Resumo
O Arco de Maguerez promove a educação problematizadora, aproximando o sujeito de sua realidade e incentivando a prática reflexiva para a transformação da realidade. Nessa perspectiva, observou-se uma lacuna teórica-prática no diagnóstico de anquiloglossia e avaliação da mamada para realização de frenotomia/frenectomia em bebês por cirurgiões-dentistas da Atenção Básica. Este estudo relata a experiência da educação problematizadora em uma Unidade Básica de Saúde, visando fortalecer o diagnóstico e manejo da anquiloglossia em recém-nascidos e bebês. Foram aplicadas as cinco etapas do Arco de Maguerez, com atividades teóricas e práticas, incluindo avaliações e demonstrações clínicas do procedimento cirúrgico. Ao final, todos os participantes foram considerados aptos a utilizar os critérios do protocolo Bristol e a classificação Coryllos, além de se autodeclararem capazes de realizar o procedimento. A metodologia se mostrou eficaz na qualificação profissional e na promoção de mudanças na prática clínica.
Palavras-chave
Atenção Básica; Anquiloglossia; Cirurgiões-dentistas; Educação em saúde
Abstract
The Maguerez Arch promotes problem-based education, bringing individuals closer to their reality and encouraging reflective practice for transformation. In this context, a theoretical-practical gap was observed in the diagnosis of ankyloglossia and in the assessment of breastfeeding for performing frenotomy/frenectomy in infants by primary care dentists. This study reports the experience of problem-based education in a Primary Health Care Unit, aiming to strengthen the diagnosis and management of ankyloglossia in newborns and infants. The five stages of the Maguerez Arch were applied, including theoretical and practical activities, as well as evaluations and clinical demonstrations of the surgical procedure. At the end, all participants were considered competent to apply the Bristol protocol criteria and the Coryllos classification, and self-declared able to perform the procedure. The methodology proved effective in professional qualification and in promoting changes in clinical practice.
Key-words
Primary health care; Ankyloglossia; Dentists; Health Education
Resumen
El Arco de Maguerez promueve la educación problematizadora, aproximando al sujeto de su realidad e incentivando la práctica reflexiva para la transformación. Bajo esta perspectiva, se observó una laguna práctica-teórica en el diagnóstico de la anquiloglosia y evaluación del amamantamiento para la realización de frenotomía / frenectomía en bebés por parte de los cirujanos-dentistas de la atención básica. Este estudio relata la experiencia de la educación problematizadora en una Unidad Básica de Salud, con el objetivo de fortalecer el diagnóstico y el manejo de la anquiloglosia en recién nacidos y bebés. Se aplicaron las cinco etapas del Arco de Maguerez con actividades teóricas y prácticas, incluyendo evaluaciones y demostraciones clínicas del procedimiento quirúrgico. Al final, todos los participantes de consideraron aptos para utilizar los criterios del protocolo Brasil y la clasificación Coryllos, además de autodeclararse capaces para realizar el procedimiento. La metodología se mostró eficaz en la calificación profesional y en la promoción de cambios en la práctica clínica.
Palabras clave
Atención básica; Anquiloglosia; Cirujanos-dentistas; Educación en salud
Introdução
Abordagens que valorizem o diálogo e a participação ativa dos profissionais são essenciais para a construção do conhecimento no processo educativo em saúde1,2. Entretanto, desconstruir o modelo de ensino tradicional e superar a fragmentação voltada às especialidades ainda são desafios2,3. Assim, a incorporação de metodologias ativas torna a formação profissional crítica e reflexiva propícia à discussão e integração entre teoria e prática4.
A metodologia da problematização, por intermédio do Arco de Maguerez, insere-se nas metodologias ativas, potencializando o planejamento de ações de Educação Permanente em Saúde (EPS)1,2,5,6. Ao utilizar lógica democrática e dialética-reflexiva, essa metodologia aproxima o sujeito de sua realidade, incentivando reflexão, planejamento e transformação desta3,5,7.
Considerando que o modelo de Estratégia Saúde da Família (ESF) transcende a mera compreensão técnica do processo saúde-doença, a Atenção Primária à Saúde (APS) deve considerar a singularidade do indivíduo e o contexto no qual se insere com vistas à atenção integral8,9, de modo a ser resolutiva, centrada no sujeito, capaz de solucionar a maior parte das questões de saúde dos cidadãos e coordenar o cuidado8.
O aleitamento materno (AM) é o primeiro contato do ser humano com alimentação adequada, essencial à saúde materna e à sobrevivência, nutrição e desenvolvimento infantil10,11. Contribui para crescimento e desenvolvimento da mandíbula, face e boca12-14, estimulando a fala e a musculatura bucal; e favorecendo o correto desenvolvimento do complexo craniofacial15.
Apesar dos benefícios, dificuldades como a má pega ou o freio lingual curto são comuns15, exigindo apoio da equipe de saúde12,16. No Brasil, a prevalência do aleitamento materno exclusivo para menores de seis meses é de 41%17, abaixo do recomendado pela Organização Mundial de Saúde11.
Estudos demonstraram a relação entre anquiloglossia e AM18-21; e indicaram que aquela pode interferir negativamente nesta; afetar a pega e sucção adequada; provocar dor; e ocasionar diminuição do estímulo à produção de leite – diretamente relacionado ao estímulo de sucção – e o esvaziamento da mama22. O sintoma mais comumente associado à anquiloglossia é a dificuldade no AM em razão de dor, má pega ou sucção insuficiente23.
Pesquisas contemporâneas demonstram que o tratamento por meio da frenotomia ou frenectomia colabora significativamente nos casos em que a anquiloglossia acarreta dificuldades no AM, com melhora na pega, alívio da dor e maior conforto da mãe, possibilitando que os bebês obtenham mais leite durante a mamada24-27. Uma revisão sistemática e metanálise de 2024 mostrou que, após a frenotomia de bebês com dificuldades no AM e diagnóstico de anquiloglossia, a autoeficácia na amamentação, a pega e a dor melhoraram significativamente27.
Outra revisão sistemática28 destacou que as evidências sobre se o tratamento melhora o AM são conflitantes, mas concluiu que a frenotomia em bebês é eficaz para melhorar a dificuldade na amamentação e dor materna, podendo melhorar os resultados da amamentação. Mais uma revisão sistemática29 constatou que a frenotomia reduziu a dor mamilar materna em curto prazo; contudo, destacou que o benefício definitivo da frenotomia na dor mamilar permanece sem comprovação devido ao risco de viés, enfatizando a necessidade de ensaios clínicos randomizados de qualidade.
Apesar da obrigatoriedade de realização da avaliação do frênulo lingual em bebês em todos os hospitais e maternidades do Brasil30, destaca-se o vácuo existente na literatura sobre a capacitação dos cirurgiões-dentistas no Sistema Único de Saúde (SUS) para esse tema.
Este estudo objetiva evidenciar percepções e contradições existentes nas práticas odontológicas em saúde na APS, fundamentado pelas presunções teóricas da metodologia da problematização1-4 por meio de um relato de experiência da aplicação do Arco de Maguerez como estratégia de EPS para fortalecer o diagnóstico de anquiloglossia e avaliação da mamada para frenotomia/frenectomia em recém-nascidos e bebês na APS em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) da região norte do Distrito Federal, destacando o potencial de replicação com base nos conteúdos da Nota Técnica n. 35/20182222.
Método
Relato de experiência desenvolvido por uma cirurgiã-dentista residente (facilitadora) do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde da Família e Comunidade da Escola Superior em Ciências da Saúde (ESCS), que utilizou a metodologia da problematização para fomentar práticas de EPS.
Essa metodologia envolve cinco etapas: observação da realidade, identificação de pontos-chave, teorização, hipótese de solução e aplicação prática, com planejamento e execução do conhecimento1,5,7.
A UBS estudada possui dez equipes de Saúde da Família (eSFs), abrangendo mais de quarenta mil pessoas. Conforme a Portaria n. 77/2017, é classificada como UBS tipo II31. O território apresenta diversidade geográfica, social, histórica e política2; e conta com seis equipes de Saúde Bucal (eSBs) modalidade I (um cirurgião-dentista e um auxiliar ou técnico em saúde bucal), além de uma equipe multiprofissional (e-Multi)8. As eSBs trabalham no mesmo ambiente compartilhado; ao todo, são seis cirurgiões-dentistas, seis técnicos e quatro consultórios odontológicos.
A metodologia (figura 1) foi aplicada de outubro de 2023 a março de 2024 (figura 2) durante atividades de educação em serviço do Programa de Residência Multiprofissional na assistência odontológica da APS de uma UBS da região norte do Distrito Federal. A proposta foi aprovada pela Gerência de APS da UBS e dividida em dois eixos: teórico e prático. O teórico ocorreu em fevereiro de 2024, devido à necessidade de conciliar a agenda dos profissionais.
O conteúdo do eixo teórico foi planejado conforme tabela 1. Durante o processo de planejamento, com a finalidade de fomentar a discussão, foi desenvolvido material teórico audiovisual para explanação, à luz da literatura atual, das normas do MS e da Secretaria de Saúde do DF (SES-DF); do fluxo ideal de atendimento e encaminhamentos; e do protocolo Bristol – Bristol Tongue Assessment Tool (BTAT). Todo o planejamento teórico foi realizado pela facilitadora sob orientação do preceptor do programa de Residência Multiprofissional.
O eixo prático foi desenvolvido na rotina clínica, conforme a demanda, de novembro de 2023 a março de 2024, com avaliações conjuntas utilizando o BTAT – indicado pelo MS – e observação da mamada, além de demonstração do procedimento cirúrgico pela facilitadora.
Foi acordado previamente com as eSBs e a gerência local da UBS a reserva de um momento para discussão e reflexão participativa frente aos protocolos vigentes relativos ao tema. As ações de EPS foram realizadas sempre pela mesma facilitadora.
Conforme Resolução n. 510/16 do Conselho Nacional de Saúde, este estudo não foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa, pois não houve utilização de dados dos participantes32.
O encontro teórico ocorreu no auditório da UBS durante uma hora e trinta minutos, reunindo seis cirurgiões-dentistas e uma técnica em saúde bucal. O objetivo foi promover discussão ativa e incentivar o matriciamento das equipes. A mediação foi realizada pela facilitadora. Na etapa final, os participantes analisaram fotografias e vídeos diversos, classificando-os segundo BTAT e avaliação da mamada e instigados à discussão.
Visto que o intuito da utilização do Arco de Maguerez é fomentar a EPS, o instrumento de avaliação do encontro foi informal e baseado na percepção da facilitadora frente às discussões e aos scores (BTAT) atribuídos pelos profissionais às fotografias e aos vídeos apresentados com o uso do material teórico e audiovisual desenvolvido previamente pela facilitadora. O eixo teórico aconteceu conforme o descrito no planejamento.
Resultados e discussão
Os resultados e a discussão seguirão a lógica das cinco etapas do Arco de Maguerez5.
Observação da realidade
Nesta etapa, a residente observou atentamente a realidade para identificar limitações das eSBs5,33 relatadas pelos profissionais e/ou gerência local.
As eSBs compartilham quatro consultórios odontológicos, mas o acolhimento da Odontologia é desvinculado da unidade, revelando fragmentação. Cada eSB está vinculada a uma eSF, com reuniões conjuntas e território adscrito comum. Entretanto, não há espaço reservado para EPS ou reuniões entre cirurgiões-dentistas, predominando a pressão assistencial em detrimento do planejamento, como ressaltaram Coelho et al.2.
Apesar de particularidades no processo de trabalho, de acordo com os próprios profissionais, todos os casos de anquiloglossia eram encaminhados à Atenção Secundária, evidenciando falta de conhecimento teórico-prático sobre diagnóstico e procedimento, tendo em vista que a SES-DF, em Nota Técnica n. 40/2023, recomenda encaminhamento apenas em casos excepcionais.
Assim, constatou-se lacuna teórico-prática no diagnóstico de anquiloglossia e avaliação da mamada, gerando os seguintes questionamentos a partir da realidade observada:
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Como fortalecer os espaços de discussão entre as eSBs?
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Como incentivar a superação da lógica do encaminhamento?
Pontos-chave
Após análise crítica da realidade, foram identificados os principais aspectos relacionados à problemática5,33:
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Lacuna teórica no diagnóstico da anquiloglossia.
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Insuficiência de conhecimento sobre protocolos, recomendações e notas técnicas.
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Deficiência técnica-prática na realização de frenotomia/frenectomia.
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Predomínio da cultura de encaminhamento em vez de resolução na APS.
Teorização
Esta etapa envolve a busca por fundamentação teórica relevante acerca da realidade observada para possibilitar a transformação da realidade5,33. Assim, realizou-se busca por evidências e referenciais teóricos na literatura disponível – em artigos científicos, em notas técnicas e na legislação brasileira –, a fim de aperfeiçoar a discussão, promover a reflexão e auxiliar na formulação de possíveis hipóteses de solução.
O modelo de ESF propicia o rompimento da lógica de encaminhamento sem responsabilização pelas famílias9. Sua perspectiva transcende a mera compreensão técnica do processo saúde-doença9. Para tanto, é necessário descontinuar a lógica do modelo biomédico, ainda vigente na atenção à saúde, na formação profissional e na percepção do conceito de saúde em sua amplitude9.
Destaca-se que a anquiloglossia é uma condição congênita ou anomalia que pode ser verificada ao nascer e ocorre devido à permanência de uma pequena porção do tecido embrionário do frênulo lingual, que deveria ter passado por apoptose na fase do desenvolvimento embrionário18,20-23.
A anquiloglossia é caracterizada pelo frênulo lingual curto e espesso ou delgado22. Os aspectos anatômicos são variáveis, envolvendo espessura; elasticidade; e região onde se fixa o frênulo na língua e no assoalho bucal22. A anquiloglossia pode ser leve, parcial (mais comum), grave ou completa (quando a língua se funde com o assoalho bucal)22.
A anquiloglossia provoca limitação do movimento lingual em graus variados18,20 e pode ocasionar diversos problemas de desenvolvimento oral, amamentação, alimentação, fala, deglutição e relacionados18,24,26. Paralelamente, a amamentação demanda peristaltismo bem definido da língua (da frente para trás) e a sincronização entre língua e palato24.
Segundo Macau-Lopes et al.34, os profissionais que mais realizaram procedimentos cirúrgicos (frenotomia/frenectomia) no SUS no período de 2013 a 2017 foram os cirurgiões-dentistas. Além disso, 33% destas frenectomias/frenotomias foram realizadas na APS por cirurgiões-dentistas34.
A frenotomia consiste na realização de um corte simples com tesoura de ponta romba, procedimento cirúrgico simples, seguro e eficaz24,35. Pode ser utilizado anestésico tópico em cada lado do frênulo, com auxílio de cotonete; usualmente a benzocaína tópica. Logo após a frenotomia, o bebê deve ser colocado de volta no seio materno e deve-se realizar o ajuste da pega. Geralmente o conforto materno é imediato24.
Todavia, o tratamento cirúrgico deve ser indicado com moderação26, ou seja, nos casos de real indicação. De acordo com o MS, a conduta sempre deve considerar se a condição interfere ou não no AM associada ao resultado do teste aplicado22. Em contrapartida, diversos autores concordaram que os casos sintomáticos de anquiloglossia devem ser tratados o mais cedo possível, por ser condição básica para alimentação e poder melhorar significativamente os resultados do AM18,24,27.
A realização do Protocolo de Avaliação do Frênulo da Língua em Bebês é obrigatória em todos os hospitais e maternidades do Brasil30. De acordo com o MS, seja no caso de suspeita ou de diagnóstico final com aplicação do protocolo, avaliação da mamada e existência de problemas no AM, este paciente terá alta da maternidade e será encaminhado à UBS de referência, na primeira semana de vida e, se necessário, pode ser referenciado para Banco de Leite Humano, Centros Especializados em Reabilitação ambulatórios de especialidades22. Entretanto, se o resultado do teste for confirmado e/ou houver dificuldade no AM, deve-se considerar a realização de cirurgia na própria maternidade ou em outro serviço da Rede de Atenção à Saúde (RAS)22.
Contudo, não há consenso na literatura relativo ao teste ou protocolo diagnóstico mais apropriado para identificação e caracterização da anquiloglossia22,23. Existem diversos protocolos que podem ser utilizados para categorização da anquiloglossia, como o Bistrol, Coryllos, Martinelli et al., Pontuação de Kotlow e Avaliação Hazelbaker23.
No Brasil, o MS lançou a Nota Técnica n. 35/201822 com a finalidade de atender à Lei n. 13.002 de 20 de junho de 201430, orientar os profissionais e estabelecimentos de saúde quanto à identificação precoce da anquiloglossia em recém-nascidos e estabelecer o fluxo de atendimento dessa população na RAS por sua potencial interferência no AM.
Essa nota técnica levou em consideração, principalmente, a praticidade de aplicação para escolha do protocolo e recomenda aos profissionais que atendem mães e recém-nascidos a utilização do BTAT. De acordo com a literatura, é a ferramenta de avaliação mais utilizada no mundo23. Esse protocolo é segmentado em quatro categorias principais: 1) aparência da ponta da língua, 2) fixação do frênulo na margem gengival inferior, 3) elevação da língua e 4) projeção da língua. Cada aspecto pode ser classificado de três formas com pontuações de 0 a 2 para cada categoria. Ao final da avaliação, é feita a soma das pontuações das quatro categorias, sendo o mínimo 0 e o máximo 8. A pontuação de 0 a 3 indica comprometimento da função lingual; 4 e 5, diagnóstico duvidoso; e 6 a 8, diagnóstico negativo para anquiloglossia22.
Apesar de o MS recomendar o BTAT, a SES-DF utiliza como parâmetro a classificação Coryllos para justificar o encaminhamento à Atenção Secundária por meio da Nota Técnica n. 40/2023. A classificação Coryllos é segmentada em quatro categorias (tipos) principais: 1) Fixação do frênulo na ponta da língua, usualmente na frente da crista alveolar no sulco do lábio inferior; 2) Fixação do frênulo de dois a quatro milímetros da ponta da língua e fixação na crista alveolar ou logo em seguida; 3) Fixação do frênulo no meio da língua e no meio do assoalho bucal, sendo mais limitada e menos elástica; e 4) Fixação do frênulo contra a base da língua, sendo espesso, brilhante e inelástico24. Coryllos24 considera os tipos 1 e 2 mais comuns e mais fáceis de visualizar; e os tipos 3 e 4 menos comuns e mais difíceis de visualizar, possuindo, por isso, maior probabilidade de não serem tratados24.
Contudo, a classificação Coryllos não descreve como o sistema de pontuação foi desenvolvido, a quantidade de bebês examinados e a forma de validação do sistema de pontuação. Além disso, não existem estudos publicados que descrevem a confiabilidade dessa classificação23.
É importante pontuar que qualquer profissional de saúde habilitado pode realizar a avaliação do frênulo lingual36. Porém, assim como Penha et al.36, destaca-se que apenas os cirurgiões-dentistas e médicos podem realizar o procedimento cirúrgico.
De Queiroz et al.37 encontraram que mais de 90% dos cirurgiões-dentistas possuíam conhecimento das normas/regulamentos de avaliação do frênulo lingual e concluíram que a maioria dos cirurgiões-dentistas sabe realizar o diagnóstico e definir a conduta. Isto posto, destaca-se a importância do cirurgião-dentista para avaliação do frênulo lingual e conduta34.
Outrossim, Penha et al.36 e Macau-Lopes et al.34 salientaram ser necessário e indispensável padronizar a avaliação e o diagnóstico de anquiloglossia e condutas. Em paralelo, o MS enfatiza que, independentemente do protocolo utilizado ou do resultado obtido por meio dele, se existem dificuldades na amamentação, a mãe e o recém-nascido devem receber o suporte necessário na RAS22.
De acordo com o MS, os profissionais de saúde membros da RAS devem ser qualificados para aplicar o BTAT, a fim de padronizar os critérios clínicos para o diagnóstico precoce da anquiloglossia, de modo a prevenir o subdiagnóstico, reduzir o sobrediagnóstico e evitar iatrogenias22. A conduta deve sempre considerar se há interferência na amamentação, destacando-se aqui a importância do uso do Protocolo de Avaliação da Mamada do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF)22.
Outro aspecto relevante refere-se às limitações existentes para pesquisas relacionadas ao tema da AM, em virtude de sua complexidade e da dificuldade de avaliação dos resultados de frenotomias sem grupos de controle29.
Hipótese de solução
Com base nas análises do presente estudo, recomenda-se atividade de EPS voltada aos cirurgiões-dentistas para diagnóstico de anquiloglossia, avaliação da mamada e realização de frenotomia/frenectomia na APS em recém-nascidos e bebês, com exposição dos protocolos atuais utilizados para qualificar os profissionais e padronizar critérios clínicos de avaliação.
Aplicação da realidade
Esta etapa consiste na efetivação prática da hipótese de solução por meio de intervenção planejada com foco na transformação da realidade, envolvendo planejamento e execução do conhecimento adquirido1,5,33.
Entre outubro de 2023 e março de 2024, foram realizadas demonstrações práticas de diagnóstico e frenotomia durante atendimentos clínicos, conforme demanda dos usuários. Os profissionais demonstraram-se abertos e interessados em capacitar-se; alguns iniciaram prontamente a prática do procedimento em bebês com o diagnóstico positivo de anquiloglossia e avaliação da mamada após as discussões e demonstrações.
A fim de qualificar as discussões e utilizar a reunião como indutora das ações2, a proposta de intervenção teórica foi realizada apenas em fevereiro de 2024 para contar com a presença de todos os cirurgiões-dentistas. A quantidade de profissionais dentro da unidade com uma estrutura física limitada é um desafio para reunir os profissionais em um mesmo momento.
O encontro teórico foi conduzido pela facilitadora durante uma hora e trinta minutos em espaço físico adequado – auditório da UBS –, com recursos audiovisuais que possibilitaram a visualização precisa de vídeos e imagens referentes ao frênulo lingual, aos padrões de sucção, à avaliação da mamada e aos procedimentos de frenotomia/frenectomia. Participaram da atividade os seis cirurgiões-dentistas das eSBs e uma técnica em saúde bucal.
Inicialmente, o tema foi introduzido, com destaque aos aspectos variáveis do frênulo lingual, a potencial interferência da anquiloglossia na amamentação20,22,23 e a colaboração significativa da frenotomia nos casos de dificuldade na amamentação24-26.
A capacitação teórica abordou os tópicos recomendados pelo MS presentes na Nota Técnica n. 35/201822. Foram utilizados recursos visuais, para que todos pudessem visualizar a ampla variação dos aspectos anatômicos conforme descrito por Martinelli et al.20 e pelo MS22.
Com vistas à promoção do AM e à assistência adequada às famílias e aos bebês, destacou-se a importância do cirurgião-dentista da APS no incentivo à amamentação, no diagnóstico e no procedimento cirúrgico. Uma das atribuições do cirurgião-dentista na APS é desenvolver atividades educativas para apoiar gestantes e familiares; por isso, um dos pontos que pode ser abordados no pré-natal é a obrigatoriedade e a importância do teste da linguinha no recém-nascido30,38.
Foi abordado o fluxo, definido pelo MS, dos pacientes com suspeita de anquiloglossia ou com diagnóstico final com aplicação do protocolo, avaliação da mamada e existência de problemas no AM, de modo a enfatizar o papel dos profissionais da APS após a alta da maternidade22.
Em seguida, foi apresentada a variedade de protocolos existentes para caracterização da anquiloglossia e a ausência de consenso na literatura em relação ao teste ou protocolo diagnóstico mais apropriado22,23. Apesar disso, existe no Brasil regulamentação do protocolo diagnóstico a ser utilizado por intermédio da Nota Técnica n. 35/2018.
Em seguida, foi abordado o protocolo de Martinelli et al. e o BTAT, para que os profissionais compreendessem o critério de escolha utilizado pelo MS – praticidade de aplicação. Logo depois, houve um momento de atividade educativa do BTAT com casos clínicos com diversas fotografias para que todos avaliassem juntos e ativamente os tipos de frênulo lingual e suas diferentes características; e exercitassem o cálculo da pontuação em escores.
Os profissionais foram instigados a refletir sobre o escore baixo/alto associado à dificuldade de amamentar, ressaltando que a conduta deve sempre considerar a interferência na amamentação por meio do Protocolo de Avaliação da Mamada, elaborado pelo UNICEF e MS22.
Posteriormente, evidenciaram-se as diferenças entre o parâmetro utilizado pela SES-DF e a classificação de Coryllos (Nota Técnica n. 40/2023): as quatro categorias da classificação Coryllos são consideradas anquiloglossia, diferentemente do BTAT, que consiste em uma avaliação do frênulo lingual em que o diagnóstico para anquiloglossia é feito a partir do resultado do escore e da avaliação da mamada.
O DF utiliza a Classificação Coryllos para definir critérios de encaminhamento para realização de frenectomia nos Centros Especializados em Odontologia (CEOs). Os frênulos linguais tipos 1 e 2 devem ser encaminhados para especialidade de odontopediatria e os tipos 3 e 4 devem ser encaminhados para especialidade de periodontia. A Nota Técnica n. 40/2023 da SES-DF destaca que, em caso de frenotomias para recém-nascidos, deve ser informada a razão pela qual o procedimento não foi realizado na APS, o que mostra que, idealmente, este procedimento deve ser realizado na APS e apenas casos excepcionais (que não tenham condições de resolução na APS) devem ser encaminhados para a Atenção Secundária.
Foram exibidos materiais audiovisuais para demonstrar com maior precisão a técnica para frenotomia em recém-nascidos e bebês de modo a abordar a divergência entre frenectomia (remoção total do freio) e frenotomia (remoção parcial do frênulo) e casos clínicos com acompanhamento da cicatrização do frênulo35,39.
Em seguida, foram utilizados recursos visuais e audiovisuais para a avaliação da mamada e explanação das técnicas para correção da pega inadequada ao seio, como: oferecer a mama macia, provocar abertura de boca do bebê, revirar os lábios (boca de peixe), deixar uma pequena parte da aréola visível acima da boca do bebê, deixar o queixo do bebê encostado na mama, posicionar o corpo do bebê virado para o corpo da mãe e apoiar bem o bebê10,40.
Os profissionais participaram ativamente do encontro durante toda sua duração, fizeram questionamentos e discutiram entre si. O BTAT foi impresso e distribuído para as eSBs. Ao final da parte teórica, os profissionais foram instigados a discutirem entre si a partir de casos clínicos com diversas fotografias para que todos avaliassem juntos e ativamente os tipos de frênulo lingual e suas diferentes características; e exercitassem o cálculo da pontuação em escores BTAT e Coryllos. Ao final, todos foram considerados pela facilitadora como aptos para utilizar os critérios do BTAT e a classificação Coryllos.
A aplicação da metodologia da problematização foi efetiva para provocar mudança na realidade inicial observada frente às limitações das eSBs. Houve percepção clara de mudança, evidenciada pela iniciativa dos seis dentistas em avaliar clinicamente todos os bebês atendidos ou encaminhados pelas eSFs e e-Multi desde o início das atividades de EPS. Todos se autodeclararam aptos à realização do procedimento cirúrgico. Após as primeiras demonstrações clínicas, dois dos seis cirurgiões-dentistas passaram a realizar frenotomias em recém-nascidos e bebês de suas equipes com o diagnóstico completo. Os demais não apresentaram demanda específica. Após o início da implementação do Arco de Maguerez, apenas um caso – referente a uma criança de 7 anos com Transtorno do Espectro Autista – foi encaminhado à Atenção Secundária após avaliação.
Considerações finais
A metodologia da problematização foi fundamental para planejar ações no contexto da APS e qualificar cirurgiões-dentistas para o manejo da anquiloglossia, assegurando assistência adequada e incentivo ao AM. A educação problematizadora mostrou-se eficaz para promover mudanças na prática, estimular reflexão crítica e fortalecer a EPS. Estratégias semelhantes, com apoio da gestão local, podem ampliar a resolutividade das eSBs, consolidando um modelo de saúde voltado à promoção, prevenção, integralidade e resolutividade no âmbito assistencial da APS.
Estudos futuros devem incluir análises quantitativas e feedback sistematizado dos profissionais sobre as capacitações, uma vez que a avaliação contínua é essencial para a sustentabilidade das metodologias ativas.
Agradecimentos
Nossos sinceros agradecimentos aos participantes do estudo, à Dra. Jéssica Alves de Cena, à Maria do Carmo Silva Ribeiro, ao Jefferson Francisco Ribeiro e ao Angelo José Morais da Silva, pelo incentivo de sempre.
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Disponibilidade de dados
Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.
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Editado por
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Editor
Antonio Pithon Cyrino https://orcid.org/0000-0002-9184-5927
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Editor associado
Franklin Delano Soares Forte https://orcid.org/0000-0003-4237-0184



Fonte: Elaborado pelos autores.
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