O artigo em debate é instigante e, além de trazer informações objetivas que qualificam o debate – algumas até surpreendentes, como a de que se pratica mais Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) nos níveis de média e alta complexidade do Sistema Único de Saúde (SUS) do que na Atenção Primária à Saúde, o que, ao menos na minha percepção, parece contrariar o senso comum –, sistematiza diferentes dimensões que atravessam a problemática da inserção das várias PICS, racionalidades médicas vitalistas e saberes tradicionais (indígenas, afro-brasileiros, populares e de tradições espirituais) na atenção à saúde oferecida pelo SUS.
Dentre elas, destacam-se a própria definição do que sejam essas diversas modalidades de cuidado; o modo como são incorporadas na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PNPIC); a questão da criação de estratégias e fomento para implementar a política – ou sua falta –; o desafio epistemológico e metodológico de estudar seus modos de operar; em consequência disso, a dificuldade de estabelecer parâmetros para planejar e monitorar sua incorporação ao SUS; e a tarefa de formação adequada de pessoas para manejar essas diversas modalidades.
Como se vê, não são poucas as questões. O(a)s autore(a)s começam o artigo, o que me pareceu muito adequado, procurando clarear certa confusão terminológica que, como demonstram, não reflete uma questão apenas formal, também se relacionando com diferentes vertentes discursivas e concepções do que sejam essas diferentes modalidades.
Todas elas têm como forte ponto em comum sua diferenciação de modos de operar o cuidado que oferecem em relação aos da chamada Biomedicina ou Medicina hegemônica. Porém, as racionalidades que as sustentam (algumas não chegando inclusive a se constituir como racionalidades médicas no sentido proposto por Luz e colaboradores1, o que é um aspecto de diferenciação relevante), os recursos práticos que utilizam em suas terapêuticas e a própria esfera de fenômenos com os quais buscam trabalhar são bastante diversos. Daí, por exemplo, o que ouvi ainda há poucos dias de uma liderança indígena que recusa a denominação de “complementar” para a Medicina de seu povo: “Não é complementar, ela é outra!”2.
Mas justamente pela importância desse aspecto me surpreendeu um pouco a opção do(a)s autore(a)s, ao analisar a PNPIC, de não “considerar literalmente o texto da PNPIC sob perspectivas conceituais”3 (p. 5), julgando “mais proveitoso apreciar seu significado e efeito simbólico-cultural e político-institucional”3 (p. 5). Não serão os significados e efeitos da PNPIC diretamente relacionados a essa indeterminação conceitual/terminológica?
Claro que o limite de espaço do artigo influenciou essa decisão, já que, como apontado acima, são múltiplos os aspectos que merecem reflexão nesse tema complexo. Parece-me, contudo, que distinguir estratégias e recursos de uma política nacional segundo diferentes modalidades seja um caminho relevante. Não é possível imaginar que o modo de reconhecer, conhecer mais e disseminar a aplicação das medicinas indígenas seja de mesmo alcance e natureza que o termalismo, por exemplo. Os sujeitos cuidadores, os espaços de cuidado, as situações demandantes do cuidado e a relação com a Medicina hegemônica são muito diversas. Talvez – e gostaria de ouvir o(a)s autore(a)s sobre isso – dividir aqui seja mais potente politicamente do que reunir, turvando a especificidade e as condições de efetividade dessas diferentes modalidades de cuidado.
Outro ponto de destaque do artigo é a crítica à busca de validação das modalidades de Medicinas Tradicionais, Práticas Integrativas e Complementares e Saberes Populares com base em epistemologias estranhas às suas fundamentações e experiências práticas. De fato, a legitimidade prática que essas modalidades alcançaram ao longo de suas histórias constituem uma importante resistência à violência epistêmica impetrada por certa arrogância cientificista, que vai de braços com o colonialismo eurocêntrico que marca nossa história, arrogância que trai, inclusive, o ímpeto emancipatório que não deixa de atravessar uma práxis científica compromissada com o antidogmatismo e a abertura ao novo. Mas tal resistência só deixará de ser vista apenas como negação e evidência daquilo que a Biomedicina deixa “de fora”, afirmando-se ampla e positivamente como prática de cuidado, quando encontrar uma fundamentação e uma experiência prática que apontem para outras epistemes e outras cosmovisões que orientem uma efetiva política de sua integração ao SUS, não como subsunção ou substituição, mas como confluência, no sentido já amplamente difundido a partir da obra de Nego Bispo4.
Nesse processo de confluência e em consonância com minhas considerações iniciais nesse comentário, penso ser importante uma hermenêutica da própria forma como as práticas ditas alternativas vêm construindo sua institucionalização, porque aí podem ser encontrados tanto elementos que nos permitem acessar o que elas têm de singular quanto as tensões encontradas entre suas racionalidades de origem e as pressões de diversas ordens (econômicas, regulatórias e técnicas) em seus processos de institucionalização.
É nesse sentido que vejo a importância, por exemplo, da categoria de tradição/tradicionalidade com que Carlessi5 explorou, em estudo recente, a institucionalização da fitoterapia no Brasil. Que outros elementos interpretativos podem nos ajudar a compreender a socialização/institucionalização de outras medicinas, racionalidades e práticas terapêuticas em nosso contexto? Como entender, por exemplo, a impressionante penetração da prática de auriculoterapia no SUS, como nos mostram o(a)s autore(a)s? E como entender que as PICS estejam sendo mais exploradas justamente nos níveis de complexidade do SUS nos quais as tecnologias duras tendem a prevalecer sobre as tecnologias leves, recorrendo à tipologia de Mehry6? Como identificar e compreender esses profissionais que financiam sua própria formação nessas modalidades e as implementam em seu cotidiano, algumas vezes à revelia de seus próprios gestores?
Por fim, fiquei curioso para entender o sentido de uma afirmação já bem ao final do artigo:
O desafio reside em articular movimentos sociais, academia, gestores e trabalhadores do SUS em torno de uma agenda comum que supere a retórica da integralidade, promovendo práticas de cuidado enraizadas na diversidade e no direito ao cuidado à saúde como bem comum3. (p. 12)
No entendimento em que tenho trabalhado o conceito de integralidade7 – a saber: o de uma leitura de necessidades não restrita à identificação e correção/prevenção de distúrbios morfofuncionais; o de finalidades que integrem em uma totalidade de sentido prático ações de promoção, proteção e recuperação da saúde, o de articulações de diferentes sujeitos, saberes e setores dentro e fora do serviço de saúde; e o de interações baseadas no encontro genuíno entre sujeitos, produzindo um cuidado não restrito ao êxito técnico, mas integrando-o de forma íntima ao sucesso prático –, não vejo conflito entre integralidade e as ideias de diversidade e de direito à saúde como bem comum. Muito menos vejo contradição com a ampliação de cosmovisões, epistemes, epistemologias e práticas de cuidado trazida pela confluência entre as diversas práticas cuidadoras que se apresentam em nosso contexto. Sobre isso também gostaria de ouvir os autores.
De resto é parabenizá-lo(a)s pela densidade e abrangência de sua contribuição para esse debate tão atual quanto necessário para o devir do nosso SUS.
Agradecimentos
Bolsista de Produtividade em Pesquisa (Pq-C) – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.
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Ayres JRCM. Por uma confluência crítica de práticas cuidadoras no Sistema Único de Saúde (SUS). Interface (Botucatu). 2026; 30 (Supl. 1): e250693 https://doi.org/10.1590/interface.250693
Disponibilidade de dados
Não se aplica.
Referências
- 1 Luz MT, Barros NF, organizadores. Racionalidades médicas e práticas integrativas em saúde: estudos teóricos e empíricos. Rio de Janeiro: CEPESC/IMS-UERJ/ABRASCO; 2012.
- 2 Sacuena P (Baré). Intermedicalidade. Conferência ministrada à disciplina “Introdução à Saúde dos Povos Indígenas”. São Paulo, Faculdade de Medicina da USP, 23/10/2025”. São Paulo: Faculdade de Medicina, USP; 2025.
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3 Dall'Alba R, Oliveira GN, Ribeiro Neto FS, Castro MR, Tesser CD. Perspectivas e desafios para o campo das racionalidades médicas e práticas integrativas e complementares em saúde. Interface (Botucatu). 2026; 30 Supl 1:e250195. doi: 10.1590/interface.250195.
» https://doi.org/10.1590/interface.250195 - 4 Santos AB. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu; 2023.
- 5 Carlessi PC. A institucionalização da fitoterapia pública brasileira: identidade e legitimidade em torno do conceito de tradicionalidade. São Paulo: Hucitec; 2025.
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6 Mehry EE. Um ensaio sobre o médico e suas valises tecnológicas: contribuições para compreender as reestruturações produtivas do setor saúde. Interface (Botucatu). 2000; 4(6):109-16. doi: 10.1590/S1414-32832000000100009.
» https://doi.org/10.1590/S1414-32832000000100009 - 7 Ayres JRCM. Organização das ações de atenção à saúde: modelos e práticas. Saude Soc. 2009; 18 Supl 2:11-23.
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