência no local.

O fato de já ter conhecidos e familiares no local de destino não somente influencia a decisão como serve para formar uma rede de apoio, por meio da qual o migrante é amparado no início e da qual posteriormente se torna parte, auxiliando outras pessoas que chegam. Como expõe o entrevistado Eduardo: “É um imã, um tá aqui e chama o outro, né. Um colega veio pra cá, porque aqui é muito bom, tem emprego. E eu vim pra cá, só que aí passou [sic] alguns meses, vamos dizer assim, seis a sete meses, depois eu consegui alugar uma casa e trazer a família”. Atualmente há oito anos em Nova Veneza, na época da entrevista, era dirigente sindical e uma liderança para os trabalhadores da empresa, em especial os nordestinos: “A tendência nossa nesse ramo é ficarmos ali, apoiar com as nossas mãos, dizer assim, levanta a cabeça” (Eduardo, entrevistado, 2021).

As redes sociais são um aspecto fundamental na tomada de decisão no que se refere à migração. Podemos utilizar alguns exemplos: Santos (2013) coloca sobre a inversão da população brasileira no contexto rural/urbano entre os anos de 1940 e 1990, passando a urbanização de 27,35%, no primeiro período, para 77,13% no segundo. Vimos, em Durham (1973), que as famílias residentes no interior eram geralmente numerosas, vivendo com recursos escassos, em que cada filho se configurava mais uma boca para sustentar. Assim, a tendência era de que os mais velhos partissem para a cidade, uma forma de desbravar este território desconhecido. Porém, como a própria autora indica, após um tempo, estes “mandavam buscar” um irmão mais novo para usufruir de situação semelhante a que tinha conquistado na cidade (onde, vivendo em uma mesma moradia, poderiam também dividir as despesas básicas, como aluguel, energia elétrica, e, então, verem sobrar mais dinheiro para outras necessidades).

A influência das redes sociais também foi determinante para a migração no estudo de Castro (2016). Nesse caso, a autora estuda imigrantes que se destinam aos países da Espanha e de Portugal, em especial para regiões com baixa densidade demográfica. Não só a existência das redes sociais é decisiva na opção pela mudança, como fica evidente a necessidade do reencontro familiar - mudar-se para locais onde parentes já estão estabelecidos e, assim, reaproximar a família, como no exemplo de esposas e filhos que migram para o local já escolhido pelo genitor. A autora também ressalta que o fato de já haver pessoas próximas estabelecidas no destino faz com que a chegada do migrante seja facilitada, visto que já há um caminho indicativo de como “fazer as coisas”, seja buscar um emprego, seja integrar-se à sociedade etc. (Castro, 2016).

Por meio das redes sociais, geralmente, o convite está atrelado à possibilidade de emprego. Os migrantes de nossa pesquisa vêm, em sua maioria, de cidades pequenas, onde as oportunidades de trabalho estão associadas ao setor público (geralmente prefeituras), à agricultura ou aos pequenos comércios. É o caso de Juliana, que tinha 21 anos e estava grávida do primeiro filho quando havia se mudado no ano que nos concedeu a entrevista, em 2021. Quando questionada sobre a razão que a levou a vir para Nova Veneza, respondeu que já tinha dois primos residindo na cidade. Ela disse: “Quando eles passaram a informação para a gente, eles disseram: tem a JBS, que é muito boa”. A moça relatou que, enquanto em sua cidade de origem, Salgadinho, durante a pandemia, as contratações eram praticamente inexistentes, já em Nova Veneza, o frigorífico teria precisado contratar bastante gente, o que reforçou, em sua concepção, a maior abundância de vagas de emprego, confirmando a impressão de que seus familiares estavam corretos em convidá-la a vir.

Essa chegada a um destino onde já estão estabelecidas pessoas com vínculos familiares ou de amizade com o migrante pode proporcionar uma aproximação até maior do que a que existia entre eles anteriormente à migração. Leva-se em conta que partilham de costumes, tradições e um passado que, geralmente, não é compartilhado com a comunidade local, apenas entre eles. As dificuldades e as conquistas vivenciadas tendem a ser restritas ao grupo social: também com a participação mais efetiva da mulher e dos jovens no ambiente de trabalho, há uma partilha de responsabilidades dentro dessa rede, na qual quem não está trabalhando no momento, ou tem mais tempo livre, auxilia outros membros do grupo, seja no cuidado com crianças e idosos, seja no preparo dos alimentos, seja em quaisquer atividades que possam contribuir.

Essa rede de apoio se configura, em realidade, como um mecanismo de defesa e de sobrevivência, tanto para quem chega quanto para quem já está estabelecido, pois um tempo muito longo irá passar até que o migrante se configure no local, passando sua condição de “estrangeiro”, se não despercebida, ao menos tolerada perante os nativos. Aqui é interessante trazer a análise de Harvey (2010), que aborda a forma como a humanidade precisa se relacionar consigo mesma e com o próximo, de maneira a explorar toda a sua capacidade e também as suas “potencialidades adormecidas”. Somente por intermédio das modificações nas estruturas de nossas organizações sociais podemos atingir este ápice, seja por meio das relações de trabalho, seja por meio da tecnologia, seja por meio da vida em sociedade.

O autor enumera uma série de estratégias que colaboram para o refinamento dessa experiência evolutiva, mas uma delas pode ser bem aplicada a essa rede de migrantes, quando o autor nos diz: “[...] julgo que os sociobiólogos tem razão, por exemplo, quando afirmam que a cooperação (‘altruísmo recíproco’ é a expressão que eles preferem) é em alguma medida uma forma adaptativa de competição (tem melhores condições de sobrevivência os organismos que ajudam uns aos outros)” (Harvey, 2000, p. 275). Os migrantes somente sobrevivem neste local estranho ao se tornarem mais fortes, conforme a união entre eles fortalece.

Apesar de, nos municípios de Nova Veneza e de Forquilhinha, os frigoríficos da JBS serem os maiores chamarizes para quem busca por emprego, em razão da grande quantidade de vagas que ofertam e pela rotatividade que a cada dia demite e admite funcionários, as cidades também dispõem de outros estabelecimentos, como metalúrgicas, confecções, supermercados. Nova Veneza, por exemplo, é uma cidade turística. O chamativo turístico é de que é possível, no local, conhecer uma cidade brasileira que traz a preservação da cultura italiana, seja na gastronomia, seja na arquitetura, entre outros. Lá, também ocorre o turismo religioso, em virtude da existência do Santuário de Nossa Senhora do Caravaggio. Assim, há oferta de vagas em restaurantes típicos, pousadas e outros comércios ligados ao turismo. No entanto, diferentemente da JBS, em que a grande demanda e a existência de processos seletivos mais estruturados permitem admitir pessoas recém-chegadas e com pouca experiência, em estabelecimentos menores, em que as contratações, às vezes, são feitas por meio de entrevistas realizadas pelo próprio proprietário, o acesso às vagas se torna mais difícil: geralmente, é necessário algum tipo de indicação, de recomendação vinda de pessoas que ali já estão estabelecidas. Como exposto por Durham (1973, p. 188): “A possibilidade de obter um emprego predeterminado não implica apenas em saber de sua existência, mas em conhecer o modo específico de disputá-lo ou de se qualificar para ele”.

Nesse contexto, podemos inserir um projeto que estava em atividade no período em que as entrevistas foram realizadas, o Padrinho dos Sonhos. O projeto foi idealizado por Gustavo Mendonça, natural também de Salgadinho. Gustavo veio morar em Nova Veneza por influência de uma tia que já vivia no local, e percebeu, no município, uma realidade bastante diferente daquela de sua cidade de origem, com abundância de empregos e salários mais elevados. Então, retornou a Salgadinho com a ideia de trazer pessoas da cidade para trabalhar em Nova Veneza, inclusive se candidatando a vereador na cidade de origem, como forma de conseguir mais recursos para a divulgação e a implementação de seu projeto. Não conseguiu se eleger, mas chamou a atenção de um médico6 local, que financiou o início de seu projeto.

Gustavo retornou a Nova Veneza e, com a ajuda do médico, alugou e mobiliou uma casa, chamada posteriormente de república. O projeto funcionava da seguinte forma: a casa tinha capacidade para abrigar em torno de sete pessoas por vez. As pessoas contatavam Gustavo por meio das redes sociais, como Facebook e Instagram, ou de outras pessoas que chegavam ali pelo projeto, entrando, assim, em uma lista de espera. Quando chegava a vez delas, pagavam pela própria passagem aérea. No destino chegando, hospedavam-se na república, onde não precisavam se preocupar com aluguel, água, luz ou internet. A partir do momento em que conseguiam o emprego, passavam a auxiliar com os gastos acima mencionados e tinham um determinado período para deixar a casa, de forma a ceder lugar para as pessoas da fila de espera7. Era nessa casa que a entrevistada Alice, a jovem de 18 anos, citada alguns parágrafos atrás, vivia com mais alguns outros conterrâneos.

Porém, além de articular ações que garantissem os recursos para manter a república, o diferencial era que Gustavo havia se tornado uma pessoa conhecida na cidade, sendo que, quando chegavam em Nova Veneza, esses migrantes tinham emprego praticamente garantido, visto que não só o frigorífico JBS, mas supermercados, metalúrgicas e restaurantes da cidade pediam a Gustavo que lhes indicasse as pessoas que estavam chegando para trabalhar. Segundo Gustavo, isso se devia ao delicado trabalho de triagem realizado antes de trazer as pessoas para Nova Veneza:

Eles entram em contato, falam o interesse, eu busco conhecer o perfil da pessoa, que a gente tem que trazer pra cá pessoas de responsabilidade, porque como Nova Veneza é uma cidade pequena, praticamente todo mundo conhece todo mundo. Então a gente tenta ser o mais responsável possível com isso, né, para não ter problemas aqui (Gustavo, entrevistado, 2021).

Ao ler as declarações de Gustavo, também visualizamos a dificuldade encontrada por migrantes que não dispõem de nenhuma relação social anterior com pessoas já estabelecidas no local, principalmente por se tratarem de cidades pequenas localizadas em um dos estados mais conservadores do país8, onde a chegada de pessoas desconhecidas nem sempre é vista com bons olhos. Mesmo a questão financeira fica bem prejudicada com essa ausência de integração, pois, de acordo com o relato de nossos entrevistados, em um primeiro momento é quase impositivo dividir o aluguel com pessoas de seu círculo, de forma a diminuir os custos: em todas as entrevistas, foi unânime a afirmação de que o valor do aluguel é a principal despesa na região. Segundo Sr. Célio Elias, dirigente Sindical do SINTIACR, o aluguel de uma casa simples, com dois quartos, cozinha e banheiro não custava menos de R$ 600,00 ao mês em Forquilhinha, em 2022. Por isso, é imperativo o compartilhamento desse custo.

Singer (1998, p. 57), nesse sentido, coloca que

[...] a adaptação do migrante recém-chegado ao meio social se dá frequentemente mediante mecanismos de ajuda mútua e de solidariedade de migrantes mais antigos. Isso significa que o lugar que o migrante irá ocupar na estrutura social já é, em boa medida, predeterminado pelo seu relacionamento social, isso é, por sua situação de classe anterior.

Percebemos, assim, que, para o migrante, torna-se inerente desenvolver relações sociais o mais rápido possível. Como nem todos vêm a partir das redes sociais, num primeiro momento, o maior desafio pode ser justamente o estabelecimento de novos relacionamentos: com base nisso, será possível ter acesso a experiências de outros migrantes que facilitem a adaptação na nova cidade.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste artigo, buscamos compreender as motivações que levam os migrantes a decidir pela migração. A partir do modelo histórico-estrutural, é possível verificar que nem sempre quem migra toma uma decisão individual, mas é estimulado por um contexto social que se formula por meio da influência de suas redes sociais: essas redes podem tanto incentivar o indivíduo a migrar para um local que, supostamente, é mais próspero economicamente, como podem pressionar indiretamente a migrar. Neste último caso, a necessidade de maior aquisição de bens de consumo, gerada por uma pressão social, pode fazer com que o migrante se mude para poder obter um poder aquisitivo que proporcione maior possibilidade de compra. Essa necessidade pode ser gerada pelo círculo social do migrante, como pelos meios de comunicação ou pelas redes sociais disponíveis na Internet, como Facebook, Instagram e Youtube, hoje acessíveis a maior parte da população e o tempo todo pressionam para o aumento do consumo.

A contraposição entre a escrita de Durham, o qual analisa um contexto da década de 1960, em que ainda se dava a inversão da população brasileira (de rural para urbana), e as entrevistas realizadas nos últimos anos aponta alguns indicativos. Então, por mais que haja mudanças nas tendências migratórias (enquanto na década de 1960 a migração se direcionava principalmente à região metropolitana de São Paulo, no artigo, visualizamos migrantes se mudando para pequenas cidades, mas com ampla oferta de empregos), o que se compartilha são desejos de melhoria de vida que proporcionem ao migrante a ascendência de sua condição social.

Este artigo reafirma que a migração é facilitada quando já há pessoas do círculo social do migrante residindo no local de destino, o que torna ele um ambiente mais confortável, onde alguns aspectos são facilitados pela rede social ali presente. No caso dos migrantes citados no artigo, residentes nas cidades de Forquilhinha e de Nova Veneza, o principal atrativo para a migração são as unidades dos frigoríficos JBS que existem nos municípios. Porém, o conhecimento da existência dos empregos ofertados pelos frigoríficos é emulado pelas redes sociais já existentes, tornando-se determinantes no processo migratório. Em se tratando de cartas ou de recados, na década de 1960, ou por meio de aplicativos de mensagens, nos tempos atuais, a comunicação e, principalmente, as relações sociais continuam sendo os principais propulsores da migração, seja ao motivar, seja ao apontar para onde deve ocorrer o deslocamento.

  • 2
    “O OBMigra é uma cooperação entre o Ministério da Justiça, o Conselho Nacional da Imigração e a Universidade de Brasília, existente desde 2013. O observatório visa a estudar as migrações internacionais no Brasil e, assim, colaborar para o desenvolvimento de políticas públicas voltadas ao público migrante. São abordados, pelo observatório, os migrantes que se estabelecem no Brasil, os brasileiros que migram para outros países e também a migração de retorno de brasileiros outrora estabelecidos no exterior e que voltam ao Brasil” (OBMigra, 2019).
  • 3
    O CadSUS é uma ferramenta de cadastro dos usuários do Serviço Único de Saúde (SUS). Nem todos os habitantes do município estão cadastrados, sendo os dados referentes apenas às pessoas que estão inseridos nele. Os dados se referem ao ano de 2021.
  • 4
    Sigla de Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Alimentação de Criciúma e Região.
  • 5
    As identidades dos migrantes respondentes foram preservadas.
  • 6
    O nome do médico não foi informado por Gustavo.
  • 7
    O projeto iniciou em 2020, sendo que, no primeiro ano, vieram somente 4 pessoas. Já em 2021, segundo Gustavo, foram beneficiadas cerca de vinte e cinco famílias, com a vinda de aproximadamente 40 pessoas. O tempo que cada pessoa vivia na república era de aproximadamente três meses, entre a chegada, conseguir o emprego e ter condições financeiras para viver por conta própria.
  • 8
    Um exemplo disso é que, no segundo turno da eleição presidencial de 2022, 69,27% da população catarinense votou no candidato de direita, Jair Bolsonaro (Partido Liberal [PL]). Em Nova Veneza, o então candidato recebeu 77,23% dos votos válidos, e, em Forquilhinha, 73,34% (Tribunal Superior Eleitoral [TSE], 2022).

REFERÊNCIAS

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  • DUHRAN, Eunice R. A caminho da cidade São Paulo: Perspectiva, 1973.
  • GOMES, Nayhara Freitas Martins. Municípios de pequeno porte do sudeste brasileiro: dinâmica migratória e aspectos econômicos. 2019. Tese (Doutorado em Geografia) - Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2019.
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    16 Dez 2024
  • Data do Fascículo
    Jul-Sep 2024

Histórico

  • Recebido
    29 Maio 2023
  • Aceito
    30 Abr 2024
  • Aceito
    27 Jul 2024
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