Resumo
A obesidade é uma condição multifatorial e um dos principais problemas de saúde pública, sendo associada ao aumento de doenças crônicas não transmissíveis. Este estudo teve como objetivo analisar as percepções de profissionais de saúde da Atenção Primária sobre a coordenação da atenção na linha de cuidado à obesidade em uma Unidade de Saúde da Família de Recife, Pernambuco. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, descritiva e exploratória, contando com a realização de entrevistas semiestruturadas com profissionais das equipes de saúde, analisadas com base na técnica de análise de conteúdo. Observaram-se dificuldades na comunicação entre níveis assistenciais, ausência de contrarreferência, desarticulação multiprofissional e desconhecimento de estratégias de coordenação. Concluiu-se que a coordenação da atenção na linha de cuidado da obesidade enfrenta desafios que extrapolam questões estruturais, refletindo também fragilidades nos processos de trabalho e na qualificação profissional das equipes.
Palavras-chave
Atenção Primária à Saúde; Colaboração intersetorial; Níveis de atenção à saúde; Obesidade; Educação continuada
Abstract
Obesity is a multifactorial condition and one of the major public health problems associated with an increase in chronic noncommunicable diseases. The objective of this study was to analyze primary health care professionals’ perceptions of the coordination of obesity care at a family health center in Recife, Pernambuco, Brazil. We conducted an exploratory-descriptive qualitative study using semi-structured interviews with health care team members, which were analyzed using content analysis. The findings revealed communication difficulties between different levels of care, lack of counter referral, poor multidisciplinary coordination and lack of awareness of coordination strategies. It was concluded that the coordination of obesity care faces challenges that extend beyond structural issues, highlighting weaknesses in work processes and the qualification of health teams.
Keywords
Primary health care; Intersectoral collaboration; Levels of health care; Obesity; Continuing education
Resumen
La obesidad es una condición multifactorial y uno de los principales problemas de salud pública, asociada al aumento de enfermedades crónicas no transmisibles. El objetivo de este estudio fue el análisis de las percepciones de profesionales de salud de Atención Primaria sobre la coordinación de la atención en la línea de cuidado de la obesidad en una Unidad de Salud de la Familia de Recife, Estado de Pernambuco. Se trata de una investigación cualitativa, descriptiva y exploratoria, que realizó entrevistas semiestructuradas con profesionales de los equipos de salud, analizadas con base en la técnica de análisis de contenido. Se observaron dificultades en la comunicación entre niveles asistenciales, ausencia de contrarreferencia, desarticulación multiprofesional y desconocimiento de estrategias de coordinación. Se concluyó que la coordinación de la atención en la línea de cuidado de la obesidad enfrenta desafíos que sobrepasan cuestiones estructurales, reflejando fragilidades en los procesos de trabajo y en la calificación profesional de los equipos.
Palabras clave
Atención primaria de la salud; Colaboración intersectorial; Niveles de atención de la salud; Obesidad; Educación continuada
Introdução
Entende-se obesidade como um acúmulo excessivo de gordura corporal que representa risco à saúde, uma condição multifatorial associada ao aumento na incidência de doenças crônicas não transmissíveis1. No Brasil, entre 2006 e 2023, a prevalência de obesidade nas capitais mais que duplicou, o que demonstra a manutenção da tendência ascendente dessa condição2, impondo uma elevada carga para os sistemas de saúde, comprometendo a produtividade relacionada à força de trabalho e gerando impactos para a sociedade3.
Além das dimensões clínica e epidemiológica, a obesidade deve ser compreendida como fenômeno social complexo atravessado por estigmas e processos de responsabilização individual4,5. A abordagem biomédica tem contribuído para a patologização do corpo gordo e para a reprodução de práticas gordofóbicas nos serviços de saúde5,6, que tende a invisibilizar os determinantes sociais e a produzir barreiras simbólicas para o acesso ao cuidado, prejudicando o acesso, o vínculo e a continuidade da atenção7,8. Reconhecer a obesidade como condição multifatorial implica deslocar o cuidado para além da clínica estrita, exigindo estratégias intersetoriais, organização de redes de atenção e práticas de cuidado coordenadas, longitudinalmente orientadas e sensíveis às singularidades e aos contextos territoriais dos sujeitos9-11.
No âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), a Atenção Primária à Saúde (APS) é reconhecida como principal coordenadora do cuidado na Rede de Atenção à Saúde (RAS)12, em razão de seu papel como porta de entrada e de sua ampla capilaridade territorial13. A resolutividade da obesidade depende da abordagem dos determinantes sociais da saúde, do fortalecimento do vínculo com a comunidade e da integração entre os profissionais da rede14.
A linha de cuidado (LC), enquanto estratégia organizativa das RAS, articula ações e serviços de diferentes pontos da rede; e define fluxos assistenciais e responsabilidades compartilhadas, viabilizando o acompanhamento longitudinal do usuário conforme as necessidades de saúde. No cuidado às condições crônicas, como a obesidade, sua estruturação da linha de cuidado é fundamental para qualificar a articulação entre a APS e a Atenção Especializada (AE), o que pressupõe uma matriz de responsabilidades bem definida entre os níveis assistenciais15,16. Contudo, sua efetivação permanece limitada por falhas nos fluxos de encaminhamento, evasão de usuários e fragilidades na comunicação e na integração da rede17.
As iniciativas voltadas para superar esses desafios apresentam limitações por priorizarem estratégias pouco sensíveis aos contextos locais e não incorporarem, de forma sistemática, as experiências e percepções dos profissionais de saúde que atuam nos territórios18, o que reforça a necessidade de mecanismos que favoreçam o engajamento e a participação ativa destes nas ações de cuidado19. Estudos prévios corroboram essa perspectiva ao evidenciar que, embora os profissionais reconheçam a importância da coordenação entre níveis, persistem fragilidades na comunicação entre APS e AE na contrarreferência e no seguimento clínico20, aspectos que fundamentam a proposta do presente estudo.
Diante desse cenário, este estudo teve como objetivo analisar as percepções de profissionais de saúde acerca da coordenação da atenção na LC da obesidade em uma Unidade de Saúde da Família (USF) localizada no Distrito Sanitário III do município de Recife, Pernambuco.
Método
Este estudo é recorte da pesquisa “Coordenação e continuidade do cuidado entre níveis de atenção: um estudo sobre a linha de cuidado da obesidade em macrorregiões de saúde de Pernambuco, Nordeste, Brasil”.
Trata-se de um estudo exploratório, de abordagem qualitativa, orientado pelos procedimentos da análise temática de conteúdo, articulando as contribuições de Bardin21 e de Braun e Clarke22,23. A USF foi selecionada de forma intencional, considerando as características do território e da população adstrita, bem como a disponibilidade e receptividade dos profissionais para participação na pesquisa. Em relação aos profissionais, foram selecionados aqueles diretamente envolvidos na atenção aos usuários, com atuação mínima de seis meses na USF e que possuíssem experiência de interação com outros níveis assistenciais. A inclusão dos participantes ocorreu de forma progressiva até o alcance da saturação teórica, definida pela recorrência de conteúdos e ausência de novos elementos analíticos relevantes às categorias adotadas.
Participaram do estudo sete profissionais: quatro enfermeiros, dois médicos e um gerente da unidade. As entrevistas foram realizadas presencialmente na USF entre outubro de 2024 e março de 2025; e orientadas por um roteiro semiestruturado, elaborado a partir das categorias propostas no referencial teórico de Vázquez et al.24, sendo elas: opiniões gerais, coordenação da informação, coordenação da gestão clínica, acessibilidade, coordenação administrativa e sugestões de melhoria. Essas categorias foram utilizadas como a matriz teórica que direcionou a análise, não sendo empregadas normativamente, mas sim adaptadas ao contexto do estudo, subsidiando a interpretação das percepções dos entrevistados.
Os áudios foram gravados, transcritos integralmente e analisados com apoio do software ATLAS TI na organização, rastreabilidade e sistematização do material empírico. A codificação foi realizada de forma independente por dois pesquisadores, com posterior discussão das divergências e construção de consensos, contribuindo para a confiabilidade e consistência interpretativa dos achados.
A análise dos dados seguiu etapas sucessivas. Na pré-análise, realizou-se leitura flutuante das transcrições para apreensão do conteúdo global. Na exploração do material, procedeu-se à codificação, combinando abordagens dedutiva – orientada pelas categorias de Vázquez et al.14 – e indutiva, o que permitiu a emergência de códigos a partir das falas dos participantes. Na fase de tratamento e interpretação dos dados, os códigos foram agrupados em núcleos de sentido, considerando convergências e divergências entre os discursos25, que subsidiaram a construção dos temas analíticos apresentados, articulando os achados empíricos ao referencial teórico.
O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos do Instituto Aggeu Magalhães, Fiocruz Pernambuco sob o CAAE n. 75215823.4.0000.5190.
Resultados e discussão
A análise das entrevistas demonstrou a coexistência de avanços pontuais e fragilidades persistentes na coordenação da atenção na LC da obesidade no âmbito da APS. Os achados apontaram para o reconhecimento do papel estratégico da APS no acompanhamento dos usuários, ao mesmo tempo em que revelaram limitações importantes na articulação com a AE, na comunicação interprofissional e no uso dos sistemas de informação.
Opiniões gerais
De modo geral, os profissionais entrevistados apresentaram um discurso convergente quanto ao papel da APS na LC da obesidade, destacando sua função no acolhimento dos usuários, no acompanhamento longitudinal e na mediação do acesso aos demais níveis assistenciais, dialogando com o papel atribuído à Atenção Primária na literatura26.
Em contraste, as percepções sobre a AE revelaram maior heterogeneidade. Parte dos profissionais reconheceu sua relevância nos casos de maior complexidade clínica, como a obesidade em graus mais avançados e a presença de múltiplas comorbidades. Já outros destacaram dificuldades persistentes na articulação entre os níveis assistenciais, tais como ausência de contrarreferência, fragilidade na comunicação e descontinuidade do cuidado após os encaminhamentos (quadro 1).
Síntese das percepções dos atores entrevistados (n=7) sobre a coordenação da atenção na linha de cuidado da obesidade – Recife, PE, 2025
Entre os principais entraves, emergiram a inexistência de fluxos assistenciais formalmente estabelecidos, o desconhecimento acerca de serviços de referência, a ausência de equipes multiprofissionais de apoio e a fragilidade na comunicação com a AE:
Se a gente tivesse comunicação com a atenção especializada, fóruns de integração, de discussão de casos, seria outro nível. (Entrevistado 3)
Apesar dessas fragilidades, alguns profissionais reconheceram avanços pontuais, destacando o uso de ferramentas digitais e do Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC) como dispositivos que ampliaram o registro e a circulação de informações entre os pontos da rede. No entanto, tais instrumentos foram compreendidos como insuficientes para superar, de forma isolada, os desafios estruturais da coordenação, sobretudo na ausência de fluxos bem definidos e estratégias institucionais de integração entre os níveis assistenciais.
As opiniões revelaram um cenário no qual a APS desempenha papel estratégico na LC da obesidade, porém, em um contexto marcado por fragilidades que limitam o exercício pleno dessa função e que serão aprofundadas nas seções subsequentes.
Coordenação da informação
A coordenação da informação refere-se à troca, ao registro e à continuidade dos dados clínicos e administrativos entre os diferentes pontos da rede de atenção24, sendo fundamental para a articulação entre os níveis assistenciais. As falas dos profissionais evidenciaram fragilidades nos mecanismos de comunicação e a baixa integração entre os sistemas utilizados na APS e na AE (quadro 2).
Síntese das percepções dos atores entrevistados (n=7) sobre a coordenação da informação na linha de cuidado da obesidade – Recife, PE, 2025
A maioria dos entrevistados desconhecia a existência de protocolos específicos para o encaminhamento e o acompanhamento de usuários com obesidade, mencionando apenas a utilização de protocolos gerais voltados para outras condições crônicas, como hipertensão e diabetes:
A gente vê as doenças crônicas, […] a hipertensão e diabetes […], mas especificamente da obesidade não. Ela entra como uma variavelzinha ali. (Entrevistado 5)
Apesar da alta prevalência e de sua associação com outras doenças crônicas não transmissíveis, a obesidade é frequentemente invisibilizada frente às demais, o que compromete a circulação longitudinal e qualificada dos dados clínicos ao longo da LC24. Achados semelhantes têm sido descritos na literatura, indicando a ausência de condutas específicas e de estratégias sistematizadas para o cuidado da obesidade na APS, tais como agendamento com base em classificação de risco ou inserção do usuário em atividades coletivas27.
Os profissionais também relataram fragilidades recorrentes na comunicação entre a APS e a AE, especialmente no que se refere à ausência de contrarreferência. Em diversos relatos, a retomada do cuidado pela APS ocorre sem informações clínicas sistematizadas sobre as condutas adotadas:
Como é que a gente vai saber se a gente não tem [...] a contrarreferência?” (Entrevistado 6)
[...] como foi que eles fizeram [...] antes da cirurgia? [...] Eu não tenho nada, às vezes eles voltam para mim já no pós-operatório. (Entrevistado 7)
Embora alguns profissionais reconheçam os sistemas informatizados como suporte à organização das informações clínicas, esses recursos foram percebidos como insuficientes. Dificuldades no uso das ferramentas digitais, especialmente entre profissionais com menor familiaridade com novas tecnologias, também foram relatadas, além de críticas à forma verticalizada como foram implantadas, sem diálogo prévio com os trabalhadores do território:
[...] até teve uma certa dificuldade da adesão dos trabalhadores [...] porque esse processo [...] foi verticalizado. É uma ferramenta ótima [...], mas que foi uma surpresa pro trabalhador. (Entrevistado 4)
De modo geral, os sistemas foram descritos como instrumentos de registro clínico, e não como mecanismos efetivos de comunicação e coordenação entre os níveis assistenciais.
Em consonância com outros estudos28,29, os achados evidenciaram que a fragmentação dos dados e a insuficiência dos registros eletrônicos constituem entraves centrais à coordenação da informação. A ausência de contrarreferência e a utilização de sistemas como instrumentos de registro clínico predominantes fragilizam o acompanhamento longitudinal, dificultam o fechamento dos ciclos de cuidado e contribuem para a descontinuidade assistencial, reforçando que os sistemas informatizados, embora sejam importantes ferramentas de suporte, não substituem a comunicação formal e a integração efetiva entre profissionais e serviços dos diferentes níveis de atenção24.
Coordenação da gestão clínica
A coordenação da gestão clínica compreende a articulação entre profissionais e serviços para garantir a continuidade e a coerência das ações terapêuticas prestadas aos usuários30, essencial para evitar lacunas, retrabalho e perda do vínculo assistencial. As falas dos profissionais evidenciaram limitações relevantes, tanto no compartilhamento de condutas quanto no retorno dos casos encaminhados.
Síntese das percepções dos atores entrevistados (n=7) sobre a coordenação da gestão clínica na linha de cuidado da obesidade – Recife, PE, 2025
Os profissionais relataram que raramente há retorno do usuário à APS após atendimento na AE, o que caracteriza o fenômeno conhecido como “efeito velcro”. Esse termo descreve a permanência do paciente na AE sem contrarreferência, gerando ruptura na continuidade do cuidado e sobrecarga desnecessária dos serviços especializados31-34.
Diante dessa fragilidade, os entrevistados afirmaram que evitam encaminhamentos considerados desnecessários, priorizando a resolução dos casos na APS. Embora essa estratégia revele compromisso com a integralidade do cuidado, também expressa a percepção de que o encaminhamento nem sempre resulta em acompanhamento clínico articulado:
[...] seguro muito o paciente, [...] eu encaminho pouco. Até porque, principalmente para a obesidade, o principal tratamento [...] é a mudança do estilo de vida. (Entrevistado 3)
Considerando que usuários com obesidade podem vivenciar múltiplos ciclos de encaminhamento entre os níveis de atenção ao longo da vida28, a ausência de comunicação efetiva entre a APS e a AE contribui para a sensação de isolamento profissional na Atenção Básica. A inexistência de retorno clínico dificulta o seguimento, a reavaliação dos casos e a construção de projetos terapêuticos compartilhados:
[...] na teoria, a gente iria referenciar para a secundária e terciária e eles dariam os retornos e tudo iria fluir, mas não é assim. (Entrevistado 7)
Assim, os fluxos clínicos tornam-se unilaterais, pois a APS encaminha, mas não recebe diretrizes para a continuidade do cuidado.
Achados semelhantes foram descritos em estudo realizado em dois municípios pernambucanos, indicando que a insuficiência de comunicação entre a APS e a AE constitui, simultaneamente, causa e consequência da fragilidade na coordenação do cuidado, resultando em fragmentação assistencial e sobrecarga da APS20. A literatura reforça que a baixa institucionalização de espaços clínico-coletivos de decisão35 e a ausência de responsabilização compartilhada entre os níveis dificultam a construção de projetos terapêuticos integrados, especialmente no cuidado às condições crônicas.
Para além das fragilidades organizacionais, a coordenação insuficiente da gestão clínica produz efeitos simbólicos e relacionais. A fragmentação das condutas e a ausência de corresponsabilização tendem a reforçar abordagens centradas na responsabilização individual do usuário, frequentemente associadas à estigmatização da obesidade e à reprodução de práticas marcadas pela gordofobia institucional5. Para o usuário, esse cenário contribui para o sofrimento e a perda de vínculo; para os profissionais da APS, para o sentimento de insegurança e isolamento, assumindo o manejo de casos complexos sem apoio clínico compartilhado36,37 e comprometendo a construção de práticas integrais e sensíveis aos aspectos biopsicossociais do adoecimento.
Acessibilidade
A acessibilidade constitui uma dimensão central da integralidade do cuidado, envolvendo tanto a oferta oportuna de serviços quanto a capacidade dos usuários de alcançá-los e utilizá-los de forma efetiva ao longo do continuum assistencial38. Na LC da obesidade, barreiras de acesso prejudicam a continuidade do cuidado, a adesão terapêutica e os desfechos clínicos favoráveis.
Síntese das percepções dos atores entrevistados (n=7) sobre a acessibilidade na linha de cuidado da obesidade – Recife, PE, 2025
O acesso à APS foi associado à agilidade no acolhimento e à capacidade resolutiva inicial das equipes. As consultas foram descritas como abrangentes, incluindo avaliação antropométrica, solicitação de exames, investigação de comorbidades e orientação alimentar, reforçando a centralidade da APS como porta de entrada e coordenadora do cuidado.
Por outro lado, o acesso à AE foi identificado como um dos principais pontos de estrangulamento da LC. Houve convergência nas narrativas quanto ao tempo prolongado de espera para consultas especializadas, atribuído tanto à oferta limitada de profissionais quanto às fragilidades do processo de regulação. Essa demora foi percebida como fator de desestímulo à permanência de usuários no seguimento terapêutico.
Quanto aos exames, os profissionais relataram maior facilidade para a realização de análises laboratoriais, frequentemente disponíveis na própria unidade, enquanto exames de imagem foram apontados como de difícil acesso. Esses achados dialogam com estudo nacional que evidenciou a coexistência de avanços pontuais e gargalos persistentes no acesso a serviços de maior densidade tecnológica39.
A acessibilidade geográfica emergiu como uma barreira relevante, uma vez que o sistema de regulação não considera, de forma sistemática, o território de moradia no agendamento, resultando em deslocamentos longos e onerosos. Essa dinâmica foi associada ao absenteísmo em serviços especializados:
Eu tenho marcação de algumas consultas e exames que são para o Hospital da Mulher e aí o pessoal reclama da distância. Por outro lado, o hospital reclama do absenteísmo elevado. (Entrevistado 4)
Estudos apontam que o não comparecimento a consultas e exames gera ineficiência do sistema e desperdício de recursos públicos, levando à descontinuidade do cuidado40.
Para além das barreiras organizacionais e territoriais, a acessibilidade no cuidado à obesidade envolve dimensões físicas, simbólicas e relacionais. Neste estudo, a ausência de equipamentos específicos para pessoas com obesidade foi relatada pelos participantes:
A gente não tem maca [...] não tem cadeira, [...] não tem cadeira de roda, [...] não tem balança [...] não tem tensiômetro para o paciente com obesidade. (Entrevistado 3)
Barreiras arquitetônicas e atitudinais, marcadas por constrangimento e estigmatização, podem desencorajar a busca ou o retorno aos serviços, contribuindo para o abandono do tratamento e trajetórias assistenciais interrompidas41, uma expressão da desigualdade e de práticas institucionais que reforçam a exclusão de pessoas.
Achados internacionais indicam que barreiras de acesso prejudicam a adesão ao tratamento e reforçam a responsabilização individual dos usuários, especialmente em populações socialmente vulnerabilizadas42-44. Essas evidências sugerem que as fragilidades observadas neste estudo não são fenômenos isolados, partindo de um padrão mais amplo de iniquidades no cuidado da obesidade42,43.A acessibilidade terapêutica também emergiu como entrave, sobretudo quando condutas e prescrições não consideram as condições socioeconômicas dos usuários:
Eles [profissionais da AE] passam muita medicação que não é liberada [...] pelo SUS, então a gente precisa modificar, principalmente a prescrição, porque os pacientes [...] não têm dinheiro. (Entrevistado 3)
Alguns alimentos que estão [...] numa dieta mais saudável são pouco acessíveis [...]. Então o que a gente faz? Vou dizer a pessoa para não comer, ela não come nada? (Entrevistado 7)
Esses relatos tensionam abordagens restritas da acessibilidade física ou organizacional ao evidenciarem que a viabilidade terapêutica constitui componente central do cuidado. Evidenciam, ainda, o descompasso entre o cuidado tecnicamente indicado e o efetivamente possível, impondo à APS a tarefa de adaptar condutas e expondo os limites do acesso quando não se considera as condições socioeconômicas dos usuários, mesmo em contextos nos quais o serviço é existente42.
Embora o estigma da obesidade apareça de forma indireta nas falas, essa dimensão não emerge explicitamente como objeto de reflexão. Tal ausência não deve ser interpretada apenas como lacuna empírica, mas também como indicativo de uma concepção de coordenação do cuidado predominantemente centrada em aspectos organizacionais e clínico-operacionais, na qual o sofrimento simbólico dos usuários permanece naturalizado ou invisibilizado5, revelando limites na formação profissional e nos referenciais que orientam a prática7,8.
Entende-se, portanto, que a acessibilidade na LC da obesidade exige intervenções que transcendam a ampliação pontual da oferta de serviços, envolvendo o aprimoramento dos sistemas de regulação territorial, a redução de barreiras geográficas e o enfrentamento de práticas institucionais que produzem exclusão e estigmatização.
Coordenação administrativa
A coordenação administrativa envolve os dispositivos organizacionais e gerenciais responsáveis por estruturar os fluxos assistenciais; o agendamento de consultas e exames; os processos de regulação; e a articulação formal entre os níveis de atenção35, fundamental para garantir previsibilidade, continuidade e racionalidade no percurso dos usuários pela rede.
As falas dos profissionais evidenciaram fragilidades na operacionalização desses mecanismos, marcadas pelo desconhecimento de instrumentos específicos e pelo uso fragmentado dos sistemas disponíveis. Embora ferramentas como o PEC e o Conecta Recife sejam reconhecidas como dispositivos de apoio à gestão dos serviços, seu uso foi descrito como predominantemente operacional, sem articulação consistente com processos de planejamento, regulação e acompanhamento longitudinal, limitando seu potencial como instrumentos de coordenação administrativa.
Síntese das percepções dos atores entrevistados (n=7) sobre a coordenação administrativa na linha de cuidado da obesidade – Recife, PE, 2025
Em relação à marcação de consultas e exames, os profissionais relataram uma dinâmica pouco flexível, com dias previamente definidos e número restrito de vagas, exigindo que o usuário retorne repetidas vezes à unidade. Essa lógica, centrada na disponibilidade do serviço, foi descrita como geradora de deslocamentos desnecessários:
Se não tiver vaga [...] eu digo: “Vem amanhã” [...] Enquanto houver amanhã e eu não conseguir a vaga, você vai estar vindo à unidade. E são vindas desnecessárias. (Entrevistado 4)
Além disso, parte dos procedimentos dependem da intermediação da regulação, acrescentando etapas ao percurso assistencial e ampliando o risco de descontinuidade do cuidado.
Os entrevistados também destacaram a ausência de planejamento baseado na demanda real da população e de mecanismos sistemáticos de monitoramento capazes de ajustar a oferta às necessidades do território. Esse descompasso entre oferta e demanda compromete a coordenação administrativa e, por consequência, a integralidade do cuidado às pessoas com obesidade.
De forma geral, os resultados indicam que a coordenação administrativa na LC da obesidade permanece fragilizada pela insuficiência de mecanismos de planejamento, pela baixa integração dos sistemas e por uma lógica de agendamento pouco responsiva às necessidades dos usuários. Achados semelhantes foram descritos por Almeida et al.45, evidenciando limites persistentes na apropriação dos sistemas do SUS como dispositivos estratégicos de coordenação administrativa.
Sugestões de melhoria
As sugestões de melhoria apontadas pelos entrevistados articulam-se nas dimensões da gestão, da organização da rede e da prática clínica, indicando que o fortalecimento da coordenação do cuidado na LC da obesidade depende não apenas de ajustes operacionais, mas também da institucionalização de fluxos assistenciais e do fortalecimento das equipes de saúde, com vistas à qualificação do cuidado e à integração entre os níveis assistenciais.
Para a gestão e a organização da rede
Os profissionais destacaram a necessidade de protocolos claros de referência e contrarreferência, bem como de maior integração entre os sistemas de informação da APS e da AE por meio de prontuários compartilhados. Além disso, os entrevistados ressaltaram a ampliação da oferta de serviços especializados e a qualificação dos processos de regulação como medidas centrais para reduzir o tempo de espera e tornar os fluxos assistenciais mais responsivos às necessidades dos usuários.
Para a prática clínica e a formação profissional
Foi mencionada a necessidade de investimentos contínuos na capacitação das equipes para o cuidado da obesidade enquanto condição crônica complexa, com destaque para os processos formativos que valorizem a escuta qualificada, o acolhimento e a abordagem integral do usuário:
Tem profissionais que não estão interessados mesmo em parar, em conversar e orientar o paciente. (Entrevistado 5)
As fragilidades identificadas não se restringem à ausência de recursos, mas também se relacionam a uma cultura de cuidado que, por vezes, reproduz abordagens centradas na responsabilização individual do usuário. Nesse sentido, foram apontadas como estratégias a formação interprofissional, o apoio matricial e a criação de espaços coletivos de discussão clínica, capazes de qualificar a prática assistencial e fortalecer o trabalho em equipe.
Em conjunto, essas sugestões reforçam caminhos já indicados na literatura para a qualificação da coordenação do cuidado no SUS: fortalecimento da APS como ordenadora da rede; incorporação de tecnologias de informação adequadas; ampliação e integração da oferta de serviços especializados; e valorização da dimensão subjetiva e relacional do cuidado – as quais articulam gestão, formação e prática clínica de forma integrada46.
Ressalta-se que este estudo apresenta algumas limitações. A pesquisa foi realizada em uma USF de Recife e contou com um número reduzido de participantes, o que pode limitar a amplitude das percepções captadas. Ademais, os dados refletem predominantemente a perspectiva de profissionais de saúde e da gestão, o que restringe a compreensão direta da experiência dos usuários. Apesar disso, esse delineamento possibilitou maior aprofundamento das entrevistas e uma análise mais densa das narrativas, não comprometendo a relevância dos resultados.
Conclusões
A coordenação da atenção na LC da obesidade, no contexto da APS, permanece marcada por fragilidades que perpassam as dimensões da informação, da gestão clínica, da organização administrativa e da acessibilidade. Tais limitações não se restringem à insuficiência de recursos, mas refletem modos de organização do trabalho, lacunas nos dispositivos de coordenação da RAS e referenciais formativos ainda pouco sensíveis à complexidade da obesidade enquanto condição crônica multifatorial.
Nesse cenário, a ausência de protocolos e fluxos formalizados de referência e contrarreferência, associada à baixa integração entre os sistemas de informação da APS e da AE e às falhas na comunicação entre os níveis assistenciais, compromete a continuidade do cuidado e produz trajetórias assistenciais fragmentadas. Como consequência, a APS passa a assumir funções compensatórias frente às fragilidades da rede, ampliando a sobrecarga das equipes e evidenciando a necessidade de fortalecimento de mecanismos de coordenação, com ênfase na implantação de protocolos e fluxos assistenciais, na integração informacional e na corresponsabilização entre os pontos de atenção.
Adicionalmente, o estudo revelou que dimensões simbólicas e relacionais do cuidado – estigma, responsabilização individual do usuário e barreiras arquitetônicas, atitudinais e terapêuticas – permanecem pouco evidentes nos discursos dos profissionais. Essa ausência pode indicar limites na formação e nos referenciais que orientam a prática ao restringir a coordenação do cuidado a aspectos organizacionais e técnico-operacionais, dissociados da experiência vivida dos usuários.
Portanto, fortalecer a coordenação na LC da obesidade demanda intervenções integradas que transcendam a ampliação pontual da oferta de serviços e implica qualificar os dispositivos de gestão e regulação com base nas necessidades dos territórios, integrar efetivamente os sistemas de informação, consolidar fluxos assistenciais e investir na formação e no apoio às equipes, promovendo práticas clínicas éticas, acolhedoras e corresponsáveis.
Agradecimentos
Aos profissionais e ao gestor da USF que aceitaram participar deste estudo, bem como aos demais pesquisadores e pesquisadoras do Laboratório de Monitoramento, Avaliação e Vigilância em Saúde (LAM-Saúde) da Fiocruz Pernambuco.
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Financiamento
Este estudo é parte da pesquisa intitulada “Coordenação e continuidade do cuidado entre níveis de atenção: um estudo sobre a linha de cuidado da obesidade em macrorregiões de saúde de Pernambuco, Nordeste, Brasil”, financiada com recursos da chamada n. 06/2022 do Programa de Excelência em Pesquisa, do Instituto Aggeu Magalhães (PROEP-IAM); e integra o eixo “Desenvolvimento” do Programa Inova Fiocruz.
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Disponibilidade de dados
Os dados de pesquisa só estão disponíveis mediante solicitação.
Referências
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Editado por
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Editora
Rosana Teresa Onocko-Campos https://orcid.org/0000-0003-0469-5447
-
Editora associada
Micheli Dantas Soares https://orcid.org/0000-0002-0733-5319
