Open-access Competências colaborativas de egressos do projeto de vivências e estágios na realidade do Sistema Único de Saúde

Collaborative skills of graduates from the project experiences and internships in the real-world setting of the Brazilian National Health System

Competencias colaborativas de egresados del proyecto de vivencias y pasantías en la realidad del Sistema Brasileño de Salud

Resumo

A Educação Interprofissional (EIP) é estratégica e iniciativas como o Projeto de Vivências e Estágios na Realidade (VER) do Sistema Único de Saúde (SUS) estimulam o desenvolvimento de competências colaborativas. O objetivo deste estudo é analisar as competências colaborativas desenvolvidas pelos egressos do Projeto VER-SUS a partir da EIP. Realizou-se um estudo cartográfico, com 46 egressos do VER-SUS, incluindo diferentes categorias profissionais. Destacam-se as seguintes competências colaborativas: sensibilização para o diálogo, a partir da comunicação interprofissional efetiva; atenção centrada no cuidado do usuário; funcionamento da equipe; clareza de papéis, incluindo entender sobre si, entender sobre o outro e construir uma segurança profissional que rompe a hierarquização; liderança compartilhada; e mediação de conflitos interprofissionais. As competências construídas no VER-SUS colaboram para os estudantes estarem mais preparados para os desafios do trabalho em equipe no cotidiano dos serviços de saúde.

Palavras-chave
Sistema Único de Saúde; Projeto VER-SUS; Educação interprofissional


Abstract

Interprofessional Education (IPE) is strategic, and initiatives such as the project Experiences and Internships in the Real-World Setting of the Brazilian National Health System (VER-SUS) foster the development of collaborative skills. The objective of this study was to analyze the collaborative skills developed by VER-SUS graduates through IPE. We conducted a cartographic study with 46 VER-SUS graduates from different areas. The following collaborative skills stood out: Sensitization to dialogue, based on effective interprofessional communication; Patient-centered care; Teamwork; Clarity of roles, including understanding oneself, others and building professional confidence that breaks down hierarchies; Shared leadership; and Interprofessional conflict mediation. The skills developed by the VER-SUS help students become better prepared for the challenges of teamwork during everyday practice in health care services.

Keywords
Brazilian National Health System; VER-SUS Project; Interprofessional education


Resumen

La Educación Interprofesional (EIP) es estratégica e iniciativas tales como el Proyectos de Vivencias y Pasantías en la Realidad del Sistema Brasileño de Salud (VER-SUS) incentivan el desarrollo de competencias colaborativas. El objetivo de este estudio es el análisis de las competencias colaborativas desarrolladas por los egresados del Proyecto VER-SUS, incluyendo diferentes categorías profesionales. Se subrayan las siguientes competencias colaborativas: Sensibilización para el diálogo a partir de la comunicación interprofesional efectiva; Atención centrada en el cuidado del usuario; Funcionamiento del equipo; Claridad de papeles, incluyendo entender sobre sí mismo, sobre el otro y construir una seguridad profesional que rompe la jerarquización; Liderazgo compartido; y Mediación de conflictos interprofesionales. Las competencias construidas en el VER-SUS colaboran en el sentido de que los alumnos estén más preparados para los desafíos del trabajo en equipo en el cotidiano de los servicios de salud.

Palabras clave
Sistema Brasileño de Salud; Proyecto VER-SUS; Educación interprofesional


Introdução

A efetivação do trabalho colaborativo estimula a integralidade da atenção à saúde, bem como a promoção do bem-estar dos trabalhadores que depende, em consequência, do fomento da Educação Interprofissional (EIP)1. A EIP colabora para a mudança do perfil dos profissionais para a atuação no Sistema Único de Saúde (SUS), uma vez que propicia o desenvolvimento de competências necessárias ao trabalho coletivo-colaborativo2.

A EIP se destaca por estimular a integração dos profissionais, desde a graduação até a colaboração no trabalho em saúde3. Nessa perspectiva, insere-se o projeto de Vivências e Estágios na Realidade (VER) do Sistema Único de Saúde (SUS) como uma das iniciativas de reorientação da formação, que fomenta a educação interprofissional a partir do protagonismo dos sujeitos envolvidos no processo de ensino-aprendizagem4. O projeto integra estudantes de diferentes graduações da área da Saúde e de áreas afins, do nível técnico e das residências multiprofissionais; profissionais de saúde; gestores; e movimentos sociais a fim de mobilizar indivíduos para a defesa do SUS e do reconhecimento de si e dos outros como sujeitos de transformação social5.

É desenvolvido a partir de comissões locais que participam de editais da Rede Unida em parceria com o Ministério da Saúde para pleitear recursos financeiros e apoio pedagógico da Coordenação Nacional do VER-SUS6. As vivências ocorrem de forma imersiva e podem variar de cinco a 15 dias5,7. Os participantes são divididos em grupos menores, formados por viventes e um(a) facilitador(a), sendo este último pessoas que já participaram de edição anterior do projeto, preferencialmente5,8. Os estudantes participam de atividades teóricas e de práticas-reflexivas-vivenciais no âmbito da assistência à saúde, da gestão, do controle social e da formação na saúde5.

A partir de tais experimentações coletivas, o VER-SUS, embasado na perspectiva da EIP, colabora para o desenvolvimento de conhecimentos, habilidades e atitudes, sobretudo do conhecimento sobre os pontos das Redes de Atenção à Saúde local, do protagonismo estudantil, da ampliação da criticidade, da valorização da SUS e do trabalho em equipe interprofissional9.

O desenvolvimento de competências colaborativas, como a comunicação interprofissional e o funcionamento da equipe, vem se intensificando a partir da EIP10. Os estudantes, quando aprendem juntos, são capazes de trabalhar em união e de forma resolutiva11. Contudo, apesar dos importantes avanços em relação às mudanças curriculares, ainda é identificada a necessidade de que iniciativas de EIP sejam fortalecidas, com a colaboração das instituições favorecendo um espaço legítimo de construção coletiva12.

Assim, o objetivo deste estudo é analisar as competências colaborativas desenvolvidas pelos egressos do Projeto VER-SUS a partir da EIP.

Metodologia

Trata-se de uma pesquisa-intervenção do tipo cartográfica13-15, com abordagem qualitativa. Participaram deste estudo profissionais das diversas categorias da área da Saúde e afins que fizeram parte do VER-SUS durante o período da graduação entre 2012 e 2019, seja participando na função de vivente, facilitador ou comissão organizadora. A princípio, foi necessário que a Rede Unida disponibilizasse os contatos dos egressos do VER-SUS. Posteriormente, a partir de tais contatos, os egressos indicaram outros participantes do projeto.

Os critérios de seleção para o estudo foram: profissionais que participaram do VER-SUS durante o período da graduação e que estivessem graduados há pelo menos seis meses. Já os critérios de exclusão adotados foram: não ter finalizado a graduação ou não ter disponibilidade para responder o questionário ou participar dos outros momentos de produção dos dados.

Participaram das entrevistas virtuais16 – que foram gravadas em áudio e vídeo; tiveram duração média de uma hora e meia; e foram posteriormente transcritas – 46 egressos do projeto VER-SUS de diferentes categorias profissionais. Optou-se pelas chamadas de vídeo como uma estratégia para promover uma maior interação com os participantes do estudo e facilitar a percepção das expressões de ambos os sujeitos. Foram escolhidos, de forma aleatória, dois profissionais de cada estado do país no qual houve edição imersiva do VER-SUS. Assim, os únicos estados que não participaram do estudo foram Amapá, Rondônia, Roraima e Espírito Santo.

Respeitaram-se as exigências éticas relacionadas às pesquisas envolvendo seres humanos seguindo a Resolução n. 466/1217 e utilizando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para convidar os participantes deste estudo, que foi aprovado pelos Comitês de Ética em Pesquisas com Seres Humanos da Universidade Estadual do Ceará e da Universidade Estadual Vale do Acaraú, com parecer n. 5.136.519. A garantia de anonimato ocorreu pela identificação dos participantes a partir de códigos indicados pela categoria profissional, seguida pelo estado em que participou da vivência e a ordem numérica em que foi entrevistado.

Resultados e discussão

A análise das competências colaborativas dos entrevistados (figura 1) partiu da experiência destes no projeto VER-SUS enquanto ainda eram estudantes. As competências foram descritas nas subcategorias a seguir, contudo, ressalta-se que elas estão centradas no cuidado do usuário, objetivo principal da Educação e do Trabalho Interprofissional, pois compreende-se que o cuidado só acontece quando se escuta, sendo esta uma postura política de invenção no mundo.

Figura 1
Competências colaborativas dos participantes do projeto VER-SUS. Fortaleza, Ceará, Brasil. 2025.

As competências interprofissionais, formadas como um conjunto integrado que engloba conhecimentos, habilidades, atitudes e valores que orientam a prática dos profissionais de maneira efetiva, são saberes e fazeres desenvolvidos para alcançar a colaboração interprofissional e permitir uma melhoria na qualidade do cuidado ao usuário. Em relação aos domínios de competência para a formação dos profissionais, são estabelecidas seis competências: comunicação interprofissional; atenção centrada no paciente\família e comunidade; entendimento de papéis; funcionamento da equipe; resolução de conflitos; e liderança colaborativa18.

Sensibilização para o diálogo: comunicação interprofissional

O exercício do diálogo foi reconhecido pela escuta e fala acolhedoras. O protagonismo em expor seus pensamentos e conhecimentos apreendidos tira os participantes da zona de conforto e do comodismo da mera reprodução de saberes, em que se acessa uma teia verticalizada de saberes, para os colocar à disposição para o encontro com o outro. Compreendem, assim, que a participação de todos faz a diferença para qualificar a tomada de decisão com a consequente resolução dos problemas de saúde, sejam eles individuais ou coletivos.

Essa capacidade de você dialogar com os outros, dialogar com pessoas diferentes, a questão dessa criticidade. De você refletir. Você entende as vulnerabilidades do outro. (Enfermagem, Pernambuco, 3)

Buscar formas de se comunicar melhor, pra ter certeza que pra todo mundo ali está se entendendo, reduz os atritos, otimiza o processo. (Medicina, Minas Gerais, 38)

É preciso reconhecer que a comunicação interprofissional é um desafio, devido às múltiplas singularidades dos sujeitos. Portanto, o vínculo; o respeito; o sentimento de coletividade; a compreensão de que cada voz é importante; a escuta acolhedora; e o entendimento do diálogo assertivo e não violento são premissas estratégicas para o convívio entre as diferentes categorias profissionais.

A gente acabou se juntando, se unindo, e a gente conseguia resolver os problemas. (Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 21)

Saber ouvir o outro e também, além de acolher o próprio profissional, acolher o paciente. (Farmácia, Rio de Janeiro, 2)

O conhecimento compartilhado, a consciência da situação/objetivo do cuidado, a resolução de problemas, o respeito mútuo e a comunicação assertiva são elementos para uma comunicação em equipe efetiva19. Além disso, a comunicação não violenta, a partir de uma escuta empática e do diálogo, promove harmonia nas relações interprofissionais, fornece a promoção da cultura de paz e reduz fatores estressores no ambiente laboral20.

Para Deleuze14, estar em união com o restante da equipe em prol de um mesmo objetivo, além da compreensão entre os indivíduos, promove intensidade da vivência e ressonância a partir do compartilhamento de uma concepção comum do objeto em análise. Neste sentido, os participantes do projeto encontravam o consenso e experienciavam a tolerância a partir da vivência em espaços que podem ser interpretados como democráticos de direito.

O VER-SUS me ensinou a me incomodar de uma forma que eu consiga também negociar. (Educação Física, Ceará, 23)

Um modo de aprender-ensinar que mobiliza corpos: físico e o sensível; material e imaterial para encontros com pessoas dispostas a lidar com a diferença dos indivíduos, marcando um acontecimento na formação. Nesse sentido, ocorre a criação de eventos, a partir da introdução de elementos novos e inesperados no processo da formação, de modo a estimular a aprendizagem criativa dos egressos, em movimentos de implicação e sobreimplicação15,21.

O aprendizado a partir da produção de acontecimentos busca criar conexões entre elementos que antes não estavam relacionados e introduzir outros que possam gerar uma ruptura nas configurações existentes. Isso implica uma atitude de abertura e experimentação, em que o egresso está disposto a se arriscar e a fazer novas tentativas, sem se prender a abordagens preestabelecidas ou receitas prontas, materializando o cuidado singularizado. A voz do cuidado coletivo ecoa entre os participantes do VER-SUS, de modo que eles rompem a interpretação das palavras e partem para a experimentação no cotidiano do mundo do trabalho. São, portanto, seres políticos14, pois suas existências são intervenções no mundo.

Atenção centrada no cuidado do usuário

A atenção centrada no cuidado do usuário deve ser o objetivo comum principal dos profissionais da Saúde e de áreas afins quando vinculadas a esta. Isso significa que os profissionais de saúde devem considerar os modos de viver e existir dos usuários, incorporando, assim, a importância da integralidade do cuidado.

Tem que saber trabalhar com a dona Maria, que não tem condições, se colocando no lugar das pessoas. (Psicologia, Alagoas, 20)

A centralidade é o usuário do SUS, que o nosso propósito no final das contas é o usuário do SUS. (Enfermagem, Ceará, 26)

Um aspecto importante desta competência é a atenção às singularidades dos usuários e a convocação à corresponsabilidade destes pelo seu próprio cuidado, assim como o de suas famílias, a partir do seu empoderamento, o que contribui para o protagonismo deste usuário no processo terapêutico. Os usuários são também tomadores de decisões nas escolhas/ações do seu próprio cuidado. Assim, o cuidado torna-se o matriciador do processo da aprendizagem.

A saúde funciona como uma rede, que o paciente é o foco do cuidado. Ele tem que estar ciente de tudo. (Enfermagem, Mato Grosso do Sul, 8)

Ver aquela pessoa como ser humano que tem família [...] que precisa estar envolvido no processo de recuperação dele. (Fisioterapia, Tocantins, 37)

O cuidado coletivo é uma das ferramentas possíveis para estimular a conscientização dos usuários acerca do autocuidado, sendo efetivado por meio da corresponsabilização dos indivíduos22. A criação e o fortalecimento de vínculos entre profissionais e usuários, por meio do acolhimento, foram apontados como estratégias capazes de fomentar a construção da corresponsabilização e autonomia dos usuários, permitindo o protagonismo da população no atendimento às necessidades em saúde23.

Destaca-se a educação em saúde como uma ferramenta estratégica para empoderar os usuários. Nessa perspectiva, a linguagem acessível e humanizada é fundamental para uma comunicação efetiva e afetiva.

Pode ser alguém que é instruído, é um pouco mais fácil trabalhar, porque ele já sabe muitas coisas, aquele que não é instruído, eu tenho que construir, eu tenho que ensinar, isso é uma educação também de saúde. (Psicologia, Alagoas, 20)

A gente começa a trabalhar a linguagem, a trabalhar de uma forma mais simples, de que aquela comunicação vai ser efetiva. (Farmácia, Sergipe, 33)

A educação em saúde colabora para a ampliação da concepção do conceito de saúde pelos usuários e para melhorar os padrões de vida saudáveis da população24 e/ou modos de bem viver. Destaca-se também que, apesar de ter sua função política de criação, a linguagem também pode ser utilizada como instrumento/tecnologia para enraizar relações de poder e violentar25.

Os egressos foram instigados a retirarem as armaduras de detentores do conhecimento e aprenderem também com os usuários, a partir de uma fala sensível. A comunicação efetiva a partir da corresponsabilidade fortalece os vínculos entre os usuários e os profissionais de saúde. Assim, saem do lugar de catedráticos, acadêmicos e produtores do conhecimento para um lugar de profissionais com capacidade de dialogar com os diferentes saberes, reconhecendo, inclusive, as dimensões diferentes de cultura que garantem expressividade da população local.

Funcionamento da equipe

O pleno funcionamento da equipe ocorre a partir da integração entre os saberes dos diferentes profissionais de saúde e dos usuários dos serviços, sendo a responsabilidade compartilhada um de seus pilares. Destaca-se ainda a importância de ter uma formação interdisciplinar para produzir um trabalho colaborativo interprofissional.

O VER-SUS propaga como você olha para o paciente, olha para o profissional, olha para sua equipe, não só de forma individualizada, mas sim de forma coletiva. (Farmácia, Rio de Janeiro, 2)

Ter a responsabilidade de saber o trabalho interdisciplinar é fundamental. De você saber que o teu trabalho afeta os outros. (Psicologia, Paraná, 9)

A competência “funcionamento da equipe” permite aos estudantes entenderem o processo e a dinâmica de desenvolvimento da equipe, com respeito, ética e participação ativa nas tomadas de decisões a partir da construção de princípios próprios de cada equipe, que devem ser constantemente revisitados18.

A ética e o compromisso com o trabalho coletivo para a defesa da vida são vivenciados a partir do VER-SUS. Os participantes do projeto fazem pactuações em equipe constantemente, desde aspectos relativos à logística das vivências até os relativos às próprias discussões. Eles estabelecem como princípios o diálogo horizontal e a escuta ativa e acolhedora por meio, por exemplo, das rodas de conversa.

Quando as pessoas sentem que seu trabalho é importante, elas ficam mais motivadas a serem colaborativas e disponíveis para trabalhar em equipe. Outro aspecto importante para a dinâmica da equipe é a amorosidade, uma vez que os espaços afetivos mobilizam diálogos horizontais.

O trabalho em equipe só acontece se tiver também o afeto envolvido [...] quando a pessoa permite que o espaço seja horizontal, e que o diálogo aconteça de forma horizontal, faz com que as relações de alguma forma fiquem horizontalizadas, que permite a amizade e o afeto. Eu não faço nada em equipe sem fazer com que as pessoas se empoderem daquilo, produzam sentido em tudo que está fazendo. O caminho começa aí, quando eu começo a fazer com que as pessoas produzam sentido, acreditem que elas são importantes naquele processo. (Enfermagem, Ceará, 26)

A ética é uma dimensão individual que se constrói no coletivo26. Assim, os egressos reconhecem que não pode ser um trabalho mecanizado, precisando incorporar o princípio do trabalho significativo, ressignificando-o e entendendo a importância de cada um dos saberes para cuidar de vidas e colaborar no atendimento às necessidades individuais e/ou coletivas. Desse modo, além de visibilizar a colaboração em ato, reafirmam a potência no alcance de resultados.

Os entrevistados também destacaram a importância de aprenderem a lidar com a diferença, tanto de categorias quanto de indivíduos. Cada pessoa tem uma história de vida, marcas pessoais e personalidades, o que torna o trabalho em equipe interprofissional ainda mais complexo. Reconhecem, ainda, que a imersão proporcionou esse aprendizado do funcionamento de equipe alicerçado na diferença. Uma vez que vivenciam essa experiência, conseguem trabalhar em outras equipes.

Nós temos que trabalhar com as imperfeições das pessoas. No trabalho, cada um ajuda um ao outro... e tem que só lidar com a complexidade do outro porque essas pessoas são extremamente complexas. (Odontologia, Rio Grande do Norte, 32)

Nas práticas educativas, assim como nas relações humanas, há questões imprevisíveis, o que convoca os sujeitos a adentrarem no campo das intensidades, no qual o aprender é um campo estético na medida em que o corpo do possível aprendiz se torna um plano de composição aberto para o fora. Neste âmbito, o aprender se torna uma experimentação; e só se aprende em ato, em criação, passando por um efeito de territorialização, desterritorialização e reterritorialização, em movimentos caóticos e inventivos27.

O VER-SUS convoca os estudantes a ingressar nos caminhos da inventividade, de modo que cada encontro promove uma diferenciação a partir da própria diferença dos indivíduos, contextos e tempos históricos. Neste ínterim, lidar com a diferença dos sujeitos e dos cenários de práticas permitiu que os egressos estivessem dispostos a experimentar de acordo com a dinâmica da vida dos territórios em que habitam, em um exercício de criação coletiva com os usuários e com os profissionais da equipe de saúde.

A compreensão do trabalho em rede também foi evidenciada na fala dos egressos do VER-SUS como um dos aspectos facilitadores para a efetivação do funcionamento da equipe. Assim, os egressos do VER-SUS estavam mais sensíveis à importância da utilização de toda a rede de atenção à saúde para ampliar a resolutividade do cuidado. Nesse sentido, conheceram as redes de atenção que existem, assim como aprenderam sobre o seu funcionamento e os seus fluxos.

[...] acho que impulsionou essa vontade de conhecer principalmente os fluxos. Quando eu falo fluxos, são essas relações entre profissionais e interinstitucional e intra, de como que são essas relações, de como funciona. Como funciona o SUS, como funciona as redes. (Terapia Ocupacional, Minas Gerais, 18)

Hoje a gente tem uma rede muito construída, não só com quem fez o VER-SUS, mas com quem, de alguma forma, acreditou naquilo, apoiou aquilo e a gente construiu uma rede, e essa rede já me ajudou bastante. (Enfermagem, Ceará, 26)

Busca-se, portanto, colaborar para a superação da fragmentação das práticas na rede de atenção à saúde, de forma que os usuários utilizem toda a rede disponível, e não apenas os atendimentos especializados, como os hospitais e Atenção Secundária, subutilizando a Atenção Primária à Saúde, que precisa ser fortalecida28. Para a efetivação do funcionamento da equipe interprofissional, é necessário que haja a compreensão da sua dinâmica organizacional e do trabalho em rede; e que seja exercida a amorosidade, considerando o exercício de um trabalho significativo pelos profissionais de saúde em busca do atendimento às necessidades dos usuários. Portanto, cada equipe poderá ter uma dinâmica diferente e precisa ser constantemente revisada pelos integrantes.

Clareza de papéis

Tão importante quanto entender a profissão do outro é estar ciente das atribuições de seu próprio núcleo profissional, pois isso contribui na reflexão sobre os saberes que o margeiam. O VER-SUS proporcionou uma reflexão crítica dos estudantes sobre o seu próprio fazer profissional ao colocar em análise sua capacidade para pensar o que está pautado para sua profissão como central, mas também o que começa a se coproduzir ou misturar com outras profissões.

Esse contato com pessoas tão diferentes de áreas me fez pensar que a Psicologia não é o centro de tudo. [...] O que eu faço pode ser importante e vai ser significativo, mas o que os outros profissionais fazem é tão importante. (Psicologia, Bahia, 30)

Um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento de uma prática interprofissional efetiva é a clareza das atribuições dentro dos saberes e o fazer de cada profissional, visto que se promove um alinhamento ao escopo dos profissionais, além de proporcionar benefícios tanto para a equipe quanto para o paciente29. A exemplo disso, evidencia-se uma diminuição dos conflitos, a melhora na qualidade dos serviços prestados e, sobretudo, a efetivação da assistência integral e centrada no usuário.

Nesse sentido, verificou-se que a disponibilidade para aprender e compartilhar com o outro extravasa dos corpos dos participantes desse projeto. A partir das vivências, eles se permitiram e se disponibilizaram a trocar experiências e conhecimentos sobre as atribuições das diferentes categorias profissionais, por meio dos saberes de seus respectivos cursos de graduação e de outras experiências individuais.

No VER-SUS você faz tudo em grupo. Então se aprende a respeitar o limite do outro [...] você não pode impor ao outro o ritmo que você tem. (Nutrição, Goiás, 11)

As potencialidades do VER-SUS, no meio daquela integração que a gente vivenciou, a gente já pode dizer que conhece um pouco de cada área. (Fisioterapia Ceará 17)

Eu acredito que o VER-SUS traz essa diversidade profissional pra discutir sobre um mesmo assunto. E faz a gente estar [...] para entender como os profissionais conseguem ser tão diferentes assim nas suas áreas, mas se encaixarem para que as coisas aconteçam de forma síncrona. (Terapia Ocupacional, São Paulo, 28)

No VER-SUS, eles tiveram conhecimentos importantes sobre os diversos núcleos profissionais, o que permitiu uma maior sensibilização para o trabalho em equipe. Aprenderam, ainda, a respeitar os limites do outro e de sua própria categoria. Entre os entraves identificados para a implementação da educação interprofissional está a falta de clareza na definição dos papéis entre os profissionais, resultando em uma barreira para reconhecer os limites e espaços, ocasionada a partir da falta de comunicação entre profissionais e gestores; da falta de tempo e espaço para o planejamento das equipes; e de uma certa resistência a mudanças na configuração do trabalho30.

A hierarquização das profissões também foi algo rompido durante as vivências. O estigma diante da profissão médica devido a sua historicidade mostra a importância de esta categoria se inserir em espaços de EIP. Dessa forma, teremos profissionais de todas as categorias colocando em prática o trabalho colaborativo.

Depois de fazer o VER-SUS que eu tive contato com farmacêutico, enfermeiro, médico. Vou confessar que eu também tinha um preconceito por aquela situação, o médico mandar e obedecer. Eu conheci médicos incríveis, médicos que têm uma humanização [...] naquela época não falava tanto, pelo menos eu não ouvia muito se falar em modelo biopsicossocial, comecei a ouvir falar a partir de então, foi lá que eu valorizei muito o trabalho de uma equipe multiprofissional. (Fisioterapia, Tocantins, 37)

O modelo biomédico demarca o estigma da limitação da autonomia dos demais profissionais, incentivando, inclusive, essa visão social, histórica e cultural entre os usuários que muitas vezes exigem atendimento médico, levando ao descrédito condutas e decisões de outras categorias, além de demarcar a nítida disputa de poder, que é reproduzida por condutas autoritárias de médicos que estão em serviço31.

A falta de conhecimento sobre os papéis e responsabilidades das diferentes categorias profissionais favorece o estabelecimento de estereótipos negativos. Por isso, aprender de forma colaborativa leva os estudantes a notarem que seus preconceitos podem ser incoerentes32. A resistência ao trabalho interprofissional e à interdisciplinaridade reforça a verticalização das relações entre os profissionais a partir de uma hierarquia predeterminada do saber médico, o que inviabiliza a integralidade do cuidado ao usuário31.

O VER-SUS proporciona um espaço que quebra esse paradigma, no qual ocorre o exercício da horizontalidade das relações. Alguns estudantes, por exemplo, não compreendiam o papel de profissões da área da saúde, como se pode verificar nas falas a seguir. Foram surpreendidos pelo fato de o médico veterinário e o assistente social estarem incluídos nos serviços de saúde. Evidencia-se que a falta de conhecimento sobre as outras profissões pode ser uma barreira para o trabalho em equipe.

Tinham pessoas que nem eram propriamente dito da Saúde. Que até então, na minha cabeça ingênua de universitário de começo de faculdade, não conseguia entender que o assistente social poderia estar dentro de uma vivência. (Medicina, Ceará, 16)

Uma das coisas mais chocantes foi saber que tinha veterinário que trabalhava tão próximo com outros profissionais na Atenção Primária. (Psicologia, Bahia, 30)

Categorias de outras áreas afins à Saúde também foram citadas como membros da equipe de saúde, mostrando que a interdisciplinaridade e a intersetorialidade estão presentes nos serviços de saúde e trazendo o conceito de transprofissionalidade para a roda de experimentações dos estudantes.

Tem uma pegada que o VER-SUS nos trouxe que foi a sensibilidade de aprender o fazer do outro. Eu me aproximo da minha colega, que é a advogada, e eu reconheço o fazer dela e entendo qual é a conexão do meu fazer com o fazer dela e consigo fazer uma construção de um espaço comum entre a gente. Eu aprendi a fazer isso com o engenheiro, que fazia parte das reformas do hospital. (Enfermagem, Ceará, 26)

A transprofissionalidade ocorre quando há a interação entre profissionais da saúde e de outras áreas33, adicionando o componente interdisciplinar ao interprofissional. Assim, o trabalho em equipe interprofissional deverá ser constituído da articulação de ações de cuidado realizada pelas diversas áreas de forma interdependente, considerando a complementaridade entre o agir técnico/instrumental e o comunicativo, integrando o trabalho em rede com os usuários34 e profissionais da área da saúde e/ou afins, em uma prática colaborativa. Dessa forma, a clareza de papéis é efetivada quando há o reconhecimento das atribuições dos diferentes membros das categorias de seu próprio núcleo profissional35.

Conhecer instaurou a necessidade de transitar pelo saber-fazer do outro para conseguir alcançar realizações em diferentes fases do processo de cuidar. Porém, também é necessário pensar que uma certa porosidade só pode ser estabelecida pelo afeto partilhado, que em determinado momento pode até ser ativador de conflitualidades. O diálogo entre as profissões coloca em análise o que está em cena, evidenciando diferenças nos modos de agir e pensar. Sem o apagamento destas, uma outra via pode ser constituída. No caso acima, o diálogo entre áreas tão diversas (Saúde e Engenharia) teve como intercessores trabalhadores que operacionalizavam de diferentes formas o cuidado ou tinham como objetivo o bem-estar das pessoas, ou seja, o interprofissional e a aprendizagem em ato.

Os participantes relataram também que se sentiram seguros para exercerem suas atribuições profissionais. O projeto antecipou vivências e os colocou em contato com a realidade, fazendo com que eles refletissem sobre futuras tomadas de decisão e experimentassem movimentos de desterritorialização e desestabilização que os prepararam para o campo de atuação profissional.

O VER-SUS me deu mais segurança do que eu estou fazendo, porque quando a gente chega lá tem que se virar, tem que conhecer, fazer acontecer. (Odontologia, Tocantins, 14)

O exercício do trabalho em equipe; a clareza de papéis proporcionada pela realização das atividades em conjunto e das discussões sobre as competências específicas e colaborativas dos diferentes núcleos profissionais; e o aprofundamento sobre suas próprias identidades profissionais permitem aos egressos maior segurança na execução de suas atribuições.

Me desconstruiu tanto que me permitiu [...] construir o profissional que eu queria me tornar. (Enfermagem, Ceará, 26)

Não existem profissões superiores. Todas elas são necessárias. É claro que em determinado contexto algumas profissões ganham destaque, mas sempre em uma perspectiva de trabalho em equipe. (Enfermagem, Piauí, 13)

A segurança profissional é construída a partir dos conhecimentos individuais do próprio profissional, passando para a tomada de decisão a partir do exercício da profissão e o que a regulamenta, de acordo com a estrutura e organização do SUS e considerando os pressupostos da Educação Permanente36. A partir da clareza de papéis, o VER-SUS antecipa situações que ocorreriam nos serviços de saúde e funciona como um laboratório do exercício do trabalho em equipe que colaborou para a segurança profissional dos egressos.

Uma das grandes contribuições do projeto foi esse movimento que não se esgota de transformação. Em multiplicidade, foram vivenciando, interseccionando um corpo, os corpos das variadas pessoas que se encontraram nas vivências e com egressos do VER-SUS.

Liderança compartilhada

Verifica-se a importância da liderança compartilhada e colaborativa entre os membros de uma equipe interprofissional. Houve experiências dentro e fora da vivência, na qual os líderes cederam espaço e acolheram as expertises de outros membros da equipe, permitindo que exercessem a liderança sobre determinadas situações; assumindo a cogestão como uma postura inventiva, solidária e acolhedora de suas equipes; favorecendo a construção de espaços democráticos; e reconhecendo a importância de cada um no processo de trabalho.

No VER-SUS eu aprendi sobre a roda, sobre a cogestão, sobre as relações horizontais. Por que a gente está em roda? Porque ninguém aqui é detentor do conhecimento, todo mundo tem espaço de fala, tem espaço de refletir. [...] Depois eu desenvolvi uma pegada mais técnica, de como abordar um grupo, de como gerenciar um grupo e depois aquilo se constrói e se solidifica como conhecimento, mas principalmente como… não só como conhecimento, mas como uma práxis. (Enfermagem, Ceará, 26)

A cogestão e a clínica ampliada foram evidenciadas na literatura como estratégias para o fortalecimento da institucionalização do trabalho interprofissional e interdisciplinar, objetivando o enfrentamento de desafios, como a superação do modelo biomédico31. A liderança compartilhada é fundamental no contexto das equipes interprofissionais, proporcionando resolutividade no cuidado em saúde11.

A liderança colaborativa proporcionada nas equipes interprofissionais formadas no VER-SUS tinha o objetivo de entender a realidade do SUS. Assim, os estudantes, de forma natural, foram dividindo as responsabilidades das vivências e o facilitador mediava e ao mesmo tempo cedia espaço. O trabalho colaborativo é constituído pela complementaridade de diferentes sujeitos de forma integrada, que compartilham objetivos em comum em busca de resolutividade a partir do equilíbrio das relações de poder37.

Mediação de conflitos interprofissionais

Os participantes da pesquisa aprenderam a resolver conflitos quando começaram a entender a importância de aprender com o outro. A horizontalidade que compreendem suas relações de trabalhar possibilita que eles rompam até com a ideia verticalizada do contexto das organizações.

Aprender também a trabalhar com o outro, a respeitar a opinião do outro, a ouvir o outro. Aprender a resolver os conflitos. (Enfermagem, Mato Grosso do Sul, 8)

O conflito é pedagógico38 e promove espaço propício para aprender a lidar com as diferentes visões de mundo sobre uma determinada situação. Os espaços de discussão no VER-SUS eram todos no formato da roda, incentivando a horizontalidade das relações, a cogestão de coletivos e a mediação de conflitos entre os próprios estudantes.

Essa crítica sobre as diversas opiniões permite a construção de uma tomada de decisão colaborativa, em que a pessoalidade é ultrapassada e a disputa pelo poder cede espaço para a construção de planos de cuidados centrados nos usuários a partir de um trabalho lapidado a várias mãos e por múltiplos saberes. A superação de conflitos nas equipes interprofissionais ocorre a partir do respeito e da compreensão, além da quebra da prepotência, da competitividade e/ou da hostilidade, que é instaurada principalmente na formação fragmentada.

Considerações finais

Os participantes do VER-SUS aprimoraram e/ou desenvolveram competências colaborativas a partir da educação interprofissional, a saber: comunicação interprofissional; atenção centrada no usuário; funcionamento da equipe; clareza de papéis da sua própria categoria e das demais profissões, contribuindo para a segurança profissional e o rompimento da hierarquização; liderança compartilhada; e mediação de conflitos interprofissionais.

Tais competências colaborativas ajudam a romper com a fragmentação do cuidado e a hierarquização, fortemente presentes no modelo medicalocêntrico, já que esta forma de atenção à saúde tende a sobrecarregar e induzir ao exercício profissional alicerçado em fragmentos de conhecimentos de um núcleo de determinada categoria profissional, sobrepondo uma à outra. Esta lógica tende a estimular a competitividade entre as profissões e a passividade dos usuários; e, consequentemente, compromete o cuidado ofertado.

Desse modo, as competências construídas nas vivências do Projeto VER-SUS colaboram para os estudantes estarem mais preparados para os desafios do trabalho em equipe no cotidiano dos serviços de saúde.

Agradecimentos

Agradecemos à Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FUNCAP) pelo financiamento da pesquisa.

  • Cavalcante ASP, Mota JO, Lima ICS, Silva MRF. Competências colaborativas de egressos do projeto de vivências e estágios na realidade do sistema único de saúde. Interface (Botucatu). 2026; 30: e250165 https://doi.org/10.1590/interface.250165

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    » https://doi.org/10.1590/1807-57622018.0477

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    04 Maio 2025
  • Aceito
    31 Mar 2026
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