RESUMO
Este estudo concentra-se na análise do gênero metaficção historiográfica, conforme proposto por Hutcheon (1991), como uma instância capaz de questionar as raízes misóginas da ciência moderna. Para isso, examina-se o romance contemporâneo Remarkable Creatures (2009), de Tracy Chevalier, que reinterpreta a vida da paleontóloga Mary Anning. Esta pesquisa considera a narrativa de Chevalier como um espaço onde história e ficção são entrelaçadas de forma a questionar conceitos tradicionais sobre o papel das mulheres na construção do conhecimento. O principal objetivo deste estudo é investigar como essa narrativa revisita as questões de gênero e ciência, desafiando as convenções estabelecidas. Ao longo da pesquisa, explora-se o lugar deste romance no debate de gênero ao abordar temas como discurso histórico versus ficção, passado em contraposição ao presente, e a relação entre conhecimento e poder
PALAVRAS-CHAVE
gênero; ciência; metaficção historiográfica; romance; autoria feminina
ABSTRACT
This study focuses on the analysis of the historiographic metafiction genre, as proposed by Hutcheon (1991), as an instance capable of questioning the misogynistic roots of modern science. To do so, we examine the contemporary novel Remarkable Creatures (2009) by Tracy Chevalier, which reinterprets the life of the paleontologist Mary Anning. This research considers Chevalier’s narrative as a space where history and fiction are intertwined to question traditional concepts of women’s roles in knowledge construction. The main objective of this study is to investigate how this narrative revisits gender and science issues, challenging established conventions. Throughout the research, we explore the place of this novel in the gender debate by addressing themes such as historical discourse versus fiction, past versus present, and the relationship between knowledge and power.
KEYWORDS
gender; science; historiographic metafiction; novel; female authorship
1 Introdução
Já há algum tempo, a igualdade de gênero nas ciências representa hoje um importante debate social que, por repetidas vezes, tem ultrapassado os limites da esfera acadêmica. Ainda assim, percebe-se que muito há a ser alcançado no que se refere à paridade de tratamento entre homens e mulheres no fazer científico. De acordo com o relatório “Decifrar o código: educação de meninas e mulheres em ciências, tecnologia, engenharia e matemática (STEM)”, da Unesco (2018), apenas 28% das pesquisadoras ao redor do mundo são mulheres.
No âmbito do Brasil, chamam a atenção os dados apresentados no estudo “Androcentrismo no Campo Científico: Sistemas Brasileiros de Pós-Graduação, Ciência e Tecnologia como estudo de caso”, o qual indica que, embora as mulheres compreendam a maior parte (58%) entre os bolsistas da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), elas são minoria entre os pesquisadores agraciados com bolsas da mesma entidade no exterior (48%). Ao mesmo tempo, elas representam apenas 25% dos bolsistas do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) – órgão que financia a maioria dos projetos de pesquisa de graduação e pós-graduação no país (ABC, 2023).
Essa desigualdade, que relega a segundo plano os saberes produzidos por mulheres e que inibe o seu desenvolvimento em práticas de pesquisa, apresenta em suas bases a conformação da ciência moderna, emergida após o ápice renascentista. Tendo entre seus idealizadores naquele momento nomes como René Descartes e Francis Bacon, essa ciência significaria o expurgar quase que completo das figuras femininas da produção de conhecimento, pautando-se no entendimento de que tanto a razão quanto a exploração eram compatíveis apenas com a parcela dominadora da espécie, qual seja, os homens com acesso à formação intelectual.
Nos fundamentos que caracterizam essa discriminação de gênero, acredita-se estar presente aquilo que Boaventura Santos (2007) identifica como o maior traço do pensamento moderno, qual seja, a instauração de linhas abissais.2 Para o autor, “a característica fundamental do pensamento abissal é a impossibilidade da co-presença dos dois lados da linha” (Santos, 2007, p. 4). Assim, estabelecendo uma fronteira atroz entre um lado e o outro da fronteira, o pensamento abissal:
Consiste num sistema de distinções visíveis e invisíveis, sendo que as invisíveis fundamentam as visíveis. [...] A divisão é tal que “o outro lado da linha” desaparece enquanto realidade, torna-se inexistente, e é mesmo produzido como inexistente. Inexistência significa não existir sob qualquer forma de ser relevante ou compreensível. Tudo aquilo que é produzido como inexistente é excluído de forma radical porque permanece exterior ao universo que a própria concepção aceite de inclusão considera como sendo o Outro
(Santos, 2007, p. 3-4).
Nesse jogo de binarismos, o conhecimento ocupa lugar de destaque. Cabe à ciência moderna o “monopólio da distinção universal entre o verdadeiro e o falso” (Santos, 2007, p. 5). Paralelamente, seria privilégio dos estratos sociais hegemônicos (o homem ocidental, branco, heterossexual e cristão) o direito de realizar tal juízo. Todavia, com o advento da pós-modernidade na segunda metade do século XX, Boaventura Santos diagnostica uma atmosfera de quebra dessa estrutura dominante. Conglomeradas, as novas forças que exigem justiça social propõem a emergência de um “pensamento pós-abissal” calcado no “reconhecimento da pluralidade de conhecimentos heterogêneos” (Santos, 2007, p. 11; 23).
É notável que o tracejar de linhas para além de uma hierarquia de saberes vem aos poucos sendo proposto dentro da prática científica em inúmeras frentes, inclusive nas chamadas ciências duras. Não se pode negar, no entanto, que esse movimento de consideração da alteridade desenvolve-se a partir de correntes de pensamento resistentes aos discursos de colonização do saber e da experiência humana. De modo especial, entende-se que a literatura e sua fortuna crítica tem sido um dos domínios que mais bebe dessas discussões que olham para a alteridade, especialmente por seu já estabelecido vínculo com campos como os Estudos Culturais, Estudos Decoloniais, Estudos Feministas e os Estudos Subalternos, por exemplo.
É nesse viés que, também nas últimas décadas do século XX, Linda Hutcheon desenvolve a sua teorização sobre a metaficção historiográfica, um gênero literário que possui como traço principal a adaptação, no nível da narrativa, de personagens e episódios históricos, sempre se voltando ao questionamento do estatuto de verdade de tais acontecimentos. Na metaficção, o direcionamento crítico sobre o passado histórico não implica o abandono do ontem e tampouco dos relatos legitimados como representação de um passado inatingível. Ao contrário, esse gênero literário “depende daquilo a que contesta e daí obtém o seu poder” (Hutcheon, 1991, p. 159).
Considerando-se, assim, a singular contribuição desse gênero no âmbito das discussões que contemplam vozes contra-hegemônicas, neste artigo promove-se a discussão do romance Seres incríveis (2009), metaficção historiográfica escrita por Tracy Chevalier. Tendo como norte a vida da paleontóloga oitocentista Mary Anning e seus feitos sub-reconhecidos, a autora recria toda uma série de confrontos sociais que cruzaram os caminhos daquela que descobriu o primeiro fóssil de ictiossauro.
Assim, na leitura que aqui se apresenta, coloca-se como objetivo primordial investigar os meandros da reelaboração histórica e narrativa promovida por Chevalier de modo a dar luz aos saberes das mulheres face à prática científica. Para tal, realiza-se primeiro um breve panorama do enredo e se promove uma discussão sobre os laços entre história e ficção na elaboração literária de Chevalier. A seguir, analisa-se a problematização da atuação científica de Mary Anning ao longo da obra. Por fim, apresentam-se considerações sobre a relevância de incursões literárias desta espécie para o debate relativo à igualdade de gênero na ciência.
2 Mary Anning de Lyme Regis: da História à (meta)ficção
Publicado originalmente em 2009, Seres incríveis, de Tracy Chevalier, ficcionaliza episódios da vida de duas estudiosas históricas, despertando a atenção do leitor para as disputas entre público e privado no fazer científico da Inglaterra oitocentista. A história recontada nessa obra literária diz respeito à vida e à obra de Mary Anning e, em particular, de sua relação com Elizabeth Philpot, ambas personalidades que tiveram seu período de maior destaque nas ciências em meados do século XIX.
Nas tramas da ficção, as memórias sobre as personagens podem ser resumidas da seguinte forma: ao início do enredo, Mary é retratada como uma simples caçadora de fósseis nas falésias de Lyme Regis. De família pobre, a jovem inglesa encara o seu trabalho como pura forma de subsistência. Os fósseis coletados ao longo do dia são geralmente vendidos a turistas por valores nada criteriosos. Porém, sua perspectiva sobre esse trabalho modifica-se quando ela conhece Elizabeth Philpot, uma mulher quase vinte anos mais velha, solteira, egressa de Londres junto com as suas irmãs, Louise e Margaret, após a complicação de sua condição financeira com o falecimento dos pais e o casamento do irmão. Philpot, amante de fósseis de peixes, repassa o conhecimento que possui em torno da paleontologia a Mary e esta a retribui com seu talento nato para encontrar fósseis.
É por meio dessa parceria que Mary Anning encontra o primeiro fóssil de ictiossauro e fomenta discussões sobre a origem da vida na terra (apesar de não poder participar desses debates). O caminho das duas companheiras é também marcado por episódios de rivalidade, sejam eles ligados à vida profissional, sejam voltados às perspectivas sociais e amorosas fora da profissão. Ao fim, ambas percebem o valor do conhecimento e da cooperação mútua, enquanto mulheres, para sua emancipação.
Na realidade, neste romance, identifica-se um traço já aclamado na escrita de Chevalier, que é a reelaboração ficcional de dados históricos. Essa técnica, manifesta em seu ápice na obra prima da autora, Moça com brinco de pérola (1999), continua a manter a sua tônica dez anos depois com a publicação de Seres incríveis. Neste último romance, o costurar em conjunto com o passado histórico se faz por meio de uma incursão nos anos áureos da paleontologia em solo inglês. Durante esse percurso ao pretérito, mencionam-se figuras renomadas como William Buckland (1784-1856),3 Coronel Thomas James Birch (1768-1829)4 e George Cuvier (1769-1832).5 O destaque da ficção, no entanto, focaliza-se em Mary Anning e Elizabeth Philpot.
O trabalho com os indivíduos e episódios pouco abordados pelo discurso oficial é, sem ressalvas, uma das premissas de Seres incríveis. Chevalier não coloca luz apenas sobre o elo profissional que Mary e Elizabeth estabelecem desde muito cedo. Neste romance, se faz como princípio conhecer o ambiente privado, a fim de compreender as conformações da esfera pública. Temáticas como o amor, a sexualidade, o casamento e a reputação exigida das mulheres em diferentes grupos sociais são, então, alguns dos elementos nos quais Chevalier adentra para estabelecer uma interpretação inovadora e coerente acerca do destino tomado por Anning e Philpot no mundo científico.
Cabe observar que o ofício de Tracy Chevalier não consiste na busca de uma verdade histórica. É nesse sentido que, enquanto romancista, a autora propõe os conflitos supracitados ora pautada em relatos e documentos históricos, ora concebendo-os a partir do instinto criativo possibilitado pela ficção. Percebe-se, na realidade, uma verdadeira defesa do trabalho de metaficção historiográfica por parte da autora. No pós-escrito do romance, essa escrita que ficcionaliza passagens históricas é algo posto de maneira quase pragmática por Tracy Chevalier. Ciente de que escreve sobre uma (his)estória consideravelmente longínqua em termos culturais para leitores contemporâneos, a autora explica:
A relação do século vinte e um com o tempo e as expectativas que temos em relação a uma história são muito diferentes daquelas que definem a vida de Mary Anning. Ela viveu um dia depois do outro, ano após ano, fazendo a mesma coisa na praia. Tomei os fatos de sua vida e condensei-os para caberem numa narrativa que não vai além da paciência do leitor. Portanto, os eventos, quando colocados em ordem, nem sempre coincidem com as datas reais e os períodos de tempo. Pois, claro, inventei muitas coisas. Por exemplo, havia muitas intrigas sobre Mary e Buckland e Mary com Birch, mas não existiam provas. É nesse ponto que só os romancistas podem entrar
(Chevalier, 2014, p. 349, grifo nosso).
Essa parceria assumida com o discurso histórico (parceria que nem sempre tem o objetivo de corroborar, mas também de adicionar e inverter) não se expressa apenas por meio da fala explícita da autora no pós-escrito. Manifestando um entendimento de que a literatura auxilia na elaboração das memórias de um povo e que esse processo é realizado em conjunto com textos de outra natureza, ao final da narrativa, Tracy Chevalier dispõe uma série de indicações bibliográficas que, em maior ou menor grau, lançam uma perspectiva científica sobre a vida de Mary Anning.
Ainda introduzindo essa convergência entre texto ficcional e texto histórico, é oportuno tratar do foco narrativo escolhido em Seres incríveis. Sabe-se que, em metaficções historiográficas, é relativamente comum a apresentação de documentos os quais, ainda que forjados pelo romancista, conferem um tom de veracidade aos fatos transcorridos no enredo. Notadamente, um dos gêneros documentais mais utilizados nas metaficções é a carta. A perspectiva de uma personagem que, supostamente, teria vivenciado os conflitos descritos no romance traz consigo uma sensação de autenticidade que, de outro modo, não seria alcançada.
Seres incríveis não é em si um romance epistolar. Salvo raras exceções, não se dispõem na narrativa cartas redigidas pelos próprios personagens. Apesar disso, o relato dos acontecimentos é estruturado em uma linguagem que muito se assemelha àquela utilizada na redação de correspondências. O foco narrativo, em primeira pessoa, é alternado de capítulo em capítulo entre as duas protagonistas do romance, Mary Anning e Elizabeth Philpot. Não raramente, uma mesma passagem do enredo é contada separadamente pelas duas personagens, havendo uma coerente oscilação de sentimentos, fatos e tonalidade de fala em cada um dos relatos.
Por se tratar de personalidades que de fato existiram, mas que pouco foram ouvidas, a voz que Chevalier empresta a Mary Anning e Philpot certamente contribui para trazer ao romance um laço adicional com a realidade. Especialmente para o leitor que possui um conhecimento ainda inicial sobre a existência das protagonistas e seus feitos, a possibilidade de escuta proporcionada pela obra faz emergir um olhar curioso e especulador sobre a validade dos fatos relatados seja pela história, seja pelas vozes femininas forjadas na ficção.
Nessa evidência do olhar mínimo e da fala particular, pode-se dizer que se tem uma manifestação do que Lúcia Castello Branco (1999) entende como escrita feminina. Se o que diferenciaria a postura de mulheres no papel de escriba é justamente a procura pelas micronarrativas, pelos detalhes jamais abordados nas falas oficiais, identifica-se, nesse romance, uma manifestação legítima da escrita feminina. Neste momento, cabe observar que a investigação do caráter revisor desse romance também não pode prescindir da consideração do papel do gênero no delineamento estrutural e conceitual dos textos narrativos. Recuperando a terminologia de Mikhail Bakhtin, Susan Lanser (1986) relembra que o texto narrativo é marcado pela heteroglossia – nele, jamais predomina apenas uma voz. Partindo dessa premissa, a estudiosa argumenta que, na escrita de mulheres, essas falas múltiplas frequentemente remetem à divisão entre as narrativas públicas e privadas. Na escrita de autoria feminina, de modo geral, quando existe o narrador clássico, ele vem sempre acompanhado por insistentes incursões no quarto escuro, no cômodo isolado, na mente conflituosa onde a esfera pública não pode chegar.
Para Lanser, tal configuração justifica-se pelo fato de que:
[...] para as mulheres escritoras, conforme a crítica feminina constatou há tempos, a distinção entre os contextos privado e público é crucial e complicada. Tradicionalmente, as sanções contra a escrita das mulheres não englobam uma proibição do ato de escrever como um todo e sim a proibição de se escrever para a esfera pública
(Lanser, 1986, p. 352, tradução nossa).6
Assim, considerando que a biografia de Anning e Philpot não foi contada de maneira fidedigna e principalmente justa ao longo da história, a literatura toma para si a função de uma criatividade política que amplifica, com instrumentos ficcionais, sussurros suprimidos por cerca de dois séculos. O que acontece, portanto, quando a literatura decide não apenas criar uma personagem que denuncia e reavalia condições históricas, mas opta por recriar os passos de figuras que, de fato, existiram sob o jugo dessas condições? Por mais escassos e controversos que sejam, os relatos sobre as vidas de Mary Anning e Elizabeth Philpot existem no mundo material e atuam duplamente como parâmetro e possível limitação da escrita de Chevalier. Ao mesmo tempo, até mesmo a escassez desses documentos opera como uma armadilha para o trabalho do escritor.
Neste cenário, emergem diversas dúvidas acerca desse papel duplamente artístico e político do romance analisado: de que forma a autora mede as fronteiras de sua autonomia criativa? Quais as implicações sociais dessa escrita que reescreve histórias e saberes lidos por poucos ou nenhuma vez? Existe uma carga de responsabilidade para essa escrita? Muitas dessas questões ainda possuem discussões em processo de desenvolvimento, em virtude de se mostrarem tão recentes quanto as escritas às quais estão atreladas. De todo modo, é substancial ao menos contemplar a realocação dos pilares do pensamento moderno proposta na literatura contemporânea. É nessa esteira que a seção a seguir apresenta algumas das problematizações feitas em Seres incríveis a partir dos saberes subalternizados de Mary Anning.
3 Caçadora/amante de fósseis: os não lugares das mulheres na ciência
Nas primeiras páginas de Seres incríveis, realiza-se uma breve introdução sobre a vida de Mary Anning e Elizabeth Philpot antes de se conhecerem. Seguindo o que descrevem os relatos oficiais, Chevalier retrata em Mary uma menina advinda de uma família desvalida, que vende fósseis de amonites recolhidos na praia para complementar a pequena renda de seus pais.7 Do mesmo modo, na narrativa, assim como nos documentos históricos, tem-se uma Elizabeth Philpot advinda da classe média londrina que se vê obrigada a mudar-se para Lyme Regis com três irmãs após o falecimento do pai e a deterioração da situação financeira de sua família.
Seguindo o rastro desse primeiro interesse, Philpot identifica na aparência física de Mary Anning os primeiros traços de seu caráter peculiar e, ao mesmo tempo, da oposição entre ambas nas camadas de estratificação social. Por meio desse olhar, não só se vislumbram as expectativas de Philpot em relação à pequena caçadora, mas também se viabiliza um caminho para que o/a leitor/a estabeleça em seu imaginário uma composição do caráter de Mary Anning em oposição ao de Elizabeth. Nessa contemplação inicial, a heroína londrina destaca os membros atléticos da pequena Anning e o seu olhar simples, mas sobretudo inquiridor. A atenção dirigida a esses aspectos ajuda a moldar uma perspectiva do elo entre Mary Anning e o conhecimento, que é, sobretudo, um elo físico, braçal, galgado por meio da experiência:
Ela era uma menina alta e magra, de braços e pernas fortes, próprios de quem está acostumada a trabalhar, em vez de brincar com bonecas. Seu rosto simples tornava-se interessante graças aos grandes olhos castanhos como seixos. [...] Mesmo tão jovem, sabia distinguir os diversos tipos de amonites comparando as linhas de articulação em seus corpos espiralados. Tirou os olhos de sua coleção, mostrando interesse e muita curiosidade
(Chevalier, 2014, p. 28).
Essa observação, nesse sentido, concebe embrionariamente o perfil relegado à Mary Anning no campo da paleontologia: ela era, definitivamente, uma caçadora, uma trabalhadora com faro para encontrar fósseis. Identifica-se nela a força para o empreendimento e, certamente, a curiosidade necessária para prosperar nesse ofício. Mas, à parte desse ímpeto de exploração, Elizabeth não consegue identificar nenhuma outra propensão científica em sua jovem interlocutora.
Em outros termos, Philpot sente os vestígios do abismo intelectual que a separaria de Mary Anning e que, possivelmente, não seria preenchido depois que a menina de Lyme Regis crescesse. Portanto, já no início, evidencia-se que as lacunas entre as protagonistas dar-se-iam não somente por uma questão de gerações, mas também pela maneira como ambas foram introduzidas ao saber. De fato, as primeiras passagens do romance indicam que a pequena Mary aparenta não possuir nenhum tipo de instrução teórica sobre as técnicas de execução de seu trabalho e nem mesmo parece imaginar que os espécimes por ela coletados seriam alvos de interesses além do meramente turístico.
Apesar das pistas fornecidas sobre a precária formação escolar de Mary Anning, o enredo deixa expresso o constante contato da protagonista com conhecimentos outros, não institucionalizados. Nessa busca pelo saber não formal, seu pai mostra-se como a figura de incentivo maior. Desde muito cedo, Richard Anning é acompanhado pela filha em suas caminhadas pela praia e sempre aproveita a oportunidade para ensiná-la sobre os diferentes tipos de fósseis de amonite encontrados ao longo do caminho.
É necessário esclarecer que Richard não se aproxima de um ideal de paternidade não repressivo, favorável à constituição da igualdade de gênero dentro de seu próprio ambiente familiar. Ao contrário, o progenitor está sempre certo de sua superioridade em relação à filha. Sua descendente é continuamente colocada no papel de aprendiz e esse processo de aprendizado, não raramente, é acompanhado de sarcasmo por parte do mestre. A relação hierárquica, de fundo filial e de gênero, que aí se estabelece jamais é questionada. Tem-se, da parte de Mary, a concepção de que um homem, especialmente na função de pai, jamais poderia ser contestado:
Quando eu era pequena, saía com papai e ele achava vertebragens no mesmo lugar onde eu já havia passado. “Olhe”, dizia ele, pegando alguma coisa que estava bem aos meus pés. Depois ria de mim e reclamava. “Tem que olhar com mais atenção, menina!” Nunca me ofendi, pois ele era meu pai, tinha de achar mais do que eu e me ensinar. Eu não podia querer ser melhor que ele
(Chevalier, 2014, p. 60).
De toda forma, essa infância vivida mais para além da soleira da porta do que propriamente no limite doméstico contribui para o desenvolvimento de um talento que Mary parecera adquirir de forma inata. Graças a essa forma peculiar de educação, a pequena filha dos Anning passa a ter a oportunidade de realizar explorações também ao lado de Elizabeth Philpot e a conhecer teorizações e técnicas envolvendo o trabalho que ela e seu pai realizavam de forma distinta. Com a companhia de Philpot, Mary Anning passa a conhecer a existência de uma razão por trás do seu ofício: ela, também, poderia ser uma produtora de conhecimento.
Os anos passam, o pai de Mary Anning falece e, ainda aos doze anos, ela vivencia o primeiro de seus grandes feitos enquanto caçadora de fósseis. Chamada às pressas pelo irmão, que encontrara algo extraordinário entre as rochas na praia, ela depara-se com a maior de todas as criaturas fossilizadas que já havia visto. A cena descreve o momento em que é descoberta a cabeça do fóssil de um ictiossauro. Na composição dessa passagem, Chevalier acentua o possível entusiasmo de Mary diante da descoberta e, indiretamente, constitui um cenário de superação da discípula em relação ao seu mestre. Em detrimento do grau de respeito que Richard Anning adquirira diante da filha a partir de seus ensinamentos, era Mary que, agora, tinha a oportunidade de tocar algo com o que seu pai sempre sonhara.
A magnitude do fenômeno diante de Mary é descrita de forma a representar uma espécie de batismo da jovem inglesa no controverso mundo das especulações científicas. Na época em que a descoberta do ictiossauro foi feita (início da segunda década do século XIX), as teorias sobre a origem da vida na Terra ainda eram primárias e a possibilidade de extinção de espécies não gozava de aceitação suficiente dentre as sociedades científicas. Apesar da crescente onda racionalista e anticlerical ao longo da história moderna, os discursos religiosos ainda exerciam grande domínio sobre a sociedade ocidental e, dessa forma, a contestação do criacionismo demonstrava-se como um passo ousado demais.
Considerando esse ambiente, a narrativa de Chevalier presume as angústias que teriam se somado à felicidade da jovem Mary Anning no momento da descoberta. Pertencente à classe trabalhadora, irremediavelmente pobre e com pouquíssima instrução, Mary se junta aos grupos que têm na fé um mesmo pilar de julgamento e certeza. Tocar algo que jamais lhe fora descrito pelos pais, por pessoas doutas e nem mesmo pela Bíblia, representa para essa heroína uma experiência privilegiada e, ao mesmo tempo, assustadora.
Esse susto da descoberta é trabalhado de tal maneira que a narrativa nos convence sobre a propensão científica de Mary Anning. Nessa etapa, não lhe preocupa o valor possivelmente adquirido com a peça encontrada. Sua atenção volta-se primordialmente para o caráter incompreensível do tesouro diante de si. O desejo e, especialmente, o medo de conhecer são dois dos alicerces do universo da pesquisa que movem a protagonista a partir de então:
Senti um arrepio, um daqueles tremores que a gente tem sem querer, sem frio. Eu não sabia que os crocodilos tinham olhos tão grandes. No desenho que a srta. Elizabeth me mostrara, eram olhinhos como os dos porcos, não olhões. Fiquei me sentindo esquisita, como se existisse um mundo de curiosidades que eu não conhecia [...]. Às vezes eu tinha aquela sensação de vazio também quando olhava um céu cheio de estrelas, ou a profundeza do mar, nas poucas vezes em que saíra de barco, e não gostava daquilo: achava que o mundo era estranho demais para eu entender. Naquelas ocasiões, eu precisava me sentar na capela e não me preocupar, deixando todos os mistérios por conta de Deus
(Chevalier, 2014, p. 72).
Doravante, a aspiração que toma Mary Anning é suficiente para que seu instinto de exploração se torne ainda mais apurado. Meses após a descoberta da cabeça do ictiossauro, a protagonista encontra os ossos que compunham o restante de seu corpo. A descoberta realizada, naturalmente, atrai diversos estudiosos e também curiosos para as praias de Lyme Regis. O nome de Mary torna-se cada vez mais conhecido nos arredores da cidade e também longe dali. As atenções repentinamente adquiridas dão a ela um misto de orgulho e esperança com relação ao patamar que poderia alcançar nesse campo de trabalho.
Contudo, apesar das expectativas geradas pela heroína, seu primeiro trato com os senhores da ciência já demonstra com clareza a sua improvável inclusão em qualquer espaço de discussão da prática paleontológica. Dentre essas pessoas, aparece Henry Henley, dono das terras onde o fóssil foi encontrado. Impressionado com a singularidade da criatura, Henley a compra dos Anning por uma quantia considerável e a vende ao colecionador William Bullock, que a expõe em seu museu em Londres. Na exposição (ficcional e real), nenhuma menção é feita a Mary Anning.
Percebe-se que, tão logo o fóssil obtém seu formato final e impressiona por seu exotismo, as forças sociais convergem no sentido de retirar-lhe da posse de Mary Anning. Por mais que tenha sido ela, em trabalho conjunto com o irmão, a responsável por encontrar aquela importante peça do quebra-cabeça paleontológico, a ela é unicamente atribuído o papel de caçadora de fósseis. Uma mulher, jovem, não escolarizada, jamais seria aceita como potencial representante de um campo tão concorrido por homens qualificados.
A despeito da veracidade de episódios como esse, cabe observar que, para fontes oficiais, como o Museu de Lyme Regis, Anning recebeu reconhecimento em seu próprio tempo. Para justificar essa afirmativa, a entidade menciona o pagamento anual que a estudiosa passou a receber, nove anos antes de sua morte, da Associação Britânica para o Avanço da Ciência e da Sociedade de Geologia de Londres.
Em seu romance, Chevalier dialoga com essa fala oficial, mas também a ironiza na medida em que dá evidência e potencializa o apagamento de Mary Anning na exposição do ictiossauro. A história que se erige nesse texto literário apresenta-se como alternativa a falas que consideram o tratamento dado a Mary Anning como certificação autêntica e suficiente de sua relevância. Entre outros fatores, considerando que a exploradora jamais foi aceita na maior sociedade de geologia de seu país, Tracy Chevalier trama uma outra visão do passado, contada por personagens que jamais tiveram suas perspectivas legitimadas. Perseguindo esse caminho, a narrativa propõe ao seu leitor o abandono de um ideal de verdade singular para abraçar o conceito de verdades plurais próprio da escrita metaficcional.
É importante lembrar que, para a metaficção historiográfica, o questionamento do discurso oficial e histórico não é sinônimo de desprezá-lo. Ao contrário, o seu papel é justamente jogar a luz sobre as falas legitimadas, evidenciando as suas lacunas, os princípios ficcionais por trás de sua criação e a necessidade de recriá-las para que comportem novas cosmovisões. A omissão do nome de Mary Anning em diversos dos mais relevantes encontros britânicos de paleontologia é um sintoma e uma motivação para que Seres incríveis sugira relatos mais complexos e frequentemente revolucionários sobre a história da estudiosa.
Se é um consenso que uma abordagem literária sobre a vida de Mary pode ser marcada pela criação, é preciso reconhecer que a exclusão dessa grande estudiosa em diversos documentos históricos também denuncia um trabalho ficcional por parte de seus redatores. Omitir o papel expressivo de Mary Anning na história das ciências também é inventar. Como esclarece Patricia Waugh (1995):
A metaficção não abandona “o mundo real” em favor dos prazeres narcísicos da imaginação. O que ela faz é reexaminar as convenções do realismo para descobrir – através de sua autorreflexão – uma forma ficcional que seja culturalmente relevante e compreensível para os leitores contemporâneos. Ao nos mostrar como a ficção literária cria seus mundos imaginários, a metaficção nos ajuda a entender como a realidade que nós vivemos cotidianamente é igualmente construída, igualmente “escrita”
(Waugh, 1995, p. 53, tradução nossa).8
Esse posicionamento que leva a um repensar da história coaduna-se também com a visão política de Linda Hutcheon a respeito dos discursos de autoridade. Para a autora, o pós-moderno, por meio de suas representações, “afirma que aquilo que tanto valorizamos é um construto, e não algo previamente existente, e, além disso, um construto que exerce uma relação de poder em nossa cultura” (Hutcheon, 1991, p. 257).
No âmbito do romance, essas relações de poder ficam expressas, por exemplo, na valorização dada pelas sociedades científicas ao discurso do colecionador em detrimento da pessoa do caçador (no caso do romance, caçadora). Tal diferenciação não se dá apenas em razão do prestígio social, da escolaridade, das condições financeiras daquele que se dedica a colecionar os fósseis coletados por algum trabalhador. Nos diálogos estabelecidos ao longo de Seres incríveis, também se afirma a primazia do gênero nos processos de autenticação e enaltecimento do saber paleontológico.
Esse aspecto pode ser observado nas passagens que sucedem a exposição do ictiossauro de Mary Anning. Após um episódio em que Elizabeth Philpot vai à Londres e fica injuriada com o apagamento de Mary na mesma exposição, a estudiosa londrina decide ir procurar por Lorde Henley. Ao questionar por qual razão o nome de Mary não constava ao lado do fóssil, Philpot recebe uma reposta categoricamente sexista do grande proprietário:
– Mary Anning é uma operária. Achou o crocodilo nas minhas terras, pois os rochedos Church fazem parte da minha propriedade, como a senhorita sabe. Acha que, só porque cavam a terra, esses homens ... – mostrou com a cabeça os homens chafurdando na lama – são donos dela? Claro que não! São minhas. Além disso, Mary Anning é mulher, é um apêndice. Tenho de representá-la, o que, aliás, faço com muitos moradores de Lyme que não podem se expressar
(Chevalier, 2014, p. 12, grifo nosso).
Tanto a fala de Philpot como a de Henley nesse diálogo revelam bem mais do que a potência do sexismo na hierarquia das relações de poder modernas. A resposta dada pelo aristocrata à Philpot aponta para a convicção de que Mary Anning, particularmente, estaria amordaçada por duas forças irresistíveis: primeiro, a subalternidade de classe e, em segundo lugar, a subalternidade de gênero.
Nesse ponto de discussão, mostra-se oportuno recuperar as considerações de Gayatri Spivak (2010, p. 60-61) ao sentenciar que, “para o ‘verdadeiro’ grupo subalterno, cuja identidade é a sua diferença, pode-se afirmar que não há nenhum sujeito subalterno irrepresentável que possa saber e falar por si mesmo”. Na conversa acima mencionada, Mary Anning consiste na pauta principal, mas está ausente da discussão. Elizabeth coloca-se na posição de responsável pela colega e decide representar seus interesses nesse tenso encontro. O senhorio, por sua vez, justifica a sua apresentação como descobridor do ictiossauro de maneira convergente à postura de Philpot (ele, também, julga-se no direito de substituir a voz de Mary). Afirmando Mary Anning como apêndice, dada a sua condição de mulher pobre, Henley atesta a incapacidade de fala da protagonista. Sem ao menos averiguar essa pretensa impossibilidade de expressão, Henley, enquanto senhorio, sentencia o silêncio de seus subalternos.
O diálogo entre Elizabeth e o poderoso proprietário não gera outras implicações. A conversa que se iniciou sem o conhecimento de Mary Anning também termina sem que a jovem caçadora de fósseis tome nota. O percurso de alienação traçado pela protagonista antes e após esse episódio comprova a sua falha em mensurar seu posicionamento inferiorizado no palco científico.
Apesar dessas forças a impor o alheamento de Mary Anning, a exposição do ictiossauro em Londres modifica consideravelmente o cotidiano da heroína de uma maneira que lhe impede de perseguir uma vida comum. Diversos entusiastas aparecem nas praias de Lyme Regis à procura de criaturas similares à que estava exposta no museu de William Bullock e acabam por conhecer o seu talento. Com entusiasmo, Mary acompanha esses homens doutos em suas expedições pela areia.
É interessante notar que, embora no início ela se intimide com o conhecimento e a posição social desses senhores, aos poucos encontra um ponto de interlocução confortável para se comunicar com os estudiosos: o campo da experiência. Mesmo tendo a segurança necessária para corrigir esses pesquisadores quando necessário e ainda que fosse ela a responsável por encontrar os “curios” que eles levavam para suas coleções, Mary apenas consegue localizar-se nessa relação quando percebe que esses especialistas a tratam como criada:
Nunca estivera na companhia de senhores educados. Às vezes, a srta. Elizabeth vinha conosco, o que facilitava meu trabalho, pois era mais velha e do mesmo nível deles, e podia intermediar quando preciso. No começo, eu ficava nervosa quando estava sozinha com eles, preocupada em como me comportar e com o que dizer. Mas eles me tratavam como uma criada, o que tornou tudo mais fácil, embora eu fosse uma criada que, às vezes, dizia o que pensava e os surpreendia
(Chevalier, 2014, p. 138).
Dentre os pesquisadores que, na narrativa, estabelecem contato com Mary Anning estão William Buckland e o coronel Birch, ambas personalidades que são mencionadas com frequência nos relatos escritos e orais sobre a vida da exploradora (Goodhue, 2004; Emling, 2009; Pascoe, 2006). O contato com esses dois nomes proeminentes do universo da paleontologia dá ao romance a atmosfera ideal para uma maior imersão da protagonista de Lyme em discussões científicas de grande porte.
Em uma das cenas em que Mary Anning caminha ao lado de Buckland pela praia, surge o questionamento sobre a espécie a que pertenceria a grande criatura que ela havia encontrado. A essa altura, após diálogos com Elizabeth Philpot, que introduzira as teorias de Georges Cuvier à amiga, Mary já estava convencida de que não se tratava de um crocodilo e sim de um espécime possivelmente extinto.
Durante o século XIX, fervilhavam os estudos e teses sobre o fenômeno da extinção, os quais eram constantemente confrontados pelos dogmas do cristianismo. Com sensibilidade notável, Chevalier transfere esse grande embate do pensamento científico moderno para a mente de pouca formação, mas de grande perspicácia de Mary Anning. A jovem pesquisadora, ainda que cerceada pelo temor religioso, não resiste ao instinto racionalista da dúvida:
[...] Philpot e eu ficamos pensando que animal seria esse, se não é um crocodilo. Aí ouvi o senhor conversando com um cavalheiro que trouxe aqui, o reverendo Conybeare. Falavam sobre o dilúvio...e tive de perguntar à srta. Elizabeth o que queriam dizer...e fiquei pensando: se esse não é um crocodilo que Noé teria colocado na Arca, então o que é? Será que Deus fez uma coisa que estava na Arca e nós não sabemos? Por isso, perguntei ao senhor
(Chevalier, 2014, p. 154).
A resposta de Buckland, ainda que amparada pela erudição, não transmite uma perspectiva mais avançada ou minimamente mais ousada que a de Mary Anning. Relembrando que diversos estudiosos da época debatiam o tema, o pesquisador também se ampara nos dizeres bíblicos para justificar seu fascínio por seres desconhecidos como o fóssil encontrado por Mary:
– Meu amigo, o reverendo Conybeare, afirma que a Bíblia nos diz que Deus criou o Céu e a Terra, mas não como fez isso. Fica aberto à interpretação de cada um. Por isso estou aqui: para estudar esse ser incrível, encontrar outros para estudar e, através de uma cuidadosa pesquisa, chegar a uma conclusão. A geologia deve estar sempre a serviço da religião para estudar as maravilhas da criação de Deus e se encantar com o gênio Dele
(Chevalier, 2014, p. 154).
Ainda tecendo os diálogos de Mary Anning com grandes personagens homens da paleontologia e da geologia britânica, a narrativa institui padrões distintos de interação. Muito embora em todos esses encontros a heroína seja alocada em uma posição de inferioridade, há as comunicações em que uma mínima troca de saberes é estabelecida (como exemplo, podem-se citar as conversar com William Buckland), mas existem também os diálogos pautados unicamente na exploração do conhecimento e experiência de Mary Anning.
Para ilustrar esse segundo padrão de relacionamento, Chevalier escolhe o Coronel Thomas James Birch, de quem são inúmeros os boatos populares no que diz respeito à sua relação íntima com Mary Anning. Muito possivelmente, valendo-se de estudos que apontam Birch como comprador de fósseis e um amador em termos de geologia, a autora encontra nesse personagem a figura ideal para representar o que pode ocorrer de mais ignóbil no contexto das relações de gênero e trabalho científico.
No enredo, Birch provoca uma paixão instantânea em Mary Anning, que se sente ainda mais estimulada a caçar e presentear o colecionador com fósseis extraordinários. A caçadora consegue encontrar diversos espécimes de valor, sendo que, dentre elas, havia outro ictiossauro encontrado também nas praias de Lyme. Birch aceita de bom grado os presentes entregues por Anning, aventura-se em uma rápida experiência amorosa com a protagonista e finalmente retorna à sua cidade de origem acompanhado de todas as novas peças que adquirira para coleção.
Esta nova humilhação de Anning é também alvo de protesto por parte de Elizabeth Philpot. Mesmo tendo ficado afastada da amiga por um longo tempo (também por questões de fórum privado e íntimo), Elizabeth acompanha de longe o sofrimento de Mary e se sente na responsabilidade de falar por ela, de reclamar as peças que Birch havia levado sem pagar. Com esse intuito, Philpot aproveita um encontro com o colecionador para esclarecer-lhe a situação de miséria na qual ele havia esquecido Mary Anning. O clamor, inicialmente, parece não surtir efeito. Tempos depois, no entanto, aparece a notícia de que Birch iria leiloar a sua coleção em prol da caçadora de Lyme Regis.
Ao contrário da direção que parecem ter tomado os fatos na vida real, no romance de Chevalier, promove-se uma pequena reparação ainda nesse episódio em que a coleção de Birch é vendida. Ao final do evento, o coronel revela o objetivo final do leilão e anuncia que foi Mary Anning a responsável por encontrar boa parte de sua coleção. O ato do colecionador, todavia, não soa como atitude sincera, honestamente enredada por um sentimento de culpa ou compaixão em relação à Mary.
De todo modo, o anúncio realizado por Birch aumenta a fama de Mary Anning, que passa a ser ainda mais procurada por estudiosos na praia de Lyme Regis. A tranquilidade trazida pelos lucros do leilão a motiva a retornar ao trabalho, o que leva à descoberta do fóssil de mais uma criatura desconhecida: um plesiossauro (ser pertencente a uma ordem de répteis marinhos). No momento da descoberta, Mary Anning e Elizabeth Philpot ainda estão afastadas por conflitos que o coronel Birch gerara entre as duas. Porém, o anúncio do encontro de mais um espécime nunca antes visto gera em Elizabeth o impulso necessário para entrar clandestinamente na casa dos Anning e ver com os próprios olhos mais uma das proezas de Mary.
O que Philpot encontra é bem mais do que a impressionante ossada do animal que tinha dois metros e meio de comprimento. Observando minuciosamente a oficina que não frequentava havia anos, Philpot encontra um artigo científico de 29 páginas que um geólogo havia feito sobre os fósseis encontrados por Mary Anning. Na última página, a personagem depara-se com uma surpreendente anotação feita por Mary: “Quando eu escrever um texto, vai ter só um prefácio” (Chevalier, 2014, p. 277).
Elizabeth entende a nota como um claro indício de que Mary Anning planejava escrever artigos científicos algum dia. Tal plano, que Philpot encara como uma verdadeira ousadia, a faz sorrir. Muito embora ambas as personagens sejam tomadas pelo sentimento de rivalidade em certa etapa, o progressivo envolvimento de Mary Anning com a feição teórica da ciência parece trazer orgulho à mentora londrina e entusiasmo à pupila de Lyme Regis.
Nesse instante, cabe destacar a forma como os planos de Mary são recebidos por sua companheira de pesquisa. Ao entender o desejo de escrever um artigo científico como uma ousadia da parte de Anning, Philpot admite sua crença na impossibilidade de fala da jovem exploradora. Ainda que fosse a responsável por algumas das maiores descobertas da paleontologia, a posição social e de gênero de Mary Anning atuavam como dois entraves para que rompesse a fronteira dos binarismos modernos e se fizesse ouvir.
Como dito anteriormente, na obra de Tracy Chevalier, a entrega de Mary Anning ao trabalho científico parece não vir acompanhada de uma assimilação razoável dessas relações desiguais instauradas no campo de produção de conhecimento. Sua euforia com a descoberta do Plesiossauro é tamanha que a protagonista decide escrever ela própria para o grande paleontólogo Georges Cuvier anunciando a sua descoberta.
Jamais tendo visto algo semelhante à criatura delineada no esboço de Mary Anning, o estudioso conclui que o fóssil era uma farsa e que seus ossos haviam sido montados a partir de dois animais distintos. Na narrativa, essa resposta de Cuvier vem por meio de uma carta do Museu Nacional de História Natural de Paris direcionada a Mary Anning. Ao contrário do que ocorre na ficção, estudiosos da área indicam que a descoberta dos Anning chega a Cuvier por intermédio de uma carta de Georges Cumberland9 e que a resposta do estudioso francês aparece em missiva direcionada a William Conybeare10 (Emiling, 2009; Vincent et al., 2014).
Essa imprecisão que invade o/a leitor/a que não sabe dizer ao certo o que são falas históricas e o que é discurso ficcional é um dos principais traços da metaficção historiográfica. Sabendo-se que o renomado Georges Cuvier nega, inicialmente, a veracidade da descoberta de Mary Anning, cabe à literatura o papel de revisitar os contextos de emissão e reverberação dessa fala deslegitimadora. As palavras de descrédito enviadas por Cuvier a Conybeare são, em última instância, relacionadas à Mary Anning e ao seu trabalho como paleontóloga. O fato de a carta não ter sido direcionada a ela, revela, por si só, a insignificância a qual o “pai da paleontologia” atribuía a caçadores da classe trabalhadora como a jovem de Lyme Regis.
Atenta a essas repetidas práticas de exclusão (Mary jamais fala por si e os grandes estudiosos sempre se dirigem a outra pessoa quando querem abordar o trabalho dela), Chevalier reconstrói os passos desse diálogo histórico. Na ficção, Cuvier e Anning comunicam-se diretamente e, nessa interlocução sem mediadores, fica ainda mais clara a atmosfera limitadora da ciência moderna para a atuação das mulheres.
De maneira similar ao que ocorreu na realidade, também em Seres incríveis, Cuvier acaba por ceder e reconhece a veracidade e a importância do fóssil descoberto por Mary Anning. Consequentemente, o retorno positivo do estudioso aumenta as perspectivas de Mary em torno de sua inserção no trabalho científico. Ao saber que o pesquisador demonstrava interesse em adquirir algum de seus plesiossauros, Mary pouco se importa com o preço de venda. Contrariando as perspectivas comerciais de sua mãe, a jovem exploradora estabelece como prioridade ser reconhecida como parte do grupo social que produz e difunde conhecimento científico em sociedade.
Percebe-se que, neste estágio da trama, o mundo dos fósseis passa a significar um espaço de pertencimento nunca antes frequentado por Mary Anning. Desenganada em relação ao amor romântico e desinteressada em fazer fortuna por meio de seu trabalho, Anning ancora-se na concepção de vida que a prática paleontológica lhe propunha:
Sim, eu precisava ser paga pelo que fazia. Mas, naquele momento, os fósseis para mim eram mais do que dinheiro, haviam se tornado um jeito de viver, um verdadeiro mundo de pedra do qual eu fazia parte. Às vezes, eu até pensava em meu próprio corpo, depois da morte, virando pedra daqui a milhares de anos. Se alguém me tirasse da pedra, o que faria comigo?
(Chevalier, 2014, p. 333).
Ao se enxergar como ser pertencente ao universo científico, Mary Anning rompe com a linearidade identitária imposta às mulheres dentro da modernidade. Afinal, a ânsia pelo conhecimento, o trabalho que exige um esforço descomunal e a circulação do corpo por cenários públicos são padrões incompatíveis com o protótipo moderno de feminilidade. O acesso a figuras de maior instrução (especialmente Elizabeth Philpot) dá a Anning a oportunidade de conhecer possibilidades outras tanto no que se refere à esfera íntima quanto à pública. Confirmando, pois, a tese de que a subjetividade é também produto das interações sociais, Mary Anning não só se encanta pelo mundo dos estudiosos a quem é apresentada, como também deseja fazer parte dele.
Obviamente, é preciso ponderar que, ao decorrer do romance, o sonho de Mary Anning não consegue vencer a divisa do desejo. Por mais proeminentes que as suas descobertas continuassem a ser, sua figura manifesta-se nos grandes encontros científicos apenas por meio de breves menções. Na perspectiva histórica, também se evidencia esse traço de frustração. Inclusive, no pós-escrito, Tracy Chevalier releva que, de fato, a paleontóloga tinha o anseio de produzir artigos científicos, mas que morre sem satisfazer o objetivo.
Por outro lado, essa capacidade de desafiar identidades estáveis do passado revela, na concepção da personagem, um diálogo claro com as manifestações identitárias pós-modernas. Se a figura histórica Mary Anning ainda não vivia no contexto contra-paradigmático da pós-modernidade, a sua postura evidentemente aproxima-se dos ideais defendidos principalmente pelas minorias a partir da segunda metade do século XX. É notável que o percurso traçado pela personagem e pela personalidade Mary Anning torna impraticável a sua vinculação aos ideais identitários do mundo moderno.
Assim, ousar imaginar-se como produtora do saber dentro dessa perspectiva e sob esse cenário implica, para a mulher, uma imediata desvinculação dos parâmetros de normalidade comportamental da época. Esse rompimento dos limites das identidades consideradas primeiras evoca a marginalização dos estereótipos, conforme apontado por Stuart Hall (2016). Essa segregação ocorre com Mary Anning, na narrativa, e acontece de forma não só a representar o peso de injustiças históricas, mas também de narrar a dignidade e a inovação (revisão) que podem insurgir nesses episódios de banimento dos centros de poder e saber.
É preciso reconhecer também que essa identidade dissidente que caracteriza a personagem literária e que até mesmo folcloriza a figura histórica de Mary Anning não pode ser analisada e compreendida de forma isolada. Os traços que fazem a heroína dar um passo além da modernidade são concebidos também nas suas relações com a alteridade. O outro, seja ele manifesto na forma do masculino, do próprio feminino e do eu em si (sob uma perspectiva que não a profissional) é determinante para que se entenda Mary Anning e, particularmente, a sua representação literária como ícones de mudança paradigmática.
4 Considerações finais
No percurso dos encontros e dissensos analisados acima, Seres incríveis traz algo além da problematização da exclusão das mulheres na ciência. Nessa obra, atenta-se também para a importância da sororidade. Na realidade, é apenas após a consciência de que a divisão lhes era prejudicial que as protagonistas conseguem dimensionar a potência criada pela sua união. Para estruturar a associação entre si, foi necessário que as Anning e Philpot compreendessem as diferenças possíveis em indivíduos do mesmo sexo. Concomitantemente, foi importante também que elas mirassem as suas próprias individualidades como eixo de potência e não de vulnerabilidade.
Dessa forma, entende-se que Seres incríveis é um romance circundado pela questão da desigualdade de gênero, do acolhimento das diferenças e da noção de que:
Para os feminismos, é imprescindível que as mulheres tomem consciência da política patriarcal que as utiliza para reproduzir diversas opressões. Essa consciência perpassa tanto o plano individual como o coletivo. Nesse sentido, é preciso eliminar formas de violência entre as mulheres tais como: a deslegitimação, a desconfiança, o descrédito, a desautorização e as diversas formas de discriminação (sexual, geracional, étnica, racial, linguística, social, econômica, intelectual, ideológica, religiosa, política e outras mais) e que são obstáculos patriarcais que impedem as mulheres de aproximarem-se mais umas das outras
(Becker; Barbosa, 2016, p. 246).
A cena final do romance traz esse olhar de maneira contundente. Novamente juntas na praia, Mary Anning e Elizabeth Philpot caçam lado a lado, cada uma à procura dos seres que mais lhe interessam. Absortas no trabalho que realizam individualmente, elas também oferecem uma irmandade que advém da simples copresença em um mesmo espaço-tempo:
Nossos olhos prendem-se à areia e às rochas enquanto seguimos pela praia num andar diferente; primeiro uma está na frente; depois a outra. [...] Falamos pouco, não precisamos. Ficamos juntas em silêncio, cada uma no seu mundo, sabendo que a outra está logo ali
(Chevalier, 2014, p. 343).
É notável que a proposta dessa coexistência não dispõe como prioridade a vontade de verdade intrínseca à ciência moderna. A alternância dos passos de Anning e Philpot representa a intercalação de saberes distintos que não desejam se sobrepor, mas se ressignificar a partir de um contato sutil e silencioso, sem a grandiloquência do conhecimento institucionalizado.
Cabe destacar que, além de reestruturar o passado ao conceder possibilidade de fala a duas estudiosas oitocentistas, o romance também impacta o presente provocando o questionamento sobre a perpetuação da divisão sexual do trabalho e do conhecimento ainda na atualidade. É também relevante a obra de Tracy Chevalier para que se dimensionem as possibilidades distintas para o papel da mulher dentro das ciências ou no âmbito de qualquer profissão. Nas díspares identidades das protagonistas do romance, desmistificam-se, ao mesmo tempo, ideais de gênero, paradigmas de classe e preconcepções vinculadas ao saber.
Por fim, julga-se que a escrita literária aqui não se propõe a criar um cenário amplamente distinto daquele ocorrido e registrado nos documentos oficiais: Mary Anning e Philpot são tão subestimadas pela ciência da ficção como o são pela ciência da história. Apesar disso, os enfoques alternativos dados e criados pela escrita literária tornam-se primordiais para que se dê um significado mais justo, menos gendrado e mais igualitário à realidade passada dessas mulheres e, principalmente, às suas reverberações na sociedade do hoje.
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Doutora em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF. Professora do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG), Campus Ouro Preto. É membro dos Grupos de Pesquisa “Travessias e Feminismo(s): estudos identitários na autoria feminina”, da Universidade Federal de Juiz de Fora. Desenvolve pesquisas sobre literatura de autoria feminina, concentrando-se nos seguintes temas: gênero; relações étnico-raciais e trabalho. E-mail: rafaela.dias@ifmg.edu.br. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5545-3822.
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2
Apesar das recentes acusações de assédio sexual e moral contra Boaventura de Sousa Santos, opta-se por manter seu conceito de “pensamento abissal” neste estudo, em razão de sua análise crítica sobre o papel da ciência na criação de divisões excludentes. A teoria de Santos oferece uma base importante para refletir sobre como o conhecimento hegemônico silencia saberes e sujeitos subalternos, particularmente mulheres, e contribui para examinar as dinâmicas de exclusão que permeiam o campo científico. Assim, a utilização de sua teoria visa fundamentar a análise crítica das opressões abordadas no artigo, mesmo que a conduta pessoal do autor entre em contradição com os valores aqui discutidos.
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3
Cientista inglês e primeiro professor de Geologia da Universidade de Oxford.
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4
Personagem conhecido nas sociedades de paleontologia da Inglaterra como um geólogo amador mais interessado na compra de fósseis do que na caça dos mesmos.
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5
Notável naturalista e zoologista francês, considerado o pai da paleontologia e grande responsável pela comprovação do fenômeno da extinção de espécies.
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6
No original: “For women writers, as feminist criticism has long noted, the distinction between private and public contexts is a crucial and complicated one. Traditionally speaking, the sanctions against women’s writing have taken the form not of prohibitions to write at all but of prohibitions to write for a public audience.”
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7
Amonites são um grupo extinto de moluscos cefalópodes, de concha externa espiralada.
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8
No original: The Metafiction does not abandon “the real world” for the narcissistic pleasures of the imagination. What it does is to re-examine the conventions of realism in order to discover – through its own self-reflection – a fictional form that is culturally relevant and comprehensible to contemporary readers. In showing us how literary fiction creates its imaginary worlds, metafiction helps us to understand how the reality we live day by day similarly constructed, similarly “written” (Waugh, 1995, p. 53).
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9
Artista e colecionador de fósseis inglês (1754-1858)
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10
Prestigiado paleontólogo inglês (1787-1857) e um dos primeiros a tomar conhecimento do plesiossauro descoberto por Mary Anning.
Referências
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1 ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS (ABC). Mulheres são maioria dos cientistas no Brasil, mas quase nunca chegam ao topo. ABC, 2023. Disponível em: https://tinyurl.com/4cmzaa7y Acesso em: 10 mar. 2023.
» https://tinyurl.com/4cmzaa7y - 2 BECKER, Maria Regina. BARBOSA, Carla Melissa. Sororidade em Marcela Lagarde y de los Ríos e experiências de vida e formação em Marie-Christine Josso e algumas reflexões sobre o saber-fazer-pensar nas ciências humanas. Coisas do Gênero São Leopoldo, v. 2 n. 2, p. 243-256, ago.-dez. 2016.
- 3 CASTELLO BRANCO, Lúcia. O que é escrita feminina São Paulo: Brasiliense, 1991.
- 4 CHEVALIER, Tracy. Seres incríveis Tradução de Beatriz Horta. 1 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014.
- 5 EMLING, Shelley. The fossil hunter: dinosaurs, evolution, and the woman whose discoveries changed the world. New York: Palgrave Macmillan, 2009.
- 6 GOODHUE, T. W. Fossil hunter: The life and times of Mary Anning (1799-1847). Bethesda, MD: Academica Press, 2006.
- 7 HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo: história, teoria, ficção. Tradução de Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
- 8 LANSER, Susan S. Toward a feminist narratology. Style, [s. l.], v. 20, n. 3, p. 341-363, fall 1986.
- 9 PASCOE, Judith. The hummingbird cabinet: a rare and curious history of romantic collectors. New York: Cornell University Press, 2006.
- 10 SANTOS, Boaventura de Sousa. Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes. Revista Crítica de Ciências Sociais, n. 78, p. 3-46, out. 2007.
- 11 SPIVAK, Gayatri. Pode o subalterno falar? Tradução de Sandra Regina Goulart de Almeida. Belo Horizonte: UFMG, 2010.
- 12 HALL, STUART. Cultura e representação. Tradução de Daniel Miranda e William Oliveira. Rio de Janeiro: PUC-Rio; Apicuri, 2016.
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13 UNESCO. Decifrar o código: educação de meninas e mulheres em ciências, tecnologia, engenharia e matemática (STEM). Brasília: Unesco, 2018. Disponível em: https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000264691 Acesso em: 20 fev. 2023.
» https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000264691 -
14 VINCENT, Peggy et al. Mary Anning’s legacy to French vertebrate palaeontology. Geological Magazine, Cambridge, v, 151, n. 1, pp. 7-20, 2014. Disponível em: https://tinyurl.com/urtcawb4 Acesso em: 20 fev. 2023
» https://tinyurl.com/urtcawb4 - 15 WAUGH, Patricia. Metafiction: The Theory and Practice of Self-Conscious Fiction. Londres/Nova York: Routledge, 1985.
