Open-access Construção de taxonomia de fatores de risco psicossociais na pós-graduação stricto sensu*

Construcción de una taxonomía de los factores de riesgo psicosocial en los estudios de postgrado

Resumo

Este estudo objetivou construir uma taxonomia de fatores de risco psicossociais relacionados à pós-graduação stricto sensu na perspectiva de mestrandos e doutorandos. Tratou-se de estudo qualitativo realizado com estudantes de mestrado e doutorado de uma universidade pública brasileira. A coleta ocorreu de outubro a dezembro de 2023, utilizando questionário para caracterização e grupos focais guiados por roteiro, com interpretação dos dados através da análise temática. Participaram 72 pós-graduandos. A taxonomia construída abrangeu fatores de risco no contexto e no conteúdo dos estudos. No que se refere ao contexto, foram considerados os seguintes fatores de risco psicossociais: função institucional, ambiência, decisão e controle, desenvolvimento de carreira, relacionamento interpessoal, e interface entre estudo e vida pessoal. No que se refere ao conteúdo, foram considerados os seguintes fatores de risco psicossociais: recursos, carga, ritmo e esquemas de estudo, e aspectos específicos da pesquisa. Assim, as Instituições de Ensino Superior devem implementar iniciativas de suporte e políticas de promoção de saúde baseadas na identificação e compreensão dos fatores de risco psicossociais.

Palavras-chave
Educação de pós-graduação; Estudantes; Programas de pós-graduação em saúde; Universidades; Saúde mental


Abstract

This study aimed to construct a taxonomy of psychosocial risk factors related to graduate studies (stricto sensu) from the perspective of master’s and doctoral students. It was a qualitative study conducted with master’s and doctoral students from a Brazilian public university. Data collection took place from October to December 2023 using a questionnaire for characterization and guided focus groups, with data interpretation through thematic analysis. Seventy-two graduate students participated. The taxonomy constructed encompassed psychosocial risk factors in both the context and content of the studies. Regarding context, the following factors were considered: institutional function, environment, decision-making and control, career development, interpersonal relationships, and interface between study and personal life. Regarding content, the following psychosocial risk factors were considered: resources, workload, pace and study schedules, and specific aspects of research. Thus, Higher Education Institutions should implement support initiatives and health promotion policies based on the identification and understanding of psychosocial risk factors.

Keywords
Postgraduate education; Students; Postgraduate health programs; Universities; Mental health


Resumen

Este estudio tuvo como objetivo construir una taxonomía de los factores de riesgo psicosocial relacionados con los estudios de posgrado (stricto sensu) desde la perspectiva de estudiantes de maestría y doctorado. Fue un estudio cualitativo realizado con estudiantes de maestría y doctorado de una universidad pública brasileña. La recolección de datos tuvo lugar de octubre a diciembre de 2023, utilizando un cuestionario para la caracterización y grupos focales guiados, con interpretación de datos a través del análisis temático. Participaron setenta y dos estudiantes de posgrado. La taxonomía construida abarcó factores de riesgo tanto en el contexto como en el contenido de los estudios. En cuanto al contexto, se consideraron los siguientes factores de riesgo psicosocial: función institucional, entorno, toma de decisiones y control, desarrollo profesional, relaciones interpersonales y la interacción entre el estudio y la vida personal. En cuanto al contenido, se consideraron los siguientes factores de riesgo psicosocial: recursos, carga de trabajo, ritmo y horarios de estudio, y aspectos específicos de la investigación. Por lo tanto, las Instituciones de Educación Superior deben implementar iniciativas de apoyo y políticas de promoción de la salud basadas en la identificación y comprensión de los factores de riesgo psicosocial.

Palabras clave
Educación de postgrado; Estudiantes; Programas de posgrado en salud; Universidades; Salud mental


Introdução

Mundialmente, os cursos de pós-graduação stricto sensu possuem relevância científica e social, ao formar futuros docentes e pesquisadores, estimular a produção de conhecimento e contribuir para a expansão do ensino superior1. Nas últimas décadas, impulsionados pela demanda e apoiados, em geral, por políticas governamentais, observa-se aumento progressivo de profissionais que ingressam em programas de mestrado e doutorado, inclusive na área da saúde2. Esse ingresso, contudo, pode ser acompanhado por transformações, expectativas quanto ao desempenho e desafios de adaptação à vida acadêmica3.

Nesse cenário, a literatura tem apontado uma crise de saúde mental na comunidade acadêmica, especialmente entre estudantes em estágios iniciais de carreira4,5. Ademais, após a entrada na pós-graduação, os estudantes enfrentam diversas exigências, como a definição de um tema, a condução de pesquisas, a análise de dados e a redação de artigos científicos2. Tais responsabilidades podem se somar a dificuldades financeiras e pessoais, além da necessidade de conciliar estudo e trabalho remunerado em tempo integral6,7 – realidade frequente em programas de pós-graduação brasileiros. Assim, faz-se relevante investigar detalhadamente os fatores de risco8, com destaque para os psicossociais aos quais esses estudantes estão expostos.

Os riscos psicossociais são condições decorrentes de deficiência na organização e gestão do trabalho, bem como de contexto ou conteúdo de trabalho problemáticos, capazes de gerar efeitos adversos de ordem psicológica, física e social9-12. As situações que favorecem o surgimento desses riscos constituem os fatores de risco psicossociais, que são multidimensionais, articulados ao contexto e ao conteúdo das atividades, influenciando diretamente o bem-estar do indivíduo. Embora tradicionalmente aplicados e estudados no segmento laboral9-12, esses fatores também se manifestam em diferentes áreas, como nas condições de vida, saúde e educação13, bem como no meio acadêmico14.

Na pós-graduação, destacam-se como potenciais fatores de risco psicossociais pressões por produtividade, restrição de autonomia, escassez de recursos, limitações de apoio institucional e dificuldades de relacionamento interpessoal14. Contudo, apesar da existência de estudos que mencionam esses elementos2-5,14, inclusive inseridos de forma individual, grupal e/ou institucional14, ainda não foi encontrada uma taxonomia organizada e ampla que os sistematize no âmbito da pós-graduação stricto sensu.

A sistematização se mostra imprescindível, já que possibilita classificar e compreender, de maneira estruturada, os diversos fatores de risco psicossociais enfrentados por mestrandos e doutorandos, corroborando para diagnósticos mais precisos e intervenções mais direcionadas. Isso envolve identificar, categorizar e descrever os fatores de risco psicossociais que esses estudantes podem enfrentar durante o percurso acadêmico.

A taxonomia, entendida como forma de organizar e classificar sistematicamente elementos relacionados a um tema específico15, pode oferecer subsídios para o desenvolvimento de estratégias institucionais de prevenção de agravos, intervenção e promoção da saúde. Nesse sentido, ao propor a construção de uma taxonomia de fatores de risco psicossociais relacionados à pós-graduação, este estudo busca preencher uma lacuna científica e prática, com vistas a fornecer este recurso para que instituições educacionais e programas formativos implementem medidas de apoio, políticas e ações que favoreçam uma cultura acadêmica mais saudável16. Portanto, este estudo apresenta a seguinte pergunta de pesquisa: quais os fatores de risco psicossociais na perspectiva de estudantes de pós-graduação stricto sensu? Diante da complexidade desse cenário, é relevante analisar os fatores de risco psicossociais, tanto para diagnóstico quanto para intervenção, evitando soluções superficiais ou temporárias14, sobretudo por se tratar de um público que tem sido negligenciado em pesquisas e em intervenções para a melhoria da formação.

Logo, este estudo tem como objetivo construir uma taxonomia de fatores de risco psicossociais relacionados à pós-graduação stricto sensu na perspectiva de mestrandos e doutorandos.

Metodologia

Estudo qualitativo, exploratório, apresentado em consonância com o guia de verificação Consolidated criteria for Reporting Qualitative research-3217. Foi desenvolvido em cinco programas de pós-graduação em saúde de uma Instituição de Ensino Superior (IES) pública brasileira localizada no interior do estado de São Paulo, Brasil.

A coleta de dados foi realizada, de outubro a dezembro de 2023, com estudantes de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) matriculados nos cinco programas da IES selecionada, exercendo atividades profissionais remuneradas concomitantes ao curso.

Os dados foram coletados por meio de um questionário sociodemográfico, acadêmico e profissional, seguido por grupos focais (GFs) com um roteiro de questões orientadoras. Os GFs são uma técnica de pesquisa qualitativa que reúne grupos de participantes para discutir um tema específico, para explorar percepções, experiências e significados18. Optou-se por realizar os GFs tanto presencial quanto remotamente, devido à flexibilidade de horários.

Para a seleção dos participantes, foram utilizadas técnicas não probabilísticas intencionais (julgamento)19, além da técnica snowball, um método não probabilístico em que os participantes iniciais indicam novos participantes, formando uma cadeia progressiva de recrutamento20, na qual pós-graduandos e docentes indicaram novos participantes. Os convites foram feitos presencialmente e através de divulgação institucional, via e-mail, Instagram® e WhatsApp®.

Os GFs foram conduzidos por uma moderadora, autora principal deste estudo, e por uma observadora, segunda autora. A pesquisadora, que também é moderadora dos GFs, é graduada em enfermagem, tem titulação de mestrado e, na época da coleta de dados, era doutoranda. A observadora dos grupos, também graduada em enfermagem, é professora do magistério superior, mestra e doutora. Ambas têm experiência e treinamento na técnica de GF, vinculadas à mesma IES e sem conflitos de interesse.

Os grupos realizados presencialmente ocorreram em uma sala reservada na IES proponente. Para os encontros remotos, utilizou-se o Google Meet®, e a moderadora conduziu a sessão em um espaço físico reservado para evitar interrupções. Em ambos os formatos, apenas os participantes e as pesquisadoras estavam presentes.

A data e o horário dos grupos foram definidos a partir da disponibilidade dos estudantes que aceitaram participar. Foi estabelecido um relacionamento com os participantes dos GFs por meio da apresentação da moderadora e da observadora, de suas qualificações, objetivos pessoais e razões e interesses para o estudo.

As informações foram audiogravadas com gravador, e cada grupo teve duração média de sessenta minutos. As perguntas norteadoras foram: como é fazer uma pós-graduação stricto sensu? Quais condições são oferecidas? Existem dificuldades? As perguntas foram elaboradas com fundamento na literatura2,4,5,14,21 e na experiência dos pesquisadores quanto ao tema. Optou-se por dispensar testes prévios do roteiro, passando-se diretamente para a fase de coleta de dados. Utilizou-se também um diário de campo22 para registrar as percepções da moderadora e da observadora no decorrer dos grupos.

O número de participantes e GFs foi determinado ao atingir a suficiência teórica, encerrando a coleta de dados após alcançar os objetivos do estudo23. Não houve repetição de GFs com os mesmos participantes.

As gravações em áudio dos GFs permitiram extrair falas que foram transcritas e devolvidas aos participantes, sem acréscimos ou reduções dos dados obtidos. As informações foram interpretadas por meio da análise temática, tanto dedutiva24 quanto indutiva, ancorada no referencial teórico9-12. Apesar de ser um referencial que abarca fatores e riscos psicossociais no trabalho9-12, este foi escolhido por oferecer embasamento adequado para apresentar os fatores de risco psicossociais e adaptá-lo conforme o contexto e o conteúdo desta pesquisa (pós-graduação stricto sensu), devido à ausência de outro modelo que abrangesse a pós-graduação. Este processo está descrito no Quadro 1:

Quadro 1
Análise de dados.

O processo analítico foi conduzido manualmente. As falas transcritas foram submetidas à leitura para identificação de núcleos de sentido e codificação aberta, na qual trechos foram destacados e rotulados com códigos que representavam seu conteúdo central. Realizou-se a codificação axial, agrupando códigos afins em categorias mais amplas, de caráter dedutivo, fundamentadas no referencial teórico utilizado, e de caráter indutivo, emergindo do material empírico. As categorias sintetizaram os eixos principais relacionados à experiência da pós-graduação stricto sensu, enquanto as subcategorias trouxeram especificidades ilustradas por excertos dos participantes. Esse processo culminou na construção de uma taxonomia adequada ao contexto da pós-graduação em saúde/enfermagem que integra os fatores de risco psicossociais dos pós-graduandos.

Considerando a posição da moderadora e da observadora em relação ao campo investigado, foi realizada uma reflexão crítica sobre as possíveis influências dessa proximidade na interpretação dos dados. Por estarem vinculadas à mesma instituição, reconheceram a relevância de manter uma postura reflexiva e ética, de modo a reduzir vieses e favorecer a transparência analítica. O uso de diários de campo, a devolutiva das transcrições aos participantes e a revisão conjunta dos achados por todos os autores do estudo constituíram estratégias que fortaleceram a credibilidade do estudo. Buscou-se garantir que a construção das categorias e subcategorias, que culminaram na elaboração da taxonomia15, refletisse as experiências compartilhadas e validadas pelos participantes.

Aspectos éticos

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Instituição proponente, sob Certificado de Apresentação para Apreciação Ética no 74404423.0.0000.5393 e Parecer no 6.424.493.

Para preservar o anonimato dos participantes, os depoimentos foram codificados. A citação final foi composta pelo número do GF, o curso atual do participante (stricto sensu) e a categoria profissional. Assim, os GFs foram codificados de 1 a 13 (GF1-GF13), utilizando as modalidades de doutorado (D), doutorado direto (DD), mestrado (M) e mestrado profissional (MP) do curso stricto sensu, além das seguintes profissões: cirurgiã(o) dentista (Cirur-Dent); profissional de educação física (Ed-Física); enfermeira(o) (Enf); fisioterapeuta (Fisio); fonoaudióloga(o) (Fono); nutricionista (Nutri); psicóloga(o) (Psico); terapeuta ocupacional (TO).

Resultados

Dos 501 estudantes de pós-graduação convidados, na época da coleta, 72 aceitaram participar do estudo. Cinco alunos de pós-graduação recusaram (um presencial e quatro na via remota), justificando indisponibilidade, e 68 não responderam aos convites realizados diretamente, na modalidade remota, pela pesquisadora, primeira autora.

Quanto ao perfil dos participantes, houve predomínio do gênero feminino (n=55; 76%) e de graduados em enfermagem (n=60; 83,3%), seguidos por graduados em psicologia (n=5; 6,9%), odontologia (n=2; 3,2%), e educação física, fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional (n=1; 1,6% cada). Entre os cursos de pós-graduação, (n=39) 54,2% dos participantes estavam no doutorado, e (n=33) 45,8%, no mestrado, sendo especificamente doutorado acadêmico (n=31; 43%), mestrado acadêmico (n=21; 29,2%), mestrado profissional (n=12; 16,7%) e doutorado acadêmico direto (sem possuir titulação de mestre) (n=8; 11,1%). A faixa etária predominante (n=32; 44,4%) foi de 30 a 39 anos. A maioria atua na assistência à saúde (n=41; 56,9%), enquanto que (n=26) 36%, na gestão em saúde, e (n=21) 29,2%, no ensino.

Os participantes foram divididos em 13 GFs, 12 sendo realizados remotamente e um sendo presencial. A predominância dos grupos remotos ocorreu devido à preferência dos estudantes pela flexibilidade de horário e local. O GF presencial correspondeu ao GF2, e os demais foram remotos.

O grupo presencial foi formado por cinco participantes. Remotamente, cinco grupos foram formados por cinco pessoas, e sete grupos, por seis pessoas. A partir das informações e da análise dos dados, formaram-se categorias e subcategorias para a construção taxonômica, abarcando os fatores de risco psicossociais relacionados ao contexto e ao conteúdo dos estudos.

Contexto do estudo

No contexto do estudo, os fatores de risco psicossociais na pós-graduação foram função institucional, ambiência, decisão e controle, desenvolvimento de carreira, relacionamento interpessoal, e interface entre estudo e vida pessoal:

Categoria 1: função institucional

A função institucional pode se configurar como fator de risco psicossocial, devido às diretrizes próprias que devem ser cumpridas, sobretudo devido às exigências e prazos:

Subcategoria 1: exigências e prazos

É grande a quantidade de tarefas para ser cumpridas em pouco tempo: disciplinas, créditos, produção e qualificação. (GF7-D-Enf)

Lidar com prazos gera bastante ansiedade. É estressante. (GF7-M-Psico)

Categoria 2: ambiência

Serão enfatizados nesta categoria os fatores de risco psicossociais, como ambiência (distância da instituição) e a crise pandêmica pela COVID-19:

Subcategoria 1: distância da instituição

Uma rodovia que sempre tem acidente. É muito trânsito. A gente tem a tensão de estar dirigindo. É algo que cansa. (GF5-D-TO)

Às vezes, eu não consigo ter adesão a algumas coisas que a universidade oferece; aliás, nunca tive, por estar em outro município. (GF1-D-Enf)

Subcategoria 2: crise pandêmica

Prorroguei o mestrado durante a pandemia porque o propósito da minha pesquisa ficou inviável e tive que mudar tudo. (GF5-M-Enf)

Devido ao ensino remoto, o cansaço era tanto que às vezes eu dormia em algumas aulas. (GF9-D-Enf)

Categoria 2: decisão e controle

O fator de risco psicossocial decisão e controle abarca a participação limitada na tomada de decisão e ausência de controle sobre as tarefas, abarcando fatores como etapas acadêmicas e a dedicação comprometida:

Subcategoria 1: etapas acadêmicas

O que me faz sofrer é a espera; mandar um projeto. Fica lá dois meses na mão do orientador e o comitê de ética em pesquisa também. (GF11-D-Enf)

A coleta de dados é desgastante. Uma fase que você se desdobra e recebe muito não... é um pouco frustrante. (GF10-DD-Enf)

Subcategoria 2: dedicação comprometida

Eu lamento não poder ter mais tempo para produzir mais por conta de toda essa demanda. Os horários muitas vezes não batem. (GF7-M-Psico)

Ser mais participativo com a pós-graduação é a dificuldade que eu vejo em trabalhar e fazer a pós. (GF7-DD-Ed-Física)

Categoria 3: desenvolvimento de carreira

Tem-se os fatores de risco psicossociais relacionados ao desenvolvimento de carreira, como recursos financeiros limitados, futuro profissional incerto e desvalorização financeira e social:

Subcategoria 1: recursos financeiros limitados

Se tivesse uma bolsa que desse conta... uma pessoa que tem família, não dá para ficar dependendo só disso. (GF7-M-Psico)

Durante o doutorado, uma coisa que eu fiz foi pagar o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). Ainda tirei isso da bolsa. Não tem décimo terceiro, não tem férias, não tem recolhimento de INSS, não tem previdência. (GF1-DD-Enf)

Subcategoria 2: futuro profissional incerto

É uma área ingrata... eu tentei várias faculdades particulares, e eles me desclassificavam por causa do currículo. (GF4-D-Psico)

Eu me sinto muito preocupada quanto ao futuro. Ter um doutorado não é garantia de emprego. Estou me sentindo até adoecida; preciso de ter um serviço, estabilidade. (GF1-D-Enf)

Subcategoria 3: desvalorização socia

A universidade que eu trabalho paga a mesma coisa pra mestre e doutor; não tem diferenciação. (GF4-D-Nutri)

Essa falta de entendimento, reconhecimento social desmotiva... eles acham que doutor é médico. (GF9-M-Enf)

Categoria 3: relacionamento interpessoal

Os relacionamentos na pós-graduação stricto sensu podem ser fatores de risco psicossociais significativos com colegas e/ou orientadores:

Subcategoria 1: colegas

Essa relação entre os envolvidos, colegas, de individualismo, egocentrismo, não buscar ajudar o outro e de buscar favorecer só a si mesmo. (GF1-D-Enf)

Comparando com os meus colegas que em nenhum momento trabalharam, o nível de qualidade que eles têm para se dedicarem ao programa é outro. (GF4-D-Psico)

Subcategoria 2: orientador

Tive muita dificuldade com a minha orientadora. Eu ficava jogada para os outros. Caminhei praticamente sozinha... dias sem ter uma resposta. A hora que vai falar com a gente, fica com pressa para falar. (GF4-D-Enf)

Eu tive que trocar de orientação. Não consegui ter uma boa relação com a minha primeira orientadora. Não tinha interação. (GF3-M-Enf)

Categoria 4: interface entre estudo e vida pessoal

Tem-se também como fator de risco as tensões entre as demandas acadêmicas e vida pessoal:

Subcategoria 1: vida acadêmica e pessoal

Resolvi que queria ser mãe. Eu já estava com 39, 40 anos... tive que buscar tratamento e tive dois abortos nesse meio do caminho. (GF1-D-Enf)

É a tua vida pessoal, é casa, é marido, filho pequeno. Pra mulher, principalmente... as atribuições. (GF9-DD-Enf)

Conteúdo do estudo

No conteúdo da pós-graduação, há fatores de risco psicossociais como recursos acadêmicos, carga e ritmo de estudo, esquema de estudo, e a pesquisa:

Categoria 1: recursos

A carência de recursos acadêmicos é fator de risco psicossocial que afeta o transcorrer da formação:

Subcategoria 1: recursos acadêmicos

Tive que adquirir um software por conta própria. (GF7-M-Psico)

Tive dificuldade de acesso à terapia psicológica; não tinha vaga, era sempre assim. O resumo: eu não consegui e tive uma crise. (GF9-D-Enf)

Categoria 2: carga e ritmo de estudo

Nesta categoria, será abordado o fator de risco psicossocial relacionado à carga e ritmo de estudo, ou seja, o excesso de demandas na pós-graduação e as cobranças intrínsecas:

Subcategoria 1: sobrecargas e autocobranças

Quando eu me proponho a descansar, a cabeça não para de pensar na atividade que eu deveria estar fazendo naquele momento. (GF10-M-Enf)

Sou muito perfeccionista. Tento fazer o melhor possível antes de mandar para o orientador e me cobro muito. (GF11-D-Enf)

Categoria 3: esquema de estudo

O esquema de estudo é um fator de risco psicossocial, pois apresenta horários imprevisíveis de estudo e trabalho noturno, o que pode interferir no descanso mental e na produtividade:

Subcategoria 1: horários imprevisíveis de estudo

Dificilmente, tem um sábado ou um domingo que eu não estudo. (GF12-MP-Enf)

Eu levo meu notebook até o trabalho, e nos intervalos entre um paciente e outro, ou quando um paciente falta, faço as minhas atividades da pós-graduação. (GF11-D-Cirur-Dent)

Subcategoria 2: trabalho noturno

Tive que mudar muitas rotinas, porque eu trabalho e tenho filhos. Tive que passar para o turno noturno para conseguir me dedicar mais à pós. (GF4-D-Enf)

O cansaço noturno nos traz essa dificuldade de raciocínio no dia seguinte. Você não escreve nada direito. (GF5-MP-Enf)

Categoria 4: pesquisa

Os fatores de risco psicossociais relacionados à pesquisa são distanciamento acadêmico, dificuldades no projeto e na pesquisa, área de pesquisa distinta do trabalho, e percurso solitário:

Subcategoria 1: distanciamento acadêmico

Sempre trabalhei na assistência e tive mais dificuldades... de entender o contexto acadêmico, inserir, produzir artigos. Por estar mais distante dessa prática. (GF12-D-Enf)

Eu fiquei muito tempo só atuando, trabalhando na assistência. Por mais que a gente leia, estude, parece que não é a mesma coisa de quando a gente saiu da faculdade. (GF13-MP-Enf)

Subcategoria 2: dificuldades: o projeto e a pesquisa

Eu me sinto insegura de estar no caminho certo, fazendo os moldes que o programa exige, que tem um valor científico. (GF13-DD-Psico)

Por conta da pandemia, a minha professora sugeriu um trabalho, e não era uma temática que eu tinha tanta apropriação. (GF5-M-Enf)

Subcategoria 3: área de pesquisa distinta da profissional

Nunca trabalhei na saúde pública. Foi um desafio ainda maior [mestrado nessa área], porque a minha vida toda eu trabalhei no hospital. (GF8-D-Enf)

O meu trabalho não tem nenhuma relação com a minha pesquisa e com a enfermagem. Ficou em outro plano; fico com muita dificuldade. (GF1-DD-Enf)

Subcategoria 4: percurso solitário

A pós-graduação é um ambiente onde a gente se sente muito solitário. (GF8-D-Enf)

Eu estou sozinha no meu projeto; não tenho aluno de iniciação científica para me ajudar; não tenho colaborador. (GF2-M-Fisio)

A análise qualitativa permitiu construir uma organização taxonômica dos fatores de risco psicossociais na pós-graduação, apresentada na Figura 1.

Figura 1.
Representação da taxonomia de fatores de risco psicossociais na pós-graduação stricto sensu.

Discussão

A partir dos resultados qualitativos deste estudo, construiu-se a taxonomia dos fatores de risco psicossociais nos cursos de mestrado e doutorado. Embasando-se no referencial teórico, que traz os fatores de risco psicossociais no trabalho9-12, a taxonomia foi construída indutivamente e dedutivamente, embasada em nomenclaturas aplicáveis já consolidadas e em novas nomenclaturas extraídas de forma indutiva, devido à peculiaridade acadêmica da pós-graduação stricto sensu.

De acordo com a análise, pode-se afirmar que os riscos psicossociais na pós-graduação decorrem de deficiências na organização e gestão do estudo, bem como de um contexto ou conteúdo problemático, podendo ter efeitos negativos nos aspectos psicológico, físico e social. Compreendendo que os riscos psicossociais podem ter efeitos negativos no bem-estar do pós-graduando, as condições conducentes aos riscos psicossociais são os fatores de risco psicossociais, que são multidimensionais e articulados ao contexto e ao conteúdo do estudo.

Nessa direção, pode surgir o estresse acadêmico, decorrente das frequentes demandas por desempenho5. Esse cenário é criticamente discutido por pesquisadores da Bélgica, Itália, Holanda e China25, ao evidenciarem que mais de um terço dos doutorandos apresenta risco de desenvolver transtornos psiquiátricos, como ansiedade e depressão, associados às pressões por produtividade e reconhecimento. As etapas acadêmicas, muitas vezes burocráticas, são fatores de risco psicossociais notáveis na pós-graduação. Pesquisadores mostram que as principais barreiras à investigação são falta de recursos, dificuldades em obter aprovação ética, falta de participantes e responsabilidades para toda a vida. As barreiras organizacionais podem estar associadas a reações como medo de falhar e sentimentos de angústia relativamente à publicação de uma investigação. Ademais, as tentativas de obter resultados para determinados estudos são lentas, devido a procedimentos burocráticos26.

Uma pesquisa nos Estados Unidos com 568 doutorandos em 53 escolas de enfermagem destacou desafios financeiros, estresse com os custos do curso e despesas de vida. Estudantes expressaram frustração para obter financiamento para pesquisas, levando alguns a trabalhar em tempo integral27. A insegurança financeira é um desafio na pós-graduação28,29. Portanto, esses percalços financeiros, aliados à falta de direitos trabalhistas, são fatores de risco psicossociais relevantes. Em relação à desvalorização financeira e social, há a falta de reconhecimento e valorização da pós-graduação stricto sensu por parte da sociedade e do mercado de trabalho em geral. Um estudo envolvendo 47 enfermeiros com doutorado no Reino Unido, os participantes expressaram se sentir subvalorizados na área clínica, enfrentando baixas remunerações e a ausência de perspectivas de melhoria30.

No que concerne ao relacionamento, estudo com médicos doutorandos e residentes concluiu que os participantes sentiam um forte sentimento de comparação, exclusão e dificuldade em competir com colegas, preocupando-se com sua capacidade de desenvolver habilidades na pesquisa31. Outrossim, o relacionamento com o orientador pode ser um fator de risco psicossocial, devido ao distanciamento, ao assédio moral e aos conflitos, resultando em estresse, solidão, incompetência e frustração29,32. Esses achados convergem com o que é evidenciado por pesquisadores do Canadá e da Inglaterra33, que apontam que a relação entre orientador-orientando, quando marcada por desequilíbrios de poder e comunicação ineficaz, pode se tornar um dos principais gatilhos para sofrimento psíquico e abandono dos programas de pós-graduação. Ademais, a autoridade, o comportamento e o estilo de comunicação dos orientadores podem intimidar estudantes34.

Os orientadores devem reconhecer a discrepância de poder, além de considerar fatores geracionais, de gênero e culturais ao fornecer feedback. É necessário que recebam treinamento e estejam abertos a comentários construtivos dos estudantes, que devem ser capacitados a expressar suas opiniões em um ambiente seguro34. No entanto, a hierarquia, a comunicação agressiva, o distanciamento e o assédio moral podem comprometer a efetividade da orientação.

Na meia-idade adulta, os desafios da pós-graduação incluem a consolidação da carreira, o desenvolvimento pessoal e o equilíbrio entre responsabilidades pessoais e familiares. Esses fatores envolvem conciliar o tempo pessoal, familiar e acadêmico, além da falta de orientação e apoio nos processos administrativos35. Apesar de a dedicação à vida acadêmica ser importante, é necessário priorizar a família, os amigos e a saúde física e mental, considerando-os como fatores psicossociais protetores.

Nesse sentido, as múltiplas demandas de desempenho e produtividade acadêmica frequentemente entram em conflito com as necessidades pessoais, gerando sobrecarga, sentimento de culpa e comprometimento da saúde mental, como observado neste estudo. Acresça-se a isso que o isolamento social e a dificuldade de conciliar responsabilidades familiares e acadêmicas configuram importantes fontes de sofrimento psíquico entre doutorandos, podendo culminar em sintomas de ansiedade e exaustão emocional29. No que tange à pandemia de Covid-19, houve uma transição de estratégias pedagógicas, migrando da modalidade presencial para a modalidade online (síncrona e assíncrona), o que pôde influenciar a saúde dos estudantes, incluindo a carga de trabalho mental36. Relativo aos recursos acadêmicos, o apoio financeiro e acadêmico são fatores que colaboram com o êxito do projeto de investigação37. Assim, as cargas de atividades são barreiras para as investigações científicas26. Sob essa ótica, durante a pós-graduação, podem ocorrer possíveis mudanças nos padrões de atividade, horários de sono e interações sociais38. Em específico, os estudantes de doutoramento demonstram um nível mais baixo de bem-estar mental geral, um nível mais elevado de perturbações comportamentais, sintomas somáticos, ansiedade, sintomas depressivos e problemas de sono39. Uma pesquisa desenvolvida por pesquisadores estadunidenses40 reforça que a prevalência de sintomas depressivos em pós-graduandos é significativamente superior à da população geral, sinalizando um problema estrutural nas condições acadêmicas que exige atenção institucional. Evidência da Suécia revelou que profissionais podem ter dificuldades em se adaptar ao ritmo acadêmico devido à sua experiência em tomar decisões rápidas. Estudantes vindos de estudos prévios são vistos como mais aptos a se envolver na pesquisa e mais confortáveis no ambiente acadêmico, resultando em maior confiança em suas habilidades5.

É relevante implementar melhorias no programa e no processo de pesquisa, com a oferta de cursos extras em análise estatística e redação27. Orientações sobre as regras do comitê de ética e o aumento de instituições que financiam pesquisas podem aumentar o entusiasmo dos pesquisadores em publicar, tornando a pós-graduação mais agradável41.

Na pós-graduação, os projetos de pesquisa exigem trabalho independente, autodisciplina e responsabilidade42. Assim, frequentemente esse caminho é percorrido de forma mais autônoma, com poucas colaborações ou parcerias. No entanto, a pesquisa também proporciona aos alunos experiência na aplicação do método científico, gerando publicações, aumento do perfil acadêmico e oportunidades de networking com professores, pesquisadores e profissionais42, o que tende a intensificar as relações sociais43, mitigando o percurso solitário.

Percebeu-se que construir uma taxonomia detalhada se tornou possível para apresentar esses fatores de risco psicossociais de forma sistemática. Isso facilita a compreensão das diferentes dimensões dos fatores de risco psicossociais enfrentados pelos pós-graduandos, permitindo o desenvolvimento de estratégias de intervenção mais direcionadas. Instituições acadêmicas e orientadores podem utilizar essa taxonomia para implementar programas de suporte que abordem as necessidades dos estudantes, com um ambiente mais saudável e sustentável para o desenvolvimento acadêmico, pessoal e profissional.

Entre as limitações, a pesquisa foi realizada em uma única IES pública brasileira de pós-graduação na área da saúde. Ademais, a coleta foi realizada com um grupo específico de pós-graduandos, conciliando trabalho e estudo, e a maioria era composta por enfermeiros. Porém, há percepções de alunos que se dedicaram exclusivamente a outros níveis de formação, como o mestrado ou um período do doutorado, o que contribui para a credibilidade dos achados e para a sua generalização aos pós-graduandos de dedicação exclusiva. Também houve participação de pós-graduandos que trabalham e recebem bolsa órgão de fomento, o que corroborou os achados a partir da vivência desse grupo. Por fim, os fatores de risco psicossociais na pós-graduação, mestrado e doutorado podem ser definidos como os fatores ou agentes de risco existentes a partir do contexto ou conteúdo do estudo, com capacidade de gerar riscos psicossociais aos estudantes de mestrado ou doutorado, isto é, consequências prejudiciais de ordem física, psíquica ou social a esses indivíduos. Entre essas consequências, estão os agravos ou doenças, tais como síndrome de burnout, estresse e ansiedade. Esses achados ecoam as análises críticas de estudiosos da Finlândia44, que ressaltam como a pressão por produtividade, a precariedade das bolsas e a instabilidade das carreiras acadêmicas constituem fatores para o sofrimento psíquico dos estudantes, demandando respostas institucionais.

É pertinente destacar que os fatores de risco psicossociais possuem suas especificidades quanto ao contexto e ao conteúdo do estudo/pesquisa. Ademais, esses fatores de risco estão em evolução, sendo que novos fatores podem surgir e se adaptar, requerendo ajustes taxonômicos conforme o cenário se desenvolve. Em relação às implicações para o avanço do conhecimento científico, espera-se que, com os resultados qualitativos e a organização taxonômica proposta, as IES e órgãos superiores relacionados à educação e à pós-graduação, tanto no Brasil quanto mundialmente, atentem-se para esses fatores de risco na pós-graduação. Dessa forma, é possível criar ou aperfeiçoar intervenções baseadas nessas evidências para promover a saúde e prevenir agravos, sobretudo de cunho psicossocial, e propiciar um processo formativo mais saudável e exitoso aos futuros docentes e pesquisadores.

Encontra-se a taxonomia deste estudo na Figura 1, sintetizando as dimensões dos fatores de risco psicossociais na pós-graduação stricto sensu identificados a partir da pesquisa realizada. Com vistas a ampliar sua visibilidade e o acesso aberto ao conhecimento científico, o material completo está disponível no repositório institucional da Universidade de São Paulo (USP), vinculado à tese de doutorado da primeira autora deste artigo45.

O conteúdo também está divulgado em formato de coletânea digital, no volume dois, pelo Centro de Apoio Editorial da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP46 e na página pública pessoal da primeira autora(f), no intuito de possibilitar o acesso livre e gratuito a pesquisadores, profissionais da área e pessoas interessadas no tema e na taxonomia construída.

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    Artigo extraído da tese de doutorado: Cassiano C. Riscos psicossociais relacionados às vivências profissionais e acadêmicas de pós-graduandos trabalhadores: construção e validação de uma coletânea de livros eletrônicos [tese]. Ribeirão Preto: Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo; 2025. doi: 10.11606/T.83.2025.tde-21052025-104135.
  • Financiamento
    Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Edital CNPq 07/2022, Processo nº 141196/2022-0, Bolsa de Doutorado.
    O presente trabalho foi realizado com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil. Código de Financiamento 001.
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  • (f)

Disponibilidade de dados

Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    28 Mar 2025
  • Aceito
    07 Jan 2026
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